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Full text of "Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais"

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lEVISTA  TRIMENSAt  ^:;: 

DO  ••;-• 

INSTITUTO   HISTÓRICO 

GEOGRAPHICO,  E  ETHNOGRAPHICO  DO  BRASIL 
1*  TRIMESTRE  DE  1865 


DIÁRIO 

DA   VIAGEM  FEITA  PELOS  SERTÕES  DE 

GUARAPUAVA  AO  RIO  PARANAN 

Por  Camillo  Lellis  da  Silva,  P.  d'Armada  imperial  e  nacional,  em  28  do 
Maio  de  ld49. 

(Manuscripto  ofTerecido  ao  Instituto  peio  auctor.) 

Nomeado  por  aviso  da  secretaria  de  estado  dos  negócios 
da  marinhado  9  de  Fevereiro  do  anno  passado,  para  coad- 
juvar os  trabalhos  do  major  do  imperial  corpo  de  engenhei- 
ros Henrique  de  Beaurepaire  Rohan,  chefe  da  expe'dição 
encarregada  da  abertura  da  estrada  entre  Guarapuava  e  o 
rio  Paranan,  parti  com  minha  farailia  para  S,  Paulo  no  va- 
por Carioca  a  23  de  Julho;  a  30  cheguei  à  capital,  onde 
me  apresentei  ao  Exm.  Sr.  presidente  da  provincia,  tendo- 
me  já  na  corte  apresentado  r.o  chefe  da  expedição.  A  18  de 
Agosto  apresentei-me  de  novo  ao  major  do  mesmo  corpo 
de  engenheiros  Luiz  José  Monteiro,  que  fora  nomeado  pelo 
governo  imperial  em  substituição  ao  major  de  Beaurepaire 
para  chefe  da  expedição  ;  a  27  de  Fevereiro  d'este  anno 
partimos  para  a  villa  de  Belém  de  Guarapuava,  onde  che- 


-  6  - 

•      •  • 

•  «  .  •  • 

gamos  a.9.(l^  Abril,  e  d'esta  Tilla  partimos  para  o  acampa* 
menU^^  Cbagú  em  8  de  Maio,  e  a  23  do  mesmo  fiz  minha 
entr^*Âo  sertão,  como  abaixo  se  segoe. 
•.piâ'23  de  Maio.— Pelas  2  h.  e  30'  da  tarde,  com  tempo 
.pubíado,  ameaçando  chova,  parti  do  acampamento  do 
.Chagú,  situado  em  25'  19'  28"  lai.  S.  (por  observações  an- 
teriores a  que  procedi),  com  dezeseis  sertanislas  [irovidos 
de  armas,  pólvora  e  chumbo,  cartuxame  embalado,  e  dos 
viveres  que  cada  um  pôde  conduzir,  em  demanda  do  rio 
Paranan,  na  direcção  0.,rumo  verdadeiro  (sendo  a  variação 
da  agulha,  que  calculei  no  Chagú,  9**  30*  NE.),  seguindo 
sempre  a  picada  do  major  Beaorepaire  até  o  pouso  d  onde 
elle  regressou ;  e  d'ahi  para  diante  segui  aquelle  rumo, 
segundo  as  inslrucções  que  recebi  no  ChagCi  do  chefe  da 
expedição.  Pelas  4  horas,  principiando  a  chover,  mandei 
fazer  pouso  pelo  lado  de  O.  da  serra  de  João  Paulo,  junto  a 
um  pequeno  córrego,  1,400  braças  distantes  do  acampa- 
mento. Esta  serra  foi  assim  denominada  pelo  major  de 
Beaurepaire  em  memoria  do  general  João  Paulo  dos  Santos 
Barreto,  o  qual,  sendo  ministro  da  guerra,  expediu  as 
ordens  pari  a  execução  d'esta  exploração.  O  terreno  até  a 
serra^  ê  plano,  e  está  bastante  forte  para  animaes  de 
carga.  Do  lado  de  O.  da  serra  se  estende  um  immenso  fa- 
xinai abundante  em  palmeiras  (cocos,  Sp.)  aqui  vulgar- 
mente chamado  jerivà,  que  bem  nos  serviu  para  a  cons- 
truc(  ao  de  barracas  para  abrigar- nos  da  chuva  que  pouco 
depois  se  fez  sentir  abundantemente.  Dividi  a  gente  em 
Ires  quartos,  mandei  accender  grandes  fogos  em  torno  das 
barracas,  ordenei  que  o  primeiro  quarto  entrasse  de  ronda, 
conservando  duas  sentinellas  em  vigilância  loJa  a  noite. 
Dia  24.— Partimos  do  pouso  de  João  l^aulo  pelas 9  h.  e 
30'  da  manhã,  ainda  com  o  tempo  chuvoso,  e  ás  3  da  tarde 
mandei  fazer  pouso  junto  ao  ribeirão  do  Passa-Quatro, 


distante  do  outro  1,802  braçâs,  denomiDândo  a  este— 
Pouso-Alegre— baptismo  adaptado  pela  risonha  perspe- 
ctiva que  apresenta  n'est6  lugar  o  solo  e  vegetação.  O  ter- 
reno até  aqui  é  onduloso,  composto  de  densos  taquaraes  e 
cresciumas  (Gramineas^Sp.)  que  torna  difiicil  o  trabalho  dos 
picadores.  O  tempo  tornou-se  melhor,  epromette boa  noite. 

Dia  25.— Amanheceu  bom  tempo;  deixei  de  seguir  para 
diante  por  mandar  caçar ;  enviei  seis  camaradas  com  os 
cães,  voltaram  à  noite  sem  matar  cousa  alguma ;  os  outros 
que  ficaram  no  pouso  tiraram  algumas  colméas  de  Gua- 
raipó  e  Mandassaia. 

Dia26.— Pelas  8  horas  da  manhã  seguimos  a  direcção 
da  picada,  atravessando  mais  três  vezes  o  ribeirão  do  Passa- 
Quatro,  o  qual,  a  572  braças  distante  do  Pouso-Alegre, 
forma  para  a  esquerda  da  picada  um  salto  de  doze  pés  de 
altura,  que  denominei— Salto  das  Pedras  Negras.— Passá- 
mos successivamenle  pelo  impraticável  morro  das  Pedras, 
e  o  rio  Uoché  correndo  veloz  para  o  S.,  com  oitenta  palmos 
de  largo  no  passo.  Pelas  2  horas  da  tarde  mandei  fazer 
pouso  junto  a  um  pequeno  córrego  denominado  do  Vorá 
a  1,386  braças  distante  do  ultimo.  O  terreno  continua 
montanhoso  e  olTerece  o  obstáculo  do  Morro  das  Pedras  e 
rio  Uoché,  que  torna  impossivel  a  estrada  por  esse  lugar, 
e  necessariamente  tem  de  partir  do  acampamento  do  Chaga 
mais  para  o  N.,  afim  de  evitar  estes  obstáculos. 

Dia 27.— Pelas  10  horas  da  manhã  partimos  do  pouso  do 
Yorà,  passámos  o  banhado  do  Tigre,  ribeirão  Triste,  e 
pelas  3  horas  da  tarde  mandei  fazer  pouso  junto  á  margem 
do  rio  GoyoMJUchon,  correndo  para  o  S.,  com  60  palmos  de 
largo  no  passo,  a  1,748  braças  distante  do  Vorá.  O  terreno 
continua  montanhoso,  muito  abundante  em  madeiras  de 
construcção  e  pinheiros  ( Araucária  brasiliana).  Em  cami- 
nho os  cães  agarraram  a  dentes  um  veado  pardo  (Cervus 


—  8  — 

DemorWagas).  Pelas  7  horas  da  noite  principioa  a  (íuílar 
para  o  SE.,vindo  depois  uma  forte  trovoada  de  NO.  e  cbava» 
que  bem  dos  iucommodou  toda  a  noite. 

Dia  28.— Continua  a  chuva  obrigando-nos  a  falhar.  Pelas  3 
horas  da  tarde , melhorando  o  tempOydei  licençaaquatro cama- 
radas para  irem  caçar.  Anoite  passou-se  muito  fria.  Os  cama* 
radas  nãovoltaramao  pouso,dando-me  isto  bastante  cuidado. 

Dia  29.— Tive  ainda  de  falhar  por  causa  dos  caçadores, 
que  só  chegaram  pelas  5  horas  da  tarde  com  uma  anta  (Ta- 
pirus  americanus)  mui  gorda,  que  mataram,  a  qual  nos 
forneceu  um  sadio  sustento,  e  de  delicado  sabor.  Esta 
manhã  aproveitei  em  visitar  uma  pequena  ilha  que  forma 
o  Goyo-cuchon  de  N.  a  S.,  com  48  braças  de  comprido 
sobre  5  de  largo.  A  rica  vegetação  que  a  circula  muito  a  - 
formosêa,  c  n*ella  se  encontra  grande  cópia  de  quartzos 
crystallisados  e  bellissimas  agathas.  A  noite  passou*se  sem 
novidade,  a  atmosphera  mui  fria. 

Dia  30.— Falhei  ainda  hoje  por  causa  dos  cães  atropel- 
larem  uma  anta,  mesmo  no  pouso,  e  a  levarem  para  longe» 
só  voltando  à  noite. 

Dia  31.— Partimos  pelas  9  horas  da  manhã,  e  ao  pas- 
sar a  grande  subida  formada  pelo  Goyo-cuchon  fui  acom- 
mettido  de  um  ataque  de  estômago,  acompanhado  de  forte 
cephalalgia,  que  me  impossibilitou  de  ir  mais  longe;  feliz- 
mente, depois  de  longo  repouso,  pude  chegar  até  o  rio 
Cambucica,  em  cuja  margem,  pelas  2  horas  da  tarde,  man- 
dei construir  barracas,  e  passei  uma  péssima  noite.  Do 
Goyo-cuchon  a  este  pouso  tem  936  braças;  o  terreno  con- 
tinua sempre  onduloso ;  as  subidas  mui  fortes  e  o  mato 
bom.  Passámos  o  ribeirão  da  Capivara  correndo  para  o 
S.,  e  o  Cambucica  para  ESE.,  com  50  palmos  de  largo 
no  passo;  não  obstante  estar  mui  baixo,  pareceu-me  bem 
caudaloso  e  negar  o  passo  na  estação  pluvial. 


—  9  — 

Dia  l*"  de  Junho.— Pela  manhã  partimos  doCambucica, 
e  pelas  3  h.  e  15'  da  tarde  mandei  fazer  pouso  na  Agua 
Funda,  1,020  braças  distante  do  outro  que  deixámos.  O 
terreno  continua  sempre  onduloso,  e  estas  ondulações 
excessivamente  fortes;  grandes  pinheiraes  se  estendem 
para  o  N.  Passámos  um  banhado  distante  doCambucicá 
300  braças,  junto  a  um  pequeno  córrego  correndo  para  o 
S.,  cujas  aguas,  pelo  gráo  de  calor  que  conservavam,  as 
supponho  thermaes,  supposição  esta  corroborada  pela  opi- 
nião do  major  de  Beaurepaire,  que  denominou  esse  lugar— 
Banhado  Quente. 

Dia  2.— Foi  necessário  falhar  aqui  por  causa  de  dois  ca- 
maradas, acommettidos  d  :^sde  hontem  á  tarde,  um  de  oph- 
talmia,  outro  de  forte  cephalalgia,  com  calafrios  etc:  appli- 
quei-lhes  algumas  doses  debomoeopathia;  felizmente  obtive 
bom  resultado.  Esta  manhã,  enviando  alguns  camaradas  á 
caça,  voltaram  à  tarde  com  uma  anta  e  quatro  jacutingas 
(Penélope  leucolophus,  Menr.)  que  mataram. 

Dia  3.— Os  dois  camaradas  que  estavam  doentes  achan- 
do-se  com  melhoras,  partimos  esta  manhã  pelas  8  h- 
e30',eao  anoitecer  mandei  fazer  pouso  junto  a  um  pe- 
queno córrego,  2,012  braças  distante  da  Agua  Funda,  que 
denominei— Pouso  do  Luar.— O  terreno  continua  onduloso 
e  suas  ondulações  fortissimas;  passámos  o  Espigão  Secco» 
cerrado  de  taquaral  e  cresciuma.  No  alto  do  Espigão  depa- 
rámos com  um  bando  de  macacos,  que  pareceu-me  ser  o 
Cebus  cristatus  de  F.  Cuvier;  conseguimos  matar  três 
d'elles. 

Dia  4.— Partimos  pelas  7  horas  da  manhã  do  pouso  do 
Luar,  depois  de  duas  horas  e  meia  de  marcha  viemos  poo- 
sar  na  Anta  Magra,  724  braças  distante  do  outro.  Enviei 
cinco  camaradas  com  os  cães  a  caçarem  pelas  3  horas  da 
tarde,  regressaram  com  uma  anta.  Como  já  havia  manifes- 

TOMO  XXVIII,  p.  I.  2 


—    10   — 

tado  o  desejo  que  tinha  de  ver  anta  viva,  os  caçadores  me 
proporcionaram  hoje  este  prazer :  perto  do  pouso  os  cães  a 
encontraram,  e  foram  acuar  a  poucas  braças  distantes  n'um 
poço  que  forma  o  ribeirão,  e,  emquanto  um  d'elles  me  veiu 
avisar,  os  outros  íicaram-a  entretendo  dentro  d*agua  até 
minha  chegada;  via-a  bem  a  gosto  e  dei-lhe  o  meu  tiro. 
Este  quadrúpede,  pertencente  à  ordem  dos  pachidermes, 
ô  dotado  de  prodigiosa  força  e  muito  abunda  n'estes  de- 
sertos. 

Dia  5.— Pela  manhã,  8  h.  e  33',  partimos  da  Anta 
Magra  e  viemos  pousar  no  Taquaral,  1,148  braças  distante 
do  outro,  pelas  5  horas  da  tarde.  O  terreno  sempre  da  mes- 
ma forma,  com  fortes  ondulações  e  cerrado  de  t^uaral. 

Dia  6.— Partimos  do  Taquaral  pelas  8  horas  da  manhã, 
e  às  2  da  tarde  viemos  pousar  no  Regresso  (lugar  d'onde 
Yoltou  o  major  de  Beaurepaire  com  a  primeira  expedição), 
distante  do  ultimo  pouso  736  braças.  Passámos  a  serra  do 
Silva  Machado  (nome  imposto  pelo  major  de  Beaurepaire 
em  memoria  do  barão  de  A.ntonin:i),  que  6 bastante  forloe 
se  prolonga  de  NO  para  S.  E.  No  alto  da  serra  mandei 
descortinar  o  mato,  e  pude  ver  bem  a  bella  paisagem  que 
se  ofTerece  em  todo  o  quadrante  do  N.,  e  perfeitamente  di- 
visei os  grandes  quebradôes  e  nevoeiros  que  forma  o  rio 
Iguassú,  que  estimei  em  dezoito  milhas  distante  de  nossa 
picada.  Encontra-se  grande  abundância  de  pássaros  em 
toda  a  extensão  da  serra,  como  macucos,  jacus  e  outras 
espécies  de  gallinaceòs. 

Dia  7.—  Pelas  7  h.  e  45*  da  manhã  deixámos  o  pouso 
do  Regresso,  e  viemos  pousar  pelas  4  horas  da  tarde  a 
1,340  braças  distante  doeste,  junto  a  um  pequeno  córrego 
que  denominei  —Quina—  por  causa  d*uma  grande  arvore 
d'6sta  espécie  que  ahi  achámos.  Passámos  pelos  morros 
do  Regresso,  Lageado  Comprido,  e  Quina,  cada  qual  mais 


-  II  — 


forte  dtí  Síiibidas.  O  mato,  composto  era  grande  parte  de 
cresciumaU  e,  além  d^isso,  mui  cerrado  de  silvados  d' amo- 
reira (llubas  Vel.).  Hoje  fiodou-se-nos  a  farinha  e  sal  que 
traziames  do  fJiagú  ;  cousa  esla  bem  pouco  agradayeU  por 
termos  de  findar  nossas  explorações  (quem  sabe  até 
quando  âe  prolongarão  ?)  sem  esses  artigos  de  eitreraa 
necessidade,  onde  não  pudemos  esperar  nada  que  os  subs- 
titua. 

Dia  8.—  Esta  manhã  pelas  8  h.  eiO'  deixámos  o  pouso 
da  Quina, c  k  tarde  pousámos  junto  ao  rio  das  3Iarrecas,  732 
braças  dislaale  deste  ultimo.  O  terreno  que  continua  ainda 
ondnloso,cerrado  de  cresciuma  e  silvados,  torna  morosíssi- 
mo o  trabalho  da  picad:i ;  atravessámos  o  rio  das  Marrecast 
com  iO  palmos  de  largo,  correndo  para  SO.  Os  caçadores» 
mui  próximo  ao  passo  do  rio,  encontraram  rasto  fresco  de 
um  tí^íre  (nome  que  vulgarmente  se  dá  por  aqui  a  todas  as 
grandes  espécies  do  género  Félix) ,  segui ram-o  com  os  cães; 
infelizmente  no  meio  da  acuaçãa  o  Tigre  conseguiu  malar* 
nos  um  dos  melhores  cães  e  fugir.  Tivemos  de  passar  boje 
simplesmente  a  palmito  assado. 

Dia  í).  — Cjmo  os  camaradas  infermaram-meque  linbam 
encontrado  no  rio  bons  poços  para  acuador  das  Antas,  e 
rasto  fresco  delias»  e  que  por  causa  do  tigre  e  qne  Qão  pu- 
deram caçar  estas,  deteríuinei  falhar  e  envial-os  á  caça, 
mandando  lambem  alguns  em  catad*abelheiras  e  palmitos  : 
com  elíeito  pouco  depois  das  5  horas  da  tarde  regressaram 
os  primeiros  Cíjm  duas  antas  mui  gordas  que  mataram,  e 
os  líutros  a^m  mtd  de  diversas  coimèas  que  acharam,  e  pai- 
milostmanjares  estes  que  devorámos  com  deUciâ, 

Dia  ilK—  Esta  manhã  cc  m  tempo  ameaçando  dhuva  par- 
timos pelas  8  h.  e  W\  e  à  tarde  viemos  pousar  a  1J84  bra- 
ças distante  d'este  uUimo,n*um  lugar  que  denominei — Volta 
Gramlií— t*mi':oníM'quem'ia  do  rio  daí^  Marr*icas  qiie,eorlanilo 


—   12  — 

a  nossa  picada  doas  vezes,  descreve  uma  grande  curva  en- 
tre o  primeiro  e  segundo  passo,  onde  nos  achámos,  cor- 
rendo esle  para  N  N  O.  O  terreno  continua  sempre  ondu- 
loso,  mato  limpo  e  abundante  em  madeiras  de  differentes 
espécies.  Em  caminho  os  cães  agarraram  um  veado  da  fa- 
mília dos  cervus  nemorivagus. 

Dia  11.  —Esta  manhã  partimos  pelas 8  horas,  e  às  4 
da  tarde  mandei  fazer  pouso  junto  ao  rio  dos  Tigres,  1,720 
braças  distante  da  Volta  Grande.  Passámos  ainda  uma  ter- 
ceira vez  o  rio  das  Marrecas  com  55  palmos  de  largo,  cor- 
rendo para  o  S  O.,  passámos  mais  o  morro  dos  Tigres,  e  rio 
do  mesmo  nome  com  88  palmos  de  largo  no  passo  que,  cor- 
rendo para  E  com  rapidez,  forma  bacias  consideráveis. 

Dia  12.  —  Em  consequência  do  mato  ser  mui  cerrado 
d'espinhos  e  cresciumas  não  pudemos  ganhar  mais  que  a 
outra  volta  do  rio  dos  Tigres,  560  braças  distante  do  pri- 
meiro passo,  que  denominei— Má  Ventura —  pela  fome  que 
soffrômos  nos  dois  dias  que  tivemos  de  ahi  demorar-nos  I 
N'este  segundo  passo  o  rio  conserva  a  mesma  largura  do  pri- 
meiro e  corre  paraN  N  O.  O  terreno  continuada  mesma  for- 
ma onduloso,  e  a  mesma  vegetação.  Apenas  tivemos  três 
jacutingas,  e  alguns  pahnitos,que  tudo,  depois  de  assado,  fiz 
repartir  igualmente  por  todos,  rações  estas,  que  por  insuf- 
ficientes  para  estômagos  famintos,  não  deu-nos  noite  muito 
agradável. 

Dia  13.  —  Ainda  quiz  me  demorar  hoje  aqui  para  man- 
dar caçar,  pelo  estado  de  fome  em  que  nos  achámos.  Dis- 
persei os  camaradas,  ficando  apenas  no  pouso  com  três  para 
guarda  do  mesmo ;  ao  anoitecer  voltaram  todos,  e  infeliz- 
mente nada  conseguiram  trazer,  dando-nos  a  fome  péssima 
noite  de  soffrimentos. 

Dia  14.—  Partimos  logo  cedo  do  tal  pouso  desventurado, 
e  pelas  2  horas  da  tarde  mandei  pousar  junto  á  terceira 


-  13  - 

volta  do  rio  dos  Tigres  a  980  braças,  distante  da  segunda, 
lugar  este  que  denominei— Pouso  dos  Cedros — pelas  arvo- 
res d' esta  espécie  (Cedrela,Sp.)que  encontrei  na  margem  do 
rio.  Em  caminho  matou- se  dois  veados  pardos,  que,  com 
uma  profusão  de  palmitos  que  encontrámos  na  margem 
do  rio,  indemnisou-nos  do  aturado  jejum  a  que  estávamos 
reduzidos. 

Dia  15  —  Partimos  do  pouso  dos  Cedros  pelas  8h.  e 
10'  da  manhã,  e  às  3  da  tarde  viemos  pousar  junto  ao  ri- 
beirão que  denominei  — Pàos  amargos—,  em  consequência 
das  muitas  arvores  pertencentes  á  espécie  Guaiacum 
vulgarmente  (pào  santo)  que  encontrei  n'este  lugar,  a  968 
braças  -distante  do  ultimo  que  deixámos.  A  50  bra- 
ças distante  do  pouso  dos  Cedros  atravessámos  o  ribeirão 
dos  Pâos  Amargos  na  sua  confluência  com  o  rio  dos  Tigres, 
formando  uma  barra  de  6')  palmos  de  largo,  e  correndo 
para  o  S.  Os  caçadores  que,  mal  fizemos  pouso,  seguiram 
com  os'cães  para  caçar,  não  voltaram,  dando-me  bem  cui- 
dado ;  por  fortuna  tivemos  dois  jacus  e  alguns  palmitos, 
o  que^foi  a  cêa  de  todos- 

Dia  16.— Por  causa  dos  caçadores,  que  desde  hontem 
não  voltaram,  não  pudemos  seguir  esta  manhã  para  diante. 
Só  às  5  horas  da  tarde  chegaram  os  caçadores ;  nada  mata- 
ram ;  apenas  trouxeram  um  pouco  de  mel  e  palmito,  que 
foi  o  alimento  que  tomámos  em  todo  o  dia.  A's  11  horas  da 
noite  principiou  a  fuzilar  no  quadrante  de  SC,  sobrevindo 
pouco  depois  uma  forte  trovoada  e  chuva,  que  nos  incom- 
modou  até  agora. 

Dia  17.— Por  causa  do  máo  tempo,  que  desdç  hontem  á 
noite  não  tem  ci'Ssado,  deixámos  de  seguir  para  diante. 

Dia  1:^.-0  tempo,  que  hontem  todo  o  dia  se  conservou 
chuvoso,  amanheceu  hoje  bom ;  e  pelo  estado  de  fome  em 
que  {nos  achámos  ainda  {mandei  tentar  uma  caçada ;  infe- 


-   14  — 

lizmeDte,  depois  das  5  horas  da  tarde  chegaram  os  caçado- 
res sem  terem  morto  cousa  alguma . 

Dia  19.— Amanheceu  outra  vez  máo  tempo, chuva;  as- 
sim mesmo  seguimos  para  diante,  e  pelas  3  horas  da  tarde 
fizemos  pouso  junto  à  Ribeirinha,  1,400  braças  distante  dos 
Páos  Amargos ;  passámos  o  morro,  que  denominei  dos  Páos 
Amargos,  que  é  bastante  extenso  e  forte,  de  subida  pelo 
lado  de  E.,  e  quasi  impraticável  pelo  de  O.  A  Ribeirinha 
corre  na  direcção  de  S.,  e  no  passo  tem  45  palmos  de  largo. 
O  terreno  continua  da  mesma  forma  ondaloso,  e  na  direc- 
ção da  picada  divisa-se  bastante  madeira  de  construcçao  de 
differentes  espécies. 

Dia  20.— Continua  o  mào  tempo ;  não  foi  possível  seguir- 
mos hoje  para  diante,  dispersei  a  gente  toda  para  caçar  e 
melar,  voltando  os  caçadores  pelas  4  horas  da  tarde  com 
uma  anta  mui  gorda  que  mataram,  e  algum  mel  de  diffe- 
rentes colméas,  dando-nos  estas  provisões  ben  contenta- 
mento. Pelas  11  horas  da  noite  sobreveiu  grande  trovoada 
no  quadrante  de  SO.,  e  chuva  que  aturou  até  pela  manhã. 

Dia  il .— O  máo  tempo  nos  não  deixou  hoje  ainda  seguir 
para  diante. 

Dia  22.— Partimos  da  Ribeirinha  pelas  8  horas  da  ma- 
nhã, com  tempo  ainda  ameaçando  chuva,  e  às  2  da  tarde 
mandei  fazer  pouso  junto  a  um  pequeno  córrego,  960  bra- 
ças distante  do  ultimo  que  deixámos,  o  qual  denominei 
córrego  e  pouso  do  Putingal,  em  consequência  da  vegeta- 
ção, que  não  consta  de  outra  cousa  n*este  lagar  que  a  tal 
putinga  (Graminea,Sp.).  O  terreno  continua  da  mesma  for- 
ma que  tenho  notado,  e  aqui  especialmente  forma  diversos 
quebradões,  quasi  impraticáveis,  que  necessariamente  tem 
de  se  desviar  da  direcção  da  estrada  que  se  projecta.  A 
chuva  e  trovoada  não  tém  cessado. 

Dia  23.—  Ainda  com  tempo  chuvoso  partimos  pelas 


—   15  — 

8  horas  da  manhã,  e  á  tard6  mandei  f^izer  pouso  junto  a 
um  paqueno  córrego,  que  denominei  S.  João,  1,448  braças 
distante  do  Pulingal.  Passámos  ainda  vários  quebradões  e 
pela  extremidade  de  uma  importante  serra,  que  denominei 
Serra  do  Ponte  Ribeiro,  em  memoria  do  reconhecido  inte- 
.  resse  que  tem  tomado  por  esta  expedição  o  conselheiro 
Duarte  da  Ponte  Ribeiro.  De  NO.  a  SE. ,  que  consideravel- 
mente se  estende  esta  serra  com  importantes  ramificações 
(como  os  grandes  morros  dos  Pàos  Amargos  e  Congonhas),  é 
cortado  a  E.  pelo  rio  dos  Tigres,  e  a  O.  pelo  das  Congo- 
nhas, e  por  este  lalo  que  passámos  notei  grande  quanti- 
dade de  madeiras,  como  extraordinárias  perovas  (Âspidos^ 
permus,Sp.),  cedros  (Cedrela,  Sp.),  ele,  e  varias  arvores  de 
paina  (Bombas  venlricosa). 

Dia  24.  -Pela  manhã  partimos  ás  8  horas,  e  ás  2  da  tarde 
mandei  fazer  pouso  junto  ao  ribeirão  da  Geada  (assim  deno- 
minado peio  commandante  da  bandeira,  que  por  ordem  do 
major  de  Beaurepaire  fez  esta  exploração,  em  consequên- 
cia de  uma  farte  geada;que  sofíreram  n'este  lugar),  distante 
do  ultimo  pouso  que  deixámos  978  braças.  Continua  nossa 
picada  pelas  ramificações  da  serra  do  Ponte  Ribeiro  ;  ainda 
notei  aqui  alguns  raros  pinheiros  (Araucária  brasiliana)  e 
em  alguns  lugares  o  maio  é  cerrado  de  cresciuma  e  silva- 
dos de  amoras. 

Dia  23.— Tive  de  falhar  hoje  para  mandar  caçar.  En- 
viando esta  manhã  seis  camaradas  com  os  cães  para  esse 
fim,  não  voltaram  ao  pouso,  e  pelas  7  horas  da  noite  man- 
dei dar  três  tiros,afim  de  ver  se  respondiam,  para  conhecer 
a  distancia  em  que  se  achavam  de  nós ;  foi  inlructifero,  não 
responderam  I  Deixou-me  islo  bem  cuidadoso. 

Dia  26.— Muito  cedo  enviei  três  camaradas  em  procura 
dos  seis  que  se  achavam  á  caça  por  me  ter  afQicto  muito  com 
a  ausência  d'elles.  São  10  horas  da  manhS,acabam  de  chegar 


—   18  — 

nomicas,  como  convinha,  por  causa  da  densa  floresta  que  à 
cobre,  a  qual  era  necessário  descortinar,,  e  o  estado  physi- 
CO  dos  camaradas  não  dar  para  empenhar-me  n*este  traba- 
lho, que  só  na  factura  do  picadâo  poderá  ter  lugar. 

Dia  4.— Partimos  pelas  8  horas  da  manhã  do  pouso  dos 
Palmitos  MoUes,  e  às  G  da  tarde  mandei  fazer  pouso  junto 
ao  córrego  dos  Patinhos,  a  4,072  braças  distante  do  de 
onde  partimos.  O  terreno  percorrido  não  é  praticável  para 
estrada,  principalmente  em  toda  a  extensão  da  serra  de 
Mont' Alegre,  que  é  cheia  de  grutas  e  precipicios :  necessa- 
riamente se  deve  desviar  ella  para  o  N.  em  diiTerentes 
pontos. 

Dia  5.  —Quando  pela  manhã  nos  dispuzemos  a  partir, 
principiou  a  chuva  mui  forte,  obrigando-nos  a  falhar  e 
mandar  construir  barracas.  Um  dos  camaradas  junto  ao 
córrego  matou  um  bonito  macuco  (Tinamus  brasiliensis» 
Lath). 

Dia  G.— Pelas  5  horas  da  tarde  viemos  pousar  junto  ao 
rio  das  Palmeiras,  2,616  braças  distante  dos  Patinhos.  O 
terreno  n'esta  extensão  percorrida  não  offerece  obstáculo 
algum  para  a  construcção  de  uma  boa  estrada.  Passámos  o 
rio  Goyo-Capró  (assim  denominado  no  dialecto  caegang, 
pela  cor  negra  de  suas  aguas),  correndo  para  E.,  com  180 
palmos  de  largo,  cortando  pelo  lado  de  O.  a  serra  do  Mon- 
fÀlegre,  dando-lhe  de  extensão  (E.  a  O.)  doeste  ao  rio  Bo- 
nito á  3/4  léguas  e  oS  braças  ;  igualmente  passámos  o  rio 
das  Palmeiras,  cuja  corrente  para  SE.  é  veloz,  com  160 
palmos  de  largo  no  passo,  formando  a  20  léguas  para  baixo 
d'este  um  salto  de  considerável  altura. 

Dia  7.— Falhei  para  mandar  caçar  hoje  aqui  pelos  ves- 
tígios frescos  de  anta  que  se  encontraram,  enviando  seis 
camaradas  esta  manhã  com  os  cães,  os  quaes  até  agora  (7 
da  noite)  não  voltaram. 


—  ly  — 

Dia -8.— Esta  manhã  (9  horas)  chegaram  os  caçadores 
'  que  pernoitaram  fora  do  pouso,  trouxeram  1  anta  e  3 
porcos  do  mato  (Dicotyles  Torquatus  F.  Cuv.),  2  socos 
rajados  (ardea  tigrína)  e  1  jacutinga.  O  pratico,  que  tam- 
bém tinha  ido  caçar  com  os  demais  camaradas  informou- 
nos  que  este  rio  depois  d*algumas  voltas,  e  formar  duas 
cachoeiras  d^allura  regular  vai  fazer  barra  ao  S.  E.  com  o 
Goyô  Caprõ,  e  n'eUe  se  encontra  abundância  de  lontras 
(Lutra  brasiliensis). 

Dia  9.—  Á*s  5  horas  da  tarde  mandei  fazer  pouso  junto  a 
um  pequeno  córrego,  que  denominei  das —Abelheiras  — 
pela  enorme  quantidade  de  coiméas  que  encontrámos  em 
roda  do  pouso.  Fica  este  distante  do  rio  das  Palmeiras 
2,9*24  braças ;  passámos  ainda  a  segunda  e  terceira  volta, 
d'este  rio,  correndo  aquella  para  E.  N.  E.  com  120  palmos 
de  largo  no  passo,  e  esta  com  180.  No  pouco  espaço  que 
nos  demorámos  n'este  pouso  tiraram-se  11  colmêas  de 
mandagoahy,  deixando  ainda  porção  de  mel  nos  favos  por 
não  termos  em  que  conduzir. 

Dia  10.—  Pelas  3  h.  e35'  da  tarde  pousámos  junto  aos 
—  Dois  Ribeirões  — 2,644  braças  distante  das  Abelheiras. 
O  terreno  percorrido  do  ultimo  pouso  até  aqui  continua 
bom,  o  mato  fornido  em  variada  cópia  de  madeiras  de 
construcçao ;  passámos  o  ribeirão  do  Guaraipo,  correndo 
para  S.  E«,  e  a  50  passos  d*este  se  acha  outro  ribeirão,  que  o 
denominei  das—  Pedrinhas— correndo  para  E.  vindo  desa- 
guar no  Guaraipo.  Matou^e  1  veado  pardo,  2  jacutingas, 
e  tiraram-se  varias  colmêas. 

Dia  1!.  — Pelas  3  horas  da  tarde  mandei  fazer  pouso 
junto  aos  Três  Córregos  2,828  braças  distante  dos  Dois  Ri- 
beirões. O  terreno  continua  bom,  Qçmposto  de  grandes 
palmitaes  molles,  e  madeiras  de  construcçao. 

Dia  12.  —  Pelo  meio-dia  mandei  fazer  pouso  junto  ao  ri- 


-  20  -- 

beirão  dos  Pãos  Papados,  608  braças  distante  dos  Três  Cór- 
regos, para  caçar,  pelos  vestígios  frescos  d'aata  que  encon- 
trámos. A  infinidade  de  pecegueiros  bravos  que  encontrá- 
mos nas  margens  d*este  ribeirão,  e  todos  com  grandes 
protuberâncias  pelo  tronco,  fez  com  que  os  denominasse— 
Pàos  Papudos— . 

Dia  13.  —  Falhámos  hoje  por  causa  de  dois  camaradas 
que  adoeceram.  Matouse  6  tucanos  arassarys  (Pheroglos- 
sus). 

Dia  14.— Os  dois  camaradas  continuam  ainda  comos 
mesmos  incommodos,  não  obstante  algumas  doses  de  ho- 
moeopathia  que  appliquei-lhes.  Toda  a  noite  trovejou  no 
quadrante  de  N.  O,  cora  chuva  forte. 

Dia  15.— Os  camaradas  hoje  se  acham  com  melhoras, 
porém  deixamos  de  seguir  pelo  mào  tempo  que  ainda  con- 
tinua. 

Dia  16.— Partimos  assim  mesmo  com  mau  tempo,  e  pe- 
las 3  horas  da  tarde  viemos  pousar  na  Ántinha,  distante 
495  braças  dos  Pàos  Papudos.  Em  caminho  os  cães  perse- 
guiraní  uma  anta  pequena,  que  os  camaradas  a  vieram  ma- 
tar junto  ao  pouso,  dando-lhe  assim  nome.  A'  noite  cessou 
de  chover. 

Dia  17.—  Pelas  8  horas  da  manhã  partimos  d*Antinha,  e 
às  3  h.  30'  da  tarde  mandei  fazer  pouso  juntoao  rio  da  Man- 
dassaia  1,242  braças  distante  do  ultimo  que  deixámos.  Foi 
denominado  este  rio  —  Mandassaia  —  em  consequência  de 
uma  colmèa  mui  grande  que  se  tirou  junto  á  sua  margem, 
assim  vulgarmente  chaihada ;  no  passo  elle  tem  140  palmos 
de  largo,  correndo  com  alguma  velocidade  para  S.  0.  Esta 
manhã,  ao  deixar-mos  o  pouso  da  Antínha,  a  pouco  mais 
de  um  quarto  de  légua,  um  dos  camaradas  feriu-se  grave- 
mente entre  ambas  as  vias  de  uma  queda  que  levou  sobre 
um  estrepe ;  appliquei-lhe  alguns  glóbulos  d'arnica,  e  a 


—  21  - 

tintura  da  mesma  sobre  a  ferida,  facilitou  muito  a  hemor- 
ragia e  diminuiu  as  dores. 

Dia  18.— Pelo  mào  estado  em  que  se  acha  ainda  o  ferido 
não  pudemos  seguir  para  diante.  Logo  pela  manhã  man- 
dei os  camaradas  caçar,  voltando  ha  pouco  (5  horas  da 
tarde)  com  1  anta,  4  jacutingas,  e  1  nambu  (Tinamus). 
Geou  muito  esta  noite,  com  excessivo  frio. 

Dia  19  —Ainda  o  ferido  nos  priva  de  seguirmos  para  di- 
ante. Tenho  mandado  estes  dois  dias  o  pratico  continuar 
a  picada  no  rumo  d*agulha.  Esta  tarde  a  pouca  distancia  do 
pouso  os  camaradas  mataram  2  porcos,  (Dicotyles  Torqua- 
tus,  F.  Cuv.)  e  4  jacutingas. 

Dia  20.— O  camarada  ferido  se  acha  com  alguma  me- 
lhora ;  creio  n'estes  dois  dias  poderemos  seguir  nossa  der- 
rota. Matou-se  dentro  do  rio  1  lontra  (Lutra  brasilien- 
sis]  e  2  jacutingas. 

Dia  21.— A  cura  do  camarada  ferido  vai  em  progresso ; 
julgo  que  amanhã  poderemos  seguir  para  diante.  O  tempo 
tem  se  conservado  bom  ;  continua  a  gear  muito  de  noite, 
com  excessivo  frio. 

Dia  22.  —  Pelas  5  h.  25'  da  tarde  mandei  fazer  pouso 
junto  ao  rio  doNhapindà,  distante  do  da  Mandassaia  3,951 
braças.  O  terreno  entre  estes  dois  pontos  percorrido  é 
chato  em  sua  máxima  extensão,  o  mato  compõe<se  do  que 
vulgarmente  chamam  capoeira ;  não  parece  sertão,  é  raro 
ver-se  madeira  grossa,  e  a  margem  do  rio  é  toda  bordada 
do  tal  espinho  nhapindã,  que  me  fez  assim  baptisal-o. 

Dia  23.— Esta  tarde  pelas  3  h.  25',  viemos  pousar  junto 
à  segunda  volta  do  rio  das  Antas  2,640  braças  distante  do 
outro.  O  terreno  continua  chato  com  grandes  palmitaes 
molles,  e  mato  carrascal  cerrado  d'espinho  nhapindà.  Pas- 
sámos mais  duas  vezes  o  rio  Nhapindà ;  na  primeira  corre 
elle  para  N.  N.  O.  com  60  palmos  de  largo,  b  na  segunda 


—  22  ^ 

pára  S.  O.  com  80.  O  rio  das  Antas  também  palmos  duas 
vezes ;  na  primeira  corre  para  S.  S.  0.  com  84  palmos  de 
largo,  e  n'esta  onde  nos  achamos  de  pouso,  corre  para  N.  O. 
com60 

Dia  24.— Pelas  2  horas  da  tarde  viemos  pousar  jnnto 
ao  rio  das  Piabas,  a  906  braças  distante  do  das  Antas,  cor- 
rendo para  S.  S.  E.  com  HO  palmos  de  largo.  Passámos 
aindaa  terceira  volta  do  rio  das  Antas  correndo  esta  para  S. 
S.  0.  com  100  palmos  de  largo,  onde  o  atravessámos,  e  o 
morro  das  Piabas  bastante  ingrime,  extenso  e  com  grande 
palmital  molle  no  chapadão.  Ahi  encontrei  vários  jaracatí às 
(Caricas  spinosa],  entre  elles  um  de  collossal  tamanho.  Ti* 
rou-se  mel  de  colmèas  de  differehtes  qualidades. 

Dia  25.— Determinei  falhar  aqui  para  se  caçar,  visto  o 
apuro  de  fome  em  que  temos  estado,  enviando  logo  cedo 
os  caçadores  com  os  cães  para  esse  fim  ;  felizmente  á  tarde 
regressaram  com  1  anta  que  mataram,  e  algum  mel  de 
differentes  qualidades  de  colmèas  que  tiraram.  O  tempo, 
das  10  horas  da  noite  por  diante  tornou-se  chuvoso,  fuzi- 
lando muito. 

Dia  20.—  Esta  manhã  estando  o  tempo  ainda  chuvoso, 
nos  não  deixou  seguir  para  diante. 

Dia  27.—  Continua  o  tempo  ainda  chuvoso,  não  se  pôde 
proseguirno  trabalho  da  picada. 

Dia  28.  —Pelas  5  horas  da  tarde  mandei  fazer  pouso  junto 
ao  rio  Vermelho,  :^018  braças  distante  do  rio  das  Piabas. 
O  terreno,  do  rio  das  Piabas  até  aqui,  é  chato  e  raro  de  ma- 
deiras grossas  ;  se  vè  grandes  palmitaes  cercados  de  cha- 
chim  (Pterispalmata,  W  ?).  O  rio  Vermelho  faz  seu  curso 
para  S.  E.  e  no  passo  mediu-se  45  palmos  de  largo,  e  é  o 
ultimo  confluente  do  Iguassú,  que  se  encont'a  n'esta  direc- 
ção. 

Dia  20.—  Pelas  5  horas  da  tarde  mandei  fazer  pouso 


—    L>3    — 

junto  ao  rio  das  Guabirobas  (assim  denominado  pela  abun- 
dância de  arvores  d*esta  qualidade  (Eugenia,  Sp.)  que  en- 
contrámos não  só  nas  cabeceiras  como  ao  longo  do  rio], 
4,150  braças  distante  do  rio  Vermelho.  O  terreno  conti- 
nua bom,  quasi  lodo  chato.  Passámos  a  serra  do  Pimenta 
Bueno,  que  o  major  de  Bi^aurepaire,  quando  do  pouso  do 
Regresso  mandou  uma  escolta  em  demanda  do  Paranan, 
ordenou  ao  commandante  d*ella  que  desse  à  ultima  serra 
que  encontrasse  n'esso  trajecto  o  nome  do  conselheiro  José 
António  Pimenta  Bueiii),  por  ser  este  o  ministro,  que  teve  a 
.primeira  idéa  de  se  abrir  este  vehiculo  entre  o  Brasil  o  o 
Estado  de  Paraguay.  Esta  serra  é  importante,  não  só  por 
dividir  as  aguas  do  Iguasi^ú  das  do  Paranan,  como  pela 
sensível  dilTerença  do  clima,  pois  que  da  serra  ató  o  Para- 
nan encontrámos  a  mesma  vegetação  das  províncias  do 
norte. 

Dia  3í).— Pelas  5  h.  -2)' da  tarde  mandei  fazer  pouso 
junto  ao  ribeirão  da  Saracura  (nome  que  impuz  por  uma 
aved*esta  espécie  (Rallus  Saracura,  Spix),  que  se  matou 
junto  ao  ribeirão),  ii,106  braças  distante  do  rio  das  Guabi- 
robas. Passámos  os  ribeirões  do  Ipé  e  Saracura,  correndo 
aquelle  para  o  N.  com  3 )  palmos  de  largo,  e  este  para  O. 
N.  O.  com  25.  O  terreno  conliuúa  chato,  e  a  vegetação 
da  ultima  serra  para  cá  é  toda  diíTerente  da  que  lemos  dei- 
xado para  traz  ;  encontrámos  varias  plantas  indigenas  dos 
trópicos,  o  que  faz  acreditar  que  dará  mui  bem  todos  os 
productos  agrícolas  das  nossas  províncias  do  norte.  Desde 
o  rio  Vermelho  para  cá  o  terreno  é  arenoso. 

Dia  31.— Esta  tarde  pelas  6  b.  35*  mandei  fazer  pouso 
junto  ao  ribeirão  da  Jararaca,  3,o8ô  braças  distante  da  Sa- 
racura. Passámos  pelo  rio  do  Mandury  (nome  imposto  por 
uma  colmôa,  assim  vulgarmente  denominada  que  ahi  se 
tirou),  correndo  para  N.  com  i5  palmos  de  largo,  o  córrego 


—  24  - 

do  Ferroe  rio  do  Taquary,  correndo  ambos  para N. O.,  este 
com6i  palmos  no  passo.  O  solo  e  vegetação  nâo  apresen- 
tam differença  do  que  jà  lénbo  notado.  Junto  ao  rio  do  Ta- 
quary encontrámos  um  grande  taquaral  que  se  estende 
consideravelmente  de  N.  a  S.,  e  as  taquaras  além  de  extra- 
ordinária altura,  apresentam  prodigiosa  grossura.  Uma  que 
fiz  cortar  deu  a  medida  de  seu  diâmetro  exactamente  14 
pollegadas  I 

Dia  1*  de  Agosto.—  Pelas  4  horas  da  tarde  mandei  fazer 
pouso  junto  a  um  pequeno  córrego,  que  denominei  das 
Araras  (Ara)  pela  grande  quantidade  doestas  aves  que  en- 
contrámos n'este  lugar,  a  3,05t)  braças  distante  do  ultimo 
pouso  que  deixámos.  Passámos  o  morro  da  Jararaca,  ri- 
beirão do  Cotovello  correndo  para  O.  N.  O.,  e  o  rio  das  Ja- 
tevocas  correndo  para  N.  O.  com  60  palmos  no  passo.  O  ter- 
reno continua  chato,  porém  paludoso  para  o  S. ;  atraves- 
samos vários  paúes,  que  em  diíTerentes  sentidos  cortam  a 
picada,  divisando-se  no  meio  d'estes,  manchas  de  taqua- 
raes  de  espécie  vulgarmente  chamada  Jatevoca.  Julgo 
(pelo  que  informou-me  o  pratico),  que  com  pequeno  desvio 
para  o  N.  póde-se  na  factura  do  picadão  evitar  todos  esses 
paúes. 

Dia  2.—  As  5  horas  da  tarde  mandei  fazer  pouso  junto 
ao  terceiro  passo  do  rio  das  Guabirobas,  a  3,476  braças 
distante  do  das  Araras ;  pouso  que  denominei—  Poço  Com- 
prido —  pela  configuração  do  rio  n'este  lugar.  Passámos 
o  ribeirão  das  Pitangas,  assim  denominado  pela  grande 
quantidade  d'arvores  d'esta  espécie  (Plima rubra,  Vell.)  que 
existe  em  suas  margens.  Este  ribeirão  serpeando  na  di- 
recção da  picada  a  corta  doze  vezes.  Aqui  corre  o  rio  das 
Guabirobas  para  S.  E.,  e  tem  de  largo  no  passo  165  pal- 
mos. O  terreno  continua  chato  e  raro  em  madeira  grossa. 
Das  6  horas  da  tarde  em  diante  fomos  acommettidos  por 


-  3S  — 


ama  forte  trovoada  do  N.  o.  e  chuva  que  aturou  ioda  a 
noit^. 

IJia  :t."PeIas  6  horas  da  larde,  debaixo  de  forte  agua- 
ceiro e  trovoada  de  N.  0.,  mandei  fazer  pouso  junlo  ao  rio 

das  Guabirobas,  distante  do  ultimo  que  deixámos  o,94i 
braças,  denominaiido-o— Laranjal.— O  terreno  coolinúada 
mesma  fòroia  que  lenho  notado,  linconlrámos  outra  vez  o 
rio  das  Guabírobas  com  o  dobro  da  largura  que  tem  oo 
terceiro  passo,  seguindo  o  ramo  de  0.  A  chuva  e  trovoada 
coalinuou  toda  a  noite  sem  cessar*  Esta  manhã  achei  í^ 
chronometro  parado  com  qnasi  toda  a  corda,  nâo  po* 
deodo  altribuir  a  outra  causa  (visto  o  cuidado  com 
que  o  trazemos)  senãci  às  muitas  quedas  que  diariamente 
apanhamos. 

Dia  4.— Por  causa  do  mâo  tempo,  não  pude  seguir  para 
diatile-  Pelo  meio-dia  abonançou  um  pouco  o  tempo,  apro- 
veitei em  eíiplorar  uma  bonita  ilha,  que  forma  o  rio  das 
Guahirobas,  era  frente  ao  nosso  pouso,  li  Ha  corre  N*  S,  com 
mais  dê  130  braças  de  compridij  sobre  20  de  largo,  toda 
coberta  por  um  frondoso  laranjal  [Cilrusamericanus],  como 
lhe  chama  em  scui  Diário  o  major  do  Boaurepaire,  pelo  que 
observou  tanto  no  Para}íaay,  como  u*estes  sertões,  o  que  o 
convenceu  que  a  laranja  amarga  e  fnictaindigena  da  Ame- 
rica. í>a  ilha  ouvimos  um  sussurro  que  parece u-noB  ser 
d'atguma  catadupa.  N^esse  sentiilo  fomos  continuando  pela 
^margem  «li»  rio,  e  a  Sp  braças  de  distancia  d^oiide  nos  acha- 
vamos  chegámos  ondeelle  forma  um  salto  de  mais  de  CO 
\m  de  altura,  i^.  d'alli  corre  alcantilado  por  um  bello  valle 
em  demanda  do  Paraoan,  de  quem  é  Iribulario.  Estes  três 
dias  t^mos  soffrido  muita  fome,  e  o  tempo  chuvoso  nos  não 
tem  deixado  caçar, 

Dia  5, — Tornou  outra  vez  a  chuva  ainda  mais  forte,  im- 
possibilitando-nos  de  seguir  para  d iau te.  Ksta  manhã  nm 
TOMOxxvsu,  r.  I,  4 


—  ae- 
dos camaradas  malou  na  margem  do  rio  uma  cegonha 
(Ciconia  maguari,  Yiel  ?),  que  foi  nosso  almoço.  Depois  de 
meio-dia  os  cães  seguiram  o  rasto  fresco  de  uma  anta ; 
pouco  depois  ouvimos  acorrida  que  vinha  para  o  rio.  As- 
sim mesmo  com  a  chuva  os  camaradas  a  foram  esperar,  e 
tiveram  a  fortuna  d'atirarem  às  duas  antas,  ficando  uma 
morta  dentro  d'agua,  e  a  outra  escapou-se  ferida,  deixando 
muito  sangue  no  trilho  que  seguiu. 

Dia  6.— Pelas  2  horas  da  tarde  chegámos  à  margem  es- 
qaerda  do  Paranan,  2,148  braças  distante  do  pouso  do  La- 
ranjal, e  do  acampamento  Chagú  29  léguas  e  meia,  58 
braças.  Passámos  uma  capoeira  de  roça  que  pareceu-me 
abandonada  ha  pouco  tempo  pelos  selvagens,  á  qual  deno- 
minei— Capoeira  dos  Bugres—.  O  rio  das  Guabirobas  corre 
muito  alcantilado,  é  faz  sua  confluência  no  Paranan  a 
O.  N.  O.  A  largura  do  Paranan  calculei  em  200  braças  e  a 
velocidade  da  corrente  em  sete  milhas  por  hora ;  sua  mar- 
gem de  um  e  outro  lado  forma  praias  mui  bellas  de  finís- 
sima arêa,  e  a  vegetação  é  como  a  que  tenho  notado  da 
serra  de  Pimenta  Bueno  para  cá.  Logo  que  chegámos  á 
margem  do  rio,  os  camaradas  trataram  de  preparar  as 
linhas,  e  até  á  noite  pescou-se  4  dourados  grandes,  1  ma- 
trinchá,  7  mandys,  e  49  bagres  de  soífrivel  tamanho, 
queiíesmo  sem  sal  comemos  e  achámos  de  excellen  te 
sabor. 

Dia  7.— Empreguei-me  hoje  nas  observações  astrono-  . 
micas ;  tomei  a  altura  meridiana  do  sol,  que  deu  a  latitude 
sul  do  lugar  25*134'  37".  Esta  manha  ordenei  ao  pratico  de 
descer  ao  rio  com  mais  três  camaradas,  e  explorar  quanto 
pudesse  (com  tempo  de  voltar  ao  pouso),  afim  de  observar 
as  dilTerenças  do  terreno  d'um  e  outro  lado,  ver  se  ha  mais 
rios  confluentes  d'este,  e  seus  volumes  d'agua ;  já  voltou  ao 
anoitecer  com  os  companheiros,  informando-me  que  des- 


—  27  — 

ceu  mais  de  légua  e  meia  costeando  sempre  o  Paranan,  e 
que  este  vai  alargando  progressivamente;  o  terreno  é 
menos  onduloso  do  que  o  que  temos  avista,  notou  mais  os 
mesmos  bandos  de  aves  que  atravessam  continuamente  de 
um  para  outro  lado  do  rio,  e  diíTerenles  rastos  impressos 
n*arêa,  de  Tapiros,  e  deindividuos  do  género  Felix. 

Dia  8.— Depois  de  tomar  a  altura  raeridiana  do  lugar, 
e  determinar  a  latitude,  que  me  dtíu  os  mesmos  resultados 
de  hontem,  regressámos  para  o  pouso  do  Laranjal,  onde 
chegámos  pelas  4  horas  da  tarde.  Em  caminho  matámos 
um  bonito  pato  (Anãs  moschata,  Lin.]»  que  com  alguns 
moluscos  do  género  (Solen)  foi  a  nossa  côa.  Não  me  sendo 
possível  demorar  mais  tempo  no  Paranan,  pelo  mào  estado 
de  saúde  em  que  nos  achámos,  e  receio  de  algum  encontro 
com  os  selvagens,  determinei  recolher-me  quanto  antes 
para  o  acampamento  doChagú. 

Dia  9. — Partimos  do  Laranjal  ao  romper  do  dia,  eao 
pôr  do  sol  viemos  pousar  no  Banhado  Grande.  Da  meia- 
noite  em  diante  principiou  a  chover  e  trovejar  no  qua- 
drante de  S.  O. 

Dia  10.— Assim  mesmo  com  chuva  partimos  do  Banhado 
Cirande,  e  viemos  pousar  junto  ao  rio  das  Jalevocas. 
Na  mesma  occasiâo  encontrámos  duas  antas  que  vi- 
nham emparelhadas  descendo  o  rio  ;  infelizmente  esca- 
param-nos. 

Dia  11.— Por  causa  da  chuva  nao  podemos  deixar  o 
pouso.  Mataram-se  dois  tucanos  ussús  (Kamphastus  ca- 
rinatus,  Walg.) 

Dia  12. — Ainda  com  máo  tempo  partimos  das  Jalevocas 
e  viemos  pousar  no  ribeirão  do  Cotovelo.  Estou  com  um 
camarada  doente  d'uma  perna,  o  que  nos  impossibilita  de 
fazer  boas  marchas. 


—  28  - 

Dia  13.— Pela  manhã  deixámos  o  pouso  do  Cotovelo,  e 
viemos  pousar  no  ribeirão  da  Jararaca.  Continua  ainda  o 
mào  tempo. 

Dia  14.— Por  causa  da  muita  chuva  não  foi  possível  dei- 
xar hoje  este  pouso. 

Dia  15.— Esta  manhã  o  tempo  tornou-sc  melhor;  par- 
timos do  pouso  da  Jararaca,  e  viemos  ao  rio  do  Taquari. 
O  camarada  que  se  acha  doente  da  perna  vai  a  peior ;  está 
em  estado  de  não  poder  andar,  julgo  ser  um  carbúnculo 
que  lhe  sahiu  na  canela. 

Dia  16.— Falhámos  por  causa  do  camarada  doente  da 
perna.  A'  noite  tomou  uma  dose  de  arnica,  diminuiu  as 
dores,  e  passou  algumas  horas  socegado. 

Dia  IT. — Ainda  o  doente  não  se  acha  em  estado  de  an- 
dar, por  isso  falhámos.  Matou-se  uma  veada  parda  mui 
gorda,  e  tirou-se  mel  de  dilTerentes  qualidades  de  colméa. 

Dia  18.— Felizmente  o  camarada  hontem  á  noite  prin- 
cipiou a  melhorar ;  o  tumor  supurou  muito,  e  esta  manhã 
Já  pôde  andar.  Viemos  ao  terceiro  passo  do  rio  das  Guabi- 
robas. 

Dia  19.— Falhámos  hoje  por  causa  dos  cães,  que  muito 
cedo  seguiram  o  rasto  d'uma  anta,  e  só  appareceram  á 
noite. 

Dia  20. — Tempo  mui  carregado  de  nevoeiros  com  exces- 
sivo calor.  Do  terceiro  passo  do  rio  das  Guabirobas  viemos 
pousar  no  rio  Vermelho.  Pela  meia-noite,  pouco  mais  ou 
menos,  veiu  um  grande  furacão  nas  proximidades  do 
nosso  pouso,  que  abateu  arvores  immensas,  cujo  ruido 
sentiamos ;  e  sobre  a  madrugada  principiou  a  chover  mui 
forte. 

Dia  21.— Falhámos  por  causada  muita  chuva,  que  nos 
obrigou  a  construir  barracas  para  abrígar-nos. 


—  n- 


Dia  22.— Ao  pôr  do  sol  viiimos  poosar  no  rio  das  Piabas. 
Em  caminho  os  cães  seguiram  o  rasto  de  uma  aula,  cinco 
caniaradas  os  acompanharam,  e  nao  voltaram  ao  pouso* 

Dia  â3.— Falhamos  por  causa  dos  cinco  camaradas,  que 
só  esta  tarde  chegaram,  sem  malar  nada. 

Dia  24.— Partimos  ao  romper  do  dia  do  rio  das  Piabas, 
c  ao  anoitecer  viemos  pousar  na  terceira  volta  do  rio  Nha- 
pindà. 

Dia  25,— Pela  manha  partimos  do  rio  Nhapindá,  e  â  tar- 
de viemos  pousar  junto  ao  rio  da  Mandassaia. 

Dia  26-— Pelo  estado  de  fome  em  que  nos  achamos,  e  os 
caas,  que  ha  muitos  dias  não  tem  comido,  resolvi  falhar  aqui 
para  caçar*  Esta  manhã  dispersei  a  gente  Ioda,  apenas  fi- 
quei no  pouso  com  dois  camaradas.  Regressaram  á  noite 
sem  matar  cousa  algiuna, 

lha  27.— Ainda  falhei  hoje,  e  mandei  tentar  a  caça ;  in- 
felizmente voltaram  á  noite  sem  cousaalguu:a. 

Dia  28. — Pelas  2  horas  da  tarde  chegamos  ao  pouso  dos 
Pàos  Papudos,  não  indo  mais  adiante  por  ameaçar  chuva. 
No  mào  estado  de  saúde  em  que  me  acho,  e  privações  de 
toda  a  sorte  que  temos  soffrido,  vendo  que  nao  é  possível 
sapir  a  pequenas  jornadas,  como  temos  feito,  deliberei 
seguir  só  com  quatro  camaradas  para  o  acampamento  do 
Chagú. 

Dia  29.— Por  causa  do  máo  tempo  nao  pudemos  seguir. 
Levou  a  chover  continuamente- 

Dia,  30, — Pela  manhã  entreguei  o  commando  da  força  ao 
pratico,  e  segui  para  o  acampamento  com  quatro  cama- 
radas que  escolhi  para  me  acompanharem,  e  vim  pousar 
nas  Abelheiras. 

Dia  31, — Pelas  6  horas  da  tarde  viemos  pousar  nos  Pal- 
mitos Molles  da  serina  do  Monte-Alegre.  Em  caminho  ma- 
tamos um  juacuco,  um  uni  (Odontapborus  capoeira)  e  um 


—  30  - 

pavão  (espécie  de  Pega-negra  com  a  garganta  encarnada, 
Pr.  Max).  Tirou-se  no  alio  da  serra  uma  colraêa  de  gua- 
raipú. 

Dia  1' de  Setembro.— Pelas  5  horas  da  tarde  viemos 
pousar  no  Míjndagoahy.  Malaram-se  em  caminho  dois  ma- 
cacos (Cebus  cristalus,  de  F.  Cuv.),  que  com  alguns  palmitos 
foi  nossa  côa. 

Dia  2. — Ao  pôr  do  sol  viemos  pousar  emS.Joâo.  Ma- 
lou-se  em  caminho  um  veado  pardo  e  uma  jacutinga. 

Dia  3. —Pelas  S^^horas  da  tarde  viemos  pousam* Agua 
Cortada.  Em  caminho  matámos  Ires  jacutingas. 

Dia  4. — Ao  anoitecer  viemos  ao  pouso  do  Regresso. 
Mataram-se  duas  jacutingas  em  caminho. 

Dia  5.— Ao  anoitecer  chegámos  ao  pouso  do  Vorá,  e  pas- 
sámos bem  triste  noite  de  fome,  por  nada  se  ter  podido 
matar  em  caminho. 

Dia  6.— Pelas  10  horas  da  manhã  chegámos  ao  acam- 
pamento do  Chagú  bastante  estropiados.  Deram-se  todas 
as  providencias  para  entrarem  seis  camaradas  com  refres- 
cos para  a  gente  que  ficou  no  sertão. 

Dia  7.— Pelas  8  horas  dá  manhã  se  fez  seguir  seis  cama- 
radas, com  munições  de  boca,  pólvora  e  chumbo  para  os 
sertanistas,  com  ordem  de  caminharem  até  os  encontrar. 

Dia  12. — Pelas  \  1  horas  da  manhã  chegou  a  este  acam- 
pamento sem  accidenle  algum  o  resto  da  força  que  se 
achava  no  sertão. 

Acampamento  do  Chagú,  em  12  de  Setembro  de  1849. 
—CamUlo  Lellis  da  Silva,  P.  da  armada  nacional  e  im- 
perial. 


—  31  — 
RESENHA  DA  CAÇA,  PEIXE  E  ABELHEIRAS 

QUE  TIVEMOS  EM  TODA  K  VIAGEM  DE  IDA  E  VOLTA  AO  RIO  PARANAN. 

22  Antas.  (Tdpírusamericânus.) 

22  Veados  pardos.  (Cervusnemorivagus.) 

25  Macacos.  (Cebus  cri  status,  F.  Cuv.) 

5  Porcos  do  mato.  (Decolyles  Torquatus,  F.Cuv.) 

1  Lontra.  (Lutra  brasiliensís.) 

8!  Jacutingas.  (Penélope  leucolopbos,  Merr.) 
3  Tucanos  uçú.  (Rampbastos  carinatus,  Walg. ) 

6  Ditos  arassarys.  (Pteroglossus. ) 

2  Socos  rajados.  (Ardea  Tigrina,  Gm.) 

3  Patos.  (Anãs  moschata,  Lin.) 

3  Marrecas.  (Anãs.) 

1  Cegonha.  (Ciconia  maguari,  de  Viei  ?) 

2  Macucos.  (Tlnamus  brasiliensís,  Lalli.) 

4  Inhambús.   (Tinamus.) 

i  IJrú.  (Odontophorus  capoeira.) 

PEIXES  NO   RIO   PARANAX. 

4  Dourados,  1  Matrincba,  7  Mandys,  49Bagres. 

ABELHEIRAS. 

39  Guaraipos.» 
4  Iratys,  2  Imerys,  1  Irapoà,  9  Jatahys. 
80  Mandagoabys,  15  Mandurys,  12Mumbucas,  8Man- 
dassaias,  3  Barafogo,  1  Sanharon,  19  Vorás. 

Lellis  da  Silva. 


—  S2  — 

MATO  GROSSO 

POR 

CORITIBA    E   TIBAGY. 

ITINERÁRIO  DA  VIAGEM  QUE  F»  AO  BAIXO  PARAGUAY,  POR  OR- 
DEM DE  S.  EX.  O  SR.  MARQUEZ  DE  CAXUS,  MINISTRO  E  SECRE- 
TARIO d'ESTADO  dos  NEGÓCIOS  DA  GUERRA,  ACOMPANHADO 
DAS  OBSERVAÇÕES  QUE  LHE  SÃO  CONCERNENTES. 

Manuscripto  ofTerecido  ao  Instituto  pelo  Sr.  conselheiro  Joaquim  Maria 
Nascentes  de  Azambuja. 

Em  21  de  Novembro  de  4855.~Embarquei  a  bordo  do 
paquete  a  vapor  Paraense  pelo  meio*dia. 

Em  22.— Cheguei  á  barra  de  Santos  pelas  11  horas  da 
manhã. 

Em  23.— Esteve  de  quarentena  o  vapor. 

Em  24.— Subiu  para  o  porto. 

Em  25.— Demorou-se  este  dia  para  descarregar. 

Em  26.— Pelas  G  horas  da  tarde  levantou  ancora  para 
Paranaguá. 

Em  27.— Chegou  à  barra,  e  por  intimação  do  escaler  de 
saúde  deu  fundo  no  lugar  denominado— Piriquito— para 
alli  ficar  de  quarentena  5  dias.  Em  consequência  d'esta 
demora,  ofliciei  ao  Dr.  provedor  de  saúde  para  suspender 
a  quarentena,  não  sô  por  ter  o  vapor  carta  de  saúde  limpa, 
como  por  me  achar  encarregado  de  uma  commissão  do  go- 
verno, a  qual  pedia  a  máxima  brevidade  no  seu  cumpri- 
mento :  fui  attendido. 

Em  28.— Entrou  o  vapor,  e  desembarquei  n*esse  dia 
pelas  8  horas  da  manhã,  não  seguindo  viagem  para  a  fre- 
guezia  de  Morretes  por  falta  de  canoa  que  me  conduzisse. 

Em  29.— Consegui  embarcar-me  no  escaler  da  alfan- 


-  33  - 

dega,  e  cheguei  á  povoação  de  Barreiros  pelas  5  horas  da 
tarde,  por  não  poder  chegar  o  escaler  a  Morretes,  em  con- 
sequência do  rio  eslar  muito  baixo,  e  ainda  esta  vez  me 
achei  embaraçado  por  falta  de  canoa  que  me  conduzisse. 
Considerando  que  a  viagem  por  terra  era  de  1  1/2  legua, 
segui  a  pé  e  cheguei  à  dita  freguezia  às  8  horas  da  noite.  De 

Morretes  a  Barreiros,  léguas iVa 

Em  30.— Depois  de  muitas  diligencias  para  alcançar 
animaes,  sò  pude  havêl-os  às  4  horas>  de  um  tropeiro  que 
seguia  com  sal  para  Curitiba,  o  qual  descarregando  quatro 
bestas  por  consentimento  de  Miron,  proprietário  do  sal, 
m'as  alugou :  marchei  a  essa  mesma  hora,  e  com  tão  pés- 
simos animaes  impossivel  me  foi  passar  da  barreira  de  Ita- 

pava,  com  3  léguas 3 

Em  o  1°  de  Dezembro.  —  Marchei  pelas  4  horas 
da  tarde  por  me  ter  sido  preciso  esperar  pelos  animaes, 
que  um  empregado  da  barreira  se  encarregou  de  alugar-me: 
caminhei  toda  a  noite,  e  entrei  em  Curitiba  às  4  horas  da 
madrugada,  com  9  léguas.  Da  barreira  de  Itapava  a  Curi- 
tiba, léguas 9 

Apresentei-me  ao  Sr.  vice-presidente  da  província,  e  fiz 
entrega  do  aviso  do  ministério  da  guerra,  de  que  era  por- 
tador. Tendo  procurado  pelos  meios  à  minha  disposição 
conseguir  animaes  não  os  pude  obter,  e  por  intervenção 
do  Sr.  vice-presidente  alcancei  com  excessivo  trabalho  oito 
animaes,  alugados  somente  até  à  villa  de  Castro,  e  n'essas 
diligencias  perdi  3  dias. 

Em  4.— Marchei  pelas  10  horas  da  manhã,  e  pousei  na 
fazenda  da  Serrinha  com  G  léguas.  De  Curitiba  à  Fazenda 

da  Serrinha,  léguas .        6 

Em  5.— Marchei  pelas  5  horas  da  madrugada,  e  pousei 
na  freguezia  das  Palmeiras  com  8  léguas.  Da  Serrinha  à 

fazenda  das  Palmeiras,  léguas 8 

TOMO  xxviu»  p.  I.  5 


—  34  - 

Rm  tí.— Marchei  pelas  5  horas  da  madragada,  e  pousei 
na  freguezia  de  Ponla  Grossa,  com  7  iegaas.  Das  Palmeins 

à  freguezia  de  Ponta  Grossa,  léguas 7 

Em  7. — Marchei  pelas  G  horas  da  manhã,  e  chegaeí  á 
Yilla  de  Castro  com  9  léguas.  Da  Ponta  Grossa  à  villa  de 

Castro,  léguas 9 

Demorei-me  n*essa  os  dias  8  e  9,  por  falta  de  condocçio; 
por  isso  que  o  dono  dos  animaes,  não  querendo  afastar-se 
do  trato,  não  obstauie  as  compensações  que  lhe  propaz* 
allegando  não  ser  possivel  passar  a  mata  em  animaes  tão 
Tiajados ;  recorri  uVssa  conjunctura  a  Fidelis  Nepomuceno 
Prates,  a  quem  tinha  sido  recommendado  pelo  Sr.  ?ice- 
presidente,  o  qual  depois  de  grande  trabalho  obteTe-ma 
por  avultada  quantia  14  animaes,  numero  preciso  para 
quatro  homens  passarem  a  dita  mata. 

Em  10.— Marchei  pelas  6  horas  da  manhã,  e  ponsei 
no  campo,  com  12  léguas.  Da  villa  de  Castro  ao  pouso,  lé- 
guas          t2 

Em  1 1  .—Marchei  pelas  5  horas  da  manhã,  e  poosei  na 
malii,  lugar  denominado— Pinheiro  Secco, — com  8  léguas. 
Do  Pouso  no  campo  á  mata  Pinheiro  Secco,  léguas.      8 

Em  lá. — Marchei  pelas  O  horas  da  manhã,  ecom  pe- 
nosíssimo trabalho,  por  me  ser  necessário  abrir  caminho 
por  serras,  e  transitar  por  outros  cheios  de  atoleiros ;  a 
muito  custo  consegui  appro\imar-me  do  abarracamento  de 
S.  Jerouymo,  com  10  léguas.  IK3  pous<)  do  Pinheiro  Secco  ao 
abamcamento  de  S.  Jea^nymo,  leguus.     ...        10 

Em  i:J. — Marchei  pelas  5  horas  da  madrugada*  e  con- 
tinuando na  m<i'sma  M:\  do  dia  antecedente  alcancei  o 
porto  do  Jatahy.  com  l±  léguas.  R^  abarracamento  de  S. 
J^DODjmo  ao  porto  do  Jatahy  no  Tibagy,  léguas  .        12 
Entrv^niei  ao  Dr.  Feliciano  Tiepomuceno  Prates  o  aviso 


-  35  - 


do  ministério  da  gaerra»  o  qual  por  nao  estar  previnido 
Jilopôdõ  dar-me  o  traosporte  no  dia  14. 

Em  15. — Embarquei,  e  navegando  pelos  rios  Jalahy, 
Paranapantíma,  Paraná,  Sambam  baia,  I?inhei  ma.  Brilhante, 
Vaccaria,  Dourados,  Santa  Maria,  o  outros  dti  menos  noia, 
desembarquei  no  porto  das  Sele  Voltas,  da  fazenda  do 
barão  de  Anlonina,  no  dia  13  de  Janeiro  de  I85f}|  com  135 
ieguas  do  Porto  de  Jiitaby,  embarcando  por  differeotes  rios 
até  ao  porto  das  Sete  Voltas  da  fazenda  do  barão  de  Anto- 
nina, léguas    ,*.... 135 

Não  me  foi  humanamente  possível  conseguir  com  mais 
rapidess  esta  penosíssima  viagem,  já  pelos  48  baixios,  ou 
corredeiras  [como  chamara), que  obrigavam  aos  remadores  a 
metterem-5e  n^agua  para  a  braços  levarem  a  canoa»  já  pelas 
Ires  cachoeiras  que  com  h:islante  peri^^o  se  venciam,  já,  fi- 
nalmente, por  outros  muitos  embaraços  que  me  custavam 
a  remover,  apezar  de  gratitica(;ôBs  que  dava  ao  piloto  e 
remadores.  Pelo  que  deixo  dito  evidoncia-se  que,  não  de- 
puudQiido  da  minha  vontade  c  esforços  esta  viagem  de  rios, 
nada  mais  podia  fazer »  além  do  que  pratiquei.  Esperei  no 
porto  acima  dito,  que  um  dos  meus  camaradas  me  trou- 
i6sse  animaes  da  referida  fazenda,  o  qual  chegou  no  dia 
14  pelas  4  horas  da  tarde. 

Em  14  do  ilaneiro  de  1856. — Marebeí  pelas  4  borasda 
tirde»  e  pousei  na  mencionada  faj^enda,  com  4  léguas. 
Do  porto  das  Sete  O^^das  à  fazenda  do  barão  de  Antonina 
(por^terra),  léguas   *    .    .    - 4 

Em  lo, ^Marebeí  pelas  7  horas  da  manbã,  e  pousei  no 
campo  com  ti  léguas.  Nao  me  foi  possível  ir  mais  adianto, 
em  consequência  de  córregos  cheios,  pântanos  e  campos 
alagados,  da  fazenda  do  barão  de  Antonina,  marcbando 
pelo  campo  ao  pouso,  léguas 6 

Iímí  16. — Marchei  pelas  li  tioras  da  madrugada,  eiiousei 


—  36  — 

no  ponto  militar  (l*Anhauac,  com  12  léguas.  Do  pouso 
antecedente  ao  ponto  militar  de  Anbauac,  léguas  .      12 

Em  17.— Marchei  pelo  meio-dia  por  me  ler  sido  neces- 
sário alugar  animaes,  e  pousei  no  campo,  com  2  léguas. 
Deram-se  os  mesmos  motivos  acima  referidos.  DeAnha- 
uaca  pousar  no  campo,  léguas 2 

Em  18. — Marchei  pelas  6  horas  da  manha,  e  pousei  na 
fazenda  da  Forquilha,  com  12  léguas.  Do  pouso  antece- 
dente á  fazenda  da  Forquilha,  léguas 12 

Em  19.— Marchei  pelas  6  horas  da  manha,  e  pousei  no 
campo,  com  5  léguas.  Da  fazenda  da  Forquilha  ao  pouso  no 
campo,  léguas 5 

Em  20.— Marchei  pelas  7  horas  da  manha,  c  pousei  no 
porto  militar  de  Miranda,  com  6  léguas.  Do  pouso  antece- 
dente ao  porto  militar,  de  Miranda,  léguas.  G— total.  267 Va 

Em  21.— Embarquei,  e,  descendo  pelos  rios  Miranda, 
Piuva  e  outros,  cujos  nomes  não  me  recordo,  cheguei  ao 
Baixo  Paraguay  no  dia  26  de  Janeiro ;  entreguei  o  aviso  do 
ministério  da  guerra  e  esperei  6  dias  pela  resposta,  seguin- 
do depois  para.  esta  corte  no  dia  2  de  Fevereiro  de  1856. 
Cheguei  a  Paranaguá  no  dia  30  de  Março,  esperei  pela 
barca,  que  chegou  no  dia  5,  sahiu  no  dia  6  com  escala  por 
Santos,  e  deu  fundo  n^este  porto  no  dia  8.  Fiz  toda  a  via- 
gem em  4  mezes  e  18  dias,  e  excluindo-se  as  falhas, 
que  a  falta  de  promptos  vehiculos  e  estação  chuvosa  me 
coagiram  a  ter,  fui  ao  forte  de  Coimbra  em  48  dias,  e 
fiz  toda  a  viagem  em  98  dias;  regulando-me  pelo  roteiro 
do  barão  de  Antonina,  apresentado  pelo  seu  piloto  map- 
pista  João  Henrique  Elliot,  andei  532  léguas.  Devo  decla- 
rar que  não  fiz  menção  das  léguas  desde  Miranda  até  ao 
forte  de  Coimbra,  por  não  existir  no  dito  roteiro.  Seja-me 
agora  permittido  reflectir  que,  sendo  esta  viagem  toda  de- 
pendente de  mar,  terra  e  rios,  jamais  eu  poderia  cumprir 


-  37  — 

meu  dever,  e  satisfazer  o  meu  desejo  marchando  com  a 
rapidez  que  me  ordenou  o  Exm.  Sr.  marquez  de  Caxias, 
ministro  e  secretario  doestado  dos  negócios  da  guerra. 

Estou  convencido  que  se  encontrasse  em  Antonina  o  Dr. 
Feliciano  Nepomuceno  Prates,  não  teria  na  provincia  do 
Paraná  alguns  embaraços;  por  isso  que,  conhecedor  d'ella, 
e  municiado  do  preciso  como  se  adia,  me  coadjuvaria; 
porém  vim  enconlral-o  onde  nada  mais  ni(í  podia  dar,  além 
do  transporte  pelo  Jatahy. 

Rio  de  Janeiro,  era  13  de  Abril  de  1856. — Manoel  Joa- 
quim Pinto  Pacca,  capitão  da  i*  classe  do  estado  maior. — 
Conforme  Libanio  AiLgiisto  da  Cunha  Mattos.  Conforme  ao 
documento  existente  no  archivo  militar.— /oaí/uim  Maria 
Nascentes  de  Azambuja. 


—  38  - 

INFORMAÇÃO 

SOBRE  O  MODO  PORQUE  SE  EFFECTUA  A  NAVEGAÇÃO  DO  PAEA 
PARA  MATO  GROSSO,  E  O  QUE  SE  PODE  ESTABELECER  PARA 
MAIOR  VANTAGEM   DO  COMMBRCIO  E  DO   ESTADO. 

RESUMO  DOS  PARAGRAPHOS  DOESTA  INFORMAÇÃO 

!.~Que  a  communicação  do  Pará  com  Maio  Grosso  só 
se  effectua  pela  navegação  do  rio  da  Madeira,  e  nem  ha 
estradas  de  terra  nem  seriam  por  ora  praticáveis. 

2.— Que  esta  mesma  communicação  só  se  estende  aos 
estabelecimentos  do  Guaporé  e  capital  d*aquella  capitania  ; 
e  o  Cuyabà  se  provê  da  capitania  de  S.  Paulo,  e  outras  por 
estradas  de  terra. 

3.— Que,  se  a  distancia  directa  da  capital  do  Pará  á  de 
Mato  Grosso  é  assaz  considerável,  a  que  é  forçoso  andar 
pela  indicada  navegação  é  muito  maior,  e  sempre  lutando 
com  a  corrente  opposta. 

4.— Que  do  Pará  à  primeira  cachoeira,  ainda  que  seja 
mais  de  metade  da  extensão,  é  Ioda  desembaraçada,  e  sem 
mais  iacommodo  do  que  o  da  corrente  opposta  que  o  vento 
ajuda  a  romper.  Que  da  primeira  á  ultima  cachoeira  na 
extensão  de  70  léguas  é  a  navegação  muito  morosa,  e  in- 
commoda.  Que  da  ultima  cachoeira  a  Vilta  Bella,  sendo 
anda  considerável  distancia,  é  também  navegação  desemi)a- 
raçada,  mas  contra  a  corrente. 

o,— Que  do  Pará  até  Borba  acham  os  viajantes  os  soccor- 
ros  que  precisam,  mas  que  de  Borba  para  cima  na  extensão 
maior,  mais  árdua,  e  diílicil  a  vencer,  não  tem  onde  receber 
nenhuns,  menos  que  cheguem  ao  forte  do  Príncipe. 

6.— Que  o  modo  por  que  se  effectua  esta  navegação  é  o 
mesmo  que  se  seguiu  de  principio,  sem  que  si3  tenha  desço- 


-  :i9  — 

borlo  outra,  o  que  som  o  exlraorilinario  beneticio  de  escu- 
sar maíoras  provímeutos  pela  abuadaacia  de  caça,  e  pesca, 
apezar  d'outras  seria  impraticável. 

7. — Quaes  são  as  embarcações  de  que  se  usa  n*esta  na- 
vegação, e  qual  seja  a  causa  por  que  só  se  pôde  emprehen- 
der  por  negociante  de  cabedal  grosso,  ou  por  muitos  incor- 
porando-se  para  a  passagem  das  cachoeiras. 

8,_Obstaculos  que  experimenta  este  comraercio  pelas 
grandes  despezas  em  pura  perda  que  é  forçoso  adiantar 
para  emprehender  a  navegação. 

9.— Maior  obstáculo  na  falta  de  gente,  e  difliculdade  de 
apromptar  a  que  se  precisa,  quer  sejam  indios,  quer 
escravos. 

10.— Tristes  eíTeitos  que  resultam  de  empregar  os  indios 
n'esta  navegação.  Vantagens  para  o  Estado,  e  para  o  com- 
mercio,  de  serem  substituidos  por  escravos  no  maior  nu- 
mero que  fôr  possível. 

It. — Que  tanto  um,como  outro  modo  é  violento;  que,  se 
parece  mais  diflicil  o  de  occupar  escravos,  esse  foi  o  que  se 
praticou  quando  mais  floresceu  este  commercio,  e  que  a  in- 
terrupção d'elle  se  não  pôde  attribuir  á  repugnância  de 
obrigar  os  indios  a  estas  viagens,  como  se  tem  querido  per- 
suadir. 

12.— Exemplos  que  mostram  ter-se  olTectuado,  apos- 
sibillidade  de  se  eíTectuar,  e  que  não  é  arbítrio  novo  o  de 
effectuar-se  esta  navegação  empregando-se  escravos,  e  que 
se  a  causa  da  sua  interrupção  ou  extincção  não  foi  a  que  se 
me  quiz  imputar  falsamente,  fosse  qual  fosse,  sempre  a  exis- 
tência d' este  commercio  será  precária  emquanto  carecer  de 
meios  tão  violentos. 

13.— Applicação  feita  ao  commercio  do  reino  pelo  que  se 
pratica  n*este  para  mostrar  a  verdadeira  causa  que  lhe 
serve  de  embaraço. 


—  40  — 

i  4.— Ou  Ira  applicaçao  à  navegação,  e  commercio  do  Pará 
para  Mato  Grosso  pelo  que  se  pratica  no  commercio  do 
reino,  onde  a  navegação  não  é  continuada. 

15,— Que  a  falta  de  subdivisão  de  trabalhos  é  a  que  mo- 
tiva o  maior  obstáculo  a  este  commercio.  Que  os  estabele- 
cimentos que  ella  exige  são  superiores  aos  recursos  dos  par- 
ticulares, e  que,  ou  se  hão  de  executar  por  conta  da  real 
fazenda,  ou  o  mesmo  monstruoso  s)  stema  deve  proseguir. 

1 0.— Que  a  extincta  companhia  bem  podia  ter  emprehen- 
dido,  e  executado  estes  estabelecimentos,  mas  que  n\im  ao 
menos  auxiliou  o  de  uma  povoação  de  indios,  que  nas  ca- 
choeiras principiou  a  fundar  o  juiz  de  fora  de  Yilla  Bella. 

17.— Que  o  ulil  estabelecimento  de  uma  povoação  não 
pôde  bastar  para  reduzir  o  commercio  aos  termos  de  facili- 
dade que  se  requer.  Quaes  sejão  os  íins  que  se  pretendem 
d^ella. 

18.— Que  estes  fins  só  se  podem  conseguir  compondo-se 
uma  povoação  de  gente  obrigada,  mas  que  a  compôr-se  de 
homens  livres,  raras  vezes  poderão  estender-se  a  mais,  que 
aos  de  facilitar  descanso  e  refresco. 

19.— Que  esta  povoação  com  os  indios  aldeados  nas  po- 
voações existentes,  seria  impossível  de  formar  a  constituir- 
se  no  mesmo  pé.  Que  os  habitantes  da  que  se  formou,  eram 
gentios,  e  que  a  formar-se  de  novo  com  estes  ou  outros, 
será  preciso  muito  tempo,  despeza  etTecliva,e  trabalho, 
para  afinal  depois  de  civilisados  se  seguir  o  mesmo  que 
haverá  de  seguir-se,  fundando-se  cora  os  já  aldeados, e  mais 
civilisados. 

20.— Uellexôos  que  mostram  a  necessidade  do  estabele- 
cer um  corpo  de  gente  propriamente  destinada  para  o  tra- 
balho da  passagem  das  cachoeiras,  e  lavradores  que  a  susten- 
tem. Facilidade  que  concorre  para  a  fundação  doestes  estabe- 


—  41  — 

lecimentos,  por  haver  do  Pará,  e  do  Guyabà  muita  gente 
própria  para  uns  e  outros. 

22.— Que  a  fazenda  real,  por  ter  de  fazer  despezas,  não 
tem  de  fazer  sacriQcios,  antes  ao  contrario  se  procura  um 
novo,  e  avultado  ramo  aos  reaes  rendimentos  sobre  muitas 
vantagens  para  a  mesma  real  fazenda,  para  o  Estado  e  para 
o  commercio,  que  se  facilita  tanto  como  se  a  cada  commer- 
ciante  emprestasse  a  real  fazenda  somma  correspondente 
para  as  despezas  do  transporte,  e  navegação. 

23.— Que  passando  à  pratica  applicaçãod^estesprincipios, 
desde  logo  se  devem  estabelecer  duas  canoas  do  porte  de 
mil  a  duas  mil  arrobas  no  effeclivo  gyro  do  Pará  até  a  pri- 
meira cachoeira,  uma  ou  duas  de  metade  do  porte  d'aquel- 
las  p  ira  o  gyro  da  ultima  cachoeira  até  Villa  Bella,  por  ser 
de  metade  da  extensão  d*aquelle,  e  um  corpo  de  pedestres 
com  embarcações  próprias  para  a  passagem  das  cachoeiras, 
e  bem  assim  os  administradores,  os  depósitos,  e  as  provi- 
dencias necessárias  para  a  segurança  e  brevidade  das  con- 
ducções. 

24.  —Que,  depois  de  se  estabelecer  este  novo  plano  de 
navegação  se  deve  cuidar  eflficazmente  em  proteger,  e  pro- 
mover o  commercio. 

2o.— Que  estas  providencias  se  devem  somente  dirigi- 
de  principio  a  prover  a  continuação  do  commercio  pelo  pror 
posto  plano,  applicando-se  logo  depois  todo  o  cuidado  em 
averiguar  e  estabelecer  as  que  forem  mais  próprias  para 
se  reduzir  a  ultima  regularidade. 

26.— Que  o  serviço  pratico  do  transporte  das  carrega- 
ções nas  cachoeiras  qualquer  pôde  executar,  mas  que 
para  o  de  constituir  o  proposto  plano  na  sua  naturaj 
intelligencia  se  precisa  oilicial  de  maiores  conhecimentos. 
Qual  seja  o  que  se  suppõe  que  os  tem,  e  esteja  à  mão 

TOMO  XXVIII,  p.  I.  6 


—  42  — 

de  o  pôr  em  pratica»  e  por  onde  deve  príDcipiar  este  traba- 
lho,  e  averiguações. 

27.^Que  sem  estas  averiguações  se  nao  deve  fundar  nem 
povoação,  nem  povoadores.  Qual  seja  a  situação  que  todos 
inculcam  para  a  povoação.  Qual  seja  a  principal  circum- 
stancia  que  se  deva  procurar,  a  distribuição  que  se  deva 
fazer  dos  seus  moradores,  e  prevenção  que  deve  haver  a 
respeito  d'elles. 

28.—  Que  em  todas  as  povoações  que  se  têm  fundado  se 
tem  commettido  grandes  erros,  e  quaes  estes  fossem. 

29.—  Que  para  haver  os  povoadores  precisos  se  deve 
evitar  toda  a  idéa  de  coacção.  Meios  próprios  para  os 
attrahir  sem  ella,  e  sacrificios  que  deve  fazer  a  fazenda  real 
além  das  despezas  nos  soccorros  que  adiantar. 

30.—  Juízo  sobre  a  importância  dos  sacrificios,  despe- 
zas annuaes,  despezas  de  empréstimos  que  terá  desoilrer  a 
fazenda  real,  e  por  outra  parte  dos  rendimentos  que  po- 
derá haver  doestes  estabelecimentos. 

31.—  Que  a  fazenda  real  não  deve  fazer  mais  sacrificios 
que  os  indispensáveis,  e  que  sem  constituir  os  colonos  na 
necessidade  de  trabalharem  se  não  conseguirá  d*elles  ofim 
que  se  pretende. 

32.—  Que  é  necessária  a  concurrencia  de  um  ministro 
para  estes  estabelecimentos,  e  quaes  sejanl  os  que  mais  com- 
modamente  podem  ser  empregados,  mas  que  se  deve  pre- 
venir qualquer  motivo  de  implicância  com  o  oificial  militar 
empregado  na  mesma  diligencia. 

33.—  Que  é  preciso  também  prevenir  as  contestações 
entre  os  dois  governos  limitrophes,  por  ser  na  extrema 
d'elles,  e  pelos  reciprocos  esforços  de  um  e  outro  que  se 
hão  de  formar  os  pretendidos  estabelecimentos. 

34.—  Que  ainda  é  mais  preciso  prevenir  as  contestações 
com  os  hespanhões  confinantes.  Juizo  sobre  a  extensão  que 


—  43  — 


DDS  dava  ser  privativa  no  rio  da  Madeira,  o  importância 
de  m  impedir  a  lompo  a  enlrada  d'eUa  aos  mesmos  bes- 
panhóes. 

35,—  Que  para  conseguir  este,  e  os  outros  importantes 
ins,  bast^im  sobre  o  avanço  de  poucas  sommas  e  providen- 
cias opportunas.  Fará  4  de  Agosto  de  17y7. 

INFORMAÇÃO. 

!*— E'  bera  constante  que  a  communicaçâo  do  Pará  para 
lato  Grosso  sô  se  effeclua  pela  navegação  dos  rios  da 
ladeira,  Mamoré  e  Guaporé,  que  nâo  se  tem  se^ido  a  de 
outroSp  nem  ha,  nem  se  tem  tontadoabrir  estradas  de  terra, 
porque  nem  seriam  mais  vantajosas  e  coramodas,  nem  mes- 
mo praticáveis  emquanto  nao  fossem  povoadas. 

2.— A  mesma  navegação  não  se  estende  além  dos  estabe- 
lecimentos do  Guaporé,  e  da  apitai ;  consequentemente  só 
estes  se  provêm  pelo  commercio  do  Pará,  e  os  outros  que 
^0cam  mais  orieulaes,  e  meridionaes,  o  Cuiabá  principal- 
lente  é  provido,  ou  por  semelhante  navegação  desde  a 
capitania  de  S,  Paulo*  ou  pelos  combois  que  sobem  por  es- 
tradas de  terra  d'esta  C4jpil:inia,  e  das  do  Rio  de  Janeiro 
e  Bahia,  atravessando  os  dilatadíssimos  e  agrestes  sertões 
do  Brasil* 

3.— Ainda  que  o  arco  de  circulo  máximo  comprehendido 
entre  as  duas  capitães  do  Pari  e  Maio  Grosso  seja  somente 
de  316  léguas  de  18  em  gráo,  segundo  as  mais  recentes 
observações,  a  distancia  que  é  forçoso  andar  para  passar 
de  uma  a  oulra  pela  indicada  navegação  se  computa  ser  de 
770  legiias  pelo  mais  exacto  roteiro  que  ha  d'ella,  íormado 
pelos  lialieis  aslruoomos  e  engenheiros  que  foram  manda- 
dos para  a  demarcação  não  eíTectuada»  e  ainda  em  toda 
ista  extensão  é  forçoso  vencer  a  constantemente  opposta 


—   44  — 

corrente  desde  que  se  passa  do  Garupa  para  cima,  ou  ainda 
antes  por  ser  já  alli  o  eíFeito  das  marés  quasi  insensível. 

4.— Da  cidade  do  Pará  até  a  primeira  cachoeira  chamada 
de  S.  António  contam-se  466  léguas,  e  em  todas  ellas  não  ha 
obstáculo  mais  que  o  da  corrente  opposta,  que  na  estação 
dos  ventos  geraes  se  vence  commodamente  com  as  velas, 
as  quaes  ainda  em  outro  tempo  não  são  inúteis.  Da  pri- 
meira cachoeira  até  a  ultima  doMamoré,  no  espaço  de  70 
léguas  que  occupam,  a  navegação  tem  muitos  incommodos 
e  interrupções.  Ha  paragens  em  que  os  viajantes  pelo  ha- 
bito que  tomaram,  ou  pela  necessidade  em  que  estão  de 
levar  até  Villa  Beila  as  canoas  em  que  sahem  do  Pará,  têm 
de  as  aliviar  de  parte,  e  de  toda  a  carga,  para  as  levarem  a 
cirga,  e  a  força  de  remo  e  de  varas,  por  perigosos  saltos  e 
estreitos  canaes ;  tem  d'abrir  caminhos,  e  de  fazer  ranchos 
para  passarem  por  terra,  e  para  resguardarem  d'avaria  a 
mesma  carga,  e  tèm  mais  trabalhos  que  estes,  quaes  são  os 
de  arrastar  por  terra  as  mesmas  embarcações  por  diíBceis 
trânsitos  de  subidas,  e  descidas  de  serras,  onde  ordinaria- 
mente padecem  grande  ruina,  motivando  funestos  acci- 
dentes  aos  mesmos  que  se  occupam  n*estes  violentíssimos 
trabalhos.  Da  ultima  cachoeira  até  Yilla  Bella,  que  são  ainda 
234  léguas,  toda  a  navegação  é  desembaraçada,  com  o  único 
inconveniente  da  corrente  opposta,  e  a  haver  vento  com 
que  a  vencer;  se  não  existisse  aquelle  dilatado  obstáculo  das 
cachoeiras,  seria  toda  esta  extensa  navegação  praticável  às 
embarcações  do  maior  porle,  pelo  menos  no  tempo  em  que 
na  parte  superior  os  rios  estão  cheios. 

5.—  Até  Borba,  povoação  que  flca  26  léguas  acima  da  foz 
rio  da  Madeira,  e  dista  do  Pará  306,  acham  os  viajantes  os 
soccorros  que  precisam  nas  muitas  povoações  em  que  po- 
dem aportar  e  lhes  ficam  em  caminho.  De  Borba  para  cima 
toda  a  restante  e  mais  árdua  extensão  é  deserta  até  ao 


-  45  - 

forte  do  Príncipe,  distante  283  léguas,  comprehendidas  as 
70  de  cachoeiras,  onde  foram  mais  necessários  e  urgentes 
os  mesmos  soccorros,  não  só  para  vencer  tão  rigorosos  tra- 
balhos, mas  para  supprir  a  falta  de  viveres  e  da  gente,  que 
pela  mudança  para  climas  mui  ingratos,  e  diversos  d'este, 
foge,  e  morre  a  elTeito  de  cruéis  sezões,  das  corrupções 
que  a  acommettcm  n'estas  viagens  como  nas  de  longo 
curso  no  alto  mar,  e  dos  fluxos  de  sangue,  resultando  mui- 
tas vezes  por  estas  faltas  a  necessidade  de  regressar  e  pedir 
nov )s  viveres  e  nova  gent^  co;n  despezas,  incoramodos  e 
perigos  duplicados. 

fi.  — O  modo  por  que  se  eíTectua  esla  navegação  do  Mato 
Grosso  presentemente  é  o  mesmo  com  mui  pouca  differença, 
que,  o  que  seguiram  os  primeiros  que  a  emprehenderam,  e 
todas  quantíis  dilBculdades,  trabalhos  e  perigos  encontra- 
ram, encontram  hoje  igualmente  os  que  a  emprehendem, 
sem  que  nem  a  experiência,  nem  as  excessivas  despezas, 
nem  a  extraordinária  mortandade  dos  indios,  tenham  agu- 
çado a  industria  para  descobrir  e  estabelecer  outro  mais 
suave,  menos  incommodo  e  funesto,  ou  porque  a  vida,  e  a 
conservação  dos  indios  se  considere  por  pouca  cousa,  ou 
porque  as  providencias  necessárias  sejam  superiores  à  in- 
dustria,  ao  cabedal  o  aos  recursos  dos  particulares.  O 
certo  é  que,  se  a  Providencia  benigna  não  supprisse  abun- 
dantemente a  esies  viajantes  com  o  mais  preciso  alimento, 
que  é  o  que  adquir(3m  da  caça,  e  pi^sca  nos  mesmos  dis- 
triclos  que  atravessam,  so  tivessem  de  carregar  provisões 
equivalentes  para  a  muita  gente,  e  pelo  muito  tempo  que 
consomem  n'estas  viagens,  ainda  deprimindo  nos  jornaes, 
ou  salários  dos  indios,  e  ainda  sendo  estes  obrigados,  nin- 
guém por  conveniência  própria  arrost \ria  a  árdua  empreza 
de  atravessar  as  referidas  i^'ò  léguas  de  deserto  desde 
Borba  até  ao  forte  do  Principe,  e  a  mais  árdua  de  arrastar 


-  4ti  - 

por  altas  serras  as  embarcações,  além  de  outros  mais  tra- 
balhos a  que  se  sujeitam,  e  que  exigem  a  demora  extraor- 
dinária de  quatro,  e  mais  mezes,  só  para  Tencer  as  70 
léguas  de  cachoeiras,  depois  d'outra  igual  para  chegar  a 
ellas,  e  ficando-lhes  ainda  outra  pouco  menor  a  ?encer 
para  chegarem  ao  seu  destino,  quando  nas  embarcações 
apenas  caberiam  os  mantimentos  precisos. 

7.— As  embarcações  de  que  se  usa  n'este  paiz,  a  que  cha- 
mam canoas,  são  as  de  que  se  usa  também  na  navegação  do 
Mato  Grosso ;  mas,  como  se  hão  de  arrastar  por  terra,  por 
subidas  e  descidas,  não  podem  exceder  do  porte  de  mil  a 
mil  e  duzentas  arrobas.  Ainda  assim  nenhum  particular 
pôde  emprehender  a  passagem  n'estes  difficcis  e  perigosos 
trânsitos  com  a  mera  força  dos  remeiros,  competentes  a 
uma  embarcação,  porque  sendo  das  maiores,  e  da  grandeza 
acima  rc^ferlda,  não  se  vara  por  terra  com  menos  de 
100,  120,  e  mais  homens  de  trabalho,  e  ainda  as  me- 
nores do  porte  de  400  a  50)  arrobas,  que  mais  convôm  a 
passageiros  que  a  negociantes,  essas  mesmas  não  se  movem 
com  menos  de  iO,  5i)  e  6 )  homens,  e  como  para  occupar 
tanta  gtmte  é  preciso  occupar  muitas  embarcações,  e  carga 
proporcionada  que  iiidemnisci  a  despcza  que  ella  motiva, 
segue-sc  que  Uies  viagens  e  Uies  cmprezas  só  se  podem 
realizar  ou  por  negociantes  de  cabedal  grosso  e  de  cre- 
dito, ou  por  muilos  quando  se  incorporam  ao  menos  na 
passagem  das  cachoeiras. 

H.— Ou  seja  de  um  só,  ou  seja  de  muitos,  o  comboi  das 
embarcações,  como  mais  ordinariamente  succede,  é  pre- 
ciso adiantar  a  despeza  da  compra  d*ellas,  é  preciso  jà 
desde  o  Pará  fazer  despeza,  c  perder  parte  do  porâo  com 
os  cabos,  ferramentas  e  mais  trem  necessário  para  as  ar- 
rastar, e  para  as  concertar  dos  grandes  estragos  que  pa- 
decem, é  preciso  fazer  grandes  dcspezas,  ou  na  compra 


-  47  - 


de  ôscra?õs  para  remeiros,  ou  em  ajuntar  os  índios  que  se 
obrigam  a  semelhante  serviço,  e  tio  sustento  e  vencimaE- 
ios  iFelles  o  dos  práticos  que  lhes  sâo  indispensáveis,  e  é 
prtíciso  perder  grande  parte  do  porão  das  embarcações 
com  proviraentoSt  ainda  reduzi ndo-se  essencial menle  a 
farinha,  que  jà  nâo  lia  onde  tomar  de  Borba  para  cima,  o 
às  vezes  nera  n'esla  mesma  povoação ;  ó  preciso  emãm 
contar  que  todas  estas  despezas  a  excepção  dos  escravos 
ficam  em  pura  perda. 

9,— Sobre  loilas  esLas  diíTiculdades,  que  facilmente  su- 
perara a  redundância  de  cabeda!  ou  de  credito,  porque  os 
subidos  preço  dos  géneros  em  Mato  Grosso  iodem nisam  o 
emprego  e  empate  delltj,  prevalece  a  da  falta  de  gente, 
mdios,  que  sem  duvida  seriam  os  mais  próprios  para 
t  viagens,  se  o  clima  lhes  não  fosse  tão  fatal,  repugnara 
por  tão  justa  causa  empregar -se  D*ellas,  e  por  terem  sido 
muitos  os  que  se  tém  empregado,  ou  sacrificado^  se  acham 
as  povoações  tâo  extiaustas  quanto  é  constante.  A*  excep- 
ção d^aqueiies  que  chegando  a  habitua  r-se  ao  clima  vém  a 
ser  práticos  d*esla  carreira,  e  vencem  soldadas  mais  cres- 
cidas, acaso  se  achara  algum  que  a  queira  emprehender 
sem  coacção,  porque  os  comboeiros  para  mais  fundamen- 
tarem a  sua  natural  aversão  nao  omíttem  deprimir  o  quanto 
podem  nos  seus  vencimentos,  nos  que  Ibes  vém  apagar 
procuram  desfazer-se  das  fazendas  mais  ruins  por  preços 
enormeSt  não  querem  nem  Despeitar,  nem  que  se  respeitem 
n'elles  os  direitos  que  as  leis  concedem  aos  homens  a 
que  Sua  Mageslade  piamente  foi  servida  restituil-os» 
querem  ser  servidos  e  tratal-os  como  se  servem  e  tra- 
tam os  escravos,  ou  peior,  porque  desde  que  chegam 
termos  de  não  poderem  trabalhar,  que  morram  ou  que 
ram,  como  lhes  nao  custaram  as  sommas  que  aquelles 
custam  pouco  lUes  importa,  do  que  tudo  alem  da  cons* 


—  48  - 

tanle  repugnância  dos  índios  para  todo  o  Irabaiho  pesado 
e  continuado,  resulta  que  um  comboi  de  canoas  esquipadas 
com  elles  quando  chega  a  Mato  Grosso  apenas  conserva 
um  pequeno  numero  dos  remeiros  que  precisa,  tem  sido 
desamparado  d^elles  por  muitas  vezes,  e  tem  inquietado 
três  ou  quatro  vezes  maior  em  repetidos  soccorros  para 
lhe  ficarem  alguns.  Os  pretos  escravos,  que,  supposto  agora 
se  queiram  inculcar  impróprios  e  inhabeis,  substituiram 
sempre  os  indios,servindo  de  remeiros  aos  commerciantes, 
custam  trabalho  grande  parase  ajuntar  o  numero  preciso, 
pela  mui  limitada  importação  e  mui  prompta  extracção  que 
elles  têm  assim  que  chegam,  e  custam  grandes  sommas, 
sendo  o  preço  ordinário  de  cada  um  ViO^  até  loOj). 

10. — Um  comboi  de  canoas  de  um  só,  ou  de  mais  nego- 
ciantes esquipados  com  indios  motiva  terrível  confusão  nas 
povoações  d*elles,  afugenta  muitos,  causa  a  morte  de  ou- 
tros, por  fim  obriga  os  mesmos  negociantes  a  desembolso 
considerável  em  pura  perda,  e  todos  aquelles  effeitos  ainda 
são  mais  sensíveis  se  a  expedição  é  auctorisada  pelo  serviço 
real.  O  mesmo  comboi  esquipado  com  um  pequeno  nu- 
mero de  indios,  quantos  são  indispensáveis  para  práticos  e 
pilotos,  e  todos  os  mais  remeiros  escravos,  poupa  a  vida  de 
outros  tantos  d'aquelles  infelizes,  eviti  as  fugas  de  muitos 
mais,  povoa  as  minas  com  a  íntroducção  de  novos  braços,  e 
se  exige  desembolso  considerável  não  fica  perdido,  antes  o 
retribue  com  avultado  interessye,  poupa  as  despezas  dos  sa- 
lários, indemnisa  o  negociante  pelos  lucros  na  venda  d^elles 
do  prejuízo  que  experimente  na  morte  de  alguns,  a  que  não 
são  tão  sujeitos  como  os  indios,  por  acharem  mais  analogia 
no  clima  do  Mato  Grosso,  e  pelo  differente  trato  que  re- 
cebem dos  senhores,  se  não  por  humanidade,  pelo  interesse 
de  os  conservar.  Finalmente  n'um  comboi  assim  esqui- 
pado tudo  se  move  regularmente  e  à  vontade  de  proprie- 


-  49  — 


târio,  porque  os  indios  por  serem  poucos»  e  pelos  bons 
partidos  que  recebem,  obedecem  e  trabalham  fâo  prom- 
pLimenle  como  os  escravos;  o  mesmo  proprielario  não 
exige  de  uns  e  outros  por  inleresse  próprio  mais  do  qne 
razoavelmente  pôde  pretender,  e  procede  na  sua  penosa 
tiagem  sem  o  receio  de  se  ver  a  todo  o  instante  a  si  e  o 
s*  u  cabedal  em  inteiro  desamparo  pelas  deserções  da  gen- 
ICp  pois  que  os  escravos  ainda  querendo  fugir  os  conlôm  o 
ruedo  do  gentio  e  o  paiz  que  desconbecem>  o  que  tudo  ex- 
tensamente ponderei  em  ofício  q-  14  do  anuo  de  1792  na 
ilâla  de  3)  de  Abril,  para  mostrar  que,  a  continuar-se  o 
mesmo  syslema,  a  navegação  se  faria  mais  vantajosa  ao 
commercio  e  ao  Estado,  occupando-se  em  lugar  de  indios 
para  remeiros  u  maioi^  numero  de  escravos  que  fosse  pos- 
iivel. 

II,— Quer  um,  quer  outro  modo  é  por  certo  violento,  e 
difliculta  a  regularidade  e  facilidade  que  deve  haver  em  to- 
das as  empre^ías  do  commercio  ;  mas  o  primeiro  e  innega- 
velmenle  menos  diflicil,  e  faria  mais  accessiveis  taesempre- 
zas  a  maior  numero  de  individuoSt  até  inteiramente 
extinguir  e  afugentar  os  indios  das  povoações*  O  se^mudo, 
innegavélmente  mais  ulil,  exige  mais  cabedal  e  credito,  mas 
com  estar  este  paiz  em  muito  maior  atrazo  no  tempo  da 
companhia  extincta  do  que  ora  não  esta,  com  ter  então 
muitos  mais  indios  do  que  nao  tem  presentemente,  foi  o 
que  se  praticou  quando  mais  floresceu  o  mesmo  commercio 
eom  mui  poucas  excepções,  ecombois  esquipados  inteira- 
mente com  indios  sò  me  consta  terem  navegado  os  que  su- 
biram a  levar  soccorros  de  géneros,  ou  de  gente  por  conta 
da  fazenda  real;  e  agora  que  estes  combois,  ou  os  que  por 
taes  se  figuraram  por  serem  muitos,  e  mui  successivos  pelo 
apparente  motivo  da  expedição  das  demarcações,  reduziram 
as  povoações  á  decadência  em  que  eslao,  agora  se  intentou 

TOMO  XXVUI»  p*  K  7 


-  50  — 

attribaír  a  interrupção,  ou  extiocçao  que  elles  causaram  ao 
commercio  i  falta  de  índios,  ou  à  minha  repugnância  em 
constranger  e  sacrificar  esse  resto  d'elles  para  continuação 
dos  mesmos  combois,  quando  nem  eram  de  Sua  Magestade  • 
nem  determinados  pela  mesma  senhora,  nem  concorria  jà 
o  mesmo  apparente  motivo^nem  beneficiavam  o  Estado,  que 
nunca  pôde  interessar  em  promover  a  opulência  d*alguDS 
particulares  peío  sacrificio  da  vida  de  centos  d'outros. 

12.— João  de  Sousa  de  Azevedo,  um  dos  que  mais  fre- 
quentou esta  carreira  no  seu  principio,  e  que  descobriu  a 
do  Tapajoz  não  continuada,  jamais  quiz  para  taes  viagens 
senão  os  seus  escravos,  e  com  razão,  porque  os  pra- 
tos são  muito  mais  robustos  e   próprios  para  os  tra* 
balbos  violentos  do  que  os  Índios  depois  que  adquirem 
a  intelligencia  necessária  para  os  executar.  Todos  os  com- 
boelros  que  desceram  no  tempo  da  companhia,  a  demora 
que  tinham  em  partir,  era  a  de  ajuntar  escravos,  porque 
quantos  ella  introduzia  logo  se  distribuiam.  Em  os  ajun- 
tando, ou  se  ainda  a  companhia  tinha  alguns,  providos 
d'elles,  e  das  carregações  quasi  inteiramente  a  credito,  nada 
mais  solicitavam,  nem  se  lhes  concedia  por  este  governo  do 
Pará,  do  que  cinco  indios  para  cada  canõa,e  estes  comboei- 
ros  assim  emprehenderam  e  executaram  as  suas  viagens, 
correspondendo  quasi  todos  à  mesma  companhia  com  paga- 
mentos promptos.  Logo,  esta  navegação  é  praticável,  e  utii 
fazendo-se  com  escravos.  Logo,  não  é  arbítrio  novo  e  de 
minha  invenção,  nem  chimerico,  nem  impossível,  como  se 
me  quiz  arguir;  e  se  a  outras  causas  mais  próximas  se  deve 
attribuir  o  abandono  a  que  chegou  este  commercio,  não 
digo,  como  tenho  ouvido  de  alguns,  que  seja  inteiramente  a 
da  pauta  de  preços  que  se  taxaram  aos  géneros  introdu- 
zidos por  esta  via  do  Pará,  que  desviou  os  comboeiros  para 
a  do  Rio  de  Janeiro,  ou  a  do  commercio,  que  se  introduzia 


-  SI  — 


nos  combois  qne  §ô  pretexlaYam  úteis  e  necessários  para  o 
serviço  real,  e  provimento  dos  armazéns  reaes,  ou  a  da  ei- 
Itncçlo  da  companhia,  e  consequente  íalla  de  empréstimos^ 
6  avançoSt  ou  a  má  fé  de  alguns  dos  comboetros  a  que  se 
pemiillin  relirarem-se  para  o  Rio  de  Janeiro  com  os  cabe- 
daes  que  tinham  levado  a  credito  do  Pará,  porque  aquella 
pauta  íiao  sei  se  se  observou  escrupulosamente,  porquo, 
apezar  do  commercio  que  se  introduzia  gratuito  nas  expe- 
dições do  serviço  real,  ti3o  é  de  crer  que  fosse  lanlo  que  to- 
lhesse totalmeute  outro  qualquer,  porque  aioda  em  tempo 
da  companhia  começou  a  declinar  o  commercio,  porque 
assim  mesmo  frouxamente  continuou  depois  da  sua  extinc- 
çio»  e  porque  em  toda  a  parte  sempre  ha  uns  que  proce- 
dem bem,  o  outros  que  procedemjmal,  mâs  digo  que  em- 
quanlo  o  commercio  depender  de  meios  tão  violentos,  a  qual- 
quer miuima  concussão,  a  sua  existência  precária  cessará,  e 
sem  esforços  extraordinários  nao  poderá  restabelecer-se. 

13.— Para  sentir  esta  solida  verdade,  para  reconhecer 
quanto  sejam  violenlus  os  meios  de  que  depende  este  com^ 
mercio  e  a  sua  consequentemente  precária  existência,  const* 
dere  se  o  da  metrópole  dependentemente  dos  mesmos  meios, 
venho  a  dizer  que  o  negociante  que  queira  prover  as  provio- 
cias  dos  géneros  da  producçao  do  Pará  para  os  mandar,  ou 
lerar  de  Lisboa  ao  Porto  precise  comprar  um,  ou  mais  biates 
que  para  os  espalhar  pelos  mercados  das  províncias,  das 
cidades,  e  vi  lias  do  interior,  precise  comprar  carros,  cavai* 
gaduras,ou  embarcações  próprias  para  os  trajectos  por  agua 
onde  fossem  necessários,  e  por  fim  que  todos  estes  hiales. 
Carros,  cavalgaduras,  e  embarcações,  completa  a  viagem^  fi- 
quem inúteis:  haverá  porventura  muitos  que  possam  6 
^queiram  emprehemler  semelhantes  negociações?  Haverá 
genta,  a  cabedal  bastante  para  se  empregar  em  muitas  ? 
Deverá  attribuir-se  a  irregularidade,  a  interrupção,    a  falia 


—  52  — 

d'ellas,  e  a  carestia  dos  géneros,  vagamente  a  uma,  oaoatra 
causa,  quando  a  verdadeira  e  constante  está  saltando  aos 
olhos  ?  Como  pois  no  commercio  de  Mato  Grosso  se  não 
querveramesmácausa,e  ainda  mais  activa?!  Digo  mais 
activa  porque  os  negociantes  do  Pará,  e  os  mais  atrazados 
de  Mato  Grosso,  têm  muito  menos  cabedal  proporcional- 
mente que  os  do  reino,  porque  estas  capitanias  têm  muito 
menos  população,  porque  no  reino  não  seria  preciso  ir 
rompendo  estradas,  ir  fazendo  casas,  e  levar  o  provimento 
de  viveres  para  atravessar  tão  dilatados  desertos  como 
n'esta  navegação  se  precisa. 

14.— Se  esta  reflexão  não  basta  ainda  para  constituir 
tão  importante  objecto  no  seu  verdadeiro  ponto  de  vista, 
considere-se  inversamente  que  este  commercio  se  pôde 
effectuar  como*  se  effectua  o  do  interior  do  reino,  onde  a 
navegação  não  é,  ou  não  pôde  ser  continuada,  venho  a 
dizer  que  do  Pará  até  a  primeira  cachoeira  andem  embar- 
cações a  frete,  e  não  menos  da  ultima  até  Villa  Bella ;  que 
desde  a  primeira  cachoeira  até  a  ultima  haja  homens  e 
embarcações  opportuna  e  propriamente  coUocadas  para 
fazer  os  transportes  das  cargas,  onde  podem  fazer-se  por 
agua,  e  que,  onde  ora  se  precisa  arrastar  por  terra  as  em- 
barcações, haja  cavalgaduras  e  carros,  ou  carroças  para 
transportar  somente  as  cargas  das  que  navegam  no  plano 
inferior  do  rio  para  as  que  navegarem  no  superior,tudo  em 
termos  que,  assim  como  o  negociante  do  Pará  pode  dirigir 
ao  seu  correspondente  em  Trás  os  Montes  quaesquer  gé- 
neros d'este  paiz,  sem  mais  trabalho  que  o  de  os  fazer  em- 
barcar em  um  navio,  e  escrever  ao  seu  correspondente  de 
Lisboa,  que  paga  os  fretes,  faz  a  remessa  ao  Porto,  a  outro 
correspondente,  e  escreve  a  este,  que  paga  os  novos  fretes, 
dirige  os  géneros,  ou  por  agua  ou  por  terra,  a  outro  cor- 
respondente, e  este  a  outro  successivamente  até  chegarem 


-  53  — 

â  mao  da  pessoa  a  que  se  dirigem,  que  paga  todos  os  fretes 
e  despezas,  assim  também  o  que  quizer  remetter  alguns  a 
Mato  Grosso,  não  tenha  mais  a  fazer  do  que  proporcional- 
mente o  mesmo  que  fica  referido.  Quem  não  verà.n'este 
supposto  gyro  constituido  o  commercio  no  seu  estado  na- 
tural? Quem  deixará  de  reconhecer  que  todos  os  outros 
meios  por  que  é  obrigado  a  correr  são  violentos,  são  for- 
çados, e  não  lhe  pcrmittem  mais  que  uma  mui  precária 
existência  ? 

15.— Esta  subdivisão  de  trabalhos,  uma  das  mais  pode- 
rosas causas  da  prosperidade  e  opulência  das  nações  que  a 
sabe  conhecer  e  promover,  é  a  que  falta  em  muitos  ou- 
tros ramos  de  economia  publica,  e  da  falta  d*ella  resulta 
o  atrazo  d'esta,  como  geralmente  de  todas  as  mais  colónias. 
Entre  as  nações  poderosas  que  têm  cabedal  e  população 
mais  proporcionada  à  extensão  com  pequeno  impulso  dos 
seus  governos  se  estabelece.  Nas  colónias  não  succede  o 
mesmo,  porque  ainda  havendo  cabedal  falta  população,  e 
falta  nos  indivíduos  d'ella  a  industria,  o  espirito  de  espe- 
culação, a  vontade  de  trabalhar,  e  sobejam  os  meios  de 
adquirir  sem  o  incommodo  de  servir  a  outrem.  Ainda 
havendo,  como  não  considero  que  haja,  no  commercio  do 
Pará  cabedal  proporcionado  para  emprehender  e  empatar 
nos  estabelecimentos  que  exige  a  referida  subdivisão,  a 
conveniência  própria  não  será  bastante  para  arrastar  e 
conservar  os  operários  que  necessita,  sem  intervir  a  aucto- 
ridade  publica ;  e,  com)  nem  esse  mesmo  cabedal  certa- 
mente ha,  é  forçoso  que,  ou  o  commercio  do  Pará  para 
Mato  Grosso  continut^.  a  correr  pelo  mesmo  monstruoso 
system:i,  ou  que  Sua  Magestade  se  digne  tomar  este  ob- 
jecto debaixo  da  sua  real  protecção,  e  que  as  disposições 
necessárias  se  façam  á  custa  da  sua  real  fazenda. 

16.— -Bem  podia  a  extincta  companhia  do  Pari  ter  em- 


-  54  - 

prebendido,  e  ter  executado  com  grande  vantagem  própria 
estes  ateis  estabelecimentos;  infelizmente,  porém,  nem 
ao  menos  o  de  um  triste  edifício  deixou  n'esta  cidade  para 
perpetuar  a  sua  memoria,  e,  a  não  ter  feito  alguma  intro- 
ducção  de  escravos  no  Maranhão,  e  de  poucos  n'est6  paiz, 
mereceria  a  mais  execranda  pelo  abuso  com  que  firustroo 
as  benéficas  intenções  com  que  foi  instituida.  Ella  não  só 
preteriu  este  tão  importante  objecto,  mas  nem  ainda  consta 
coadjuvasse  a  útil  idéa  do  juiz  de  fora  de  Villa  Bella,  ir- 
mão do  conselheiro  Alexandre  de  Gusmão,  quando  deu  prin- 
cipio a  fundar  nas  Cachoeiras  uma  povoação  de  indios,  para 
o  que  mais  é  nem  achou  as  precisas  assistências  d'este 
governo,  nem  do  de  Mato  Grosso,  e  pouco  depois  de  prin- 
cipiada teve  de  extinguír-se  com  a  morte  do  mesmo  juiz  de 
fora. 

1 7.  —O  estabelecimento  de  uma  povoação  nas  Cachoeiras, 
única  providencia  porque  geralmente  clamam  todos  desde 
muitos  annos,  é  sem  duvida  útil  e  necessária,  mas  nunca 
pôde  por  si  só  bastar  para  reduzir  o  commercio  aos  ter- 
mos de  facilidade  que  indiquei,  menos  que  seja  tão  popu- 
losa, que  os  seus  moradores  occupem  a  maior  parte  da 
extensão  de  cachoeiras,  o  que  por  ora  é  quasi  impossível. 
A  povoação  que  se  principiou  a  fundar  e  a  que  se  pretende 
era,  e  deveria  ser  uma  aldêa  de  indios  como  qualquer  ou- 
tra das  d*este  paiz.  A  conveniência  e  vantagens  que  se  pre- 
tendem d'ella  são  as  de  achar  promptos  os  viveres  para  a 
demora  da  passagem  das  cachoeiras,  e  a  gente  precisa  para 
auxiliar  os  negociantes  n'estes  trabalhos,  e  para  supprir  a 
que  tenha  morrido,  adoecido,  ou  fugido  ;  prevenindo  assim 
os  novos  perigos,  incommodos,  demoras  e  despezas  por 
que  forçosamente  têm  de  passar,  quando  por  lhes  faltarem 
viveres  e  gente  são  obrigados  a  descer  a  Borba,  e  a  outras 
mais  remotas  povoações,  para  solicitarem  soccorros,  e  ainda 


^  m  — 


sem  o  fim  de  prerençao,  mas  sò  pelo  da  coavenieDCÍa  de 
subsiituir  muita  carga  de  comraercio  oo  vâo  que  sao  obri- 
gados a  perder  em  eousideraveis  provimentas  de  ?i?ere9, 
18*— Todas  estas  pretendidas  vanlageas  no  pé  actual  a 
que  os  directores  reduziram  os  iadios»  e  as  povoações 
delias,  isk)  é,  no  pé  de  considerarem  os  índios  como  servos 
OQ  escravos,  a  povoação  como  curral  d^elles,  no  de  nem 
respeitarem  a  sua  voEitade,  o  seu  interesse,  a  sua  proprie- 
did6,  a  sua  vida,  pôde  ser  que  os  viajantes  encontrassem» 
sabendo  commeller  ao  director  bons  partidos.  Mas,  se  esta 
povoação  se  roíluzisse  aos  termos  que  prescrevem  as  leis,  se 
fosse  possivel  haver  um  direclor,qae  não  abusasse  das  soas 
dispoi^içueSt  e  da  confiança  que  fazem  d'elle,  se  em  lugar 
de  Índios  se  considerar  que  são  brancos  os  moradores 
cl'e]la,  reconliecer-sc-ha  por  mui  incerta  outra  vantagem 
aos  viajantes  mais  que  a  de  acharem  descanso,  viveres  e 
refresco,  c  muito  por  acaso,  uma  vez  ou  outra,  alguns  in- 
divíduos, que  por  conveniência  própria  os  queiram  servir, 
largando  o  seu  eslabelecimen lo,  grande  ou  pequeno,  e  a  sua 
família,  para  omprebenrltírera  uma  viagem  que  ainda  dV 
quelia  situação  para  diante  é  dilatada,  ou  mesmo  para  só- 
menlB  se  arriscarem  a  viulenLissimos  trabalhos  na  passa- 
gem das  cachoeiras,  sendo  de  mais  a  mais  tiies  trabalhosa 
laes  viagens  em  climas  lao  fimeslos  aos  mesmos  Índios. 
Ouer  d  estes,  quer  dos  brancos,  nenlmm  procurará,  nem 
80  conservara  voluntariamente  era   situação  semelhante, 
senão  por  força  de  interesse,  e,  como  o  de  servir  aos  via- 
jantes nunca  pôde  slt  uomparavel  ao  de  cultivar  as  terras, 
ou  ao  de  exlrafiir  d'elias  os  géneros  que  espontaneamente 
produz  a  natureza,  segue-se  que  lai  povoação,  intervindo 
a  abusiva  coacção  que  acijna  referi,  em  pouco  tempo  ficaria 
deserta;  não  intervindo  seria  somente  ulil  a  uns,  mas  inútil 
a  outros  respeitos,  sendo  todos  Decessariús. 


—  56  — 

19.— Das  povoações  e  dos  índios  presentemente  exis- 
tentes n'ellâs,  considero  impossivel  formar-se  a  que  se 
pretende,  e  tão  populosa  como  devera  ser  para  corres- 
ponder aos  pretendidos  fms,  pois  que  é  constante  o  estado 
deplorável  de  todas,  e  que  entre  ellas,  apenas  em  seis  ou 
oito  se  contavam  cem  homens  de  trabalho ;  sobre  o  que  se 
deve  attcnder  a  sua  aversão  ao  clima,  e  não  menos  a  que 
justamente  tem  para  a  sujeição  a  directores,  que  antes 
querem  andar  vagando,  do  que  persistir  n^aquellas  em  que 
nasceram,  que  existem  em  situações  agradáveis  e  sadias. 
Os  que  habitaram  a  que  se  fundou  nas  cachoeiras  eram 
da  nação  pamas,  que  habita  ainda  aquellas  mesmas  terras, 
vagando  como  costumam  os  mais  gentios,  ora  pelo  inte- 
rior e  terras  altas,  ora  pelas  margens  dos  rios,  segundo  a 
differença  das  estações  e  as  guerras  que  entre  si  têm.  Para 
se  fundar  com  este  ou  com  outros  gentios,  a  desejada  po- 
voação será  preciso  muito  tempo,  muito  trabalho,  cuidado 
c  despeza  de  que  a  final,  ou  quando  cheguem  a  civilisar-se, 
ou  quando  se  aborreçam,  virá  a  seguir-sc  o  mesmo  fim  que 
acima  expuz. 

2i).— A  navegação  pelo  espaço  que  occupam  as  cachoei- 
ras não  é  de  instantes,  nem  de  horas.  E'  mui  violenta,  é 
mui  prolongada,  exige  demora  de  mezes,  exige  estação 
própria,  exige  averiguações  e  reconhecimentos  que  não  têm 
havido,  porque  cada  um  só  traia  de  passar  como  passaram 
os  mais ;  e  exige  por  consequência  um  corpo  de  gente  pro- 
priamente destinada  para  este  fim,  não  para  vagamente  au- 
xiliar as  expedições  mercantis  de  um,  ou  outro  que  acaso 
se  lembre,  e  tenha  possibilidades  de  as  tentar,  mas  para  ef- 
fectivamente  se  occupar  na  passagem,  e  transporte  do  com- 
mercio,  sempre  perenne.  Este  corpo  de  gente  poderá  pelo 
decurso  do  tempo  constar  lambem  de  indios,  depois  que  se 
habituarem  ao  clima,  perdido  o  horror  que  conservam  a  elle ; 


-  57  — 

perora  só  deve  constar  (l'aquella  que  jà  está  habituada,  que 
é  a  de  Mato  Grosso.  Esta  gente  carece  de  viveres,  não  ha  de 
distrahir-se  em  os  ir  buscar  a  grandes  distancias,  deve  achai- 
os  à  mão,e  por  isso  necessila  de  lavradores,  e  que  estes  sejam 
homens  capazes  de  trabalho,  que  conheçam  as  vantagens 
que  podem  tirar  dos  estabelecimentos  que  formarem,  e 
que  saibam  procurar  recurso,  e  preservar-se  quer  da  in- 
tempérie do  clima  e  das  estações,  quer  do  vicio  das  admi- 
nistrações, sem  recorrerem  às  fugas  e  deserções,  a  que  os 
índios  única   e  indistinctamente  recorrem ;  consequente- 
mente carece  de  homens  brancos,  e  escravos,  que  são  os  úni- 
cos lavradores  attendiveis  n'estes  paizes,  e  com  estes  é  que 
se  deve  fundar,  com  estes  è  que  se  pôde  contar  sobre  as 
vantagens  de  uma  povoação.  Com  índios  também  se  virá  a 
contar,  mas  ha  de  ser  com  os  que  a  estes  se  aggregarem, 
com  os  que  por  bons  partidos  e  tratamento  conservarem,  e 
com  os  que  se  forem  misturando  comaquelles,  como  nas 
-mais  povoações  e  nos  mais  districtos  d'este  paiz,  tem  sue-' 
cedido.  Tudo  o  mais  é  violento,  e  o  que  assenta  sobre  vio- 
lência não  pôde  continuar,  nem  prosperar. 

21.— O  Pará  abunda  de  homens  que  vegetam  em  uma 
triste  choupana  rodeada  de  algumas  arvores  fructiferas,  ede 
outros  que  nem  isto  têm,  os  quaes  todos  logo  que  se  lhes  fa- 
cilitem escravos,  logo  que  se  facilitem  meios  de  se  estabe- 
cerem,  ainda  que  tenham  de  indemnisar,  e  retribuir  com  a 
importância  doestes  soccorros,  não  duvidarão  aceitar  as 
terras  que  se  lhes  derem  para  cultivar,  principalmente 
quando  sabem  que  as  que  estão  adjacentes  às  cachoeiras  são 
férteis,  são  abundantes  de  todos  os  fructos  da  producção 
d'este  paiz,  e  que  o  clima  não  é  tão  nocivo  aos  brancos;  e 
pretos  como  aos  indios,  e  ainda  a  estes  talvez  não  tanto 
pela  aspereza  d'elle,  como  pela  sua  rusticidade  e  ignorân- 
cia. Mato  Grosso,  ou  Guyabà  abunda,  ao  que  dizem,  de  mes- 
TOMO  xxviii,  p.  1-  8 


—  58  ~ 

ticos,  mulatos,  e  pretos  forros,  de  que  se  compõem  as  com- 
panhias de  pedestres»  que  fazem  D*aquella  capitania  todo  o 
serviço  que  n*esta  fazem  os  iudios,  e  quando  é  preciso  tam- 
bém o  serviço  militar,  sendo  para  um,  e  para  outro  igual, 
mente  próprios  pela  qualidade  do  clima  e  robustez  da  soa 
constituição.  Faltam  pois  unicamente  os  meios  para  pôr 
esta  gente  em  acção,  faltam  as  disposições  competentes,  e 
nada  se  poderá  executar  sem  que  a  fazenda  real  concorra 
com  as  despezas  necessárias,  e  sem  que  Sua  Magestade  se 
digne  estabelecer  e  regular  o  plano  que  se  haja  de  seguir. 

22.— Porque  a  real  fazenda  haja  de  fazer  despezas  nao 
se  segue  que  haja  de  fazer  sacrificios,  ao  contrario  ellas  lhe 
promettem  muito  avultados  interesses,  não  sò  de  promover 
e  facilitar  o  commercio,  bem  como  se  a  cada  commerciante 
fizesse  os  avanços  necessários  para  a  navegação  de  soas 
carregações,  com  o  que  vem  a  promover-se  a  cultura,  e  a 
extracção  do  ouro  nas  minas  de  Mato  Grosso,  onde  pela  ca- 
restia de  preços  dos  géneros  de  primeira  necessidade  è  mui 
dií&cil,  e  está  tão  atrazada,  mas  ainda  por  estabelecer  um 
novo  ramo  aos  reaes  rendimentos  nos  lucros  dos  fretes 
doesta  navegação,  logo  que  se  execute  nos  termos  próprios 
que  referi,  porque  tacs  lucros  sem  coacção  alguma  necessa- 
riamente lhe  ficam  privativos,  e  devem  ser  mui  considerá- 
veis, ficando  os  preços  dos  fretes  sempre  mais  commodos  a 
qualquer  commerciante  do  que  lhe  ficariam  em  expedição 
própria,  que  emprehendesse. 

23.— Reduzindo,  pois,  estes  expostos  principies  a  uma 
pratica  applicação,  parece-me.  Primeiro:  Que  por  conta  da 
real  fazenda  se  devem  mandar  estabelecer  desde  logo  doas 
canoas  do  porte  de  duas  mil  arrobas,  ou  mais  se  o  commer- 
cio as  exigir,  que  de  seis  em  seis  mezes  hajam  de  partir 
da  cidade  do  Pará,  e  navegar  até  a  primeira  cachoeira  com 
as  carregações  que  a  praça  quizer  mandar,  pagando  os 


compelenles  fretes,  destinaodo-se  um  negociante  para  cor- 
rer com  esta  administração,  ou  arremanlando-se  por 
€on irado,  como  sejam  estabelecidos  os  preços  dos  fretes 
0  se  não  possam  alterar.  Segundo  :  Que  em  Mato  Grosso 
se  deve  crear  de  novo^  ou  destacar  dos  existentes 
um  corpo  de  GO  ou  HO  pedestres  com  os  seus  oHiciaes 
competentes  para  se  estabelecer  nas  cachoeiras,  e  na  para- 
gem mais  coiivenitíDte,provcndo-se  de  embarcações  próprias 
para  no  decurso  do  auno  etfec  ti  vãmente  se  occupar  em  fti^ 
zer  com  ellas  <fs  Iransporics  n^aquelle  espaço  diíBciL  Ter- 
ceiro :  Que  em  Villa  Bella  se  estabeleça  ou  umacanCia  do 
porte  de  duas  mil  arrobas,  ou  duas  do  porte  de  mil  cada 
uma,  como  for  mais  commodo  á  navegação,  esquipadas  com 
os  mesmos  pedestres,  para  ulUmarem  ns  transportes  da  ol- 
iima  cachoeira  até  a  dita  vitia, porque  sendo  metade»  menos 
extensa  a  distancia  que  do  Para  até  a  primeira  cachoeira,  nSo 

lige  senào  metade  mi^nos  no  porte  do  mesmo  numero  do 
embarcações*  Quarta:  Que  na  primeira  cachoeira  haja  um 
administrador  para  tomar  conta  dos  carregaçõeSi  que  sa  Ibe 
remetlerem  do  Pará,  c  as  dirigir  ao  commandante  dos  pedes- 

rtís,  este  a  outro  administrador  que  deve  haver  na  ultima 

lehoeira,  e  este  ao  da  alfandega  de  Vil  la  Belta,  onde  as 
partes  podem  procurar  as  remessas  que  lhe  pertencerem. 
Quinto :  Que  cada  ura  d*estes  administradores  deve  ser  res- 
pim sável  pelos  i»rejuÍzos,  e  avaria  da  carga  no  distrícto  que 
lhe  pei*leiicer,  o  os  cabos  das  embarcações  durante  as  via- 
gens, mas  que  toda  a  que  se  achar  avariada  sem  se  saber,  e 
Sã  fazer  certo  onde  se  avariou,  como, quando,  e  se  julgar  que 
mo  houve  causa  bastante,  pague  o  seu  valor  o  ultimo  que  a 
entregar  n*este  estado  :  pois  que  a  não  es  lar  a  culpa  n^elle 
estará,  pelo  menosa  ile  omissão  em  a  não  ter  visto,  e  toda 
À  vigilância   deve    haver,  afim  de  evitar  taes  prejuízos, 

jie  podem  mleiranicnle  embaraç^ar  o  commercio,  desgos* 


—  co- 
tando os  commerciantes,  ainda  que  alguns  serão  indispen- 
sáveis, como  em  toda  navegação  saccede,  mas  por  isso  mes- 
mo se  deve  fazer  certa»  e  publica  ajusta  causa  d*elles. 
Sexto  :  Que  os  fretes  das  mercadorias  se  paguem  no  Pará, 
os  da  conducção  até  a  primeira  cachoeira ;  e  em  Mato 
Grosso  os  do  transporte  d'esta  até  a  villa  capital,  regulando- 
se  os  primeiros  pelo  estado  dos  que  se  pagam  nas  mais  nave- 
gações do  Amazonas,  e  os  segundos  em  Mato  Grosso  pelo 
que  se  arbitrar,  segundo  o  calculo  prudente  que  se  formar  a 
respeito  d'elles.  Sétimo :  Que  todas  as  despezas  do  custea- 
mento  de  embarcações,  navegação,  e  transporte  até  a  pri- 
meira cachoeira  se  façam  pela  junta  da  administração  da  fa- 
zenda real  do  Pará,  e  todas  as  mais  d*esta  cachoeira  para 
cima  pela  provedoria  de  Mato  Grosso,  pois  que  é  seu  o  dis- 
tricto,  a  utilidade  que  ha  de  colher  muito  maior,  e  que 
aguas  abaixo  nas  embarcações  que  hão  de  vir  buscar  carga, 
em  lugar  de  navegarem  em  lastro,  podem  trazer  prompta- 
mente  os  viveres,  e  assistências  precisas,  sem  íncommodo 
algum.  Oitava :  Que,  acudindo  mais  redundância  de  carga 
no  Pará,  se  augmente  gradualmente  o  numero  das  embarca- 
ções, e  da  mesma  forma  se  reforce  o  destacamento  das 
cachoeiras,  e  se  augmente  o  numero  das  embarcações  que 
devem  fazer  o  ultimo  gyro. 

24.—  Estabelecida,  e  facilitada  a  navegação,  é  preciso 
ainda  promover  a  facilidade  das  remessas  em  taes  nego- 
ciações, procurando-se-lhes  a  possível  segurança  no  em- 
bolso, e  cohibindo-se  por  todos  os  meios  possíveis  as 
extorsões,  a  fraude,  e  a  má  fé,  a  que  o  commercio  nunca 
resiste,  e  menos  em  semelhantes  distancias.  O  que  mais 
efficaz  me  occorre  a  este  respeito,  é  que  nas  referidas  em- 
barcações, nem  a  titulo  de  mimo,  presente,  ou  qualquer 
outro,  se  prohiba  com  as  mais  rigorosas  penas  embarcar 
volume  algum,  por  pequeno  que  seja,  e  por  grande  que  seja 


-  61  - 

a  pessoa  a  que  se  dirija,  sem  que  pague  o  competenle 
frete. 

Tudo  o  que  se  apanhar  fora  das  lislas  seja  tomado,  mas 
pagando  frete  tudo  seja  recebido,  pois,  embora  possa  haver 
concurrencia  de  commercio  extranho,  já  não  prejudicará, 
ou  excluirá  o  da  praça.  Parece-me  também  que  aos  go- 
vernadores de  Maio  Grosso,  como  a  todos  os  do  interior 
do  Brasil,  deve  ser  prohibida  a  faculdade  de  conceder  licen- 
ças aos  combefeiros,  que  sobem  dos  portos  de  mar  com  car- 
•  regações,  e  aos  do  próprio  paiz,  que  as  recebem  d*aqueiles, 
n*uma  palavra  a  todos  os  que  têm  relações  de  commercio 
em  um  porto  de  mar,  para  se  passarem  para  outro  sem  ou 
ajuntarem  ordens  e  licenças  de  seus  credores,  e  consti- 
tuintes, ou  sem  mostrarem  legal  e  competentemente  que 
já  liquidaram,  e  solveram  as  contas  que  tinham  com  elles. 
Parece-me  mais  que  a  respeito  das  cobranças  no  interior 
da  America  se  devem  accrescentar  ás  disposições  gcraes  das 
leis  as  que  a  differença  de  circumstancias  faz  urgentíssimas, 
para  que  o  commercio  floresça,  e  continue  sem  as  interru- 
pções a  que  está  sujeito. 

25.—  Todas  as  disposições  indicadas  no  §  23,  sobre  o 
estabelecimento  da  navegação,  se  devem  reduzir  de  prin- 
cipio ao  que  fôr  meramente  preciso,  para  que  o  commercio 
possa  aproveitar-se  quanto  antes  de  tão  útil  providencia, 
mas  logo  depois  se  deve  cuidar  em  reduzir  a  ordem,  e  con- 
solidar a  mesma  navegação  com  os  estabelecimentos  ade- 
quados,  que  sem  tempo  e  sem  trabalho  elTectivo  nas  ave- 
riguações necessárias  se  não  podem  regular. 

26. —  Para  o  trabalho  pratico  da  navegação  no  espaço 
de  cachoeiras  basta  qualquer  oílicial,  ou  dos  da  tropa  de 
Mato  Grosso,  ou  dos  da  d'este  paiz,  que  tenham  feito  algu- 
mas viagens ;  mas  para  examinar,  regular  e  estabelecer  o 
mais  commodo,  fácil,  e  breve  que  se  deva  seguir,  o  nu- 


-  62  - 

mero  de  homens  e  de  cavalgaduras,  o  nmnero,  qualidade 
e  porte  das  embarcações  e  dos  carros,  as  situações  em  que 
se  devem  postar,  as  eslradas  que  se  devem  abrir,  não  basta 
nenhum  d*estes,  e  se  precisa  outro  de  conhecimentos  e 
actividade  fora  do  commuin.  O  que  supponho  ter  estas 
qualidades,  e  está  mais  à  mão  de  executar  diligencia  iSo 
importante,  é  o  tenente  coronel  Ricardo  Franco  de  Almeida 
Serra,  actualmente  empregado  em  Mato  Grosso.  As  pri- 
meiras averiguações  devem  dirigir-se  às  cachoeiras,  em  que 
se  costumam  passar  as  embarcações  em  varadouros  por  terra, 
para  examinar  se  ha  estações  em  que  se  possam  passar  a 
canal,  se  tem  contiguos  alguns  igarapés,  ou  ribeiras,  que 
limpando-se  facilitem  mais  a  navegação,  ou  se  é  absoluta- 
mente impedida,  para  em  tal  caso  se  abrir  estrada  própria, 
se  fazerem  ranchos,  se  prepararem  carros,  ou  carroças,  e 
se  ajuntarem  as  cavalgaduras,  que  de  Mato  Grosso  aguas 
abaixo  se  conduzem  com  brevidade  e  facilidade,  anticipan- 
do-se  o  trabalho  de  limpar  de  iMato  Grosso  porção  que  íôr 
bastante  para  pastarem.  As  cachoeiras  que  ouço  reputar 
por  mais  difficeis  e  trabalhosas  são  as  que  chamam  do  Salto, 
do  Giraú,  do  Ribeirão  e  da  Bananeira,  mas  nem  todas 
exigem  varadouro  senão  em  certas  estações  em  que  os  rios 
tèm  mais  ou  menos  agua.  As  outras  mais  commummente 
ouço  que  tém  canaes,  e  no  Diário  que  jà  accusei  vejo  que 
descontados  os  dias  de  demora  em  descarregar,  e  carregar 
as  canoas,  em  as  varar  por  terra,  em  as  concertar,  em 
abrir  estradas  e  fazer  ranchos,  para  apurar  somente  os  de 
navegação  elTectiva ;  vejo,  digo,  que  estes  são  mui  poucos,  e 
em  consequência  julgo  que  feitas  as  opportunas  providen- 
cias indicadas  em  muito  menos  será  praticável,  e  a  pouca 
gente  não  tendo  outro  serviço  em  que  se  occupe. 

27. —  Para  o  estabelecimento  de  povoadores  e  de  po- 
voação deve  preceder  o  examo,  as  averiguações,  e  os  esta- 


—  63  - 

belecimentos  acima  requeridos,  pois  qae  aquelles  se  diri- 
gem, OQ  devem  dirigir  a  sustentar  e  consolidar  estes.  Â 
situação  que  todos  uniformemente  dizem  ser-a  mais  própria 
para  se  estabelecer  a  povoação  é  a  da  cachoeira  do  Salto, 
onde  houve  a  de  que  jà  fallei ;  comtudo  para  os  fins  indi- 
cados pôde  ser  que  não  seja  a  mais  própria,  e  pelo  menos  é 
certo  que  n'aquella  situação  não  serve  nem  para  o  primeiro 
deposito,  nem  para  o  ultimo;  em  preferencia  a  tudo,  acho 
eu  que  se  deve  procurar  a  mais  sadia,  e  depois  que  também 
preencha  alguns  dos  muitos  fins  úteis  para  que  deve  servir, 
e  como  por  ser  mui  grande  a  extensão  das  cachoeiras,  não 
é  possível  que  sem  muito  tempo  se  povoe  toda,  não  devem 
lodos  os  colonos  situar-se,  e  formar  os  seus  estabeleci- 
mentos nas  imniediações  da  povoação,  mas  se  devem  dis- 
tribuir por  todos  aquelles  postos  onde  houver  as  mudas  de 
gente  e  d'embarcações,  para  evitar  transportes  dos  géneros, 
e  soccorros  precisos,  obrigando-se  poréin  os  que  povoarem 
qualquer  dístríctoaque  sempre  as  habitações  estejam  a 
distancia  de  se  prestarem  mutuamente  os  que  carecerem, 
assim  no  caso  de  serem  acommettidos  por  nações  de  gentio, 
como  no  de  ruptura  e  invasão  de  castelhanos. 

28-—  Em  todas  as  povoações  que  se  tftm  fundado  n'este 
Estado,  principalmente  nas  de  Mazagão  e  Yilla  Vistosa,  se 
commetteram  grandes  erros,  e  por  motivos  d*elles  ficaram 
inúteis,  ou  quasi  inúteis,  as  consideráveis  despezas  que 
empregou  a  fazenda  real,  tanto  assim  que  a  segunda  está 
com  três  ou  quatro  únicos  casaes,  e  a  primeira  com  menos 
de  metade  dos  que  chegou  a  ter.  D*estes  erros,  depois  do 
de  obrigar  homens  que  o  interesse  só  basta  para  attrahir, 
foi  o  maior  os  das  péssimas  situações  em  que  se  fundaram, 
que  por  doentias  são  tão  inhabitaveis  que,  se  Sua  Magestade 
fôr  servido  permittir  a  liberdade  de  sahirem  d*ellas  os 
que  qnizerem,  parece*me  que  um  só  não  ficará.  Outro  foi  o 


«  64  — 

de  empregar  em  avultadas  rações  para  fomeolar  extorsões, 
e  roubos,  em  casas,  e  outros  edifícios  supérfluos ;  de  prin- 
cipio o  cabedal  que  empregado  em  escravos,  para  se  lhes 
ficarem  em  poucos  aunos  restituiriam,  fícando-lhes  com 
que  comprar  mais,  e  com  que  fazer  casas.  Estes  exemplos 
refiro  agora  para  que  se  fuja  d*elles  na  fundação  da  po- 
voação de  que  trato. 

29. —  Já  com  este  fim  disse  eu  que  devia  preceder  tem- 
po, e  os  estabelecimentos  relativos  à  navegação,  porque  os 
exames,  as  averiguações,  e  a  demora  que  estes  exigem, 
servem  tambeta  para  se  descobrirem  as  situações  mais  con- 
venientes. Semelhantemente  disse  já  que  a  coacção  não 
devia  entrar  n*estas  disposições  por  modo  algum,  e  disse  o 
que  bastava  para  attrahir  colonos.  Debaixo  dos  mesmos 
principios,  parece-me  que  se  deve  adiantara  cada  casal  seis 
escravos  de  um  e  outro  sexo,  as  ferramentas  que  precisa- 
rem, e  os  géneros,  que  quizerem  para  seu  sustento,  e  de 
sua  família  pelo  primeiro  anno,  não  excedendo  termos  e 
limites  razoáveis,  tudo  á  escolha  e  convenção  de  preços 
dos  mesmos  colonos,  com  condição  porém  que  a  impor- 
tância total  doestes  soccorros  (exceptuada  somente  a  do 
transporte,  que  deve  ser  gratuita  e  á  custa  da  fazenda  real), 
será  paga  á  mesma  real  fazenda  por  cada  colono  na  parte 
que  lhe  pertencer  em  cinco  annos,  por  três  annuaes,  e 
iguaes  pagamentos  depois  de  passarem  os  primeiros  dois 
de  espera,  mas  cora  expressa  inhibição  d*alheiar  estes  es- 
cravos, ou  qualquer  outra  cousa,  por  nenhum  pretexto, 
nem  mesmo  pelo  de  dividas,  verdadeiras  ou  phantasticas, 
emquanto  aquella  não  tiver  sido  paga  á  real  fazenda. 
Parece  mais  que  o  auxilio  d*escravos  se  conceda  só  aos  pri- 
meiros doze  que  se  olTerecerem,  sendo  casados,  mostrando 
que  são  lavradores,  e  não  terem  crimes,  porque  estabeleci- 
dos estes  facilmente  se  atlrahirão  outros  sem  tanto  incom- 


—  {\n  «- 

modo  mais  que  o  de  terras,  o  de  empréstimo  como  fica 
dito,  de  ferramentas,  e  géneros  pelo  primeiro  anno,  e  a 
passagem  gratuita,  o  de  moratórias  aos  que  tiverem  dividas^ 
por  certo  numero  de  annòs,  a  liberdade  d*ajustarem,  e  con- 
servarem em  seu  serviço  os  casaes  de  índios  que  volunta- 
riamente os  quizerem  acompanhar,  a  isenção  de  recrntas 
para  seus  filhos,  a  do  serviço  mesmo  auxiliar,  excepto  em 
defesa  do  próprio  districto,  a  liberdade  de  vir  à  cidade,  ou 
a  qualquer  outra  parte,  tendo  precisão,  e  não  ficando  o  es- 
tabelecimento em  desamparo,  a  de  o  largarem  depois  de 
formado,  e  depois  de  paga  a  fazenda  real,  achando  quem  o 
compre,  e  também  os  escravos,  a  que  senão  deve  conceder 
a  sabida  por  não  atrazar  as  lavouras,  acho  eu  que  sem  in- 
conveniente se  podem  geralmente  permittir  aos  que  qui- 
zerem povoar  aquelias  terras,  determinando-se  penas  pro- 
porcionadas, e  limites  justos,  para  que  se  não  abuse,  senão 
illudam,  e  inutilisem  semelhantes  graças,  as  quaes  são  a  meu 
ver  bastantes  para  que  qualquer  possa  formar  o  seu  estabe- 
lecimento, adiantados  por  empréstimo  os  precisos  meios. 
Formados  estes,  cada  um  pelo  decurso  do  tempo  formará  o 
de  casas  na  povoação,  e  no  lugar  que  se  lhe  indicar,  con- 
forme as  suas  possibilidades  e  o  seu  capricho  ;  e  a  fazenda 
real  só  terá  de  fazer  o  sacrificio  do  transporte  dos  colonos, 
o  de  uma  ou  duas  igrejas,  conforme  as  distancias,  o  das 
côngruas  aos  vigários  d'ellas,  o  de  construir  e  manter  um 
hospital  com  a  sua  competente  botica,  e  os  oíficiaes  preci- 
sos para  serem  n*elle  gratuitamente  recebidos,  assistidos, 
e  tratados  os  que  se  quizerem  curar,  emquanto  não  tiverem 
meios  de  fazer  em  suas  casas,  e  o  de  ranchos  competentes 
aos  primeiros  colonos  que  se  houverem  de  estabelecer  em 
situações  determinadas  para  a  sua  primeira  hospedagem. 
30.— Ainda  que  não  sejaiacil  avaliar  ao  justo  a  impor- 
tância dos  sacrifícios  e  das  despezas,  assim  de  costeamento 

TOMO  XXVIII,  p.  I  9 


-  «8  ^ 

ià  navif  a^,  úmm  úm  «impuiitimas  qoe  teta  de  (a»r  na 
coDÍorJBidade  exposta  á  fazenda  real,  assàâ  se  deixa  ver  que 
Ekâo  pòddSâi*  aviilladâ,  niin  digna  da  inaiur  aiUem;ãri,  mor- 
menta  quafido  é  de  or^rquaoi  rendimentos  dos  freletjl 
a  (^  de  ler  protluzido  lio  ccinsidt^ravcl,  qm  baste  pan 
juaotor  e  adíanUt  iis|in>poslosestabeleciiiiGnti33*  Koso&l-^ 
wloa,  flUQierúB  4  e  ã,  ^pposto  que  não  sè  possâ  eomar 
com  precisio,  como  Jà  dsaie»  isait  bg  póds  romabdeer  esiâ 
Terdade»  e  qu6  as  despesas  ainda  fíram  titínos  sensivas, 
taolo  por  nao  ÈiiigiroiB  pi  ojopU)  e  immedialodôsemtKtUOt 
eouiQ  par  ser  índispt^iisavf  l  i|U€  para  cilas  se  concorra  ao 
mmmú  laiapo  p^lo  Pará,  peto  Utn  ?it'gro  e  por  Mãlo  (kosso 
com  eí  g6fi6ros,  &  com  os  maios  próprios  de  cada  pafê] 
ma/B  qia^udo  aâsim  oão  seja,  quando  a  f^tzerida  a^aJ  faça  o 
Sâailkio  d'êâ8&  ia€êJBa«  é  de  maior  quantia,  nunca  tlcari 
prejudicada,  logo  que  a  nawgíiçào  e  o  commcrcio  proslga, 
logií  qu€  oâ  fiokioos  u  as  suas  hivouras  príisperenu 

Ul.— £âíãe  pôfém  iião  será  jàmais  it  mtu  parecer.  A 
fuiada  real  não  d^ve  faziir  mais  sacríficioi  quê  os  indis- 
pdQsavt^ii  que  mftíríf  o  [K^sani  ainda  ai:crcscer,  e,  quando 
se  consídaFe  Wk  adiado  do  m  supportar,  melbir  è  applicar 
a  imtH»rUiiicia  4'€lle&  à  hypolhec^i  de  ihiI m  muito  maior, 
para  âdiaotar  por  sanidliaDii  MNiitno^  tantos  mato 

colonos  e  «slabt^lcQmetilos.  u  ,       í<»mj  inimigo  d^ettes    i 
liiÍJÍlnÉii%  e  a  mais  padero»  causi  aulre  muitas  outras  f 
do  deu  attãm,  é  a  preguiça  d^elles*  Acaso  alfuiii  se  êm^ft- 
Lr^qué  tralAlhe  por  adquirir,  o  por  adiantar  os  seus  liens. 
mvx  que  a  necessidade  o  obrigiii^f  e  tstii  necessidade  é  a 
em  ^w  prtMâodA  se  oonititiwn  pela  de  indomnisar  a  raal 
faxanda^  e  pela  de  pagtr  a  sous  credores  Onda  a  espera, 
qi}e  o  prívifegio  do  estabelecimento  lhes  eonEnà.  Dt)  outra  ^ 
lèfVEa  não  farão  mais  qaa  T0g(»&r  inutilmente.  ■ 

JI2«— á  ccmeorreaciã  de  lun  miniiliro  o'^i»tiei  estatifsle^ 


—  «1  — 


dtttiítai  pâraca  na^iaiia,  e  oi  que  eitlo  Wbte  i  mâô  de 
8«rêm  ittpr^ados  sao :  o«  o  qm  servir  ile  ciiíTidor  em 
Eia  N«gro,  figlatido  j>rGTido  mie  lugar,  que  por  ora  mk  vago 
dâ  muitas  ao  nus,  ou  oê  que  ierfirem  am  Mato  G#oé96, 
lariU)  par  sôrem  m  mm  pri^iíuiof  6setid»stncto,^mo 
piHTHais  nos  reôptíoUvos  Iug&rã3  não  leriõ  tanloqae  fazer, 
M»  láõ  imporlante  que  sãja  praciso  augmQQtar  mais  des^ 
piítt  i^uio  uuiro  de  oâvo;  mas  este  mioiMro,  ({lalqtiêr  qm 
seja,  parijcc-uoe  qm  m  oao  Jovu  ititromalter  uo  que  Rir 
d^  conipt^iuiHMatte  diversa  prolissíEQ,  mas  sòmeftte  ser  eii* 
Êarregado  de  adrainisU^ar  jusUça,  manter  a  ordem  èrega- 
laridade,  assim  mire  os  habitantes  como  oa  navegação  e 
^commerdo,  o  roger  a  ztilar  o  que  perleflcer  á  fazenda  real, 

íveriittdosfi  toda  a  õoulestaçSf>  quo  poâ&a  miftcilar-se  com 
a  aflteiat  miliUtr  que  fèr  «ncarregado  da»  averiguações  an- 
ticipadas,  e  da  exocução  do  ptano  respectivo  à  navfgaçlo 
no  espaço  de  cacboeiras. 

33.— Como  este  uu  qualquer  «iutrõ  plano  ha  de  vir  a  Sít 
eiectitãdo  na  extrema  de  dois  govaruos  de  igual  o&raetef , 
e  inílependenk^s,  o  que  por  certo  sorá  nSo  pequerio  motivt» 
ilf  implicâncias  reciprocai,  e  de  pretei£ti>9  aosagênles  s^-^ 
haUtínios,  para  encobrir  as  suas  prevaricações  e  as  de^f^ 
dtm  que  cj^sliimam  cornmellori  parece  ainda  mais  aeceâ- 
iariu>  que  Sua  MagcstaJo  se  diguo  pn^screver  a  cadu  um 
oprooedimento  qua  dôvasflpir,  para  que  resulte  a  una* 
nimidade  e  uniformidade  de  esforçois  que  é  ftempre  pr6cÍ90, 
í;  muilo  mm  quando  ^%  providencias  do  throtso  nioie 
pod«*m  soiíciíar,  nem  podem  chegar  tão  promptamtntô 
como  em  sernnlhantea  circumsUncias m  rêquef* 

34.— Tíiiiibem  é  mais  que  tudo  preciso  prevenir  lodo  o 
preloato  ás  eonteslaçui^s  dos  visinbos  caslelbaôos,  que  por 
tmtú  flão  oltiarlo  com  índitTerença  para  êiiabeleeimentos^ 
que  direclam^anie  uôs  procuram  flío  96  grafíde  melbofft* 


—  G8  - 

mento  ao  commercío   e  cultura  d*estas  capitanias,  mas 
que  as  põem  nos  termos  de  se  prestarem  promptos  e  mú- 
tuos soccorros,  para  frustrar  quaesquer  intenções  e  esforços 
(l'elles«  quando  pelas  expressões  do  art.  18  do  tratado  pre- 
liminar do  l""  de  Outubro  de  1777,  que  são  as  mesmas  do 
art.  19  do  tratado  de  1750  in  /ine,.não  estivessem  auctorisa- 
dos  a  obstar.  Á  margem  oriental  do  Madeira  atè  a  sua  junc- 
çSo  com  o  Mamoré,  e  a  oriental  d' este  até  se  incorporar 
com  o  GuaporéySao  nossas  sem  conteslação.  O  ponto  d*onde 
se  ha  de  tirar  a  linha  divisória  de  £.  0.  para  o  Javari  não 
está  determinado,  e,  ainda  que  se  diga  que  deve  ser  abaixo 
das  cachoeiras,  uma  vez  que  os  estabelecimentos  que  esta- 
vam feitos  deviam  ficar  salvos,  e  que  jà  os  tivemos  na  ca- 
choeira do  Salto,  que  é  a  segunda,  parece  inquestionável  que 
pelo  menos  d* cila  para  baixo  nos  deve  ser  privativa  a  nave- 
gação do  Madeira, e  que,a  muito  pretenderem  os  castelhanos, 
não  poderão  pretender  mais  do  que  a  navegaç/ão  commum 
d'aquella  cachoeira  para  cima;  digo  mais  porque  não  tendo 
taes  castelhanos  precisão  alguma  de  descer  pelo  rio  da  Ma~ 
deira  desde  que  vem  junto  com  o  Mamoré,  senão  para  nos 
fazer  mal ;  e  sendo-lhes  somente  preciso  subir  o  Mamoré,  e 
Guaporé,  para  as  communicações  das  suas  povoações,  parece 
inquestionável  pelo  espirito,  epela  letra  dos  arts.  lá  e  16 
do  ultimo  tratado  preliminar  de  limites,  que  o  ponto  da 
juncção  do  Madeira  com  o  referido  Mamoré  deve  ser  o  de 
que  parta  a  linha  divisória  para  o  occidente,  e  parece  mais 
inquestionável    que  senão    deve    perder  tempo  em  re- 
forçar pelos  da  arte  os  obstáculos  collocados  pela  natureza, 
antes  que  aquella  ambiciosa  nação  nos  previna  fechando-nos 
aquella  via  de  communicação,  e  de  soccorros,  e  para  que 
nem  possa  inquietar  o  Mato  Grosso,  sendo  justo  receio  de 
que  as  suas  forças  sejam  interceptadas,  e  diíBcilmente  soe- 
corridas,  nem  inquietar  os   nossos  estabelecimentos  do 


—  09  — 

Amazonas,  e  do  Rio  Negro,  a  favor  da  entrada  qae  tem 
franca,  assim  pela  descida  do  Rio  da  Madeira,  como  pela  do 
Solimões. 

35.— Em  muitas  situações  dos  vastíssimos  domínios  de 
Soa  Magestade  sem  o  íim  de  beneficiar  os  povos,  e  de  pro- 
mover o  commercio,  e  riqueza  d'elles,  mas  só  pelo  da  con- 
servação dos  mesmos  domínios,  tem  sido  indispensável  o 
sacrificio  de  muitas  e  mui  consideráveis  despezas  da  sua 
real  fazenda.  Na  fronteira  d*estes,  sem  mais  trabalho  que 
ode  providencias  opportunas,  eo  incommodo  do  avanço 
de  algumas  pequenas  sommas,  a  presentemente  horrorosa 
passagem  das  cachoeiras  se  converterá  em  uma  perenne 
fonte  de  riquezas  para  o  erário,  e  para  o  publico ;  servirá 
de  padrasto  inconquistavel  aos  visínhos  que  nos  rodeam, 
de  laço  á  intima  união  d'estas  duas  remotas  colónias,  de 
vigorar,  de  consolidar,  e  de  fazer  emfim  florescentes,  e  res- 
peitáveis os  estabelecimentos  de  uma  e  outra. 
Pará,  4  de  Agosto  de  1797. 

D.  Francisco  de  Sousa  Coutinho» 


-  70  - 

EXPLORAÇÃO  DO  RIO  PARAGUAY 

E 

PRIMEIRAS  PRÁTICAS   COM   OS  ÍNDIOS   GUAYGURUS 

Illm.  6  Exin.  Sr.—  Ponbo  oa  maode  V.  Ex.,  p9a*aqiie 
hajam  de  chegar  ao  real  conhecimento  de  Soa  Magestade»  as 
cópias  inclusas,  onde  se  conlèm  as  derradeiras  noticias  qae 
se  me  participaram  do  presidio  da  Nova  Coimbra,  assim  a 
respeito  da  exploração  ultima  que  mandei  fazer  sobre  o  rio 
Paraguay  até  quatro  dias  mais  de  boa  viagem  para  baixo,  ou 
para  o  sul  do  mesmo  presídio ;  como  concernentemenle  ás 
primeiras  praticas  que  já  se  tiveram  em  conformidade  das 
ordens  do  dito  senhor,  e  das  consequentes  instrucções  mi- 
nhas com  a  valorosa  nação  dos  Índios  guaycurús  ou  cavai- 
Iciros,  que  hahiUun  por  junto  d'tiquellas  margens  em 
grandíssimo  numero;  resultando  d^esti  communicação  uns 
princípios  decommercio  que,  sendo  possível  aperfeiçoar-se, 
bem  se  vê  que  elle  poderia  vir  a  ser  ainda  da  maior  utili- 
daílcaofim  principaluíMitede  conservar  e  mesmo  i^stender 
os  adjacentes  territórios  qutí  pertencem  ao  real  dominio 
porliiguez,  cujns  por  aquella  parte  terminam  o  Brasil,  ou 
bem  parece  que  deviam  temiinal-o. 

\d  falta,  pois,  das  reaes  resoluções  que  a  V.  Ex.  lenho 
pedido  por  vezes  para  haver  de  regular-me  sobre  promover 
ou  não  com  mais  eíTicaria  aí|uelleestabelecimento  'sendo,  já 
se  vê,  preciso  no  primeiro  raso  que  paro  o  d  to  effeito  se 
consignassem  meios  adquiridos),  me  tenho  por  agora  re- 
duzido a  executar  sómenle  providencias  que  não  occa- 
sionem  mais  avultado  dispêndio  da  fazenda  real ;  e  na  ver- 
dade que  me  tem  sido  necessário  usar  dos  maiores  esforços 
de  economia  e  de  industria  suggeridos  pela  urgente  situação 
presente,  em  ordem  a  que  a  sobredita  empreza,  depois  de 


-  71  — 

C0oiiásrafn)l  processo  qao  já  tem,  nSo  seja  abainJonadâ 
por  falta  dos  expressados  meios  até  que  Sua  Magestade  se 
digne  fiiaimeote  determinar  n'esta  matéria  o  qne  fõr  ser* 
vido,  para  com  a  devida  pontualidade  eu  lhe  dar  execução. 

Deus  goarde  a  V.  Ex.  muitos  annos  com  muito  saúde  e 
felicidades.—  Villa  Bella,  10  de  Janeiro  de  1777.  —  Illm. 
e  ExxsL  Sr.  Martinho  de  Mello  e  Castro.  —  Luiz  d'Albu- 
fkkerqne  de  Mello  Pereira  e  Cáceres. 

Diário  da  expedição  que  ultimamente  se  fez  desde  o 
presidio  da  Nova  Coimbra  pelo  rio  Paraguay  abaixo,  por 
ordem  do  governador  e  capitão  general  das  capitanias  do 
Mato  Grosso  e  Cuyabà,  Luiz  d*All)uquerque  de  Mello  Pe- 
reira e  Cáceres,  aonde  principalmente  se  relatam  algumas 
conferencias  que  se  tiveram  pela  gente  da  mesma  expe- 
dição com  os  Índios  guaycurús  ou  cavalleiros. 

Sr  sargento  mór,  commandante,  Marcellino  Rodrigues 
Campoiies.—  Em  observanci.i  das  ordoiis  do  Ilha.  e  Exm. 
Sr.  Luiz  d'Álbuquerque  de  Mclio  PtT  iri  e  Cáceres,  foi 
servido  deslinar-mo  ainda  à  confluência  doeste  rio  Para- 
guay até  ura  estreito  ou  f^cho  chaíiiado  do  San  tome,  que 
dista  d*este  em  que  nos  achamos  fortificados  três  dias  de 
boa  marcha,  conforme  ensinuam  as  ordens  do  dito  senlior, 
as  quaes  Vm.  foi  servido  communical-as  antes  da  partida. 

Fez  Vm.  aproraptar  para  esta  diligencia  quatro  canoas, 
graodes,  e  um  batelão,  todas  guarnecidas  das  melhores 
armas,  que  havia  no  presidio,  e  os  melhores  soldados  da 
guarnição,  assim  dragões,  como  pedestres,  três  auxiliares 
e  ordenanças  que  com  os  trabalhadores  completaram  o  nu- 
mero de  ^  5  praras,  em  que  entram  os  oíficiaes,  levando 
também  a  capitanea  ama  pecinha  de  meia  libra  montada 
para  melhor  delesa  de  algum  acontecimento  guerreiro  que 
se  ofiérecesse. 

r«MM  Ym.  a  bo&ra  de  entrogar  &  commsBdancia  da 


dita  capitanea,  c  a  dila  de  oulra  ao  ajudante  de  auxiliares, 
que  serve  da  praça,  Francisco  Rodrigues  Tavares,  e  a  de 
outra  ao  cabo  de  esquadra  de  dragões  José  Vieira  Passos,  e 
a  de  outra  ao  soldado  dragão  José  da  Fonseca  Fontoura,  e  a 
do  batalhão  de  espia  a  um  sargento  de  ordenanças  Manoel 
Pereira  da  Silva. 

O  que  tudo  assim  promptificado,  demos  principio  à  nossa 
marcha  em  o  dia  3  de  Outubro  de  manhã,  eproseguindo 
n'ella  todo  o  dia  com  accelerada  marcha  não  encontrámos 
novidade  digna  de  allenção,  e  o  mesmo  aconteceu  no  dia  4, 
que  era  o  segundo  da  viagem. 

A  horas  competentes  no  dia  5,  que  ora  o  terceiro  da 
marctia,  a  continuámos,  fazendo  eu  reforçar  o  batelão  de 
espia  com  o  soldado  dragão  Manoel  José  Corrêa  e  um 
soldado  da  ordenança,  por  razão  de  nos  irmos  engol- 
phando  era  caminhos  mais  arriscados,  e  com  eíleito  não 
deixou  de  aproveitar  o  dito  soccorro,  porque,  sendo 
10  horas  do  dia,  avistou  o  dito  batelão  no  voltar  de  um  esti- 
rão de  rio  que  no  fim  d'elle  andavam  três  canoas  de  gentio, 
e  fazendo  com  a  bandeira  signal  á  capitinea,  como  tinha 
por  ordem,  se  pôz  em  diligencia  de  lhes  dar  caça,  por  ver 
que  em  uma,  se  navegavam  dois  indios,  e  nas  duas  outros 
dois  ;  todos  com  a  maior  violência  seguimos  o  mesmo  al- 
cance, porém  como  era  longe  e  os  ditos  indios  se  atraves- 
saram o  rio  e  se  embarcaram  por  um  sangradouro  de 
campo,  e  vendo  eu  isto,  fiz  chamada  ao  dito  batelão,  por- 
que não  succedesse  cahir  em  alguma  emboscada  dcs  que 
costumam  assim  fazer  os  taes  indios  silvestres ;  e,  como  o 
fundamento  das  ordens  era  mais  solicitar  a  sua  amizade  do 
que  offendêl-os,  sem  mais  obrigação  proseguimos  na  mar- 
cha ;  e  immediatamente  observando  muitos  e  continuados 
signaes  de  fogos,  que  comprehendiam  muitos  e  dilatados  ter- 
ritórios, assim  alagadiços  como  das  campanhas  dos  cavallei- 


-  73  - 


rús,  de  uma  e  outra  parlas  sendo  a  sua  primeira  origem  do 
lugar  dunile  se  reíogiarim  os  itidios  que,  se  viram  primeiro 
em  meio  de  um  estirão  grande»  se  avistaram  em  pequena 
di^siíuicii  de  puulano,  como  encobriudo-se,  uma  chusma  de 
índios  embarcados,  que  para  melhor  reconhecôl-os  cortámos 
quasi  fronteiros  da  outra  parte  do  rio;  o  que  vendo  Oi^ 
dilos  se  dividiram  em  duas  partidas,  uma  seguindo  para  o 
rio  acima,  e  outra  para  baixo,  como  que  me  dava  a  enten- 
der que  nos  intentavam  acommatter  para  um  e  outro  lado  ; 
como  estava  roto  o  segredo  da  viagem  recommendada  nas 
Qrdens,  com  estes  apparecimentos  cora  baudeiras  largas 
nas  embarcações»  mandei  locar  caixas,  com  cujo  estrondo 
retrocederam  as  suas  marchas  e  se  tornaram  a  uDir  no 
primeiro  lugar,  porém  à  nossa  vista  expediram  uma  canoa 
í'om  quatro  indios  para  rio  abaixo. 

Logo  fiz  enrolar  bandeiras,  e  cura  uraa  branca  se  Ibes  fe« 
sigftal  para  vi  rema  falia,  poréra,  persistindo  indelennhia- 
dos,  porque  nuo  llcassem  na  persuasão  que  em  nos  era  co- 
bardia o  nuo  procural-us  ;  pois  lambem  nos  faziam  signi!  e 
cUamada  cora  duas  bandeiras,  mas  o  lugar  em  que  estavam 
era  impenetrável  ás  nossas  embarcações,  pttr  razão  dos 
grossos  e  euimai-anliadns  capins  de  que  o  dito  la^^o  era  pd- 
voado  ;  em  altenr5o  do  que  fiz  reforçar  de  mais  armas  e 
gente  a  canoa  do  cabo  de  esquadra  de  dra}íoes  José  Vieira 
r^issos,  t^  cora  alguns  linguas  o  destinei  a  margem  do  rio  da 
parte  il^nde  os  dilos  indios  se  achavam  desfeados  ;  alii 
lhes  tez  signal  para  virem  á  falia,  ao  que  logo  obedeceu  uraa 
canôi»  deixando  as  ouli as  em  lintia  ao  pè  de  ura  caponete 
imilaridõ  a  (orraalidaLle  em  que  nos  estávamos  ;  e  veiu  cora 
etteiloaeanõa  e  fazendo  alto  era  dislancia  quo  o  chumbo 
(!'anaa  osnfio  ofTendesse,  respoutleu  ás  perguntas  de  nosso 
liniíua,  pelo  idioma  e  linguagem  da  terra:  Que  capitão  Guay- 
curu  estava  bom,  que  os  castelhanos  eram  bons,  que  os  por- 
TOMO  xxvni,  p.  L  10 


\  Dâ0  tirestíTatu,  que  tiotia^  espiogardHS,  (jue  eUt^ 
tính&m  Vãcca,  c^e  tinhani  muitos  cavallos,  e  muitos  carn&L 
vo$:$e  iraiiamus  aguardente  e  facas,a  tuílo  lhes  respondia  o 
Ikigua  qae  o  capitão  tudo  trazia  para  ltií*s  dar,  que  chagas- 
dem;  alo  foi  possível  redii2il<i&  a  diegar^  mas  anti^  viraado  a 
retaguarda  marchoti  corno  queai  ia  de  aviso  á  terra,  Ccandí) 
os  outros  existeates  aomBsma  lugar,  pur  euja  causa  rtflro- 
cadeu  para  nossa  parte  o  sobredita  cabo  de  esquadra,  tó  logo 
pelo  me-smo  lhe  mandei  por  d'outra  parte  uma  ara^íslra  do 
que  tnixiaiuos  para  os  prendar  :  assim  se  executou,  pondo- 
se-ítie  um  barrete  encarnado,  utn  espelho,  duas  veranicas^ 
uma  faca,  um  frasco  de  aguardente  ;  tudo  amarrado  em  ura 
páo  alto  que  biles  viam,  e  fazeiído-stvlhe  chamada  e  mos- 
traudo-sõ*lti!e,  se  tiruu  a  embarcação  para  a  noisa  parte,  Po- 

frém  elles  não  se  resolveram  a  vir  conduzir  o  que  sa  lhes 
afferecia. 

Sendo  já  perlo  da  noite,  appareceu  da  parte  d 'onde  Unha 
ido  a  primeira  caiiúa,  e  falluu,  três  canoas,  a  primeira  com 
seis  oti  sete  Índios  em  pé,  a  segunda  com  quatro,  a  terceira, 
que  ficou  meJa  encobería,  se  não  distinguia  com  quanto  flo- 
rem postas  efll  linha  a  da  vaoguanla,  que  se  avizinhou  miis 
âO  primeiro  fez  chamada  em  lingua  liespanhola  ;  delermi- 
nou-sô  ao  sobredito  cal>o  de  esquadra  de  dragões  que  fosse 
ouvir  o  que  queriam,  e  lhe  mandou  dizer  que  nós  queríamos 
amizade  com  o  capitão  (iuayeuruque  lln-  trazíamos  mimos : 
tósim  o  executou,  convidando-os  frequentemenlea  que  che- 
gassem a  receber,  o  que  alli  se  lhes  tinha  posto;  jjzemin 
aceitação, dizendo  que  iriam  buscara  agradecendo, que  Dhus 
lhe  pagasse,  e  despedi ndo-se  ate  amanhã  ;  asseverando  qiiâ 
Unhara  muitos  ca  vai  los,  muitos  gados,  muitos  carneiros ;  e 
repetindo  a  pergunta  se  tínhamos  aguardente,  facas»  praia, 
rendas,  ele.,  e  dtíspediDdo-se  se  retiniram  e  os  nossos  tam- 
bém, deixando  ficar  o  sobredito  mimo  ;  dizem  alguns  que 


-^  Ih  — 


ao  longe  viram  passar  fârioscavalleiros  o  qtje  ea  não  ?U 
aífidaque  Bmm  indica  um  grande  estrondo  que  houve  noa 
charcos  defronte,  que  pareceu  de  cavallos  arraiados  à 
agua  :  alli  ptrnuitàmos  no  pautauo  da  borda  do  ríOi  porque 
êe  ÍNs  não  ínlroduzíssem  que  nos  portamos,  mudávamos  à^ 
ftilio. 

No  dia  seiSi  quarto  da  nossa  viagem  ao  amaubecer,  repab 
rároo^  quo  ainda  ^^xísliaai  no  lugar  aonde  se  puz  o  sobre- 
4ilo  mimo,  e  como  a  nossa  desGoqfiança  era  de  que  aquella 
lio,  è  iiayaguà»  e  não  gQaycurú.  assentámos  em  proseguir 
a  nossa  derrota  na  consideração  de  que  seriam  talvez  mam- 
purá  do  dito  gentio  em  ordem  a  engrossar  as  suas  forçiis  ; 
o  que  imlícou  os  rL^spectivos  signaes  de  fugir,  e  o  aviso  que 
à  nossa  visla  expediram  para  rio  abaUo,  como  também  nãa 
haver  tradição  alguma  dos  sertaoislas  antigos,  de  que  os  ca- 
vai leíros  usassem  em  tempo  algum  de  canoas  para  os  seus 
embarques. 

Com  effeito,  pu^emos-nos  em  acção  de  marcha,  mas  autes 
de  o  fajermos  mandei  o  batelão  de  espia  a  ver  se  com  eíTeilo 
líUês  tinham  de  oúite  levado  algum  cousa,  porque  a  largura 
do  rio  não  deixa  alli  percebt^r  com  %  vista,  o  que  e^tà  da 
outra  |)arte  ;  foi,  o  deu  parte  que  tudo  eslava  e  que  lhe  ap- 
jmrecéra  uma  canoa  mostrando  umpaono  branco,  mas  que 
remava  em  retirada,  ilizendo  que  logo  vinha. 

Coolinoámos  a  nossa  marcha  a  examinar  uns  morros  qua 
se  vfam  para  diante  ao  parecer  perlo  j  porém  gastamos 
qiiasí  até  o  meio-dia  a  li  chegar,  antes  do  que  pelas  dez  ho- 
ras  pouco  mais  ou  menos  avistamos  no  panlano  perlo  do  rio 
uma  canoa  coar  dois  índios^  e,  sem  fazer  mais  caso  d*elles  do 
que  corlejal-os,  fomos  indo  para  os  morros,  que  jà  pouco 
distavam  p  aos  quaes  chegámos  e  observámos  sor  um  morro 
mo  maito  grande,  qyasi  escalvado,  situado  da  parte  dopo- 
0nle,  o  eu  apartado  da  margem  do  rio  mais  de  tiro  de  mos* 


—  li)  — 

quete,  fazendo  pela  mesma  parte  do  rio  algum  comprimento 
continuado  para  a  parte  do  rio  abaixo,  forma  circular  para 
o  seu  fundo,  e  para  a  parte  do  rio  acima  se  une  com  outro 
morro  mais  pequeno  que  finalisa  na  margem  direita  do  rio, 
o  qual  visto  de  fora,  com  os  pequenos  matos  que  tem,  faz 
uma  formatura  chata,  porém  examinado  o  seu  interior  se 
fé  ser  o  dito  morro  pyramidal  e  todo  de  pedras  inúteis,  es- 
cabroso e  o  seu  mato  sem  poder  servir  para  obra  alguma  ; 
o  morro  maior  lhe  fica  muito  eminente  e  faz  no  alto  a  for- 
matura de  três  cabeças  ou  divisões,  formando  um  espigão 
para  a  parte  do  poenle  :  da  mesma  parte,  seguindo  rio 
acima,  está  um  pequeno  monte  que  se  divisa  ser  de  pedras 
com  algum  inferior  arvoredo,  e  em  pouca  distancia  d'esle  em- 
parelha outro  maior,  mais  povoado  de  arvoredo,  que  sô  ser- 
virá para  lenha;  este  chega  ao  pântano,  porém  todos  em  li- 
nha pela  resaca  do  rio ;  a  largura  do  rio  de  frente  do  morro 
principal  níio  c  muito  dilatada ;  me  persuado  se  vencerá  com 
tiro  de  peça,  porém  acompanha  da  parte  de  lésle  ;  toda  é 
raza,  e  supposto  que  presentememte  o  rio  estava  igual  com 
o  barranco,  bem  se  conhece  que  a  dita  campapha  alaga  em 
distancia  grande,  o  melhor  o  certifica  vendo-se  ainda  en- 
trar em  partes  pelas  margens  da  volta  do  estirão  agua,  na 
dita  campanha  em  repetidas  partes ;  para  a  parte  do  rio 
acima,  em  distancia  de  um  bom  tiro  de  peça,  tem  uma  ilha 
bastantemente  comprida  para  rio  acima,  que,  supposto  pre- 
sentemente vai  descobrindo  algumas  áreas,  toda  alaga,  è  só 
é  povoada  de  poucos  sarans  e  capim. 

Para  a  parte  do  rio  abaixo  se  descobre  um  estirão  de  rio 
dilatado,  porém  o  que  demonstra,  que  os  seus  lados  todos 
são  pântanos  ;  vè-se  o  mesmo  rumo  do  sul  para  d'onde 
corre  o  rio  dos  morros  pyramidaes,  e  em  disUmcia  grande 
d'esles  primeiros ;  e  ficando  eu  na*  duvida  se  seriam  ou 
não  as  que  formam  o  fecho,  examinando  um  paraguá  que 


-  77  - 

ia  por  ser  o  mais  Bftóderno  que  por  ãllí  tinha  passado» 
disse  que  aquelles  morros  ficaram  fora  do  rio  e  nâo  nas 
soas  margens,  feitos  os  sobreditos  exames  e  correndo  a  vis- 
ta pelas  campanhas  que  se  avistam,  achámos  que  o  interior 
da  parte  do  morro  parece  território  íirme  viajado  de  ca- 
valleiros,  de  que  achámos  signaes  ao  pé  do  dito  morro  ; 
porém  as  sobreditas  campanhas,  ao  parecer  todas  infru- 
ctiferas,  sem  qualidade  de  mato  algum,  porque  só  o  que 
bem  as  povoa  são  carandas. 

Concluidas  as  sobreditas  obrigações,  passámos  á  ponta 
da  ilha  para  jantar,  e  logo  no  atravessar  do  rio  avistámos 
uma  fileira  de  indios  da  parte  do  poente,  entre  o  pântano 
que  forma  o  rio  na  sua  margem ;  portámos  na  dita  ilha  e 
logo  lhe  fizemos  chamada,  porém  não  obedeceram ;  alli 
estiveram  dilatado  tempo  emquanto  se  fez  de  comer,  depois 
do  que  seguimos  vi:igem  para  cima,  e  também  os  ditos  in- 
dios desappareceram,  e  fizemos  n'aquelle  dia  pouso  sem 
mais  novidade. 

No  dia  7,  que  era  o  quinto  da  nossa  derrota,  proseguindo 
no  regresso  da  viagem,  passando  pela  paragem  d'onde  se 
fallou  com  os  indios,  o  ajudante  Francisco  Rodrigues  Ta- 
vares diz  que  avistou  uma  canoa  dos  ditos  indios,  e  eu 
avistei  pelos  matos  dos  carandas,  dois  cavalleiros  seguindo 
o  rumo  de  rio  abaixo,  porém  observámos  que  o  mimo  que 
lhes  deixámos,  já  não  estava  aonde  ficou,  e,  como  elles  não 
davam  mais  demonstrações  do  que  fugir  da  nossa  communi- 
cação,  fomossem  demora  continuando  a  viagem :  ao  anoite- 
cer portámos  em  um  pantanal  na  margem  do  rio  para  pou- 
sarmos, quando  o  batelão  da  espia  divisou  ao  bnge  no 
mesmo  pântano  uma  quantidade  grande  de  indios,  que  na- 
vegavam para  o  centro  do  dit»)  paniano,presumpção  certa  de 
que  o  seu  intento  era  procurar  offender-nos  em  alguma 


-  78  — 

das  soss  costnmadas  ciladas ;  allt  memo  fiiemos  pousada 
eom  as  deridas  caotelas. 

No  dia  8,  que  era  o  sexto  da  nossa  retirada  ou  viageBi, 
principiando  a  nossa  marcha  a  pequeno  espaço  de  tempo, 
em  om  terreno,  que  appareceu  da  parte  do  poente,  avistá- 
mos bastantes  indios  de  cai^allo,  chegando-se  à  margem  do 
rio,  portà:nos  defronte  dos  ditos  em  o  pântano  por  não  ba^ 
ver  ilba  ou  terra  em  que  o  fizéssemos,  e,  observando  os  $e«$ 
movimentos,  vimos  que  se  apearam  alguns,  e  chegando^se 
ao  barranco  do  rio,  um  fez  sua  chamada,  e  perguntando~lhe 
eu  pelo  capitão,  á^ahi  a  pouco  espaço  de  tempo  viu-se  vir  o 
dito  capitão  a  cavallo  com  uma  vestidura  vermelha,  tra- 
<^zendo  adiante  e  atrás  de  si  alguns  cavalleiros :  antes  de 
begar  ao  barranco  do  rio  se  apeou  e  todos  os  que  o 
acompanhavam,  e  chegando  ao  dito  barranco,  rom  dois  on 
três  indios,  se  puzeram  a  olhar-nos,  o  que  visto  por  nós  os 
cortejámos,  eelles  corresponderam ;  e  logo  fazendo  chamada 
aprompt()U-se  o  batelão,  bem  esquipado  e  armado,  porém  as 
armas  cobertas,  e  n*elle  se  expediu  o  cabo  de  esquadra  de 
dragões  José  Vieira  Passos  a  visital-o,  com  ordem  de  não 
chegar  á  terra,  mas  sim  sobre  os  remos  lhes  dissesse 
que  nós  vinhamos  a  contrahir  uma  boa  amizade  com  o 
capitão,  da  parte  do  nosso  maior,  que  lhe  trazíamos  ai- 
Suns  mimos,  e  que  observasse  o  que  elle  dizia;  assim 
executou  o  dito  cabo  de  esquadra  de  dragões,  e,  havendo 
de  cá  a  prevenção  de  lhe  acenar  que  mandasse  separar 
para  dentro  a  sua  gente,  elle  assim  o  fez ;  quasi  todos  se 
separaram;  porém  para  o  batelão  só  ateimaram  que  che- 
gassem, dizendo  que  ahi  estavam  para  o  capitão,  cavallos 
e  vaccas ;  voltou  o  nosso  batelão,  e  deu  parte  o  cabo  de  es- 
quadra do  qoe  elles  diziam:  para  melhor  me  certificar  sa 
eram  ou  não  enganosos  os  seus  designios,  mandei  pelo 
mesmo  cabo  de  esquadra  pôr  em  parte  d'onde  elles  vissem 


—  7»  - 

e  fNideasem  arrecadar  uma  dúzia  de  barretes»  uma  dúzia 
dd  facas,  meia  dúzia  de  espelios,  u  n  rnisoo  de  aguardente» 
faadndo-se-lbe  de  cà  signal,  e  mostraado-se-lhes»  para  que  o 
maudasseflOL  buscar;  partiu  o  batelão  a  levar,  porém  elle 
Tendo  de  cá  os  barret3s  fez  destacar  logo  um  cavalleiro 
para  dettro,  o  qual  lhe  trouxe  o  qn^  lhe  Unhamos  deixado 
embaíKO  quando  avistámos  e  falíamos  CDm  os  Índios  da 
canoa:  veiUrUie  o  dito  barrete,  recebeu  e  com  elle  nos  cor- 
tejoo  ase  cobriu  I 

Paz  o  batelão  no  sitio  assignalado,  o  que  se  mandou ;  e 
passando  ao  pé  d'elles  lhe  disse  que  alli  ficava  aquelle 
miOM  ^oe  o  capitão  mandava,  que  o  mandasse  buscar ; 
deu  demonstração  do  seu  agradecimento  com  cortezias,  e 
logo  mandou  dois  dos  seus  a  condazir  o  que  tinha  ido,  que 
recebendo-o  logo,  distribuiu  os  barretes  por  uns  poucos 
dos  que  com  elle  estavam,  e  com  pouca  demora  mandou 
pôr  na  mesma  paragem  o  seu  presente,  fazendo  sígnaJ  que 
o  mandasse  buscar,  o  que  assim  se  fez  ;  havendo  chegado 
emquaato  houve  estes  brindes,  ao  mesmo  terreno,  um  lote 
degado  vaocum,  conduzido  por  indios  cavalleiros ;  recebi  o 
mimo^  que  foi  uma  coberta  de  algodão  cõr  de  tabaco,  jà 
com  seu  uso,  com  seus  Livores  á  roda  de  rodinhas,  cascas 
de  conchas  e  duas  camisetíis  de  algodão  branco  também 
usadas;  ao  receber  dei  de  cà demon>tracões de conten la- 
mento e  signaesde  agradecido,  e  logo  fíz  apromptar  a  mi- 
nha canoa  e  passei  á  parte  d'elles,  levando  comigo  o  com- 
mandante  da  outra  canoa  José  da  Fonseca  Fontoura,  dra- 
gões e  ordenanças,  porém  com  a  peça  e  armas  cobertas ; 
portei,  e,  fazeudo-lhe  signal  que  mandasse  separar  a  sua 
gente,  elle  assim  o  íez,  ainda  que  pouco  Ihi  obedeciam ; 
notei  que  a  vestimenta  do  capitão  era  um  jaleco  de  fei- 
tio de  camiseta  curta  e  de  baeta  curta,  jà  muit )  usado,  seu 
xifarote  á  cinta,  e  três  que  estavam  acUuntos  nus»  porém 


—  m  - 

com  xifarotes  de  guarnição  de  latão  amarello  com  uso  bas- 
tante, e  ao  depois  vi  que  não  só  estes  mas  muitos  mais  os 
traziam :  comprimcntei  o  dito  capitão  logo,  offerecendo-lbe 
um  embrulho  em  que  iam  cincienta  verónicas,  que  rece- 
beu e  abriu  mostrando  bom  contentamento ;  tirei  o  meu 
xifarote  da  cinta  e  lh*o  oílereci  com  o  boldrié,  o  qual  elle 
reccbetf  e  cingiu  «om  grande  contentamento,  e  Iqgo  des- 
cendo pela  margem  «lo  rio,  me  mostrou  um  novilho  preso, 
que  era  para  eu  comer ;  dei-lhe  mais  barretes  e  facas,  e 
lhe  disse  que  o  mandasse  malar  e  embarcar  na  canoa,  assim 
o  fez  e  inteiro  o  traziam ;  porém  mandei-o  esquartejar, 
o  que  promptamentc  fizeram  e  embarcaram ;  viram^  jaos- 
tras  de  fumo  aos  que  iam  na  canoa,  entraram  a  pedir  a 
muita  instancia  tabaco  para  cigarros ;  disse-lhes  que  sim, 
que  eu  passando  da  outra  parte  lh'o  mandaria,  procurei- 
Ibe  carneiros,  disseram  que  mandavam  buscar,  o  que  fize- 
ram promplimente. 

Emquanto  tive  estas  conversas  com  os  que  faziam  figuras 
principaes,  os  camaradas  da  proa  da  canoa  também  faziam 
com  os  Índios  seus  negócios  a  troco  de  pedaços  de  fumo, 
qu^  elles  pagavam  com  cordas,  algumas  cobertas  de  algo- 
dão de  r;s,ras  de  cores,  davam  por  facões  e  por  pratos  al- 
gumas camisetas,  etc.  Despedi-me  d*elles,  passei  para  a 
nossa  parle,  e  logo  lhe  enviei  dguns  pedaços  de  fumo  pelo 
cabo  de  esquadra,  e  lhe  disse  que  se  lhe  dessem  alguma 
cousa  por  elle  recebesse,  porque  semelhante  gente  é  ne- 
cessário imital-os,  que  obram  sem  manha,  sem  interesse; 
receberam  o  fumo  e  lhe  deram  duas  camisetas  inúteis,  ins- 
tando-lhe  que  queriam  machados  e  xifarotes,  e  que  ahi  es- 
tava um  cavallo  para  o  capitão  ;  a  gente  do  trabalho  n*esta 
ida  melhor  se  aproveitaram  alguns,  por  lhes  darem  cober- 
tas de  algodão  e  camisetas,  a  troco  de  pratos  do  estanho  e 
facões,  6  de  fumo,  cujo  commercio  se  lhes  não  prohibiu, 


—  81  - 

pela  razao  de  que  elles  acreditassem  que  d'aquillo  que  elles 
appeteciam  não  experimentavam  falta;  os  nossos  serventes, 
passado  pouco  tempo,  vi  que  lhe  tinham  chegado  carneiros, 
c  porque  não  ficássemos  sem  amostra  d'aquelle  género, 
porque  elles  tanto  tardam  a  fazer  como  a  desfazer  o  que 
ajustam,  e  eu  já  o  experimentava,  pois  asseverando  elles 
que  o  cavallo  para  o  capitão  ahi  estava  bom,  mandando- 
Ihes  dizer  que  o  puzessem  na  parte  d*onde  lhe  assignalàra 
para  o  receber,  nunca  o  fizeram;  resolvi-me  a  passar  lá 
outra  vez,  a  tempo  que  elles  já  se  iam  retirando,  chamei-os, 
punham  difficuldade  em  chegar,  dizendo  que  de  tarde 
haviam  de  vir,  que  iam  comer ;  instei  com  elles  a  que  che- 
gassem, que  alli  lhes  levava  machados  e  facões;  com  estas 
promessas  chegaram-se,  dei  lhes  dois  machados  do  uso  das 
canoas e  dois  facões ;  deram-me  três  carneiros,  e  a umsol- 
dado  outro  por  um  facão  que  também  lhe  deu,e  despedimo- 
nos  até  à  tarde  para  nos  ajustarmos  na  correspondência;  dei 
a  um  que  servia  de  lingua,que  era  dos  mais  distinctos,um  es- 
pelho para  a  sua  mulher,o  que  agradeceu  muito ;  retiraram- 
se  á  sua  comida  para  o  interior  do  sertão,  e  eu  para  a  nossa 
positura,  que  era  sobre  a  agua,  aonde  todo  o  dia  passámos 
sem  comer.  Foram  firmes  em  tornar  de  tarde,  que  ficou 
destinada  para  a  repetição  do  seguro  da  nossa  amizade  o 
de  algum  ajuste  dè  commercio  ;  chegaram  com  elTeito  já 
perto  da  noite,  e  logo  pareceu  para  a  parte  d'elles  o  aju- 
dante Francisco  Rodrigues  Javaros  a  comprimentalos  ; 
c  do  que  particularmente  passou  cora  elles  o  dito  ajudante 
informarei  a  Vm.  ;  e,  como  eu  tinha  pedido  ao  dito  aju- 
dante quando  foi,  que  me  fizesse  mercê  dizer-lhes  que  eu  lá 
me  ia  despedir  d'elles  porque  queria  seguir  viagem,  elle  as- 
sim o  fez,. e  quando  voltou,  lho  perguntei  se  tinha  trataílo  ^ 
com  elles  o  virem  acima  em  ordem  a  nós  não  implicarmos 
no  modo  das  persuasões ;  que  com  semelhante  gente  é  ne- 
TOiíoxxvin,  p.  1.  11 


-  82  - 

cessario  toda  a  cautela,  para  nâo  desconfiarem  ;  disse-me 
que  sim  ;  passei-me  a  parle  d*elles,  dei-lhes  mostras  do 
grande  contentamento  que  tínhamos  da  sua  amizade  e  cor- 
respondência ;  convidei-os  para  virem  aonde  nós  estáva- 
mos, que  elles  me  certificaram  que  bem  sabiam;  e  como  um 
soldado  medisse  que  prometteram  ao  ajudante  em  passando 
duas  luas  que  haviam  de  vir,  e  que  em  nós  vendo  fumaças, 
perguntei-Ihe  e  o  mesmo  me  certificaram  ;  mas  por  cau- 
tela augmentei-lhe  o  numero  das  luas  do  tempo  que  diziam 
os  havíamos  de  esperar,  por  ver  se  viciavam  o  que  tinham 
segurado  ao  ajudante,  porém  firmes  disseram  que  não,  que 
em  passando  as  duas  luas  haviam  de  vir ;  disse-Ihes  que 
nós  os  esperávamos  com  c^vallos,  gado  e  carneiros,  que 
cà  lhe  teríamos  promptos  muitos  xifarotes,  muitos  macha- 
dos e  muitas  mais  cousas,  e  por  despedida  lhes  dei  mais 
barretes  e  facas  e  alguns  anzoo*^,  e  com  muito  contenta- 
mento nos  despedimos,  dizendo  elles  que  eram  chrislãos, 
e  que  estava  bom  o  sermos  amigos,  que  o  padre  Peneo 
era  bom,  que  estava  na  Pedra  em  à  campanha,  que  lhes 
dava  muita  cousa,  porém  que  para  lá  ir  gastavam  quatro 
luas,  o  que  eu  acho  ser  fabuloso,  porque,  tendo  elles  ca- 
vallos  e  canoas,  podem  cm  breves  dias  ir  á  cidade  de  Pa- 
raguay  ou  ás  suas  povoações  procurar  o  que  lhes  é  pre- 
ciso. 

No  dia  9,  que  era  o  sétimo  da  nova  derrota,  todo  o  dia 
navegámos  sem  mais  novidade»  que  o  apparecímento  de  al- 
guns signaes  de  fogos,  e  assim  nos  recolhemos  a  esUi  forta- 
leza em  13  de  Outubro  com  onze  dias  de  ida  e  volta  sem 
moléstia  de  pessoa  alguma. 

O  dito  capitão  ou  cacique  guaicurú  nada  fallava,  ou  por 
nos  nâo  entender  ou  por  malícia,  e  só  dava  aquellas  de- 
monstrações de  querer  o  que  os  seusfallavam  ;  os  que  con- 
versavam eram  Ires,  que  diziam  dois  quí*  eram  irmãos  eum 


-  83  - 

qae  era  filho,  emiim  estes  o  que  diziam  era  em  lingiia  bes- 
panhola;  o  capitao,disseram  se  chamava  Lourenço,  os  três, 
um  Filippe,  outro  Manoel,  e  outro  José  ;  certificaram  que 
eram  muito  christaos,apontavam  para  o  céo,que  estava  boa 
a  nossa  amizade:  uma  india  bastantemente  ladina  e  não 
muito  feia  perguntou  o  meu  nome,  e  dizendo-lhe  o  soldado 
dragão  José  da  Fonseca  Fontoura,  logo  ella  chamou  um 
íVaquelles  que  acompanhava  o  capitão,  mostrando  e  re- 
querendo-lhe  não  fizessem  mal,  fazendo  cruzes  com  os 
dedos  na  boca,  dizendo  que  eram  christãos.  Toda  a  confluên- 
cia do  rio  desde  este  forle  até  os  morros  d*onde  chegámos 
é  cada  vez  mais  largo,  em  partes  com  bahias  ou  enseadas 
que  fazem  mais  extensa  a  sua  largura,  os  seus  lados,  todos 
pantanosos  ;  e  se  devisam  circulando  de  uma  e  outra  parte 
os  ditos  pântanos,  continuados  matos  de  carandas,  os  quaes 
em  algumas  partes  abeiram  as  margens  do  rio  ;  tem  bas- 
tantes ilhas,  mas  todas  alagadas,  e  por  isso  a  maior  parte 
das  noites  fizemos  pouso  nas  próprias  canoas  no  pântanos 
por  não  haver  terra,  e  outras  vezes  aproveitámos  alguma, 
pequenas  provisões  que  appareciam,  até  a  falta  de  lenha 
para  a  cozinha,  que  experimentámos  em  partes ;  e  haver 
frequência  de  viagens  por  este  riô,  não  será  desacerto  car- 
regal-as,  por  não  experimentar  fallencia  ;  as  nossas  embar- 
cações não  são  muito  adequadas  para  a  navegação  d*este 
rio,  pois  só  as  que  possam  soffrer  velas  poderão  viajar  se- 
guras. Não  encontrámos  rio  algum  que  fizesse  a  barra 
n'este,  e  menos  descobrimos  terras  aliás  que  pessam  formar 
vertentes  ;  são  muitas  as  bocas  que  apparecem,  porém 
estas  se  conhecem  ser  da  bahia  que  em  si  contém  o  mesmo 
paobMkO,  da  parte  do  leste  ;  não  vimos  indios  alguns  e  só 
signaes  de  fogos  em  correspondência  aos  que  se  faziam  d*ou- 
tras  partes. 
E'  o  que  a  Vm.  posso  informar  da  diligencia  do  serviço 


-  84  - 

de  Sua  Mageslade  que  foi  servido  encarregar-nos,  sobre  o 
exame  que  o  Illm.  e  Exm.  Sr.  general  mandou  fazer  até  o 
segundo  fecho,  que  diziam  haver  n'esle  Paraguay. 

Presidio  de  Coimbra  a  Nova,  14  d'Outubrode  1776.  O 
capitão  da  companhia  das  ordenanças,  Miguel  José  Rodri- 
gues.—  Luiz  d' Albuquerque  de  Mello  Pereira  e  Cáceres. 

Illm.  e  Ex»a.  Sr.—  Em  21  de  Setembro  cliegaram  a  este 
presidio  quatro  canoas  e  um  batelão,  expedidas  da  villa  de 
Cuyabà  com  soccorro  de  viveres  para  este  presidio,  lempo' 
em  que  já  a  guarnição  estava  experimentando  falta  consi- 
derável, porque  tão  somente  havia  sido  municiada  cada 
uma  pessoa  no  principio  do  dilo  mez  com  meia  quarta  de 
farinha  por  não  haver  mais. 

Eu  certo  estou  que  de  V.  Ex.  não  provem  estas  faltas, 
mas  sim  dos  executores  das  ordens  de  V.  Ex.  no  Cuyabà, 
que  presumo  desejam  se  abandone  no  meu  tempo  este  pre- 
sidio, pois  é  certo  que  em  semelhantes  distancias  de  ne- 
cessidade se  toleram  lodos  os  trabalhos ;  porém  a  fome 
tudo  faz  insollrível,  e  é  causa  de  muitas  desordens :  não  é 
por  falta  de  exhorlações  aos  mesmos  executores  das  ordens; 
porém  sempre  se  desculpam  com  falta  de  gente  para  as  con- 
ductas  e  canoas,  insinuando-meque  se  quero  mantimentos 
mande  canoas,  como  se  eu  estivesse  nos  povoados  como 
elles,  e  parece  cada  vez  mais  enfraquecer  a  guarnição  com 
tirar  gente  para  as  ditas  conduclas.  Agora  remetlo  6  ca- 
noas, e  n'ellas  19  pedestres,  15  bons  e  4  doentes,  que  aqui 
se  não  podem  curar,  S  auxiliares  e  caçadores,  27  ordenan- 
ças para  trabalho  e  defesa  das  mesmas  canoas,  excepto  os 
que  vão  por  doentes,  que  com  o  dragão  que  vai  por  cabo 
faz  o  numero  de  55  pessoas ;  parcce-me  que  agcra  não  tem 
desculpa  que  dar,  ainda  que  no  regresso  passado  enfiei 
igual  numero,  e  nas  canoas  que  vieram  sô  mandaram  31 
trabalhadores,  c  3  d*armas,  excepto  o  ajudante  c  2  dragões 


-So- 
que d'aquí  tiahamido ;  isto  tendo  eu  pedido  ao  meu  mestre 
de  campo,  como  a  V.  Ex.  representei,  40  homens  armsdos 
para  a  diligencia  que  V.  Ex.  me  linha  encarregado,  e  foram 
laes  os  que  vieram,quc  paraa  dila  diligencia  me  aproveitei 
sò  de  três:  as  arnns  excepto  as  que  d'aqui  tinham  ido  com 
as  canoas  me  remetteram  10  com  o  nome  de  armas :  este 
peditório  fiz  insinuando  que  era  para  un^a  importante  dili- 
gencia, e  quando  este  muito  os  não  excitou,  que  para  o  mais. 
Sem  embargo  d'isso,  me  determinei  a  pôr  em  execução  o 
mandado  de  V.  Ex.  Em  3  de  Outubro  fiz  expedir  doeste 
presidio  quatro  canoas  grandes  armadas  em  guerra,    e 
um  batelão  para   servir  de   espia  om  que   se  embar- 
caram 85  pessoas,  numero  total  dos  commandantes,  sol- 
dados d'armas  e  trabalhadores,  que  supposlo  julguei  ir 
um  pouco  arriscada ;  em  maior  risco  íiquei  n'este  presidio, 
pela  pouca  e  inútil  guarnição  que  ficou.  Forneci  á  canoa 
capitanea  com  uma  pecinha  montada,  c  as  mais  embarca- 
ções com  72  armas  de  fogo,  levando  todos  1,600  cartuxos 
de  pólvora. 

Nomeei  para  commandante  da  capitanea  ao  capitão  Miguel 
José  Rodrigues ;  e  para  o  da  almirante  o  ajudante  Fran- 
cisco Rodrigues  Tavares ;  para  as  duas  do  centro  o  cabo 
d'esquadra  de  dragões  José  Vieira  Passos  e  o  soldado 
dragão  José  da  Fonseca  Fontoura;  e  para  o  batelão  de  espia 
um  sargento  da  ordenança.  Fizeram  a  sua  partida  com  a 
formalidade  que  o  meu  gosto  appetecia  ;  e  se  recolheram  a 
esle  presidio  em  o  dia  13  do  dito  mez  com  grande  conten- 
tamento meu,  não  só  por  virem  bem  sociados,  mas  por 
conseguirem  o  que  V.  Ex.  appetecia  a  respeito  do  gentio 
habitante  d'estes  territórios,  de  que  dou  a  V.  Ex.  o  para- 
bém de  conseguir  no  seu  feliz  governo  o  que  ainda  se  não 
conta  dos  passados. 

Do  que  se  obrou  vera  V.  Ex.  da  informação  que  me  apre- 


-  86  - 

sentou  o  capitão  Miguel  José  Rodrigues,  que  sód*ella  lenho 
o  desprazer  da  situação  do  feciío  ser  tâo  despida  de  tudo  o 
que  é  bom  para  se  segurar,  e  o  necessário  para  esse  íim, 
como  também  para  a  cultura  por  onde  julgo  será  muito  diffi- 
Gultoso  o  estabelecermos  alli  pelos  motivos  que  pondero  : 
O  primeiro  :  que,  quando  são  tão  tardos  os  soccorros 
para  esta  paragem,  que  será  para  aquella?  Segundo:  o 
grande  risco  que  correm  as  embarcações  de  conducla  por 
lhes  licar  a  barra  do  rio  Mondego  superior,  e  os  gentios 
d*aquelle  districto,  ou  lalvez  castelhanos, fazerem-nos  algu- 
mas sorpresas.  Terceiro  :  as  nossas  canoas  i)odem  pouco 
tolerar  as  ondas  do  rio,  o  por  isso  andam  muilo  arriscadas 
a  ir  a  pi(|ue  ;  e  si  por  esta  causa  com  as  tormentas  portar 
em  terra,  se  a  houver,  poderão  no  mesmo  lugar  aonde  pro- 
curar Q  asjio  acharem  a  sua  ruina,  cahindo  na  mão  do 
gentio  cavalleiro,  que  os  acabará.  Quarto :  as  grandes  for- 
cas que  lá  são  precisas  para  conservar  o  presidio,  porque 
não  será  possível  suslental-o  com  as  tropas  paisanas,  que 
não  servem  para  disputas  marciaes,  nem  i)ara  soíTror  ata- 
ques a  pé  firme  por  muito  tempo :  emfim,  estas  circum- 
stancias  só  a  alta  ponderação  de  V.  Kx.  as  j)oderá  bem  dis- 
cernir, para  melhor  acerto.  Também  envio  a  Y.  Ex.  o 
diário  do  ajudante. 

Emquanto  aos  gentios  que  faltaram  com  os  nossos,  diz 
certilicarem  vir  a  este  presidio,  ou  ás  suas  vizinhanças,  pas- 
sadas duas  luas,  qu.i  segundo  dizem  é  [)ara  o  fim  de  Dezem- 
bro. Eu  bem  desejei  mandar  este  aviso  a  V.  Ex.  em  via 
recta  pelo  Jaurú,  porém  não  me  acho  com  gente  para  o 
poder  fazer,  que  para  enfraquecer  de  todo  este  presidio, 
não  sabemos  se  os  hespanhoes  pelos  gentios  teriam  alguma 
noticia  da  nossa  exploração,  e  intentem  por  esta  causa 
vir-nos  fazer  algum  apparecimento.  Os  ditos  Índios  o  que 
mais  appetecem  são  xifarotes  com  sua  guarnição  de  latão,  a 


-  87  - 

folha  voltoath,  machados,  rendas  e  brcUnlias:  se  V.  Ex. 
se  resolver  a  mandar  algmna  cousa  d'isso,    para  dar  aos 
ditos  índios,  dove  ser  com  brevidade  ;  e  os  machados  bom 
será  que  sejam  mais  pequenos  que  os  nossos,  algumas  peças 
de  lita  para  se  porem  nos  bentinhos  que  já  V.  Ex.  mandou, 
6  algumas  missangas,  que  as  mulheres  dos  ditos  Índios  tudo 
^ppetecem.  Eu  nocaso  que  elles  venham  pretendo  ver  se  os 
contento  com  facões,  e  machados  dos  que  estão  para  as 
obras  d*este  presidio,  facas,  barretes,  espelhos,  verónicas 
G  de  tudo  o  que  V.  Ex.  mandou  para  elles ;  emfim,  do  que 
houver,  porque  elles  o  que  mais  querem  são  ferramentas, 
O  que  se  despendeu  n*esta  viagem  foram  31  ])arreles,  tí  es- 
pelhos, 32  verónicas,  45  facas,  2  facões,  2  machados,  2 
frascos  d*aguardente  e  algum  fumo.  O  que  deram  ao  capi- 
no   Miguel  José  Rodrigues  foi  2    cobertas  e  II  camisetas 
^'algodão  grosseiras,  que  presentemente  remetto  ao  meu 
'Mostre  de  campo  para  o  fíizer  a  V.  Ex.,  para  ver  o  tecido  de 
í  ^G    elles  usam.  Os  carneiros  que  lhe  deram  foram  3  que 
entregou  e  ficam  n'este  presidio,  o  sâo  capados,  com  umas 
Pintas  muito  pequenas, (jue  parece  foram  quebradas :  estes 
conx  os  mais  que  trouxeram  os  particulares  |)ara  si  fazem  o 
í^Urciero  de  8  e  1  cabra. 

Como  os  dois  commandantes  da  capilanea  e  almirante 

^^^Pois  de  chegados  se  desuniram  nos  seus  informes,  na  in- 

^^^lligencia  da  igualdade  das  conimandancias,  eu  os  iiz  avisar 

P^^Va.  ir  á  presença  de  V.  Ex.  a  dar  a  informarão  pessoal  : 

P^i*t>m,  considerando  o  quio  desliluido  ficava  de  olliriars,  e 

Q.U15  poderio  vir  os  laes  indios,  e,  como  já  são  eonincidos, 

f  ^  Os  não  achassem  poderiam  desconfiar  que  era  traição,  e ' 

^^^so  embora,  por  essa  razão  os  fiz  ficar  oulra  vez ;  e  pre- 

^^nio  que  cada  um  d*elles  representarão  as  suas  cousas. 

Agora  me  persuado  que  o  gentio  que  se  alacou  com  o  ca- 

P**uo  João  Leme  do  Prado  no  rio  Mondego  era  cavalleiro, 


-  88  - 

vistas  as  informações  de  que  o  dito  genlio  cavalleiro  também 
usa  de  canoas ;  se  assim  fôr,  lai  vez  por  alli  se  possam  bem 
communicar  todos  os  d'aquella  parte,  e  conciliar  com  elles 
amizade. 

Eu  tão  somente  fico  n'esle  presidio  com  13  dragões  eo 
seu  cabo,  quatro  pedestres  e  o  seu  sargento,  quatro  auxi- 
liares um  com  nome  de  sargento  e  outro  de  cabo,  cinco  ca- 
çadores e  um  sargento,  e  a  companhia  de  ordenança,  que  o 
seu  total  presentemente  sâo  cincoenta  c  sete  praças  ;  é  a 
gente  que  tenho  para  fazer  frente  â  chegada  do  gentio  se 
com  effeilo  vier  como  affirmou  ;  advertindo  que  de  todos 
estes  só  os  pagos  são  capazes  de  apparecer,que  os  mais  não 
podem  ser  mais  inúteis. 

Deus  guarde  a  V.  Ex.  muitos  annos.  Presidio  de  Coimbra 
a  Nova  i7  de  Outubro  de  1776. —  lUm  e  Ex.  Sr.  Luiz 
de  Albuquerque  de  Mello  Pereira  e  Cáceres.  —  De  V.  Ex.  o 
mais  reverente  súbdito,  Marcellino  Rodrigues  Camponez.— 
Luís  de  AIbwiuerqiied<í  Mello  Pereira  e  Cáceres. 


-  89  — 


EXPUGNAÇiO  PELOS  HESPANHÓES 

DO  PRESIDIO  DE  NOVA  COIMBRA, 

lllnL  Exra.  Senhor*  —  As  noticias  que  a  V,  Ei,  partici- 
pei lio  meu  offlcio  de  n,  Í6.  em  Jata  de  17  da  Setembro  do 
presente  auno  bera  depressa  se  verificaram,  porque  jà  no 
dia  í6  do  mez  pelas  4  horas  da  tarde  se  tinham  apresentado, 
diante  do  presidio  de  Nova  Coimbra»  i  embareacões  hespa- 
nholas  de  dois  e  três  mastros  como  grandes  saraacas,  fazendo 
vivo  fogo  contra  o  mesmo  presidio  por  espaço  de  duas  ho^ 
rââ|  e  como  a  nossa  artilheria  do  calibre  de  am,  não  fazia 
daraao  nem  eral>araço,  passaram  para  a  ponte  de  cima,  e  k 
boca  da  noite  fundearam  na  margem  opposta,  ludibriando 
os  Índios  payàgoazes»  que  os  acompanhara  em  30  ou  40  ca- 
aôaSp  esta  acção  com  grandes  algazarras,  por  verem  o  ne- 
nhum eíTeito  da  nossa  artilheria. 

O  tenente  coronel  engenheiro  Ricardo  Franco  de  Almeida 
Serra  na  mesma  noite  me  fe2  este  aviso,  que  ante-honlem 
recebi,  e  presumia  que  o  presidio  de  Miranda  estivesse  lam- 
bem atacado, porque  havia  um  mezque  tinha  mandado  uma 
canoa  ao  dito  presidio,  a  qual  ainda  nao  linha  voltado, 

Se  ao  r^íferido  presidio  de  Coimbra  houvesse  artilheria 
competente,  que  eu  pira  tantas  partes  tenho  pedido,  não 
reconheceria  por  certo  esta  primeira  infelicidade,  a  qual 
os  põem  agora  em  figura  de  embaraçar,  o  soccorro  de  gente 
e  viveres  para  um  e  outro  presidio,  de  embaraçar  as  navega- 
ções d' esta  capitania  para  a  de  S*  Paulo  ;  e  outras  conse- 
quências ainda  maiores,  se  o  plano  do  vice  rei  de  Buenos 
AyreSf  que  manda  sobre  todas  as  provi ncias  que  confinam 
com  esta  capitania,  fôr  o  de  se  darem  as  mãos  o  governadí*r 
d' Assumpção  e  o  governador  de  Chiquitos.em  cuja  provincia 
se  cuida  também  em  preparatórios. 

Uonlem  expedi  as  ordens  mait  apertadas  paraa  villa  de 
T03I0  xxtm,  p,  I  1^ 


-  90  - 

Cuyabá  {>ara  o  dito  tenente  coronel  Wcardo  Firanco  ser 
promptamente  soccorrido.  Mandei  postar  canoas  armadas 
em  guerra,  rio  Cayabà  abaixo,  para  evitar  a  Tuga  dos  escra- 
vos, e  algumas  hostilidades  dos  indios  payàgoazes,  que  aju- 
dados de  alguns  bespanboes  pretendam  subir  pelo  mesmo 
rio  nas  suas  canoas,  pois  que  nas  sobreditas  embarcações  de 
dois  e  três  mastros,  não  poderão  entrar  nem  subir  a  grande 
distancia.  Mandei  marchar  para  o  registro  do  Jaurú  as  doas 
companhias  de  cavallaria  da  legião  de  milicias  d'aquella  vílta 
e  ao  commandante  deVilla  Maria  do  Paraguay;  ordenei  tam- 
bém mandasse  postar  algumas  canoas  armadas  noEscalvado, 
com  o  mesmo  fim  de  evitar  a  fuga  dos  escravos  e  hostili- 
dades dos  payàgoazes.  Uontem  mesmo  escrevi  aos  gover- 
nadores de  Goyaz,  S.  Paulo,  Minas  Gcraes,  e  ao  vice  rei  do 
Rio  de  Janeiro,  para  apressarem  e  augmentarem  os  soccor- 
ros  que  liies  tinha  pedido. 

Hoje  escrevo  ao  governador  do  Pará  e  tenlio  o  desgosto 
de  fazer  a  V.  Ex.  esta  participação,  que  bem  quizéra  fosse 
antes,  de  que  os  barcos  hespanhoes  ficaram  esmigalhados  e 
mettidos  a  pique  diante  de  Coimbra,  se  allí  houvesse  alguns 
artilheiros  e  artelheria  de  maior  calibre. 

Eufico-me  apromptindo  com  toda  a  pressa  que  permittem 
uns  armazéns  e  cofres  reaes  pobres  de  ludo ;  e  uma  capita- 
nia de  tão  pequeno  recursos.  Mas  apesar  de  todas  estas 
desavantagens,  e  da  vantagem  que  conseguiram  os  hespa- 
nhoes de  passar  de  Coimbra  para  cima  :  eu  coniio  no  auxi- 
lio divino  a  favor  da  justiça  da  nossa  causa,  confio  nos 
quatrocentos  iiomens  que  estavam  guarnecendo  Coimbra, 
Miranda,  e  Albuquerque,  entrando  n*este  numero  Gi  pra- 
ças da  expedição  do  tenente  coronel  dacapitania  de  S.  Paulo 
Cândido  Xavier  de  Almeida  e  Sousa  ;  confio  na  fidelidade 
doestes  colonos,e  em  algum  alTectoque  Ihts  tenha  merecido: 
e  portanto  ainda  espero  escrever  a  V.  Ex.  com  mais  alegria. 


-  91  - 

Y.  Ex.,por  todos  os  ofiScios  que  tenho  tido  a  honrada 
dirigir-lhe»  creio  qae  estará  persuadido  d'estas  verdades : 
que  a  capitania  de  Mato  Grosso  está  em  circumslancias 
maito  difTerentes  das  dos  annos  de  1763  e  t76  >«  e  deveria 
estar  apercebida  o  apparelbada  para  se  arrostar  com  as  três 
províncias  hespanboias,  com  quem  confina,  e  não  com  a 
onica  provincia  de  Moxos,  por  onde  foi  atacada  nos  sobre^ 
ditos  annos :  quo  a  sua  guarnição  por  consequência  é  muito 
peqpiena  e  muito  pouca  a  sua  artilbería,  como  também 
todos  os  mais  petrechos  e  munições  de  guerra  :  que,  não 
chegando  as  rendas  reaespara  asdespezas  ordinárias,  ella 
devia  ser  soccorrída  extremamente  para  as  extraordinárias, 
que  86  tém  feito  ha  cinco  para  seis  annos,  e  muito  mais  o  devo 
ser  agora  para  as  que  accrescem  com  a  guerra  actual :  que 
a  fronteira  do  Paraguay  é  presentemente  a  mais  arriscada, 
ea  que  deveria  merecer  a  primeira  attenção,  sendo  por  con- 
sequência justos  os  receios,  que  eu  sempre  tive,  de  ser 
í  ncommodado  por  aquelle  lado. 

Se  eu  não  tenho  feito  chegar  as  mesmas  verdades  a  um 
Srào  de  evidencia,  é  falta  dos  meus  pobres  talentos  ;  mas 
\.  Ex.  saberá  enriquecêl-os  e  prop  ^rcionar  as  providencias 
C|ue  forem  mais  conformes  ao  bem  do  serviço  de  Sua  Alteza 
AeaL 

Deus  guarde  aV.  Ex.  muitos  annos.  VilbBella,  10  do 
^kitubrode  1801.— Illm.  Exm.  Sr.  D.  Rodrigo  de  Sousa 
Coutinho.  —  Caetnno  Pinto  de  Miranda  Monte  Negro. 

illm.  e  Ex.  Senhor.— Tenlio  a  honra  de  pôr  na  respeila- 
irel  presença  de  V.  Ex.,  na  cópia  de  n.  i,  acarta  qqe  ulli- 
namente  recebi  do  tenente  coronel  de  engenheiros  Ricardo 
¥ranco;de  Almeida  Serra,  na  qual  refere  o  que  se  linha  pas- 
sado cm  Coimbra,  desde  o  dia  lli,  cm  que  foi  atacado,  até  o 
diaSSde  Setembro.  A  de  n,  2.  do  tenente  de  dragões 
FrancisiX)  Rodrigues  do  Prado  individua  as  fqrças  que  mo-' 


—  92  - 

yem  os  bespanboes  contta  aqoelles  estabelecimentos.  A  de 
D.  3  contém  a  notificação  que  fez  o  goternador  da  profin- 
cia  d'Assumpção  D.  Lazaro  da  Ribeira  ao  dito  tenente  coitr 
nel  de  engenheiros  para  que  se  rendesse  ;  e  a  de  n.  k^fi 
generosas  respostas  qae  Ibe  deu  o  mesmo  oficial. 

Em  consequência  d'estas  noticias,  contoquei  um  conselho 
de  guerra  que  Y.  Ex.  acbarà  na  cópia  de  n.  5,  no  qual  se 
assentou»  se  occorresse  com  maior  esforço  á  fronteira  do 
Paraguay,  e  que  pelas  fronteiras  de  Cbiquitos  e  de  Moxos 
nos  puzessemos  por  ora  na  defensiva,  até  que  cbegassem  os 
soccorros  que  tenbo  pedido»  e  mil  cousas  que  nao  ha  presen- 
temente nem  nos  armazéns  reaes»  nem  nas  lojas  do  com- 
mercio,  como  por  exemplo,  uma  folha  de  papel  para  refoitr* 
mar  um  cartuxo»  uma  libra  de  breu  para  concertar  uma  ca- 
noa ;  tendo  eu  desde  o  anuo  de  1799  sete  contos  de  réis  na 
cidade  do  Pará,  para  semelhantes  provimentos»  sem  que 
até  o  presente  tenha  recebido  uma  única  cousa  das  que 
pedi  I 

A  capitania  de  Mato  Grosso  (permitta-me  Y.  Ex.  esta  re- 
flexão) merece  particular  attenção  da  corte,  e  o  animo  que 
tenho  pelas  cousas  da  pátria,  e  pelo  serviço  de  Sua  Alteza 
Real,  sò  ficará  socegadío,  quando  eu  vir  que  ella  é  com- 
templada  em  primeiro  lugar,  como  a  praça  de  Elvas,  e 
em  segundo  lugar  como  uma  colónia,  que  pôde  vir  a 
ser  poderosa  e  rica,  uma  vez  que  se  appliquem  os  meios 
competentes  e  ^e  òs  setts  próprios  governadores,  de 
mais  luzes  do  que  as  minhas,  sejam  os  que  regulem  os 
seus  interesses. 

Déus^arde  a  Y.  Ex.  muitos  annos;  Yilla  Bella,  em  17  de 
Outubro  de  1801.  —Ulm.  eEx.  Sr.  D.  Rodrigo  de  Sousa 
Coutinho.  ^  Caétaúo  Pinto  de  Miranda  MorUé  Negro. 

Illm.  e  Exm.  Senhor.— No  dia  16,  pelas  4  horas  da 
tarde,  ápparõceu  em  frente  d^estd  presidio  o  governador 


-^  93  - 


de  AssimipçSo,  D.  Lazaro  da  Ribeira,  em  Irts  grandes  su- 
macas,  cada  uma  com  duas  peças  de  artilbería  por  banda, 
e  oolra  menor,  batendo  a  este  forte  até  depois  das  ave-ma- 
rias,  cujo  fogo  repetiu  do  dia  e  de  noite  ate  o  dia  31,  e 
bonlem  e  boje  o  tem  parado,  creio  por  causa  de  um  grande 
Tanto  uorlu,  e  nao  menor  tempestade  que  houve;  e,  vendo 
que  a  nossa  pequena  arlillveria  o  não  oflende  no  seu  curto 
alcance,  nos  tem  dado  grandes  apupadas,  manobrando* 
ora  para  baixo,  ora  para  cima  os  dois  lados  d*este  forte  ; 
animando-se  n*esle  ultimo  a  chegar  a  tiro  de  mosquete  e 
querer  fazer  um  desembarque  em  pequenas  canoas,  das 
quaes,  com  as  noss^  espingardas,  lhe  deitamos  ao  rio  seis 
ou  oito  bomens,  o  no  lado  do  baixo  no  dia  31  saltou  em 
terra j  mandou  colher  couves  e  cebolas  na  horta,  matou 
gado,  porcos,  chegando  com  toda  a  confiança  até  a  ponta 
do  morro,  de  onde,  de  uma  emboscada  que  alti  havia,  se 
Ihr  mataram  Ires  homens,  e  dois  foram  mortalmenle  fe- 
ridos, o  que  faz  já  entre  mortos  e  feridos  vinte.  Hoje  re- 
cebi a  carta  inclusa  do  tenente  Francisco  Rodrigues,  que 
verifica  o  que  dizem  qualro  Índios  dos  que  linha  mandado 
a  Bourbon,  e  D,  Lazaro  os  prendeu  e  trazia  na  sua  samacã, 
os  quaes  no  dia  i8  se  deitaram  a  nado  pelo  rio  e  fugiram 
para  este  forte.  No  dia  19  chegou  outro  índio  também  dos 
presos  que  D.  Lazaro  tinha  mandado  por  terra,  o  veiu 
acompanhando  três  capilat^s,  grande  numero  de  gente, 
gado  e  animaes,  que  jà  eslão  na  Bahia  Negra,  dez  léguas 
a  sul  d*este  presidio,  cujos  fogos  estamos  vendo;  e  por 
estes  dez  ou  doze  dias  lho  podem  chegar  o  gado  e  a  gento 
com  ãigum  pouco  trabalho,  por  estarem  os  campos  ala- 
gados. Falta  dizer  que  os  primeiros  índios  contam  qne 
D.  Lazaro,  no  caso  de  nao  tomar  Coimbra,  se  postará  no 
monte  defronte,  aonde  fazendo-se  forte  por  mar  e  por 
terra,  nos  ha  de  reduzir  por  meío^da  fome. 


-  94  - 

No  dia  16  escrevi  ao  mestre  de  caim)o  e  ao  joix  de  fora, 
pedindo  soccorro  de  genle  e  maotimento,  o  que  djessem 
parte  a  V.  Ex.,  escrevendo  lambem  para  iMiranda,  para 
que  o  dito  tenente  commandante  fizesse  algumas  diversões 
por  aquelles  campos,  e  alé  S.  Carlos  se  fosse  preciso.  Mao* 
timento  apenas  tenho  1  iO  alqueires  de  milho,  que  agora 
chegam  de  Miranda,  e  doze  vaccas  que  matei,  que  foram  as 
que  escaparam  da  mortandade  hespanhola. 

Os  soccorros  do  Cuyabà  devem  vir  successivamenie,  sem 
esperar  que  eu  os  mande  buscar,  porque  issc  seria  des* 
guarnecer  este  presidio  da  gente  precisa  para  a  sua  defesa, 
se  se  empregassem  n'esla  conducção,  salvo  quando  houver 
mais  de  300  pessoas,  para  que  o  excedente  dos  ditos 
300  homens  se  empreguem  n*cst;i  diligencia,  pois  D.  La- 
zaro, chegando-lhe  maior  numero  de  embarcações,  pôde* 
navegando  mais  alto,  cortar  este  soccorro ;  eis-aqui  por- 
que pedi  sempre  mantimento  para  seis  mezes,  e  raras 
vezes  me  mandaram  para  mais  de  vinte  dias. 

Emfim,  Iltm.  e  Exm.  S'3nhor,  o  inimigo  eslàst^nhor  do 
Paraguay,  o  navega  livremente  mofindo  da  nossa  insigni- 
ficante, e  chamada  artílhcria;  pelo  que  rogo  a  V.  Ex.  me 
mande  já,  já  as  duas  peças  que  estão  n*essa  vilia,  poissócom 
ellas  poderem^  s  fazer  damno  a  estas  sumacas  e  fazer  re- 
cuar o  inimigo,  e  sem  as  ditas  peças  sepultar-se-ha  a  guar- 
nição d*esle  forte  debaixo  das  suas  ruinas,  e  o  inimigo  n'esta 
ultima  extremidade,  senhor  dt^ste  forte,  o  fica  sendo  de 
Miranda,  da  povoação  de  Albuquerqua,  da  importante  na- 
vegação de  S.  Paulo,  assombrando  talvez  a  mesma  vilIa  do 
Cuyabá.  E'  tão  diminuta  esta  guarnição,  como  cheia  de 
valor  a  maior  parte  d*ella,  e  doestes  muitos  com  excessiva 
demonstração,  como  espero  em  Deus  expor  a  V.  Ex.  pelo 
amor  da  verdade  em  tempo  próprio. 

K'  o  que  apressadamente  se  me  offerece  a  participar  a 


^  í)í;  - 

▼.  Ex.  a  quem  Deos  gaarde  muitos  annos.  Coimbra»  23  de 
Setembro  de  1801.— Dirn.  e  Exm.  Sr.  Caetano  Pinto  de 
Miranda  Monte  Negro.— De  V.Ex.  súbdito  attento  venerador 
Ricardo  Franco  de  Almeida  Serra.— O  secretario  do  go- 
verno, Joaquim  José  Cavalciinti  de  Albuquerque  Lins. 

Illm.  eExm.  Senhor.— No  diaio  c  17  de  Outubro,  escre- 
via eu  a  V.  Ex.  rodeaílo  de  cuidados,  vendo-me  repentina- 
mente atacado  pelo  governador  da  provincia  d'Assumpção  ; 
quando  parecia  que  eu  deveria  antes  estar  na  maior  tranquíl- 
Kdade,  pois  que  n.i  cópia,  que  V.  Ex.  incluiu  no  seu  oHicio 
n;5,em  data  de  U  de  Fevereiro  dei  tOO,eram  reputados  por 
terrores  pânicos  os  meus  receios,e  por  uma  cousa  contra  toda 
a  expectado,  o  ser  atacada  esta  capitinia.  Concorrendo 
mais  a  absoluta  Talta  de  todos  os  sjcorros,  que  para  a  corte, 
Rio  de  Janeiro,  S.  Paulo,  Goyaz  e  Pará  tinha  pedido,  d*onde 
com  bastante  probabilidade  podia  inferir-S3  que  nem  n*esse 
nem  n'est'.^.  continente  havia  já  receios  contra  M  iio  Grosso. 

Não  obstante,  o  ver-me  de  alguma  sorte  surprehendido 
com  tão  pouca  gente  para  uma  fronteira  tão  descompassada, 
com  tão  poucas  armas  para  essa  mesma  pouca  gente,  com 
os  armazéns  e  cofres  reaes  carecidos,  ainda  do  que  seria  ne- 
cessário no  tempo  da  paz,  n'esta  triste  conjunctura,  quasi 
por  um  occulto  presentimento  fundado  na  justiça  eterna, 
na  minha  innocencia,  na  iidelidadee  amor  de  um  povo  a 
quem  governo  com  indigência,  mas,  semeé  licito  dizêl-o» 
com  humanidade,  justiça  e  desinti3resse,  eu  ainda  esperava 
que  em  outro  dia  havia  de  escrever  a  V.  Ex,  com  mai 
alegria. 

Este  dia  presentido  e  desejado  é  o  dia  de  hojis  em  qne 
tenho  a  honra  de  participar  a  V.  Ex.,  a  retirada  dos  hespa- 
lAoes  diante  de  Coimbra,  depois  que  o  valor  ifaquella  guar- 
nigio  lhes  fez  conhecer  que  alli  não  era  o  Iguatemy.  Na  có- 
pia d&  d.  1  adiará  y.  Ex.  a  parte  que  me  deu  o  tenente 


-  96  - 

coronol  de  engenheiros  Ricardo  Franco  d' Almeida  Serra,  ao 
qual  respondi  com  as  de  ns.  2  0  3,0  espero  que  Sna  Alteza 
Real  se  dignará  de  approvar  a  despesa  de  330  oitavas» 
com  que  gratifiquei  alguns  soldados»  que  se  distinguiram, 
não  me  pcrmittindo  a  constituição  de  duas  únicas  compa- 
nhias o  promover  a  todos  elles.  As  cópias  de  ns.  4  e  5, 
contêm  as  carias,  a  que  me  n^firo  na  primeira,  escripta  ao 
referido  tenente  coronel. 

Bem  quizéra  eu,  que  coubesse  nas  minhas  faculdades  o 
premiar  também  este  benemérito  official,  a  quem  princi- 
palmente, se  deve  tâo  gloriosa  defesa.  Mas  esta  minha  in- 
possibilídade  redundará  em  honra  e  utilidade  sua,  pois  que 
terá  de  ser  premiado  pela  real  e  augusta  mão  de  um  príncipe 
verdadeiramente  pai  dos  seus  vassallos  ;  e  tanto  pela  nota 
que  ajuntei  no  iim  da  citada  copia  de  n.  1,  como  pelo 
mappa,  e  observações  que  ajunto  aqui  debaixo  dos  ns.  6  e 
7,  podem  ser  avaliados  os  seus  relevantes  serviços. 

A  causa  por  que  tenho  tido  alguma  demora  em  participar 
a  y.  E&.  este  inglorioso  fim  da  expedição  de  D.  Lazaro  da 
Ribeira,  procedeu  da  falta  de  noticias  de  Miranda,  d'0Dde 
apenas  sabia  o  que  se  refere  nas  três  cartas  de  ns.  8, 9  e  10, 
as  quaes  recebi  em  15  de  Novembro ;  e  só  a  29  isto  é,  ha  3 
dias,  me  chegaram  as  cartas  que  ajunto  nas  cnpias  de 
ns.  11,  12,  13  eU. 

Pelas  sobreditas  cópias  virá  V.  Ex.  no  conhecimento  de 
que  o  commandante  d'aquelle  novo  estabelecimento,  o  pri- 
meiro tenente  de  dragões  Francisco  Rodrigues  do  Prado, 
logo  que  soube  do  api;rtoem  que  se  achava  Coimbra,  embar- 
cou com  cincoenta  e  quatro  soldados.para  vir  salvar  aqaelle 
presidio,  ou  acabar  com  elle  como  se  explica  o  mesaio 
official  na  ordem  que  deixou  ao  alferes  da  legião  de  volaii- 
tarios  reaes  de  S.  Paulo  António  José  do  Rosário  ;  aquella 
resolução  e  aquelles  sentimentos  são  verdadeiros,  pois  é 


—  97   - 

«un  dos  officiaes  de  mais  honra  e  valor  que  tem  esla  capita- 
nia ;  e  aD.  Lazaro  da  Ribeira  tem  elle  particular  vontade 
desde  o  tempo  em  que  o  dito  D.  Lazaro  o  quiz  pren- 
der na  província  de  Moxos.  Vindo,  pois,  jà  bem  perto  de 
Coimbra  e  só  a  sele  léguas  de  distancia,  encontrou  o  avisi  > 
que  Ibe  fazia  o  tenente  coronel  Ricardo  Franco,de  se  ter  re- 
tirado o  inimigo,  por  cujo  motivo  se  recolheu  outra  vez  à 
Miranda. 

Depois  do  seu  regresso,  voltaram  lambera  de  Villa  Real 
alguns  Índios,  e  entro  elles  um  capitão  que  até  o  presenle 
tem  sido  fiel  aos  portuguezes,  o  qual  deu  a  noticia, de  se  ter 
recolhido  D.  Lazaro  da  Ribeira  á  capital,  deixando  bem 
guarnecidos  os  fortes  de  Bourbon  e  S.Carios,  mandando  fazer 
nai  novo  fortim  e  ficando  por  commandantc  d'aquella  fron- 
teira o  coronel  D.  José  Espinola,  como  V.  Ex.  maiscir- 
cumstanciadamente  achará  individuado  nas  referidas  carias, 
ás  quaes  responde,  e  nâo  sei  se  com  o  acerto  que  desejara, 
€bmaden.  15.  Eis  aqui  em  que  veiu  a  disparar  o  grande 
trovão  ou  raio  caslelhano,  de  que  o  canhão  c  a  espada  de- 
cidiriam da  sorte  da  desgraçada  Coimbra. 

Ma  província  de  Moxos,  alé  as  ultimas  noticias  que  tive 
do  forte  do  Príncipe  da  Beira,  nâo  se  tinham  observado  mo- 
vimentos  ;  e,  como  nâo  tem  fugido  índio,  nem  hespanhol 
algum,  édííUcíl  saber  o  que  vai  no  interior  da  província, 
emquanlo  não  chegarem  algumas  forças  para  a  fronteira. 
No  destacamento  do  presidio  fia  provincia  da  Chiquitos, 
acha-se  um  capitão,  um  ten^Mile,  um  alfi^res,  dois  sargentos, 
oito  cabos  de  esquadra  e  cousa  de  cem  soldados.  Porém  eu 
jà  tenho  em  Cíizalvasco  a  guarnição  que  consta  do  niappa 
notado  com  o  n.  Ití,  e,  como  as  aguas  vâo  apertaiido,  pa- 
rece-me  que  antes  da  secca  do  anuo  que  vem  nâo  haverá 
n'esla  fronteira  de  Chiquitos  grande  inquietação.  O  que 
tudo  V.  £x.  se  dignará  de  fazer  presente  a  Sua  Alteza  Real. 

TOMOXXVIII,  p.  I.  Vi 


—  })8  — 

Deus  guarde  a  V.  Ex.  muílos  anoos.  Villa  Bella,  2  de 
Dezembro  de  1801.— Illm.  e  Exm.  Sr.  D.  Rodrigo  de  Sousa 
Coutinho.  —  Caetano  Pinto  de  Miranda  Monte  Negro. 

Illm.  e  Exm.  Senhor.  —  Em  23  de  Setembro  pró- 
ximo passado,  tive  i  honra  de  participar  a  V.  Ex.  o  ata- 
que que  D.  Lazaro  em  pessoa,  em  três  grandes  sumacas  e 
uma  embarcação  menor,  fez  a  este  presidio,  remettendo  no 
mesmo  dia  a  V.  Ex.  a  carta  que  me  escreveu  este  chefe  ini- 
migo, e  a  competente  resposta  que  lhe  dei,  e  o  mais  que 
tem  succedidoaté  hoje  é  o  seguinte: 

No  dia  2i  pelos  três  horas  da  tarde  se  postou  em  fran. 
quia,  e  na  parte  debaixo  d'esle  presidio,  e  fez  ató  ave-ma- 
rias  um  fogo  terrível,  com  as  suas  três  sumacas,  com  duas 
peças  montadas  em  cada  uma  dos  calibres  de  4,  6  e  8 ; 
findo  este  fogo,  a  que  não  respondi  por  estar  fora  do  alcan- 
ce da  nossa  chamada  artilheria,  se  foi  postar  encostada  à 
margem  d'este  mesmo  presidio,  ficando  uma  sumaca  en- 
costada quasi  na  ponta  da  ilha  que  fica  fronteira.  Pel# 
nove  horas  da  noite  tocou  a  retreta,  com  a  sua  musica  de 
oboé  e  zabumba,aque  correspondemos  com  dois  tambores, 
rabeca  e  flauta;  e  n*esle  intervallo  vimos  princiava  a 
descer  para  baixo,  como  fez,  até  quanto  alcançava  a  vista  : 
om  25  e  20  ainda  vimos  as  velas,navegando  vagarosamente, 
deixando-nos  duvidosos  do  seu  destino  :  em  28  chegaram 
dois  dos  nossos  uaycurús,  resto  dos  nove,  que  eu  tinha 
mandado  a  Bourbon  em  29  de  Agosto,  para  verificaras  no- 
ticias do  dia  22,e  D.  Lazaro  apprehendéra  em  2  de  Septem- 
bro,  os  quaes  contaram  que  da  bahia  Negra  depois  de  mil 
pantomimas  os  soltaram,  dando  um  ponne  a  cada  um  ;  que 
n'aquelle  lugar  metteram  a  artilheria  menor  no  porão,  des- 
mancharam os  bailéos  que  traziam  de  carandá,  como  para- 
peito contra  a  mosquetaria  ;  e  que  emfim  os  hcspanhoes  os 
despediram,  bazofíandoque,como  os  porluguezes  em  Coim- 


-  99  - 

bra  eram  poucos  e  estavam  à  espera  de  mais»  que  elles  iam 
buscar  tamb(3m  muita  gente,  paracaptivar  e  matar  a  todos 
juntos;  pelo  que  contam  estes  indios,  houve  conselho  de 
guerra,  ouvindo-se  os  capitães  das  três  sumacas  :  segundo 
podemos  inferir  e  noticiam  os  indios,  o  numero  dos 
inimigos  seria  de  €00  até  800  homens  ;  elles  entre  mor- 
tos e  feridos,  tanto  na  horta,  como  quando  se  encostaram  á 
parte  de  cima  d'estas  muralhas  a  tiro  de  mosquete,  e  na 
acção  do  dia  13  pelas  três  horas  da  noite,  perderam  vinte 
homens  entre  mortos  e  feridos,  sem  que  da  nossa  parte  hou- 
vesse alguma  pessoa  que  recebesse  damno,  mais  do  que  a 
perda  de  alguns  porcos  e  vacc«is,  que  mataram  e  conduzi- 
ram, emquanto  lhes  não  demos  por  uma  emboscada  a  res- 
posta, deixando  alli  um  morto,  e  conduzindo  mais  quatro 
nas  costas. 

Emfim,  Ex.  Sr.,  Coimbra  está  salva  d'este  primeiro  re- 
pellão  dado  na  mais  critica  conjunctura,  sem  mantimento 
algum,  o  qual  suppri  com  algumas  vaccas,  e  porcos  parti- 
culares que  se  mataram,  com  a  mais  diminuta  guarnição 
que  podia  ter,  que  apenas  chegava  a  100  pessoas,  sendo  a 
maior  parte  uns  negros  velhos,  e  auxiliares  ;  uns  crianças, 
outros  molestos  e  muito  cheios  do  maior  terror  pânico. 

Não  pouca  timidez  se  notou  no  inimigo,  pois  quando  se 
encostou  na  ponta  de  cima  doeste  presidio  fazendo-se  das 
muralhas  alguns  tiros  de  arcabuz,  por  estar  debaixo  do  seu 
alcance,  não  respondeu  com  um  tiro,  cuidando  logo  em 
afaslar-se. 

No  pouso  fronteiro  à  horta,  e  na  mesma  margem  doeste 
presidio,  trabalhou  em  uma  fachina,  não  deixando  eu  de 
temer  quizesse  fazer  alguma  bateria  para  plantar  o  canhão 
e  bater  com  mais  certeza  estas  muralhas,  para  abrir  bre- 
cha ;  pelo  contrario,,  como  depois  vi,  era  uma  fachina  alta, 
sobre  a  extremidade  da  margem  do  rio,  só  destinada  a 


-  lOtl  — 

cubrir  as  ^macas  de  algum  ataque  nocturno:  os  soccorros  de 
terra  lhe  não  chegaram  por  estarem  ainda  estes  campos 
alagados,  os  quaes  julgo  que  só  por  fins  d'este  presente 
mez  de  Outubro  estarão  praticáveis. 

Como  no  dia  1 4  nos  mudàmos/estere  toda  esta  guarnição  > 
nos  nove  dias  de  alaque,  no  maior  incommodo,  e  no  meio 
do  terreno,  sem  casa,  sem  abrigo,  e  agora  estou  cuidando 
em  alguns  ranchos,  para  armazém,  casa  de  pólvora. 

Os  hespanhoes  contaram  a  todos  os  indios  que  faziam 
esta  guerra,  em  despique  dos  portuguezcs  lhe  matarem  um 
capitão  grande,  e  a  guarnição  de  uma  terra  que  tomaram ; 
pôde  ser,  que  houvesse  alguma  acção  em  Montevideo. 

Deus  guarde  a  V.  Ex.  muitos  annos.—  Coimbra,  1'  de 
Outubro  de  «801.—  lUm.  e  Exm.  Sr.  Caetano  Pinto  de 
Miranda  Monte  Negro.—  De  V.  Ex.  súbdito  e  attenlo  vene- 
rador.—  Rkardo  Franco  d' Almeida  Serra. ^  O  secretario 
do  governo,  Félix  José  dos  Santos, 

Para  intelligencia  das  palavras  que,  acima  iicam  sublinha* 
das,é  preciso  nolar-se  que,  em  consequência  das  noticias  da- 
das pelos  uaycurús,  mandou  o  tenente  coronel  engenheiro, 
para  explorar  os  movimentos  dos  hespanhoes,  alguns  dos 
mesmos  indios  até  Bourbon,  os  quaes  prometteram  voltar 
em  5  dias,  o  que  não  puderam  fazer  porque  D.  Lazaro  da 
Ribeira,  que  jàse  achava  n'aquelle  forte,  desconfiando  se- 
rem espias,  mandou  segural-os.  Não  se  sabendo,  porém,  em 
Coimbra  a  causa  d'esla  demora,  desceram  no  dia  12  de  Se- 
tembro duas  canoas  com  dragões  e  pedestres  na  mesma 
diligencia,  e  no  dia  13  pelas  3  horas  da  madrugada,  quando 
passavam  pela  boca  da  bahia  Negra,  ou  mais  propriamente 
do  rio  Negro,  onde  estavam  fundeadas  as  sumacas  hespa- 
nholas,  foram  as  ditas  canoas  repentinamente  atacadas  por 
vinte  e  tantas  de  payagoazos  com  hespanhoes ;  gritando 
todos  í  —  entrí^ga,  entrega,  portuguez  —  ;  mas  os  nossos  só 


-  101  -       '.-v 

com  8  tiros,  dados  quasi  á  queima  roupa,  lb{;s.c4siparam  a 
boca,  ficando  alguns  em  silencio  eterno,  e  abrirâi^*clUininho 
para  se  recolherem  a  Coimbra,  onde  chegaram  riõj^  14. 
Em  parte  d'este  dia,  no  seguinte,  e  na  manha  de  16;dia:do 
alaqoe,  mudonsc  a  guarnição  para  o  novo  forte,  que  eii* 
por  prevenção,  não  obstante  a  falia  de  todos  os  meiôs,^. 
tinha  mandado  construir,  e  esta  mudança  creio  foi  a  que 
desconcertou  as  medidas  de  D.  Lazaro,  que  esperava  achar- 
nos  na  antiga  estacada,  a  qual  era  absolutamente  indefen- 
sável, quando  em  as  novas  muralhas  não  faziam  as  suas 
balas  do  calibre  de  8  damno  algum. 

Posto  que  digo,  tinha  mandado  fazer  por  prevenção  o 

novo  forte,  não  sou  capaz  dii  roub  ir  o  alheio  merecimento. 

O  tenente  coronel  Ricardo  lYanco  foi  o  qu  3  me  propôz  esta 

^i^y  foi  o  primeiro  que  conheceu  asua  necessidade,  e  o  que 

^  tena  continuado  até  o  ponto  em  que  se  acha,  com  a  mesma 

Wapnição,  e  quasi  sem  despeza  da  real  fazenda,  servindo 

^h    de  archilecto,  de  feitor,  de  mestre  pedreiro  e  carpin- 

'^^^'O.  Este  importante  serviço,  eo  valor  com  que  defen- 

*íi  Queila  fortaleza,  merecem  uma  digna  recompensa.— 

^(^€^no  Pinto  de  Miranda  Monte  Negro, 

^Im.  e  Exm.  Sr.—  No  meu  officio  de  n.  20  em  data  do 
*"^  Dezembro  do  anno  passado,  dei  contado  inglorioso 
f^^^^^«sso  das  armas  hespanholas  diante  de  Coimbra,  e  da 
nor^^-Qgj^  resistência  dos  portuguezes  na  defesa  d*aquelle 
P^^^idio.  Hoje  tenho  a  honra  de  participar  a  V.  Ex.  o  glo- 
"^^^successo  das  armas  portuguezas,  e  a  vergonhosa  resis- 
^f^-^ia  dos  hespanhoes  na  defesa  do  novo  fortim  (pm 
**^^am  construído  nas  cabeceiras  do  rio  Apa. 

^^f)  dia  19  de  Dezembro  Sihiu  de  Miranda  o  primeiro  te- 
^®^te  de  dragões  Francisco  Rodrigues  do  Prado  com  Si 
^P^^ados,  e  297  indios  com  o  fim  de  atacar  o  dito  novo  for- 
^^^í'  o  qual  felizmente  arrazou,  c  reduziu  a  cinzas  no  1**  do 


•••  • 


v...  _  102  _ 

JâneirOi.^fipifido  dos  inimigos  4  mortos,  26  prisioneiros,  e 
fuginda/tQda  a  mais  guarnição. 

PeVtólía-me  V.  Ex.  que  eu  me  refira  à  carta  que  recebo 

n'e'sfe'Iiora  do  dito  tenente,  e  depois  de  ler  os  papeis  hespa- 

'•Rhoes,  que  se  acharam,  e  de  me  informar  dos  conductores 

/•..dos  prisioneiros,  em  outro  correio  que  brevemente  hei  de 

<.l  expedir,  informarei  mais  circumstanciadamente  a  V.  Ex- 

•    das  particularidades  que  forem  dignas  de  chegar  ao  real 

conhccimenlo  de  Sua  Alteza. 

Só  accrescenlarei  que,  se  os  vassallos  beneméritos  devem 
ser  premiados  pelos  seus  soberanos,  este  olHcial  é  bem 
digno  da  real  beneficência  do  mesmo  Augusto  Senhor. 
A  companhia  de  dragõoê  está  sem  capitão  pela  morte  de 
Joãa  José  Coutinho ;  elle  é  o  primeiro  tenente,  serve  desde 
o  annode  1778,  e  ha  dez  annosque  está  effectivamente 
destacado  na  fronteira  do  Paraguay.  Nos  primeiros  cinco 
annos  commandando  o  presidio  de  Coimbra,  e  agora  o  novo 
presidio  de  Miranda,  de  que  elle  mesmo  foi  fundador. 
Parece-me,  portanto,  que  merece  ser  bem  promovido  a 
capitão,  e  condecorado  com  o  habito  da  ordem  de  Aviz. 

Deus  guarde  a  V.  Ex.  muitos  annos.—  Villa  Bella,  27  de 
Fevereiro  de  1802.—  Illra.  e  Exm.  Sr.  visconde  de  Anadia. 
—  Caetano  Pinto  de  Miranda  Monte  Negro. 

Ulm.  e  Exm.  Sr.  —  Tendo  partido  no  dia  19  do  mez 
passado,  a  29  do  mesmo  deixei  a  estrada  geral  e  segui 
á  esquerda  pelos  campos,  atravessando  o  rio  da  Lapa  em 
dois  braços,  e  não  com  pequeno  trabalho :  no  dia  30  mandei 
pelo  cabo  de  esquadra  Manoel  Gomes,  e  pelo  soldado  An- 
tónio Pires,  explorar  o  inimigo,  que  distava  d'alli  duas 
léguas ;  recolheram-se  sobre  a  madrugada  e  disseram  terem 
visto  algumas  choupanas  e  n*ellas  até  60  hespanhoes.  A 
31  pela  tarde  avizinhei-me  ao  alojamento  castelhano,  o 
tornei  a  fazer  explorar  pelos  mesmos ;  nada  mais  puderam 


—  10:i  — 

ver  que  estarem  alerta.    Avizinhava-se  o  dia,  e  não  havia 
mais  remédio  que  avenlurarmo-nos  à  sorte  da  guerra. 
Observei  a  nossa  gente  cora  valor,  aos  uaycurús  em  extre- 
mo cobardes.  Determinei  que  os  portuguezes  Jao  romper 
da  alva  atacassem  ao  inimigo  pelo  flanco,  tcndo-me  eu  apre. 
sentado  pela  frente  com  os  índios,  os  quaes  mandaram-me 
dizer  pelo  cabo  de  voluntários,  que  só  chegariam  se  eu  os 
conduzisse:  dividi  os  soldados  em  três  Ipelolões,  o  pri- 
meiro commandava  o  alferes  de  milícias  Francisco  Xavier 
Pinto,  o  segundo  o  cabo  de  esquadra  Manoel  Gomes,  e  o 
terceiro   o  cabo   de  voluntários  Lauriano  José  Bicudo; 
n'esta  ordem  marchavam  a  emboscar-se,  quando  foram 
encontrados  por  um  alferes,  e  três  soldados  que  rondavam 
a  campanha  de  cavallo  para  o  lado  da  provincia  e  pergun- 
taram— quem  vive  —  ;  eram  pouco  menos  das  5  horas  da 
manha»  Manoel  Gomes  lhe  respondeu— que  se  entregassem, 
se  não  morriam—  ;  mas  elles  deram  de  rédeas  aos  cavallo s 
e  levaram  três  tiros  do  dito  cabo,  e  de  dois  soldados:  de- 
pois d'este  inesperado  cncjnlro  não  houve  mais  que  atacar 
âquellas  mesmas  horas,  o  que  fizeram  com  resolução ;  á 
entrada  das  casas  cahiu  um  dragão  ferido  de  quatro  balas 
dos  hespanhoes,  os  quaes  deram   fogo  a  uma  peça  de 
bronze,  calibre  uma  libra,  mas  como  cslavam  em  um  alto, 
8  a  nossa  gente  ia  na  baixa,  não  fez  damrio  a  metralha  ; 
qilizeram  carregar  e  não  tendo  tempo  achou-se  o  cartuxo 
no  meio  da  peça  ;  seguiram  os  nossos  ao  inimigo  e  encon- 
tram uma  forte  estacada  e  um  portão  fechado,  o  qual  tinha 
seis  palmos  de  largo  e  onze  de  alto ;  os  contrários  de  dentro 
deram  alguns  tiros,  mas  sem  eíTeito ;  o  nosso  fogo  foi  mais 
matador:  por  vezes  bradou-se  que  se  rendessem,  mas  o 
commandante  respondia  —  morrer  sim,  entregar  não.  — 
Emquanto  isto  passava,  eu  persuadi  aos  uaycurús   que 
chegassem,  mas  elles  escusavam-se  com  o  pretexto  de 


—  {v\  — 

ser  iKMte,  e  que  mais  temiam  os  nossos  tiros  que  dos 
castelhanos;  enifim  deixei  esta  fraquíssima  nação  feita 
inútil  espectadora  da  tragedia,  e  fui  incorporar-me  com 
os  meus  a  tempo  que  o  commandante  hespanbol  exha- 
lava  o  ultimo  suspiro  com  mais  de  23  perdigotos  e 
balas,  sem  que  n'aquella  confusão  se  possa  saber  quaes 
foram  os  que  lhe  fizeram  tão  cruel  serviço ;  com  esta  morte 
renderam-se  os  hcspanhoes,  dos  quaes  veiu  um  abrir  o 
portão,  que  os  pedestres  Felisberto  das  Neves  e  Felisberto 
José  não  puderam  romper  por  mais  esforços  que  fizeram. 
O  cabo  de  esquadra  Manoel  Gomes,  que  dirigiu  a  acção  em- 
quanto  não  cheguei,  e  o  soldado  António  Pins  puzeram-se 
junto  a  um  baluarte,  a  defenderem  que  os  castelhanos 
se  servissem  de  uma  peça  de  arlilheria  que  alli  estava ;  o 
soldado  com  valor  trepou  pela  estacada,  mas  o  cabo  com 
bom  accordo  o  fez  descer,  temendo  fosse  morto  dos  nossos, 
visto  que  o  escuro  não  deixava  distinguir-se  amigos  de 
contrários.  Aberto  o  portão,  fiz  dispor  scntinollas,  recolher 
as  armas  e  contar  os  prisioneiros,  que  acharam-se  26,  en- 
trando 11  perigosamente  feridos,  haviam  mais  4  mortos, 
afora  os  que  morriam  pela  mata,  onde  se  encontrou  ura  já 
dando  a  alma  a  Deus. 

Confesso  a  Y.  Ex.  que  o  ver  tanto  estrago  nos  meus  seme- 
lhantes, tirou-mo  uma  grande  parte  do  prazer  que  me 
devia  causar  a  victoria.  Depois  do  cessar  o  fogo,  de  ama- 
nhecer, e  quando  estávamos  occupados  na  segurança  do 
presidio,  chegaram  os  uaycurús  como  lobos  esfaimados, 
c,  sabendo  que  os  prisioneiros  já  não  tinham  armas,  che- 
garam até  o  ponto  de  quererem  romper  as  sentinellas  do 
portão ;  derara-me  parte,  vim  vêl-os,  e  disse-lhos  que  as  leis 
da  humanidade  nos  obrigavam  a  poupar  a  vida  dos  rendi- 
dos, que  fugiram  muitos,  os  buscassem  e  saciassem  n'elles 
a  sede  de  derramar  sangue ;  mas,  como  n'isso  poderiam  ler 


—  105  — 


risco,  coiiTorlcrâm  o  seu  furor  em  pilharem  as  casas,  com 
Ul  excesso  que  o  mesmo  fato  portoguez  que  encontravam 
ara  levado  t  tlopois  de  espoliarem  o  pouco  que  encontraram» 
ilerraraaram-se  pela  campanha,  e  quando  foi  ao  meio-dia 
tinham  rL^colhido  300  cavallos  do  trafego  da  guarnição,  e 
me  refine  riam  voltássemos  na  mesma  hora.  Emquanlo  os 
fracos  Índios  cuidavam  nisto,  eu  me  informava  do  numero 
da  guarnição^ que  achei  ser  ao  lodo  H 4  praças, e, vendo  que 
fallavam  8i,  nao  mandei  solrtadõs  buscar  cavallos  por  não 
arriscar^-me  a  perder  a  vicloria  no  mesmo  lugar  que  a  ga- 
nhei. Fiz  curar  os  eníermos  hespanhoes,  enterrar  os  mor- 
tos e  acompanhar  ao  commandante  até  a  sepultura. 

Pelo  alferes  de  milícias,  pelo  soldado  Francisco  lavier 
Bibeiro  como  escrivão,  o  cabo  da  guarda,  e  dois  soldados, 
mandei  fazer  a  relaçlo  inclusa  dos  géneros  apresados,  e 
passar  revista  nos  poucos  Irastes  do  commandaute,  onde 
se  encontraram  os  papeis  que  faço  chegar  á  respeitável 
presença  de  V.  Ex.,  entre  os  quaes  achará  duas  cópias,  que 
mostrara  bem  a  importância  da  empreza  que  se  concluiu. 
A  pouca  roupa  do  commanclante  que  se  topou,  fiz  remelter 
á  sua  consorte,  e  rogar-lhe  me  perdoasse  a  cruel  perda  que 
lhe  acabava  de  causar, 

O  sargento,  que  estava  com  duas  balas  nos  pés,  disse- me 
que  caminhando  promptamente  a  S.  Carlos  seria  mui  facil 
a  tomada  por  estarem  descuidados ;  essa  foi  sempre  â 
miulia  intenção,  e,  querendo  pôl-a  por  obra,  encontrei 
obstáculos  invencíveis.  Além  dos  uaycurús  serem  fracos, 
queriam  voltar,  com  brevidade;  das  5i  praças  que  levei, 
era  preciso  mandar  um  destacamento  conduzindo  a  artí- 
Iheria,  armamenlo,  prisioneiros,  etc,  ;  reslavam-me  tão 
poucos  que  seria  uma  verdadeira  temeridade  empre- 
bender  uma  viagem  de  3  dias  pelo  centro  do  paiz  inimigo, 
TOMO  xxviii,  p.  t  Í4 


—  lor,  — 

por  cuja  razão  resolvi  recolher-me.  Entrei  em  novo  em- 
baraço sobre  o  destino  que  daria  aos  prisioneiros,  dos 
quaes  não  podia  trazer  tantos  enfermos,  nem  a  piedade  de 
V.  Ex.  permitliria  que  deixasse  em  desamparo ;  e  vendo 
também  que  tinha  cavalgaduras  só  para  seis,  rjesolvi-me 
dar  liberdade  aos  mais,  depois  de  jurarem  e  assignarem 
um  termo  de  não  pegar  em  armas  conlra  os  dominios 
de  Portugal,  todo  o  tempo  que  durar  a  guerra.  Entre  os 
que  faço  conduzir  a  essa  capital  pelo  alferes  de  volun- 
tários António  José  do  Rosário,  vai  um  alferes  das  prin- 
cipaes  familias  do  Paraguay,  filho  de  um  coronel  que 
foi  commandante  na  tomada  do  Iguatemy,  e  neto  do 
um  governador  da  sua  pátria:  d*elle  poderá  V.  Ex. 
informar-se  do  estado  d'aquella  provincia,  do  ataque 
de  Coimbra  onde  esteve,  e  da  causa  de  D.  Lazaro  le- 
vantar o  sitio;  e  o  soldado  Francisco  Xavier  Ribeiro 
responderá  a  y.  Ex.  pelas  miudezas  da  viagem.  Da  carta 
inclusa  do  commandante  chefe  verá  V.  Ex.  que  nada 
me  diz  a  respeito  dos  primeiros,  e  se  tenho  obrado  mal, 
supplico  a  V.  Ex.  o  perdão,  pois  foi  nascido  o  erro  da  falta 
de  conhecimentos  e  de  instrucçues. 

A  estacada  eedíGcios  reduzi  a  cinzas,  e  cm  uma  cruz  que 
alli  estava  alvorada  mandei  gravar  ura  letreiro  que  diz  — 
Viva  Portugal— foi  tomado  este  presidio  no  1*  de  Janeiro 
de  1802 :  da  planta  d*elle,  e  da  sua  posição  local  nada  digo, 
porque  nas  duas  citadas  cópias  encontrará  V.  Ex.  a  ver- 
dade ;  só  accrescentarei  que  de  Miranda  áquelle  lugar  tem 
ao  mais  34  léguas,  e  d*aHi  a  Iguatemy  disseram-me  os  indios 
poder-se  ir  em  quatro  dias  com  marchas  forçadas:  o  rio  tem 
quasi  16  braças  de  largo  e  quatro  e  meio  palmos  de 
fundo  ;  as  serranias  d*onde  nascem  estavam  a  nascente  a 
cinco  ou  seis  léguas  -,  todos  os  ribeirões  que  encontrei  cor- 
rem para  o  rio  de  Miranda,  e  quatro  se  somem  junto  ao  ca- 


-  107  - 

minho  por  debaixo  da  terra ;  só  da  cruz  para  lá  eslao  três 
qae  vão  metter-se  no  rio  da  Lapa,  ficando  claro  que  o  que 
chamamos  rio  Branco  é  uma  babia,  e  o  que  sabe  pouco 
acima  de  Bourbon  tem  pequeno  curso :  sete  léguas  para 
chegar  ao  rio  da  Lapa,  o  caminho  é  em  extremo  pantanoso, 
6  do  Roncador  para  cà  vem-se  sempre  por  entre  serranias, 
oade  formam  quatro  gargantas  que  com  pouco  adjutorio  da 
arte  ficam  muito  defensáveis,  mas  sò  em  duas  tem  agua. 

A  peça  calibre  3  ficou  uma  légua  arredada  do  presídio 
arrasado,  enterrada  no  campo;  por  estes  dias  pretendo 
mandar  conduzil-a  por  bois,  e  então  farei  reconhecer  se  os 
hespanhoes  voltaram  á  estaca  depois  da  minha  viagem. 

A  falta  de  cavalgaduras  me  poe  em  inacção;  e  se  Y.  £x. 
fôr  servido  que  continue  a  empregar-mc  em  semelhantes 
diligencias  irei  com  muito  gosto,  porém  é  preciso  levar 
mais  portuguezes,  visto  que  100  indios  não  são  capazes  de 
fazer  cara  a  quatro  homens  armados. 

Do  pouco  gado  que  se  achou  no  curral  inimigo,  e  mandei 
trazer,  fez-se  repartição  igual  pelas  tropas,  contemplando-se 
mais  aquelles  que  foram  em  cavallos  próprios,  tocando  á 
real  fazenda  36  cabeças.  A  pratica  do  uaycurú  é  da  presa 
pertencer  a  quem  a  faz,  de  sorte  que  um  captivo  fica  com 
quanto  apanhou,  e  seu  senhor  sem  cousa  alguma :  se  os 
tornarmos  a  levar  à  campanha,  os  poderemos  pôr  em  me< 
Ihor  ordem,  visto  o  grande  temor  que  de  nós  conceberam 
com  esta  jornada.  Vou  dispondo  este  presidio  de  sorte 
que,  se  os  hespanhoes  se  resolverem  vir  a  elle,  encontrem 
os  mesmos  homens  qn  ^  viram  em  o  rio  da  Lapa. 

Supplico  a  V.  Ex.  a  permissão  de  rogar  pelos  meus  com- 
panheiros, que  para  mim  basta-me  o  gosto  de  ter  podido 
desempenhar  o  lisongeiro  conceito  que  V.  Ex.  de  mim  faz  : 


—  108  — 

O  alferes  Francisco  }Lavíer  Pinto  deseja  recolher-se  ã  sua  casa 
a  descansar ;  elle  se  faz  merecedor  d'esta  graça  que  a  V.  £x. 
rogo :  o  cabo  de  esquadra  de  dragões  Manoel  Gomes  e  o 
dragão  António  Pires  são  os  que  trabalharam  mais  em  toda 
a  acção,  e  por  isso  espero  que  Y.  Ex.  os  attenda  conforme 
o  risco  a  que  se  expuzeram :  o  cabo  de  esquadra  de  volun- 
tários Lauriano  José  Bicudo  deseja  fazer  passagem  para  a 
companhia  de  dragões,  elle  se  mostrou  esforçado :  o  sol- 
dado Francisco  Xavier  Ribeiro  também  se  fez  recommen- 
davel,  assim  como  os  dois  pedestres  Felisberto  das  Neves  e 
Felisberto  José:  todos  ficam  esperançados  na  justiça  e 
bondade  de  V.  Ex.,  e  promplos  a  perdermos  as  vidas  pela 
segurança  e  augmento  dos  dominios  de  S.  A.  R.  e  do 
excelso  nome  de  Y.  Ex.,  que  Deus  guarde  por  muitos  annos 
para  bem  d'estas  capitanias. 

Miranda,  13  de  Janeiro  de  1802.  De  V.  Ex.  o  mais  obe- 
diente súbdito.—  Francisco  RodrigtAes  do  Prado.-^  O  se- 
cretario do  governo,  Félix  José  dos  Santos. 

Ilfm.  e  Exm.  Sr.—  A  17  do  corrente  recebi  do  gover- 
nador hespanhol  da  província  da  Assumpção  a  carta  junta 
na  cópia  de  n.  1 ,  com  a  qual  me  remetlia  o  tratado  de  paz  e 
amizade  entre  as  coroas  de  Portugal  e  de  Hespanha,  assi- 
gnado  em  Badajoz  a  6  de  Junho  do  anno  passado. 

No  dia  21  recebi  por  via  do  Rio  de  Janeiro  as  gazetas 
portuguezas,  e  no  segundo  supplemento  da  de  n.  29  achei 
o  decreto  que  baixou  ao  desembargo  do  paço  para  a  publi- 
cação da  paz. 

No  dia  25  recebi  do  governador  do  Pará  a  caria  da  cópia 
de  n.  2  com  um  original  impresso  do  mesmo  tratado,  que 
elle  pôde  haver  de  um  negociante  d'aquella  cidade,  pois 
que  da  còrle  não  tinha  tido.  carta  alguma. 


-  109  - 

Immediatamente  mandei  suspender  todas  as  hostilida- 
des, e,  na  grande  consternação  cm  que  me  vejo  por  falta 
dos  meios  precisos  para  as  despezas  da  guerra,  bem  dese- 
jaria eu  suspender  também  a  maior  parte  das  mesmas  des- 
pezas, reduzindo  ao  menor  numero  possível  os  dragões  e 
pedestres,  cujo  estado  ellectivo  é  presentemente  de  712 
praças,  e  deixando  recolher  à  suas  casas  os  pobres  auxi- 
liares, que  ha  cinco  annos  que  são  incommodados :  porém, 
vendo  que  ao  Pará  inda  em  Dezembro  não  tinham  chegado 
as  reaes  ordens  de  Sua  Alteza,  nem  participação  alguma,  e 
combinando  tão  extraordinária  demora  com  o  art.  2"*  do 
tratado,  com  o  estado  actual  da  Europa,  e  com  a  alteração 
que  nas  suas  relações  politicas  causou  a  morte  do  impe- 
rador da  Rússia;  não  me  arrisco  a  tomar  por  ora  este  ar- 
bilrio,  apezar  do  aperto  em  que  me  vejo,  e  em  que  se 
não  vê  presentemente  outro  qualquer,  que  tenha  a  seu 
cargo  o  defender,  não  digo  500  léguas  de  fronteira,  mas 
ama  mínima  porção  dos  vastos  Estados  de  S.  A.  R. 

Ao  governador  do  Pará  respondo  na  conformidade  da 
cópia  de  n.  3  e  ao  governador  hespanhol,para  lhe  não  dizer 
que  inda  não  recebi  ordem  nem  participação  alguma  da 
minha  corte,  diffiro  a  resposta  por  mais  alguns  dias,  a  ver 
se  entretanto  chega  a  dita  participação,  a  qual  talvez  virá 
com  a  da  declaração  da  guerra,  que  até  hoje  não  recebi  tam- 
bém e  só  presumi  que  a  teria  havido,  quando  repentina- 
mente fui  atacado.  Mas  graças  a  Deus  que  nada  me  tem  feito 
falta,  e  as  velhas  armas  d*esta  capitania,  manejadas  por 
mãos  fieis,  até  o  presente  tem  conservado  sem  mancha  a 
gloria  antiga  do  nome  portuguez. 

^Ôeus  guarde  a  V.  Ex.  muitos  annos.  Villa  Bella,  27  de 
Fevereiro  de  1302.—  Illm.  e  Ex.  Sr.  visconde  de  Anadia. 
—  Caetano  Pinto  do  Miranda  Monte  Negro. 


-  no  - 

FuudaçAo  de  ViUa  Maria  do  Parasuay 

e  proTideucias  para  o  seu  eii- 

Sraiideeimeuto. 

Illm.  e  Exm.  Sr.  —  Faço  a  Sua  Magestade  presente  o 
termo  da  nova  fundação  denominada—  Villa  Maria  do  Pa- 
raguay— ,  a  que  ultimamente  dei  principio  na  margem  es- 
querda do  rio  Paraguay,  junto  do  lugar  por  onde  de  pre- 
sente se  dirige  o  caminho  d'esta  capital  para  a  villa  de 
Cuyabà,  que  distará  5  léguas  do  antigo  marco  do  Jaurú; 
tendo-me  valido  afim  de  povoal-a,  além  d*outros  casaes 
dispersos  que  pude  congregar,  de  mais  de  60  indios  ca3- 
lelhanos  de  ambos  os  sexos,  que  haverá  três  mezes  deser- 
taram da  missão  de  S.  João  de  Chiquitos,  persuadidos  de 
pessoas  que  n'este  mesmo  objecto  Gz  penetrar  ao  dito  esta- 
belecimento; e,  supposto  que  semelhantes  diligencias  jamais 
deixem  de  trazer  comsigo  bastante  trabalho  e  despeza  da 
real  fazenda,  e  que  por  consequência  são  bem  difficultosas 
n'este  paiz,  conheço  por  outra  parle  que  interessam  essen- 
cialmente o  real  serviço ;  pelo  que  até  onde  abrangerem  os 
fracos  meios  actuacs,  emquanto  por  aqui  me  demorar,  ea 
não  cessarei  de  continual-as ;  em  conformidade  das  or- 
dens da  mesma  Senhora  de  cuja  execução  estou  encar- 
regado. 

A  paragem  da  referida  nova  povoação  é  conhecidamente 
própria  e  adequada  a  facilitar  a  indispensável  communica- 
ção  e  commercio  d'csla  com  a  mesma  villa  do  Cuyabá; 
porque  fica  quasi  no  meio  do  caminho  e  jaz  em  situação 
fertilissima  de  peixe  e  caças,  em  que  abunda  de  ordinário  o 
mencionado  Paraguay ;  ficando  além  d'isto  bem  nas  vizi- 
nhanças da  fronteira ;  porém  necessitará  de  bastante  tempo 
e  despeza,  antes  que  finalmeale  se  consolide  nos  termos 
competentes,  e  o  mesmo  repito  também  a  V.  Ex.  que  sue- 


-  Hl    - 

cede  a  respeito  dos  outros  trcs  novos  estabelecimentos,  ou 
povoações»  a  que  da  mesma  sorte  dei  principio  n*esla  capi- 
tania, segundo  as  respectivas  contas  que  fiz  subir  ao  real 
throno ;  ainda  que  para  todos  estes  fms  me  vejo  na  ver- 
dade tão  embaraçado  como  V.  Ex.  poderá  julgar  pela  no- 
tória falta  de  habitantes,  pois  que  a  uma  tão  remota  parte 
do  mando  como  esta,  e  tão  pouco  sadia,  são  com  effeito  ra- 
ríssimas as  pessoas  que  voluntariamente  se  transportam ;  e 
ainda  essas  mesmas  sem  desígnio  algum  de  existir  e  per- 
manecer, como  se  fazia  necessário. 

Pelo  que  tudo,  se  Sua  Magestade  fosse  servida  de  mandar 
conduzir  um  certo  numero,  que  parecesse,  de  familias  bran- 
cas pela  via  do  Pará,  ou  aliás  do  Rio  de  Janeiro  em  direi- 
tara  aos  rios  de  S.  Paulo,  seria  certamente  uma  pro- 
videncia, ainda  que  custosa,  d'onde  resultassem  ao  dito 
real  serviço  as  mais  proveitosas  utilidades,  na  certeza 
em  que  se  pôde  convir  de  ser   como  baldado  todo  o 
maior  fundo  que  se  fizer  na  civiiisação  e  préstimo  d'estes 
Índios  selvagens,  quasi  sempre  inconstantissimos,  fero- 
zes e  indomáveis*  ou  d'oma  indolência  e  preguiça  sem 
exemplo,  que,  vagando  pelos  matos  por  eíTeitos  da  própria 
inclinação  e  natureza,  com  total  desprezo  de  honras  e  fazen- 
das, ainda  no  diíDcil  caso  de  se  atlrahirem,  e  ajuntarem,  não 
obstante  a  mais  cuidadosa  diligencia,  se  internam  nova- 
mente sempre  que  podem  conseguil-o  por  estes  immcnsos 
desertos,  que  atudo  preferem,  depois  de  executarem  as  suas 
costumadas  rapinas,  mortes,  e  outros  damnos,  deixando 
além  d*isto  infructiferas  pela  maior  parte  todas  as  fadigas 
egressas  despezas  a  que  sempre  primeiro  não  deixam  de 
daroccasião. 

Deus  guarde  a  Y.  Ex.  muitos  annos.  Yilla  Bella,  20  de 
novembro  de  1778.—  Ulm.  e  Exm.  Sr.  Martinho  de  Mello 


^  «12  - 

e  Castro* —  Luiz  de  Albuquerque  de  Mello  Pereira  e  Ca- 
ceres. 

TERMO  DE  FUNDAÇÃO  do  novo  estabelecimento  a  que 
mandou  proceder  o  lUm.  e  Exm.  Sr.  Luiz  de  Albu- 
querque de  Mello  Pereira  e  Cáceres,  governador  e  ca- 
pitão general  doesta  capitania  de  Mato  Grosso  denomi- 
nada Villa  Maria  do  Paraguay. 

Anno  do  Nascimento  de  Nosso  Senhor  Jesus  Chrislo 
de  1778,  aos  6  dias  do  mez  de  Outubro  do  dito  anno,  n*este 
districto  do  rio  Paraguay  e  margem  oriental  d'elle,  no 
lugar  aonde  presentemente  se  dirige  a  estrada  que  se  se- 
guia a  Cuyabá  desde  Villa  Bella,  sendo  presente  o  tenente 
de  dragões  António  Pinto  do  Rego  e  Carvalho,  por  elle  foi 
dito  que  tinha  passado  a  este  dito  lugar  por  ordem  do  Ulm. 
e  Exm.  Sr.  Luiz  de  Albuquerque  de  Mello  Pereira  e  Cáceres, 
governador  e  capitão  general  d*esta  capitania  de  Mato 
Grosso,  para  com  effeito  fundar,  erigir  e  consolidar  uma 
povoação  civilisada,  aonde  se  congregassem  todo  o  maior 
numero  de  moradores  possivel,  comprehendidos  todos  os 
casaes  de  indios  castelhanos  proximamente  desertados 
para  estes  domínios  portuguezcs  da  provincia  de  Chiquitos, 
que  fazem  o  numero  de  78  indivíduos  de  ambos  os  sexos, 
a  que  juntando-se  todo  o  outro  numero  das  mais  pessoas 
congregadas  para  o  dito  fim,  faz  o  total  de  161  indivi- 
dues de  ambos  os  sexos ;  cuja  povoação,  segundo  as 
ordens  do  dito  senhor,  se  denominará  de  hoje  em 
diante,  em  obsequio  do  real  nome  de  Sua  Magesta- 
de,  —  Villa  Maria  do  Paraguay  — ,  esperando-se  que 
de  semelhante  eslabolecimenlo  haja  de  resultar  grande 
utilidade  ao  real  serviço  e  commcdidade  publica :  e 
porque  supposto  o  plano  do  terreno  para  a  dita  villa  se 
acha  com  alguma  disposição  para  continuar  a  fundar-se 


—  U3  — 


com  regui aridade:  comlufio,  como  alguns  dos  alinharaenlos 
Ião  estão  conformes  ao  projecto  da  boa  policia,  como  de- 
reria  ser,  determinou  elte  dito  tenente  a  todusos  morado- 
T^  em  nome  de  S*  Ex  que,  deixando  de  fazer  mais  aEgum 
beneficio  a  varias  cabanas  existentes,  só  n'ellas  assistem 
lemquanlo  se  fabricavam  casas  no  novo  arruamento,  que 
niie  fica  prescripto,  e  balisado  por  elle  tenente  com  marcos 
sididus  de  pâo  de  lei;  sendo  obrigados  a  não  excederem 
nem  diminuírem  a  dita  construcçao  na  altura  de  14  pal- 
mos de  pé  direito  na  frente  da  todas  as  casas  que  se  la- 
rantirem  e  2i  palmos  de  altura  no  cume :  oulrosim  deter- 
minou que  precisamente  chamí  riam  para  regular  os  ditos 
pés  direitos  ao  carpinteiro  João  Murlins  Dias,  e  nâ  falia 
d'esltí  outro  algum  inlelligente  no  officio,  afim  de  conser- 
var sem  discrepância,  segundo  o  risco,  a  lar^^ura  de  60 
palmos  de  ruas  que  estão  assignadas  por  elle  dito  tenente; 
cojas  actualmente  demarcadas  e  abalisadas  terão  os  seguin- 
tes nomes,  a  saber:  a  primeira  contando  do  norte  rua  d'Al- 
buquerque,  a  immediatn  para  o  sul  rua  de  Mello,  as  quaes 
ambas  vao  desembocar  na  praça  e  cada  uma  d'el!as  faz 
face  â  mesma  do  norte  e  do  sul ;  assim  como  também  as 
litfessas  de  Sí>  palmos^  que  dividem  os  quartéis  das  ditas 
ê  se  denominarãi»  estas  travessas,  a  primeira  con- 
tando do  poente  para  o  nascente,  travessa  do  Pinto,  e  a  que 
sest^gue  contando  também  para  o  nascente,  travessa  do 
Rego,  e  no  alto  da  praça  da  mesma  banda  do  nascente, 
cuja  frente  fica  riscada  entre  as  ruas  e  travessas,  com  360 
palmos,  cujo  numero  tem  também  as  mais  quadras,  po- 
derão os  moradores  erigir  a  sua  igreja  pi  ir  ficar  a  porta 
principal  d'ella  para  o  poente,  como  o  determinam  os  ri- 
luaes;  e  o  mais  terreno  d'esla  frente  da  praça  por  agora 
se  nio  occuparía  em  casas,  deixando-o  livre  para  as  do 
conselho  e  cadea,  quando  se  deverem  fabricar.  Cada  mo- 

TOMO  XXVllT,  p.  i,  IS 


-  41*  - 


rada  dos  ãllos  povoadores  nlo  lerá  mais  de  tOO  palmos 
de  GomprirnentoparaquiriUL  que  lhes  licam  delerminaílos 
para  o  ceaLro  de  cada  um  dos  quarleis.  O  que  ludo  assítn 
execalado  pelo  dito  ienente  de  dragijes  na  presença  de 
todos  os  moradí)r<!S,  mandou  a  mim  Dumiagus  Ferreira  dt 
Costt,  fiel  d' este  registro ^  que  servindo  de  escrivão  liíesse 
eslã  termo  para  constar  do  ruraríilo,  o  qual  assiguou  com 
as  testemunhas  seguintes:  —  Leonardo  Soares  da  Sousa, 
homem  dti  negjcio;  Ignacio  de  Almeiíia  Lara,  João  Mir- 
quês  d' Ávila;  Ign^icio  José  Pinti,  s  dilado  dragão;  Ma- 
noel Gonçalves  Ftírreiri,  soldado  dragão ;  e  António  Pe- 
reira de  Mattos,  António  daC^sta  Rodrigues  Braga,  José 
Francisco,  Agoslínbu  Fernandes,  António  Xavier  de  Monta, 
António  Teixeira  Coellio,  K  eu  U  jovmgtis  Ferreira  da  Costa, 
fel  d*éste  registro,  que  o  escrevi,— 6  leneoto  de  dragões 
commandatite  António  Pinto  do  Rego  e  Carvalho,  Leo- 
nardo Soares  de  Sousa»  Ignacio  de  Almeida  Lara,  Joào 
Marques  d* Ávila,  Ignacio  J  isé  Pinto,  Manoel  Gojiçalvos 
Ferreira,  Arttonio  Pereira  de  Mattjs,  José  Francisco,  Anla- 
nio  dâ  Costa  Rodrigues  Braga,  Agostinho  Fernandes,  Antó- 
nio Xavier  de  Moura,  Ant<.mio  Teixeira  Coelho •—í-íit^  úe 
Albuquerque  (ie  Melh  Pereira  e  Cacer&s, 

lUm.  e  Exm.  Sr  —  D<:rpois  da  nova  Tundação  de  TiJh 
Maria  do  Paraguay,  a  que  procedi  no  anuo  de  i778,  pre- 
tedente,  povoando  a  com  os  casaes  de  i ódios  liespanhoes» 
qtie  ãs  minhas  diligencias  haviam  deserlado  para  estes  do* 
rainios;  conforme  â  ia||p6clÍYa  caria  que  dei  a  Sua  Mag6$- 
tade  por  carta  dis  20  de  Novembro  do  referido  anno, 
que  a  V.  Ex.  dirigi,  incluindo  o  termo  da  mesma  fun- 
dação, aonde  rae  tínho  esforçado  e  vou  esforçamlo  de 
fazer  levantar  igreja,  casas  e  promover  as  ordinárias 
agriculturas  com  algum  principio  de  fabricas  de  tecer  al- 
godões, o  que  hz  um  objecto  precisíssimo  n'estas  paizes; 


^  140  — 


d'outras  mais  proTÍdenciag  competentes  ao  meoeio- 
ãdiantamento;  julguei  que  absolutaiHí^oLe  se  fazia 
necessário  erigir  6m  nova  parocbía  a  dita  villa;  Lanto 
para  mais  respeito&a  memoria  e  profundo  obsequio  do 
«lugmio  DOme  da  rainha  nossa  senhora^  de  que  se 
hoorou;  como  afim  de  que  a  todos  aqaelles  morado- 
rr5,  compreheudidos  os  de  denlro  de  um  territ^>rlo  do 
quasí  30  léguas  mais  ou  menos  de  tx tensão,  se  facilitasse  a 
mais  frequente  adminislrâçâo  dos  Sac!  ameotos  da  igreja» 
dú  que  ale  aqui  iiao  participavam  que  rarissimas  vezes ; 
fazendo-se  junlimeule  muito  mais  considerável  alé  por 
*\^te  principia  aquelle  dilo  eslabelecimento:  por  cujos  mo- 
iHOssoliriloi  por  via  do  vigário  da  igreja  e  da  vara  do 
ioívabii  a  desannexaçãe  de  alguma  parle  da  sua  vastíssima 
fiarochia,  da  me$ma  sorte  extensíssima,  que  igualmente 
soliciUyi  d>ste  vigário  em  orJem  a  consLiluirem  o  dislricio 
da  «(tva  fregutí/ia  de  Vílla  Maria;  e  assim  executou  com 
efTeittr,  ainda  que  as  concernentes  deliberações  dos  ditus 
m  vigários  da  vara  do  Cuyabà  e  Mato  Grosso  passanim 
sridíi  eond  cíonaes  ald  que  o  Rev.  bispn  diocrsano,  que  é 
do  Rio  de  Janeiro,  approvasse^  ou  confirmasse  esle  seu 
proeixlimenlot  no  que  deve  presumir  que  omesmopre* 
lado  nm  teni  duvida,  se  lonsiderar  ds  grandes  vantagens 
tr.^piriluaes  que  hlu  de  resultar  do  mencionado  preciso 
arbUrio;  o  que  tudo  ponho  na  presença  soberana  da 
mesma  Senhora,  com  a  notícia  do  já  ter  chegado  á  dita 
Vílla  Maria  o  novo  parorbo^  que  emfim  se  dt&tinou,  aptzar 
de  não  pequenas  diiliculdades  que  se  oppuzeram* 

Igualmente  vou  a  V.  Ei>  relatar,  para  que  tanbem  suba 
ao  real  conhecimento,  ^  útil  compra  de  uma  boa  fazenda  de 
gado,  que  acabo  de  mandar  ajustar,  na  outra  margem  do 
rio  Paragiiay,  opposla  á  <la  mesma  nova  villa;  com  o  de^ 
lino  de  servir  à  indispensável  subsistência  dos  referidos 


—  146  - 

Índios  bespanhoes,  de  que  principalmente  se  povoa ;  por- 
quanto» sendo  criados  em  paizes  de  immenso  gado  vaccum 
como  são  todas  estas  adjacentes  provindas  de  Moxos  e  Chi- 
quitos»  estranhariam  infinito  a  falta  de  semelhantes  soc- 
corros»  ou  continuariam  a  obrigar  a  real  Tazenda  à  grossa 
despeza  de  lhe  estar  comprando  frequentes  vezes  (como 
por  necessidade  já  tinha  principiado  a  executar-se)  alguns 
bois,  ou  carne  secca,  o  que,  attendído  ao  maior  excesso 
dos  preços,  seria  na  verdade  bem  diílicíl  de  tolerar ;  além 
de  que  succedeu  que  a  citada  compra  d*esta  fazenda  de 
gados,  que  apenas  distará  da  nova  povoação  cousa  de  uma 
légua  com  o  rio  de  permeio,  sahiu  em  preço  o  mais  ac- 
commodado  para  a  mesma  real  fazenda,  tanto  que  espero 
que  dentro  em  poucos  tempos,  no  caso  de  se  adminisirar 
com  o  devido  cuidado,  não  sò  esta  se  indemnisará  ampla- 
mente do  despendido,  mas  que  poderá  ainda  utilisar-se  por 
modo  considerável,  vendendo  boas  porções  do  dito  gado 
para  o   consumo  d'esta  capital;  em  cujas   vizinhanças 
pelos  mais  pastos  e  disposições  que  na   verdade  tem, 
não   foi  até   agora  possivel   fazer   abundar  e  baratear 
sensivelmente  á  carne  de  açougue,  por  mais  que  n'isso 
tenho  cuidado,  e  sei  que  cuidaram  os  meus  antecessores. 
Exponho  da  mesma  sorte  na  presença  d.'.  Sua  Mag:^stade 
que  tenho  ultimamente  feito  varias  disposições  as  mais 
efficazes  afim  de  não  só  restabelecer,  mas  melhorar  o  lu- 
gar de  Índios  chamado  de  SanfAnna,  a  9  léguas  de  dis- 
tancia para  leste  do  Cuyabà,  e  creado  no  inimitável  governo 
do  conde  de  Azambuja;  porém  que  se  tinha  reduzido  a 
uma  successiva  decadência,  o  que  com  eíTeito  se  vai  con- 
seguindo cora  muito  bom  successo ;  particularmente  edi- 
ficando-se  no  mesmo  lugar  uma  nova  igreja  {que  não  ha- 
via), com  bastante  magaíficencía  e  asseio  para  estas  terras, 
que  de  todo  está  concluída ;  concorrendo  com  o  maior 


-  117  - 

zelo  e  actividade  para  esla  tão  pia,  como  indispensável 
obra,  o  actual  juiz  dí^  fòra  da  viila  do  Cuyabá  José 
Carlos  Pereira,  a  quem  lenho  incumbido  as  respectivas 
providencias  do  dito  lugar  de  Sanl^Anna. 

Doa  por  fim  lambem  conla  a  Sua  Mageslade  de  que 
tendo  presentes  as  grandes  ulilidides,    principalmente 
ÍQtaras,  qut5  traz  comsigo  o  ajudar  a  povoíiçao  e  commercio 
d'eslas  dilatadissiq^as  províncias,  facilitando  a  correspon- 
deDcia  de  uns  com  outros  governos ;  tenho  de  próximo 
persuadido  e  feito  sugíerircom  bom  eTeito,  o  sem  a  mí- 
nima despeza  do  real  cofre,  o  estabelecimento  de  uma  no- 
va fazenda  na  passagem  do  rio  chamado  Porrudos,  ou  de 
S.  Lourenço,  para  là  do  Cuyabá  26  léguas ;  do  que  espero 
redundará  uma  grande cornmodid ido  pira  os  tropeiros, 
correios  e  mais  viandantes,  assim  de  Goyaz,  como  doesta 
capitania,  que  transitarem  aqueiijs  sertões,  além  da  que 
já  lhes  resultava,  de  encontr.irem  no  outro  recente  esta- 
belecimento e 'registro  denominado  da  Insua,  que  muito 
pouco  di^pois  da  minhi  chegada  lambem  erigi  de  novo, 
DOS  confins  orienlai^s  d'esta  capitania,  noticia  que  a  V.  Ex. 
participei  por  carta  de  4  de  Janeiro  de  1774,  para  que 
chegasse  ao  real  tlirono. 

Desejarei  que  todos  estes  procedimentos,  que  à  V.  Ex. 
tenho  declarado,  naod'ísmereçam,  aindaqucMiãosejaque 
pelo  que  têm  de  z*dosos,  o  real  agrido  <la  rainha  nossa 
senhora,  a  cuja  elovaila  noticia  e  consideração  espero  que 
V.  Ex.  os  participará. 

Deus  guarde  a  v.  Ex.  muitos  annos.  — Villa  Bella,  23 
de  Dezembro  de  1779.— Illm.  e  Exm.  Sr.  Martinho  de 
Mello  e  Castro. —  Luiz  d^  Albuquerque  de  Mello  Pereira 
e  Cáceres. 


-   118  — 

Estabeleelinetitoift  de  UTotii  Coliitlira  e  Yl- 
Si^ii  c  iiofieSii  lie  niii  Tnapiia  ;i:eosra* 
filiira  por  onde  se  itiostra  a  corrente 
do  Giiaporé. 


Illm,  e  Exin<  Sr.— Dfsde  as  wHimas  contas  que  puz 
na  real  presença  por  vias  de  carias  que  a  V.  Ex,  di- 
rigi em  fins  do  anno  precedente  de  1777,  fazendo  certa 
a  rainha  prompta  execução  a  Iodas  as  oitlens  que  Sua  Ma- 
Restadc  foi  servida  de  expedir-me  até  aqaelle  lempo,  com 
todos  os  mais  procedimentos  e  succ^ssos  de  alguma  con- 
sideração, que  então  havia  para  aqui,  m^^  não  tem  occor* 
rido  novidade  digna  de  será  V,  Ex,  rHalada  particularmen- 
te depois  das  noticias  publicas  (ainda  que  só  conimuni- 
cadas  em  correspondnncias  familiares),  assim  de  que  a  Rai- 
nha, no?s^  senliMra,  tinha  convindo  um  Iralado  de  paz  coiBi 
a  corte  de  Madrid,  como  lambem  um  de  definitiva  regu- 
lação de  limites  n'este  vastíssimo  continente  da  America ; 
assumpto  sobro  que  por  agora  nSo  tenho  outro  algum  co- 
nhecimento» 

Qaanlo  aos  recentes  estabelecimentos,  chamados  de 
Nova  Cninibra  e  de  Viseu,  a  saber;  o  primeiro  delles  na 
margem  nccidental  do  rio  Paraguay,  e  o  segundo  na  mesma 
tanibem  do  rio  Gnapore,  a  que  jà  vai  para  Ires  annos  que 
dei  osprimeinu^principiosnesta  capilania  e  sobre  que  a  Km 
Mageshide  fiz  lambem  pr*  sentes  conlas  repetidas ;  ajun- 
tando os  relativos  lermos  de  fundação  que  a  V,  Ex-  inclui, 
sem  embargo  de  parecer,  que  talvt^z  não  ficaram  cumpre- 
hendidos  na  sobredita  linba  divisória  que  se  imagina  no 
tratado  preliminar;  eu  me  não  deliberarei  de  sorto  al- 
guma a  al>andonal-os  durante  a  minha  adminisiração»  sem 
que  i^ara  semelliante  fim  primeiro  reaba  uma  expressai 
ordem  da  dita  Senhora,  pelas  conhecidas  vantagens  que 


—  H9  - 

na  verdade  resultam  a  estes  seas  domínios  da  subsistência 
dos  masmos  estabelecimentos,  segundo  informei  nas  mi- 
nhas expressadas  contas,  descontando  além  de  outras  mui- 
tas commididados  que  favorecem  a  mais  solida  conser- 
TaçSo  e  dilatação  dVdIes  quanto  ao  de  Viseu,  situado  quasi 
defronte  do  rio  Carúmbiarà  ( loiíde  n*outro  tempo  esteve 
jâ  uma  missão  de  índios  portuguezes],  em  cujas  vizinhan- 
ças fica  a  serrados  Qa.irajús.  que,  assim  pjlos  seus  dila- 
tados declives  que  oliam  ao  nasci^nte,  comt)  pidas  suas 
faldas  que  banhi  o  dito  Guaporé,  se  acabou  proximamente 
de  examinar  e  reconhecer  qne  ha  muito  suílicientes  pintas 
de  ouro  e  bias  disposições  d  ^  lavras;  de  maneira  que  po- 
derio vir  a  fazer  um  interessante  descoberto. 

Assim,  pois,  poresta grande  utilidade, que  provavelmente 
ha  de  attrahir  bastantes  moradores  àquella  parte  da  frort- 
leira,  e  que  será  convenientíssimo  que  se  promova ;  como 
pela  efTectiva  posse  em  que  nos  achamos  já  d*aquella  dita 
serrados  Quarujús,  ou  do  toda  a  parte  d*ella  que  olha  ao 
nascente  ;  por  fie  ir  quatro  léguas  ainda  para  cima,  ou  a 
sul  da  referida  nova  povoação  de  Vizeu  de  que  lancei  os 
fundamentos,  sobre  haver  férteis  e  copiosas  matas  n'a(|uella 
parte  para  lavouras  ;  contra  o  que  succede  de  ordinário  na 
outra  margem  oriental,  que  é  muito  pantanosa,  me  parece 
que  seria  de  um  incomparável  proveito,  e  da  mais  bem 
advertida  politica,  que  de  nenhuma  sorte  fosse  cedido  aos 
castelhanos  aquelle  pequeno  território,  tanto  para  se  não 
aproveitarem  dariquezaque  naver(ladepromette,como  para 
nos  nãj  inoommodarem  talvez  muito  e  interceptarem  mais 
a  sua  navegação  pelo  tempo  adiante. 

O  território  das  faldas  e  declives  orientaes  da  referida 
serra  com  lodos  os  outros  que  se  lhes  seguem  para  o  sul, 
incluídos  na  estreita  língua  de  terra  que  por  muitas  vezes 
se  avista  e  observa,  entre  a  cordilheira  que  acompanha 


—  120  — 

quasi  parallelamente  este  dito  rio  Guaporé  desde  as  imme- 
diações  d'esta  mesma  capital  até  defronte  do  nosso  antigo 
deslaearaenlo  das  Pedreiras:  são  os  qw^erdadeiramente 
parece  que  constituiriam  uma  raia  menos  incontestável,  e 
nos  term  s  presentes  menos  prejudicial  aosdominios  de 
Sua  Magestade,  guardado  sempre  o  maior  socego  e  com- 
modi'lade  dos  ditos  castelhanos;  pois  que  nunca  navega- 
ram aquelle  ri()(que  elles  chamam  Ilenes)  desde  a  emboca- 
dura que  nV4ie  Taz  o  de  S.  Simão  para  cima,  ou  ao  sul,  nem 
jamais  lhe  pôde  ser  preciso  a  nâo  fundarem  comeffeito  novas 
povoações  sobre  a  margem  do  rio,  que  privativamente  na- 
vegamos sempre  até  o  dito  S.  Simãi) ;  o  qu3  de  sorte  ne- 
nhuma se  lhes  deveria  pírmittir  pelo  grandíssimo  risco  e 
inconveniente  que  em  tal  caso  não  deixaria  de  resultar  à 
communicação  indispensável  do  forte  do  Prmcipeda  Beir§, 
e  ao  commercio  do  Pará,  sem  o  que  não  pôde  subistir 
esta  capitania. 

Da  mesma  sorte  exponho  ao  real  conhecimento  que  me 
acho  trabalhando  em  pôr  em  limpo  um  exacto  mappa  geo- 
graphico  de  ponto  grande,  por  onde  se  mostra,  e  conQ- 
gura,  tolaa  dilatada  corrente  do  mesmo  rio  Guaporé,  prin- 
cipiando desde  esta  villa  até  com  effeito  confluir  juntamente 
com  o  Mamoré  no  grande  da  Madeira,  divisando-se  no  m£S- 
mo  mappa  todas  as  diíTerenti^s  larguras  dos  rios,  sinuosi- 
dades, bahias,  confluencias,  ilhas  grandes  e  pequenas ;  com 
todas  as  difl'ercntes  terras  e  morros  adjacentes  aos  mesmos 
rios,  de  d'onde  se  avistara  particularmente  para  a  parte  de 
Hespanha,  ou  do  occidente,  cuja  carta  foi  levantada  com 
toda  a  maior  exactidão  mathemalica  que  se  fez  possivel  de- 
baixo dos  meus  próprios  olhos,  etal  ou  qual  direcção,  se- 
gundo a  V.  Ex.  me  parece  que  referi  ;  e  me  lembro  que  o 
sobredito  mappa  poderia  ser  de  um  grande  uso  nas  cir- 
cumstancias  actuaes,  aiim  de  regular  e  de  definir  com  infòr- 


-  121  - 

màçao  mais  plena  o  sobredito  grande  negocio  das  demarca- 
ções, pelo  que  o  remetteria  desde  logo  com  effeilo  á  real 
preseuça  ;  |*orém  a  falia  de  copiador  iotelligenle»  que  não 
ba,  me  fez  valer  de  um  tal  curioso  do  paiz  que  6  de  pouca 
▼islã  e  suiuTuamenle  vagaroso  ;  pelo  que  só  passado  ainda 
algum  tempo  d' aqui  é  que  ficara  prompto  apezar  da  pró- 
pria diligencia  que  lenho  posto  em  ajudal-on'esta  obra, 
aliás  descripta  comas  attenções  mais  escrupulosas ;  ao  que 
me  persaadin  ora  outro  tempo  mais  depressa  a  curiosidade 
de  render  individual  conta  das  minhas  viagens  n'esla  parte 
do  mundo»  do  que  a  consideração  que  então  não  podia  ter 
lugar,  de  que  talvez  poderia  vir  a  ser  ulil,  como  julgo  que  a 
V*  Ex,  não  deixará  de  parecer,  visto  que  fornece  uma  idéa 
clara  da  aclnal  fronteira^  ou  de  outra  qualqner  que  ?ua 
Mageslade  for  servida  resolver  e  ajustar. 

I>eus  goarde  alUma^eExraa.pesãoa  de  V,Ex.— Villa  Bella, 
30  de  Novembro  de  1778.  — Illm.  e  Exm,  Sr.  Martinho  de 
lello  e  Castro.  —  Luiz  fie  Àlbitqucrqm  de  Mdlo  Púreira  e 


CiiiiBf  riieçflo  tio  forte  da  1Priiiei|ie  d» 

Heira,  e  eoiiser¥açdo  de  oiitron 

esfalielecinieiitop. 


lllm*eEx.  Sr,  —  Na  construcção  do  forte  do  Prin- 

^ipe  da  Beira,  que  principiei  no  dia  20  de  Junho  de  1776, 

jníorme  as  precedentes  e  repelidas  contas  que  tenho  feito 

"OTbir  á  presença  de  Sua  Magestade  em  direitura  a  V.  Ex.» 

C4)nlinúo  em  fazer  proseguir  com  todo  aquelle  maior  vigore 

diligencia  de  que  se  fazem  suscepiiveis  os  escassos  meios 


—  122  — 

d*este  paiz ;  aonde  além  do  dinheiro,  que  é  o  mais  indis- 
pensável instrumento  com  que  se  aplainam  asdifficuldades, 
e  adiantam  semelhantes  trabalhos,  faltam  ainda  verdadei- 
ramente vários  outros  recursos  necessários  :  como  são  os 
competentes  artífices  e  operários  que  se  deveriam  empre- 
gar; de  maneira  que  sobre  alguns  remettidos  do  Pará  de- 
pois das  mais  excessivas  delongas  edespezas  fui  obrigado 
por  ultimo  a  mandar  vir  um  mais  considerável  numero 
d'elles,  que  hão  de  ser  escravos  do  Rio  de  Janeiro,  aonde 
a  referida  encommenda,  sobre  conta  da  real  fazenda»  se  fez 
ha  perlo  de  um  anno  ;  mas  antes  dos  fins  do  corrente  de 
1779  não  poderá  chegar  a  esta  capital,  sendo  fácil  de  cal- 
cular por  esta  tão  extraordinária  demora  aliás  inevitável, 
supposto  que  dentro  do  mesmo  continente,  que  a  Y.  Ex. 
representa,  apezar  das  mais  vivas  recommendações  ros 
obstáculos  que  quasi  insupefavelmente  se  offerecem  afim 
de  qualquer  empreza  n^estas  tão  desprovidas  como  remo- 
tas regiões,  apezar  do  grosso  cabedal  quasi  incrível  na  Eu- 
ropa que  tudo  custa,  por  maiores  que  sejam  os  esforços  do 
zelo  e  da  economia. 

Emquanto  aos  outros  novos  estabelecimentos  e  postos 
guarnecidos  doesta  dita  cjipitania,  sobre  que  igualmente 
tenho  posto  na  real  presença,  mediante  o  conhecimento  de 
V.  Ex.,as  humildes  contas  e  representações  que  correspon- 
diam ;  vão  subsistindo  no  indicado  estado,  emquanto  a  rai- 
nha nossa  senhora  não  fôr  servida  decidir  ou  mandar  o 
contrario ;  ao  mesmo  tempo  que  o  entretimento  de  todos 
elles  se  faz  quasi  impossível  de  supprir,  como  por  muitas 
vezes  tenho  relatado  a  V.  £x.,pela  expressada  falta  de 
meios. 

Presentemente  se  me  não  offerece  que  acrescentar  ás 
sobreditas  contas,  que  a  ultima  nova  fundação  de  que  ainda 
não  tinha  dado  parte,  a  qual  da  mesma  sorte  fiz  executar. 


conslanle  do  lenuo  que  incluo  a  Y.  £x. ;  situada  na  margem 
Occidental  do  rio  Paraguny  a  ires  ou  quatro  dias  de  viagem 
para  cima  do  presidio  que  chamei  Nova  Coimbra ;  na  imagi- 
nação de  se  tratar  de  demarcações,  segundo  respectivamente 
aDDonciam  os  dois  tratados  públicos. 

R'esta  mesma  occasião  executo  as  ordens  de  Sua  Mages- 
ladc  concernentes  â  clandestina  extracção  dos  diamantes, 
absolutamente  prohibida  n'esta  capitania,  dirigindo  as 
respectivas  devassas,  que  vou  fazendo  tirar,  ao  Exra.  vis- 
conde de  Villa  Nova  da  Cerveira  como  secretario  doestado 
dos  negócios  do  reino,  pois  que  assim  o  determina  a  arta 
régia  de  16  de  Novembro  de  1770. 

Deus  guarde  a  V.  Ex.  muitos  annos.— Villa  Bella,  5  de 
Junho  de  1779.— lUm.  e  Exm.  Sr.  Martinho  de  Mello  e 
Castro.  —  Luiz  de  Albiujuerque  de  Mello  Pereira  e  Cáceres. 


P^piilaçfto  da  capitania  delflato  Grosso 
em  ISOO. 

Illm.  e  Ex.  Sr.  —  Tenho  a  honra  de  remettera  V.  Ex, 
para  ser  presente  a  Sua  Alteza  Real,  o  mappa  da  povoação 
d'esta  capitania  do  anno  do  i:^0(),  com  os  mappas  particu- 
lares das  parochias  d*o  nde  foi  exlrahido. 

A  respeito  dos  ditos  mappas  particulares,  deverei  notar 
que  o  districto  doesta  capital  tem  uma  única  freguezia, 
a  qual  é  a  da  Santissii^a.  Trindade  de  Villa  Bella,  eu  porém 
contemplei  como  parochias  as  capellas  de  S.  Vicente,  de 
Nossa  Senhora  do  Pilar,  de  Nossa  Senhora  da  Esperança  do 
Casalvasco  e  de  Nossa  Senhora  da  Conceição  do  forte  do 


—  124  — 

Príncipe  da  Beira :  não  sò  para  facilitar  este  trabaltio,  mas 
porque  pretendia  também  que  os  ditos  mappas  servissem 
de  base  à  divisão,  que  jà  me  anticipei  â  proporção  da  íre- 
guezia  de  Yilla  Beila,  na  realidade  muito  grande  e  dispersa. 
Pelas  mesmas  razões  no  distrícto  do  Cuyabà  contemplei  a 
capellania  de  S.  Pedro  de  El-Rei  como  parochiadís- 
tincta. 

O  pequeno  mappa  que  tenho  a  honra  de  incluir  n'esta 
carta <oi  extrahido  e  ordenado  por  mim  com  o  fim  de  que 
V.  Ex.  podesse  ver  de  um  golpe  de  vista,  mais  rápido,  o  nu- 
mero dos  habitantes  de  Yilla  Bella  de  Cuyabà,  e  de  toda  a 
capitania,  os  casamentos,  nascimentos  e  mortos,  e  o  estado 
da  escravatura. 

No  districto  i*esta  capital  não  deixará  V.  Ex.  de  compa^ 
rar  a  somma  dos  habitantes  com  a  dos  mortos,  e,  se  os 
cálculos  do  antigo  mundo  são  applicaveís  às  novas  colónias 
do  Brasil,  a  proporção  de  1  para  it  seria  um  argumento  da 
salubridade  de  Mato  Grosso.  Dos  mortos  aos  nascidos 
houve  excesso  de  uma  pessoa,  mas  assim  mesmo  é  uma 
prova  do  melhoramento  que  vai  tendo  este  clima. 

Com  effeito,  em  cinco  annos,  cinco  mezes  equatorze  dias, 
que  n'elle  existo,  ainda  não  houve  uma  epidemia,  e  o 
presente  anno  vai  correndo  saudável,  apezar  de  mil  pro- 
gnósticos, a  que  deu  causa  a  extraordinária  enchente  do 
Guaporé,  que  excedeu  uma  pollegada  a  do  anno  de  1784,  a 
maior  de  que  havia  noticia.  O  augmento  da  cultura,  e  da 
povoação,  a  abundância  de  gado  vaccum,  ao  qual  até  lhe 
serve  de  malhada  a  praça  d*esta  villá  ;  o  uso  quasi  geral 
da  aguardente  de  canna,  do  tabaco  de  fumo  e  das  pimen- 
tas da  terra,  na  comida  ;  os  tamarindos,  as  laranjas,  fruta 
presentemente  de  todo  anno ;  e  a  providencia  que  eu  dei 
para  que  se  cortasse  lodos  os  dias  carne  fresca  no  açougue, 


—  125  - 

julgo  serem  as  causas  do  sobredito  melhorameDto  e  das 
moléstias  não  fazerem  jã  tantos  estragos. 

O  calculo  no  districto  do  Cuyahà  é  multo  mais  vantajoso» 
e  a  differença  a  favor  dos  nascidos  talvez  não  deixará  lu- 
gar a  muitos  exemplos.  Aqucile  clima  cm  que  cheguei  a  ex- 
perimentar um  calor  de  97  graus  segundo  a  escala  de  Fa- 
renheit,  é,  isto  não  obstante,  summamente  saudável.  As 
mulheres  são  muito  fecundas,  e  as  crianças  livres  de  bexi- 
gas e  de  outras  moléstias,  vingam  com  a  maior  facilidade  e 
até  com  grande  economia,  porque  a  atmosphera  é  a  ca- 
misa universal  das  crianças  cuyabanas. 

Se  as  minis  d'aquelle  districto  florescerem,  como  é  de 
esperar,  e  se  Nato  Grosso  d'aqui  em  diante  lhe  poupar  mais 
os  seus  habitantes,  o  Cuyabà  em  breve  tempo  deverá  ter 
um  augmento  extraordinário. 

Estimarei  bem  que  nos  annos  futuros  se  possam  fazer 
observações  igualmente  agradáveis.  Devo  porém  prevenir 
a  V.  £x.  de  que  não  posso  remetter  os  mappas  do  anno 
passado  e  do  presente,  não  só  porque  os  movimentos  da 
gaerra  absorvem  os  pequenos  braços  que  tenho  e  os  cui- 
.  dados  de  todos;  mas  porque  os  mesmos  movimentos  fazem 
uma  tal  confusão  e  transplantação  nos  moradores  d'esta 
capitania,  que  não  é  facil,  emquanto  elles  não  voltarem  aos 
seus  domicilios,  o  tirarem-se  mappas  exactos. 

Deus  guarde  a  V.  Ex.  muitos  annos.  Villa  Bella,  em  17 
de  Abril  de  1802.— Illm.  e  Exm.  Sr.  visconde  de  Anadia.— 
Caetano  Pinto  de  Miranda  Manta  Negro. 

Mappa  da  povoação  da  capitania  de  Mato  Grosso  no 
anno  de  1800,  com  individuação  das  differentes  espécies 
de  habitantes,  e  do  numero  dos  escravos,  e  com  os  casa- 
mentoSp  nascimentos,  mortes,  q\u  n*ella  houveram  no 
mesmo  anno. 


• 


-  iHi  — 
NO  DISTRTCTO  DE  YILLA  BELU. 

HABITANTES. 

Brancos 504 

índios 131 

Pretos 5,1(53 

Mulatos 1,307 

Total.  .  .  .  7,105 

NO  DÍSTRICTO  DA  VILLA  DO  CUYABÁ. 

Brancos 3,738 

índios 884 

Pretos 9,112 

Mulatos 5,997 

Total.  .  .  .  19,731 

EM  TODA  A  CAPITANIA. 

^            Brancos 4,2v2 

índios 1,015 

Pretos 14,275 

Mulatos 7,304 

Total.  .  .  .  26,836 

NO  DISTRlCTO  DE  VILLA  BELLA. 

ESCRAVOS. 

Pretos 3,848 

Mulatos 132 

Total.  ...  3,090 


-  ^n  - 

NO  DISTRICTO  DA  VILLA  DO  CUYABA. 

ESCRAVOS. 

Pretos 7,106 

Mulatos 824 


Total.  .  .  .  7,930 

EM  TODA  A  CAPITAIfU- 

ESCRAVOS. 

Pretos 10,954 

Mulatos 956 

Total.  .  .  .  11,910 

OBSERVAÇÃO. 

No  total  da  povoação  da  capitania  faltam  85 i  pessoas  a 
saber:  ÍOI  da  guarnição  do  forte  do  Príncipe  da  Beira,  que 
o  commandante  julgou  não  devia  oomprehender  no  mappa 
d'aquella  parochia,  213  moradores  na  fazenda  de  Cama- 
poan,  cuja  população  mandei  examinar  pelo  preterito 
ouTídor  d'esta  capitania,  o  desembargador  Francisco  Lopes 
de  Sousa,  quando  no  mesmo  anno  de  1800  se  recolhia  para 
o  Rio  de  Janeiro,  317  dragões,  pedestres  e  auxiliares,  que 
guarneciam  Coimbra,  Miranda  e  Albuquerque,  com  mais 
220  paisanos  de  todas  as  espécies  e  condições  moradores 
nos  referidos  três  estabelecimentos  do  Paraguay,  e  não 
incluídos  na  sua  guarnição;  de  sorte  que  a  verdadeira  po- 
voação da  capitania  vem  a  ser  de  27,690  habitantes.  — 
Caetano  Pinto  de  Miranda  Monte  Negro. 


BREVE  MEMORIA 

RELATIVA  A  CHOROGRAPHIA  DA  POVINCIA 

DE  MATO  GROSSO. 

POR 

Augusto  Levergcr. 

ADVERTÊNCIA. 

Para  facilitar  a  referencia  á  maior  parle  dos  mappas  mencionados  n'esla 
memoria  conto  as  longitudes  do  meridiano  de  Pariz,  supposto  20' 
a  leste  do  da  ilha  de  Ferro,  e  tomo  por  unidade  itinerária  a  légua  de 
três  milhas,  ou  de  20". 

O  mappa  que  denomino  oíDcial  é  o  que  organisaram  os  geo- 
graphos  da  demarcação  de  1777,  do  qual  foi  lithographado  uma  co- 
pia redusida  no  archivo  militar  em  1853. 

A  província  de  Mato  Grosso  occupa  do  centro  da  Ame- 
rica meridional  um  espaço  de  perto  de  50,030  léguas  qua- 
dradas. 

Mais  de  metade  doesta  área,  a  norte  do  parallelo  de  14% 
é  sertão,  que  nâo  tem  outros  habitantes  senão  índios  sel- 
tagens. 

Na  parte  restante,  a  população  civilisada,  que  não  chega 
a  40,0J0  almas,  acha-se  repartida  em  poucos  grupos,  o 
principal  dos  quaes  abrange  mais  de  «3/4  da  dita  população 
em  uma  extensão  de  2,000  léguas  quadradas.  Em  taes  cir- 
cumstancias  é  evidente  que  um  reconhecimento  geral  da 
provincia  é  serviço  que  exigiria  muita  gente,  muito  tempo 
e  muito  dispêndio,  e  não  é  de  esperar  que  tão  cedo  se  pos- 
sam obter  todos  os  dados  necessários  para  a  completa  e 
exacta  organisação  da  respecliva  carta.  Expor  resumida- 
mente os  trabalhos  geographicos  que  até  agora  se  fizeram 
na  provincia,  os  resultados  d'esses  trabalhos,  e  as  explora- 

TOMO  XXVIII,  p.  l  17 


-  430   • 

ções  que  me  pftrecdiD  mais  necessárias  nos  higares  habita- 
dos ou  frequeútados,  ou  susceptíveis  de  sèl-o  mais  ou 
mefios  KtfitiédíatameQte:  tal  é  o  fim  a  que  me  propuz  n'esta 
Memoria. 

Começarei  por  dar  uma  idéa  geral  da  geographia  pbysíca 
d*esta  parte  do  Império.  A  província  de  Mato  Grosso  acha- 
se  situada  entre  os  parallelos  de  T  e  iV  de  latitude  meri- 
dional, e  os  meridianos  de  52""  e  ^9"  a  oeste  do  de  Paris. 
Não  são  exactamente  conhecidas  as  latitudes  e  longitudes 
dos  pontos  extremos,  a  saber :  a  norte  o  lugar  das  três 
barras,  confluência  do  rio  de  S.  Manoel  com  o  Juruema 
ou  Tapajoz ;  a  leste  a  margem  do  Araguaya,  fronteira  à 
ponta  inferior  da  grande  ilha  do  Bananal  ou  de  SanfAnna; 
a  sul  a  foz  do  Iguatemy ;  e  a  oeste  a  foz  do  Abuná  no  Ma- 
deira. Os  limites  com  as  republicas  do  Paraguay  e  de  Boli- 
Tia  são  objectos  de  questões  internacionaes  ainda  penden- 
tes. A  divisa  com  as  províncias  do  Amazonas  e  do  Pará  não 
está  bem  definida.  O  limite  com  a  província  de  Goyaz  deve 
ser  o  Araguaya  e  um  aiUuente  Occidental  ainda  não  legal- 
mente designado  do  Paranaiva.  Este  ultimo  rio  é  divisa  com 
a  província  de  Minas,  e  o  Paraná  com  as  de  S.  Paulo  e  do 
Paraná. 

Distínctos  limites  naturaes  são  os  ditos  rios  Araguaya, 
Paranaiva,  e  Paraná  a  lésle,  e  pelo  lado  occidenlal  o  Pa- 
raguay e  o  Guaporé  que  leva  as  suas  aguas  ao  Mamoré  e 
Madeira. 

Os  immensos  cursos  de  agua  que  regam  o  território,  ofife- 
recem  a  divisão  natural  da  província  em  duas  grandes  re- 
giões :  a  do  norte,  cujas  aguas  entram  no  oceano  pela  foz 
do  Amazonas,  e  a  do  sul,  que  verte  para  o  Paraná  e  o  Pa- 
raguay, tributários  do  Prata. 

A  tortuosa  linha  que  divide  essas  aguas  vem  da  provín- 
cia de  Goyaz  a  rumo  de  SO,  e  entra  n^esta  nas  immediações 


-  ini  — 


do  parilieiõ  de  i8'  e  do  meridiano  de  S5%  onde  se  âctiam 
mui  pmxiraas  as  funles  do  Araguaya,  galho  do  Tocantins,  e 
9&  do  Sucuriú,  allluenle  do  Paraná*  N'eslâ  paragem  muda 
âbrtiptamente  a  sua  direcção  do  SO  para  NO,  e  nesleul- 
limo  quadrante  separa  os  afíluenles  do  Aragitaya  dos  do 
S,  Lourenço  t  tributário  do  Paraíruay. 

Antes  de  chegar  ao  parallelo  do  !5*^  inclina-se  para 

sle  6  depois  para  SO,  passando  entre  as  fontes  do  Aricà- 

"mirim,  pequeno  aflluenle  do  Cuyabá,  e  as  do  rio  Manso, 

principíil  cabeceira  do  rio  das  Mortes,  que  vai  entrar  no 

Anignaja  na  proximidade  da  parte  superior  da  ilha  do  Ba- 

iitnaK 

I»ste  ponto  sêgtie  a  linl^a  divisória  a  norte  para  NE, 
daxando  à  esquerda  as  fontes  dos  riachos  qne  affluem  para 
o  Coyahá,  e  à  direita  as  cabeceiras  de  diversos  rios  qne  os 
mappas  representam  como  galhos  do  Xingu,  mas  que  com 
bom  fundamento  sopponho  ser  tributário  do  Tapajoz. 

Pelo  parallelo  do  li'*  lorua  a  tomar  a  direcção  de  NO 
o  oeste,  que  segne  òom  muitas  sinuosidades  entre  as  orí- 

ens  dí»  A  ri  nos  entretecidas  com  as  do  Cuyabã  e  do  alto 

araguay;  volta  depois  a  SO  para  sul,  passando  entre  as 
vizinhas  fontes  do  Jauríí  e  do  Guaporé ;  ai  li  descem  estes 
iloís  rios  a  escarpa  da  chamada  serra  dos  Pareci s^  em  se* 
guida,  subindo  vai  passar  pelo  cume  da  serra  de  Agoapehy, 
oiKJe,  quasi  juntos,  nascem  o  rio  doiuesmo  nome,  afiQuente 
do  Jauru»  e  o  Alegre, galho  do  Guaporé;  e  finalmente  vai  en- 
trar no  território  boliviano,  perto  do  monte  da  Boa-Vista,  a 
SSK  da  cidade  de  Mato  Grosso. 

A  dita  linha  divisória  nao  forma  a  crista  de  serras,  como 
liguram  alguns  niapi>uâ ;  corre  por  um  plafeau  que  se  es- 
lende  desde  as  immediações  do  Paraná  e  Aragnaya  até  um 
jioiico  a  oeste  das  fontes  do  Guaporé,  lançando  ramifica- 
çTiíís  fpie,  pelo  lado  maismeridionaK  dividem  as  vertentes 


—  132  - 

do  ParaDà,  desde  o  Paragnay,  e  a  norte  separaiãi  as  ba- 
cias do  Araguaya,  Xingu,  Tapajoz,Guaporé  e  baixo  Madeira. 
O  terreno  d'este  plaíeau  não  é  propriamente  montanhoso, 
mas  sim  accidentado  por  collinas  de  pouca  altura,  e  por 
sulcos  mais  ou  menos  profundos,  formados  pelo  esgoto  das 
aguas. 

A  sua  maior  elevaçSo  acima  do  nível  do  mar  é  pouco 
mais  ou  menos  de  400  braças  ou  900  metros.  E*  vestido  de 
gramineas,  sarças,  arbustos  e  arvoredo  baixo,  enguiço  e 
pouco  corpulento,  em  algumas  partes  espalhados  cà  e  là,em 
outras  grupados  em  bosques  mais  ou  menos  extenso^,  a 
que,  no  paiz,  chamam  cerrados  ou  cerradões,  segundo  a 
sua  espessura.  O  solo  em  muitos  lugares  é  areento. 

E'  quasi  unicamente  nas  margens  e  cabeceiras  dos  rios 
que  se  vêem  matos  e  terrenos  muito  próprios  para  a  agri- 
cultura. 

O  plateau  entrai  e  suas  ramificações  em  algumas  parles 
abaixam-se  suavemente  até  às  várzeas,  em  outras  termiuam- 
se  por  Íngremes  declives,  às  vezes  em  grande  distancia  dos 
rios. 

Este  caso  dà-se  com  especialidade  na  bacia  do  Paraguay, 
onde  as  aguas  que  trasbordam  periodicamente  o  alveo, 
estendem-se  em  annos  de  copiosas  e  aturadas  chuvas  até 
dezenas  de  léguas  das  margens,  formando  um  immenso 
lago,  onde  se  misturam  o  rio  principal  e  seus  aílluentes. 

Aos  referidos  declives  e  a  collinas  de  mediocre  elevação 
dà-se  o  nome  de  serras ;  e,  como  estas  mudam  de  appd- 
lido  em  cada  localidade,  d*ahi  provém  uma  copiosa  nomen- 
clatura orologica,  conhecida  particularmente  apenas  pelos 
habitantes  das  mesmas  localidades,  e  pelos  viajantes  que 
por  ellas  transitam. 

Direi  algumas  palavras  da  divisão  territorial  politica,  não 
como  elemento  de  estatística,  mas.  tão  somente  para  dar 


-  {X\  — 

idéft  da  distribuição  da  população  cívílisada  ou  sujeita  as 

leis  do  Império.  Entre  os  parallolos  de  i  V'  e  ití"  3  )\  e  os 

rios  Paragnay  e  S.  Lourenço,  que  dislatn  entre  si  cousa  de 

SO  legaas,  existem  as  seguintes  povoações  de  quatro  muni- 

dpios: 

k  cidade  de  Cuyabà,  e  as  freguezlas  de  Pedro  11, 
Santo  Aotonio,  Livramonlo,  Guia,  Rrolas  o  Sant*Anna  da 
Chapada. 

A.  yilla  do  Diamantino  (o  Diamantino  nâo  está  precisa- 
mente dentro  dos  limites  indicados,  mas  dista  apenas  -2  lé- 
guas da  margem  direita  do  Parai^niay ;  c  a  freguezia  do  Ro- 
sano.  A  cidade  de  Paconé,  Villa-Maria.  Ksle  grupo  con- 
tém, pouco  mais  ou  menos,  em  numero  redondo,  25,000 
habitantes  livres,  e  3,000  í»scravos. 

Na  parte  superior  da  bacia  do  (■uíipon;  existe  a  decahida 
cidade  de  Mato  (irosso,  cnja  populaijão,  inclusive  a  dos 
pontos  militares  de  Casulvasco  c  Torte  d«j  Princi|)e,  nâo 
chega  a  3,0  íO  almas. 

Pela  margem  direita  do  Paranaiva  e  Paraná  estende-se  o 
termo  da  villa  de  Sant*Anna,  que  julgo  não  ter  mais  de 
3,000  habitantes. 

'  Finalmente,  forma  a  parle  mais  meridional  da  provincia 
o  termo  da  villa  de  Miranda,  quo  se  estende  do  Paraná  ao 
Paragnay,  e  abrange  na  margem  dimit:!  d\>st('  ultimo  rio  as 
fregaezias  de  Albuquerque  e  drCitrnmhá.  A  popubcfio  to- 
tal pude  avaliar-se  de  4,ooo  a  o,0()')  almis.  Accrescen- 
tando  601)  ou  <iOO  pessoas  que  vivem  espalhadas  pelos  ca- 
minhos defioyaz  e  S.  Paulo,  e  em  lugares  isolados,  temos  o 
computo  de  40,(KM)  habitantes. 

Passo  a  tratar  dos  trabalhos  geographicos. 
Não  tenho  a  pretensão,  nem  os  meios,  nem  me  parece 
bayer  necessidade  de  ind.igar  com  (pie  elemento  si»  descre- 
veu em  antigíis  mappas  esta  i>arleda  America. 


—  13i   - 

Creio  que  os  primeiros  christâos  que  n'ella  penetraram, 
foram  os  bespanhoes,  que  em  diversas  expedições  desde  o 
anno  de  1537  subiram  pelo  Paraguay  em  procura  de^ami- 
nbo  para  o  Peru,  e  fundaram  na  parle  meridional  da  pro- 
víncia alguns  estabelecimentos,  cuja  duração  foi  epbemera. 

Posteriormente  os  vicentistas  ou  paulistas  exploraram 
estes  sertões  em  conquista  do  gentio.  Muito  antes  de  fun- 
dar-se  Cuyabà  haviam  estado  n*esta  paragem  Bartbolomeu 
Bueno  da  Silva,  António  Pires  de  Campos,  e  porventura 
outros  com  numerosa  comitiva,  como  era  preciso  para  as 
árduas  emprezas  d'esses  ousados  aventureiros. 

Mui  lo  fraca  luz  lança  sobre  a  geographia  o  pouco  que 
tem  conservado  a  tradição  acerca  d*essas  expedições,  e 
até  causa  alguma  confusão  a  respeito  da  situação  de  alguns 
rios  e  montes  de  que  faz  menção.  O  mesmo  succede  tam- 
bém com  roteiros  mais  modernos,  sendo  que  às  distancias 
são  geralmente  avaliadas  por  dias  de  viagem  e  os  rumos 
pelas  direcções  de  nascente  e  poente.  Concebe-se  quanto 
são  vagas  e  susceptíveis  de  induzir  em  erro  semelhantes 
designações,  que  aliás  são  ás  vezes  omitlídas. 

Tendo-se  descoberto  ouro  em  Ciiyabá  em  1719,  não  tar- 
daram aflluir  numerosos  emigrantes,  e  desde  então  até  ha 
vinte  e  tantos  annos  não  cessou  de  ser  praticada  a  commu- 
nicação  oflicial  entre  esta  proviucia  e  a  de  S.  Paulo. 

Em  173G  abriu-se  um  caminho  de  terra  de  Cuyabá  para 
Goyaz ;  foi,  porém,  pouco  frequentado. 

Em  1746  o  sargento  mòr  João  de  Sousa  Azevedo  empre- 
hendeu  a  navegação  para  o  Pará  pelo  Tapajoz.  Tendo 
hproraptado  a  sua  expedição  ao  Jaurú,  desceu  por  este  rio 
e  subiu  pelo  Paraguay  e  Sepitiba  até  onde  lhe  foi  possível; 
varou  as  suas  canoas  por  terra  até  o  rio  do  Sumidouro,  por 
cujo  alveo  desceu  ao  Arinos,  e  continuando  a  navegar  aguas 
*»^l>aixo  chegou  a  salvamento  ao  Pará.  Julgou,  porém,  im- 


—  IMi  — 

praticarei  o  voltar  pela  mesma  via.  Os  uomes  qiio  Az^3ve(lo 
impõz  aos  aiHuentes do  Arinos e  do  liiruemi,  sào  até  o  pre- 
sente «onservados  em  todos  os  mappas  que  conheço,  sup- 
posto  que  tenham  sido  mais  de  uma  vez  mudados  e  estejam 
iMje  desconhecidos  pelos  que  fazem  habitualmente  a  dita 
navegacSo. 

Eia  1759  chegou  aos  arralaes  de  minas  de  Mato  Grosso 
pelo  Gaaporé  e  Sararc  uma  expedição  vinda  do  Pará  para 
explorar  o  curso  do  Madeira. 

A  relação  d'esta  viagi>m  foi  publicada  pela  academia 
real  das  sciencias  de  Lisboa  no  lomo  4""  da  Collecção  de 
noticias  para  a  historia  e  geographia^  etc. 

A  respeito  da  dita  relação  diz  o  capitão  general  Luiz 
Finto  de  Sousa,  em  oíQcio  dirigido  á  secretaria  d'cstado 
em  1760:  «  Supponho  que  com  as  mesmas  luzes  seria  a 
nossa  corte  informada  n'essas  matérias  pela  relação  de 
viagem  que,  em  virtude  de  ordens  régias,  se  emprehen- 
dea  do  Pará  para  estas  minas  nu  anno  de  1740,  e  que 
execalou  o  sargento  mór  Luiz  F.igundes  em  companhia 
do  piloto  António  Nunus  de  Sousa,  cujos  erros  no  calculo  das 
léguas,  na  posítura  e  direcção  das  cachoeiras,  na  largura 
dos  rios,  e  emfim  até  na  verdadeira  medida  das  alturas, 
(azem  a  dita  relação  pouco  allendivel.  » 

Em  1751  teve  principio  o  governo  da  rocemcreada  capi- 
tania general  do  Mato  Grosso  pela  pjsse  que  tomou  em 
Gayabà  o  seu  primeiro  governador,  1).  Anlonío  Uolim  de 
Moora.  Viera  o  dito  governador  pela  navegação  lluvial  do 
S.  Paalo  e  escreveu  um  circumslanciado  e  exacto  itinerário 
da  soa  yi^eiu.  (Inserido  na  Revista  Tnmcnml  tio  luMitulo 
Hiãiofico  e  Geographicoj  tomo  7*"  n.  á  í,  de  Janeiro 
de  1846.) 

Hão  lhe  eram  estranhas  as  observações  astronómicas, 
eomo  se  deprebende  do  seguinte  trecho,  relativo  á  sua  es- 


—  i36  — 

tada  em  Camapuã:  «  Como  estas  (as  trovoadas),  que  se 
armavam  quando  ia  chegando  o  meio-día,  me  embaraça- 
vam de  tomar  o  sol  à  minha  vontade.  Um  dia,  ainda  que 
com  grande  di(Iiculdade,por  estar-se escurecendo  de  quando 
em  quando,  me  pareceu  achar  a  altura  de  19°  Vs-  >> 

Em  1752,  depois  de  lançar  os  primeiros  alicerces  de 
Villa  Bella,  hoje  cidade  de  Mato  Grosso,  o  governador  en- 
viou às  Missões  da  provincia  hespanhola  de  Majes,  por 
motivos  políticos,  o  padre  jesuita  Agostinho  Lourenço, 
que  víéra  do  Rio  de  Janeiro  na  sua  companhia.  Este  reli- 
gioso escreveu  uma  minuciosa  relação  da  sua  viagem  de 
ida  e  volta. 

Em  1754  vieram,  pela  via  do  Paraguay,  collocar  o  marco 
do  Jaurú  os  commissarios  das  três  partidas  da  demarcação 
de  limites,  na  conformidade  do  tratado  de  1750. 

O  terceiro  governador,  Luiz  Pinto  de  Sousa  Coutinho, 
jà  na  viagem  que  fez  do  Para  para  Mato  Grosso,  deu  grande 
attenção  às  circumslancias  geographicas,  como  se  vé  de 
um  extenso  oíQcio  que  sobre  esta  matéria  dirigiu  á  secreta- 
ria de  estado  em  Janeiro  de  17(>9.  Cumpre,  porém,  dizer 
que  algumas  posições  que  refere  e  provavelmente  tirou  dos 
mappas  que  tinha  á  sua  disposição,  dilTerem  consideravel- 
mente das  que  foram  posteriormente  deduzidas  de  obser- 
vações exactas.  Assim  também  enganou-se  evidentemente 
noticiando  que,  na  bocca  de  Jamary,  antes  de  chegar  â 
primeira  cachoeira  do  Madeira,  achou  a  altura  do  mercúrio 
no  barómetro  4  l/á  poUegadas  menor  que  na  cidade  do 
Pará,  o  que  comprehenderia  a  uma  impossivel  dilTerença 
de  nivel ;  sendo  que  pouco  menor  altura  da  columna  baro- 
métrica achou  o  Dr.  Pontes  no  cume  da  serra  dos  Parecis, 
isto  é,  n*um  dos  pontos  mais  altos  áoplateau  central. 

O  governador  Luiz  Pinto  ordenou  varias  explorações,  e 
entre  ellas  a  abertura  de  um  caminho  pelo  alto  do  terreno  da 


-   137  — 

fortaleza  de  Bragança  (substíluido  pela  fortaleza  do  Prínci- 
pe) paraCuyabá.  Esta  expedição  iòí  mal  succedída  depois 
de  ler  gasto  um  anno  inteiro  n'esUi  exploração  e  de  ter  per- 
didOy  inanidas  de  forno  e  de  cansaço,  ou  mortas  pelos  indios 
e  pelas  feras,  Tò  das  82  pessoas  que  a  compunham ;  teve  de 
TOltar  àVilIa  Bella  (Mato  Grosso)  antes  de  chegar  ás  cabecei- 
ras do  Guaporé.  Comtudo  reconheceu  a  praticabilidade  do 
projectado  caminho.  O  itinerário  d*esta  viagem  foi  feito  ao 
principio  com  muito  cuidado,  indicando-se  os  rumos  pela 
agulha  e  medindo-se  as  distancias  cm  braças.  Houve,porém, 
depois  falta  de  exactidão,  pois,  traçando-se  a  derrota  no 
mappa,  o  ponto  de  chegada  vem  ter  muito  a  oeste  de  Mato 
Grosso,  devendo  ficara  leste.  Entretanto  esta  derrota  vem 
delineada  na  grande  carta  de  Avey  de  la  Rochette,  publica- 
da por  Tadem  em  1807  ;  fizeram-sií-lhe,  porém,  as  modi- 
ficações necessárias  para  não  apparecer  o  erro  que  acabo 
de  ap  miar. 

O  mesmo  governador  já  em  1771  linha  duvidas  acerca 
do  corso  do  Paranatinga,  e  pedia  informações  a  esto  res- 
peito à  camará  de  Cuyabá  e  ao  governador  de  Goyaz,  que 
lh'as  não  puderam  ministrar  senão  muito  vagas,  apezar  de 
consultarem  os  mais  antigos  e  experimentados  sertanistas. 

O  capitão  general  Luiz  de  Albuquerque  veiu  por  terra 

do  Bio  de  Janeiro  a  Cuyabá,  onde.  chegou  em  fins  de  1772. 

Trazia  na  sua  companhia  um  ollicial  do  engenheiros  e  fez 

iiin  circumstanciado  itinerário  da  sua  viagem.  Recordo-me 

de  ler  visto  osso  trabalho  ;  mas,  procurando-o  depois  no 

archÍTO  da  secretaria  da  província  para  cxaminal-o  mais  at- 

tenlamenle,  não  o  pude  encontrar.  A  derrota  de  Goyaz  a 

Gayabá  vem  traçada  no  majtpa  r»flicial,  e  cumpre  dizer  que 

diflTcre  rauilo  do  caminho  que  prosenlemente  se  segue,  e 

que  ba  evidentes  erros  nas  origens  e  direcções  de  alguns 

rios  e  ribeiros.  Depois  de  entrar  no  exercício  do  governo 

T03I0   XXVIll,   p.    I.  18 


de  Mato  Grosso,  o  governador  mandou  fazer  namerosas  ex- 
plorações nas  vizinhançis  da  vil !a  e  pelo  Guaporé  abaixo, 
tomando  pessoalmente  parle  em  uma  doestas.    " 

Mandou  também  reconhecer  o  curso  do  rio  Paraguay  e  o 
território  dos  Guarajús.  Infelizmente  as  pessoas  incum- 
bidas d*essas  diligencias  tinham  mais  zelo  do  que  inslruc- 
ção,  e  as  derrotas  que  se  acham  registradas,  embora  con- 
tenham minuciosas  informações  topographicas ,  pouco 
aproveitam  para  a  geographia,  por  não  haver  uma  só  posi- 
ção determinada  por  observação  astronómica,  e  por  serem 
de  modo  muito  vago  indicados  os  rumos  e  as  distancias. 

Em  1775  o  governador  fez  sahir  de  Cuyabcá  uma  expe- 
dição de  canoas  armadas,  que  teve  ordem  de  explorar  o  rio 
Paraguay  e  de  fundar  um  estabelechnento  no  Fecho  dos 
Morros,  o  que  não  foi  pontualmente  cumprido,  fundando- 
se  o  presidio  de  Coimbra,  a  nova,  na  margem  direita  do 
Paraguay,  e  no  lugar  outr'ora  chamado  Estreito  de 
S.  Francisco  Xavier. 

No  mesmo  anno  mandou  expedir  de  Mato  Grosso  uma 
bandeira  para  investigar  os  campos  de  Ourucumacuã,  onde 
suppunha-se  haver  ricas  minas  de  ouro.  Esta  expedição 
mallogrou-se,  regressando  antes  de  chegar  ao  seu  destino. 

No  segundo  anno,  de  177(5,  mandou  fazer  o  reconheci- 
mento do  rio  Mboteteú,  ao  qual  o  explorador  impôz  o  nome 
de  Mondego,  e  bem  assim  deu  denominações  portuguezas 
aos  alíluenles  e  aos  montes  e  outros  accidentes  de  terreno 
que  foi  avistando.  Estes  nomes,  que  se  lêm  em  muitos 
mappas  e  escriptos  são  quasi  geralmente  desconhecidos  no 
paiz  :  o  principal  galho  chama-se  Aquidauana ;  outro  no 
de  Miranda,  em  vez  de  Mareco,  como  fora  denominado  em 
1776,  c  assim  dos  mais.  Subiu  a  expedição  até  às  cabecei- 
ras, e  comtudo  não  pôde  dar  com  o  varadouro  para  o  rio 
Anhanduhy,  por  onde  eram  oulr'ora  transportadas  as  ca- 


ndas  que  trafegavam  enlre  esta  provincia  e  a  de  S.  Paulo ; 
lendo  sido  aquelle  varadouro  abandonado  em  1735,  por 
preferir-se-lbe  o  de  Camapuã.  Tive  em  mão  o  diário  d'esta 
expedição  e  até  conservo  um  extracto  d*elle ;  é  baslante- 
mente  circumslancíado,  mas  pelos  motivos  jà  apontados 
não  dá  os  meios  de  delinear  com  exactidão  ou  ainda  appro- 
limadamente  o  curso  do  rio. 

Aos  engenheiros  e  astrónomos  enviados  pela  corte  de 
Lisboa  para  a  demarcação  do  limites,  em  observância  do 
tratado  de  1777,  são  devidos  os  piiDieiros  trabalhos  scien- 
tificoSy  6  os  mais  importantes  que  até  agora  se  fizeram. 
CcMnpunham  a  partida  que  veiu  funccionar  em  Mato  Grosso 
os  capitães  engenheiros  Ricardo  Franco  de  Almeida  Serra 
e  Joaquim  José  Ferreira,  e  os  Drs.  astrónomos  Francisco 
José  de  Lacerda  e  António  Pires  da  Silva  Pontes.  Chega- 
ram a  Mato  Grosso  em  1782,  tundo  vindo  pelos  rios  Ma- 
deira, Mamoré  e  Guaporé,  de  cuja  navegação  fizeram  uma 
excellente  descripção,  de  ha  muito  publicada.  (Foi  mais 
recentemente  inserida  na  líevista  Trimensal  do  Insíiluto 
Histórico  e  Geographico  tomo  20,  i"  trimestre  de  1837). 

Logo  depois  de  sua  chegada  fizeram  interessantes  ob- 
servações em  VillaBelIa  e  no  fronteiro  morro  do  Grã  Pará; 
e  o  capitão  Ricardo  Franco  com  o  Dr.  Pontes  foram  reconhe- 
cer os  terrenos  que  medcam  a  mesma  villa  e  as  cabeceiras 
do  Paraguay. 

Em  1783  o  Dr.  Laci4'da  voltou  para  o  baixo  Guaporé, 
afim  de  fazer  novas  observarOns  para  o  complemento  da 
respectiva  carta,  e  para  explorar  parte  dos  rios  que  desa- 
guam no  mesmo  Guaporé  pela  margem  esquerda,  e  com 
especialidade  o  terrilui.i.  aos  guarajús. 

Os  outros  mathematicos  exploraram  as  vaslas  campinas 
de  Casalvasco  até  as  fontes  do  rio  Barbados. 
Em  flns  do  mesmo  anno  o  capitão  Uicardo  Franco  e  o  í)r. 


—  liO  — 

Pontes  foram  reconhecer  os  terrenos  a  sul  de  Mato  Grosso 
e  oeste  do  Jauríi,  com  ordem  de  chegarem  até  o  Marco. 
Não  poderam  concluir  esta  diligencia,  que  renovaram  no 
anno  seguinte,  abrangendo  também  a  exploração  a  serra 
de  Aguapehy,  o  rio  do  mesmo  nome  e  o  Alegre,  e  o  espaço 
que  medèa  entre  os  ditos  rios  e  o  caminho  de  Villa 
Maria. 

No  intervallo  entre  estas  duas  expedições  foi  o  Dr.  Pon- 
tes reconhecer  o  curso  do  Guaporé  de  Villa  Bella  para 
cima. 

Em  4786  os  quatro  mencionados  engenheiros  e  astró- 
nomos, acompanhados  de  práticos  e  numerosa  comitiva, 
procederam  a  um  minucioso  reccmhecimento  do  rio  Para- 
guay  e  de  todas  as  lagoas  e  escoantes  que  com  elle  com- 
municam  pela  margem  occidental  desde  a  Toz  do  Jaurú 
até  a  bahia  Negra.  Percorreram  em  canoas  grandes  es- 
paços de  campanha  que  n*aquella  época  (de  Abril  a  Ju- 
nho) achava-se  alagada  em  diversas  partes,  com  mais  de 
dez  palmos  d'agua.  Voltaram  pelos  rios  de  S.  Lourenço 
eCuyabá  até  a  villa  deste  nome,  e  regressaram  por  terra 
a  Mato  Grosso,  sempre  tomando  nola  da  derrota,  e  fazendo 
nos  principaes  lugares  as  possíveis  observações  astronó- 
micas. 

De  Cuyabíi  o  Dr.  Pontes  solicitava  e  obtivera  permis- 
são do  governador  para  explorar  as  vizinhanças  do  alto 
Paraguay  Diamantino.  Nâo  se  eíTectuou,  porém,  esta  di- 
ligencia, que  teria  lido  por  resultado  a  correcção  de  graves 
e  numerosos  erros  com  que  está  até  hoje  figurada,  ou  antes 
desfigurada  no  mappa  oíQcial  esta  parte  da  provincia  aliás 
povoada  e  frequentada. 

Em  1789  o  Dr.  Lacerda  seguiu,  de  orilem  do  general 
para  S.  Paulo,  incumbido  de  fazer  o  reconhecimento  dos 
rios  Taquary,  Coxim,  Camapuã,  Sanguexuga,  Pardo,  Pa- 


—  141  - 

ranã  e  Tietê,  por  onde  se  fez  a  navegação  enlre  esta  e 
aquella  proviíyia. 

O  Dr.  Pontes  íui  man<lado  explorar  os  rios  Paraguay, 
Verde  e  Capivary,  allluentes  occidenlaes  do  Guaporé. 

E,  de  volta  d'esta  expedição  foi  á  serra  dos  Parecis,  exa- 
minar as  origens  muito  vizinhas  do  Savaré»  Juruema, 
Guaporé  e  Jaurú.  Ein  1790  veiu  do  Pará  o  naturalista  Dr. 
Alexandre  Rodrigues  Ferreira,  enviado  em  missão  scien- 
tífica  pela  corte  de  Lisboa.  Nào  me  consta  que  fizesse  n'es- 
ta  provinda  trabalho  algum  relativo  á  geographia  mathe- 
matica. 

N*este  mesmo  anno  de  1 7!K)  o  capitiío  general  Luiz  de 
Albuquerque,  antes  de  entregar  o  governo  a  seu  irmão 
João  de  Albuquerque  qua  foi  a  nomeado  para  subslituil-o, 
dissolveu  de  ordem  superior  a  partida  de  demarcação  de 
limites.  O  Dr.  Lacerda  não  vollon  mais  áprovincia.  O 
Dr.  Pontes  retirou-se  d'ella,  bem  como,  pouco  depois  o 
major  Joaquim  José  F(4Teira.  Só  ficou  o  major  Ricardo 
Franco  que  morn^u  mi  I80S>  no  forte  de  Coimbra,  depois 
de  ler  prestado  relevanlissimos  serviços,  estranhos  porém, 
a  ch»rographia. 

Não  receio  errar,  alTirmando  quo  desde  aquella  época  de 
1790  até  18á«,  não  houve  qnein  fizesse  na  província  uma 
só  observação  celesle  |iara  fins  gt^ographicos. 

De  todos  os  referidos  trabalhos  o  de  outros  qui»  por  me- 
nos importantes  tenho  dtiixado  de  mencionar,  fizeram-se 
relatórios  e  óptimos  mappas  em  muito  grande  escalla,  dos 
qoaes  remetteram-se  cópias  ao  governo,  archivando-se 
outras. 

E'  muilo  para  lamenlar  que  estes  monum(»nlos  não  exis- 
tam mais  na  secretaria  da  provincia.  Tns  exlraviaram-se, 
ootros  foram  remettidos  |)ara  a  corte  em  cumprimento  de 
ordens  do  governo  imperial. 


—  Ii2  — 

Em  Outubro  de  1830  o  vice-presidente  em  exercício 
fez  uma  notável  remessa  d'essas  para  satisfazer  a  exigên- 
cia da  portaria  do  ministério  do  Império  de  14  de  Janeiro 
do  mesmo  anno.  Recordo-me  de  que  em  1847,  a  pedido 
do  Exm.  presidente  Dr.  J.  Chríspiniano  Soares,  eu  pude 
ainda  descobrir  no  archivo  os  mappas  do  Madeira,  Ma- 
moré,  Guaporé  e  rio  Verde,  dos  quaes  tirei  uma  cópia  li- 
geira antes  que  fossem  expedidos  para  a  corte,  e  bem  as- 
sim fíz  uma  cópia  reduzida  de  um  mappa  em  ponto  grande 
da  fronteira  de  Malto  Grosso.  Quasi  nada  resta  na  dita  se- 
cretaria, senão  o  que  se  acha  copiado  nos  livros  de  regis- 
tro que  a  traça  não  tardará  a  destruir.  Com  os  resultados 
dos  mesmos  trabalhos  íizeram-se  importantes  correcções 
às  cartas  até  então  existentes,  e  organisou-se  uma  nova, 
da  qual  tiraram-se  cópias  por  diversas  vezes.  E*  a  que 
chamo  oflScial.  Os  cartographos  nacionaes  e  estrangeiros 
aprovei taram-se  dos  melhoramentos  que  apresentou,  e 
não  se  lhe  fez,  que  me  conste,  emenda  alguma,  senão  de 
8  ou  10  annos  a  esta  parte. 

Sob  a  administração  dos  successores  do  general  Luiz  de 
Albuquerque,  continuou-se  a  expedir  bandeiras  para  a  re- 
pressão das  correrias  dos  Índios,  para  a  destruição  dos  qui- 
lombos e  em  busca  de  minas  de  ouro.  Das  relações  d*essas 
expedições  pouco  proveito  pôde  tirar  a  chorographia,  pela 
razão  já  exarada  de  faltarem  os  dados  indispensáveis  para 
a  delineação  das  derrotas. 

Em  1797  o  capitão  general  Caetano  Pinto  de  Miranda 
Monte  Negro  mandou  fundar  o  presidio  de  Miranda  (hoje 
villa)  sobre  um  galho  meridional  do  Mboteleú,  ao  qual  se 
dera  em  1776  o  appellido  de  Mareco,  como  a  este  ultimo 
de  Mondego.  Desde  então  o  serviço  militar  exigiu  por  vezes 
explorações  n*aquelle  districto ;  todas,  porém,  tém  o  defeito 
que  ainda  agora  acabo  de  apontar.  E*  de  notar-se  que, 


-  lk:\  — 


iam  nas  cópias  da  carta  ollícíal  \\m  se  tiraraoi  n'esse  mes- 
'mo  anno  de  I79r,  nem  posleriormeale  (senão  ha  pouco) 
se  designou  a  posição  do  mesmo  presidio.  Em  ISO^i  o  go* 
vernador  mandon  reconliecer  o  rio  Manso,  que  atravessa 
a  estrada  entre  Goyaz  e  Cuyabà,  a  20  léguas  de  distancia 
d*esta  cidade,  e  e  figurado  nos  mappas  como  allluenta  do 
rio  Cuyabá*  Os  exploradores»  navegando  agua  abaixo,  foram 
lar  ao  arraial,  hoje  extincto,  dos  Araes,  ou  de  Amarante, 
na  margem  esqnerda  do  rio  das  Mortes.  Nao  restou,  pois, 
duvida  de  que  o  dito  rio  Manso  è  a  mais  remota  cabeceira 
do  mesmo  rio  das  Mortes,  e  nâo  deve  ser  confundido  com 
outro  rio  de  ipual  nome,  que  nasce  em  nao  pequena  dis- 
tancia no  quadrante  NO.,  c  é  com  efleito  tributário  e  por- 
ventura galho  principal  do  rio  Cuyabà, 

Em  1805,  por  oceasiâo  de  fãcultar-se  a  extracção  do 
ouro  nus  terrenos  até  então  vedados  do  alto  Paraguay  Dia^ 
mantiuo,  o  capitão  general  Manoel  Carlos  de  Abreo  e  Me- 
nezes fez  aproraptar  uma  expedição  de  canoas,  que  desceu 
ao  Amazonas  pelos  rios  Arinos  e  Tapajoz.  Porém  o  res- 
pectivo encarregado  não  se  atreveu  a  voltar  pelo  mesmo 
caminho.  Mais  animosos  c  bera  succedidos  foram  os  que 
emprebenderam  a  mesma  navegação  cm  Í8Í2  sob  os  aus- 
pícios do  capitão  general  Joio  Carlos  Augusto  de  Oeynhau- 
sen.  Regressaram  com  caiiòas  carregadas  pelos  mesmos 
rios,  e  desde  então  têm  continuado  este  trafego  cora 
maior  ou  menor  frequência.  Existem  a  respeito  vários  ro- 
teiros, que  dão  valiosas  informações ;  porém  nao  as  preci- 
sas para  se  traçar  o  curso  da  dita  navegaÇcio.  Constava  de 
tradição  que  um  desertor  dera  noticia  de  um  curto  vara- 
douro entre  o  Sucuriú,  allluente  do  Paraná,  e  o  Pequeri, 
galho  doS.  Lourenço.  Como  esta  descoberta  fora  de  sum- 
mo  interesse  para  a  navegação  de  S,  Paulo,  o  general  João 
Carlos  mandou  em  1815  explorar  essas  paragens. 


—  U4  — 

Direi  mais  adiante  qual  foi  o  resultado  de  tal  inda- 
gação. 

Em  1819,  sob  o  governo  do  ultimo  capitão  general  Fran- 
cisco de  Paula  Magessi  explorou-se  novo  caminho  para  o 
Pará. 

Perto  da  fazenda  das  Paranatingas  e  em  breve  distancia 
das  cabeceiras  do  rio  Cuyabà  passa,  já  caudaloso,  o  rio  Pa- 
ranatinga. 

D'alli  partiu  uma  expedição  de  canoas  dirigida  pelo 
tenente  de  milicias  António  Peixoto  de  Azevedo,  que  com 
67  dias  de  viagem  entrou  no  Tapajoz,  no  lugar  das  Três 
Barras.  (Por  mais  diligencias  que  fizesse  não  pude  desco- 
brir cópia  do  roteiro  do  tenente  Peixoto,  que  o  general 
Magessi  remetteu  à  secretaria  de  Estado,  e  nenhuma  infor- 
mação tenho  a  este  respeito  mais  circumslanciada  do  que  a 
referida  na  obra  do  conde  deCastelnau.— Tomo  3%  sec. 
109). 

Ficou,  pois,  averiguado  que  o  galho  mais  remoto  do  rio 
das  Ires  Barras  nasce  a  sul  e  a  leste  das  fontes  do  Cuyabà, 
e  não  60  léguas  a  norte,  como  o  indicam  todos  os  mappas 
que  conheço,  e  outrosim  que  não  e  galho  do  Xingu  o  rio 
que  como  tal  figuram  os  mesmos  mappas  n^aquellas  para- 
gens. 

E'  singular  que  no  raappa  official  se  não  leia  o  nome  de 
Paranatinga^  geralmente  conhecido  e  usado  na  província 
desde  remolissimo  tempo  até  o  presente,  sendo  que  em 
alguns  mappas  cslrangeiros  lê-se  o  dito  nome  a  par  do  de 
Xingu,  perlo  da  foz  d'esle,  no  Amazonas. 

Com  o  general  Magessi.  viera  para  a  provinda  o  capilao, 
depois  major  de  engenheiros,  Luiz  de  Alincourl,  a  quem  se 
devem  trabalhos  de  bastante  interesse  para  a  chorographia, 
como  sejam :  —  Uma  exacta  e  circumstanciada  dcscripção 
da  Viagem  de  Santos  a  Cuyabd.—Vm^  memoria  acerca  das 


—  145  — 

fronteiras  do  Baixo  Paraguay  e  de  Mato  Grosso.— Um  re- 
sumo das  explorações  feitas  desde  o  registro  deCamapuã 
até  á  cidade  de  Cuyabà,  passando  por  Miranda.  — E  outro 
resumo  de  observações  de  estatistica  feitas  desde  a  mesma 
cidade  até  a  villa  do  Paraguay  Diamantino.— (Estes  traba- 
lhos foram  publicados  em  um  folheto  impresso  em  1825 
e  na  Revista  do  Instituto  Histórico  e  Geographico^  tomo  2**, 
3*  trimestre  de  1857.) 

Ao  major  d'Alincourt  nâo  faltava  zelo  nem  instrucção, 
ecolhem-se  dos  seus  escriptos  valiosas  informações.  Porém 
não  fez  observação  astronómica  alguma,  e  commetteu  er- 
ros na  designação  da  posição  gcographica  de  alguns  pontos 
importantes,  como,  v.  gr.,  nos  de  Miranda,  quecolloca  na 
latitude  de  20*»  50',  devendo  ser  de  20°  13'.  Comtudo  pu- 
dera o  major  Alincourt  ter  feito  notáveis  melhoramentos 
no  mappa  oíBcial,  especialmente  nas  partes  por  elle  explo- 
radas da  estrada  de  Goyaz,  do  districto  de  Miranda  e  do 
espaço  que  medêa  entre  a  cidade  de  Cuyabá  e  a  villa  do 
Diamantino,  bem  como  da  mencionada  nova  navegação  do 
Paranatinga,  e  é  de  admirar  que  os  não  fizesse,  tendo  sido, 
como  foi,  chefe  de  umacommissão  de  estatística  que  por 
algum  tempo  aqui  funcionou. 

Em  1S27  chegou  a  Cuyabá  uma  expedição  scientifica  que 
viajava  à  expensas  do  imperador  da  Rússia  e  tinha  por 
chefe  o  conselheiro  Jorge  Langsdorff.  Os  trabalhos  de  geo- 
graphia  mathematica  estiveram  a  cargo  de  um  ofllcial  da 
marinha  russa,  de  nome  RubzolT,  que,  segundo  sou  infor- 
mado, era  muito  diligente  e  applicado.  E*  de  lastimar  que 
os  seus  trabalhos  não  fossem  publicados,  e  talvez  se  perdes- 
sem. Talvez  se  pudesse  facilraentí3,  por  inlcrmedio  da  le- 
gação imperial  em  S.  Petersburgo,  obter  cópia  d'esses  tra- 
balhos, pois,  entre  outros  proveitos,  tiraríamos  d'elles  o  de 
obtermos  uma  carta,  que  nos  falta,  da  navegação  dos  rios 

TOMO  XXVIII,  p.  I.  19 


—  146  — 

Arinos,  Jurueina  e  Tapajoz,  por  onde  relirou-se  o  dito 
conselheiro,  tendo  vindo  i)ela  navegação  de  S.  Paulo. 

No  mesmo  anno  visitou  também  esta  provincia  o  alle- 
mão  Dr.  J.  Nelterer,  mas,  segundo  me  consta,  este  occu- 
pava-se  quasi  exclusivamente  de  historia  natural,  e  com 
especialidade  da  zoologia.  O  presidente,  o  finado  senador 
José  Saturnino  da  Costa  Pereira,  e  os  vice-presidentes  seus 
successores  mandaram  continuar  as  indagações  acerca  do 
varadouro  entre  o  Sucuriú  e  o  Pequeri,  tanto  por  terra 
como  navegando  os  ditos  rios. 

Afinal  reconheceu-se  que,  entre  os  pontos  até  onde  são 
navegáveis,  medca  um  espaço  muito  grande  e  cortado  por 
diversas  cabeceiras  do  Taquary,  que,  portanto,  não  convi- 
nha para  os  fins  que  se  tinham  em  vista. 

Porém  a  exploração  d'aquellas  paragens,  até  então  de- 
sertas, e  que  começaram  a  povoar-se  com  alguns  emigrantes 
vindos  de  Minas,  deu  lugar  a  intenlar-se  a  abertura  de  um 
caminho  terrestre,  que,  vindo  em  direitura  de  Cuyabà,  fosse 
atravessar  o  Paraná  e  entrar  na  provincia  de  S.  Paulo  pelo 
espigão,  entre  os  rios  Tietê  e  IWogiuassú.  A  picada  foi  defi- 
nitivamente aberta  em  1835.  E'  a  este  caminho  que  se 
chama  estrada  do  Pequeri. 

Em  1843  a  presidência  mandou  fazer  o  reconhecimento 
da  dita  estrada  e  indagar  os  meios  de  ligal-a  com  a  antiga 
estrada  de  Cuyabi  a  Goyaz.  Foi  incumbido  d'esta  diligen- 
cia o  Sr.  capitão  de  engenheiros  E  A.  de  Lassance,  que 
deu  conta  d'ella ;  mas,  sendo  mal  provido  do  necessário 
para  semelhante  expedição,  e  não  tendo  à  sua  disposição  ou- 
tros instrumentos  senão  um  máo  relógio  e  uma  mà  agulha, 
não  lhe  foi  possivel  fazer  trabalho  exacto.  Desde  1844  a 
1845  aqui  estiveram  o  conde  F.  de  Castelnau  e  seus  compa- 
nheiros, cujos  trabalhos  correm  impressos.  Pelo  mesmo 
tempo  o  Sr.  major  de  engenheiros  H.  de  Beaurepaire  Ro- 


—  147  — 

han  fez  interessantes  estudos  sobre  a  chorograpbia  e  esta- 
tística da  província. 

Não  foram,  que  me  conste,  publicados  e  nSo  ministram 
matéria  nova  pelo  que  diz  respeito  â  geographía  mera- 
mente mathematica. 

Em  1846  e  1847  também  aqui  esteve  o  Sr.  barão  Von 
Helmriechen,  que  se  occupava  principalmente  da  geogno- 
sia,  mineralogia  e  observações  magnéticas,  não  deixando 
comtudo  de  fazer  observações  astronómicas  importantes 
para  a  geograpbia.  Falleceu  no  Rio  de  Janeiro.  Não  sei 
queaí|estino  tiveram  seus  papeis;  é  provável  que  fossem 
remèttidos  para  Vienna.  Favoreceu-me  com  o  resumo  das 
observações  que  fez  para  determinar  a  latitude  e  longitude 
de  Cuyabá,  e  bem  assim  a  inclinação  e  declinação  da  agu- 
lha na  mesma  cidade  n'aquella  época. 

Nos  annos  de  1840  a  1850  o  Sr.  barão  de  Antonina 
mandou  fazer  diversas  explorações  na  parte  meridional  da 
província.  O  norte-americano  J.  EUiot,  que,  como  piloto, 
tomou  parte  n^ellas,  organisou  o  respectivo  mappa,  sem 
porém  soccorrer-se,  que  eu  saiba,  à  observações  astro- 
nómicas. "* 

Em  1853  o  Sr.  capitão  T.  J.  Page,  da  marinha  ameri- 
cana, veiu  com  o  vapor  Watenvitch,  enviado  pelo  gover- 
no dos  Estados-Unidos  para  explorar  as  aguas  do  valle  do 
Prata.  Não  passou  então  de  Corumbá  para  cima.  Publicou 
a  sua  viagem  em  1859.  Voltou  n'este  mesmo  anno  (de 
1^*59)  em  os  vapores  Argentina  e  Alpha,  e  com  este  ul- 
timo chegou  até  alguma  distancia  acima  da  confluência  do 
Paraguay  e  do  Sipotuba.  Reconhecia  também  a  parte  in- 
ferior do  S.  Lourenço  e  o  Cuyabà  até  esta  cidade.  Teve  a 
bondade  de  communicar-me  as  observações  que  fez  para  a 
determinação  da  latitude  e  longitude  de  diversos  pontos. 


—  148  - 

n'esta  ultima  expedição»  cuja  relação  não  me  consta  haver 
sido  publicada. 

De  1853  a  1856  foram  feitas  pelo  Sr.  tenente  da  arti- 
Iheria  F.  Nunes  da  Cunha  diversos  reconhecimentos  nas 
lagoas  Mandioré  e  Pamengos,  rio  Novo  e  bahia  Negra,  no 
chamado  rio  Branco,  e  ainda  no  districto  de  Miranda,  em 
procura  de  lugar  asado  para  se  fundar  n*elle  a  colónia  mi- 
litar dos  Dourados.  D*essas  explorações  foram  remettidas 
cópias  ao  governo.  Em  1857  e  1858,  os  membros  da  com- 
missão  de  engenharia  que  foi  então  creada  e  mais  alguns 
officiaes  escreveram  relações  da  viagem  que  fizeram  para 
esta  província.  ' 

Não  tenho  conhecimento  d'esses  escriptos,  à  excepção 
de  um  interessante  diário  de  viagem  da  província  do  Pa- 
raná para  Miranda,  pelo  Sr.  capitão  de  engenheiros  E.  C.  de 
Sousa  Pitanga.  Já  em  1855  o  Sr.  capitão  de  arlilheria 
J.  A.  Xavier  do  Valle  déra-me  cópia  de  uma  relação  da 
mesma  viagem  que  enviara  ao  Sr.  ministro  da  guerra. 

Em  algumas  excursões  que,  no  exercício  da  presidência, 
fez  em  1858  e  1859,  o  Sr.  conselheiro  de  Lamare  deter- 
mmou  por  observações  astronómicas  a  posição  de  Villa 
Maria,  Dourados,  Corumbá,  Coimbra  e  Miranda. 

Em  1862  o  Sr.  C.  B.  Bossi  tendo  feito  uma  viagem  d' esta 
cidade  até  15  ou  20  léguas  abaixo  da  confluência  do  rio 
Preto  com  o  Arinos,  observou  alturas  meridianas  do  sol 
que  lhe  deram  a  latitude  de  alguns  pontos  intermédios,  en- 
tre outros  da  villa  do  Diamantino. 

Concluindo  a  enumeração  dos  trabalhos  geographicos 
feitos  n*esta  província,  farei  menção  de  alguns  serviços 
meus. 

Em  1830  fiz  um  itinerário  da  navegação  fluvial  da  pro- 
víncia de  S.  Paulo  para  esta. 


-  149  - 

Em  1834  fiz  a  derrota  da  jornada  d'esta  cidade  á  de 
S.  Paulo,  passando  pela  de  Goyaz.  Cada  vez  que  me  foi 
possível,  e  em  qualquer  lugar  que  me  achasse,  observei  a 
altura  merídiana  do  sol  para  obter  a  latitude. 

Em  1837,  1844  e  1845  tive  occasião.  de' rever  a  dita 
derrota,  e  de  accrescentar-lhe  outras  feitas  pelas  provín- 
cias de  Goyaz,  Minas  e  Rio  de  Janeiro,  porém  não^pude 
fazer  novas  observações,  nem  rectificar  as  anteriores. 

De  1839  a  185G  fiz  muitas  viagens  pelos  rios  Paraguay, 
S.  Lourenço  e  Cuyabà,  e,  comquanto  a  maior  parte  d'ellas 
tivesse  outro  fim  que  não  o  da  exploração ,  nunca  deixei  de 
cuidar  da  derrota  e  de  fazer  as  possiveis  observações,  ao 
menos  de  latitude. 

Em  1847  e  1848  remetti  ao  governo  a  carta  do  Paraguay, 
desde  a  foz  do  Sipotuba  até  o  Paraná,  na  escala  de 
1:100000.  Parte  d'este  trabalho  foi  lithographado. 

Em  1849  acompanhei  o  presidente  em  uma  viagem  que 
fez  á  fronteira  de  Villa  Maria,  e  fiz  o  itinerário  de  Cuyabá 
ao  ponto  extremo  da  Concha  Grande,  cuja  latitude  determi- 
nei por  observações,  bem  como  a  de  outros  pontos. 

Em  1850  fiz  um  ligeiro  reconhecimento  do  rio  de  Mi- 
randa até  à  villa  d*este  nome,  mas  não  pude  fazer  observa- 
ções que  me  dessem  meio^de  corrigir  a  estima. 

Em  1859  explorei  o  rio  Cuyabà  da  cidade  para  cima,  até 
onde  é,  sem  maiores  inconvenientes,  navegável  por  canoas; 
e  com  este  trabalho  completei  e  remetti  ao  governo  o 
mappa  que  anteriormente  fizera  da  parte  inferior  do  mesmo 
rio,  e  do  de  S.  Lourenço  até  o  Paraguay.  Este  mappa  foi 
também  lithographado. 

Tendo  sido  pelo  governo  incumbido,  em  1844,  de  um 
trabalho  relativo  á  historia  da  demarcação  de  limites  n'esta 
provincia,  tive  occasião  de  folhear  os  livros  e  papeis  da  se- 


-  150  — 

crelaria  da  província,  e  de  passagem  tomei  notados  docu- 
mentos que  diziam  respeito  á  chorograpbia. 

Posteriormente  revi  mais  attentamcnte  esses  documen- 
tos, e  dos  principaes  tirei  cópias  ou  excerptos,  á  vista  dos 
quaes  escrevo  esta  memoria. 

Vou  emitlir  a  minha  humilde  opinião  acerca  do  que  é 
relativo  a  esta  província  nas  cartas  que  conheço  da  America 
Meridional,  do  Brasil,  e  da  mesma  província. 

De  todas  as  carias  que  foram  publicadas  até  o  fim  do  sé- 
culo passado,  e  ainda  muito  posteriormente,  a  que  chamo 
oiBcial  é  a  que  contém  maior  somma  de  dados  exactos,  dos 
quaes,  como  já  disse,  têm-se  aproveitado  os  cartographos 
nacionaes  e  estrangeiros. 

Vem  n'ella  bem  dcscriptos  os  rios  Madeira,  Mamoré, 
Guaporé  e  os  affluenles  d'este,  Paraguay,  rio  Verde,  Capi- 
vary.  Alegre  e  Barbados ;  parte  do  curso  do  Jaurú  e  todo  o 
do  Paraguay,  desde  a  Villa  Maria  até  a  Bahia  Negra,  e  todas 
as  aguas  que  communícam  com  o  mesmo  Paraguay  pelo 
lado  de  oeste  no  dito  intervallo.  Os  terrenos  a  sul  da  ci- 
dade de  Mato  Grosso,  e  a  oeste  do  caminho  que  vai  da 
mesma  cidade  à  Villa-Maria,  até  à  linha  divisória  com  Bo- 
lívia ;  os  rios  Taquary,  Coxim,  Camapuã,  Pardo  e  Paraná, 
desde  a  foz  do  rio  Pardo  até  á  do  Tielé ;  o  S.  Lourenço  e 
Cuyabá  até  esta  cidade,  e  o  caminho  da  mesma  para  a  de 
Mato  Grosso. 

Todo  o  restante,  que  não  foi  objecto  das  explorações  dos 
distinctos  engenheiros  e  astrónomos  da  partida  de  demar- 
cação de  limites,  é  notoriamente  defeituoso  ou  de  duvidosa 
exactidão. 

Releva  dizer  que  os  desenhadores  da  dita  carta,  talvez 
para  darem  idéa  da  inundação  que  se  manifesta  periodica- 
mente em  algumas  paragens,  exageraram  demasiadamente 


—  151  - 

a  largara  de  alguns  rios  em  relação  à  de  outros»  e  este  de- 
feito, reproduzido  pela  gravura  em  diversas  cartas,  entre  ás 
quaes  citarei  a  que  foi  publicada  pelo  Archivo  Militar  em 
1853,  dá  noções  muito  erradas  da  topographia  das  refe- 
ridas paragens.  Assim,  por  exemplo,  na  vizinhança  de 
Mato  Grosso,  vê-se  o  pequeno  riacho  Barbados  represen- 
tado com  uma  enorme  superfície  d' agua,  ao  passo  que  o 
principal  rio,  o  Guaporé,  está  figurado  por  um  tenuissimo 
risco.  O  rio  Cuyabà  está  desenhado  com  largura  vinte  vezes 
maior  qne  a  dos  l^orrudos  ou  S.  Lourenço,  sendo-lbe,  na 
realidade,  inferior,  tanto  em  largura  como  em  profundi- 
dade, e  dandO'Se  o  erro  de  ser  a  mesma  em  ambos  a  alaga- 
çao  produzida  pelas  aguas  trasbordadas. 

O  mesmo  nota-se  em  outras  paragens. 

A  carta  d'esta  provincia,  que  publicou  em  1850  W.  Wil- 
liers  de  Tile  Adam,  apresenta  muitos  e  graves  erros,  dos 
quaes  mencionarei  alguns. 

Vê-se  na  margem  esquerda  do  Paraguay  e  defronte  da 
lagoa  de  Uberava  uma  freguezia  de  Corumbá  que  alli  nunca 
existiu,  nem  outra  qualquer,  sendo  a  povoação  d'este  nome 
a  de  Albuquerque,  coUocada  na  mesma  carta,  como  deve 
ser,  na  margem  direita,  30  léguas  mais  abaixo. 

A  froguezia  do  Rosário  está   figurada  a    leste  quarta 

de    nordeste    da  villa   do  Diamantino,  devendo    ser   a 

sul,   um   pouco  para  oeste.   O  rio  Cuyabá  parece  não 

ter  sabida  para  outro  qualquer.  Do  S.  Lourenço  não  se  faz 

menção. 

Em  1856  voiu-me  ás  mãos  uma  cópia  do  mappa  do  Sr.  J. 
Elliot,  na  qual  o  terreno  a  sul  e  sueste  de  Miranda  está  figu- 
rado com  pormenores  que,  quando  sejam  bem  exactos,  dão 
melhor  idéa  da  topographia  d'aquellas  paragens  do  que  as 
cartas  até  então  existentes.  Aproveitei-me  do  dito  mappa 


—  152  - 

para  esboçar  o  que  então  remelti  para  o  uso  do  comman- 
dante  do  distríçto  militar  de  Miranda. 

.  Na  carta  doimperio,  organisada  pelo  finado  coronel Gonra- 
do  Jacob  de  Niemeyer,  reproduziram-se  erros  que  podiam 
ter  sido  corrigidos  no  mappa  official,  e  introduziram  ou- 
tros, V.  gr. :— Não  se  mencionam  villas  e  freguezias  creadas 
posteriormente  á  organisação  do  dito  mappa  official,  e  figu- 
ram-se  povoações  que  são  de  ha  muito  extinctas.  As  sete 
Lagoas  fontes  do  Paraguay  estão  collocadas  vinte  e  tanlas 
léguas  a  nornordeste  da  villa  do  Diamantino,  sendo  que 
existem  cinco  léguas  a  sul,  um  pouco  para  sudoeste.  O 
traço  da  estrada  de  Cuyabá  a  Goyaz  moslra-se  ser  ainda  o 
antigo  de  Luiz  de  Albuquerque.  Diversos  aflluentes  muito 
conhecidos  do  Cuyabá  e  do  alto  Paraguay  foram  omitlidos. 
Muitos  nomes  são  trocados  ou  alterados,  como  Muleques 
por  Mequens ;  Amambay  por  Samambaia,  etc,  A  carta  da 
parte  meridional  da  província,  publicada  em  1856  e  orga- 
nisada pelo  Sr.  conselheiro  Duarte  da  Ponte  Ribeiro  e  ca- 
pitão L  J.  Mendonça  de  Carvalho,  apresenta  algumas  cor- 
recções úteis  nas  fronteiras  Occidental  e  meridional ;  nada, 
porém,  se  melhorou  ou  innovou  no  interior  da  pi  ovincia. 
Igual  observação  me  occorre  fazer  a  respeito  do  mappa  or- 
ganisado  em  1860  pelo  Sr.  coronel  P.  A.  de  Sepúlveda 
Everard  e  outros  dois  Srs.  oíDciaes  de  engenheiros.  Repa- 
ro também  o  modo  por  que  está  figurado  o  relevo  do  ter- 
reno em  algumas  partes,  que  fal-o  parecer  mais  monta- 
nhoso do  que  é  na  realidade.  Noto  mais  que  o  Fecho  dos 
Morros  vem  designado  com  a  denominação  de  Fecho  de  Pe- 
dras ;  e  logo  abaixo  d*este  lugar,  no  chamado  Passo  do  Ta- 
rumã, vô-se  representado  na  margem  direita  do  Paraguay 
um  pequeno  monte,  que  existe  sobre  a  margem  esquerda. 
Ainda  não  pude  obter  o  atlas  da  obra  do  conde  de  Castelnau, 
mas  tenho  presente  uma  carta  lithographada  em  Gotha  em 


—  153  — 


185T  e  organisada  pelo  0r.  Petennon,  áegnndo  o  mesmo 
atlas.  Ha  nesta  carta  valiosas  correcções  a  outros  mappas, 
como  seja  na  estrada  de  Goyax  a  Cuyabá  e  as  origens  dos 
rios  Paraguay  e  Ari  nos»  e  suppontio  que  lambera  QO  dis- 
trieto  de  Miranda-  Porém  a  par  doestes  melhorameiílos 
deixarara-se  subsistir  conhecidos  erros  e  introduziram- 
se  outros  novos;  por  exemplo»  o  Sangrador  (  na  es- 
trada de  Goyaz)  parece  ser  o  mais  remoto  galbo  do 
rio  das  Mories,  sendo  que  a  verdadeira  cabeceira  does- 
te, o  rio  Manso,  está  figurado  com  dir*3Cção  a  norte  e 
eoroeste.  Os  riachos  Madeira  e  Agua  Branca,  que  desaguam 
no  Cuyabámirim,  estão  representados  muito  a  sul  da  sua 
verdadeira  posição.  O  mesmo  acontece  com  a  freguezia  de 
Santo  António»  collocada  abaixo  das  boccas  dos  Aricòs^ 
sendo  que  existe  acima  das  mesmas  boccas  e  distantes  ape* 
nas  cinco  lej^uas  d*esu  cidade.  O  curso  do  S,  Lourenço  e 
outros  rios  esiâ  mal  descripto.  Ha  baslaoles  nomes  troca- 
dos ou  alterados,  etc. 

Na  obra  publicada  pelo  Sr.  C.  B.  Bossi  em  1863  ha  um 
pequeno  mappa  em  que  vem  bem  delineado  o  itinerário 
que  seguiu  o  mesmo  senhor  de  Cuyabá  ao  rio  Ari  nos. 

Para  servir  como  de  complemento  a  esta  memoria,  orga- 
nisei  o  mappa  qae  a  acompanha  na  pequena  escala  de 
1,5l»0000,  no  qual  fiz  aos  mappas  acima  mencionados  ai- 
gumas  emendas  que  me  parecem  indispensáveis,  embora 
haja  ainda  muito  que  modíBcar  n'elles  para  que  se  appro- 
ximem  da  exactidão.  São  aliás  muito  incompletos. 

Tendo  por  único  fim  tornar  intetligivel  o  que  levo  dito  e 
o  que  me  resta  a  dizer,  omitli,  para  evitar  confusões^  o 
cursn  de  alguns  rios  de  secundaria  importância,  e  deixei  de 
figurar  o  relevo  do  terreno,  mesmo  nas  poucas  partes  onde 
me  fora  possível  fazúl-o  com  tal  ou  qual  exactidão, 
TOMO  xtvnif  p.  i.  SO 


—  154  — 

Finalmente  passo  a  indicar  quaes  são,  a  meu  ver,  aspa*^ 
ragens  cuja  exploração  é  mais  urgente  e  exequível.  O  ter- 
ritório immedialo  à  fronteira  a  sul  do  parallelo  de  ?0*. 

O  espaço  comprehendiílo  entre  os  parallclos  de  li''  i6* 
8  30"  e  os  meridianos  de  57* :  O*  e  <  O",  sendo  estes  a  par- 
te mais  povoada  e  cultivada  da  provi ncia. 

A  navegação  do  Paraguay,  da  foz  do  Sipotuba  para  cima, 
e  a  do  alto  S.  Lourenço  e  dos  seus  affluentes  Hiquere,  Cor- 
rentes ePequeri. 

Um  pequeno  espaço  da  fronteira  de  Villa  Maria,  entre  o 
Jaurú  e  Âguapehy,  o  lugar  das  antigas  Salinas  de  Almeida, 
e  a  Concha  Grande. 

O  caminho  de  SanVAnna  do  Paranaiva  ao  Pequeri  e  ao 
novo  estabelecimento  de  Coxim,  e  a  prolongação  do  mes- 
mo caminho  até  Cuyabà.  ' 

Os  terrenos  que  medêam  entre  Miranda  e  SanfAnna  do 
Paranaiva. 

O  espaço  comprehendido  entre  a  estrada  de  Goyaz  e  a 
supramencianada  de  SanrAnna  ao  Cuyabá. 

Esta  ultima  exploração  ha  de  ser  mais  custosa  qae  as 
antecedentes,  porque,  tendo  de  fazer-se  por  paragens  er- 
mas e  infestadas  por  indios  bravios,  não  poderá  dispensar 
o  acompanhamento  de  força  sufficienle  para  conter  os  mes- 
mos indios,  meios  de  transportes  para  maior  provisão  de 
viveres,  bagagens,  munições,  etc. 

Quanto  às  explorações  a  norte  do  parallelo  de  i5%  dão- 
se  em  maior  gráo  as  difiiculdades  que  acabo  de  apontar,  e 
parece  que  taes  expedições  devem  ficar  adiadas  para  época 
ainda  muito  distante.  Exceptuarei  todavia  a  navegação, 
que  não  tem  cessado  de  ser  praticada  pelos  rios  Arinos  e 


-  155  — 

Tapajoz,  navegação  que  tem,  relatiTamente  á  do  Madeira,  a 
vantagem  de  ser  mais  breve  e  feita  toda  dentro  do  nosso 
território. 

Segue  a  esta  memoria  uma  tahella  das  latitudes  e  longi- 
tudes de  diversos  lugares  dVsta  província,  que  foram  deter- 
minadas por  observações  astronómicas,  com  designação 
dos  observadores.  (*) 

Cuyabà,  2G  de  Janeiro  de  1  64. 

Augusto  Leverger. 
Conforme  —  Manoel  da  Cunha  Galvão. 


O  NAo  recebemos  o  roappa  nem  a  tabeliã  a  que  se  refere  o 
Sr.  Lcverger. 

(Nula 


DOCUMENTOS 

RELATIVOS  A  PRISÃO  DE  M.  I.  DA  SILVA  ALVARENGA»  MARIANNO 
J.  PEREIRA  DA  FO^XECA   E  OUTROS,  POR  ORDEM  DO 
CONDE  DE  REZENDE. 

(Copiados  do  Archivo  Publico.) 

Informação  do  desembargador  A.  Diniz  da  Cruz  e  Silva^ 
dirigido  ao  conde  de  Rezende. 

Illm.  e  Ex.  Sr.— Em  consequência  do  officio  que  V.  Ex. 
me  enviou  em  16  do  corrente,  lendo  com  toda  a  reflexão 
de  que  sou  capaz  o  outro  officio,  que  a  V.  Ex.  dirigiu  o 
Illm.  e  Ex.  Sr.  D.  Rodrigo  de  Sousa  Coutinho,  minis  ro  se- 
cretario de  estado  dos  negócios  ultramarinos,  passo  á  ex- 
por a  V.  Ex.  o  que  entendo  a  respeito  da  precisa  alternativa 
que  a  Y.Ex.  se  impõem  pelo  referido  officio,  ouderemetter 
os  presos  de  inconfidência  para  Lisboa,  ou  de  os  soltar  no 
caso  de  entender,  como  no  mesmo  officio  se  espera,  que  as 
suas  culpas  se  acham  sufficien temente  purgadas  com  o  dila- 
tado tempo  da  sua  prizão.  E  para  o  fazer  com  a  mais  clareza  t 
é  preciso  notar  que  contra  nenhum  dos  mesmos  presos  se  diz, 
ou  prova,  que  elles  entrassem  no  projecto  de  conspiração, 
sendo  toda  a  culpa  que  se  lhes  imputa,  e  que  contra  alguns 
se  prova,a  de  sustentarem  em  conversações,  ou  particulares 
ou  publicas :  Que  o  governo  das  republicas  deve  ser  prefe- 
rido ao  das  monarchias,  que  os  reis  são  uns  tyrannos  op- 
pressores  dos  vassallos,  e  outras  sempre  detestáveis,  e  pe- 
rigosas, principalmente  na  conjunctura  presente.  N'este 
prosupposto  me  persuado  pelo  que  pertence  aos  presos  Ma- 
noel Ignacio  professor  de  rhetorica,  medico  Jacintho,  e  Ma- 
rianno  José,  que  Y.  Ex.  os  deve  mandar  soltar,  sem  maior 
hesitação,  pois  que  contra  estes  não  ha  maior  prova  n 


i 


-  158  - 

devassa  que  o  dito  do  denunciante  José  Bernardo  da  Sil- 
veira Frade,  perguntado  n'ella  com  juramento,  e  sustentado 
com  o  mesmo  nas  acareações  que  com  as  referidas  provas 
se  fizeram,  ainda  que  com  alíjuma  moilificação  ;  e  as  pre- 
sumpções  e  argumentos  que  se  podem  tirar  e  fazer  dos 
juramentos  de  algumas  testemunhas  ;  alguma  tal  ou  qual 
contrariedade,  e  inverosimilhança,  que  se  encontra  nas  res- 
postas que  deram  ás  p'?rguntas  que  liies  foram  feitas,  especi- 
almente nas  do  mencionado  professor  de  rhetorica,e  a  de  se 
acharem  na  livraria  d* este  alguns  livros,  que  a  sã  politica 
detesta,  e  entre  elles  o  perniciosissimo  que  tem  por  titulo 
Direitos  do  Cidadão,  do  abbade  Mab!y,  que  o  mesmo  pro- 
fessor contra  toda  a  verosimilhança  negou  ter  lido.  Aceresce 
mais  o  achar-se  entre  os  seus  papeis  uma  oração,  em  que 
se  lê  que  fora  recitada  na  sua  aula  por  um  de  seus  alum- 
nos,  em  que  se  acham  as  proposições  seguintes  -. 

Que  nenhum  homem  deve  sujeitar  a  sua  liberdade  aos 
rigores  de  outro  homem  seu  semelhante  : 

Que  é  extraordinária  vileza  e  fraqueza  de  espirito  d'a- 
quelle  que  chega  a  submelter-se  inteiramente  ás  disposi- 
ções de  outro  homem,  devendo  considerar  que  o  mesmo 
que  pretende  opprimir  e  abater  não  recebeu  do  Creador 
uma  alma  mais  perfeita : 

Que  são  vis  e  fracos  os  que  vivem  encarcerados  em  te- 
nebrosos cárceres,  etc.  Presumpções  todas,  que  ainda  a 
serem  estes  réos  sentenciados  pelo  modo  regular,  me  pa- 
rece que  se  julgariam  purgados  com  os  incommodos  da 
sua  longa  e  fatal  prisão,  e  a  que  só,  talvez,  accrescentariam 
alguns  mais  escrupulosos  a  obrigação  de  sahirem  d*esle 
continente,  pois  que  pelas  mesmas  presumpções  se  fazem 
n'elle  suspeitosos. 

Pelo  que  respeita  a  outros  presos  João  Marques,  pro- 
fessor de  lingua  grega,  António  Gonçalves  dos  Santos, 


—  159  — 

Francisco  Coelho  Solano,  Francisco  António,  João  da  Sil- 
va Antunes  (contra  os  quaes  se  prova  que  não  só  em  con- 
versações particulares,  mas  em  lugares  públicos,  susten- 
tavam que  o  governo  democrático  era  melhor  que  o  mo- 
narchico,  que  louvavam  e  approvavam  a  instituição  da 
republica  franceza,  e  por  ella  mostravam  uma  desordenada 
paixão),  e  a  José  António  de  Almeida,  que  se  deu  e  con- 
fessou auctor  da  citada  oração,  negando,  porém,  conhecer 
o  veneno  que  ella  continha,  o  que  é  fácil  de  crer  •„  como 
também  o  não  ser  elle  o  auctor  da  oração  (ainda  que  o  con- 
trario tenazmente  sustentou,  sendo  perguntado),  pois  pelos 
seus  verdes  annos,  e  pelo  que  disse  seu  mestre  o  referido 
professor  Alvarenga,  nas  pe  guntis  quL^  a  este  respeito  se 
lhe  fiztíram,  elle  na  >  era  capaz  de  produzir  as  ditas  pro- 
posições por  si  só,  nem  de  as  exlrahir  de  algum  livro, 
principalmente  do  do  citado  Mably,  onde  as  mesmas,  com 
pouca  difTerençade  palavras,  se  encontram  :  pelo  que  res- 
peita, digo,  a  tí)dos  estes  presos :  eu  entraria  em  duvida, 
se;  lendo  uma  vez  e  outra  o  referido  officio,  me  não  per- 
suadira de  qu;3  as  piedosas  intenções  de  Sua  Magestade 
n'elle  insinu  idas,  eram  as  de  que  todos  os  presos  fossem 
soltos,  havendo  por  purgada  a  sua  culpa  com  o  longo  tem- 
po da  prisão.  Ao  menos  isto  é  o  que  me  parece  se  deve 
entender  das  palavras  do  m.»smo  oíBcio,— que  no  caso  que 
o  dito  Marianno  e  seus  companheiros  se  achem  ainda  pre- 
sos, e  das  outras,  mas  achando  V.  Ex.,  como  é  de  esperar, 
que  elles  estão  suílicientemente  castigados,  etc.,— sem  que 
em  contrario  se  possa  oppòr,  que  a  esperança  e  opinião 
de  Sua  iMagestade  era  esta,  por  não  saber  quaes  s  -jam  as 
culpas  d'esles  presos,  porquanto,  quando  V.  Ex.  deu  parle 
da  sua  prisão  á  mesma  senhora,  necessariamenie  a  havia 
de  informar  dos  motivos  d'ella.  Além  de  que,  achando-se 
na  corte  de  Lisboa  ao  tempo  que  se  expediu  o  relatado 


-  460  - 

ot&m  o  desembíirgador  João  Manoel  Guorreiro,  que  servia 
de  escrivão  na  devassa,  é  bem  verosimii  que  Sua  Mages- 
tiide  tomasse  d'elle  todas  as  informações  que  julgasse  ne- 
cessárias sobre  este  assumpto,  e  que  elle  as  daria  tíom  a 
inteireza  que  cumpria.  Pelo  que  me  parece  que  em  V.  Ex. 
mandar  soltar  os  ditos  presos  obra  mais  conforme  à  pie- 
dosa vontade  de  Sua  Magestpde. 

Ao  que  accresce  que,  segundo  a  crise  em  que  actual- 
mente se  acham  os  negócios  públicos  da  Europa,  me  pa- 
rece mais  prudente  e  útil  ao  serviço  de  >ua  Magestade 
escolher  antes  o  saltar  os  presos,  ainda  que,  contra  a  es- 
perança de  Sua Migestade,  não  estivessem  condignamente 
castigados,  do  que  expôl-os,  remeltendo-os  com  as  culpas 
a  serem  aprezadns  pelos  francezes,  e  a  virem  estes  no  co- 
nhecimento de  que  os  seus  abomináveis  principios  tém 
apaixonados  n'este  continente.  Sendo  certo  que  para  se  en- 
viarem com  mais  segurança,  seria  necessário  o  dilata- 
rem-sre  por  muito  mais  tempo  em  suas  prisões,  contra  a 
vontade  de  Sua  Magestade  tão  significantemente  declarada 
no  mesmo  níBcio. 

Este  é  o  meu  parecer,  do  qual  o  profundo  discerni- 
mento de  V.  Ex.  fará  o  uso  que  julgar  convém  melhor  às 
intenções  de  Sua  Magestade  e  seu  real  serviço. 

A  pessoa  de  V.  Ex.  guarde  Deus  muitos  annos,— Rio,  ISde 
Junho  de  1797. —Do  cliancellerda  relação.— iníonio  Diniz 
da  Cruz  e  Silva. 

Offkio  do  conde  de  Rezende  a  D.  Rodrigo  de  Sousa  Coutinho. 

Illm.  e  Exm.  Senhor.— Em  officio  datado  no  l*de  Fe- 
vereiro doeste  anno,  me  cerliíica  V.  Ex.  a  conlinu:ição  das 
queixas  que  por  parte  de  iMarianno  Jf  sé  Pereira  da  Fon- 
seca têm  chegado  à  presença  de  Sua  Magestade  sobre  a 


~  16!  — 

longa  prisão  que  elle  e  vários  outros,  que  se  julgaram  com- 
pliceâ  do  mesmo  delicio,  íèm  soffrido  n'esta  cidade,  coatra 
as  altas  e  reaes  intencííes  da  mesma  senhora,  que  foi  servida 
determinar  que,  no  caso  que  eu  entendesse  que  elles  se 
n3o  deviam  soltar,  os  remetlesse  para  essa  corte  com  os 
autos,  por  onde  conste  do  seu  crime,  ou  que,  achando»  como 
era  de  esperar,  que  elles  es  ta  vamsuflicien  temente  casti- 
gados com  a  prisão,  os  mandasse  pôr  em  sua  liberdade. 
E,  devendo  antes  de  Indo  beijar  mil  vezes  a  mão  a  Sua 
MigesLade,  pela  contemporisação  com  que  a  mesma  senhora 
mo  distingue,  deixando  a  minha  eleição  a  remessa  dos 
presos  para  Lisboa,  com  as  suas  culpas,  ou  absolvêl-os  das 
prisões  em  qae  se  achavam,  mandando-os  pôr  na  sua  li- 
berdade, escolhi  este  ultimo  partido,  por  ser  mais  con- 
forme à  humanidade»  que  visivelmente  resplandecia  no 
mesmo  oíEcio  que  V.  Ex,  me  dirigiu,  E,  para  que  V*  Es, 
fique  persuadido  das  causas  que  me  moveram  a  acautelar 
as  erradíssimas  máximas  que  os  referidos  preso?  tinham 
adoptado,  e  até  semeado,  pois  seria  impossível  que  al- 
gumas das  pessoas,  que  soíTreram  pela  minha  resolução  o 
severo  procedimento  de  os  mandar  prender,  discorressem 
em  assumptos  de  semelhante  porte  com  tanta  propriedade, 
relativamente  aos  objectos  dos  seus  malévolos  e  fantás- 
ticos sj  stemas :  remclto  a  V.  Ex.  o  parecer  do  desembar- 
gador cbanceller  d*esta  relação  e  ]uiz  da  devassa,  para  que 
Y.  Ex,  cabalmente  fique  instruído  das  minhas  bem  fundadas 
prcsumpções,  que,  fazendo-se  dignas  em  todo  o  tempo  de 
attenção,  muito  maior  mereciam  na  conjunctura  presente. 
Deus  guarde  a  V,  Ex.— Rio  de  Janeiro,  21  de  Julho  de 
11Q7.— Conde  de  Rezmde,— Sr.  D,  Eodrigo  de  Sousa  Cou- 
tinho. 


TOMO  xxvin,  p*  h 


21 


TYP.  Dfi  Pinheiro  &  coiip.,  ruà  sete  de  setembeo  ii.  165. 


REVISTA  TRIMENSAL 


DO 


INSTITUTO  HISTÓRICO 

GEOGRAPHICO,  E  ETHNOGRAPHICO  DO  BRASIL 


2»  TRIMESTRE  DE  1865 


NOVO  DESCOBRIMENTO 

DO  GRANDE   RIO  DAS  AMAZONAS 

,t  PELO 

PADRE  CnRISTOV.ÍO  DACUNA 

Religioso  da  Companliia  de  Jesus,  e  Censor  da  Supnina  Geral  Inqui- 
sição ao  qual  foi,  e  se  fez,  de  ordem  de  Sua  Afagestade,  no  anno 
de  1639,  pela  província  de  Quilo  nos  Reinos  do  Peru. 

Ao  Exm.  Sr.  Conde  Duque  de  Olivares.  Com  licenfa^  Em  Madrid,  na 

Impressão  do  Reino.  Aono  de  1641. 

'Traduzido  de  um  exemplar  hespanhol  Rio  de  Janeiro,  anno  1820.) 


ADVERTÊNCIA 

Havendo  lido  na  historia  geral  das  viagens,  assim  por 
mar  como  por  terra,  por  Mr.  Prévost,  na  dissertação  sobre 
o  rio  das  Amazonas  (paginas  20  da  edição  in-4")  a  seguinte 
passagem  relaliva  à  viagem  dos  padres  d'Acuna  e  d'Artieda 
sobre  aquoile  rio. —Foi  publicada  em  Madrid  com  licença  do 
rei,  immodialamenle  depois  que  alli  chegaram.  Comludo, 
razões  de  politica  fizeram  supprimir  a  edição,  e  consequen- 
TOMO  xxviii,  p.  I.  22 


—  164  — 

• 

temente  os  seus  exemplares  vieram  a  ser  tâo  raros,  que, 
no  tempo  de  Mr.  Gomberville,  apenas  eram  conhecidos 
dois,  o  do  referido  GombtTville,  c  o  que  estava  na  bibiio- 
theca  do  Vaticano.— Havendo  tido  grande  satisfação  em  en- 
contrarmos na  real  bibliotheca  d'esta  corte  dois  exempla- 
res, dos  quaes  um  eslá  inserido  nas  nolicias  iiisloricas  e 
militares  da  America,  desde  137G  até  1733,  colligidas  por 
Diogo  Barbosa  Maciíado,  abbade  da  igreja  de  S.  Adrião  de 
Sever,  e  académico  da  real  academia ;  e,  lirialmente,  jul- 
gando de  mui  grande  utilidade  que  lenha  a  maior  notorie- 
dade possivel  aquidld  viagem,  tão  interessante  em  todos  os 
sentidos  (como  facilmiíute  reconhecerão  (^s  seus  leitores), 
nos  apressámos  a  traduzil-a  lielmenle,  segundo  nos  per- 
mittissem  nossas  fracas  luzes,  e  com  o  maior  gosto  a  apre- 
sentamos ao  publico  instruído,  e  portaalo  indulgente. 

AO   EXM.    SK.    CONDE-DUQrK   DE  OLIVARES 

Aquém,  senhor, devemos  recorrer,  com  estií  novo  mundo 
descoberto,  senão  áquell»,  <iue  cm  seus  liombros,  para  alli- 
viar  os  de  seu  senhor,  goslosamenti»  susteniára,  se  pudesse, 
todo  o  restante  peso?  Qu:»  outro  Atlanie  não  se  prostrara 
com  semelhante  carga,  a  não  ser  aquille  mesmo,  que,  com 
animo  mais  que  varonil,  tem  i)osto  o  pi/ito  amaiorc^s  e  des- 
medidos pesos  ?  Quem,  por  mais  zelí)so  (jue  quizera  ser  do 
engrandecimento  do  seu  rei,  não  des  slira,  receiando  novas 
dilílculdadcs,  a  não  ser  aquelle  que,  quinto  maiores  mais 
as  appetece,  para  que  mais  luza  o  Stíu  amor,  mais  a  sua 
fidelidade  ?  E,  quem,  Dn  ilmente,  senão  o  Kxm.  Sr.  conde- 
duque,  poderá  melhor  patrocinar  tão  grandiosa  empreza, 
da  qual  depende  a  conversão  de  infinilas  almas,  o  engi  .a- 
decimenlo  da  real  coroa,  e  a  deH-sa  e  guarda  de  todos  os 
Ihesouros  do  Períi?  A  V.  Ex.,pois,olIereço  este  novo  desço- 


—  165  - 

brimento  do  grande  rio  das  Amazonas  (ao  qual,  por  ordem 
de  Sua  Magestade,  fui,  com  cuidado  averigueij^  e  com  toda 
a  exactidão  recopilei  em  poucas  folhas,  sendtf  aliás  digno 
de  grossos  volumes),  para  que,  por  tão  sublime  artifice, 
ajuntada  esta  pedra  preciosa  á  coroa  do  nosso  grande  rei 
Filippe  IV,  que  Deus  nos  guarde,  melhor  assente,  mais 
luza,-  e  para  sempre  permaneça.  Bem  pôde  V.  Ex,  aceitar 
o  offerecimento,  na  certeza  de  que  em  tudo  é  grande  e  mais 
í o  que  parece,  pois  que,  a  não  ser  assim,  nem  eu  o  offere- 
cêra,  nem  merecera  ser  aceiía  por  taes  mãos ;  porque,  se 
o  dilatado  império  da  Ethiopia  é  tão  famigerado  poroccu- 
par  a  sua  jurisdicção  em  um  espaço  de  novecentas  léguas; 
se  da  China  causa  admiração  a  grandeza,  por  conter,  em 
duas  mil  de  circuito,  quinze  differentes  reinos ;  e  se  a 
grande  extensão  que  do  Períi  se  publica,  é  de  mil  e  qui- 
nhentas léguas,  medidas  desde  o  novo  reino  de  Granada  alé 
á  extremidade  do  Chili ;  com  maior  razão  adquirirá  sobre- 
tudo o  descoberto,  o  titulo  de  grande  rio  das  Amazonas, 
por  quanto,  no  espaço  de  quasi  quatro  mil  léguas  de  con- 
torno, contém  mais  de  tento  e  cincoenta  nações  de  diffe- 
rentes linguas,  cada  uma  d'ellas  suíBciente  a  formar,  por  si 
só,  um  dilatado  reino,  e  todas  juntas,  um  novo  e  poderoso 
império,  o  qual,  favorecido  e  amparado  á  sombra  de 
V.  Ex.,  poderá  parecer  grande  aos  olhos  de  Sua  Magestade, 
a  cujos  pés,  e  aos  de  V.  Ex.  olTereço,  para  esta  conquista,  a 
minha  pessoa,  e  a  de  muitos  outros  da  minha  religião,  se 
de  nós  outros  se  quizer  servir  v.  Ex.,  cuja  vida  prospere  o 
céo  com  os  augmentos  que  a  sua  pessoa,  zelo  e  fidelidade 
merecem.  —  De  V.  Ex. ,  criado,— CArw/ovõo  (TAcunu. 


-  16C  - 

AO   LEITOR 

Nasceram,  curioso  leitor,  tão  irmanadas  nas  cousas  gran- 
des a  novidade  e  o  descrédito,  que  parecem  gémeas,  e  que, 
por  isso  mesmo  que  na  novidade  repara  ctlcntamento  a  ad- 
miração, periga  o  credito  no  assento  dos  mais  cordatos ;  e 
ainda  que,  na  verdade,  a  ellicacia  da  curiosidade  nos  in- 
clina a  saber  novidades,  a  incerteza  da  sua  exactidão  priva 
o  entendimento  do  maior  deleite,  de  que  indubitavelmenlb 
gozara,  se,  persuadido  da  sua  certeza,  depuzesse  toda  a 
perplexidade,  em  quanto  duvidoso.  Desejando,  pois,  CvEer 
notório  a  todos  o  novo  descobrimento  do  grande  rio  das 
Amazonas  (ao  qual,  de  ordem  de  Sua  Mageslade,  fui,  como 
adiante  verás],  e  receiando  de  que,  ainda  que  pela  novidade, 
seria  appetecido,  comtudo  não  deixaria  de  padecer  suspeita 
a  exactidão,  quiz  assogurar-te  uma  e  outra ;  a  primeira, 
com  prometter-te  novo  mundo,  novos  reinos,  novas  occa- 
pações,  nova  maneira  de  viver,  e  fínalmente  um  rio  d*agaa 
doce,  navegado  por  mais  de  mil  e  tresentas  léguas,  todo, 
desde  o  seu  nascimento  até  a  sua  foz,  cheio  de  novidades; 
a  segunda,  com  pòr-te  diante  dos  olhos  as  obrigações  da 
minha  pessoa,  como  religioso  da  companhia  de  Jesus,  como 
sacerdote,  como  legado  de  Sua  Magestade,  e  outras,  que 
nem  te  importa  sabêl-as,  nem  a  mim  dizèl-as ;  e,  se  apezar 
de  tudo,  te  persuadires  de  que  a  alTeição  ao  que  cuidadOM- 
mente  trabalhei  me  faz  ser  encarecido,  ouve  aquelles  que, 
não  sendo  de  nenhum  modo  suspeitos,  como  testemuntias 
juradas,  acreditam  esta  relação.  Vale. 

ATTESTAÇÃO    DO    CAPITÃO-MÓR    DOESTE  DESCOBRIMENTO   PEDRO 

TEIXEIR.V 

Pedro  Teixeira,  capitão-mór  actualmente  u*esta  capitania 


—  1G7  — 


do  Grâo>Paii  e  Cabo»  que  fui  da  gente  de  guerra  que  foi  ao 
descobrimento  du  Uio  das  Amazonas  {de  ida  e  volta)  até  á 
cidade  de  S.  Francisco  de  Quito,  nos  reinos  de  l*erú,  Cer- 
lifico  e  aHirnio  debaixo  de  juramento  sobre  os  Sinlos  Evan- 
gelhos, ser  verdade,  que,  por  ordem  de  Sua  Mageslade,  e 
por  particular  provisão  des]mchada  pela  real  audiência  de 
Quito,  veio  em  minha  companhia,  desdu  a  sobredita  cidatle 
até  à  do  Pará,  o  Bev.  padre  Christovãod'Acuíia,  religioso 
da  companhia  de  Jesus,  com  o  seu  com panli eiró  o  Kev*  pa- 
dre André  d*Artieda,  durante  a  qnaf  viagem  cumpriram  am- 
bos, no  que  íliz  respeito  ao  serviço  deSuaMageslade,âqae 
eram  mandados,  como  bons  e  fieis  vassallos,  níJtaniJo  e  ad- 
vertindo tudo  ij  necessário  para  darem  inteira  e  ex:icla  no- 
ticia do  dito  descobrimento,  à  qual  se  deve  dar  lodo  o  cre- 
dito, com  prerercncia  a  quaeíí quer  outras  dadas  pelos  que 
foram  a  este  descobrimento*  E  ao  que  diz  respeito  ás  obri- 
gações de  seu  habito,  e  ao  serviço  de  Deus,  cumpriram 
sempre,  como  costumam  os  da  sua  religião,  pregando»  con- 
fessando e  doutrinando  a  todos  os  do  exercito,  compondo- 
os  uas  suas  duvidas,  reconcÍ!iando-os  nas  suas  rixâs,  ani- 
mando-os  nos  sens  trabalhos  e  pacificando-o^  nas  suas  dis- 
senções»  como  verdadeiros  pais  de  lodos ;  passando  pelos 
meamos  incommodos  e  trabaílios  por  que  passavam  os  soli- 
dados, assim  na  comida,  como  em  tudo  o  mais.  E  iião  Sí>- 
menlo  fizeram  os  sobreditos  padres  esta  viagem  á sua  custa, 
sem  que  de  Sua  Magestade  recebessem  o  min  imo  soccorro, 
mas  Umliem  com  tudo  o  que  traziam,  assim  para  alimento 
como  para  remeílíos,  soccorrerarn  sempre  todos  os  necessi- 
tados com  a  maior  caridade  e  amor.  E  por  ser  verdade  tudo 
o  que  fica  declarado,  dei  estaattestaçâo,  por  mim  assigna- 
dâ,  e  sellada  com  o  sello  das  minhas  armas.  N'esta  cidade 
do  Tara,  a  3  de  Man^*  de  ItilO— 1>  aipitão-mòr,  Pedro 


—  468  — 

ATTESTAÇ.\0     1)0   REV.    PADRE   COMMISSARIO   DAS   MERCÊS 

Frei  Pedro  de  Rúa,  religioso  de  Nossa  Senhora  das  Mer- 
cês, commissario  geral  da  minha  ordem  nos  Estados  do  Ma- 
ranhão e  Pará.  Cerlilico  a  lodos,  os  que  a  presente  virem, 
que  os  Rovs.  padrus  Chrislovfio  d*Acana  e  André  d'Arlieda, 
seu  companheiro,  religiosos  da  companhia  de  Jesus,  vieram 
desde  â  província  de  (juilo,  na  companhia  da  armada  por- 
lugueza,  que,  de  volla  do  descobrim  nto  do  rio  das  Amazo- 
nas, desceu  por  elle  ale  á  cidade  do  Pará,  cosia  do  Brasi 
e  governo  do  Maranlião,  acudindo  sempre,  durante  a  via- 
gem, como  verdadeiros  fUhos  da  sua  religião,  confessando, 
pregando  e  consolando  a  todos  os  do  exercito,  e  valendo- 
Ihes  nas  suas  enfermidades  e  necessidades,  cumo  verdadei- 
ros pais  de  todos,  cumprindo  ao  mesmo  tempo  cora  o  que 
pela  real  audiência  de,  Quilo,  em  nome  de  Sua  Magestade, 
lhes  havia  sido  recommendado  relativamente  a  averigua- 
rem allenl:imente  as  cousas  mais  principais  do  dito  rio  das 
Amazonas;  averiguação  que  fi^z  o  sobredito  Ui*v.  padre 
Christovão  d'Acuna  com  o  maior  esnuM-o,  como  se  verá  da 
sua  relação,  á  qual  julgo  dever  ser  dado  lodo  o  crinlito  por 
ser  pessoa  (h?sinteress:ida,  e  que,  unicamrnle  levado  do 
serviço  de  Deus  e  do  rei,  (ínipn^liendeu  viagem  tão  traba- 
liiosa.  De  Indo  o  que  posso  dar  fé  como  leslrmunha  de 
vista,  pí)is  viemos  sempre  juntos.  K  por  ser  verdade,  dei 
esta  por  mim  assii^niarla,  e  selLula  com  o  sello  de  minha  re- 
ligião. lN'esla  cidade  do  Pará,  a  19  de  Março  de  íGVO.— 
O  commissario,  Frei  Pedro  de  Santa  Maria  e  da  Rúa. 

CLAUSULA  DA   PROVISÃO  UEAI,  QlE   DEU   A    AriUENOIA   DE   QUITO 
EM    NOME   DE   SUA    MAGESTaDI:   PARV    I'STK   DESCOBRIMENTO 

Em  conformidade  do  que  acordaram  os  ditos  meus  presi- 


-  469  - 

(lentes  e  ouvidores,  que  devia  niandar'dar  esta  minha  carta 
e  provisão  real,  a  vós,  e  a  cada  um  de  vós,  na  maneira 
acima  dita:  e  eu,  o  rei,  por  bem,  e  vos  mando  que,  sendo 
com   ella  requerido  pelos  sobreditos  padres  Christovão 
d^Acnfia  e  André  d^Arlicda,  religiosos  da  dita  religião  da 
companhia  de  Jesus,  ou  por  qualquer  d^elles,  vejais  os  au- 
tos a  esta  appensos,  e  cm  seu  cumprimento  lhes  dareis  e 
fareis  que  se  lhes  de  todo  o  breve  aviamento  e  boa  passa- 
gem,^que  houverem  mister  para  o  melhor  cumprimenlo  da 
sua  commissão,  viagem  e  bons  elTeilos,  que  d*ella  espero  ha- 
jam resultar,  sem  que  em  nada  lhes  seja  posto  estorvo,  nem 
impedimento  por  nenhuma  causa  ou  razão,  pois  do  contra- 
..rio  me  haverei  por  deservido.  E  rogo,  e  encarrego  a  vós  o 
dito  padre  Christovão  d*Acufia,  que,  em  cumprimento  do 
provido  pelos  ditos  meus  presidentes  e  ouvidores,  e  na  con-  • 
formidade  da  nomeação,  em  primeiro  lugar  em  vós,  feita 
pelo  vosso  prelado,  e  do  que  em  seu  requerimento  ofTere- 
ceu,  havendo- vos  sido  entregue  esta  minha  caria  por  parte 
do  dito  meu  fiscal,  vejais  o  que  n^ella  se  contém,  e  o  guar- 
deis, cumprais  e  execuleis;  e  am  seu  cumprimento,  par- 
tais d'esta  minha  corte  com  o  dito  vosso  companheiro  para 
a  dila  provinciado  Pará,  na  companhia  do  capitão-mór  Pe- 
dro Teixeira,  e  mais  gente  de  guerra,  que  com  elle  vai, 
tendo,  como  haveis  de  ter  sen4)re,  particular  cuidado  de 
descrever  com  a  maior  clareza,  que  vos  for  possível,  a  dis- 
tancia em  léguas,  as  províncias,  as  povoações  de  indios,  os 
rios  e  as  paragens  particulares,  que  ha  desde  o  primeiro 
embarque  até  a  dita  cidade,  e  porlo  do  Pará ;  informando- 
vos,  com  a  maior  certeza  que  vos  fór  possível,  de  ludo  o 
referido,  para  que,  como  testemunha  de  vista,  possais  dar 
exacta  noticia  no  meu  real  conselho,  afim  de  que  fique 
tendo  o  necessário  conhecimento  das  dilas  províncias: 
para  que  vos  mando  que  assim  o  façais,  comparecendo  pes- 


—   172  — 
3.* — EN*TRA  N'ESTE   RIO  O  TYRAXNO  LOPO  DE  AGUIRRE 

Yinlc  annos  depois,  isto  é,  no  anuo  loGO»  tornaram  a 
avirarem-sô  as  esperanças  com  a  entrada,  que,  por  ordem 
de  el-rei,  fez  do  Peru,  a  este  grande  rio,  o  genial  Pedro 
d'Orsúa,  abandonando-se  com  grosso  exercito  às  suas  aguas 
para  ser  testemunha  de  vista  das  grandez  ts  que  d*elle  se  pu- 
blicavam unicamente  por  noticias  ;  foi,  porém,  tão  infeliz 
que  foi  morto  atraiçoadamente  pi.'io  tyranno  Lopo  de  Aguir-- 
re,  o  qual,  lovantando-se,  não  só  cunio  general,  mas  lam- 
bem como  rei,  proseguiu  a  via^^em  começada  :  nio  permit> 
tiu  Deus  que  acertasse  com  a  principal  boca,  pela  qual  este 
grande  rio  desagua  no  oceano  ^  porque  desdourava  a  fldelí- 
dade  dos  hespanhoos  descobrir  um  tyranno,  cousa  de  tanta 
importância  ao  nosso  rei  e  senhor  ,  e  deixando-se  levardes 
braços  do  rio,  veiu  desembarcar  na  cost  j,  defronte  da  ilha 
da  Trindade,  na  terra  firme  das  Lidias  castelhanas,  aonde, 
por  ordem  de  Sua  Majestade,  lhe  foi  tirada  a  vida,  e  se- 
meado sal  no  terrenv»  das  suas  cas.;S,  como  aimla  hoje  allí 
se  reconhece. 

i." — INTtNrAM  OITKOS   ESTfc    DtSi.OKRIMENTO 

Os  mesmos  desoj»)S  do  desc  briuionlo  d'eslo  grande  rio 
obrigaram  o  sar^reiíl  )-:uôr  Vicenlo  d  ^s  R.ms  Vjlia-Lcbos, 
governador  o  capitã  >--:.Mieral  iks  naix>s,  jurislicção  da 
provincia  de  yuilo,  a  qu*  se  oiTer  .cesse  com  bons  partidos 
a  principial-o  por  aquMlas  part.s:  em  aijaciwiíormidade^ 
a  catholica  pessoa  do  noss»  irrando  r.i  Filippe  IV,  que  boje 
vive,  e  viva  felizes  ann^^s,  mandou,  -m  Iíí-2I,  um  decreto  à 
real  audiência  e  chai.cellaria  d  •  S.  Francisco  de  Quito  para 
que  se  estipulassem  as  a^nliçOes  qu.  mais  convenientes 
fossem  para  o  descobrimento  o  como  n'este  entretanto  o 


-  173  - 

dito  governador  acabou  o  seu  tempo,  não  poderam  ter 
effeilo,  assim  como  o  nâo  tiveram  os  ardentes  desejos  de 
Alonso  de  Miranda,  a  quem  succedeu  no  cargo,  por  lh'os 
haver  atalhado  a  morte,  a  qual  também  havia  atalhado  as 
brilhantes  expedições  em  que  o  general  José  de  ViUa-Maior 
Maldonado,  governador  muito  «'mies  que  os  dois  referidos, 
do  mesmo  governo  de  Quixos,  gastou  o  melhor  da  sua  vida, 
com  ardente  7êlo  de  sujeilar  à  Peus,  e  ao  rei,  asinnume- 
ravfis  nações,  que  confusas  noticias  publicavam  haver 
n'este  rio,pondo  em  execução,  por  muitas  differentes  partes, 
os  seus  desejos  com  não  pequenos  bons  successos. 

5. **— INTENTA  BENTO  MACIEL  ESTE' DESCOBRIMENTO 

Excitaram  estes  mesmos  desejos  não  somente  os  caste- 
lhanos pelas  partes  do  Períi,  mas  também,  estendendo-se 
ás  costas  do  Brasil,  habitadas  por  portnguezes,  quizeram 
estes,  levados  do  zelo,  que  sempre  têm  de  augmentarem  a 
coroa,  principiando  desde  a  boca  d'este  rio,  buscar-lhe  o 
seu  nascimento,  e  desentranhar-lhe  as  suas  grandezas, 
para  o  que  se  olToreceu  Bonto  Maciel  Parente,  capitão- mór, 
que  enlão  havia  sido  do  Pará,  e  é  presentemente  governa- 
dor do  Maranhão,  cm  cuja  conformidade  se  lhe  mandou, 
em  1(>2(},  um  real  decreto  para  que  principiasse  e  ultimasse 
seus  (lesignios,  os  quaes  cessaram,  em  consequência  de 
querer  Sua  Míigestade  servir- se  d'elle  na  gçerra  de  Per- 
nambuco. 

6.° — FRANCISCO   COELHO   É   MANDADO   FAZER   ESTA   ENTRADA 

Não  socegava  o  coração  do  nosso  grande  rei  emquanto 
não  visse  executada  a  empreza,  cujo  bom  êxito  tanto  era 
desejado,  e  muito  prometlia;  e  por  isso,  ainda  que  se  des- 


-  474  - 

vaneciam  todos  os  planos,  que  para  semelhante  fim  traçava 
a  humana  previdência,  jamais  deixava  de  insistir  no  princi- 
pal projecto :  nos  annos  1633  e  163&  mandou,  por  seu  real 
decreto,  a  Francisco  Coelho  de  Carvalho,  que  então  era  go- 
vernador do  Maranhão  e  Pará,  para  que  logo  se  fizesse 
aquelle  descobrimento,  com  expressa  ordem  de  que,  não 
havendo  a  quem  enviasse,  fosse  elle  mesmo  pessoalmente 
põl-o  em  execução;  tanto  Sua  Magestadc  desejava  que  se 
effectuasse  semelhante  empreza,  quo  por  todas  as  partes 
se  intentava,  e  por  nenhuma  chegava  a  devida  execução  I 
Porém,  também  n*esta  occasião  não  pôde  ter  clTeito,  por 
razão  de  não  se  julgar  o  governador  com  forças  sufficien- 
tes  para  as  poder  dividir,  visto  que  os  hollandezes  todos  os 
dias  infestavam  as  suas  costas,  e  elle  apenas  tinha  gente 
para  resistir-lhes :  não  é,  porém,  de  admirar  que  os  pro- 
jectos humanos  se  desvanecessem,  pois  que  Deus  havia  já 
disposto  a  maneira  como  milagrosa,  de  fazer-se  este  grande 
descobrimento,  que  foi,  como  aqui  direi. 

?.•— NAVEGAM  ESTE   RIO  DOIS   RELIGIOSOS  LEIGOS    DE 
S.  FRANCISCO 

Á  cidade  de  S.  Francisco  de  Quito,  que  é  uma  das  mais 
formosas  de  toda  a  America,  está  cdiricada  sobre  montes, 
no  mais  alto  da  cordilheira,  que  compõe  todo  aquelle  novo 
mundo,  não  bem  meio  gráo  ao  sul  da  linlia  equinocial ;  é 
capital  de  uma  provincia,  a  mais  fcrlil,  a  mais  abundante, 
a  mais  regalada,  e  a  de  climas  mais  temperados  que  ne- 
nhuma outra  do  Perú,c  que  a  todas  leva  vantagem  pela  mul- 
tidão de  seus  naturaes,  policia,  ensino  e  christandade  dos 
mesmos.  D*esta  cidade,  pois  (nos  annos  1G35  e  1636,  e 
principio  de  I637),sahiram  uns  religiosos  deS.  Francisco, 
de  ordem  de  seus  superiores,  em  companhia  do  capitão 


-  475  - 

João  de  Palácios  e  seus  soldados ;  para  proseguirem  estes, 
em  quanto  ao  temporal,  e  aquelles  em  quanto  ao  espiritual, 
o  descobrimento  d  í^4e  rio,  que  havia  mais  de  trinta  annos 
tinha  já  sido  principiado  pelos  padres  da  companhia  de  Je- 
sus pelos  cófanes,  cujos  naturaes  mataram  cruelmente  o 
padre  Raphael  Ferrer,  em  paga  da  doutrina  que  lhes  ensi- 
nava :  chegando,  pois,  os  ditos  religiosos  de  S.  Francisco  á 
provincia  dos  Encabeilados,  muito  povoada  de  gente,  po- 
rém muito  limitada  para  o  ardente  zelo,  com  o  qual  csles 
servos  de  Deus,  como  sempre  costumam,  a  pretendiam  re- 
duzir ao  grémio  da  igreja,  alli  permaneceram  por  alguns 
mezes  entre  os  naturaes,  e  vendo  o  tempo  que  perdiam,  e 
que  ainda  não  tinha  sasonado  a  seara  de  Deus,  regressaram 
uns  ao  seu  convento  de  Quito,  e  outros  ficaram  na  compa- 
nhia dos  poucos  soldados  que  alli  quizeram  conservar-se  ao 
lado  do  seu  capitão,  que,  passados  poucos  dias,  viram  com 
os  seus  próprios  olhos,  morto  às  mãos  d'aquelle  a  quem 
iam  fazer  tanto  bem:  portanto  foi-lhes  forçoso  desamparar 
a  terra,  e  dirigindo  todos  a  sua  viagem  á  Quilo,  somente 
dois  religiosos  leigos  (Frei  Domingos  de  Bricoa  e  Frei  André 
de  Toledo)  juntamente  com  seis  soldados,  se  embarcaram 
em  uma  pequena  embarcação,  e  n'elia  se  deixaram  levar 
pela  corrente  do  rio,  segundo  o  que  se  pôde  imaginar,  uni- 
camente levados  do  divino  impulso,  que  de  tão  fracos  ins- 
trumentos havia  scrvir-se  para  o  primeiro  descobrimento 
d'esle  rio. 

8/-- CHEGAM   os   DOIS  RELIGIOSOS  AO   MARANHÃO 

Favoreceu  Deus  os  intentos  d'estes  dois  religiosos,  e,  de- 
pois de  muitos  dias  de  navegarão,  durante  osquaes  visivel- 
mente experimentaram  a  Divina  Providencia,  chegaram  à 
cidade  do  Pará,  pertencente  aos  portuguczes  e  situada 


-  476  .- 

quarenta  loguas  de  distancia  da  desembocadura  d*este  rio 
no  ocoaiio,  jurisílicção  íId  governo  do  Maranhão,  liavendo 
passado  sem  dumno  algum  por  inimensas  províncias  de  bár- 
baros idas  qu:u'S  muilíis  d»^  oaribcs,  que  comem  carne  hu- 
mana), c  reci*hendo  d'ollos  os  m^cossarios  mantimentos 
para  ultimariam  o  sou  projecto.  Passaram  immedialamente 
à  cidade  de  S.  Luiz  do  Maranlião,  onde  o  governador  resi- 
dia, e  era  então  Jacome  Raymnndo  de  Noronha,  eleito,  na 
minha  opinião,  mais  pela  Divina  Providencia  do  que  pela 
voz  do  povo,  pois  quíí  nenhum  outro  acabara  com  tantas 
difliculdades,  nem  se  oppuzéra  a  tão  conlrarins  pareceres, 
a  nã)  tor  o  mesmo  zõIo  e  obrigações,  que  elh-  linha,  de 
servir  df^sinteressadamente  n'ostc  descobrimento  ao  seu 
Deus  e  ao  seu  rei.  A  clle,  pois,  deram  os  dois  religiosos 
nolicÂa  da  sua  viagem, porém,  como  pessoas  que  vinham  fu- 
gindo todos  os  dias  á  more,  e,  pnrlanlo,  o  maisqutí  pude- 
ram aflirmar  foi  que  ^inham  d(i  Pará,  que  haviam  visto 
muitos  Índios,  e  que  estavam  prom;'tos  a  regressarem  pela 
mesma  parte  por 'onde  haviam  descido,  havendo  quem 
quizí  sse  seguir  aquella  mesma  ilerrola. 

9." — i':  No.Mr.vDo  paka  al»kli.a  r.o>\nisiA  íí:!»ko  tkixeir.v 

O-nfuso,  ficava  o  nu?so  deseifbrimeulo,  e  mal  poderia 
Sua  Magi  sláiie  resi.lver  soÍT' o  qwr  eonviídía  ao  sm  real 
serviço,  Sií  o  govtMMiador,  eoino  aciíiia  dissi*,  não  tomasse  a 
peilo  aclariir  eslús  sombras,  e,  contra  o  parecer  de  lodos, 
mandar  gente  pelo  rio  acima  ale  acidado  di»  Ouito,  orde- 
nando que  com  maior  atleiição  -puis,  sem  tants  receios) 
nolassem  ludo  o  que  n\'lle  acliassi'm  digno  de  advertên- 
cia :  para  esta  empreza  nomeou  i)or  cabo  de  todfs  a  Pedro 
Teixeira,  capitão,  por  ^-ua  Mageslade,  e  dos  descobri- 
menlos,  |»essoa  a  quem  o  cé»-,  sem  duvida,  para  isso  havia 


-  177  - 

escolhido,  porquanto  somente  a  sua  prudência  o  os  seus 
conhecimentos,  puderam  acabar  o  que  elle  trabalhou,  e  fez 
em  serviço  de  Sua  Magestade,  n*esta  expedição,  não  só  gas- 
tando e  perdendo  a  sua  fazenda,  mas  também  a  sua  saúde; 
se  bem  que  nada  d*isto  era  novo  em  quem,  durante  tantos 
annos,  que  serve  a  Sua  Magestade  nunca  tem  grangeado  ou- 
tros interesses  que  o  dar  honrada  conta  de  tudo  o  que  se 
lhe  tem  encarregado,  que  tem  sido  muito,  e  em  occasiões 
de  não  pouca  importância. 

10.**— TRINCIPIA   A   SUA   VIAGEM   PEDRO  TEIXEIRA 

Sahiu,  pois,  este  bom  capitão  dos  confins  do  Pará  a  28 
de  Outubro  do  anno  de  l()37,  com  quarenta  e  seto  canoas 
de  bom  porle  (embarcações  de  que  adiante  se  fallarà)  e 
n'ellas  seteiiía  soldados  porluguezes  e  mil  e  duzentos  índios 
de  voga  e  guerra,  e  contando  as  mulheres  e  rapazos  de  ser- 
viço, eram  mais  de  duis  mil  pisoas.  Durou  a  viagem  quasi 
um  anno,  não  só  pela  força  da  corrente,  como  também  pelo 
tempo,  que  era  indispensável  gastar  em  fazer  mantimentos 
para  tão  numeroso  exercito,  e  mui  principalmente  por  ca- 
minharem sem  guias  intelligentes  que  os  pudessem  dirigir, 
sem  rodeios,  nem  demoras,  pelos  rumos  mais  directos, 
pelos  qu.ies  deviam  proseguir.  Como  o  caminho  era  tão 
compri<!o,  e  se  passavam  grandes  incommodos,  principia- 
ram os  Índios  amigos  a  demonslrarem  i»ouca  vontade  de 
n*elle  proseguirem,  e  de  facto  alguns  regressaram  para  suas 
terras ;  por  isso  o  capitão-mór,  receiando  que  todos  tomas- 
sem a  mesma  deliberação,  usou  de  estratagema,  visto  que 
o  rigor  e  a  força  não  bastavam  a  cons  Tvar  os  que  estavam 
Yjcillando,  c,  ainda  que  apenas  estavam  a  meio  caminho, 
fingiu  estarem  mui  próximos  ao  termo,  e  apromplaiido 
oito  canoas  bem  guarnecidas  de  vogas  e  de  soldados,  as 


-  478  — 

mandou  passar  avante,  como  para  aposentadoras  do  res- 
tante do  exercito ;  e  na  verdade  eram  somente  exploradoras 
do  melhor  caminho,  e  incertas  no  verdadeiro,  muitas  vezes 
se  enganaram. 

44.°  —  ADIANTA-SE   0   CORONEL   BENTO   RODRIGUES  D^OLIVEIRA 

Nomeou  Pedro  Teixeira  para  cabo  d'esta  vanguarda  o  co- 
ronel Bento  Rodrigues  d'Oliveira,  filho  do  Brasil,  e  que, 
como  criado  toda  a  sua  vida  entre  os  naturaes,  lhes  conhece 
os  pensamentos,  e  por  pequenos  signaes  advinha  o  que 
intentam  fazer,  e  por  isso  é  conhecido,  temido  e  respeitado 
de  todos  os  indios  d'aquellas  conquistas,  e  n'esle  descobri- 
mento foi  muito  útil  a  sua  pessoa  para  o  ullimar  com  a  fe- 
licidade com  que  foi  feito.  O  referido  coronel,  depois  de 
vencer  muitas  e  grandes  diíBculdades,  chegou  com  a  sua 
esquadra  no  dia  de  S.  João,  a  24  de  Junho  de  4638,  ao 
porto  de  Payamina,  a  pri|fieira  potoação  de  castelhanos, 
que  por  aquellas  partes  fica  mais  próxima  ás  margens 
d'este  grande  rio,  e  é  sujeita  à  província  dos  Quixos,  júris- 
dicção  de  Quilo ;  porém,  se  a  armada  houvesse  seguido 
pelo  rio  Napo  (do  qual  adiante  se  fará  menção),  houvera 
tido  melhores  portos,  mais  abundantes  provimentos  de  vi- 
veres, e  menores  perdas,  não  somente  de  indios,  como 
também  de  fazendas, 

12.*— DEIXA   o   CAPITÀO-MÓR   0   EXERCITO   NOS   ENCABELLADOS 

O  capilão-mór  ia  seguindo  sempre  os  rastos  e  avisos  que 
lhe  deixava  nos  pousos  o  seu  coronel,  e  d*esla  maneira  ani- 
mados todos  os  dias,  pensavam  que  o  seguinte  seria  o  ul- 
timo da  viagem.  Alentados  com  estas  esperanças  chrgaram 
a  um  rio,  que  sahe  da  provincia  dos  Encabellados  (dos  que 
já  falíamos),  que  em  outro  tempo  haviam  sido  de  paz,  po- 


-  179  - 

rém,  então  rebeldes,  em  razão  da  morte  do  capitão  Palá- 
cios :  pareceu  aquelle  sitio  aprazivel  e  próprio  paraalli  ficar 
estacionada  a  principal  força  do  exercito,  e,  por  isso,  no- 
meando capitão  e  cabo  de  todos  a  Pedro  d' Acosta  Favella, 
o  deixou  alii  ficar,  e  igualmente  o  capitão  Pedro  Bayão, 
ambos  com  as  suas  respectivas  companhias,  ordenando-lhes 
que  alli  permanecessem  a  pé  firme;  o  que  ambos  pontual- 
mente cumpriram,  mostrando  o  valor  com  que  tantos  annos 
haviam  exercitado  as  armas,  a  fidelidade  com  que  obedeciam 
á  risca  as  ordens  dos  seus  superiores,  porquanto  alli  firme- 
mente se  conservaram  onze  mezes,  sem  nunca  intentarem 
fazer  a  minima  mudança,  apezar  de  ser  a  terra  doentia,  e 
não  terem  nenhuns  mantimentos,  sendo-lhes  forçoso  bus- 
cal-os  com  as  armas  na  mão,  e  assim  mesmo  tão  escassos, 
que  apenas  eram  sufBcientes  a  alimentarem-se.  Bem  sabia 
o  capitão-mór  quem  deixava  em  semelhantes  riscos,  e  que 
só  a  morte  os  poderia  apartar  do  pontual  cumprimento  das 
suas  ordens ! 

13.'— CHEGA  o   CAPlTÃO-MÓR   A   QUITO 

Descançado,  pois,  com  aquella  certeza,  proseguiu  Pedro 
Teixeira  com  poucos  companheiros  no  seguimento  do  seu 
coronel,  a  quem  achou  ji,  havia  dias,  na  cidade  de  Quito, 
aonde  foram  bem  recebidos  e  agasalhados,  assim  pelos  se- 
culares como  pelos  ecclesiasticos,  demonstrando  todos  o 
prazer  que  tinham  de  vêr  em  seus  tempos,  e  por  vassállos 
de  Sua  Magestade,  não  somente  descoberto,  mas  também 
navegado,  o  afamado  rio  das  Amazonas,  desde  a  sua  foz  até 
ás  suas  cabeceiras.  Não  tiveram  menor  parte  cm  tão  justo 
regosijo  todas  as  religiões  d^aquella  cidade,  que  são 
muitas,  e  de  bastante  utilidade,  olferecendo-se  á  porfia  com 
obreiros  fieis,  que,  desde  logo,  entrassem  a  trabalhar  na 
TOMO  xxviii,  P.  1.  24 


-  1«0  -  s 

gvftode  e  inculta  vinha  dos  ionumeraveis  bárbaros,  de  qnc 
lhes  davam  noticias  os  novos  descobridores. 

li.*"— RESOLUÇÃO  DO  VlCE-EEi  DO  PERU* 

Recebida  n'aquella  aadiencia  de  Quito  a  participação 
competente  pela  qual  se  Tazia  pleno  conceito  do  muito  que 
importava  à  Magestade  Divina  e  humana  que  com  a  maior 
promptidSo  se  despachasse  negocio  tão  grave ;  nada  se 
atreveram  a  resolver  os  Srs.  presidente  e  ouvidores  da  dita 
audiência  sem  que  primeiramente  fizessem  a  respectiva 
participação  ao  vice-rei  do  Peru,  que  então  era  o  conde 
jde  ChinchOD,  o  qual,  depois  de  haver  consultado  toda  a  gen- 
te mais  pratica  da  cidade  de  Lima,  corte  d'aquelle  novo 
mundo,  resolveu  por  carta  sua  ao  presidente  de  Quito 
(q»e  então  era  o  licenciado  D.  Alonso  Peres  de  Salazar)  da- 
tada de  10  de  Novembro  de  1638,  que  o  capitão-mór  Pedro 
Teixeira,  com  toda  a  sua  gente,  regressasse  immediata- 
mente  pelo  mesmo  caminho  por  onde  haviasubido  à  cidade 
do  Parâ,dando-se-lhes  todo  o  necessário  para  a  sua  viagem, 
em  razão  da  falta  que  tão  bravos  capitães  e  soldados  indu- 
bitavelmente fariam  n'aquellas  fronteiras,  tão  infestadas 
dos  inimigos  hoUandczes;  ordenando  outrosimque,  se  pos- 
sível fora,  de  tal  sorte  se  dispuzessem  as  cousas,  que  em 
sua  companhia  fossem  duas  pessoas  taes,  que  a  ellas  a  coroa 
de  Castella  pudesse  dar  credito  de  tudo  alé  alli  descoberto, 
e  do  mais  que  se  fosse  descobrindo  durante  o  regresso 
para  o  Pará. 

IS.**— o  GENBRAL  D.  JOIO  d'acuNA  SE  OFFERECE  PARA 
A   VIAGEM 

Em  confusão  pôz  a  lodos  a  execução  d'esta  ultima  ordem 


-  184  - 

do  vice-rei,  em  razão  dos  muitos  inconvenientes  que  & 
primeira  vista  apresentava,  se  bem  que  não  faltavam  secu- 
lares zelosos  do  serviço  de  Sua  Magestade»  cada  um  dos 
quaes,  pondo  tudo  de  parle,  desejava  ser  dos  nomeados 
para  tão  grande  empreza ;  porém,  entre  todos,  o  que  se 
mostrou  mais  desejoso  de  novas  occasiões  em  que  pudesse 
empregar-se  no  serviço  do  seu  rei  (o  que  havia  feito  por 
mais  de  trinta  annos,  o  os  seus  antepassados  por  toda»  a 
vida],  foi  D.  João  Vasques  d'Àcuna,  cavalleiro  da  ordem  de 
Calatrava,  tenente  do  capitão-general,  vice-rei  do  Peru,  e 
corregedor  actualmente,  por  Sua  Magestade  dos  hespa- 
nhões  e  dos  naturaes  na  mesma  cidade  de  Quito  e  respec- 
tiva comarca,  offerecendo,  não  somente  a  sua  pessoa,  mas 
também  toda  a  sua  fazenda,  para  á  sua  custa  alistar  gente, 
pagar  soldos,  comprar  mantimentos,  preparar  petrechos  e 
fazer  todas  as  despezas  necessárias  para  tão  comprida  via- 
gem. Os  seus  bons  desejos  não  tiveram  effeito,  em  razão  de 
lhe  não  dar  licença  quem  lh'a  podia  dar,  que,  attendendo 
á  falta  que  poderia  fazer,  deixando  o  oilicio  que  ac- 
tualmente exercia;  porém  não  quiz  que  de  todo  ficas- 
sem frustrados  tão  bons  desejos,  e  do  tal  sorte  dis- 
põz  as  cous:^s,  que,  em  seu  lugar,  foi  seu  irmão,  o  padre 
Christovão  d'Acuha,  religioso  da  companhia  de  iesus, 
havendo  consequentemente  a  grande  fortuna  de  por 
este  meio  ofTerecer  ao  serviço  de  Sua  Magestade  pessoa 
que  tanto  estimava,  e  tão  de  perto  lhe  tocava ;  o  que  succe^ 
deu  da  maneira  seguinte : 


16.''— NOMEIA  A  EEAL  AUDIENCU  CHRISTOVÃO  d'aCUNA  PARA 
ESTA  VIAGEM 

Vendo  o  licenciado  Soares  de  Poago,  fiscal  da  real  chan- 


—  184  — 

de  tanta  imporlancia  ninguém  acredite  mais  do  que  o  que 
n'esta  relação  se  aflirma. 

48.°— o   RIO   DÁS  AMAZONAS   K   O   MAIOR   DO  ORBE 

E'  o  famoso  rio  das  Amazonas,  que  corre  c  banha  as 
mais  ricas,  as  mais  férteis  e  as  mais  povoadas  terras  de  todo 
o  império  do  Períi,  o  rio,  que  de  lioje  em  diante,  podemos, 
sem  hyperbole,  julgar  ser  o  maior  e  o  mais  celebre  de  todo 
o  orbe,  porque  se  o  Ganges  rega  toda  a  índia,  e  por  cauda- 
loso escurece  o  mar  quando  n*elle  desagua,  fazendo-lhe 
perder  o  nome,  chamando-o  sino  gangetico,  por  ou- 
tro nome,  golpho  de  Bengala  ;  se  o  Euphrates,  como  rio 
afamado  da  Syria  e  de  parte  da  Pérsia,  é  as  delicias 
d'aquelles  reinos ;  se  o  Nilo  rega  o  melhor  da  Africa,  fe- 
cundando-a  com  as  suas  correntes ;  o  rio  das  Ama- 
zonas rega  reinos  mais  dilatados,  fecunda  mais  vargens  e 
campos,  sustenta  mais  homens,  e  augmenta  com  as  suas 
aguas  a  mi^  caudalosos  oceanos,  e  somente  lhe  falta,  para 
os  vencer  em  felicidade,  ter  a  sua  origem  no  paraíso,  como 
d'aquelles  affirmam  graves  auctores.  Do  Ganges  dizem  as 
historias  que  n*elle  desaguam  trinta  caudalosos  rios,  e  que 
nas  suas  praias  se  vêm  aròas  de  ouro  :  innumeraveis  rios 
desaguam  no  do  Amazonas,  tem  arêas  de  ouro,  e  rega  ter- 
ras, que  em  si  encerram  infinitas  riquezas.  O  Euphrates  é 
assim  chamado,  como  notou  Santo  Ambrósio,  o  —  Laetifi- 
cando  — ,  porque  com  as  suas  correntes  alegra  os  campos, 
de  sorte  que,  regando-os  em  um  qualquer  anno,  no  se- 
guinte dão  abundantíssimas  colheitas:  do  Amazonas  se 
pôde  afoitamente  aHlrmar  que  as  suas  margens  são  na  ferti- 
lidade  paraisos,  e,  se  a  arte  ajuda  a  fecundidade  do  terreno, 
serií  todo  elle  um  aprazível  jardim.  A  felicidade  da  terra 
que  rega  o  Nilo,  celebrou  Lucano  n*estes  versos  : 


_  186  — 

Terra  suis  contenta  bonis,  non  indiga  mercie» 
Aut  Jovis ;  in  solo,  tanta  est  fíducia  Nilo. 

Não  carecem  as  proviDcias  visinhas  ao  rio  das  Amazonas 
dos  bens  estranhos,  sendo  o  rio  abundante  de  pescado,  os 
montes  de  caça,  os  ares  de  aves,  as  arvores  de  fratas,  os 
campos  de  messes,  a  terra  de  minas,  e^s  naturaes,  que  o 
habitam,  de  grande  habilidade,  e  engenhos  agudos  para 
tado  o  que  lhes  convêm;  o  que  iremos  vendo  no  decurso 
d'esta  historia. 

i9.° — NASCIMENTO  DO   RIO  DAS  AMAZONAS 

Dando,  pois,  principio  a  ella  pelo  nascimento  e  origem 
d'este  grande  rio  das  Amazonas,  até  agora  sempre  occulto, 
querendo  todas  as  terras  fazerem-se  mãi  de  um  tal  filho, 
attríbuindo  às  suas  entranhas  os  primeiros  assentos  que  lhe 
dão  o  ser,  nomeando-o  rio  do  Maranhão,  erro  tão  vulgar 
n'aquellas  parles,  que  a  cidade  dos  Reis,  empório  de  todas 
as  da  America,  se  gloria  de  que  as  cordilheiras  de  Guanuco 
dos  Cavalleiros,  em  distancia  de  setenta  léguas,  dão  o  berço 
a  este  afamado  rio,  e  cortam  os  primeiros  ramos  de  uma 
lagoa,  que  alli  está ;  e,  certamente,  posto  que  esta  não 
seja  a  sua  verdadeira,  pelo  menos  é  origem  de  um  dos  mais 
famosos  que  aquelle  rio  das'  Amazonas  converte  em  sua 
própria  substancia,  e  desde  então,  alimentado  com  suas 
aguas,  segue  mais  brioso  o  seu  curso.  Pretende  também  o 
reino  de  Granada  augmentar  a  sua  reputação,  attríbuindo 
às  vertentes  de  Mocôa  o  primeiro  nascimento  d'este  rio,  do 
qual,  na  sua  origem,  os  naturaes  dão  o  nome  de  Grão-Ca- 
qoetà,  se  bem  sem  fundamento,  pois  que  por  mais  de  sete- 
centas léguas  não  vêm  as  caras  estes  dois  rios,  e,  quando 
se  encontram,  reconhecendo  o  seu  chefe,  ou  superior,  e 
torcendo  o  Caquetá  o  seu  curso  paga  vassallagem  ao  Ama^ 


—  i86  — 

zonas :  por  outrâs  muitas  partes  quer  o  Peru  vangloriar-se 
pelo  principio  e  nascimento  (1'este  grande  rio,  celebran- 
do-o  e  acclamando-o  como  o  rei  dos  outros.  De  hoje  em 
diante  não  o  permitlirá  a  cidade  de  S.  Francisco  de  Quito, 
pois  que  a  oito  léguas  do  seu  local  tem  encerrado  este  the- 
souro  as  fraldas  da  cordilheira,  que  divide  a  jurisdicção  do 
governo  de  Ouixos,  ao  pé  dos  serros,  chamado  um  Guama- 
nà,  e  outro  Pulcâ,  distando  entre  si  nâo  bem  duas  léguas; 
dos  quacs,  o  ultimo  dá  por  niâi  do  recem-nascído  uma 
grande  lagoa,  o  o  primeiro  outra,  ainda  que  não  de  tanta 
grandeza,  se  bem  que  de  muito  fundo,  a  qual,  furando  um 
serro,  que,  invejoso  do  Ihesouro  que  de  si  offerocia,  com  a 
força  de  um  terremoto,  se  lhe  deitou  em  cima,  pretendendo 
afogar  em  os  seus  principies  as  tão  grandes  esperanças,  que 
aquelle  lago  promettia  ao  mundo.  D*estas  duas  lagoas,  que 
estão  em  vinte  minutos  ao  sul  da  linha  equinocial,  recebe  o 
seu  principio  o  grande  rio  das  Amazonas. 

20.*— SEU  CURSO,  LATITUDE  E  LONGITUDE 

Faz  O  seu  curso  este  rio,  de  oésle  a  leste,  como  dizemos 
navegantes,  isto  é,  do  poente  ao  oriente,  próximo  sempre 
ao  íMiuinocial,  porém  ao  sul,  por  á",  3",  ^\  5*  e  5**  40*  na 
maior  altura.  Tem  de  comprimento,  desde  o  seu  nasci- 
mento aló  que  desagua.no  mar,  mil  tresentas  e  cincoentae 
seis  léguas  castelhanas,  bem  medidas,e,  segundo  Orelhana, 
mil  e  oitocentas ;  caminha  sempre  serpenteando  em  voltas 
mui  dilatadas,  o  como  senhor  absoluto  de  todos  os  outros 
rios  que  n'elle  entram ;  tem  repartidos  os  seus  braços,  que 
eão  como  os  sous  fieis  executores,  por  meio  dos  quaes  sabe 
ao  encontro,  e,  d'elles  cobrando  o  devido  tributo  de  suas 
aguas,  as  torna  a  encorporar  no  seu  canal  principal :  e  é 
para  notar-se  que,  qual  ó  o  hospede  que  recebe,  laes  são  os 


—  187  - 

aposenladores  que  lhe  dá,  de  sorte  que,  com  braços  ordi- 
nários, recebe  os  rios  mais  communs,  accrescenUuido  ou- 
tros maiores  para  os  de  maior  grandeza ;  e  d'estes,  alguns 
são  laes,  que  quasi  podem  com  eile  hombrear,  e  por  isso, 
elle  mesmo  pessoalmente,  com  toda  a  sua  corrente,  sabe  a 
offerecer-lhes  bospedagem  :  do  latitude  e  largura  é  mais 
vário,  porque  cm  partes  se  espraia  uma  légua,  em  outras 
duas,  três,  e  ás  vezes  muitas  mais,  conservando  tanta  es- 
treiteza em  tantas  léguas,  para,  com  maior  atrevimento,  em 
oitenta  o  quatro  de  boca,  pôr-se  á  barba  com  o  oceano. 

21/— ESTREITEZA    E   FUNDO   DO   RIO 

O  maior  estreito,  onde  este  rio  recolhe  suas  aguas,  é  de 
pouco  mais  de  um  quarto  de  légua,  na  altura  de  2%  40", 
lugar  que,  sem  duvida,  destinou  a  Divina  Providencia,  es- 
treitando íilli  este  dilatado  mar  doce,  para  que  alli  se  cons- 
truisse  uma  fortaleza  para  impedir  a  passagem  a  qualquer 
armada  inimiga,  por  maiores  forças  que  traga,  entrando 
pela  principal  boca  d*este  grande  rio,  porquanto,  entrando 
pelo  Rio-Negro,  alli  deveria  ser  posta  a  defensa.  Está  este 
estreito  a  tresentas  e  setenta  léguas  da  barra,  d'onde,  em 
oito  dias,  c  em  cmbarcaçõBs  ligeiras,  á  vela  e  remo,  se 
pôde  dar  aviso  muito  antes  que  o  inimigo  as  aviste.  A  pro- 
fundidade d'este  rio  é  grande,  e  em  partes  não  se  acha 
fundo.  Desde  a  boca  até  o  Uio-Negro,  que  são  quasi  seis- 
centas léguas,  nunca  ha  menos  de  quarenta  a  trinta  braças 
de  altura  no  canal  principal,  e  d'alli  para  cima  vai  variando, 
já  com  vinte,  já  com  doze,  e  já  com  oito  braças,  muito  nos 
seus  [irincipios;  fundos  estes  suQicientes  para  quaesquer 
embarcações,  porquanto,  ainda  que  a  corrente  obste  a  su- 
bida, não  faltam  ordinariamente,  todos  os  dias,  três,  quatro 

TOMO  YXVIII,  p.   1.  25 


-  188  - 

ou  mais  horas  de  brisas  fortes»  que  às  vezes  duram  lodo  um 
diaiComquoTeDcêl-a. 

22/— ttHAS,    SUA  FERTILIDADE   E  FRUCTOS 

Todo  este  rio  està  povoado  de  ilhas,  umas  grandes  e 
outras  pequenas,  e  em  tão  grande  numero  que  não  se  po- 
dem contar,  porque  se  encontram  a  cada  passo  ;  as  ordiná- 
rias são  de  quatro  a  cinco  léguas ;  outras  ha  de  dez  e  de 
vinte ;  e  a  que  habitam  os  tupinambàs  (de  que  adiante  fat- 
iaremos) tem  mais  de  cem  léguas  de  circumferencia :  ha 
também  outras  muitas  mui  pequenas,  que  servem  aos  natu- 
raes  para  fazerem  n*ellas  as  siias  sementeiras,  tendo  nas 
maiores  as  suas  moradas.  Estas  ilhas  de  menor  grandeza, 
e  às  vezes  as  maiores,  ou  grande  parte  d'estas,  são  annual- 
mente  banhadas  pelo  rio,  fertilisando-as  com  o  seu  Iodo, 
de  sorte  que  jamais  podem  ser  estéreis,  ainda  que  por 
muitos  annos  continuados  d'ella  se  exija  o  ordinário  fructo, 
que  é  o  maior  a  yuca,  ou  mandioca  commum,  sustento  de» 
todos,  e  de  que  tem  muita  abundância,  e,  ainda  que  appa* 
rentemente  esteja  exposta  á  grande  diminuição  e  perda  por 
effeito  de  tão  poderosas  cheias,  a  natureza,  mãi  commum 
de  todos,  deu  a  estes  bárbaros  meio  fácil  para  a  sua  conser- 
vação :  colhem  a  yuca,  que  são  umas  raízes  de  que  fazem  o 
cazabé,  pão  ordinário  em  todas  aquellas  costas  do  Brasil, 
e  fazendo  na  terra  umas  covas  ou  regos  fundos,  alli  os  en- 
terram, deixando-as  mui  bem  tapadas  durante  o  tempo  em 
que  duram  as  enchentes, passadas  as  quaes  os  tiram  e  bene- 
ficiam para  seu  sustento,  sem  que  por  isso  nada  percam  do 
seu  valor:  e  se  a  natureza  ensina  às  formigas  a  guardar  nas 
entranhas  da  terra  o  grão,  que  lhes  ha  de  servir  de  ali- 
mento durante  o  anno,  que  muito  desse  ao  indío,  por  mais 
bárbaro  que  seja,  maoeira  de  prevenir  o  seu  damno,  e  guar- 


-  1,9  - 

dar  o  sou  SuBlento,  pois  é  ceflo  que  a  DÍTÍDa  Providencia 
mais  cuida  dos  homens  que  dos  brutos. 

23/ — GÉNEROS   DE   DEBIDAS  DE  QUE  USAM 

Como  fica  dito,  é  esle  o  pão  quotidiano,  com  que  sempre 
acompanham  as  mais  viandas,  e  não  somente  serve  de  co- 
roida,  mas  também  de  bebida,  a  que  são  geralmente  mui 
propensos  aquclies  n  ituraes,  para  o  que  fazem  umas  gran- 
des tortas  d  :!lgadas,  que,  cozidas  no  forno,  se  abiscoutam  de 
maneira  que  duram  muitos  mezes ;  guardam-as  no  mais 
alto  das  casas  para  as  conservar  livres  da  humidade  da 
terra,  e,  quando  d*ellas  se  querem  servir,  deitando-as  em 
agua,  as  desrazem,  e,  cozendo-as  ao  fogo,  lhes  dão  o  ponto 
que  carecem,  deixam  assentar  o  caldo,  e,  estando  frio,  é 
o  vinho  de  que  ordinariamente  usam,  o  qual  ás  vezes  é  tão 
forte,  que,  como  se  fora  vinho  de  uvas,  os  embriaga  e  lhes 
faz  perder  o  juizo.  Com  esle  vinho  celebram  as  suas  festas, 
choram  os  seus  mortos,  recebem  os  seus  hospedes,  fazem 
e  colhem  as  sementeiras,  e  finalmente  não  ha  occasião  al- 
guma em  que  se  reunam,  que  elle  não  seja  el  azoque  que  os 
recolha  e  o  laço  que  os  detenha.  Fazem,  ainda  que  não  é 
tao  ordinário,  outros  vinhos  que,  como  tão  inclinados  á 
embriaguez,  são  como  los  tauras,  que  nunca  lhes  falta  de 
que  lancem  a  mão ;  elles  os  fazem  de  quaesquer  fruclos  sil- 
vestres, de  que  abundam  as  arvores,  as  quaes  fruclas,  des- 
feitas em  agua,  dão  a  esta  tal  sabor  e  força,  que  muitas 
vezes  excede  à  da  cerveja,  bebida  tão  usual  entre  as  nações 
estrangeiras.  Guardam  estes  vinhos,  uns  em  potes  mui 
grandes  de  barro,  semelhantes  aos  da  nossa  Hespanha ;  ou- 
tros em  pequenas  pipas,  que  lavram  de  uma  única  peça  de 
troncos  socabados ;  e  outros,  finalmente,  em  vasilhas  gran- 
ded  que  tecem  de  herva,  dàoda^lhes  por  dentro  e  pór  fõtà 


—  490  — 

um  bclumo  tal,  que  Dão  se  perde  uma  única  gola  do  licor 
que  n'ellas  se  guarda. 

2i/ — FRUCTAS  OUE  TEM 

As  viandas  com  que  acompanham  este  pão  e  vinho  são 
muitas,  não  somente  de  fruetas,  como  plantanos,  pinhas, 
guiavas,  avios,  castanhas  mui  saborosas,  a  que  chamam  no 
Peru  amêndoas  da  serra,  e,  na  verdade,  mais  semelhança 
têm  com  estas  do  que  com  aquelias,  se  hem  que  assim  llies 
chamem  por  nascerem  em  uns  cocos,  que  se  assemelliam 
aos  ouriços  das  castanhas.  Tem  palmeiras  de  diíTerenles 
géneros,  que  produzem  umas,  sasonados  cocos,  e  outras 
saborosas  tâmaras,  que,  apezar  de  silvestres,  são  de  bom 
gosto :  e  muitas  outras  qualidades  de.  fruetas,  próprias  todas 
das  terras  quentes.  Têm  também  raizes  cíe  muito  sustento, 
como  são  as  batatas,  a  yuca  mansa,  a  que  os  portuguezes 
chamam  macachcra,  carás,  criadilLis  da  terra  e  outras,  as 
quaes,  assadas  ou  cozidas,  não  somente  são  gostosas,  mas 
também  substanciaes. 

25/ — PESCADOS   r)'ESTn  KIO,  E  1)0  PEIXE  ROl 

Comtudo,  do  que  mais  se  alimentam,  e  o  (jue,  como  vul- 
garmente dizem,  lhes  faz  o  prato,  é  o  iinmenso  pescado 
que,  com  incrivel  abundância  e  diariamente,  colhem  ás 
mãos  cheias  n*este  rio ;  porém  entre  todos,  o  que,  como 
rei,  d'elle  se  senhorêa  povoando  lodo  o  rio,  desde  o  seu 
nascimento  até  que  desagua  no  mar,  é  o  peixe-boi,  pesca- 
do que  só  de  tal  tem  o  nome,  pois  que  não  ha  pessoa  que, 
comendo-o,  não  julgue  comer  saborosa  carne  :  é  de  gran- 
deza de  um  bezerro  de  anuo  e  meio  e  d*elleem  nada  se 
differençaria  na  cabeça,  se  tivesse  cornos  e  orelhas :  tem 
por  todo  o  corpo  algum  tanto  de  cerdoso^e  move-se  na  agua 


—  191  — 

com  dois  braços  curtos,  que  em  forma  de  pás  lhes  ser- 
vem de  remos,  debaixo  dos  quaes  as  fêmeas  mostram  os  seus 
peitos,  com  os  quaes  dão  de  mamar  aos  filhos  que  parem. 
Do  couro,  que  é  muito  grosso,  fazem  adargas  os  guerrei- 
ros, e  tão  fortes,  que,  sendo  bem  curtidas,  uma  bala  de 
espingarda  não  passa.  Sustentase  este  pescado  somente  de 
herva,  que  pasce  como  se  fora  verdadeiro  boi ,  e  por  isso 
a  sua  carne  toma  tio  bom  goslo,  e  é  tão  substancial,  que 
em  pequena  quantidade  liça  qualquer  -pessoa  mais  satis- 
feita e  com  maior  força  do  que  se  comera  dobrada  porção  de 
carneiro.  Conserva  mui  pouco  o  fôlego  debaixo  d'agua,  e 
por  isso,  onde  quer  que  ande,  deita  fora  amiudadas  vezes 
o  focinho  para  receber  novo  alento,  e  d''aqui  vem  a  sua 
total  destruição,  porquanto  ellc  mesmo  se  vai  denuncian- 
do aos  seus  inimigos.  Os  indios,  logo  que  o  vêm,  o  seguem 
nas  canoas  pequenas,  e  esperam  que  elle,  querendo  respi- 
rar, deite  fora  a  cabeça,  e,  cravando-o  com  os  arpões,  que 
fazem  de  conchas,  lhe  tiram  a  vida ;  partem  postas  medío- 
cres, que,  assadas  sobre  páos  atravessados,  duram  sem 
corrupção  mais  de  um  mez,  e  não  fazem  d*elle  cenizas  para 
todo  o  anno  (que  seriam  de  muita  estimação),  por  não  te- 
rem sal  em  abundância,  pois  que  aquelle  mesmo  de  que 
usam  para  o  tempero  da  comida  é  mui  pouco,  e  feito 
de  cenizas  de  certas  palmeiras,  sendo  mais  salitre  que 
sal. 


20.*— TARTARUGAS  DO  RIO,  E  COMO  AS  GUARDAM 


Mas,  apezar  de  nao  poderem  conservar  por  muito  tempo 
estas  cenizas,  não  lhes  falta  industria  para  terem  carne 
fresca  todo  o  inverno,  a  qual,  se  bem  não  seja  tão  gostosa 


—  19Í  — 

como  aqueila,  é  comluilo  mais  saudável  e  do  nao  menof 
proveito.  Fazem  uns  curraes  grandes»  cercados  de  pàos,  e 
tão  cavados  por  dentro,  quo,  como  se  fossem  poços  fundos, 
conservam  em  si  as  aguas  da  chuva ;  feitos  esles,  no  tempo 
em  que  as  tartarugas  sahema  desovar  nas  praias,  deixam  as 
suas  casas,  e  embosca ndo-se  em  paragens  conhecidas  que 
eliasmais  frequentam,  esperam  que,  sahindo  á  terra^  cada 
uma  principie  ^  occupar-se  em  preparar  a  cova  em  que 
pretende  deixar  o^vos ;  sahem  n'este  momento  osindios, 
e,  ganhando  a  parte  da  praia  por  onde  se  hão  de  retirar 
para  a  agua,  dão  de  improviso  sobre  ellas,  e  em  breve 
tempo  se  vêm  senhore?  de  grande  quantidade,  som  mais 
trabalho  que  volUil-as  de  costas,  e,  não  podendo  então  me- 
nearem-se,  assim  as  conservam  emquanto  querem,  ató 
que,  enfiadas  todas  com  cordas  por  uns  furos  que  fazem  nos 
cascos,  o  lançadas  à  agua,  remando  nas  canoas,  as  levam 
sem  trabalho  até  as  encerrar  nos  curraes,  que  já  têm 
promptos,  onde  as  soltam  todas,  dando-lhes  por  prisão 
aquelle  estreito  cárcere,  e,  susteotando-as  com  ramos  c 
folhas  d'arvores,  as  conservam  vivas  todo  o  tempo  que 
d'ellas  carecem.  São  estas  tartarugas  tão  grandes  e  maiores 
que  rodas  de  bom  tamanho  ;  a  sua  carne  ó  tíío  tenra  como 
a  da  vacca ;  têm  as  fêmeas,  quando  as  matam,  no  ovário 
ordinariamente  duzentos  ovos  cada  uma,  algum  tanto 
maiores  e  quasi  tio  bons  como  os  de  gallinha ;  porém  são 
mais  dilBceis  de  digerir.  Eslâo  nos  tempos  próprios  tão 
gordas,  que  de  duas  S3  faz  um  pt)te  de  manteiga,  que, 
temperada  com  sal,  6  tão  boae  mais  gostosa  e  dura  mais 
que  a  de  vacca ;  serve  para  frigir  o  peixe  e  para  quaesquer 
outros  guisados,  em  que  se  pôde  fazer  uso  da  melhor  man- 
teiga. Apanham  estas  tartarugas  em  tanta  abundância,  que 
não  ha  curral  que  não  lenha  mais  de  cem  tartarugas,  e  por 
isso  jamais  estes  bárbaros  sabem  que  cousa  seja  fome,  por- 


—  193  — 

quaQto  uma  só  basta  a  salisíazeir  qualquer  faon^ia,  por 
mais  numerosa  quo  sej^f 

27.°-r-MANimAS    DE  PESOAa 

Com  a  maior  facilidade  gozam  os  moradores  d'eslo  rio 
de  lodos  os  pescados  que  em  si  encerra,  e,  nunca  receian- 
do  que  lhes  faltem  para  o  seguinte  dia,  jamais  se  proyiuem 
no  antecedente,  e  sustentados  com  o  que  diariamente  co- 
lhem estão  sempre  certos  de  que  nos  dias  seguintes  farão 
outra  igual  pesca.  A  maneira  de  pescar  ó  dillerente,  con» 
forme  a  variedade  do  tempo  c  as  enchentes  ou  vasantes ;  e 
por  isso,  quando  as  aguas  baixam  tanto,  que  os  lagos  sec- 
cam,  sem  permittir-lhes  communicação  com  o  rio.  usani  de 
um  género  de  trovisco,  e  que  n*aquellas  costas  se  chama 
timbó,  da  grossura  de  um  braço,  pouco  mais  ou  menos,  o 
tão  forte,  que,  machucados  dois  ou  três  páos  d* estes,  e,  ba- 
tendo com  elles  na  agua,  que,  ( staiicada,  sustente  n'aquel- 
les  lagos  o  pescado,  a|)enas  chega  este  a  provar  o  seu  vigor, 
iipqiediatamente  sobro  a  agua  do  lodo  se  deixa  apanhar 
com  as  mãos ;  porém  a  maneira  mais  ordinária  com  quo, 
em  todo  e  qualquer  tempo,  se  fazem  senhores  de  tod  js  os 
pescados  que  sustenta  aquelle  abundante  rio,  é  com  as  fre- 
chas, que  com  uma  mão  disparam  de  uma  paleta  que 
n'ell^  tem,  e,  cravadas  nos  peixes,  lhes  serve  de  bóia  para 
conhecerem  aonde  depois  de  feridos  se  retiram,  e  por  isso 
alli  com  presLeza  correm  e  os  recolhem  nas  canoas ;  esta 
maneira  de  pescar  não  se  limita  a  este  ou  áquelle  pescado  : 
é  geral  para  todos ;  de  sorte  que,  nem  uns  por  grandes,  nem 
os  ouiros  por  pequenos,  são  privilegiados,  c  todos  passam 
por  uma  mesma  rasoura.  Estes  pescados,  sendo  de  tão  di* 
versos  géneros,  são  todos  de  mui  bom  gosto,  e  muitos 
d'elles  têm  de  partiçularissimas  propriedades.  Mm  peixOi  a 


—   IÍ>V  — 

r|ue  os  íDdios  chamam  — poraque—  ^semelhante  a  uma  mui 
^Tande  enguia,  ou  para  melhor  dizer,  a  um  pequeno  cou* 
gruo,  tem  tal  propriedade,  que,  emquanto  está  vivo,  a 
todos  que  o  tocam  estremece  immediatamente  todo  o  corpo, 
emquanto  dura  o  contacto,  como  se  tivessem  graves  quar- 
tans,  o  que  cessa  logo  que  d'elle  se  aparta. 

28.*— CAÇAS   no   MONTE   E   AVES   nE   QUE   SE   SUSTENTAM 

Podéra  acontecer  que  estes  naturaes,  comendo  sempre 
pescado,  ainda  que  tão  bom,  se  enfastiassem  e  desejassem 
pelo  menos,  de  quando  em  quando,  alguma  carne,  e  por 
isso  lhes  preveniu  a  natureza  os  seus  desejos,  povoando - 
lhes  a  t/rra  firme  com  muitos  géneros  de  caças,  como  são: 
nntas,  que  são  do  tamanho  de  uma  mula  de  um  anno,  e  com 
grande  semelhança  na  cor  e  disposição,  e  o  gosto  da  carne 
não  se  diíTerença  senão  em  ser  algum  tanto  doce :  porcos 
monlezes,  não  javalis,  serão  outro  género  mui  dilTerenle, 
que  tem  o  umtjigo  no  lombo,  o  d'esles  estão  povoadas  quasi 
todas  as  índias ;  a  sua  carne  c  mui  boa  e  saudável,  assim 
como  também  a  de  outra  espécie  d'esles  mesmos  animaes, 
que  se  acham  cm  muitas  parles,  mui  semellianles  aos  nos- 
sos porcos  domésticos.  Ua  veados,  cotias,  yguarús,  yagotis, 
e  outros  animaes,  próprios  das  índias,  de  boas  carnes,  ode 
tão  bom  gosto,  que  pouco  menos  são  que  as  mais  estimadas 
na  Europa,  lia  perdizes  nos  campos,  e  criam  em  casa  al- 
gumas galUnhas  das  nossas,  que  para  alli  vieram  do  Peru, 
e  se  foram  propagando  por  lodo  o  rio,  o  qual,  em  muitos 
lagos  que  tem,  sustenta  infinitos  pássaros  e  outras  aves 
aquáticas  para  quando  d'ellas  so  quizerem  aproveitar;  e  o 
que  mais  admira  6  o  pouco  trabalho  que  custam  todas  estas 
cousas,  o  que  bem  se  pódc  colligir  do  que  diariamente  ex- 
perimentávamos no  nosso  arraial,  d*onde  depois  de  chega- 


-  105  - 

tios  ao  pouso  em  que  haçiaoios  de  dormir,  eoccupados  os 
in^lios  anigos,  qud  h^jS  acõmpmhiivam,  em  fazer  barriicas 
suflii:ienlt:s  p,^ra  tuiloo  ac  impam en Lo,  em  que  gaslaViiin 
JDuilo  letnpo,  se  dividiam  uds  por  terra  com  cãts  em  busca 
da  Cãça,  e  uulros  por  ngua  unicamente  com  os  seus  arcos  e 
frechas,  e  em  poucas  horas  via  mos  chtgar  esles  carregados 
de  pescado,  e  aquelles  de  caça  sufliciente  para  que  lodos 
ficissemossalisfeilos;  o  que  acontecia,  não  em  um  ou  outro 
dia,  \íúTèm  um  tudos  os  que  durou  a  viagem,  que  foi  Ião 
demíiradii,  como  jà  disse:  maravilha  esta  digna  de  admi- 
ração, e  que  unicamente  se  pode  atlribuir  á paternal  provi- 
dencia daquelle  Senhor,  que  com  cinco  pães  e  poucos  pei- 
xes sustentou  cinco  mil  pessoas,  ficando-lhe  o  braço  sao  o 
as  mãos  cheias  para  maiores  liberalidades, 

39,'— CLIMA    E  TEIrtPLE  DO  RIO 


O  clima  doeste  rio,  e  o  de  todas  as  provi  ncias  a  elle  cir- 
cumvisinhas,  é  temperado ;  de  sorte  que  nem  ha  calor  quo 
cnf^ide,  nem  frio  que  fatigue,  nem  variedade  qui^  seja  mo- 
lesta, porque,  ainda  que  se  conhece  algum  género  de  in- 
verno, não  è  tanto  por  causa  da  variedade  dos  planetas  e 
curso  do  sol,  que  sempre  nasce  e  se  pòe  a  uma  mesma  hora, 
quanto  pelas  inundaçOi^s  das  aguas,  que  com  as  suas  humí- 
dadcs  impedem,  durante  alguns  mezes,  as  sementeiras  e 
fructos  da  torra,  pelas  quacs  nos  regemos  ordinariamente 
n\iquellas  partes  du  Ferúde  tão  differentes  temples  para 
conlircer  e  distinguir  o  verau  do  inverno^  de  sorte  que  o 
tempo,  em  que  a  terra  nos  produz  fruclos,  chamamos  verão, 
c  pelo  contrario  inverno  âquelle  em  que  por  qualquer 
cumii  se  impedem  ns  colheitas. 

listas  sào  duas  anonalnjenta  n'esla  rio,  nâo  somente  noi 
maiores,  um  dos  seus  princípaes  suslenlos,  mas  também 
TO«o  xxvíií,  r.  I*  26 


-  496  — 

em  outras  sementes  próprias  da  terra.  Verdade  é  que  às 
mais  próximas  às  cordilheiras  de  Quito  gozam  de  mais 
calor  que  o  restante  do  rio,  pelas  muitas  brizasque  ordi- 
nariamente refrescam  as  mais  próximas  ás  costas  do  mar; 
se  bem  que  este  calor,  quando  grande,  é  como  o  ordinário 
de  Guayaquil,  Paname  ou  Cartagena,  sendo  temperado  cm 
grande  parte  pelos  frequentes  aguaceiros,  que  ha  quasi 
lodos  os  dias,  dando  a  estas  terras  grandes  vantagens  em 
conservar  por  muito  tempo  os  seus  mantimentos  incorru- 
ptos, como  experimentámc  s  nas  hóstias,  com  que  diaria- 
mente diziamos  missa,  as  quaes,  passados  cinco  mezes  e 
meio  depois  da  nossa  partida  de  Quilo,  estavam  tão  frescas 
como  se  fossem  feitas  de  próximo,  e,  porque  enlfio  se  aca- 
baram, não  experimentámos  a  sua  total  duração ;  cousa 
esta  que  espantou  a  todos  os  que  haviamos  corrido  osdiffe- 
rentes  temperamentos  das  índias,  e  por  expiTiencii  sabia- 
raos  a  facilidade  com  que  nas  terras  cálidas  se  corrompem 
ainda  as  cousas  de  mais  substancia.  Não  são  nocivos  os 
soes  d'este  rio,  apezar  de  estar  Ião  próximo  á  equinocial, 
nem  alli  ae  conhecem  serenos  que  causem  damno,  do  que 
posso  ser  boa  testemunha,  pois  que  raras  vezes,  eni  tudo  o 
tempo  que  por  alli  naveguei,  d/ixei  de  pi.ssir  as  nnil  s  á 
vela,  exposto  à  inclemência,  sem  que  jamais  me  causasse  a 
mais  leve  dôr  de  cabeça,  quan  lo  em  outras  partes  somente 
um  pequeno  raio  do  sol  as  costuma  causar  mui  fortes,  se 
bem  é  verdade  que  nas  suas  primeiras  entradas,  qu  isi  lodos 
os  que  vínhamos  de  terras  frias  tivemos  algumas  calenturas, 
que  bem  depressa,  por  elTeito  de  sangrias,  nos  deixaram 
livres.  Também  não  ha  n^este  rio  ares  corruptos,  que  por 
elTeito  da  sua  malignidade  de  repente  deixam  lisiados 
aquelles  que  mais  ferem,  como  á  custa  da  sua  saúde,  c  ás 
vezes  da  vida,  sentem  muitos  quasi  em  todo  o  descoberto 
Períi ;  e-,  se  naç  fora  a  praça  do  mosquitO;  de  que  abunda 


-  197  - 

em  muitas  paragens,  se  poderia  cbamar  à  boca  aòerta  um 
dilatado  paraiso. 


30.''— DISPOSIÇÃO     DA   TERRA  E  DROGAS  MEDICINAES 


l)*esta  amenidade  de  tcniperamento  nasce  indubitavel- 
mente a  froscum  de  todas  as  suas  margens,  que,  cheias  de 
varias  e  formosas  arvores, parecem  estar  à  porfia  debuxando 
incessantemente  novos  paizes,  em  que  a  natureza  se  esmera 
e  a  arte  aprend(».  E,  ainda  que  commumenle  a  terra  é  baixa, 
tem  lambem  altos  proporcionados,  campinas  desembara- 
çadas de  arvoredos,  e  cobertas  de  flores,  vallesque  sempre 
ccmservam  humidade ,  e  para  o  interior  serros  taes,  que 
podem  com  justa  razão  passar  por  cordilheiras.  N*estes  in- 
cultos bosques  têm  os  naturaes  collocada  para  as  doenças  a 
melhor  botica  dos  simplices,  que  ha  em  tudo  descoberto, 
porquanto  alli  se  colhe  a  mais  grossa  cannafislula,  a  mais 
perfeita  snlsMparrilha ;  as  gommas  e  resinas  mais  saudá- 
veis e  na  maior  abundância,  o  mel  das  abelhas  silvestres  a 
cadapr.sso,  e  tanto  que,  apenas  se  chega  aparagem  onde  o 
não  haja,  gastando-o  não  somente  em  remédios,  porque  é 
muito  saudável,  mes  também  sustentando-se  com  elle  por 
ser  de  agradável  goslo,  e  aproveitando  a  cera,  que,  ainda 
que  negra,  é  boa  e  arde  como  qualquer  outra.  Alli  o  azeite 
de  andiroba,  que  é  uma  arvore  inapreciável  para  curar 
feridas.  Alli  o  oleo  de  copaiba,que  também  é  arvore,  e 
superior  ao  melhí)r  bálsamo.  Alli  mil  géneros  de  hervas 
e  arvon^s  de  parlicnlarissimos  eíTeilos,  e  ainda  estam  por 
descobrir  muitas  outras,  que  poderão  apparecer,  como  Dias 
Corides,  terceiro  Plinio,  e  todos  tiveram  bastante  afazer 
para  averiguar  as.  suas  propriedades. 


-  198  - 

31. •—MADEIRAS  E  ADERIÇA  PARA  NAVIOS 

As  arviros  n'esle  rio  sTo  seti  numero,  e  Ião  altas  que 
vão  acima  das  nuvens,  p  )r  assim  diz  t,  e  lã  )gri)ssas  que 
causam  admiração ;  medi  com  as  minhas  mãos,  ced  ^  de  'O 
palmos  de  roda  ;  são  Iodas,  pela  maior  parlo,  das  melhores 
madeiras,  e  não  se  pôde  n  dest^jar  mi^lhores,  pois  são  cedros, 
ceibos,  pào  ferro,  paio  colorado,  e  outras  muitas  experi- 
mentadas já  alli,  e  tidas  pelas  melhores  do  mundo  para 
fabricar  embarcações,  as  quaes,  n^este  rio,  melhor  e  com 
menores  despezis  do  que  em  parle  alguma  podem  sor,  já 
acabadas  e  perfeitas,  deitadas  à  agua  sem  que  nada  se  ca- 
reça da  nossa  Europa,  à  excepção  do  forro  ;  porque  aqui, 
como  digo,  ha  madeiras  a  pedir  de  boca,  como  vulgar- 
mente se  diz ;  aqui  ha  enxárcia  .tão  forte,  como  a  de  cânha- 
mo, de  certas  cascas  de  arvores,  do  que  se  fazem  amarras, 
que  por  si  só  escoram  os  navios  em  tempostafles,  ou  tor- 
mentas desfeitas ;  aqui  o  pez,  e  breu  tão  perreilocomoa 
gomma  arábia ;  aqui  o  azeite  assim  de  arvores,  como  de 
pescados,  para  dar  o  ponto  e  tempnrar  a  sua  dure/a ; 
aqui  se  tira  estoupa  excollpnte  que  cha:nam  ombira,  que 
para  calafetar  navios  e  juntamente  para  corda  de  arcahuz 
não  se  creou  outra  melhor ;  aqui  o  algodão  para  o  volame, 
e  é  a  semente  que  melhor  produzem  os  campos ;  e  aqui  fi- 
nalmente está  a  innumeravel  multidão  de  gente,  de  que 
adiante  fallaremos ;  e  portanto  nada  falta  para  edifiviar 
quantos  galeões  se  quizerem  pôr  nos  estaleiros. 

32.'— QUATRO   GRNEROS  DE  COIS.VS  PROVEITOSAS 
QUE   HA  n'eSTE   RIO 

Ha  n'este  grande  rio  das  Amazuius  quatro  géneros  que, 
cultivados,  seriam  indubitavelmente  suíTicientes  para  enri- 
quecer um  e  muitos  reinos ;  dos  quaes  são  o  primeiro 


—   199  — 

as  madeiras,  qae,  além  de  serem  muitas  da  maior  curiosi- 
dade e  esti  nação,  como  o  melhor  ébano,  são  tantas  das 
commnns  pira  as  embarcações    qne  ao  mesmo  tempo  se 
poierão  tirar  para  outras  cousas,  na  certeza  de  que,  por 
mais  que  se  cortem,  nunca Ihespoderão  dar  total  extrac- 
ção :  o  scííundo  género  é  o  cacáo,  do  que  estam  as  suas 
marofens  Ião  cheias,  que  alq[nmas  vezes  as  madeiras  que 
se  cortavam  pira  o  acampamento  do  exercito,  apenas  eram 
outras  que  não  f;)ssem  as  das  arvores  que  produz'^m  este 
fructo,  tão  eslimado  na  nova  Hespanha,  e  nos  paizes  onde 
se  sabe  o  que  é  chocolate,  o  qual  cacáo  beneficiado  é  tão 
proveitoso  que  a  cada  pé  corresponde  de  renda  annual- 
mente,  tiradas  todas  as  despezas,  oito  rea?s  de  prata  (GVO 
réis  portuguezes),  e  manifesta-se  bem  agrando  facilidade 
do  cultivo  de  s'^melhant  s  arvores  n'este  rio.  porquanto, 
sem  o  mini  mo  auxilio  da  arte,  a  natureza  por  si  só  as  en- 
che de  abundantes  frucfos :  o  teroiro  género  é  o  tabnco, 
de  que  se  acha  grande  nuanlidade  e.  mui  crescido  entre 
todos  os  moradores  da«  suas  ribeiras,  e,  se  se  cultivasse  com 
o  cuidado  que  pede  esta  semente,  seria  d'is  melhores  do 
mundo,  porque,  na  opinião  dos  entendedores,  a  terra  e  a 
temperatura  é  a  melhor  que  se  pôde  desejar  para  obter 
mui  grandes   colheitas ;  porém  na  minha  opinião  o  que 
mais  se  deveria  cultivar  n'este  rio  ó  o  assurar,  que  cons- 
tituo o  qmrl)  género,  que  como  mais  nobre,  mais  provei- 
toso, mais  certo,  e  de  maiores  rendimentos  para  a  fazenda 
real,  e  muito  principalmente  agora  que  tanto  tem  deca- 
hido  o  commerci v)  do  Brasil,  deveria  ser  cultivado  com 
preferencia,  procurando  logo  no  principio  levantar  mui- 
tos engenhos,  que  em  breve  restaurassem  as  perdas  d'a- 
qucllas  castas,  para  o  que  não  seria  preciso  muito  tempo, 
nem  muito  trabalho,  nem  muitas  despezas  (que  constituem 
hoje  em  dia  o  que  mais  se  teme),  porquanto  as  terras  são 


/ 


-  200  — 

as  mais  famosas  paraacanna  doce,  que  ha  em  todo  o  Brasil, 
como  podemos  altestar  os  que  temos  corrido  por  aquelias 
parles,  pois  que  todas  ellas  sâo  um  mazapé  continuado  que, 
é  o  que  mais  procuram  os  lavradores  d*estas  plantas, 
e  com  as  inundações  dos  rios,  que  apenas  duram  poucos 
dias,  ficam  tão  ferlilisadas,  que  é  para  receiar  a  demazia. 
E  não  será  novo  paraaquella  terra  levar  canna  doce,  por- 
quanlo  por  todo  esle  rio,  desde  o  seu  nascimento,  a  encon- 
tramos sempre,  parecendo  dar  signaes  do  muito  que  mul- 
tiplicaria, querendo  k'vantar-se  engiMihos  para  fabricar, 
os  quaes  pouco  custariam  por  torem,  como  dissimos,  as 
madeiras  á  mio,  e  agua  cm  abundância,  e  só  careceriam 
do  cobre,  o  qual  facilmimte  forneceria  a  nossa  llesp»nha, 
ambiciosa  de  bom  retorno,  que  por  elle  receboiía. 

33.**— DE   OUTROS   GENFROS   DE   ESTIMAÇÃO    WE   ALLI 
SE    ENCONTRAM 

Não  somente  estes  géneros  se  podiam  promctlorn'este 
novo  mundo,  descoberto  para  enriquecer  todo  o  orbe.  mas 
também  outros  niuitf)s,  que,  ainda  (pie  de  menor  valor,  iiao 
deixariam  de  concorrer,  no  siu  tanio,  ao  augmenlo  da  real 
coroa,  a  saber:  o  algodão,  qne  se  colhe  em  abundância  ;  o 
urucíi,  cnni  que  se  faz  o  perfeito  escarlate,  qne  os  eiUran- 
geiros  tanlo  eslimam  ;  a  cannalislnla,  a  salsaparrilhai  os 
azeites,  qne  riv.ilisam  com  os  melhores  bálsamos  no  eiTeito 
de  curar  as  feridas  ;  as  gonimas  e  resinas  cheirosas;  a  pita, 
de  que  se  tira  o  melhor  fio,  e  de  que  In  grande* abundância  ; 
6  outros  muitos  que  diariamenle  irão  descobrindo  a  neces- 
sidade o  a  anibifío. 

34.''— RIQUEZAS   DO   RIO 

Não  fallo  das  muitas  minas  de  ouro  e  de  prata,  de  que 


—  201  — 

já  ha  noticia,  e  que  forçosamente  irão  sendo  descobertas 
pelo  tempo  adiante,  que,  se  o  meu  juizo  nao  me  eng:ina, 
Ijão  de  ser  mais,  o  mais  ricas  que  todas  as  do  Períi,  ainda 
que  n'esse  numero  entrímas  do  afamaiio  serro  do  Polosi ; 
e  não  digo  isto  no  ar,  e  sem  fundamento,  levado  só,  como 
alguns  pensarão,  da  alTeição  que  mostro  em  engrandecer 
este  rio,  mas  eslribando-rae  na  razão  e  na  experiência ; 
esta  tenho  eu  do  ouro,  que  em  alguns  indios  d'este  rio  en- 
contrámos» e  dys  notícias  que  deram  das  suas  minas,  e 
aquelle  me  òbi^A  a  formar  este  argumento. 

O  rio  das  Amazonas  recebo  em  si  Iodas  as  vertentes  das 
terras  mais  ricas  da  America,  porquanto  pela  parte  do  suj 
n'elle  desaguam  caudalosos  rios,  que  descem  uns  de  perto 
do  Potosi,  outros  de  Guanuco,  cordilheira  próxima  á  cidade 
de  Lima,  outros  de  Cuscj,  e  outros  de  Cuenca  e  Gibaros, 
que  ê  a  terra  mais  rica  em  ouro  das  que  ha  descobertas, 
de  sorte  que  pela  refiTida  parlií  do  sul,  (]uantos  rios  quan- 
tos mananciais,  quantos  regatos,  quantas  pequiMias  fontes 
desaguam  no  oceano  no  espaço  de  eoO  léguas,  que  se  con- 
tam desde  o  Putosi  a  Quito,  tcdos  rendem  vassallagem  e 
pagam  tributo  a  este  rio,  assim  como  também  tod(js  os  que 
baixam  do  novo  reino  de  Granada,  não  inferior  em  ouro 
aos  outros.  Se  este  rio,  pois,  êarua  maior  e  o  principal 
ciminho  por  0!id3  se  sobe  ás  maiores  riquezas  do  Períi, 
bem  [)osso  alTirmar  que  é  o  principal  senhor  de  lodos,  além 
do  que,  se  a  lagoa  Dourada  tem  o  ouro  que  se  lhe  attribue  ; 
se  as  Aina/.onas  habitam,  como  atteslam  muitos,  entre  as 
maiores  riqui/zas  rio  orbe  ;  se  o  Tocantins  em  pedras  pre- 
ciosas e  em  abundância  de  ouro  é  tão  afamado,  entre  os 
francezes ;  se  os  Omagúas,  com  as  suas  riquezas,  abarro- 
taram todo  o  Períi,  sendo  mandailo  imniedialamente  em 
su:i  busca  Pedro  de  Orsua  com  grosso  exercito  pelo  vice-rei ; 
é  inconleslavel  que  n'este  rio  tudo  o  referido  o  está  encer- 


—  i02  — 

rado :  aqui  a  lagoa  Dourada ;  aqui  as  Amazonas ;  aqui'o 
Ti.cantins;  p  aqui  os  ricos  Omagúas,  como adianle  dire- 
mos, e  aqui  Grialmenle  eslá  depositado  o  immenso  the- 
souro,  qutí  a  Magestade  Divina  tem  guardado  para  com  elle 
enriquecer  o  nosso  grande  rei  e  senhor  Felippe  IV. 

3o.'— TEMQ  UATRO    MIL  LÉGUAS  PE  CIRCUiTO   ESTE  DESCOBRI- 
MENTO 

Segundo  a  boa  cosmogniphia,  tem  este  dilatado  império 
perto  de  quatro  mil  léguas,  e  não  penso  que  me  alargo 
muito,  porque,  se  somente  de  coniprimonlo,  mediílas  cora 
cuidado,  tem  I,  í  6,  e  1, 800 srgundoOrelhana, que  primei- 
ramente o  navegou,  e  i)or  cada  rio,  que  n'clle  enlni,  tanto 
do  N.  cómodo  S  ,  segundo  boas  observações  dos  naturaes 
que  pov(»am  as  suas  bocas,  em  mais  de  200  léguas,  e  em  al- 
gumas parles  em  mais  de  iOO  léguas,  por  ambos  os  ladosv 
nunca  se  sabe  a  povoação  de  hespanboes,  encontrando  sem- 
pre nações  dilTerenles,  é  forçoso  que  lhe  concedamos  de 
largura  ptdo  mends  *00  léguas  na  parte  mais  eslreiía,  que 
Comas  !,3r;(),  out,  Ode  cnin|)rininlo  segundo  Ondbana, 
lhe  darão  de  circuito,  segundo  boa  arithiiittic:i,  mui  pouco 
menos  d:is  V,000  que  dissemos. 

36.*— Ml  LTIUAO  DE  GENTE,  E    DE  DUTEUENTKS    NAÇÕES 

Todo  estii  novo  munilochamenuiS-lhiTissim^csláhabitado 
de  b:irb;iros  eni  disiincl;is  proviíicias  e  narõcs  ;  as  de  que 
possoilarfé,  noíni\'\ndo-as  com  ossrusnnines, e  designan- 
<lo-lh«'S  (is  di>lhclos,  umas  de  vista,  e  oulras  iH»r  infonna- 
rõ.'sdí»s  inflius,  qu»*  ifellas  haviam  eslado,  passam  de  130, 
(ofl.isdo  lingiias  dilLTiMíb^s,  tão  dilatadas  o  povoadas  de 
m.iradorus  como  as  qu.'  vimos  por  lodo  o  caminho,  e  de 
que  adiante  fallaremos.  Estam  Ião  continuadas  estas  nações, 


—  âí>:í  — 


quedos  últimos  povos  de  umas,  em  muiUs  d'eliesse  ourem 
lavrar  as  madeiras  nos  oulros,  sem  que  uma  tal  proximi- 
dade os  obriguem  a  fazerem  paz  ti  s,  conservando  perpetua- 
menta  con  li  mias  guerras,  em  que  diariamente  se  matam  e 
captivam  innomorav  is  almas,  e  é  esta  a  maneira  de  se  di- 
minuir tão  grande  multidão,  qne  a  não  ser  assim  Já  não 
caberia  em  todas  aquellas  terras.  Porém,  ainda  que  entra 
si  so  mostram  bellicosose  briososjâmais  taes  se  mostraram 
para  com  oshospanhoes^  como  nolámos  durante  a  viagem, 
pois  que  nunca  algum  se  atreveu  a  usar  contra  os  nossos  de 
oulra  defensa  qm  nao  fosse  a  de  que  ordinariamente  estam 
prevenidos  os  cobardes,  o  vemaser  a  fugida,  qneeUes  lem 
pronj|ílaem  razão  de  navegar  à  umas  embarcações  tão 
ligeinis  que»  apenas  abordam  à  terra,  as  carregam  aos 

Lliomhros,  e  arrojando-se  com  ellas  a  uma  lagoa  das  muitas 
que  o  rio  tem,  deixam  escarnecido  qnalquer  inimigo,  que 
com  a  èuâ  embarcação  nao  possa  fazer  outro  tanto. 


37/  —  ABMAS  QUE  USAM   OS  ÍNDIOS 


As  suas  armas  são,  entre  uns,  azagai^medianas,  e  dar- 
dos feitos  de  paos  fortes  bem  aguçados,  ^nto  que, a  tirando 
com  destreza»  passam  com  facilidade  o  inimigo,  e  entre 
outros,  sao  estolicas,  armas  em  que  os  guerreiros  do  Inga> 
graorei  do  Períi,  eram  mui  destros  ;  sío  estas  estolicas 
uns  |íàos  (feitos  a  maneira  de  taboas)  de  uma  vara  de  com- 
primento e  três  dedos  de  largura,  em  cujo  remate  na  parte 
lie  cima  fixa  um  denlc  de  osso,  em  que  faz  preza  uma 
frecba  de  nove  palmos  com  a  ponta  também  de  osso,  ou  de 
páo  mui  forte,  que  lavrada  em  forma  de  harpâo,  fica  como 
lima  garrocha,  pt^ndenle  d^aquelle  a  quem  fere  ;  tomam 
esta  ua  mão  direita,  em  que  tém  a  estolica  pala  parte  infe- 
rior, e  fixando-a  no  dente  superior  a  disparam  com  tanta 
TOMO  ixviir,  F,  u  27 


—  204  — 

força  e  acerto  que  a  cincoenta  passos  não  erram  liro.  Com 
estas  armas  pelejam  ;  com  estas  frexam  a  caça,  c  se  fazem 
senhores  de  qualquer  pescado,  por  mais  que  se  queira  es- 
conder entre  as  ondas,  e  o  que  mais  admira,  com  ellas 
cravam  as  tartarugas  quando,  fugindo  de  serem  reconheci- 
das, somente  de  quando  em  quando,  e  por  um  mui  breve 
espaço,  mostram  a  cabeça  acima  d'agua,  lhes  atravessam  o 
pescoço,  que  é  a  única  parte  em  que,  por  estar  sem  concha, 
se  pôde  empregar  o  tiro.  Usam  também  para  sua  defesa  de 
rodellas,  ou  escudos,  que  fazem  de  cannas  bravas,  fendidas 
pelo  meio,e  tecidas  apertadamente  umas  com  outras,  e,  ain- 
da que  são  mais  ligeiras,  não  são  tão  fortes  como  as  outras 
de  couro  de  peixe-boi,e  de  que  já  íizemos  menção.  Algumas 
d*estas  nações  uzam  de  arco  e  frecha, arma,  que,  entre  todas 
as  mais,  é  sempre  respeitada  pela  força  e  presteza  com  que 
fere;  abundam  de  hervas  venenosas,  de  que  fazem  em  algu- 
mas nações  uma  peçonha  tão  eílicaz  que,  hervadas  com  ella 
as  frechas,  e  chegando  a  tirar  sangue,  tiram  juntamente  a 
vida.  ] 

38/— 0  SEU  COMMEUCIO  K  POR  ACUA  EM  CANOAS    J 

Todos  OS  que  vivem  nas  margens  d'esle  rio  eslam  rerfíii- 
dos  em  grandes  povoações,  e,  como  venezianos  ou  mexica- 
nos, todo  o  seu  trafico  é  por  agua  em  pequenas  embarca- 
ções, chamadas  canoas ;  estas  ordinariamente  são  de  cedro, 
de  que  a  Divina  Providencia  os  proveu  tão  abundantemente, 
sem  terem  o  trabalho  de  os  derrubar  e  tirar  dos  montes, 
mandando-lh^os  com  as  enchentes  do  rio,  os  quaes  para 
supprir  a  sua  necessidade  são  arrancados  das  mais  distan- 
tes cordilheiras  do  Períi,  e  lh*os  põe  ás  portas  de  suas 
casas,  onde  cada  um  escolhe  o  que  mais  lhe  convém.  E  é 
para  admirar  vêr  que,  entre  tanta  infinidade  de  indios  (dos 


-  20Ô  - 

quâes  cada  um  carece  pára  a  sua  família,  pelo  menos,  de 
um  ou  dois  pàos,  de  que  façam  uma  ou  duas  canoas,  como 
de  facto  tém],  a  nenhum  custa  mais  trabalho  que  sahir  à 
margem  do  rio,  deitar-lhe  um  laço  quando  vai  passando,  e 
amarral-o  ás  mesmas  hombreiras  das  suas  portas,  onde  fica 
preso  até  que,  havendo  jà  baixado  as  aguas,  e  applícando 
cada  um  a  sua  industria  e  trabaljÉo,  lavra  a  embarcação  de 
que  tem  precisão. 

39.°— FERRAMENTAS    DE   QUE   USAM 

As  ferramentas  de  que  usam  para  fazer  não  somente  as 
suâs  canoas,  mas  também  as  suas  casas,  e  o  mais  de  que 
carecem,  como  machados  e  anzóes,  não  são  forjadas  por 
peritos  olliciacs  nas  ferrarias  de  Biscaia,  mas  nas  forjas  dos 
seus  cntcndimonlos,  havendo  por  mestra,  como  em  outras 
cousas,  a  necessidade  ;  a  qual  lhes  ensinou  cortar  do  casco 
mais  forte  da  tartaruga,  que  é  a  parte  do  peito,  uma  pran- 
cha de  um  palmo  de  comprimento  e  pouco  menos  de  lar- 
gura, que,curada  ao  fumo  e  lirando-lhe  o  fio  em  uma  i)edra, 
a  fixam  em  uma  hastea,  e  com  ella,  como  um  bom  machado, 
ainda  que  não  com  tanta  presteza,  cortam  tudo  quanto  de- 
sejam. D'este  mesmo  metal  fazem  os  anzôes,  servindo-lhes 
de  cabo  para  elles  uma  queixada  de  peixe-boi,  que  a  natu- 
reza já  formou  com  volta  de  propósito  para  este  effeito. 
Com  estas  ferramentas  lavram  tão  perfeitamente  não  só  as 
suas  canoas,  mas  também  mesas,  assentos  e  outras  cousas, 
como  se  tivessem  os  melhores  instrumentos  da  nossa  Hes- 
panha.  Em  algumas  nações  são  estes  machados  de  pedra, 
que,  lavrada  à  força  de  braços,  a  adelgaçam  tanto,  que  com 
menos  receio  de  quebrarem-se  e  mais  brevemente  do  que 
com  as  outras  de  tartaruga,  cortam  qualquer  arvore,  por 
grossa  que  seja.  Os  seus  formões,  goivas  e  cinzéis  para 


—  20ti  — 

as  obns  debcadâs,  qae  as  fazem  com  primor,  são  dentes  e 
colmilhos  de  aoima^s^qae  encravados  nos  S::us  p^  -s  ni  j  fa- 
zem menos  bem  o  sea  oíQcio  que  os  de  mais  ãn  j  a^o. 
Qaasi  todos  tém  nas  suas  profincias  algodão,  nns  mais, 
outros  menos,  porém  nem  todos  dVlle  se  aprove:tim  para 
o  Testaarío,  mas  peh  maior  parte  anJam  niis,  assim  ho- 
mens como  mulheres,  sem  que  a  wrgonhd  njtural  os  obri- 
gue a  não  querer  parecer  que  eslam  no  estado  da  inno- 
cencia. 

M)/— DOS     SELS  ftlTOS   E   DEISES  OlE   ADORAM 

Os  ritos  de  toda  esta  gentili<lade  são  quasi  em  garrai  os 
mesmos ;  adoram  idolos,  que  fabricam  com  as  suas  mãos, 
attribuindo  a  uns  o  poder  sobre  as  aguas,  e  por  isso  lhes 
põem  por  divisa  um  pescado  na  mão,  a  ouirus  escolhem 
por  donos  das  sementeiras,  e  a  outros  por  valedores  nas 
suas  batalhas.  Dizem  que  estes  deuses  baixaram  do  céo 
para  acompanhal-os  e  fazer-lhes  bem :  não  usam  de  ce- 
remonia  alguma  para  os  adorar,  mas  aiit«*s  os  têm  esqueci- 
dos em  um  canto  até  o  tempo  em  que  d*i ilis  carecem ;  e 
por  isso,  quando  vão  á  guerra,  levam  na  proa  da  canoa  o 
Ídolo  em  que  tém  posto  a  esperança  da  vicloria ;  e,  quando 
sahem  a  fazer  as  suas  pescarias,  lariçain  mãruraquellea 
quem  tém  entregado  odomiiiio  das  aguas ;  porém  nem 
em  uns  nem*em  oulros  confíaia  laiilo  que  não  reconheçam 
poder  haver  outro  m.iiur.  Inliro  isto  do  que  nos  succedeu 
com  um  doestes  bárbaros,  se  bem  o  não  mostrava  ser  na 
agudeza  do  seu  discurso,  o  qual, lendo  ouvido  algumas  cou- 
sas do  poder  do  nosso  Deus,  e  visto  pelos  seus  olhos,  que 
subindo  pelo  rio  o  nosso  exerci  lo,  o  passando  por  meio  de 
tantas  nações  bellicosas,  regressava  sem  receber  damno  de 
nenhuma,  julgava  ser  em  razão  da  forra  e  poder  de  Deus 


—  207  — 

que  o  regia,  e  chegou  a  pedir  com  as  maiores  instancias  ao 
capitão-mõr  e  a  nós  outros  que,  em  paga  da  hospedagem 
e  bom  agasalho  que  nos  fazia,  não  queria  outra  mercê 
senão  a  de  lhe  deixarmos  úm  Deus  dos  nossos,  que  como 
tão  poderosos  o  guardassem,  e  a  seus  vassallos  em  paz  e 
com  saúde,  e  juntamente  lhes  podesse  acudir  com  o  ne- 
cessário mantimento  de  que  careciam.  Não  deixou  de  ha- 
ver quem  o  quizesse  consolar,  deixando-lhe  no  seu  povo 
arvorado  o  estandarte  da  cruz ;  o  que  costumam  a  fazer 
os  porluguezes  entre  estes  gentios,  não  com  tão  bom  zelo 
como  a  acção  em  si  mostra,  porém  para  lhes  servir  o  sacro- 
santo  madeiro  da  cruz,  levantado  ao  alto,  de  titulo  e  capa 
para  corar  suas  maiores  injustiças,  como  são  as  continua- 
das escravidões  dos  pobres  indios,  que,  como  mansos  cor- 
deiros, levam  às  suas  cosas  para  vender  a  uns,  e  servi- 
rem-se  rigorosamente  com  outros.  Alevantam,  pois,  como 
digo,  estes  porlugupzes  a  Santa  Cruz,  e,  em  paga  do  bom  re- 
cebimento que  os  naturaes  lhes  fazem  nas  suas  povoações,  a 
firmam  ou  cravam  no  mais  alto  lugar,dizendo-lhes  que  a  hão 
de  conservar  sempre  intacta:  acontece  por  acaso  que  a  cruz 
com  o  tempo  cahiuem  terra  e  se  quebrou,  ou  que  malicio- 
samente elles,  por  serem  gentios  e  não  reconhecerem  n'ella 
veneração,  a  derrubaram,  logo  os  porluguezes  os  senten- 
ceiam  e  condemnam  a  todos  os  d'aquella  povoação  a  perpe- 
tuo captiveiro,  não  somente  durante  sua  vida,  senão  para 
todos  os  seus  descendentes.  Por  esta  causa  não  consenti 
que  se  arvorasse  a  Santa  Cruz,  e  juntamente  por  não  dar  ao 
bárbaro  que  nos  pedia  um  Deus  occasião  de  idolatrar, 
attribuindo  àquellc  madeiro  o  poder  e  divindade  d'aquelle 
que  n'elle  nos  remiu :  porém  consolei-o,  assogurando-lhe 
que  o  nosso  Deus  o  acompanharia  sempre,  que  lhe  pedisse 
tudo  de  que  carecesse,  e  confiasse  n'elle,  que  algum  dia  o 
Iraria  ao  seu  verdadeiro  conhecimento.  Bem  persuadido 


-  á08  — 

estava  este  índio  de  que  não  eram  os  seu&  deoses  os  mais 
poderosos  da  terra,  pois  queria  livremente  lhes  deixassem 
outro  maior,  a  quem  obedecer. 

U/— UM  ÍNDIO   SE   FEZ   DEUS. 

Do  mesmo  parecer  que  o  passado,  ainda  que  de  maior 
malícia,  se  mostrou  outro  bárbaro,  o  qual,  não  reconhe- 
cendo poder  nem  divindade  em  seus  ídolos,  elle  mesmo  se 
fazia  Deus  de  toda  aquella  terra  :  d'esle  tivemos  noticias, 
algumas  léguas  antes  de  chegarmos  á  sua  habitação,  e,  ex- 
pedindo lhe  a  noticia  de  que  lhe  trazíamos  a  do  verdadeiro 
Deus  e  mais  poderoso  que  elle,  lhe  rogamos  que  nos  espe- 
rasse a  pc  quedo  ;  assim  o  fez,  e,  apenas  chegamm  as  nossas 
embarcações  a  aportar  nas  suas  ribeiras.  dest\joso  de  saber 
do  novo  Deus,  sahiu  possoalmenle  a  perguntar  por  elle; 
porém,  ainda  que  se  lhe  d(?cl.irou  quem  era,como  o  não  pôde 
ver,  comos  seus  olhos,  licuu  na  sua  cegueira,  fazendo-se 
íilho  (lo  sol,  onde  aífirmiiva  ir  em  espirito  todas  ns  noites 
para  melhor  dispor  no  dia  segnintií  o  universal  governo, 
de  que  era  encarregado,  tanta  era  a  soberba  e  malicia 
d*este  bárbaro  ! 

Melhor  discurso  e  enlendiínenlo  mostrou  outro,  que, 
perguntando-se-lhe  por  que  razão,  estando  os  seus  compa- 
nheiros retirados  no  niíntt?,  reojio>  s  da  clicgada  dos  hes- 
panhoes,  ellé  só,  com  alguns  dos  seus  parentes,  sahia  tão 
sem  temor  a  entregarem-se  nas  suas  mãos ;  respondeu 
que  pensava  que  gentes  que  havi;im  subido  por  meio  de 
tantos  inimigos,  e  regressavam  sem  damno  algum,  era  im- 
possível que,  como  senhores  do  todo  aquelle  rio,  o  não 
viessem  uma  o  muitas  vezes  navegar,  e  povoar,  e  que, 
havendo  de  acontecer  assim,  não  queria  andar  sempre 


—  209  — 

sobresaltado,  e  por  isso,  desde  já,  sahiaa  reconhecer  de 
boa  vontade  por  amigos  aquelles  a  que  u  os  outros  rece- 
beriam por  força.  Discurso  bom,  e  qu:3  perraittirá  à  Ma- 
gestade  divina  vejamos  algum  dia  posto  em  execução  I 


42.'*— DOS  FEITICEIROS* 


Proseguindo  no  fio  da  nossa  historia,  e  tornando  aos  ritos 
d'estas  nações,  é  para  notar  a  grande  estimação  em  que 
todas  têm  os  seus  feiticeiros,  não  tanto  por  amor  que  lhes 
mostram,  quanto  pelo  receio  em  que  sempre  vivem  dos 
damnos  que  lhes  podem  causar.  Tem,  para  que  usem  das 
suas  superstições  o  fallein  com  o  demónio,  o  que  lhes  é 
mui  ordinário,  uma  casa,  que  somente  serve  para  esse  fim, 
onde,  com  certa  veneração,  como  se  foram  reliquias  de 
santos,  vão  recolhendo  todos  os  ossos  dos  feiticeiros  que 
morrem,  os  quaes  tèm  dependurados  no  ar  nas  mes- 
mas macas,  ou  redes,  em  que  dormiam  em  vida.  São 
estes  os  seus  mestres,  os  seus  pregadores,  os  seus  con- 
selheiros,e  os  seus  guias;  a  estes  recorrem  nas  suas  duvidas 
para  que  lhes  aclarem,  e  d'estes  carecem  nas  suas  maiores 
inimizades  para  que  lhes  dêm  hcrvas  venenosas, pelas  quaes 
se  vinguem  dos  seus  inimigos.  No  enterro  dos  seus  defunífcs 
variam  ;  porquanto  uns  os  conservam  dentro  das  suas  pró- 
prias casas,  tendo  sempre  em  todas  as  occasiões  presente  a 
lembrança  da  morte,  que,  se  o  fizessem  com  este  fim  teriam 
indubitavelmente idóas mais adeqiiadás,outios em  fogueiras 
grandes  não  somente  queimam  os  cadáveres,  mas  também 
tudo  quanto  em  vida  possuíram.  Tanto  uns  como  outros 
G^bram  as  suas  exéquias  por  muitos  dias  com  continuados 
prantos,  interrompidos  com  grandes  borracheiras. 


—    210   -r 
43.*— SÃO    ESTES    ÍNDIOS    DE  APRAZÍVEIS  NATURAES 

Geralmente  Ioda  esta  gentilidade  tem  boa  disposição, 
são  bem  figurados,  e  dc3  côr  não  Ião  tostada  como  os  do 
Brasil ;  têm  entendimentos  agudos  e  rara  habilidade  para 
qualquer  cousa  de  mãos;  são  mansos  e  dóceis,  como 
se  experimentava  com  aquelles  que  nos  sabiam  ao  en- 
contro, pois  que  com  a  maior  confiança  conversavam, 
corriam,  e  bebiam  enlre  nós  outros  sem  o  minimo  re- 
ceio.. Davam-nos  as  suas  casas  para  que  n'ellas  vivêssemos, 
recn|liendo-se  elles  lodos  junlos  a  uma  ow  duas  das  maiores 
da  povoação ;  e,  apezar  de  roceberem  infinitos  aggravos 
dos  nossos  indios  amigos,  s«Mn  que  pudéssemos  evilal-os, 
nunca  praticaram  más  acções;  o  que  tudo  junto  com 
a  pouca  aíTeição  e  demonslraçõt  s  que  dão  de  a  não  lerem 
a  tudo  o  que  diz  respeito  ao  culto  dos  seus  deuses,  pro- 
mettem  grandes  esperanças  de  que,  se  lhes  desse  o  co- 
nhecimento do  verdadeiro  creador  dos  céos  e  da  terra, 
com  pouca  diíTiculdade  abraçarião  a  sua  santa  lei. 

44.*— TRATA-SE    PARTICULARMENTE   DAS   COUSAS   DO   RIO  E  DAS 
SUAS    ENTRADAS 

Até  aqui  tenho  fallado  em  geral  de  tudo  que  diz  res- 
peito a  este  grande  rio  das  Amazonas ;  será  agora  justo 
ir  já  descendo  a  tratar  em  particular  das  suas  entradas, 
e  nomear  os  seus  port(»s,  a  averiguar  os  aguas  de  que 
se  alimenta,  a  desentranhar  as  suas  U-rras,  assignalar  as 
suas  alluras,  notar  as  propriedades  das  su;is  nações,  e 
finalmente  a  não  deixar  cousa  alguma  digna  de  saber-se, 
pois  que  eu,  como  testemunha  occular  e  pessoa  mandada 
por  Sua  Magestade  a  inquirir  de  tudo,  poderei  talvex 
melhor  que  nenhum  outro  dar  com  bastantes  funda* 


-  2U  — 

mentos  razão  de  Indo  o  de  que  fui  encarregado»  Não  trato 
aqui  da  principal  entrada  para  esle  rio  pelo  mar  oceaoo 
nas  cosias  do  Grão  Para,  pois  que  essa  jà  ha  muitos  tem- 
pos é  conhecida,  cahe  debaixo  da  linha  equinocial  nos  úl- 
timos fins  do  Brasil,  é  cursada  e  frequentada  por  lodos 
os  que  querem  navegar  para  aquellas  parles;  nem  Ião 
pouco  íaço  menção,  de  proposilo,  daquella por  onde  o 
^ranuo  Lopo  de  Aguirre  sahiu  defronte  da  Trindade» 
por  ser  esta  transversa! »  e  que  por  ella  se  não  entra 
direetamenle  nesle  rio,  antes,  sendo  de  oulras  mãi  prin- 
cipal, de  lance  em  lance  lhe  vem  a  cahir  nos  hraços, 
que  d* ella  reeehem  a  sua  origem,  E'  somente  o  meu  in- 
tento aclarar  e  assignalar,  como  com  o  dedo^  todas  as 
portas  pelas  quaes  da  parte  do  Peru  podem  os  mora- 
dores d^aquellas  conquistas  ter  entrada  certa  para  este 
grande  rio,  com  o  qual,  como  já  disse,  por  ambos  os 
lados  das  suas  margens  communicani  grande  numero  de 
outros  mui  caudalosos,  por  cujas  correntes  é  forçoso 
que  quem  as  seguir  vá  dar  n'este  principal;  porem,  como 
de  certo  não  se  sahe  de  que  cidades  ou  pruvincias  tragam 
as  suas  origens,  também  se  não  pode  dizer  cousa  certa 
das  suas  entradas*  Farei  comtado  menção  de  algumas 
oito,  das  quaes  nenhum  versado  n'aquellas  terras  poderá 
achar  difllculdados :  ties  cah{  m  para  a  parte  do  novo 
reino  de  Granada,  que  fica  n*este  rio  para  o  norte;  para 
o  sul  veremos  outras  quatro,  e  uma  debaixo  da  mesma 
linha  equinocial 

55."— MS  TRÊS  ENTRADAS  QUE   HA  PÊLO  NOVO  REINO  DE 
GRANADA 


A  primeira  entrada»  que  pela  parte  do  novo  reino  de 
Granada  está  descoberta  para  este  immenso  pélago  de 
TOMO  xxviiu  p.  \.  28 


—  212  — 

agua  doce,  é  pela  proTíocia  de  Micõa,  que  pertence  ao 
gOTernador  de  PopayaD :  segundo  as  correntes  do  grande 
rio  Caquetà,  que  é  o  dono  e  senhor  de  todas  as  Terten- 
tes  que  da  parte  de  Santa  Fé  de  Bogotá,  Timanú  e  o 
Caguan  se  lhe  acercam  (allagar),  mui  afamado  entre  os 
naturaes  pelas  proTÍncías  de  gentios,  que  sustentam  as 
suas  margens.  Este  rio  tem  muitos  braços  por  entre  di- 
latadas nações,  e,  toniando-os  a  incorporar  no  principal, 
faz  grande  quantidade  de  ilhas,  todas  habitadas  de  in- 
finitos bárbaros.  Corre  sempre  pelo  rumo  do  das  Ama- 
zonas, acompanhandO'0  ainda  que  ao  largo,  e  deitando 
D'elle,  de  quando  em  quando,  alguns  braços,  dos quaes 
cada  um  bem  podéra  ser  corpo  de  qualquer  outro  cauda- 
loso rio,  até  que,  recolhendo  todas  as  suas  forças  na  altura 
de  quatro  grãos,  prostrado  por  terra  se  lhe  rende.  Por  um 
d'estes  braços,  que  mais  se  approxima  da  provincia  dos 
aguas  de  cabeça  chata,  é  por  onde  se  ha  de  sahir  a  gozar  das 
grandezas  do  nosso  grande  rio  das  Amazonas,  porquanto 
aquelles  que  se  deixarem  levar  dos  que  mais  se  inclinam 
ao  norte,  succeder-lhes-ha  o  que,  os  annos  passados, 
aconleceu  ao  capitão  Fernão  Peres  de  Quesada,  que,  ha- 
vendo entrado  por  este  rio  com  300  homens,  e  deixando-se 
levar  para  a  parle  de  Santa  Fé,  deu  na  provincia  do 
Algodoal,  e  apezar  de  ir  tão  reforçado  ile  gente  foi-lbe 
forçoso  retirar-se  com  velocidade  maior  do  qa(»  com  a 
que  havia  entrado.  A  segunda  porta,  que  pela  parte  do 
norte  podemos  assignalar  para  este  rio,  é  pela  cidade 
de  Pasto,  jurisdicção  também  do  governo  de  Popayan, 
d'onde  atravessando  a  cordilheira  com  alguns  inconve- 
nientes do  máo  caminho,  assim  de  pó  como  de  cavallo, 
é  impossível  que,  chegando  ao  Pulumayo  e  navegando 
pelo  rio  abaixo,  não  venham  sahir  do  Amazonas  na 
altura  de  dois  gráos  o  meio  as  330  léguas  do  porto  do 


Napo.  Por  este  mesmo  caminlio,  sabindo»  como  disse, 
da  cidade  de  Pasto  e  passada  a  cordillieira,  approximan- 
do-se  aos  sucumbios,  que  estam  uao  mui  distantes  do 
rio,  ctiaraado  Aparico,  por  outro  nome  rio  do  Ouro,  Sô 
pode  sahir  por  elle  a  este  principal,  qoasi  debaixo  da 
linha,  no  principio  da  província  dos  EncabcUados*  que 
fica  às  90  léguas  do  dito  porto  do  Napo.  Esta  é  a  ter- 
ceira entrada,  que  pela  parte  do  norte  se  podia  in- 
tentar* 

46.*— OUTRAS  E?ÍTRâDAS 

k  porta,  que  para  este  rio  está  debaixo  da  equino- 
cial, calie  rio  governo  de  los  Quixos,  mais  próxima  a 
Quito    na  cidade  de  Cofaues,  d^onde,  pelo  rio  da  Coca, 
se  entra  logo   no   canal   principal  do  nosso  Amazonas^ 
posto  que  pelis  muitas   correntes  que  tra^  alé  cncon- 
irar-se  com  o  do  Napo,  nao  é  tao  boa  a  navegação,  como 
será   pelas   mais  partt  s  que  vem  do  sul,  das  quaes  a 
primeira  de  todas,  ainda  que  nao  a  melhor,  é  pelaci- 
fdade  do  Ávila,  no  mesmo  governo  de  Quixos,  d'onde,  a 
Ires  jornadas  por  terra,   se  vem  dar  no  rio  Payamino, 
}ot  onde  a  armada  portugueza  sabiu  a  lomar  porto  na 
'jurisdicçao  de  Ooilo,  Desemboca  este  rio  entre  o  do  Napo 
e  o  de  toca,  n^aquella  paragem,  que  chamam  a  coníluen- 
eia  dos  rios,  a  25  léguas  do  porto  do  Napo.  Melhor  porta 
^íib rimos  a  esta  mesma  armada  para  a  volta  da  sua  via- 
gem, que  nao  foi  a  que  quando  subiu,  com  muito  tra- 
balliu  e  perdas,  havia  descoberto,  e  vem  a  ser  pela  cidade 
da  Arclúdona,  lambem  no  governo  de  Quixos,  e  Jurisdicção 
de  O«íto,  d'onde  a  um  sò  dia  de  jornada,  a  pé,  por  ser  in- 
verno, porque  no  verão  a  cavai  lo,  chegámos  ao  por  lo  do 
Napo,  rio  caudaloso,  e  em  quem  l/idos  os  vizinhos  d^aquelle 


-  il4  — 

goremo  tem  posto  o  sen  tbesooro,  tirando  aDDualmeDte  de 
soas  margens  o  ooro  de  que  precisam  para  as  saas  des- 
pesas. E*  mui  piscoso,  e  as  soas  ribeiras  aboodantes  de 
caca ;  são  as  terras  tão  boas,  qae,  agradecid  is  ao  p  oco 
trabalho  dos  lairadores,  rendem  copiosas  colheitas.  Este 
é  o  principal  caminho  por  onde,  com  maior  commodidade 
e  menores  trabalhos,  poderão  descer  ao  rio  Amazonas  to- 
dos os  qae  qnizerem  navegar  peia  proiincia  de  Qaito,  por- 
quanto, ainda  que  por  alli,  se  diz,  que,  junto  ao  povo  de 
Ambatos,  a  48  léguas  da  cidade  de  Quito,  caminho  do  rio 
B^mba,  a  entrada  a  um  rio,  que  sahe  a  este  principal,  se- 
não lh'o  impede  algum  salto,  que  faça  as  correntes,  é  mui 
couTeniente  esta  descida  por  Tir  sahir  ao  dito  rio,  77  lé- 
guas mais  abaixo  do  porto  do  Napo,  e  desti  maneira  se 
poupará  todo  o  caminho  dos  Quixos. 

47/— ornus  e!ítradas  a  este  riu 

Pela  parte  da  provincia  de  Macas,  que  está  debaixo  da 
mesma  jurisdicção  e  goverao,  de  cujas  serras  baixa  o  rio 
Curaray,  seguindo  o  seu  ramal  raudal,  se  pôde  s.ihir  ao 
do  Amazonas,  na  altura  de  2  gràos,  a  130  loguas  do  Napo : 
distancia  bem  povoada  de  differonles  nncõ.s.  E'  esla  a 
sétima  entrada  para  esle  rio,  a  oitava  e  ultima  é  por  San- 
tiago das  Montanhas,  e  provi ncia  dos  Miynas,  terras  ba- 
nhadas por  um  dos  mais  caudalosos  rios.  que  pagam  tri- 
buto ao  Amazonas,  tendo  o  nome  de  Maranhão,  e  na  sua 
boca  e  muftas  léguas  antes  da  Tumburagua.  E'  o  dito  rio 
tal,  que  por  mais  de  300  I  .,  iis,  d^onde  desagui,  em 
4  gráos  no  principal,  se  receia  a  sua  navegação,  assim  pela 
sua  profundidade,  como  pelas  suas  precipitadas  correntes ; 
mas  com  as  grandes  noticias  dos  muitos  bárbaros  que  sus- 
tenta aplainam  as  maiores  diílículdadcs  os  zelosos  de  um 


Beas,  e  do  bem  das  almas,  em  cuja  basca  n'elle  entraram, 

nos  principios  do  anoo  de  lí>  )8,  dois  religioâos  da  minha 
religião  pelos  Maynas;  d*tílles  livo  muiUs  cartas,  em  que 
nâo  acabam  de  encarecer  a  sua  grandeza,  e  as  inrmmera- 
veis  provi Qcias»  de  que  diariameole  se  iam  recebendo 
maiores  noticias.  Junla-se  eslc  rio  cora  o  principal  do 
Amazonas,  a  2  30  léguas  do  porto  do  Napo. 


48/— Rio   fíAPO 


Tem  a  sua  origem  este,  por  mim  Untas  vezes  nomeado 
rio  Napo,  nas  fraldas  de  um  (párarao]  que  chamam  de  An- 
tezana,  a  i8  léguas  da  cidade  de  Unilo,  e,  ainda  que  tão 
próximo  à  linha,  è  para  admirar  que  tanto  elle  como  outros 
muitos,  que  em  varias  cordilheiras  coroam  aquellas  povoa- 
ções?, sempre  cobertas  de  neve»  servem  de  temperar  o  ca- 
lor, com  o  qual  forçosamente,  segundo  íiffirma  Santo  Agos- 
tinho» a  zona  tórrida  havia  de  tornar  aquellas  terras  inha- 
hitaveis,  ficando,  por  um  semelhante  refrigério,  as  mais 
apraziveis  e  temperadas  de  todo  o  descoberto.  Com  este 
rio  ríapo,  desde  o  seu  nascimento,  entre  grandes  penedias, 
e  por  isso  nâo  e  navpgavol,  ate  que  no  porto,  onde  os  vizi- 
nhos de  Archidona  tèm  os  ranchos  dos  seus  índios;  mais 
humano,  ^  menos  bolicoso,  Cíiosenle  sobre  ú%  seus  hom- 
bros  ordinárias  canoas,  com  as  quacs  se  atravessa  [tragina} 
e,  ainda  que  desde  este  sitio,  por  4  ou  >  léguas,  nãô  se  es- 
queça da  sua  soberba,  cora  tudo,  humilde  logo,  até  encor- 
porar-SG  com  o  rio  de  Coca»  que  esta  a  25  léguas,  com 
muito  fundo  e  grande  serenidade  offerece  boa  passagem  a 
maiores  embarcações,  e  esta  é  a  reunião  dos  rios»  onde 
Francisco  de  Orelhana  com  a  sua  gente  fabricou  o  barco, 
cm  iiue  navegou  i>or  este  rio  das  Amazonaí^. 


—  216  — 

49/— AQUI  MATAM  O  CAPITÃO  PALLACIOS 

Á  47  léguas  d'esta  confluência,  da  parte  do  sul,  está 
Auêle,  povoação  que  foi  do  capitão  João  de  Pallacios,  morto 
ás  mãos  dos  naturaes,como  já  dissemos,e  a  18  léguas  d'este 
sitio  desemboca,  da  parte  do  norte  o  rio  Aguarico,  bem  co- 
nhecido, assim  pela  sua  temperatura  menos  sadia,  como 
pelo  ouro  que  d'elle  se  tira,  por  cuja  causa  toma  também 
o  nome  do  rio  do  Ouro.  Na  sua  boca,  de  uma  outra  banda, 
dà  principio  á  grande  provinciados  Encabellados,que,  cor- 
i^endo  pela  parte  do  norte  por  m&is  de  180  léguas,  e  go- 
zando sempre  das  aguas  que  o  grande  rio  das  Amazonas 
espraia  por  lagos  caudalosos,  desde  as  suas  primeiras  noti- 
cias influiu  ardentes  desejos  de  sujeital-a  em  toda  a  juris- 
dicção  de  Quito,  pela  grande  multidão  de  gentios  de  que 
está  povoada ;  e,  de  facto,  em  varias  occasiões  se  princi- 
piou a  pôr  por  obra  a  referida  sujeição,  se  bem  que  a  ulti- 
tíma,  em  que  o  capitão  João  de  Pallacios  a  intentava,  foi 
tão  mallograda,  como  jà  vimos. 

SO.*— AQUI   FICOU   A   ARMADA   PORTUGUEZA   NA  PROVINCIA  DOS 
E?sCABELLADOS 

N*esta  província,  na  boca  do  rio  dos  Encabellados,  20 
léguas  mais  abaixo  do  rio  Aguarico,  onde  elle  principia, 
ficaram  a  pé  firme,  por  mais  de  11  mezes,  40  soldados  da 
armada  porlugueza  com  mais  de  300  indios  amigos  dos  que 
levavam  em  sua  companhia.  E,  ainda  que  ao  principio 
acharam  bom  acolhimento  nos  naturaes  da  terra,  e,  pa- 
gando, d'elles  recebiam  os  mantimentos  necessários ;  não 
durou  muito  tempo  tanta  confiança  em  peitos,  nos  quaos 
ainda  fervia  a  raiva,  com  que  haviam  derramado  o  sangue 
do  capitão  hespanhol,  e  como  este  também  pedia  vingança 
contra  os  aggressoros,  receiosos  do  que  fosse  castigado  o 


—  317   — 

sêo  atrevimento,  por  pequeno  moliTO  *S6  alvomlarâra,  e, 
tnatindo  Ires  dos  nossos  índios,  se  puzeram  em  armas  para 
defender  suas  pessoas  e  terras.  Não  se  descuidaram  os  por- 
tugueaes,  que,  como  pouco  soflredores,  e  ainda  mais  mal 
aeoslumadus  a  semelhantes  liberdades  de  Índios,  quizerara 
imraedialamente  pôr  em  execução  o  devido  castigo,  To- 
mam as  armas,  e  com  seus  ordinários  brios  cahem  sobre 
elles  da  tal  sorte,  que,  matando  poucos,  colheram  vivas 
mais  de  70  pessoas,  as  quaes  conservavam  presas,  até 
que  delias,  umas  por  morrerem,  e  oulraspor  seescapa- 
rem»  nao  ficou  alguma.  Reduzido  a  este  eslado  o  esqua- 
drão portuguez,  de  ser-lhe  preciso  empregar  a  força  para 
alcançiiT  o  comer,  a  não  querer  morrer,  resolveram- se  a 
fazerem  correrias  pela  terra  dentro, e  por  força  on  por  von- 
tade remirem  a  sua  vexação :  entravam  uns  e  outros  no 
arraial,  e  tanto  uns  como  os  outros  não  deixavam  de  ser 
molestados  pelo  inimigo,  que  corria  a  fazer-lbes  todo  o 
damno  possível ;  o  que  fizeram  em  muilas  embafeições, 
destroçando  umas,  e  fazenda  em  pedaços  as  maíiiracâs, 
Comludo,  nâo  foi  este  o  maior  damno  que  receberam,  po- 
rém sim  o  que  com  as  suas  emboscadas  nos  causavam  con- 
tra os  nossos  índios,  degolando  os  que  podiam  haver  â 
mio,  posto  que  bem  o  pagaram  com  ires  dobradas  vidas  i 
castigo  este  pequeno  em  comparação  dos  rigorosos  que  os 
portuguezes  coslumam  dar  em  semelhantes  casos.  CUama- 
ram  a  estes  indios — encabellados — os  primeiros  hespa- 
nhôes  que  os  descobriram,  em  razão  dos  cabellos  compri- 
dos de  que  usam,  assim  os  homens  como  as  mulheres,  que 
algumas  lhes  excedem  os  joelhos.  As  suas  armas  são  os 
dardos,  a  sua  habitação  em  casas  de  palhas  feilas  com  cu- 
riosidade, e  os  seus  mantimentos  os  ordmarins  em  todo  o 
rio*  Trazem  continuadas  guerras  com  as  nações  circuni- 
Tízinhas,  que  sao  os  sérios,  bocàbas,  tamas»  chuGes  e  ru* 


—  Í18  — 

mos.  Correm  em  frente  d'esta  proTÍDcia  dos  EDcabellados, 
pela  parte  do  suU  as  nações  dos  avixiras,  yurosones,  zapa- 
rás  e  Tqnitos,  que  acabam  encerrados  entre  as  agnas  d'este 
rio  e  o  de  Curara?,  onde  ambos  se  convertem  em  am  só, 
qne  fica  na  altura  de  12  gràos  a  40  léguas  de  distancia  dos 
Encabellados. 

5!. •—RIO   TIMBURAGIA 

A  80  léguas  do  Curaray,  da  mesma  parte,  desemboca 
o  famoso  rio  Tumburagua,  de  que  já  acima  dissemos  que 
baixava  pelos  Maynas,  com  o  nome  de  Maranhão  ;  faz-se 
respeitar  do  das  Amazonas  de  tal  sorte,  que,  apezar  de  ha- 
ver í  ste  todo  o  seu  cabedal  reunido,  detém  algumas  léguas 
antes  o  seu  ordinário  curso,  dando  lugar  a  que  aquelle,  es- 
praiado por  mais  de  uma  légua  de  boca,  lhe  entre  a  beijar 
a  mão,  pagando-lhe  não  somente  o  ordinário  tributo,  que 
de  todos  cobra,  mas  também  outro  muito  abundante  de 
muitdr  géneros  de  pescados,  que  até  à  boca  d'este  rio  se 
não  conhecem  no  Amazonas. 

52.'— província  dos  aguas 

A  fiO  léguas,  mais  abaixo  de  Tumburagua,  começa  a  me- 
lhor e  a  mais  dilatada  provinda  de  quantas  n*este  grande 
rio  encontrámos,  que  é  a  dos  aguas,  commumente  chama- 
dos omaguas,  impróprio  nome  que  lhes  puzeram,  lirando- 
Ihes  o  natural  e  adaptado  á  sua  habitação,  que  é  de  parte 
de  fora,  o  que  quer  dizer— Aguas. —  Tem  esta  província  de 
longitude  mais  de  200  léguas,  continuando-se  as  suas  po- 
voações tão  amiudadas,  que,  apenas  se  perde  uma  de  vista, 
logo  se  avista  outra :  a  sua  largura  ê,  segundo  parecia, 
pouca,  pois  não  pas^  da  que  tem  o  rio,  em  cujas  ilhas,  que 


$ao  muitas  e  algumas  mui  grandes,  tem  a  sua  habitação;  po- 
réfliíalltíndon^Jo  a  que  Lail.is  eslão  ou  [Hjvoaílas»t)u  cultivadas 
pelo  menos  p  ira  o  sustentu  destes  naluraes,  ?e  poderá 
fazer  idca  dos  muitos  Índios,  que  em  lao  comprida  dislan- 
eia  se  alimentam.   E'  csti  gente  amais  razoável  e  de  me- 
lhor governa  que  ha  em  lodo  o  rio;  o  que  devem  àquel- 
les  que  d'clks  esUveram  em  paz,  não  sãu  passados  muitos 
afinos,  ao  governo  dos  Quixos,  d^onde,  obrigados  jielo  mào 
tratam(  nto  que  se  lhes  dava,  se  deixaram  vir  pelo  rio 
abaixo  até  ilarem  eom  a  força  dos  da  sua  nação,  cinlrodu- 
zindo  entre  elles  algumas  cousas  das  que  haviam  sprendido 
dos  hespanhôes,  os  puzeram  em  alguma  pulicia.  Andam 
lodos  mm  ihxomui  vestidos,  lanlo  os  homens  corno  as  mu- 
Iheri^s,  as  quaes,  do  muito  algodão  que  cultivam,  tecem, 
nao  somente  a  roupa  de  que  carecem,  senão  outra  muita 
que  lhes  siTVe  para  o  trafico  com  m  nuções  vidinhas,  que, 
com  razão,  ambicionam  o  trabalho  de  tao  babeis  lecedores-^ 
faziím  pannos  mui  visLosos,  nao  silmi^nt^  tecidos  de  diversas 
cores,  mas  tauibem  pintados  com  as  mesmas  lao  subtilmente, 
queapen  IS  se  dislinguem  uns  dus  outros.  São  tao  sujeitos  e 
obedientes  aos  s.us  pnuei|)aes  caciqursque,  apen.iS  estes 
úm  uma  s6  pdavni,  logo  executam  o  que  Ihesordenami 
São  todos  de  cabega  chata,  que  causa  fealdade  nos  homens^ 
e  as  mulheres  melhor  a  encobrem  coai  o  muito  cabello ;  e 
está  entre  elles  Ião  iotroduzidu  o  uso  de  terem  as  cabeças 
chatas,  que,  desde  que  nascem  as  crianças,  as  mettem  em 
pretis:i,  colhenrlo-ns  pela  frente  com  uma  pequena  taboa, 
ç  pida  parle  do  cérebro  cora  outra  tão  grande,  que  ser- 
viíido-lhes   de  berço  reci  bem  todo  o  corpo  dos  ream- 
nascid<is,  os  quaes,  postos  de  cost;*s  sobre   as  refu  ridas 
tatuas  e  apc  rladus  fort  mente  com  a  outra,  ficam  com 
os    cérebros  e   as    testas  tão    cliatas ,   como   a   palma 
da  mão;  e,  como  estes  apertos  não  dão  lugar  a  que 

TOMO  XXTni»  p.  i  20 


—  220  — 

as  cabeças  cresçam  senão  para  os  lados.  Têm  a  ficar 
mui  desproporcionados,  de  sorte  que  mais  parecem  mitras 
de  bispos,  que  cabeças  de  gente.  Tê:n  por  uma  e  outra 
parle  do  rio  continuadas  guerras  com  as  províncias  es- 
tranhas, que,  pela  parte  do  sul,  são,  além  de  outras,  os 
curinas,  tintos  em  num^To,  que  não  somente  se  defendem 
da  parte  do  rio,  da  infiniti  multidão  dos  aguas,  mas  lam- 
bem contra  as  outras  niçõt^s,  que  pela  parte  da  terra 
lhes  dão  continuados  ataquu^s.  I^ela  parle  do  norte  têm 
estes  aguas  por  inimigos  aos  tecunas,  qii.',  segundo  boas 
informações,  não  são  menos  em  numero,  nem  menores 
em  brio  que  os  curinas,  pois  lambem  sustentam  guerras 
com  os  seus  inimigos  que  têm  pela  torra  dentro. 

53.* — uso   DOS   ESCRAVOS    QIE   CAPTIVAM 

Dos  escravos  que  estes  aguas  captivam  em  suas  bata- 
lhas, se  servem  para  tudo  o  de  que  carecem,  tendo-lhes 
tanto  amor,  que  comem  com  elles  em  um  prato;  e  fal- 
lar-Ihes  de  que  os  vendam  é  rousa  qu.»  muito  seutem, 
como  por  experiência  vimos  em  muitas  íKv.asiõ 's  Ch''ga- 
vamos  a  uma  pov(?aç;T  >  doestes  in  lios,  eraunís  recelndos 
não  somente  em  hoa  paz,  mas  taml):'!a  com  d:uiças  e 
demonstrações  de  grande  alegria;  oITereciani  quanto  ti- 
nham para  nosso  sustento  com  gnmle  lib Talidade  ;  com- 
pravamos-lhes  pannos  tecidos  e  laborados  que.  volunlaria- 
mento  davam;  tratava-se  <la  venda  das  canoas,  que  são 
os  seus  cavallos  ligeiros  em  que  andam,  immediatamente 
entravam  em  ajuste,  porém  fallamlo-lhes  dos  escravos  e 
rogando-lhes  encarecidamente  que  os  vendessem,  hoc 
opus  hic  labor  est;  desconliavan,  entresleciam-st'  e  pro- 
curavam todos  os  modos  de  enco!)ril-os,  e  se  esfi)rçavam 
poF  escaparem  d^enire  nós;  demonstrações  estas  de  que 


-  2Í1  — 

OS  estimam  em  mais,  e  sentem  mais  o  tendèl-os, 
que  desfazerem-se  de  tudo  quanto  possuem.  E  ninguém 
diga  que  nâo  quererem  os  ditos  indios  vender  os  seus 
escra>os  é  procedido  de  os  conservarem  para  os  comer 
nas  suas  borracheiras ;  dito  commum  e  sem  fundamento 
entre  os  porluguezes,  que  andam  mettidos  n'aquelle  tra- 
fico c  doesta  maneira  querem  corar  a  suainjustça:  por- 
quanto, ao  menos  n*esta  nação,  eu  averiguei  com  os  indios 
dos  que  Iviviam  subido  com  os  mesmos  portuguezes  e  eram 
naturaes  do  Para,  os  quaes,  fugidos  desde  Quito,  vieram 
a  ser  caplivos  d*estes  aguas,  com  quem  estiveram  8  mezes, 
e  em  sua  companhia  foram  a  algumas  guerras,  tempo  bas- 
tante para  conhecerem  seus  costumes.  Estes  asseguraram 
que  jamais  os  haviam  visto  comer  os  escravos  que  traziam, 
senão  que  o  que  usavam  com  os  mais  nrincipaes  e  va- 
lentes era  matal-os  por  occasião  das  suas  festas  e  reuniões 
goraos,  receiando  maiores  damnos  se  lhes  conservassem 
as  vidas,  e  doiiando  os  corpos  ao  rio,  guardavam  para 
trophéo  as  cab-ças  cm  suas  casas,  e  estes  em  as  que 
por  lodo  o  caminho  vinhamos  encontrando.  Não  quero 
comtudo  nogar  haver  n'este  rio  gente  cariba,  que,  na 
occasião,  não  lèm  horror  de  comerem  carne  humana:  o 
que  quero  persuadir  é  unicamente  que  em  todo  elle 
não  ha  açougues  públicos,  em  aue  todo  o  anno  se  pesa 
carne  de  in'li('S,  como  publicam  os  que  a  titulo  de  evi- 
tarem semelhante  crueMade  a  usam  maior  fazendo  com 
os  seus  rigores  e  ameaças  escravos  aquelles  que  o  não 
são. 

rii."— SITIO    FRIO   EM    QUE   SE   PODERÁ   COLHER  TRIGO 

A  cera  léguas  pouco  mais  ou  menos  das  primeiras  povoa- 
ções íKestes  aguas,  cm  (que  ficam  em  três  gràos  da  equino- 


—  2i2  - 

ciai  e  vem  a  ser  no  rinõn  ,  desta  dilatada  proTÍncia 
chegámos  ^  um  pi?o,  onde  estivemos  Ires  dias,  com  tanto 
frio,  que  aos  nascidos  e  criados  nas  t  rras  m.iis  frias  de 
Hespanha  era  necessário  ajuntar  alguma  roupa  â  ordi- 
nária: cansou-me  admiração  mudança  tâo  repentina  de 
temperatura,  e, perguntando  aos  naturaes  se  aqu^iie  frio 
era  extraordinário  n*aquella  povoação,  me  responderam 
que  não,  porque  todos  os  annos  por  espaço  de  (res  luas, 
que  assim  contam,  e  é  o  mesmo  que  dizer  três  mezes, 
experimentam  aquelles  frios,  que  conforme  o  que  aflBr- 
maram  são  os  mezes  de  Junho,  Julho  e  Agosto:  porém 
eu,  ainda  não  satisfeito,  quiz  com  m  lis  fundamento  in- 
quirir a  causa  de  frio  tã)  penetrante,  e  achei  que  esta 
era  uma  grande  serra  (ou  param  i),  que  da  banda  do 
sul  está  situada  pela  terra  dentro,  pela  qual  passam,  du- 
rante os  referrdos  três  mezes,  todos  os  ventos,  e  gela- 
dos estes  com  a  força  da  neve,  de  que  está  coberlí,  cau- 
sam taes  efTeitos  na  terra  circumvizinh.i.  E  sendo  assim 
não  ha  a  minima  duvida  que  alli  se  dará  mui  bem  o 
trigo  e  as  mais  sementes  e  fructas,  que  produz  a  co- 
marca de  Quilo,  a  qual,  ainda  quj  situada  debaixo  da 
linha,  semelhantes  ares  passados  por  nevados  serros  ha- 
bilitam a  taes  producções. 

55/— RIO   PUTUMAYO,  E   NAÇÕES   QUE   HA   n'eLLE  E  NO  YETACÉ 


A  dezeseis  léguas  doestas  povoações,  pela  parle  do  norte, 
desemboca  o  grande  rio  Pulumayo,  bem  conhecido  no 
governo  de  Popayan,  por  ser  tão  caudaloso,  que,  antes 
de  desaguar  no  das  Amazon:is,  ciilram  n'elle  trinta  cau- 
dalosos rios;  chamam-lhes  os  naturaes  n'esta  pangem 
Uza.  Desce  das  cordilheiras  de  Pasto  até  o  novo  reino 


-  4i:i  - 

de  Granadi:  tem  mnito  nuro,  e.  s^gundn  nos  afBrmâm, 
está  mui  lo  pnvnarto  de  geMiliõs.  pnr  ciiji  causa  sê  reti- 
raram com  aígoma  penla  os  hespanliòes  que  por  elle 
desceram  ha  poucos  annos.  Os  nomes  das  províncias 
qae  o  hihilam  sao  \urunas,  Guaraicús  Yacariguras,  Pa- 
rianas,  ZyifB,  Anais,  Cimas  e  os  qm  mais  no  principio 
ih*  um  e  outro  l:if1o,  coma  stmhoros  rf  pstfí  rio  o  povoam 
são  os  oma^nas,  a  an^m  os  asruiaâ  das  i)has  chamam 
omafjuPsytHá,  que  significa  omafrua^  verdadeiros.  A  50 
legms  d'esla  hoca,  p^la  partia  opposla.  encontramos  a 
boca  dô  um  formoso  e  ciutialoso  rio,  que,  trazendo  sua 
Driíí*^m  de  junto  dfl  Cusco,  fenere  no  das  Amazonas  na 
altnra  de  tr  s  cnios  e  meio  Chamam-lh^*  ns  natiiraps 
Yetacé:  é  enfre  elles  tamiííerarl «  as^ítm  pf*la  sua  rriió 
com>  pela  multidâi  de  irenles  que  sustenta»  a  saber:  ti- 
punas,  guanarús»  nzuanas,  momas,  naunns,  conomomas, 
mariannas,  e  os  ulliinos,  qne  mais  se  avizinham  ao^^hes- 
pinho  ^s  que  povoam  oPíTÍ!,são  os  omaí?u^s,  que  dizem 
ser  Renlo  rianissima  de  ouro,  que  em  grand^^s  pranchas 
Irazem  pendentes  das  orelhas  e  narizes:  e  se  me  não 
encana  o  mni  discurso,  seiíundn  o  que  li  na  historia 
do  tyranno  Lopo  de  Apuirre,  esta  era  a  província  dos 
omaguas.  em  cujo  descohri mento  ía  Pedro  de  Orril  i  m  lo- 
dido  pelo  vice-rei  do  Peni  em  consequência  das  muitas 
noticias  que  das  suas  riquezis  publicava  a  fama,  e,  se 
com  ella  nào  deu,  foi  porque,  tomando  a  sua  entrada  por 
um  br;»ço  de  rio,  que  sahe  a  algumas  léguas  abaixo,  quando 
desembocou  no  das  Amazonas,  jà  ficavam  estas  nações 
tão  acima,  que  lhe  foi  impossivel  dirigir-se  a  dias  cora 
receio  da  força  das  correntes  e  mui  principalmente  pela 
pouca  gente,  e  por  isso  já  os  seus  soldados  tilubeavara. 
E*  este  rio  Yetacé  mui  abundanie  de  peixe  e  caça,  e 
segundo  as  noticias  dos  seus]  moradores'  se  fpòdej  nave- 


—  224  ~ 

gar  por  elle  com  facilidade  em  razão  de  ter  sufficiente 
fundo  e  siTem  moderudas  as  correu Us. 

56/  — FiM   DA   província   DOS  AGUAS   E   RIO   DE   CUSCO 

Seguindo  o  curso  do  nos?o  rio  principal,  demos  em 
distancia  de  14  léguas  com  a  uUimn  povoação  dos  aguas, 
que  termina  com  um  lugar  mui  populoso  e  de  muitos 
soldados,  por  srr  a  primeira  força,  que  por  esta  parle 
resisle  aoimpeto  dos  seus  conlMrios;  dos  qu;ies,  pelo  es- 
paço de  3i  loguns,  nenhuns  povoam  ;is  margens  d'esle 
rio,  de  maneira  que  (rdle  so  avislem  os  seus  ranchos, 
mas  algum  tanlo  retirados  para  díiilro  na  terra  firme, 
por  pequimos  braços  sahem  a  buscar  o  quo  precisam. 
Kstes  são,  da  parte  do  norte,  os  curis  e  gu  yrabas,  e  da 
parle  do  sul,  os  cíchi^^uaras  e  tucuryis.  Porém,  ainda 
que  como  disse  não  pudemos  avislar  estas  nações  avis- 
támos a  boca  do  rio,  que  com  razão  podemos  chamar 
do  Cusco,  pois  segundo  um  regimííulo  d\'Sli  navegação, 
e  que  eu  vi,  de  Francisco  Orelhana,  eslá  norte  sul  com 
a  mesma  cidade  de  Cusco.  Entra  no  das  Amazonas  em 
5  gràos  de  altura  e  ás  i%  léguas  do  ultimo  povo  dos 
aguas;  chamam-lhe  os  nalurai'S  Yurúa;  é  muito  povoado 
de  gentio,  que  pela  banda  da  mão  dir/ita  entrando  por 
elle  acima  não  ha  outro  senã»  o  quví  já  disse,  habitnva  as 
ribeiras  do  Yetacé,  que  estendend(  -se  ale  assuns  margens 
fica  como  isolada  entre  os  dois  rios.  E  este  é  por 
onde  Pedro  de  Orríia  desceu  do  Peru,  se  a  minha  ima- 
ginação me  não  engana. 

37." — província  om)E  se  a<:iíol'  oiro 

A  28  léguas  mais  abaixo  do  rio  Yurúa  damesma  pnrle 
do  sul,  em  terras  dos  mais  altos  barrancos,  dá  principio 


-  225   - 

a  mui  populosa  nação  dos  curuziraris,  que,  seguindo  sem- 
pre uma  ribeira,  como  por  espaço  de  80  léguas,  Ião  con- 
tinuadas as  suas  povoações,  que  apenas  se  passavam  4 
horas  sem  que  de  novo  se  encontrassem  outras,  e  às  vezes 
por  espaço  de  meio  dia  inteiro  não  cessávamos  de  avistar 
os  seus  ranchos.  D'estes  os  mais  achávamos  sem  gente, 
que  por  elTeito  de  noticias  falsas  de  que  vínhamos  des- 
truindo, matando  e  captivando,  quasi  todos  se  haviam 
retirado  para  os  montes,  posto  que  ellL'S  são  natural- 
mente mais  esquivos  que  nenhuns  outros  d'esle  rio,  apezar 
de  que  demonstram  não  terem  menos  governo  e  policia, 
segundo  se  viu  pelos  mantimentos,  de  que  estavam  pro- 
vidos, pelas  alLias  de  suas  casas,  que  para  beneficio  das 
cousas  relativas  à  vida  eram  as  melhores  de  todo  o  rio. 
Tèm  nos  barrancos  onde  moram  mui  bom  barro  para 
todo  o  género  de  vasilhas,  e  aproveilando-se  d'elle 
fabricam  grandes  olarias,  em  que  fazem  (tinajas)  panellas, 
fornos,  em  (lue  cozem  as  suas  farinhas,  cuezelas,  jarros, 
librillos  eaté.certans  bem  formadas;  havendo  tudo  isto 
promplo  pira  trato  conimumdas  mais  nações,  que,  obri- 
gados das  necessidades  que  doestes  generts  têm  nas  suas 
terras,  vem  fazer  grandes  carregações,  dando  em  paga 
as  cousas  de  que  os  outros  carecem.  A  primeira  aldôa 
d'esta  nação  vindo  pelo  rio  abaixo  chamaram  os  por- 
tuguezes,  quando  subiram,  aldêa  do  Ouro,  por  haverem 
n'elle  achado  e  resgatado  algum,  que  em  pranchas  po- 
qu<mas  traziam  os  indíos  pendentes  dos  narizes  e  orelhas, 
o  qual  em  Quilo  foi  examinado,  e  se  achou  ser  muito 
de  vinte  e  um  quilates.  Como  os  naturaes  viram  a  am- 
bição dos  soldados,  que  tanio  empenho  mostravam  em 
fazer  toda  a  diligencia  para  que  lhes  trouxessem  muitas 
mais  d^aquellas  poquems  pranchas,  logo  as  escond.ram 
todas  sem  que  apparecessein  mais  algumas;  o  que  obser- 


—  22(1  — 

▼aram  tombem  na  Tolta»  de  sorte  que  ainda  que  vimos 
muitos  índios,  só  um  trazia  dois  brincos  de  ouro  e  bem 
pequenos,  e  que  eu  resgatei. 

58. '—MINAS  DE  omo 

Não  se  pôde  averiguar,  quando  subiu  a  armada,  com 
algum  fundamento,  cousa  alguma  das  que  encontraram 
n't'Ste  rio,  porque  jamais  tiveram  línguas,  com  os  quaes 
pudessem  fazer  a  necessária  inquirição;  e,  se  os  portugue- 
zes  julgaram,  puderam  dar  contii  de  al«,uima  cousa,  era  so- 
mente d'aquillo  que  por  signaes  haviam  entendido,  e  isto 
mesmo  tão  incerto  que  cada  um  interpretava  segundo  o 
que  tinha  no  seu  pensamento:  porém  na  volta  cessou  toda 
esta  incerteza  querendo  Nosso  Senhor  favorecer  esta  expedi- 
ção com  prevenil-a  ordinariamente  de  bonslinguas,pormeío 
dos  quaes  se  averiguou  tudo  o  que  so  contém  n'esUi  rela- 
ção. A  noticia  que  me  deram,  das  minas  de  que  se  tirava 
o  ouro,  é  a  seguinte:  Defronte  d'esla  aidéa,  algum  tanto 
mais  acima  da  parte  do  norle,  entra  um  rio  chamado 
Yuruparé,  subindo  pelo  qual  e  atravessa». lo  em  cerla  pa- 
ragem, por  t  rrn,  trís  dias  de  caminho  ale  cliegar  a  outro, 
que  se  chama  Yupuri,  por  elle  se  enira  no  Yquicós,  que  é 
o  no  do  Ouro,  onde,  junlo  a  uma  serra  que  alh  está,  os  na- 
turnes  tiram  gnmde  quantidade:  e  esl(í  ouro  todo  é  em 
(punias) e  grãos  ile  bom  lamanlio.dosqu:u's  formam,  â  força 
de  halélo,  as  pranchas,  de  que  já  fanámos,(lepeni!urando- 
as  nas  orelhas  e  narizes.  Os  nalnrai^s  que  conlralnn  com 
os  que  tiram  <'Sle'ouro  chnmainse  nianajús,  e  os  niesiiios 
que  hohil  nn  o  rio  e  se  rccupamnii  IípíiI  oyumí.^nans,que 
quer  dizer  tiradores  de  metal,  porque  yunia  é  metal,  e 
guaris  os  que  o  tiram,  e  dão  a  todos  os  metaes  o  mesmo 


—  227  — 

nome  genérico  de  yuma,  e  também  para  gualqnér  ferra- 
menta das  nossas,  como  eram  machados,  macbadinbas  e 
facas  se  serviram  da  mesma  palavra  yuma.  Diíficultosa  pa- 
rece a  entrada  a  estas  minas  pelos  inconvenientes  de  mudar 
rios,  e  abrir  caminbos  por  terra,  e  por  isso  não  me  satisfiz 
até  descobrir  outro  muito  mais  fácil,  de  que  adiante  fal- 
larei. 

SO.""— USAM  DAS  ORELHAS  E  NARIZES  FURADOS 


Estão  estes  bárbaros  nús  inteiramente,  tanto  os  bomens 
como  as  mulheres,  sem  que  a  sua  riqueza  lhes  sirva  de 
mais  que  de  um  pequeno  atavio,  com  que  ornam  as  orelhas 
e  narizes,  que  quasi  todos  têm  jã  furados,  e  nas  orelhas  é 
tal  o  enfeite,  que  a  muitos  lhes  cabe  um  punho  pelo  bu- 
raco, que  na  parte  inferior,  onde  costumam  pender  os 
(zarcillos)  tôm,  trazendo-o  ordinariamente  occupado  com 
um  (mazo  de  ajustadas),  que  n'elle,  por  gala,  costumam. 
Pela  banda  fronteira  a  estas  povoações  altas,  ha  terra  plana 
como  uma  mão,  e  tão  cercada  assim  de  outros  rios,  como 
dos  braços  que  o  Caquetá  tôm  pelas  suas  (orillas),  que  iso- 
lado em  grandes  lagos,  como  por  muitos  léguas,  até  que 
todos  encorporados  no  rio  Negro  se  reúnem  com  o  princi- 
pal. Estão  povoadas  estas  ilhas  de  muitas  nações,  porém  a 
que  mais  se  estende,  por  ser  a  mais  populosa,  é  a  dos 
zuanas. 

60.'— ENTRADA  PARA  AS  MINAS  DO   OURO 


A  4  léguas  d'csta  aldôa,  que  denominámos  do  Ouro,  pela 
parte  do  N.  sabe  a  boca  do  rio  Yupurã,  que  é  por  onde  se 

TOMO  XXVIII,  P.   I.  30 


—  228  — 

entra  no  do  Ouro.  Esta  é  a  mais  certa  e  direita  entrada 
para  com  brevidade  chegar  a  avistar  a  terra,  que  tâo  liberal 
oiTerece  seus  tbesouros.  A  altura  da  boca  d'este  rio  é  a 
de  dois  gràos  e  meio,  como  também  a  é  de  uma  povoação 
que,  4  léguas  mais  abaixo,  na  banda  do  sul  está  situada, 
sobre  uma  grande  (barranca)  ao  desembocar  d'elle  no  cau- 
daloso e  claro  rio  que  os  naturaes  chamam  Tapi,  e  tem  nas 
suas  margens  muita  multidão  de  gentio,  que  chamam  pa- 
guanas.  Sâo  todas  as  ti-rras,  que,  como  disse,  por  espaço 
de  80  léguas  occupa  esta  nação  dos  cruzirarís,  mui  altas, 
de  lindas  campinas,  e  pastos  para  gados,  arvoredos  nâo 
mui  cerrados,  abundantes  lagoas,  e  que  promettem  muitas 
e  boas  commodidades  aos  que  as  povoarem. 

6!  .''—LAGOA  DOURADA 

A  20  léguas  do  rio  Tapi  desagua  no  das  Amazonas  o 
Catuã,  que,  formando  na  boca  uma  grande  lagoa  d'agua 
verde,  traz  a  sua  origem  de  muitas  léguas  pela  terra  dentro 
para  o  sul,  tão  povoadas  as  suas  margens  do  barbares,  como 
todas  as  dos  outros,  posto  que  lhe  leva  a,vanlagem  na  mul- 
tidão de  diversas  nações  outro  rio,  que,  com  o  nome  de 
Araganatuba,  O  léguas  mais  abaixo,  sahe  á  parte  do  norte, 
pela  qual  também  se  communica  o  Yupurá,  de  que  acima 
falíamos.  Chamam-se  eslas  nações  yaguanais,  mucunas, 
mapiaríis,  aguainaíis,  huirunas,  mariruás,  yamoruas,  tera- 
rús,  siguyás,  guanapurls,  piras,  mopilirús,  yaguaranis, 
aturiaris,  macaguas,  masipias,  guayacaris,  anduras,  cagua- 
raús,  maraymuraas  e  guanibis.  Entre  eslas  nações,  que  to- 
das são  de  diíTerentes  línguas,  segundo  as  noticias,  para  a 
parte  do  novo  reino  de  Granada  está  a  desejada  lagoa  dou- 
rada, que  tão  inquietos  traz  os  ânimos  de  toda  a  gente  do 


-  220  - 


Peru.  Não  o  aflirmo  de  certo ,  porém  algum  dia  quererá 
Deus  que  saiamos  doesta  perplexidade.  Para  que  nlo  haja 
equivocaçâo  eora  o  nome  de  um  rio  que  sabe  pela  parte  do 
norte,  â  IG  léguas  do  Araganatuba,  e  se  cbama  como  elle, 
se  de?e  advertir  que  ambos  sao  um  mesmo  rio,  que,  por 

tdois  dist iodos  braços  de  um  mesmo  nomCp  desaguam  no 
das  Amazonas,  e  a  ^2  léguas  d*esle  uUimo  braço  se  ter- 
mina a  populosa  e  rica  nação  dos  euruziraris,  povoadores 
de  uma  das  melhores  porções  de  terra  (migajones)  que  en- 
contramos em  todo  este  grande  rio. 
nn 


!.*— rnoviNcjA  de  voriman 


A  2  léguas  mais  abaixo  começa  a  mais  nomeada  e  bellicosa 
nação  de  todo  o  rio  das  Amazonas,  e  com  quem  nas  suas 
primeiras  entradas  atemorisavam  a  toda  a  armada  portu- 
gucza,  a  saber,  a  de  Yoriman,  Está  na  banda  do  sul  occu- 
pando  nao  somente  terra  firme  das  suas  margens,  mas  tam- 
bem  grande  parte  das  suas  ilbas»  e^  ainda  que  de  compri- 
monto  se  eslrei!a  em  poucas  mais  de  6")  léguas,  como  se 
aproveita  das  ilhas  e  da  terra  firme,  está  tao  povoada,  que 
em  neDbuma  outra  parto  vimos  reunidos  mais  barbaroft 
Saocomraummente  mais  bem  parecidos  e  mais  bem  figura- 
dos que  os  outros ;  andam  todos  nus,  e  confiam  muito  no 
seu  valor,  porquanto  com  grande  segurança  entravam  e 
sabiam  por  entre  nós,  vindo  ao  arraial  diariamente  mais  de 
200  canoas  carregadas  de  meninos  e  mulberes,com  fruclas, 
pescados,  farinhas  e  outras  cousas,  que  com  bolorios» 
agulhas,  e  facas  se  lhes  resgatavam-  E'  esta  a  primeira  po- 
Toaçãn  d'esta  provincia,  situada  sobre  a  boca  de  um  rio 
crj^staIlino,que  mostra  ser  mui  caudaloso  pela  grande  força 
com  que  impelle  as  aguas  do  principal*  Sustenlarát  sem 


—  230  — 

duvida,  bem  como  todos  os  mais,  outras  innumerateis  na- , 
coes,  das  quaes  não  soubemos  os  nomes  por  caminharmos 
de  passagem  pela  sua  boca. 

63."*— UM  POVO  DE  MAIS  DE  UMA  LÉGUA  DE  COMPRIDO 

A  22  léguas  da  primeira  povoação  de  Yoriman  está  si- 
tuada a  maior  que  em  todo  o  rio  encontrámos,  occupando 
as  suas  casas  mais  de  uma  légua  de  comprimento,  e  não 
vive  em  cada  casa  uma  sô  familia,  como  ordinariamente 
acontece  na  nossa  Hespanha;  mais  ou  menos,  debaixo  de 
um  mesmo  telhado  vivem  quatro  e  cinco,  e  muitas  vezes 
mais,  do  que  se  poderá  inferir  a  multidão  que  ha  n'esta  po- 
voação ;  csperaram-nos  todos,  sem  faltar  pessoa  alguma, 
com  a  maior  serenidade,  e  deram-nos  todos  os  mantimen- 
tos, de  que  carecíamos.  Aqui  estivemos  cinco  dias,  durante 
elles  se  fizeram  para  matalotagem  mais  de  quinhentas  fan- 
gas  de  farinha  de  mandioca,  com  as  quaes  tivemos  que 
comer  por  todo  o  caminho  restante,  o  qual  proscguimos, 
topando  mui  a  miúdo  povoações  d*esta  mesma  nação.  Po- 
rem onde  habita  a  sua  maior  força,  a  30  léguas  mais  abaixo 
em  uma  grande  ilha,  cercada  de  um  braço,  que  deita  o  rio 
principal  em  busca  de  outro,  que  lhe  vem  pagar  tributo ;  e 
também  pelas  margens  d*este  novo  hospede,  aonde  são 
tantos  estes  naturaes,  que,  com  razão,  ainda  que  não  fosse 
mais  que  pela  sua  multidão,  são  temidos  e  respeitados  de 
todos  os  outros. 

64.*— RIO  DOS  GIGANTES 

A  10  léguas  do  referido  sitio  termina  a  província  de 
Yoriman,  e,  passadas  outras  duas,  desemboca  (da  parte  do 
sul)  um  famoso  rio,  que  os  indios  chamam  Cucbiguaoz. 


—  Ui  — 

l»',  navegarei,  ainda  que  em  partes  com  algumas  pedras ; 
tem  moito  pescado,  grande  quantidade  de  tartarugas,  abun- 
dância de  maiz  c  inandioca,  e  tudo  o  necessário  para  faeili- 
tar  a  sua  eutrada.  Está  povoado  este  rio  por  vãrías  nações » 
que  principiando  pela  sua  boca,  proseguindo  por  elle  acima, 
sâo  as  seguintes:  os  cuchigueras,  que  tomam  o  nome  do 
rio,  cumayaris,  guaquiris^cuyariyâyanas,cumcurús,  que- 
tausis,  mutuanis,  e  por  fim  e  remate  de  todas  eslas  oscuri- 
guercs,  que,  segimdo  as  informações  dosqueos  liavjam 
visto,  e  que  s@  otTereciam  a  levar-nos  às  suas  terras»  sao 
gigantes  da  16  palmos  da  altura,  e  mui  valentes  f  andam 
níis  \  trazem  grandes  (pateras)  de  ouro  nas  orelhas  o  nari- 
zes, e  para  chegar  aos  s*3us  povos  sao  necessários  dois  me- 
26S  continuos  de  caminho,  desde  a  boca  do  Cuchiguara. 
Pelo  das  Amazonas  abaixo,  da  banda  do  sul,  correm  os  ca- 
ripunas  e  zurinas,  íí^nte  a  mais  curiosa  que  lia  em  todo 
elle,  em  lavrar  com  as  raaos,  som  mais  ferramentas,  que 
as  que  acima  disse ;  fa^gem  bancos  feitos  em  forma  de  ani- 
maes,  com  tanto  primor,  e  tio  commodos  para  ter  o  corpo 
descançado,  que  nem  a  commod  idade  nem  o  engenho  po- 
derá lembrar  melhores*  Lavram  (estolicas)  que  saoas  sras 
armas,  de  pàos  mui  vistosos,  e  tão  delicadamente,  que,  com 
razão,  as  ambicionam  as  outras  nações;  e  o  que  mais  ad- 
mira, 6  fazerem  de  um  tosco  lenho  um  polosinho  (idolillo) 
tão  ao  natnral,  qua  n'elles  achariam  que  aprender  muitos 
dos  nossos  esculplores.  E  não  somente  todas  estas  obras 
lhes  servem  de  entretenimento  e  commodidade  própria, 
mas  também  do  muito  proveito,  achando  a  troco  d'ellas  @n* 
tre  as  outras  nações  tudo  de  que  carecem- 
os/—rio  BAsoaunu*  Ê  SUAS  naçoeí  • 


A  Sã  léguas  do  lugar  em  que  desagua  este  rio  Cucbi- 


-  232  - 

guará,  desagua  também,  da  parlo  do  norte,  entro  com  o 
nome  de  Basururú  entre  os  naluraes,  o  qual  dividindo  a 
terra  do  interior  em  grandes  lagoas  a  reparte  toda  em 
muitas  ilhas,  as  quaes  todas  são  povoadas  por  innumeraveis 
nações.  São  as  terras  altas,  e  nunca  íicam  debaixo  das 
aguas  por  maiores  que  sejam  as  inundações ;  mui  fértil 
de  mantimentos,  assim  de  msúízes,  mandioca  e  fructa,scomo 
de  caça  e  pescados,com  que  os  naluraes  vivem  fortes,  e  se 
multiplicam  todos  os  dias  com  rapidez.  Chamam-se  geral- 
mente todas  as  nações,  que  habitam  este  dilatado  sitio,  ca- 
rabuyanas ;  e  em  particular  as  provincias,  em  que  estão  di- 
vididas, são  as  seguintes :  caraguanas,  pocoanas,  urayaris, 
masucamanas,  quererús,  cotecarianes,  moacaranas,  ororu- 
pianas,  quinarupianas,  luinamainas,  araguanayas,  marí- 
guyanas,  yaribaríis,  yanuaguacus,  cumaruruayanas  e  cu- 
ruanaris,  e  são  estes  indios  de  arco  e  flecha ;  ha  entre 
alguns  d'elles  ferramentas  de  ferro,  como  sâo  machados, 
machadínhas  e  facas,  e  perguntando  com  cuidado  pelos 
linguas  d'onde  lhes  vêm,  respondem  que  as  compram  dos 
naluraes,  que  por  aquella  paríe  estão  mais  próximos  ao 
mar,  aos  quaes  as  dão  uns  homens  brancos  como  nós  ou- 
tros, que  usam  das  mesmas  armas,  espadas  e  espingardas, 
que  nas  cosias  do  mar  têm  a  sua  habitação,  e  que  unica- 
mente se  distinguem  de  nós  no  cabello,  que  em  lodos  ge- 
ralmente é  louro :  signaes  estes  bastantes  para  induzir  que 
são  os  hollandezes,  que  junto  i  boca  do  rio  Doce,  ou  de 
Ftílippe,  ha  dias  tomaram  posse,  e  no  anno  de  1638  deram 
com  grande  força  sobre  Guyanna,  jurisdicção  do  novo  reino 
de  Granada,  e  não  somente  d'ella  se  apoderaram,  mas  lam- 
bem foi  tão  de  repente,  que,  não  podendo  os  nossos  tirar  o 
S.  Sacramento,  ficou  captivo  em  poder  de  seus  inimigos, 
os  quaes.  como  sabiam  quão  estimada  é  entre  oscalholicos 
aquella  prenda,  esperavam  grande  resgate  por  ella,  o  qual 


—  233  - 

se  lhes  estava  apromptando  quando  sabimos  d'aquellas 
partes :  eram  boas  companhias  de  soldados,  que  com  animo 
cbristão  iam  gostosamente  dar  as  vidas  para  resgatar  a  seu 
senhor,  com  cujo  auxilio  indubitavelmente  conseguiram 
effectuar  tão  bons  desejos. 

66.* — RIO  NEGRO 

Não  bem  trinta  léguas  mais  abaixo  do  Basururú,  da 
mesma  banda  do  norte  e  em  altura  de  4  gràos  sabe 
ao  encontro  do  das  Amazonas,  o  maior  e  o  mais  for- 
moso rio  que  pelo  espaço  de  mais  de  1 ,300  léguas  lhe 
rende  vassallagem,  posto  que,  como  tão  poderoso  na 
sua  entrada,  que  tem  légua  e  meia  de  largura,  parece 
envergonhar-se  de  reconhecer  outro  maior,  e  ainda  que 
o  Amazonas  com  todo  o  seu  cabedal  lhe  lança  os  braços 
não  se  querendo  sujeitar  hombro  por  hombro,  sem  o 
mínimo  respeito,  senhoreado  de  metade  de  todo  o  rio, 
o  acompanha  por  mais  de  12  léguas,  distinguindo- se 
claramente  umas  aguas  das  outras,  até  que  não  soffrendo 
o  das  Amazonas  tanto  orgulho,  revolvendo-se  nas  suas 
turvas  ondas,  o  faz  entrar  no  caminho,  e  reconhece  por 
senhor  aquelle  que  o  pretendia  avassallar.  Chamaram 
os  portuguezes  e  com  muita  razão  a  este  grande  rio 
Negro,  porquanto  na  sua  boca,  e  muitas  léguas  acima,  o 
seu  muito  fundo  e  a  claridade  das  aguas,  que  de  im- 
mensos  lagos  n'elle  vertem,  as  fazem  parecer  tão  negras, 
como  se  realmente  fossem  tintas,  sendo  aliás  crystallinas. 
Faz  o  seu  curso  de  oeste  a  este,  nos  seus  princípios, 
ainda  que  as  voltas  são  tantas,  que  em  distancias  bem 
pequenas,muda  de  rumos  e  às  vezes  bem  ditlerentes,  sendo 
o  que  traz  muitas  léguas  antes  de  entrar  no  das  Ama- 
zonas de  poente  ao  oriente.  Os  seus  habitantes  o  deno- 


—  234  — 

minam  Curíguacunã.  Os  Tupinambares,  de  quem  adiante 
fallaremos,  o  chamam  Uruna,  que  na  sua  lingiia  qaer 
dizer  Agua  negra,  e  também  n*esta  paragem  chamam 
ao  Amazonas  Paranaguassú.qne  significa  rio  grande,  para 
distincção  de  outro  menor,  porém  mui  caudaloso,  a  que 
chamam  Paoznamerim,  isto  é,  rio  pequeno,  que  desagua 
na  banda  do  sul,  uma  légua  antes  do  rio  Negro,  que 
aSirmam  estar  mui  povoado  de  dillerentes  nações,  das 
quaes  a  ultima  anda  vestida  o  usa  de  chapéos,  signa! 
certo  de  que  se  approximam  dos  hespanhoes  do  Peru. 
São  grandes  provincias  as  que  estuo  nas  próprias  aguas 
do  rio  Negro,  a  saber :  Canizuaris,  Aguayras,  Yacuuca- 
raes,  Cakuaypites,  Mauacarús,  Yarim;is,  Guanamas,  Cara- 
panaaris,  Guarianacaguas,  Azerabaris,  Curupatabas ;  e  as 
que  primeiro  povoam  um  braço,  que  este  rio  arroja, 
por  onde,  segundo  informações,  se  vai  sabir  ao  Rio  Grande, 
em  cuja  boca  no  mar  do  norte  estão  os  hoUandezes, 
são  os  guaranaquazanas.  Todas  estas  naçGes  usam  de 
arco  e  frcxas,  muitas  das  quaes  bervadas  com  veneno. 
As  terras  iVesie  rio  são  todas  altas  e  de  magnifico  torrão 
e  cultivadas  prometlem  dar  quaesquer  fruclos,  e  em  al- 
gumas partes  os  da  mesma  Europa;  tem  muitas  e  boas 
campinas  cobertas  de  pastos  próprios  para  n'elles  pasta- 
rem innumeraveis  gados :  produzem  grandes  arvores  de 
preciosas  ma<leiras  para  embarcações  e  edifícios,  que  com 
a  muita  pedra,  do  que  alli  ha  abundância,  se  podeiio 
facilmente  edificar.  Todas  as  margens  doeste  rio  estão 
povoadas  de  muita  caça  de  todo  o  género,  e  posto  que 
o  pescado  n'csle  rio  não  seja  tanto  como  no  Amazonas 
cm  razão  de  serem  as  su  is  aguas  mui  claras,  nos  lagos, 
que  tem  pelo  interior,  sempre  se  colhe  pescado  ás  mãos 
cheias.  Tem  na  sua  embocadura  accommodados  sítios  para 
fortalezas  e  muita  pedra  para  as  edificar,  por  meio  das 


—  235  — 

qoaes  se  poderá  facilmente  defender  a  entrada  ao  ini- 
migo, que  por  elle  quizer  descer  ao  principal,  posto  que 
eu  julgo  que  não  n^esta  paragem  mas  muitas  léguas  mais 
para  o  interior ;  no  braço  que  desemboca  no  Rio  Grande, 
que,  como  disse  desagua  no  oceano,  onde  mais  segura- 
mente se  deveria  pôr  toda  a  defesa,  ficando  inteiramente 
cerrada  ao  inimigo  a  passagem  para  todo  este  novo 
mundo,  porquanto  é  mais  que  provável  que  ambi- 
cioso algum  dia  a  intente.  Não  me  atrevo  a  afirmar 
6e  o  Rio  Grande,  em  o  qual  desemboca  este  braço  do 
Rio  Negro,  é  o  Doce  ou  de  Felippe,  posto  que  muito  me 
inclino  a  este  segundo,  segundo  muito  boas  demarcações, 
pois  que  este  é  o  primeiro  rio  considerável,  que,  pas- 
sadas algumas  léguas,  entra  no  mar  além  do  Cabo  do 
Norte :  com  tudo  posso  affirmar  positivamente  que  não  é 
o  Orinoco,  cuja  principal  boca  flca  fronteira  à  ilha  da 
Trindade,  mais  de  cem  léguas  para  baixo  onde  desagua 
o  rio  Felippe,  pelo  qual  sahiu  do  mar  do  norte  Lopo 
d^Aguirre,  e,  assim  como  este  navegou,  também  qualquer 
outro  poderá  entrar  por  onde  uma  vez  se  abriu  o  ca- 
minho. 

67.*  —  INTENTAM    OS    PORTUGUEZES  ENTRAR  PELO  RIO  NEGRO 

Estava  já  a  armada  portugueza  de  torna  viagem  na 
boca  do  Rio  Negro  a  12  de  Outubro  de  1639,  quando  os 
soldados  reputando-se  já  ás  portas  de  suas  casas,  e,  vol- 
vendo os  olhos  não  sobre  o  que  traziam,  que  nada  era, 
porém  sim  sobre  as  per.las,  que  no  espaço  de  mais  de 
dois  annos  tinham  soffrido,  as  quaes  não  eram  pequenas, 
e  convencidos  por  outro  lado  que  os  serviços  feitos  a 
Sua  Magestade  n*estas  conquistas  nenhuma  remuneração 
teriam  em  terra,  onde  os  que  mais  sangue  têm  derra- 

TOMO  XXVIII,  P.  I.  31 


—  2:16  — 

iBido  em  semelhantes  occasiões  eslão  já  loiqniladoft  e 
morrendo  de  fome  em  razão  de  não  comparecerem  pe- 
nnie  qnem  os  [KvJên  premiar,  delerminanm  persuadir 
ao  capitao  mor  a  queji  qae  a  saa  pribreza  os  obrigan 
a  basearem  algum  remédio  para  melhorar  a  saa  sorte,  e 
tísIo  as  noticias  d.>s  muitos  escnTi^  que  no  ínleríord» 
Rio  Seçro  p.^ssuiam  •:»>  natunes.  offereíen  Jo-se-lhcs  por- 
tanto oocasilj  opp^>rMni,  nío  permittisse  deixaJ-a  perder 
Sim  J'elÍÃ  se  apr:»Teiiir.  :•  ^iêsse  orlem  àe  que  sese- 
Mi»e  Aqnella  Jerr>la,  p^rjuantj  com  os  maitos  escraTos, 
qur  -leste  rí.i  se  tirassem.  :iiri'1i  que  nids  mais  leTassem. 
s iriam  t>em  receb:õ:ts  n:*  Pari.  e  lIo  os  lerando  serian 
Cv>riSiieraios  com:*  ho?a:ns  Je  pouc-^  monta,  em  raiio 
dr  que.  bi^enJ^  ^^assil'  pcT  túLtas  e  tão  differeoles 
nj-jL*es,  e  en-vTitràJ^  U:.v?s  eN:riT'>s.  se  apresentaram 
oa  as  mios tasiís.  â.vresc-rn !o  haxer  nestas  conquistas 
b>meLS  que  iS  parias  dr  suas  projT:  js  cisas  ^^abem  Cuer 
escrav:r?  pm  >  s  u  Scrr:;:^.  O  capitã >-m->r  parecia  querer 
annair  a  sr-meihiTtlr  prxosta.  tai^rz  «^«*>ríue  elle  era  sõ 
e  :f  s  ::í:  s  ::^i;::.?:  -.  :  :  iss:-  i^rzi.::.!:  que  sepre- 
; -.rií^srz:   -f   ^t'í.-.  :  ::z:z       y-,'^::  -.Tí  ::i^:TÁYel  pui 


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-  237  - 

68."*—  REQUERIMENTO   AO  EXERCITO 

Os  padres  Cbrístovão  d*AcuDa  e  André  d'Arlieâa,  re- 
ligiosos da  companhia  de  Jesus,  pessoas  a  quem  El  Rei 
Nosso  Seuhor,  por  uma  real  provisão  dada  pela  sua  real 
audiência  da  cidade  de  Quito  de  S.  Francisco  nos  reinos 
do  Peru,  a  21  de  Janeiro  do  presente  anno  de  1639, 
manda  e  encarrega  que  vindo  em  companhia  d'esta  ar- 
mada porlugueza  por  todo  este  grande  rio  das  Amazonas, 
novamente  descoberto,  tomemos  noticia  sufficiente  e  a 
mais  clara  possivel,  das  nações  que  n'elle  habitam,  dos 
rios  que  n'elle  confluem,  e  de  tudo  mais  necessário  para 
que  no  real  conselho  das  índias  se  faça  um  pleno  con- 
ceito d'esta  grande  emprcza,  e  que,  havendo-se  assim 
executado,  passemos  com  a  maior  brevidade  à  Hespanha 
a  dar  conta  a  Sua  Magestade  de  tudo  o  referido,  sem 
que  ninguém  nos  possa  obstar  a  que  assim  o  façamos*,  o 
que  tudo  o  mais  extensamente  consta  da  dita  real  pro- 
visão, que  em  nosso  poder  trazemos,  e  estamos  promp- 
tos  a  mostral-a  a  todos,  assim  como  já  a  temos  mos- 
trado aos  principaes  chefes  do  exercito,  ouvindo  dizer 
a  muitos,  e  vendo  que  as  velas  estão  dispo*stas  para  na- 
vegar, que  o  capitão -mór  Pedro  Teixeira,  capilães  e 
olTiciaes  maiores  da  dita  armada,  em  cuja  companhia 
vimos  de  ordem  de  Sua  Magestade,  intentam  dilatar  mais 
a  viagem  entrando  pelo  Rio  Negro,  em  cuja  boca  pre- 
sentemente nos  achamos,  com  o  designio  de  resgatar 
escravos  para  os  levar  como  taes  para  as  suas  fazendas 
do  Pará  e  Maranhão,  como  costumam  fazer  aos  naturaes 
que  habitam  nos  seus  coníios,  e  porquanto  n'esta  entrada 
se  haja  de  gastar  forçosamente  muito  tempo,  segundo 
affirmam  pessoas  de  experiência,  e  hajam  de  haver  muitos 
outros  ínconvenienies,  por  cumprirmos  com  a  nossa  obri- 


-  238  - 

gação,  e  para  deseocarregar  nossas  consciências  perante  a 
real  pessoa  de  Sua  Mageslade,  em  seu  nome  faltando  com  o 
acatamento  devido,  requeremos  ao  capilão-mór  Pedro  Tei- 
xeira, ao  coronel  Bento  Rodrigues  de  Oliveira,  ao  sargento- 
mórFelippe  de  Mattos,  aos  capitães  Pedro  da  Acosta,  e  Pe- 
dro Bayâo,  e  aos  m  lis  officiaes  vivos,  que  actualmente  estão 
governando  este  exercito  na  boca  d'este  Rio  Negro,  que, 
porquanto  Sua  Magestade  já  tem  noticia  pela  sua  real  au- 
diência de  Quito,  e  pelo  seu  vice-rei  do  Períi,  dos  despa- 
chos das  nossas  pessoas  para  os  fins  acima  mencionados,  e 
da  brevidade  com  que  se  esperava  chegaríamos  á  sua  real 
presença,  pois  que,  segundo  o  dito  capilão-mór  Pedro  Tei- 
xeira, e  muitos  outros  de  sua  companhia,  asseguraram  aos 
senhores  da  dita  real  audiência  de  Quito,  haviamos  de  estar 
no  Pará  dentro  de  dois  mezes  e  meio,  e  de  hoje  a  seis  dias 
se  completam  oito  mezes  depois  da  sabida  da  dita  cidade 
de  Quito,  e  faltem  ainda  600  léguas  desde  este  ponto 
até  ao  Pará;  e  de  semelhante  demora  possam  resultar 
muitos  e  graves  inconvenientes  a  saber :  o  dilatar  Sua 
Magestade  a  fortificação  d' este  rio,  cujo  descobrimento 
ha  tantos  anpos  ardentemente  deseja,  esperando  que  nós 
cheguemos  com  brevidade  com  as  necessárias  informa- 
ções ;  no  entretanto  apoderar-se  o  inimigo  das  suas  prin- 
cipaes  entradas,  do  que  resultará  gravissimo  damno,  a 
sua  real  coroa,  ao  mesmo  tempo  que  tão  bons  e  esforça- 
dos capitães,  como  aqui  vão,  farão  sem  duvida,  por  effeito 
de  semelhantes  demoras,  grande  falia  à  fortaleza  do  Pará, 
da  qual  se  o  inimigo  a  atacar  estando  elles  ausentes,  será 
mui  certa  a  perda :  além  do  que  os  indios  d'este  Rio 
Negro  são  na  opinião  de  todos  mui  bellicosos,  de  arcos 
e  frechas  envenenadas,  com  as  quaes  nos  poderão  fazer 
muito  damno,  e  muito  mais  vendo  a  poiíca  força  dos  indios 
amigos  que  nos  ficaram,  muitos  dos  quaes  estão  doentes, 


—  239  — 


e  outros  são  rapazes  sem  experiência  da  guerra,  e  todos 

em  geral  sem  n  iiiinima  vontade  de  emprehenderseme- 
Ihantti  entrada,  podendo  consequentemente  resultar  a  perda 
total  d' este  exercito»  sendo  mais  provável  que,  indo  cora 
pouca  Yontade,  talvez  nos  fujara»  assim  como  têm  fu- 
gido os  outros  dos  que  sahiram  do  Pará,  e  mui  principal- 
mente vendo -se  quasi  às  portas  das  suas  casas.  Aqui 
advertimos  que  os  escravos,  que  se  pretendem  resgatar, 
talvez  em  boa  consciência  não  possam  ser  considerados 
como  taes  (a  excepção  de  nos  podermos  ser\ir  de  alguns 
para  Imguas),  porquanto  esta  lerra  é  nova,  e  ainda  que 
ba  decretos  de  Sua  Magestade  (como  se  diz)  para  se  ti- 
rarem escravos,  somente  seraelliante  faculdade  é  per- 
mittida  nas  circum vizinhanças  do  Para  e  Maranhão,  e 
com  as  mais  circumstancias,  que  para  isso  se  requerem* 
e  os  d*esle  rio  não  se  sabe  a  que  dislriclo  ou  jurisdic- 
ção  pertençam :  e  mesmo  dado  o  caso  de  que  nenhuma 
das  referidas  razões,  faça  devida  fnrça,  e  que  se  con- 
siga o  fim  desejado,  de  tirar  grande  quantidade  de  es- 
cravos» estes  mesmos,  em  razão  das  poucas  forças,  que 
presentemente  lemos  para  sua  guarda  e  nossa  defensa, 
tdlvez  possam  a  vir  a  sor  a  total  ruiua  e  destruição  de 
todos.  Portanto  e  por  tudo  mais  que  oíTerecer-se  possa 
em  deserviço  das  duas  Magestades,  divina  e  humana,  e 
prejuízo  da  salvação  de  tanta  immensi dado  de  almas,  como 
ha  n'este  rio,  novamente  uma  e  muitas  vezes  tornamos 
a  requerer  ao  dito  capilão-mòr,  corunel,  sargento*mòr, 
capitães  e  officiaes  vivos  que  presentemente  governam 
este  exercito,  que,  não  dando  lugar  a  dilações,  que  não 
sejam  do  serviço  de  Deus  e  de  Sua  Magestade,  com  toda 
a  brevidade  se  procure  proseguir  na  nossa  viagem  para 
ú  Pará,  para  d'alli  passarmos  a  llespanha  a  cumprir 
com  o  Um  e  obrigações  da  nossa  legacia,  c  se  possa  acudir ; 


-  240  - 

haY6Ddo-a  assim  a  bem  á  Sua  Mageatadet  a  salvaçio  á% 
tantas  almas,  que  se  tem  descoberto  n'este  novo  mundo» 
as  quaes  jazem  miseráveis  nas  sombras  da  morte.  E  se  o 
que  fica  dito  nâo  fõr  sufficiente  a  obrigar  a  que  todo9 
juntos  prosigamos  a  nossa  viagem  com  a  mencionada 
brevidade,  requeremos  de  novo  com  a  real  provisão,  qu0 
para  isto  trazemos  ao  capitão-mór  Pedro  Teixeira  e  aos 
mais  oíQciaes  do  exercito,  que  para  isso  poderem  coope-> 
rar,  que,  dando-nos  tudo  o  necessário  e  a  boa  passagem  para 
resguardo  das  nossas  pessoas,  se  nos  permitia  proseguir 
sem  demora  nossa  viagem,  que,  ainda  que  seja  com  riscos 
de  inimigos,  preferimos,  por  cumprir  com  o  que  Sua  Ma- 
gestade  nos  manda  na  sua  real  provisão,  e  fazendo-se 
o  contrario,  protestamos  de  todos  os  damnos  e  incon- 
venientes que  da  demora  que  houver  n*esla  jornada  se 
seguirem,  e  de  darmos  d'isso  conta  ao  real  conselho  das 
índias  e  á  real  pessoa  de  El-Rei  nosso  senhor,  como 
nos  é  expressamente  ordenado.  E  ultimamente  para  res- 
guardo de  nossas  pessoas,  e  demonstração  de  que  dese- 
jamos cumprir  pontualmente  tudo  quanto  nos  foi  orde- 
nado, pedimos  se  ordene  ao  escrivão  nomeado  d*este 
exercito  nos  dê  fé  de  tudo  o  que  se  contém  no  nosso 
rcquerimonlo  e  do  que  nos  fôr  respondido,  ele. 

60."— PROSEGUE-SE   NA   VIAGEM  ,    E   1)0   RIO  DA   MADEIRA 

Feito  este  papel  e  communicado  ao  capilão-mór,  que 
muito  se  alegrou  de  ter  quem  se  pozesse  pela  sua  parte, 
e,  reconhecendo  a  força  das  razões  mandou  immediata- 
menle  ferrar  as  velas,  cessar  com  as  prevenções,  e  dis- 
por tudo  para  que  no  dia  seguinte,  tornando  a  desembocar 
pela  boca  do  Kio  Negro,  proseguíssemos  lodos  pelo  das 
Amazonas.  Assim  o  fizemos,  e  ás  4^  léguas  demos  com 


-  241  — 

o  gratide  rio  da  Madeira,  que  os  portuguezes  asdim  de- 
nominaram em  razão  da  maita  e  grossa  que  traziam 
quando  o  passaram,  porém  o  seu  nome  próprio  entre 
os  naturaes  que  o  habitam  é  Cayari ;  desce  da  parte  do 
sul,  e,  segundo  o  que  averiguamos,  é  formado  por  dois 
caudalosos  rios,  que,  em  distancia  de  algumas  léguas  pelo 
interior,  se  lhe  reúnem,  pelos  quaes,  segundo  boas  de- 
marcarcações,  com  maior  brevidade  que  por  outra  qual- 
quer parte  se  ha  de  descobrir  sabida  para  os  mais  pró- 
ximos rios  da  comarca  do  Polosi.  Das  nações  d*este  rio 
que  são  muitas,  as  primeiras  se  chamam  zurinas,  ecayanas 
è  logo  se  vão  seguindo  os  ururiahús,  anamaris,  guari- 
numas,  curanaris,  erepunacas  e  abacatis,  e,  desde  a 
boca  d'este  rio  correndo  pelo  Amazonas  abaixo,  o  povoam 
os  zapucayas,  urubutingas,  que  são  mui  curiosos  em 
lavrar  cousas  de  madeira,  a  estas  seguem-se  os  guara- 
naguacas,  maraguas,  guimaús,  burais,  punonys,  oregua- 
tús,  aperas  e  outros  cujos  nomes  não  pude  com  cer- 
teza averiguar. 

70.** — ILHà    GRANDE   DOS  TU PIN AMBAS 

A  28  legôas  da  boca  d'este  rio,  caminhando  sempre 
pela  mesma  parte  do  sul,  está  uma  formosa  ilha,  que  tem 
60  de  comprimento,  e  consequentemente  mais  de  100 
de  circuito,  povoada  toda  dos  valentes  tupinambàs, 
gente  que  das  conquistas  do  Brasil,  em  terras  de  Pernam- 
buco, sahiram  derrotados  ha  muitos  annos,  fugindo  ao 
rigor  com  que  os  portuguezes  os  iam  sujeitando.  Sahi- 
ram era  tão  grande  numero,  que,  despovoando  ao  mes- 
mo 84  Aldêas  onde  estavam  situados,  não  ficou  um  só 
d'elles,  trazendo  em  sua  companhia  as  próprias  crianças. 
Foram  deixando  sempre  à  sua  mão  esquerda  as  fraldas  da 


-  242  — 

cordilheira,  qui\  vindo  desde  o  Estreito  de  Magalhães, 
cinge  toda  a  America,  e  atravessando  as  cabeceiras  de 
quantits  rios  d*ella  descem  ao  Oceano,  chegaram  alguns  a 
communicarem-se  com  os  hespanhòes  do  Peru.  qae  ha- 
bitam nas  cabeceiras  do  rio  da  Madeira,  e  alli  estiveram 
algum  tempo,  até  que,  açoutando  um  bespanhol  a  om 
Índio  em  razão  de  Ibe  haver  morto  umi  vacca,  aprovei- 
tando-sê  da  commodidade  do  rio,  se  abandonaram  todos 
liS  suas  correntes,  e  vieram  dar  com  a  ilha,  que  presente- 
mente habitam.  Faliam  estes  índios  a  língua  geral  do  Brasil 
a  qual  é  vulgar  entre  todos  os  d;is  conquistas  do  Maranhão 
e  Pará .  Dizem  também  que,  como  sahiram  tanttis  que  por 
aquelles  desertos  se  não  podiam  sustentar  todos  reunidos, 
se  repartiram  successivainente  durante  aquelle  tãodíLitaâo 
caminho,  que  pelo  menos  seria  de  900  léguas,  ficando  uns 
a  povoar  umas  terras,  e  outros  outras,  e  por  isso  d*elles  es- 
tavam bem  povoadas  todas  aquellas  cordilheiras.  São 
genle  de  grande  brio  na  guerra,  e  bem  o  demonslraram 
os  que  checaram  a  cslas  paragens,  onde  presentemente 
habilani.  porquanto.  s-nd'.»elles  s-?m  comparaçriO  em  muito 
menornu:iiero que  o  dosn.itiiries  dVsleri «.  de  t  il  s-»rte  os 
assolaram,  e  sujeitaram  a  loi- »s  jiquell'.>  rom qu-m  tiveram 
g'3érr:i,  qu\ consumindo  n:iç"»-?s  iiiteini>,  j  oulras  obriga- 
ram a  iiei\'ir  por  mel  •  •»  luirar  do  sen  ii:i>cimêiito,  o  a  ir 
pér.-irriruiii.»  terras  estranli.i>.  Is.mi  estes  inàios  de  arco 
e  frL':li:i,  qíiè  í  jin  u^^ftrez  i  •iispiírám  :  são  de  Cjr:t'*i!i"?s 
nobres  e  aiíd.il^:d  .s,  >••  N-m  que,  como  j.t  quasi  tvdi>s  os 
quê  preséir.êmeiítê  exist-rnsfu lilli  ■>  e  neios d^is  primeiros 
pOToadoít^,  jA >í'  v.v.»  :4.L-':irui-."!;iri'.1o  u>  !míxl7:íS  e  manhas 
dos  d.i  terrji.  c-iin  e'':j»  s.irijne  êsLVuiiisurtJos.  M^stra- 
raiíj-ijos  iod.-s  ímid-  Aj.iSáll".».  'linik»  >ijn:i».s  de  que 
brevemente  se  r^luziri^Lm  .i  vivtr  enirê  os  indios  amigos 
do  Pará :  cousa  que  será  sêm  duvida  muito  ulil  para  con- 


-  243  — 

quistar  todas  ãs  mais  nações  d*este  rio»  se  se  houver  de 
povoar,  porquanto  nenhuma  ha  que  não  se  renda  apenas 
ouvir  o  nome  de  tupinambás. 

71/— NOTICIAS  QUE  DERAM   OS  TUPINAMBÁS 

D'estes  indios  tupinambás,  como  gente  de  mais  razão,  e 
que  não  carecem  de  interpretes  por  correr  entre  elles, 
como  já  disse,  a.Iingua  geral,  que  muitos  dos  mesmos  por- 
tuguezes  faliam  eminentemente  em  razão  de  serem  nasci- 
dos e  creados  n'aquellas  costas,  recebemos  algumas  noti- 
cias, que  aqui  direi,  e  que  se  podem  ler  como  certas  por 
serem  dadas  por  gente,  que  tem  corrido  e  sujeitado  ao  seu 
poder  todas  as  circumvizinhanças.  Dizem  que  próximos  á 
sua  habitação  da  parte  do  sul,  na  terra  firme,  vivem,  além 
de  outras,  duas  nações,  uma  de  anões  tão  pequenos  como 
meninos  de  mui  pouco  tempo,  que  se  chamam  guayazis,  e 
a  outra  de  uma  gente,  que  toda  tôm  os  pés  ao  revéz,  de 
sorte  que,  su  quem  os  não  conhecesse,  quizesse  seguir  suas 
pegadas,  caminharia  sempre  oppostamente  a  elles,  e  são 
chamados  mutayús,  e  são  os  tributários  a  estes  tupinambás 
de  machados  de  pedra  para  o  roçado  das  arvores,  quando 
querem  cultivar  aterra ;  fazem-nos  mui  curiosos,  e  inces- 
santemente se  occupam  na  sua  factura.  Dizem  que  na  parte 
fronteira,  ou  na  do  norte,  estão  continuadamente  sete  pro- 
vincias  bem  povoadas,  porém  que,  por  ser  gente  para 
pouco  e  que  unicamente  se  sustentam  de  fructas  e  pequenos 
animaes  silvestres,  sem  jamais  sustentarem  guerras  entre 
si  nem  com  os  outros,  d'elles  não  fazem  caso.  Também 
ailirmam  que  com  outra  nação,  que  com  esta  confina, 
tiveram  pazes  muito  tempo,  commerciando  entre  si  em 
todos  os  géneros  de  que  cada  uma  abundava,  sendo  o  princi- 
pal género,  de  que  os  tupinambás  se  proviam,  o  sal  que  os 

TOMOXXVIII,  p.  1.  32 


-  24i  — 

amigos  lhes  traziam  pelos  seus  resgates,  que  affirmaTSUA 
vir-lhes  de  outras  terras  próximas  ás  suas  ;  cousa  bem 
interessante,  e  de  grande  utilidade  para  a  conquista  e  po- 
voação d'este  rio,  e,  ainda  que  aqui  se  não  ache,  se  desco- 
brirá em  grande  abundância  em  um  rio  dos  que  descem 
desde  o  Períi,  d'onde,  no  anno  de  1637,  estando  eu  na 
cidade  de  Lima,  sahiram  dois  homens,  que  de  terra  em 
terra  aportaram,  para  aquellas  partes,  a  certa  paragem, 
d'onde,  descendo  por  um  dos  rios,  que  desagua  n'este  prin- 
cipal, deram  com  um  grande  monte  de  sal,  de  que  os 
moradores  tôm  exclusivamente  o  commercio,  suslentan- 
do-se,  ricos  e  abundantes,  com  as  pagas,  que  por  elle  re- 
cebem dos  que  de  mais  longe  o  vôm  comprar.  E  não  é  novo 
no  Peru  e  em  todas  as  suas  cordilheiras  ter  montes  de  sal 
de  rocha  excellente,  pois  que  esto  é  o  que  se  alli  consome* 
tirando-o  em  pedaços  tão  grandes  que  alguns  tèm  5  a  6 
arrobas  de  peso.  Occupa  esta  província  dos  lupiDambás 
66  léguas  de  comprimen  to,  e  acaba  em  uma  boa  povoação, 
que  está  situada  em  3  gráos  de  latitude,  bem  como  a  pri- 
meira povoação  dos  Índios  aguas,  de  que  já  fizemos  acima 
menção, 

72/ — DÃO   NOTICIA   DAS    AMAZONAS 

Estes  mesmos  tupinambás  nos  confirmaram  as  lai^gas 
noticias,  que  por  todo  este  rio  Iraziamos  das  famosas 
amazonas,  que  lhe  deram  o  nome,  desde  os  seus  primeiros 
princípios,  não  o  reconhecendo  por  nenhum  outro  todos 
os  cosmographos,  que  até  hoje  d'elle  lêm  fallado,  e  fora 
sem  duvida  mui  para  admirar  que,  sem  bem  fundadas 
razões,  houvesse  usurpado  o  nome  das  Amazonas,  poden- 
do-lhe  qualquer  lançar  em  rosto  de  que  por  um  tal  nome 
se  queria  tornar  famoso»  revestindo-se  do  alheio.  A' vista  da 


34: 


—  a*o  — 


nobreza  d*a$lerio,  não  me  persuado,  nem  éerlveUque, 
tendo  esle  rio  tantas  grandezas  d<3  que  lançar  mão,  se 
gloriasse  unicamente  do  titulo  que  lhe  aão  competia : 
baixeza  ordinária  era  quem,  nâo  podendo  por  seus  braços 
alcançar  a  honra  que  deseja,  a  procura  mendigar  dos 
vizinhos.  Os  fundamentos  para  asseverar  ser  a  província 
das  Amazonas  n*este  rio,  siio  tantos  e  tao  fortes,  que  Stí 
faltaria  à  fó  humana  não  lhe  dando  credito.  Eu  nao  trato 
das  serias  indagaç/ies,  que  por  ordem  da  real  audiência  de 
Quilo  se  fizeram  entre  osnaluraes,  que  a  habitaram,  muitos 
annos,  de  tudo  o  que  se  continha  nas  suas  margens ;  e  uma 
das  principaes  cousas,  que  lodos  unaniraemenle  assegura- 
vam era  povoado  de  uma  província  de  mulheres  guerrei- 
ras, que,  suste nkindo-se  por  si  sòs,  sem  razões,  com 
quem  não  tinham  comraanicaçao  alguma  senão  em  deter- 
minado tempo,  viviam  n;is  suas  povoações,  cultivando  as 
suas  terras,  e  obtendo  por  ineío  do  trabalho  de  suas  mãos 
todo  o  necessário  para  o  seu  sustento  :  também  não  faço 
menção  das  inflagações  que  pelo  uovo  reino  de  Granada, 
na  ciilade  de  Paslo,  se  fizeram  Cími  alguns  Índios,  e  par- 
ticularmente cum  uma' Índia,  que  disse  haverei  la  mesma 
estada  nas  terras  povoadas  por  semelhantes  mulheres  ; 
ajusUndo  se  em  tudo  no  que  jà  se  sabia  pelas  primeiras 
indagações.  Unicamente  lanço  mão  do  que  ouvi  com  os 
meus  próprios  ouvidos,  o  cuidadosamente  averiguei  desde 
que  pisámos  este  rio^  no  qual  é  tradição  vulgar»  e  que 
ninguém  ignora,  dizer-se  que  n*elle  hahilam  estas  mulhe- 
res, dando  signaes  lao  parliculares,  que,  concordando 
todos  nos  mesmos,  não  é  provável  que  uma  tal  mentira  se 
podasse  espalhar  entre  lautas  differentes  nações,  de  outras 
tantas  línguas,  e  com  tantas  appareucias  de  verdade ; 
porem  aonde  mais  as  tivemos  dii  situação  em  que  vivem 
6slas  mulheres»  dos  seus  coslumes,  dos  índios  que  com 


—  246  - 

cilas  communicam,  dos  caminhos  pulos  quaes  seentn 
nas  suas  terras,  e  dos  habitantes,  que  as  povoam  (e  que 
aqui  daremos],  foi  na  ultima  alilèa,  em  que  termina  a  pro- 
víncia dos  tupinambás. 

73.** — RIO   DAS  AMAZONAS 

A  36  léguas  d'csta  aldéa,  descendo  pelo  rio,  está  da  parte 
do  norte  o  das  Amazonas,  que  com  o  nome  de  rio  Cunurís  é 
conhecido  entre  aquellcs  naturacs.  Toma  este  rio  o  nome 
dos  primeiros  indios,  que  sustenta  na  sua  boca,  aos  qaaes 
seguem-se  os  apautos,  que  faliam  a  lingua  geral  do  Brasil: 
além  d*estes  eslâo  situados  os  taguaús,  e  os  últimos,  que 
sao  os  que  communicam  e  commerciam  com  as  amazonas, 
são  os  guacarás.  Tem  estas  mulheres  varonis  o  seu  estabe- 
lecimento principal  entre  grandes  montanhas  e  eminentes 
serros,  dos  quaes  o  que  mais  se  distingue  entre  os  outros, 
e  que  é  mais  combatido  dos  ventos,  moslrando-se  conse- 
quentemente sempre  escalvado  e  sem  herva,  se  cbama 
Yacamiaba.  Sao  mulheres  de  grande  valor,  e  que  sempre 
se  lôm  conservado  sem  o  ordinário  commercio  de  varões, 
c,  ainda  mesmo  quando  estes  por  convenção  feita  com 
ellas,  vem  annualmentc  ás  suas  lorras,  siío  recebidos  com 
as  armas  nas  mãos,  e,  depois  de  atirarem  por  algum  tempo 
com  as  frechas,  e  convencidas  de  que  vem  de  paz  os  conhe- 
cidos, deixando  as  armas  correm  apressadamente  ás  canoas 
e  embarcações  dos  hospedes,  e  levando  cada  uma  as 
macas  ou  redes,  que  mais  acham  á  mão,  as  levam  às  suas 
casas,  e  armando-as  em  partes,  onde  os  donos  facilmente 
as  conheçam,  os  recebem  por  hospedes  durante  aquelles 
poucos  dias ;  findos  os  quaes  elles  regressam  para  as  suas 
terras,  continuando  annualmente  a  mosma  viagem  e  pelo 
mesmo  tempo.    Conservam  as  filhas,  que  noscem  d'e$tes 


-  247  - 

ajuntamentos»  e  as  criam  entre  si  com  desvelo,  por  serem 
as  que  hão  de  levar  avante  o  valor  e  costumes  da  sua  nação, 
porém  a  respeito  do  que  praticam  com  os  filhos  varões  não 
ha  a  mesma  certeza :  um  indio  que,  sendo  ainda  pequeno, 
havia  ido  com  seu  pai  a  estas  entradas,  affirmou  que  os 
entregam  a  seus  pais,  quando  no  seguinte  anno  vão  às  suas 
terras ;  mas  o  mais  certo,  por  ser  o  que  mais  vulgarmente 
se  diz,  é  que  logo  que  os  reconhecem  por  varões  os 
matam.  O  tempo  descobrirá  a  verdade ;  e,  se  estas  são  as 
amazonas  famigeradas  entre  os  historiadores,  grandes 
thesouros  encerram  na  sua  provincia  para  enriquecer  a 
todo  o  mundo.  Está  a  boca  do  rio,  que  povoam  as  ama- 
zonas, em  dois  gràos  e  meio  de  latitude. 


74.*— PARTE  MAIS   ESTREITA  DE  TODO    O    RIO 


Passada  a  boca  do  rio  das  Amazonas,  e  correndo  24 
léguas  pelo  principal,  desagua  pela  mesma  parte  do 
norte,  outro  mediocre,  chamado  Uriíamina,  que  vem 
asahir  áquella  paragem,  aonde,  como  já  dissemos,  se  es- 
treita este  grande  rio  em  um  espaço  de  pouco  mais  de  um 
quarto  de  légua ;  ealli  oilereco  aprazíveis  sitios  para  n*elles 
construir  de  um  e  outro  lado  duas  fortalezas,  que  não 
somente  obstem  à  passagem  que  o  inimigo  intente  da  parte 
do  mar,  mas  também  sirvam  de  alfandegas,  nas  quaes  se 
registre  tudo  quanto  por  este  rio  das  Amazonas,  se  se  po- 
voar, descer  do  Pcríi.  Desde  esta  paragem,  que  esiá,  como 
acima  disse,  mais  de  3J0  léguas  em  distancia  domar,  se 
principia  a  conhecer  as  marés,  reconhecendo  se  diaria- 
mente Iodas  as  enchentes  e  vasantes,  ainda  que  não  tão 
claramente  como  d'alli  a  algumas  léguas. 


TS.""— RIO  E  NAÇÃO   DOS  TAPAJOZES 

A  40  léguas  (l'este  estreito  do  rio  pela  parle  do  sol  des- 
emboca o  grande  e  vistoso  rio  dos  Tapajozes,  tomando  o 
nome  da  nação  e  provincia  quo  susteota  nas  suas  margens, 
que  são  mui  povoadas  de  bárbaros,  em  boas  terras  e  de 
abundantes  mantimentos.  São  os  tapajozes  gente  de  brio, 
temidos  por  muitas  nações  circum vizinhas,  em  razão  de 
usarem  nas  suas  frechas  de  um  veneno  tal  que,  chegando  a 
tirar  sangue,  causa  sem  remédio  a  morte.  Por  esta  mesma 
causa  muito  tempo  os  temeram  os  portuguezcs,  receiando-se 
da  sua  communicação,  desejando  reduzil-os  por  bem  à  sua 
amizade,  o  que  nunca  conseguiram  de  todo,  porque  os 
obrigavam  a  deixar  o  lugar  do  seu  nascimento,  e  a  vir 
estabelecer-se  em  povoações,  jà  domesticados  ;  cousa  esta 
que  muito  sentem  estas  nações,  ao  mesmo  tempo  que  nas 
suas  terras  recebem  com  agazalho  a  um  povo  dos  seus, 
composto  de  mais  de  500  Tamilias.  Durante  todo  o  dia  não 
cessaram  de  virem  resgatar  gallinhas,  patos,  macas,  pes-* 
cado,  farinhas,  fruclas  e  outras  cousas,  com  tanta  segurança 
que  as  mulheres  o  meninos  nâo  se  aparUivani  de  nós  outros, 
oiTerecendo-nos  que  se  os  deixassem  em  suas  próprias 
terras  viessem  os  portuguezes  lambem  povoal-as,  por- 
quanto os  receberiam  com  a  maior  salisfaç^lo,  e  os  ser- 
viriam paciíicamente  toda  a  vida. 

7t).'— OPPRESSÃO   QUE   FIZERAM    OS    PORTUGUEZES 

Mão  bastaram  os  humildes  oíTerecimentos  doestes  pobres 
tapajozes  para  que  pessoas  tão  interesseiras  como  são  as 
d'estas  conquistas,  e  que  só  einprehendem  dificuldades 
com  a  ambição  dos  escravos  que  esperam  resgatar,  os 
admittissem  ou  pelo  menos  os  tratassem  razoavelmente ;  e, 


-  n9  — 


saspeilando  quo  esta  oaçao  liolia  em  seu  poder  maitós 
escravos,  trataram  com  todo  o  empenho,  com  o  pretexto  de 
serem  rebeldes,  de  lhes  fazer  cruel  guerra :  a  qual  se 
eslava  preparando  quando  chegamos  ao  íorte  do  Desterro, 
aoQde  se  reu  nia  a  gente  para  tão  in humana  faeçaOt  e,  ainda 
que  pelos  melhores  meios  que  pude»  procureit  jâ  que  não 
irapedil-a  ao  menos  suspen^lél-a,  alè  que  chegasse  nova 
ordem  de  SuaMageslade,  eo  sargento-mór  do  estado,  cabo 
e  chefe  de  todos,  que  era  Bento  Maciel,  fdho  do  gover- 
nador, me  deti  a  soa  palavra  de  não  proseguir  emquanto 
não  recel>esse  nova  ordem  de  seu  pai  ;  apenas  nos  reti- 
rámos, logo  com  o  maior  numero  de  gente,  que  pôde 
ajunlar  em  uma  lanclia  com  peças  de  arlilheria  e  em  outras 
embarcações  menores,  cabindo  sobre  elles  de  improviso, 
lhes  offereceu  cruel  guerra,  jà  que  não  queriam  boa  pai. 
Com  a  melhor  vonUíle  receberam  elles  a  paz  que  sempre 
oílereceram,  sujei  tando-se  a  tudo  o  que  quizessem  fazer  de 
suas  pessoas.  Manda-lhes  pois  que  entreguem  todas  as 
frechas  envenenadas,  que  eram  as  de  que  mais  se  receiavam, 
a  que  pontualmente  aquelles  miseráveis  obedeceram,  e, 
vendo-os  jà  desarmados,  apanham  uma  grande  quanti- 
dade de  bárbaros,  e  encerrando-os  todos  como  carneiros 
em  um  curral  forte  com  sufllciente  guarda,  soltam  os  indios 
amigos  que  levavam,  dos  quaes,  para  fazer  mal  cada  um  é 
ura  diabo  solto,  e  em  breve  tempo  foi  saqueada  a  povoação, 
sem  nada  deixarem  por  assolar,  aproveilando-se,  como  mo 
OQDlou  uma  testemunha  de  vista,  das  filhas  e  mulheres  dos 
afflictos  encarcerados  âsua  própria  vista;  e  fazendo  cousas 
que  me  asseverou  esta  pessoa  bem  antiga  n*aquellas  cou- 
quislas,  que  para  as  não  ver,  não  somente  deixaria  de 
comprar  escravos,  mas  também  daria  de  graça  os  que 
possuía.  Como  a  ambição  dos  porluguezes  estava  envol- 
vida com  a  de  escravos,  não  se  contentaram  sem  que  se 


-  260  - 

ifissem  senhores  dos  ditos  escravos :  e  por  isso  ameaçamos 
Índios  encurralados  e  temerosos,  fazem-lhes  receiar  novos 
rigores,  afim  de  que  oíTereçam  escravos,  assegurando-lhes 
que  então  ficarão  livres  e  seus  amigos,  e  carregados  de 
ferramentas  e  pannos  de  algodão ;  que  deviam  fazer  os 
pobres  miseráveis  presos,  tiradas  as  armas,  saqueadas  as 
casas,  opprimidas  suas  mulheres  e  filhos,  não  tinham  outro 
remédio  que  sujeitarem-so  a  tudo  o  que  d'elles  qnizessem. 
Offerecem  mil  escravos,  mandam  em  busca  d*elles,  por- 
quanto se  haviam  posto  a  salv©  durante  o  alvoroto,  e,  não 
podendo  apanhar  mais  de  duzentos,  os  entregam,  dando  a 
palavra  de  entregarem  os  restantes,  e  para  se  verem  livres 
offerecem  seus  mesmos  filhos  como  escravos,  o  que  tem 
acontecido  differentes  vezes  Todos  os  referidos  escravos 
foram  mandados  para  o  Maranhão  e  Pará,  e  eu  mesmo  os 
vi,  e,  como  fitaram  satisfeitos  d'esta  primeira  entrada,  pro- 
jectam logo  outra  maior  em  outra  nação  mais  para  o  in- 
terior do  rio  Amazonas,  onde  farão  sem  duvida  maiores 
crueldades,  porque  vão  menos  numero  de  pessoas  valentes, 
que  possam  ir  á  mão  d'aquelle,  que  fôr  encarregado  de 
tudo.  Por  esta  maneira  o  rio  se  alvorotará  Ião  depressa, 
que, quando  Sua  Mageslade  quizer  picifical-o,  encontrará 
as  maiores  difficuldades,  quando  semelhante  pacificação 
seria  mui  fácil  conservando -se  aquolle  rio  no  eslado  em 
que  o  deixei.  Estas  são  as  conquistas  do  Pará;  este  ó  o 
trafico  de  que  se  sustentam,  e  esta  é  a  juslissima  causa 
porque. andam  todos  arruinados,  sem  terem  que  comer; 
e,  se  não  fossem  os  serviços  que  têm  foito  a  ambas  as  Ma- 
gestades,  divina  e  humana,  em  resistirem  valorosamente 
ao  inimigo  hollandez,  que  va:  ias  vezes  tem  derrotado 
n^aquellas  terras,  já  Deus  Nosso  Senhor  a  teria  assolado. 
Tornando  pois  a  faltar  dos  tapajozes,  e  do  famoso  rio  que 
banha  as  suas  praias,  digo  que  é  de  tão  bom  fundo,  que 


—  251  — 

subiu  por  elle  muitas  léguas  em  oulro  tempo  uma  náa 
íogleza  de  grande  porte,  a  qual  pretendeu  estabelecer-se 
Doesta  proviocia,  e,  para  conseguirem  dos  habi tau les  taba- 
cos, lhes  offereciam  bons  partidos ;  porém  elles  cahindo  de 
improviso  sobre  os  inglezes  mataram  os  que  poderam,  e, 
aproTeilando-se  das  suas  armas,  quB  ainda  hoje  conserYam, 
obrigaram  os  ouiros  a  deixarem  a  terra  mais  depressa  do 
que  haviam  vindo,  poupando-se  agente  que  ficou  na  nào  a 
passar  por  outro  semelhante  desgosto,  porque  logo  deram 
â  vela, 

77.*— CLmtlPATUBA 


A  poucas  mais  de  iO  léguas  da  bocado  rio  dos  Tapa- 
jQzes  esta  o  Curupatuba,  que,  desaguando  oo  principal  do 
Amazonas  pela  parte  do  norte,  da  o  seu  nome  i  primeira 
povoação  oualdéa  de  gear  que  tem  os  portuguezes,  a  favor 
da  sua  coroa.  Não  parece  ser  este  rio  mui  caudalosa  de 
aguas,  porém  sim  de  thesouros,  se  os  seus  naturaes  nos 
não  enganam,  afUrmando  que.  subindo  por  este  rio,  que 
elles  denominam  Vriquiriqui,  a  seis  dias  de  caminho  se 
encontra  grande  quantidade  do  ouro,  que  apanham  nas 
margens  de  um  pequeno  riaclio,  que  banha  as  fraldas  dn 
mediano  sarro  Vaguuracuru*  Dizem  também  que  perto 
d'este  está  outru  sitio,  cujo  nome  é  Picuríi,  d  onde  têm 
tirado  muit^is  fezes  outro  metal  mais  duro  que  o  ouro,  e 
de  cor  branca,  que  sem  duvida  é  piata,  de  que  em  outro 
tempo  fizeram  machados  e  facas ;  porém  que,  apenas  virara 
que  bem  depressa  se  amolgavam,  o  abandonaram  inteira- 
mente. N'este  mesmo  districto  ha  duas  serras,  das  quaes 
uma,  segundo  os  signaes  dados  pelos  índios,  è  de  enxofre, 
e  a  outra,  que  denominam  ParaguaxOf  affirmam  que  quando 
sobre  elia  dà  o  sol,  e  igualmente  uas  noites  ctaras*  resplau^ 
TOMO  xxvni,  p.  u  33 


—  2:ii  — 

desce  laato  que  toda  ella  parece  esmaltada  e  com  rica 
pedraria,  e  de  quando  em  quando  arrel)enta  com  grandes 
estrondos ;  signaes  certos  de  que  encerra  pedras  de  muito 
valor. 

78/ — Rio  GENIPAPO 

Não  promette  menores  Ihesouros,  segundo  as  communs 
noticias,  o  rio  Genipspo,  que,  correndo  pela  mesma  parte 
do  norte,  desemboca  no  das  Amazonas,  a  60  léguas  mais 
abaixo  do  Curupatuba.  Os  índios  dizem  que  nas  suas 
margens  ba  tanto  ouro  que  se  pôde  colher,  que,  a  ser 
assim,  só  este  rio  excede  com  as  suas  riquezas  todas  as  do 
Peru.  As  terras,  que  banha  este  rio,  são  da  capitania  de 
Bento  Maciel  Parente,  governador  do  Maranhão,  as  quaes» 
além  de  serem  maiores  de  que  toda  a  Hespanha  e  conterem 
muitas  minas  sabidas,  são  pela  maior  parte  de  melhor 
torrâo  para  darem  as  melhores  e  mais  abundantes  co- 
lheitas, e  não  ha  em  todo  o  immenso  rio  das  Amazonas 
melhores  terras.  Ficam  todas  ao  norte,  contém  grande 
multidão  de  bárbaros,  e,  o  que  é  mais  para  estimar,  en- 
cerram debaixo  da  sua  jurisdicção  as  afainadas  e  dilatadas 
terras  do  Tucujú,  tão  suspirado  e  tantas  vezes  povoado, 
ainda  que  com  bastante  damno,  pelo  inimigo  hoUandez, 
que,  reconhecendo  n*ella  as  maiores  commodidades  do 
mundo,  para  enriquecerem  seus  moradores,  jamais  se 
podem  d'ellas  esquecer.  São  não  somente  próprias  para 
grandes  colheitas  de  tabaco,  e  capazes  de  muitos  engenhos 
de  assucar,  e  de  muitos  mantimentos  com  qualquer  pe- 
queno cultivo,  mas  também  tem  excellentes  campinas,  que 
com  abundantes  pastos  sustentam  grandes  e  innumeraveis 
gados.  N'esta  capitania,  a  seis  léguas  de  d'onde  desagua  o 
Genipapo,  pelo  rio  acima  das  Amazonas,  está  um  forte  de 


-  23:4  — 


portuguezes.que  donominam  do  Desterro,  com  30  soldadosp 
e  algumas  peças  de  artilheria,  que  para  defender  o  rio  de 
nada  serve,  e  sómenle  aiiclorisa  a  dita  capitania,  e  conserva 
em  respeito  os  Índios,  que  se  vâo  reduzindo.  Ksle  forte 
deixon  Benfo  Maciel  com  auctoridade  de  governador  do 
Carupà,  que  está  mais  abaixo  em  distancia  de  36  léguas, 

^aoudt3  esteve  situado  em  mui  bom  sitio  por  muitos  annos, 
e  aonde  as  nãos  inimigas  vinham  ordinariamenle  fazer  os 
sens  reconheciraentíis, 
'. 
««In. 


79/^RlO    PARAÍSAUIBA 


Dez  léguas  mais  abaixo  do  Genipapo,  da  parte  do  suli 
sahe,  mui  vistoso,  caudaloso  e  cora  duas  léguas  de  boca 
vem  pagar  tributo  ao  principal  rio»  o  que  os  naturaes 
chamam  Paranabiba ;  ha  nas  suas  margens  algumas  po> 
voaçdes  de  índios  amigost  que  achando-se  estabelecidos 
nas  suas  primeiras  entradas,  obedecem  aos  portuguezçs, 
que  os  governam ;  e  para  o  interior  vi  em  outros  muitos, 
dos  quâes,  e  dos  mais  que  este  rio  contem  nâo  ha  suffi- 
cientes  noticias. 


80.*— RIO   PACiXÉ 


A  2  léguas  mais  abaixo  do  Genipapo,  principia  a  re- 
partir em  grandes  braços  o  rio  das  Amazonas,  causados 
pela  multidão  de  ilhas  que  n*elle  se  encontram  alé  des- 
embocar 00  Oceano  ;  estão  todas  povoadas  de  differentes 
nações  e  linguas,  posto  que  todos  entendem  a  geral 
d^aquella  costa.  São  tnnias  as  ilhas  e  tão  diversas  as 
nações  qne  as  haliitam,  que  sò  para  ellas  seria  necessária 
uma  nova  historia*  Com tudo  nomearei  alguma  das  mais 
conh<^^idas,  comu  sâo  as  das  tapuyas,  auuxiares»  mayana- 


-  2B4  - 

ses,  engahibas,  bocas»' joannas,  e  os  valentes  pacaxés, 
que  nas  margens  do  rio»  de  quem  tomaram  o  nome,  a 
80  léguas  em  distancia  do  Paranahiba»  e  da  mesma  parte 
tem  a  sua  habitação»  e  em  tão  grande  numero»  assim  de 
aldéas»  como  de  moradores»  segundo  affirmam  os  porta- 
guezes  que  alli  estiveram»  como  qualquer  outra  das  mais 
numerosas  do  nosso  rio  Amazonas. 

81. •—POVOAÇÃO  DO    CAMUTÁ 

Á  40  léguas  do  Pacaxé  está  situada  a  aldêa  do  Camutà, 
que  n'aquellas  conquistas  foi  em  outro  tempo  de  grande 
fama»  assim  pelos  seus  muitos  moradores»  como  por  ser 
alli  onde  ordinariamente  se  preparavam  as  armadas, 
quando  tinham  a  fazer  as  suas  correrias :  porem  jà  não 
tem  gente»  por  haver-se  mudado  para  outras  terras ;  nem 
mantimentos»  por  não  haver  quem  o  cultive ;  nem  alli  ha 
outra  cousa  mais  que  o  sitio  contíguo  com  poucos  habi- 
tantes» sempre  bom»  aprazivel  e  de  linda  vista»  e  por  tanto 
convidando  com  a  sua  formosura  e  commodidade  aos  que 
o  quizerem  povoar. 

82.°— RIO    DOS  TOCANTINS 

Na  parte  opposta  do  Camutá  desemboca  o  rio  dos  To- 
cantins» que  ainda  que  n'aquellas  partes  tem  afamado  rico, 
e,  segundo  parece»  com  grande  exageração»  de  ninguém  é 
conhecido  senão  pelos  francezes»  que,  quando  povoaram 
as  suas  costas»  carregaram  navios  da  terra»  que  das  suas 
praias  tiravam,  afim  do  que  beneficiando-a  em  França»  se 
pudessem  enriquecer,  sem  que  jamais  se  atrevessem  a 
mostrar  semelhantes  thesouros  aos  bárbaros  que  n'elle 
habitam»  com  u  justo  receio  de  que  conhecendo  elles  a 


—  25a  - 

grande  estimação  que  d*aqiiellas  areias  se  fazia,  as  defeti- 
desêem  com  as  irmas,  para  não  ficarem  sem  lanlas 
rique^s.  Nas  cabeceiras  d' este  rio  aportaram  certos  sol- 
dados porluguezes,  que  desde  Pernambuco  com  um  sa- 
cerdote em  sua  companbia,  atravessaram  todas  as  fraldas 
de  cordilheira  em  busca  de  novas  conquistas,  c,  querendo 
navegar  por  elle  abaixo  até  a  sua  boca,  acabaram  às  mãos 
dos  tocantins,  em  cujo  poder  foi  achado,  nâo  ha  muitos 
annos  o  cálix,  como  qual  o  bom  sacerdote  lhes  dizia 
missa,  durante  as  suas  peregrinações. 

83/— PARà 


A  30  léguas  do  Camulá  está  a  fortaleza  do  rirão-Parà, 
povoada  e  governada  por  portuguezKS.  N^ella  ha  um  ca- 
pitão-mòr  que  é  superior  a  todos  os  d^aquella  capiiania^o 
a  quem  estão  sujeitos  outros  três  capities  de  iDrantariai 
que  ordiuari amento  assistem  com  as  suas  companhias  para 
a  defesa  d^aquelia  praça:  todos  obedecem  ao  governador 
do  Maranhão,  que  eslà  estabelecido  ou  reside  em  dis- 
tancia de  mais  de  1^0  léguas  pela  costa  do  Brasil,  resu!- 
tando  d  aqui  grandes  inconvenionles  no  governo  do  Para, 
pois  que,  se  este  rio  se  povoar»  será  forçoso  ficar  senhor 
d'elle,  por  ter  em  suas  mãos  a  chave  de  todo  o  rio ;  e 
posto  que  é  verdade  não  ser  a  situação,  oode  presente- 
mente esta,  na  opinião  de  muitos,  a  melhor  que  se  podia 
escolher,  indo  este  descobrimento  avante,  será  fácil  mu- 
dar-se  para  a  ilha  do  Sol,  14  léguas  mais  para  o  mar, 
posto  este,  em  quem  todos  tem  os  olhos  fixos  pelas  muitas 
commodidades  que  oflíerece  para  a  vida  humana,  assim 
na  capacidade  e  bondade  das  terras  para  sustento  da  po- 
voação, como  para  commodidade  dos  navios  que  alli  apor- 
tarem,  os  quaes  pòJem  consL^rvar-se  abrigados  na  enseada 


-  -256  — 

^guros  de  todos  os  peiigos,  e  quando  se  houverem  de 
fazer  ã  vela  com  a  primeira  maré  cheia,  ficam  desemba- 
raçados de  todos  os  baixos  que  tornam  diflBcultosos  estes 
portos,  commodidade  esta  de  grande  utilidade.  Tem  esta 
ilha  mais  de  10 léguas  de  circuito;  boas  aguas;  muito 
pescado  do  mar  e  do  rio,  grande  multidão  de  caranguei- 
jos,  que  são  o  sustento  ordinário  dos  Índios  e  gente  pobre; 
e  presentemente  é  das  principaes  aonde  vão  do  Pará  cagar 
a  carne  de  que  precisam  para  seu  sustento. 

Si.""— ENTRA  NO  MAR  0  RIO  DAS  AMAZONAS 

À  26  léguas  da  ilha  do  Sol,  debaixo  da  linha  equinocial 
se  espraia  com  S%  de  boca,  tendo  pela  parle  do  sul  ao 
Zapararà,  e  pela  opposta  o  Cabo  do  Norte,  e  desagua 
no  Oceano  o  maior  pélago  de  aguas  doces  que  se  conhece  ; 
o  mais  caudaloso  rio  de  todo  o  orbe,  o  pheníx  dos  rios ;  o 
verdadeiro  Maranhão  tão  suspirado  e  nunca  acertado  pelos 
do  Peru ;  o  Orellana  antigo,  e  para  tudo  dizer  em  uma 
palavra  o  grande  rio  das  Amazonas ;  depois  de  haver  ba- 
nhado com  as  suas  aguas  1 ,350  léguas  de  extensão  ;  depois 
de  sustentar  nas  suas  margens  innumeraveis  nações  de 
barbares  ;  depois  de  ferlilisar  immensas  terras  e  depois 
de  haver  passado  por  cl  riíion  de  lodo  o  Períi,  e  como 
canal  principal  recolhido  em  si  o  melhor  e  o  mais  rico  de 
Iodas  as  suas  vertentes. 

Este  6  em  summa  o  novo  descobrimento  doeste  grande 
rio,  que,  encerrando  em  si  grandes  thesouros,  a  ninguém 
exclue,  antes,  bera  pelo  contrario,  convida  liberalmente  a 
que  d^elles  se  aproveitem.  Ao  pobre  oíTerece  sustento  ;  ao 
trabalhador  satisfação  do  seu  trabalho ;  ao  mercador  em- 
pregos a  fazer ;  ao  soldado  occasiões  de  valor ;  ao  rico 
maiores  augmentos ;  ao  nobre  honras :  ao  poderoso  es- 


—  ±-^7  — 

lada;  e  ao  próprio  rei  um  novo  e  grande  império-  Porém 
Oft  que  roais  se  devem  mostrar  iuteressados  aesla con- 
quista sao  os  zelosos  da  lionra  de  Deus»  e  do  bem  das  al- 
mas, porquanto  lao  grande  raullidão  eslá  chamando  por 
fieis  mlnisEros  do  Santo  Evangelho,  para  que  com  a  sua 
claridade  se  afugentem  as  sombras  da  morte,  em  que  jazem 
miseráveis  ha  tanto  tempo.  Ninguém  se  escusa  d*esta  em*- 
preza,  pois  ha  campo  para  todos  e  jà  descoberto ;  e  por 
muitos  que  sejam  os  trabalhadores»  que  se  conduzam, sem- 
pre a  colheita  será  mui  grande,  e  necessllarà  esta  vinha  de 
novos  e  fervorosos  obreiros  para  a  cultivarem,  até  a  sujei- 
tarem toda  debaixo  da  chave  da  Santa  Igreja  Romana ;  e 
sem  duvida  o  nosso  grande  e  calholico  rei  Felippe  IV,  que 
Deus  guarde  por  muitos  e  felizes  annos,  concorrera  pela 
sua  parte  com  a  liberalidade  que  costuma  no  temporal 
para  o  sustento  de  taes  ministros ;  e  a  santidade  do  nosso 
mni  santo  padre  Urbano  VHI,  de  gloriosa  memoria»  como 
pai  e  chefe,  que  hoje  é  da  igreja,  se  taosirarâ  no  espiri- 
tual nao  menos  liberal  e  benigno,  recebendo  a  grande 
fortuna  de  que  em  seus  tempos  se  abra  ampLissima  poria 
para  reduzir  ao  rebanho  da  igreja  de  uma  só  vez  mais  na- 
ções juntas,  e  mais  populosas  de  quantas  em  toda  a  Ame- 
rica, desde  o  seu  principio,  se  descobriram. 

Lmis  Dm  Virginique  Matri, 

REQUERIMENTO  APRESENTADO  NO  REAL  CONSELHO  nAS  IJíDUS 
SOBRE  O  niTO  nESCObHtMENTO  ^  DEPOtS  0A  REBELIÃO  DE 
PORTUGAL 


Senhor.  —  Cbristovão  d*Acuna,  religioso  da  companhia 
de  Jesus,  que  por  ordem  de  Vossa  Magestade  veiu  ao  des- 
cobrimento do  grande  rio  das  Amazonas,  cuidadoso  sempre 


-  «58  — 

dos  Biaiores  augmeotos  da  real  oorôa,  e  receioso  de  qoe 
acoDtecimeolos  menos  faYoraYeis,  vistos  às  nossas  portas, 
afoguem  e  empeçam  o  luzimento  dos  seus  affectuosos  ser- 
viços, diz  que,  ainda  que  é  verdade  que  a  principal  porta 
d'aquelle  novo  mundo  descoberto,  para  com  maior  brevi- 
dade se  principiar  a  desfructar  os  proveitosos  e  ricos  fruc- 
tos  que  liberalmente  oilerece,  é  a  sua  boca  principal  pela 
parte  que  desagua  no  oceano,  nas  costas  do  Brasil,  sujeita 
a  portuguezes,  e  por  isso  menos  própria  para  por  ella  se 
procurar  presentemente  fazer  aquella  conquista,  nem  por 
isso  deve  Vossa  Magestade  desistir,  nem  demorar  a  posse 
d'este  grande  rio,  porquanto  com  mais  facilidade  e  muito 
menores  despezas  a  poderá  conseguir  pela  provinda  de 
Quito,  nos  reinos  do  Peru,  pelas  mesmas  entradas  por  onde 
elle  e  seus  companheiros  desceram,  e  resultando  indubita- 
velmente grandes  utilidades  ao  serviço  de  Deus  Nosso  Se- 
nhor e  de  Vossa  Magestade,  e  evitando-se  não  menores  in- 
convenientes, que  se  experimentarão,  e  talvez  sem  remé- 
dio, se  com  brevidade  assim  se  não  executar.  Poderá 
effectuar-se  sem  consideráveis  despezas  da  real  fazenda, 
enviando-se  ordem  á  chancellaria  de  Quito  para  que  capi- 
tule as  entradas  mais  convenientes  pelos  rios,  que  dentro 
de  sua  jurisdicção  desaguam  no  principal,  com  algumas 
das  muitas  pessoas  que  á  sua  casta  se  oíTerecem  a  fazer  es- 
tas conquistas  unicamente  pelos  interesses  que  d'ellas  se 
tiram,  como  s5o  .  as  commendas  dos  indios,  repartir  ter- 
ras, prover  olficios  e  outros  semelhantes,  commeltondo-se 
ao  mesmo  tempo  o  espiritual  d'ellas,  relativamente  à  con- 
versão e  ensino  dos  naluraes,  aos  religiosos  da  companhia 
de  Jesus,  cujo  instituto  ó  este,  já  que  com  não  pequenos 
titules  a  este  particular  descobrimento  podem  mostrar 
algum  direito,  pois  que  seus  filhos  não  somente  têm  acla- 
radOy  à  custado  seus  trabalhos  e  desvelos,  e  ainda  de  mui- 


—   2nO  — 


tos  ducados,  as  sombras  de  um  novo  e  dilatado  imperio.que 
'  banhado  por  este  grandioso  rio,  oííerece  crescidos  aug- 
'  mentos  à  real  coroa  de  Vossa  Magestade»  além  da  posse  de 
mais  de  40  aooos  adquirida  com  o  sangue  do  ditoso 
tpadre  Raphael  Ferrez,  derramado  pelos  naíuraes  a  quem 
'pregava  nos  princípios  doeste  rio :  continuando  a  perder 
estó  direito  os  padres  da  companhia,  que  por  Santiago 
da  Montanha,  ha  annoSt  cultivani  com  a  sua  doutrina  os 
principaes  ramaes  d'esta  nova  conquista,  para  continuar 
na  qual  se  necessita  n*aqutílla  província  de  Quito  do  novos 
obreiros  da  Europa»  qun  os  coadjuvem  em  tão  copiosa  co- 
lheita. O  que  Vossa  Magestade   proverá  com  a  piedade 
costumada,  ea  liberalidade  que  pede  a  necessidade  extrema 
de  tanta  immensidade  de  nações  dillerentes,  resultando 
d'ahj  os  seguintes  proveitos  ; 

O  primeiro,  e  que  sempre  é  o  principal  no  cLristiauissimo 
peito  de  Vossa  Magestade,  dar-se,  sem  mais  demoras,  prin- 
cipio á  conversão  de  um  novo  mundo  de  InQeis,  que 
miseravelmente  jazem  na  sombra  da  morte ;  obra  tanto 
do  serviço  de  Deus,  que  não  pude  oíTerecer-se  outra  que 
mais  lhe  agrade,  e  tal  que  por  elle  se  considerará  como 
obrigado  a  estabelecer  com  perpetuidade  a  coroa  de  Vossa 
Magestade,  e  novamente  a  accrescentar  com  maiores  im- 
périos. 

Osepndo,  pouparem-se  âs  muitas  despezas  que,  como 
necessárias,  indispensável  mente  se  haviam  de  fazer,  in- 
tentando-se  esta  conquista,  como  se  projectava,  pela  boca 
do  rio,  t*m  conduzir  soldados,  preparar  embarcações» 
ajuntar  petrechos,  e  ludo  mais  necessário  para  formar  no- 
vas povoações,  o  que  ludo  occasionaria  grandes  despezâs, 
as  quaes  se  evitarão  mandando-se  que  lenha  principio  esta 
conquista  pelas  entradas  de  Quito,  porquanto  os  particu- 
lares, a  quem  íòr  commeKida,  farão  gostosamenie  todas 
TOMO  xxviu,  p.  I.  34 


—  ãiio  — 


âs  deípeías,  e  unicaitoenle  carecerSo  para  o  espíriluâl  d'eUa 
de  obreiros  e  mioislro.s  aptos  do  Evangelho,  que  Vossa 
Mâgeslade  envíari  de  Hespanha,  pela  extrema  necessidade 
que  d^elles  ha  n^aquellas  partes, 

O  lercciro,  começar  Vossa  Mâgeslade  a  possuir  e  gonar 
doqiie  todos  os  senhores  reios,  seus  predecessores,  úe^dm 
oieuhor  Imperador  Carlos  V,  que  Deus  haja,  dipo  visavô 
de  Vossa  Magestade,  desejaram,  e  com  despezas  e  diligeo- 
cias  nào  pequenas  procuraram  sujeilar  á  sua  real  coroa» 
para  o  que,  no  annode  Í5l&,  u  mesmo  Senhor  Impera- 
dor Carlos  V  mandou  dar  a  Francisco  de  Orellana  ires 
nafioscom  sufBciente  gente  e  pretetios,  para  que,  em  seu 
real  nome»  tomasse  posse  d'este  grande  rio  das  Ama- 
zonas (qiie,   nove   annos   antes,    elle  havia    navegado) 
em  razão  das  mui  las  utilidades  qiie  de  seraelhanle  execu* 
Qâo  se  esperavam,  posto  que  as  tormentas  e  morte  de 
quiftí  lodos  os  soldados  o  obrigaram  a  que,  reduzido  a  uma 
Qniea  embarcação,  arribasse  á  Hargarída,  cassando  com  o 
sen  infeliz  successo  as  esperanças  que  a  HespanUa  se  pro- 
mettía,  se  tivessem  obtido  melíior  fortuna  naquetla  ex- 
pedição ;  e  Vossa  Magestade  desde  o  principio  do  seu  rei- 
nado, que  dure  por  muitos  e  felicíssimos  annos,  oceupoci, 
e  poz  todo  o  seu  desvelo  em  conseguir  isto  mesmo,  com« 
mettendo  a  execução  doeste  descobrimento  a  varias  pes- 
soas, como  consta  de  vários  dipl<»mas,  despacliados  n'esta 
conformidade  nos  annos  de  I62t,  1620  e  163b;  o  de  il 
expedido  á  real  audiência  o  chancellaria  de  Quito  para 
que  se  estipulassem  as  condições,  que  para  o  referido  d©&- 
cobrtmento  fossem  convenientes,  com  o  sargento-mór  Vi- 
cente dos  Rei»  Villalobos,  então  governador  e  capitão  gene* 
rsi  dos  Qtiíxos,  juriadicção  de  Quito,  o  qual  não  teve  effeito 
por  chegar  o  seu  successor  no  governo :  o  de  26  expedido  a 
fãVíw  de  Bento  Maciel  Pâreate,  portugnez  de  naçSo, para  que 


-  2IH  - 


pelas  provi nciis  Jo  MarânhSo  e  Grão-Pará,  que  Oêtlo  na 
boca  «leste  rio  principiasse  o  seu  descobrimento^  o  qual 
lamlicm  nâoso  executou  por  serniandado  acudir  â  guerra 
de  Pernambuco :  o  de  34,  expedido  a  Francisco  Coelho  de 
Carvalho,  porluguez,  que  então  era  governador  do  Mara- 
nliào  e  Pará,  com  ordem  expressa  de  que  com  a  maior 
brevidade  por  pessoas  de  confiança,  e,  ^e  f*>sse  necessário, 
por  elle  mesmo  se  desse  principio  por  aquellas  partes  ao 
que  tanto  se  desejava,  e  que  nunca  sorti q  eíTeilo  ;  6,  pre- 
sentemente, querendo-o  assim  Vossa  Mageslade,  terão  felix 
execução,  t;  para  o  futuro  se  verão  diariamente  maiores 
vantagens  do  que  as  que  se  promettiam. 

O  quarto,  fechar-se  por  esta  maneira  a  porta  a  que  nin- 
guém do  Peru  intente  arrojar-se  com  os  seus  thesouros 
pelas  correntes  d*esle  rio,  pi>r  evitar  pagar  os  direitos,  que 
por  Cartaf^euM  se  pagam  a  Vossa  Magestade,  e  fugir  dof 
riscos  dos  corsários,  que  qtiasi  sempre  andam  frequente- 
mente por  aquellas  parles  ;  pois  que  é  certo  que  o  hão  de 
pretender  assim  fazer  por  occasião  da  facilidade  com  que  q 
poderão  executar,  a  que  ninguém  se  atrevera,  seguros  os 
portos  principaes  das  suas  entradas,  como  realmente  fica- 
rão por  meios  das  pessoas  que  por  elles  começarem  a  con- 
quista. 

O  quinto,  obstar  ao  trafego  e  communicação,  que  lanto 
desejam  os  ptirlnguezes  que  habitam  na  boca  doeste  rio, 
fazer  com  os  da  sua  nação  residentes  no  Peru,  o  que  n'estefi 
tempos  será  assas  prejudicial.  E  se  elles  soubessem  que 
Cí*m  tempo  se  previnia  a  sua  malícia,  lomando-lhes  todas 
as  entradas,  é  certo  que  se  nâo  atreviam  a  intental-o? 
sendo  certo  que  os  portif^uezes  das  costas  do  Maranhão  6 
Pará  intentam  esta  (xiinmunicação,  o  que  eu  sei  com  toda 
a  evidencia,  e  o  poderei  afUrmar  como  testemunha  do  o 
ouvir  muitas  vescs  a  eUes  mesmos. 


—  262  - 

O  sexto,  reduzindo  Vossa  Majestade  á  sua  obediência  as 
príncipaes  nações  d*este  rio,  e  particulannentL'  as  que  ha- 
bitam as  libas  e  as  margens,  e  são  mui  bellícosas,  e  com 
valor  ajudarão  aquelles  que  uma  vez  reconhecerem  por 
seus  senhores  ( pouca  ou  nenhuma  resistência  farão,  em 
razão  das  muitas  guerras  que  continuadamente  tém  umas 
com  as  outras  ;  e  sujeitando-se  uma,  as  mais  com  facili- 
dade se  sujeitarão  também],  poderá  pelo  mesmo  rio  abaixo, 
melhor  ainda  que  pelo  mar,  expulsar  da  boca  d*elle  a 
quaesquer  outras  que  com  sinistro  titulo  a  possuírem,  e 
assegurar  por  esta  maneira  os  muitos  e  riquíssimos  fructos 
que  d*elle  se  esperara,  cujo  gozo  será  retardado  unica- 
mente pela  demora  na  sua  posse ;  e,  dado  o  caso  que  com 
brevidade,  como  esperamos,  se  ponha  freio  e  se  castigue 
o  mal  olhado  atrevimento  dos  portuguezes,  e  que  fique 
desembaraçada  a  boca  d* este  rio,  para  que  por  elle  se  con- 
siga a  conquista,  principiada  esta,  desde  já,  pelas  entradas 
de  Quito,  se  tornará  mais  fácil  e  menos  se  despenderá  para  a 
conseguir  com  felicidade. 

O  sétimo,  deve-se  advertir  com  mais  particular  cuidado 
que  já  os  indios  em  todo  o  Períi,  e  quasl  em  todo  o  desco- 
berto, e  em  especial  aonde  ha  minas  e  outros  estabeleci- 
mentos de  importância  que  dependem  do  seu  trabalho  pes- 
soal, estão  tão  acabados,  como  poderamos  aíD  mar  os  que 
havemos  corrido  aquellas  partes,  e  todos  os  dias  vão  em 
tanta  dimlnuiçlo,  que  em  poucos  annos  pela  sua  falta  ces- 
sarão, ou  pelo  menos  diminuirão  sensivelmente  os  muitos 
interesses  que  da  sua  existência  dependem;  damno  incontes- 
tavelmente grande, e  que  VossaMagestade  deverá  esforçar-se 
prevenir  com  tempo,  e  remediar  por  todas  as  maneiras  pos- 
síveis, não  havendo,  nem  podendo  imaginar-se  outras,  a 
não  ser,  tomar  mui  a  peito  a  conquista  e  conversão  d*este 
novo  inundo,  onde  são  tantos  os  seus  habitantes  que  pode- 


~  263  — 


rão  de  novo  povoar  todo  o  despovoa  ri  o  do  Verh ;  e^  se  se 
sujeitarem  ao  jii?»  do  Santo  Evangelho»  e  €om  a  paz  geral 
cessarem  as  gnerras  continuadas  era  que  diariamente  se 
arruinam  reciprocamente,  augmentíir-se-hao  tanto,  que, 
rompendo  os  limites»  por  serem  estes  pequenos,  será  for- 
çoso estabelecerem-se  por  mais  espaçosos  reinos.  E»  até 
mesmo  se  por  meio  frplles  se  heneficiassem  unicamente  as 
muitas  minas,  e  o  mais  que  nas  suas  nações  offerece  a  fer- 
tilidade da  terra»  se  deverá,  qual  outro  Peru,  aceitar  im- 
mediatamente  a  sua  conquista,  e  mui  principalmente  com  a 
facilidade  que  aqui  se  olTerece. 

O  oitavo,  se  succedesse  quo  os  portuguezes  que  estão 
na  boca  do  rio  (  que  tudo  se  pôde  presumir  da  sua  pouca 
christandade  e  nenhum:i  lealdade  ]  qnizessem,  ajudados  de 
algumas  nações  bellicosas,  que  lhes  estão  sujeitas,  peneirar 
por  elle  acima  até  chegar  ao  povoado  do  Peru,  ou  do  novo 
reino  de  Granada;  e  ainda  que  por  algumas  partes  achariam 
resistência,  por  outras  muitas  encontrariam  pouca  ou 
nenhuma,  por  sahirem  a  povos  mui  faltos  de  gente;  e 
emfim  pisar-im  aquellas  terras  vassallos  desleaes  de  Vossa 
Magestade,  bastando,  em  reinos  lao  distantes,  o  nome  de 
desleaes  para  causar  gr^vissimos  damnos.  Pois  se  unidos 
Cí)m  os  hollandezes,  como  estão  muitos  do  Brasil,  inten- 
tarem semelhantes  atrevimentos?  E'  bem  evidente  o  cui- 
dado, que  nos  poderão  dar*  Que  o?  hollandezes  desejara 
ha  muitos  annos,e  procuram  deveras  senhorearem -se  d'este 
grande  rio,  é  cousa  tao  cerla*  que  não  duvidou  aíBrraal-ci 
epublical-o  João  Laeth,  auclor  hollandpz  no  livro  que 
intitulou  —  Utrimquê  Ámerka  —  e  sahiu  à  luz  no  anno  de 
1033,  e  n^elle  no  livro  f  7  cap.  XV  in-fíne  diz  estas  palavras: 

a  Virum  tamen  tamhi  ( sei  I  ice  t  Angeli  et  Hiberni)  quam 
nostrí  (scilicet  Belgi)  a  Portugalis,  a  Para  venienlibus, 
jnopinato  oppressi  et  fugati  non  leve  damnum  fecerun  ^ 


—  2G4  — 

perpesi;  ad  quod  rcsarcíendum;  et  aecepUs  injarías 
viodicandas  maiori  cGoato^et  ?iríbos  institotam  repetere  el 
Ulcere  satagunt.  »  E  no  mesmo  livro  no  cap.  2*  diz:  «  Port 
anoum  autem  1615  Poriugalii  ad  Pararipam,  qoi  sine 
dubíu.n  bujns  magni  flumini^  ramus  est,  coeperont  íncolrai, 
ut  ante  díximus,  et  an'mum  ade  cetpra  forte  adjicientes* 
nisi  ab  Angelis  et  Belgis  nostris  imp(?diantur.  »  Donde  se 
collige  evidentemente  que  se  oshollandezes  dilatam  a  cob- 
quista  d'este  grande  rio,  de  que  falia  o  auctor  n'estas  doas 
passagens*  é  porque  mais  nâo  podem,  e  não  porque  lhes 
faltem  ardentes  desejos,  e  verdadeira  estimação  do  muito 
que  ganhariam  em  a  executar.  Acautele,  portanto.  Vossa 
Magestade  estes  tão  graves  damnos,  que  este  seu  fiel 
vassallo  lhe  propõe,  e  não  permitta  que  haja  lugar  de 
algum  dia  chorarmos  perdas,  quando  presentemente  se  nos 
offerecem  grandes  lucros  e  vantagens  em  todo  o  género. 

Finalmente,  se  com  o  andar  do  tempo  se  sujeitar  e 
aplanar  a  passagem  por  este  grande  rio,  e  aclarar  as  en- 
tradas que  ha  por  elle,  por  todo  o  Peru,  e  se  se  quizer 
reduzir  a  esta  viagem  tudo  quanto  d*nquellas  partes  enri- 
queça a  Hespanha,  eu  me  gloriaria  de  haver  feito  a  Vossa 
Magestade  um  dos  maiores  e  mais  proveitosos  serviços, 
que  se  podem  esperar  do  um  vassallo:  não  somente  se 
pouparão  grande  somma  de  ducados  em  iinmensasdes- 
pezas  que  serão  indispensáveis  emquanto  durar  o  trajecto 
de  Panamá  e  Carlagema,  as  quaes  seriam  mui  módicas  por 
este  rio,  por  ser  por  ai2[ua  e  ajudarem  as  suas  correntes, 
mas  timbem  (  o  que  é  de  maior  consideração )  assegurará 
Vossa  Magestade  de  uma  vez  os  seus  fortes,  e  sem  o 
minimo  receio  tle  corsários  porá  em  salvo  lodos  os  seus 
thesouros,  pelo  menos  até  chegarem  ao  Pará,  d'(mde  em 
2i  dias  por  mar  alio,  com  líaloões  feiljs  uo  mesmo  rio, 
a  lodo  o  tempo  passarão  á  Hespanha,  sem  que  inimigo 


—  à65  — 

algum  os  possa  esperar  á  sabida,  por  ser  a  cosia  do  Pará 
tal,  que  nem  dois  dias  podem  os  navios  fora  do  rio  resistir 
às  correntes  do  mar.  Consequentemente  cessarão  de  uma 
vez  os  grandes  cuidados,  que  todos  os  dias  nos  causa  tão 
perigosa  e  tão  dilatada  viagem,  como  é  a  de  Cartagena. 
Tudo,  senhor,  se  remediará  com  o  que  tenho  proposto 
n*este  requerimento,  ao  que  somente  ajunto,  que  a  maior 
parte  do  bom  successo  n*esta  matéria  será  a  brevidade  na 
execução.  E  se  eu  para  alguma  cousa  servir  sempre 
estarei  ao  pès  de  Vossa  Magestade. 


RIODE  JANEIRO— Typ.  de  Piutieiro  òl  G.*,  rua  7  de  Setembro,  i65. 


índice 

DAS  MATÉRIAS  CONTIDAS   NO   TOMO  XXVIII  PARTE 
PRIMEIRA 

PRIMEIRO    TRIMESTRK 

Diário  da  viagem  feita  pelos  sertões  de  Guarapuava  ao  rio  Pa- 
ranan,  porCamillo  Leilis  da  Silva 5 

Mato-Grosso  por  Goritiba  e  Tibagy.  Itioerario  da  viagem  que  fez 
ao  baixo  Paraguay  o  capitão  Manoel  Joaquim  Pinto  Pacca.  .      32 

Informação  sobre  o  modo  porque  se  elTectua  a  navegação  do  Pará 
para  Mato-Grosso,  e  o  que  se  pode  estabelecer  para  maior 
vantagem  do  commercio  e  do  Estado,  por  D.  Francisco  de 
Sousa  Coutinho i 38 

Exploração  do  rio  Paraguay  e  primeiras  praticas  com  os  índios 
guaycurús ,  •  .  •      70 

Expugnação  pelos  hespanhòes  do  presidio  de  Nova  Coimbra.     .      89 

Fundaçiío  de  Villa-Maria  do  Paraguay  e  providencias  para  o  seu 
engrandecimento 110 

Estabelecimentos  de  Nova  Coimbra  e  Viseu,  e  noticia  de  um 
màppa  geographico  por  onde  se  mostra  a  corrente  do  Guaporé.    118 

Construcção  do  forte  do  Príncipe  da  Beira,  e  conservação  de 
outros  estabelecimentos 121 

População  da  capitania  de  Mato-Grosso  em  1800 123 

Breve  memoria  relativa  a  chorographia  da  província  de  Mato 
Grosso,  por  Augusto  Leverger. 129 

Documentos  relativos  a  prisão  de  M.  I.  da  Silva  Alvarenga,  Ma- 
rianno  J.  Pereira  da  Fonseca  e  outros,  por  ordem  do  conde  de 
Rezende ". 157 

SEGIND»  TRIMESTRE 

Novo  descobrimento  do  grande  rio  das  Amazonas,  pelo  padre  Ciiris- 
tovão  dWcuna 163 


REVISTA  TRIMENSAL. 


REVISTA  TRlMEiNSAL 


DO 


INSTITUTO  HISTÓRICO 

GEOGRAPhICO,  E  ETHNOGRAPHICO  DO  BRASIL 


3*  TRLMESTRE  DE  1865 


ESTUDOS  HISTÓRICOS 


ANNAES   DA  PROVÍNCIA   DE  GOYAZ 

POR 
J.  M.  P.  DBALBNCâSTRB 

CAPITULO    XV 
(1800—1803) 

Viagem  de  D.  João  Manoel  de  Menezes  pelo  Araguaya.  ^Motivos  d'esU 
viagem.— Assume  o  governo  da  cafútania.— Procedimento  de  TrístSo 
da  Cunha.  —  Os  dois  partidos  em  campa  —  Excessos  que  se  prati- 
cam.— Manda  á  camará  que  intime  a  Tristão  da  Cunha  para  que  se 
retire  da  capitania.  —  Prisão  do  intendeqte  Manoel  Pinto  Coelho.  — 
Intervenção  da  camará.—  Prisão  de  D.  Joãa  —  A  villa  em  alarma  e 
a  força  publica  em  armas.—  Prisão  dos  camaristas.  —  O  intendente 
é  conduzido  para  a  aldèa  de  Pedro  III  (Carretão).  —  Gan^^cter  de 
n.  João.--Seus  serviços  administrativos.— Horto  Botânica —Instruc- 
v^o  publica.  —  Presidio  do  Araguaya.—  Leva  de  tropas  para  Mato- 


—  6  — 

Grosso.— D.  JoSooo  desagrado  do  prí'!cipe  regente. —Devassa. — 
D.  Francisco  de  Assis  Mascarenhas,  seu  successor.—  D.  Manoel  de 
SanfAnna  Alves  e  o  vigário  geral  da  Nati\idade,  Luiz  José  Custo- 
dio.— â  missão  e  o  missionário.— Ordem  de  prisão.— D.  Manoel  re- 
siste.—Quem  era  esse  missionário  ? 

Tendo  D.  João  recebido,  poucos  mezes  depois  de  no- 
meado governador,  a  caria  régia  de  12  de  Maio  de  1798 
(62),  na  qual  se  lhe  determinava  que,  de  combinação  com 

(02)  D.  João  Manoel  de  Menezes,  etc.  Eu  a  Rainha  vos  envio  maíto 
saudar.  Porquanto  tenho  determinado  promover  efficazmente  a 
riqueza,  a  felicidade  e  commodo  dos  habitantes  d'essa  parte  do  Bni* 
sil,  sou  servida,  além  de  outras  providencias  já  dadas,  dar  outras 
para  a  communicaçào  de  umas  capitanias  para  outras,  encarregando 
da  sua  execução  e  da  sua  direccAo  e  inspecção  de  todos  os  trabalhos 
que  requer  a  realização  do  plano  que  mando  pòr  em  pratica  o  go* 
vemador  e  capítão-general  da  capitania  do  Pará,  D.  Francisco  d« 
Sousa  Coutinho;  e  porque  a  sobredita  communicação  se  ha  de  fazer 
pelos  rios,  ordeno-vos  que,  conformando-vos,  como  quero  e  man- 
do vos  conformeis  com  o  que  vos  íòt  proposto  pelo  referido  gover- 
nador, e  de  accordo  com  elle  quanto  ao  tempo  e  ao  modo  de  prin- 
cipiar e  proseguír  os  trabalhos  necessários,  façais  explorar  os  rios 
que  correm  pelos  districtos  d'es8a  capitania  e  que  vão  levar  as  suas 
aguas  ao  Amazonas,  e  que  por  elies  se  façam  descimentos  em  épocas 
determinadas,  que  vos  annuncíar  o  governador  do  Pará,  de  sorte 
que  em  lugar  dado  venham  encontrar-se  com  as  partidas  que  do 
Pará  subirem  pelos  mesmos  rios,  afim  que  por  este  modo  se  façam  e 
continuem  as  exploraçi^es,  que  de  todos  os  rios»  que  do  interior  do 
fírasil  vão  desaguar  n'aque1la  capitania  e  suas  costas,  vindo  assim  a 
conseguir-se  os  preciosos  conhecimentos  para  se  regular  depois  a 
mesma  communicação,  conGando  do  vosso  zelo  pelo  meu  real  ser* 
viço  que  executareis  com  actividade,  promptídão  e  desvelo  tudo  o 
quts  para  aquelle  fim  vos  f(\r  proposto  e  ordenado  pelo  sobredito 
governador  e  capitão -general;  porquanto  é  por  expressa  ordem 
minha  tudo  o  que  elle  emprehender  e  vos  participar.  O  que  vos  hei 
por  ordenado  e  mui  recommendado  para  que  assim  o  cumprais  e 
façais  cumprir,  não  obstante  quaesquer  ordens  em  contrario.  Es- 
cripta  no  palácio  de  Queluz,  em  13  de  Maio  de  1798.  —  Príncipe, 


D,  Francisco  de  Sousa  Coutinho,  emprebendesse  a  explora- 
ção e  naTegaçao  dos  rios  da  capitaoia,  que  ?ao  desaguar  no 
Amazonas,  e  que  executasse  para  esse  fim  tudo  quanto  lhe 
fosse  diclâdo  peto  governador,  de  que  tratamos,  partiu  de 
Lisboa  em  direitura  ao  Pará,  oude  demorou-se,  para  melhor 
conbinar  o  que  devia  fazer  na  conformidade  d'esta  ordem 
tao  terminante,  e  cuja  boa  extjcução  muito  importava, 

A 111  embarcando-se,  subiu  o  Tocantins,  entrou  pelo  Ara- 
guaya,  e  foi  ler  ao  porlo  de  Sania  Rila,  donde  seguiu  por 
terra  para  Villa  Boa, 

D'este  modo  quiz  por  si  mesmo  estudar  os  meios 
de  cumprir  as  reaes  recommendaçoes,  desprezando  assim 
os  ioeúramodos  por  que  ia  passar,  atraTessando  mais 
de  quatrocentas  léguas  despovoadas,  e  mm  recursos, 
além  de  oxpõr-se  aos  insultos  dos  selvagens,  que  habita- 
vam uma  e  outra  margem  do  rio. 

A  chegada  de  D.  João  á  capital  foi  uma  sorpresa  agradá- 
vel para  os  inimigos  de  Tristão  da  Cunha,  quu  desde  logo 
começaram  a  mauifestar  por  actos  o  seu  contentamento,  o 
que  de  algum  modo  estimulou  o  orgulho  e  o  amor  própria 
do  ex-governador* 

Também  esle  nao  recebeu,  como  era  de  justiça  e  dever 
de  cortezia,  ao  seu  successor  e  parente  com  as  cordiaes 
manifestações  que  se  esperava,  E»  manifestando  despeito, 
por  ver  a  satisfação  dos  que  o  tinham  hostílisado,  no  dia  da 
posse  do  seu  successor,  togo  depois  do  acto  religioso^  que 
era  de  estylo,  retirou-se  da  igreja,  deixando  de  acompa- 
nhar a  D.  João  ao  quartel-general  da  sua  residência.  Ou 
acto  irrertectído  fosse  ou  iutencíonal,  é  certo  que  esta  gros- 
seria e  incivilidade  causou  estranheza  a  todos,  e  foi  hábil* 
meule  aproveitada  pelos  seus  inimigos,  como  arma  pre- 
ciosa de  intriga. 

Uma  testemunha  ocular  dos  tristes  acontecimentos  doesse 


—  8  — 

tempo»  esboçando  o  governo  de  D.  Jo2o,  assim  se  ex- 
prime: 

«  L(^o  depois  da  sua  posse  na  matriz,  teve  o  seu  foco  a 
discórdia  de  Goyaz,  por  não  ser  acompanhado  ao  quartel 
da  sua  residência  pelo  seu  antecessor  e  primo,  que  da  igreja 
se  retirou. 

«  D'aqui  cresceu  a  intriga,  que  perturbou  a  boa  ordem 
de  todas  as  cousas  de  Goyaz.  A*  demora  do  seu  antecessor 
acudiu  depois  a  emulação,  e  fez  partidistas,  que  Ibe  tor- 
naram suspeitosos  os  seus  súbditos,  ainda  os  mais  obe- 
dientes: em  quasi  todos  se  lhe  Ggurava  ver  régulos  e 
anarcbistas  (estes  os  valiosos  nomes  que  lhes  inspiravam 
e  que  dava  a  todos]  e  a  todos  ameaçava  com  a  mais  severa 
vingança,  à  excepção  dos  satellites  da  intriga,  que  sempre 
applaudiu,  e  teve  a  desgraça  de  não  poder  conhecer,  sendo 
que  a  malignidade  é  que  lhe  acendeu  o  animo  e  alterou  a 
rectidão  de  suas  intenções. 

«  Principiou  affavel  e  beneflco,  estabeleceu  sociedades 
que  frequentou,  mas  pessoas  mal  intencionadas  achavam 
occasião  apropriada  para  desafogo  de  vinganças  particu- 
lares e  para  augmentar  os  interesses  próprios,  e  lhe  repre- 
sentaram suppostas  infidelidades,  tornando  tâo  critico  o 
tempo  d'esse  governo  que  tudo  era  perigoso,  e  a  mesma 
prudência  mais  encanecida. 

<c  Fulminou,  trovejou,  ferveu  a  dissenção  entre  dois 
grandes,  e  assustado  tremeu  o  resto  do  povo. 

«  Amíudaram-se  então  as  representações  ao  tbrono,  e, 
quando  a  camará  incorporada  foi  intimar  ao  seu  antecessor 
a  sua  retirada,  apresentou  este  um  aviso  para  se  demorar 
o  tempo  necessário  para  exlrahir  os  documentos  que  pre- 
tendia e  se  lhe  denegava. 

<c  Então  enviou  o  seu  ajudante  d'ordens  a  Lisboa  afazer 
novas  representações  a  este  respeito :  —  auctorisou  o  outí- 


—  9  — 


dor  de  Malo-Grosso*  que  passava,  a  tirar  devassas  em  terri- 
torioalheio  contra  o  ouvidor  Liz,  que  jà  linha  dado  residên- 
cia, e  oulros  mais :  enlao  fez  prender,  sem  tomar  contas  e 
dar  balanços,  o  thesoureiroe  escrivão,  deputado  da  junta  da 
real  fazenda,  o  thesoureiro  da  casa  da  fundição  e  outros, 
nomeando-ihes  serventuários,  e  conservando-os  muito 
tempo  em  si^gredo,  o  que  tudo  se  fez  com  um  apparato  mi- 
litar, qm  inspirava  temor  a  toda  a  villa. 

í(  Então  se  flzeram  reposições  aos  cofres  de  ordenados 
que  se  tinham  recebido,  e  que  depois  foram  mandados  res- 
tituir por  Sua  MagesEade-  Kntao,  finalmente,  uns  foram 
exterminados  para  fora  da  capitania,  outros  para  dilTe ren- 
tes lugares  da  mf  sma,  e  quasi  todos  ameaçados  dos  mais 
seteros  castigos.  Mas  nem  cora  tudo  isto  socegava  a  in- 
triga, fervia  cada  vez  mais  a  obra  da  iniquidade,  a  cada 
jm&}  sonliavam  e  apresentavam  a  este  gt»vernador  ataques 
feitos  contra  a  sua  pessoa  e  a  sua  honra,  de  sorte  que  uma 
jaiiella  fechada  com  estronJo  por  uni  golpe  de  vento  síí 
figarou  como  um  violento  tiro  de  pedra  que  so  lhe  fazia. 
Veiu  a  supposta  pedra  criminosa  a  juisío,  fez-se  auto  dii 
corpo  de  delicto  em  uma  mossa  da  dobradiça  da  janella,  e 
se  procedeu  á  celeberrima  devassa,  em  que,  depois  de  se 
macularem  pessoas  innocentes,  aOnal  Gelaram  criminosos  e 
obrigados  a  livramento  os  mesmos  que  contra  ellas  tinham 
jurado.  Com  isto  dobrou  a  guarda  de  sua  pessoa,  prepa- 
rou a  artilhe  ria,  que  assestou  contra  a  casa  do  seu  ante- 
cessor, municiou  as  tropas  que  velavam  â  noite^  e  com  o 
alarma  aterravam,  reformou  e  povoou  as  cadêas,  e  fez  assim 
esperar,  antes  da  consummayão  dos  séculos,  o  dia  rio  juízo 
universal,  »  (63; 

A  pintura  carregada  eom  que  desenha  o  auctor  o  quadro 

Cl.  A.  Silfa  e  Souza.  Hfim*  tioy 
TOMO  xxvnr,  p*  ii.  í 


—  ia  — 


da  administrarão  de  D.  João  iam  mui  lo  de  exaola ;  ma&  è 
bom  saber  que,  ooulemporaneo  d^esses  deploráveis  acon- 
tecifneotoSt  lambem  teve  Q'eiles  parte  corno  ura  dos  amigos 
de  Tristiio  da  Cunha, 

Ambos  os  personagens  foram  eu I pados  ;  Trislao  da 
Cunha  por  nào  saber  respeiLar-se^  D*  João  por  não  saber 
dissimaUr. 

O  cirtirgíno-mor  Joso  Manoel  Antunes  da  Prola,  âuclor 
da  ama  historia  do  Goyaz,  reíerindo-se  a  este  governador, 
faz-lhe  jusliça,  dizendo  :  <<  que  tinha  boas  intenções,  e  de- 
sejava acertar;  porém,  infelizmente»  mo  sabia  fazer es- 
coLha  dos  homens^  e  dava  ouvidos  a  muitos,  que  o  i&\^ 
díam,  n  (64) 

Ambos  tinham  os  mesmos  defeitos  como  administrado^ 
res;  mas  dislinguia-se  Trislao  da  t^nha  pela  sua  perícia 
em  manejar  a  terrível  anaa  da  intriga,  que  muitas  wtesé 
uma  arma  de  dois  gumes,  que  não  sò  fere  â  victima  eomo 
o  algoz.  Foi  o  que  succiídeu :  querendo  ftizer  mal  aos  seus 
contrários»  fez  mal  ao  seu  successor,  e  alinal  se  véiii  a  pre- 
judicar a  si  mesmo.  Níl  hOra  suprema  da  justiça  foi  TrisLío 
da  Cunha  envolvido  n'essa  rèdo  infernal,  que  teceu  por  suas 
próprias  mãos. 

Os  factos  succedidos  no  mez  de  Mato  de  1803,  por  occa-* 
siâo  de  ser  preso  o  Dr<  Manoel  Pintu  Coelho,  intendente  do 
ouro,  nao  se  podem  dizer  filhos  da  imprudência  o  do  ca- 
racter violento  de  D*  João ;  mas  devem  ser  levados  em 
culpa  ao  seu  antecessor,  que,  empurdiando  o  facho  da 
discórdia,  fez  sublevar  todos  os  ódios  e  atear  todas  *as 
más  paixões   6   ã  imprudência  do  mesmo    intendente. 

Foram  tão  repetidos  os  i  d  sul  tos,  tantas  ns  provocâçOes 
desrespeitosas  recebidas  dos  apaniguados  de  Tristão  da 

[U)  Pãlriota;  anno  1814,  n.  t,  pag.  33. 


—  u  - 


Canha,  que,  apurada  a  paciência  de  D-  João,  esgotado  o 
cálix  da  amargura  até  ás  íeses»  toda  a  energia  do  seu  carac- 
ter cumeçou  a  raanifeslar-se  em  actos,  alguns  de  injustifi* 
cavei  violência* 

Vejamos  o  qtie  deu  origem  k  prisão  de  Manoel  Pinto 
Coelho,  Não  era  D.  João  pouco  zeloso  do  camprimento  dos 
seus  devereSf  nem  condescendente  que  tolerasse  abusos • 
Vendo  que  a  renda  da  capitania  decrescia  espantosamente» 
qoê  era  preciso  fazer  economias^  havendo  muito  onde 
realizal-as»  apresentou  em  junta  da  fazenda  um  plano  de  re^ 
forma  económica,  que  em  algumas  das  suas  partes  signiC- 
caia  reprovaíâo  de  actos  do  seu  antecessor,  e  em  outros 
redundava  em  prejuizo  de  alguns  dos  seus  deputados,  par- 
ticularmente de  Manoel  Pinto. 

Este  plano  de  reforma  encontrou  da  parte  do  procurador 
da  fazenda  a  mais  decidida  e  tenaz  oppúsição  ;  e  no  parecer 
escripto,  que  foi  convidado  a  dar  sobre  elle,  nao  se  limitou 
a  combater  o  projecto,  mas  passou  a  aggredir  o  gover- 
nador, mént^scahando  da  sua  auctoridade,  Nao  contente  de 
proceder  de  um  mudo  t~(o  insólito»  ainda  foi  além,  capi* 
tulando  uma  accusaçãu  dt^sabrida  contra  os  actos  adminis- 
trativos de  D.  João- 

Este  procedimento  do  procuradur  da  fazenda  fez-Ihe  tão 
má  impressão  que,  escrevendd  a  propósito  ao  secretaria 
doestado,  assim  se  exprimiu,  profundamente  desanimado : 
«  O  meu  procedimento  em  cortar  os  abusos  sâo  desvir- 
íubáíqí  ;  os  meus  planos  acham  aqui  sempre  opposiçao,  e 
sáo  diíBceis  a  praticar  pelos  obstáculos  do  partido  e  da  par- 
cialidade. >»  Faltando  do  seu  plano  de  reforma ;  ^  A  digni- 
dade com^que  representei  ajunta  da  real  fazenda,  os  remé- 
dios de  que  se  devia  fazer  uso  para  obstar  a  sua  mina,  o 
inleresse  que  uella  mostrei  para" que  fossem  pralicados» 
não  uarecíiLm  a  triste  recompensa  de  serem  obstados  pelo 


-  42  - 

pedantismo  e  crassa  ignorância  do  dilo  procurador  da  fa- 
zenda, levando  o  seu  delírio  a  proferir  falsidades  para  me 
insultar  e  uIlR^ar,  e  d'esie  modo  satisfazer  ao  seu  amigo  e 
protector  Tristão  da  Cunha  Menezes,  com  quem  todos  os 
dias  confere,  e  os  do  partido  da  opposiçao,  cogitanio 
sempre  nos  meios  de  me  insultar  e  transtornar  os  meos 
plano8«  X» 

Desgostoso  D.  João  dos  factos  que  todos  os  dias  sncce- 
diam  em  Villa  Boa,  retirou-se  para  uma  chácara  no  arraial 
do  Ferreiro. 

No  dia  1*  de  Maio  alli  fui  ter  o  intendente  e  lambem  ou- 
vidor interino,  afim  de  declarar  ao  governador  que  por 
aquelles  dias  seguiria  para  Meia  Ponte  em  diligencia  do  seu 
officio. 

O  tom  do  recado  e  o  mào  humor  do  governador  concor- 
reram para  que  esta  audiência  não  fosse  nem  mesmo  atteo- 
ciosa.  D.  João  declarou-lhe  peremptoriamente  que  ido 
podia  dispensar  a  sua  estada  na  capital ;  que  aguardasse  a 
diligencia  para  depois  da  chegada  do  ouvidor  MouiCo ; 
e,  finalmente,  que  a  sua  retirada  era  motivo  para  não  po- 
der haver  junta,  e  que  esta  já  havia  representado,  mos* 
trando  o  incobvenienle  doesta  falia. 

Àpezar  do  que  ouvira  a  J).  João,  no  díaã  oí1iciou4he, 
pedindo  a  nomeação  interina  de  um  procurador  da  fazenda, 
e  solicitando  outras  providencias,  por  isso  que  era  irrevo- 
gável a  resoIuQDo  que  tinha  tomado  de  ir  à  Meia  Ponte. 

Foi  a  reproducção  de  facto  idêntico  que  se  deu  com 
um  ouvidor  interino  no  governo  de  Tristão  da  Cunha,  como 
vimos,  mas  sem  as  falaes  consequências  que  d'esle  se  ori- 
ginaram. 

Declarando  por  toda  a  parte  Pinto  Coelho  que  não  cum- 
pria as  ordens  do  governador,  apromplava-se  para  no  dia 
18  partir  para  Meia  Ponte.  No  dia  aprazado,  porém,  apre- 


-  13  — 


sentou-se-flif*  '"  ajudante  d*oriletis,  Álvaro  José  Xavier^ 
e  ÍDlimou-lhe  de  ordem  de  Sua  Magestade  a  suspensão  de 
todos  os  seus  empregos,  declarando -o  também  preso  em 
sua  casa  atò  nova  ordem. 

O  intendente,  resistindo  com  umapistola»  tentou  montar 
a  carallo;  intervindo,  entretanto,  a  fijrça,  e  comellao 
ajudante,  Marcellino  José  Manso,  foi  Coelho  desarmado, 
e  conservado  preso  sob  a  gnanla  de  um  tenente  de 
dra*íÕes. 

O  governador,  que  reeeiava  a  preseTjra  do  intendente  na 
vdia,  resolveu  fazél-o  sabir  em  48  boras  para  a  aldôa  de 
Tedro  III,  até  que  pudesse  dar  lhe  outro  destino,  e  n'este 
sentido  deu  suas  ordens. 

íí*este  mesmo  dia,  à  tívrde.  chegou  á  capital  o  ouvidor 
Mourão:  us  amiííosdo  intendente  faramaoseu  encontro, 
e,  tanto  se  empenharam  para  que  interviesse  em  favor  do 
preso,  que  nao  teve  remédio  senão  empregar  os  seus  bons 
oíBcios  junto  à  pessoa  do  governador;  mas  não  sò  nada 
consísguiu,  oomo  teve  ordem  de  ser  elle  próprio  o  executor 
das  que  anteriormente  tinha  D,  João  dado. 

Paraiavitar  o  degredo,  e  ganhar  tempo,  requereu  Coelho 
uma  inspecção  de  saúde,  cora  a  qual  provou  nao  poder  se- 
guir viagem*  Por  intermédio  do  ouvidor  chegou  esta  cir- 
cumstancia  ao  conhecimento  de  D*  João. 

Telas  10  horas  da  manha  do  dia  17,  pouco  antes  da  hora 
marcada  p;ira  a  sabida  do  intendente,  a  camará  cm  corpo- 
ração e  arvorando  o  seu  estandarte  foi  ter  com  o  ajudante 
Marcellino  José  Manso,  e  intimou-lhe  que  substivesse  no 
cumprimento  das  ordens  do  governador. 

O  ajudante  e  o  secretario  do  L^overno,  Manoel  Joaquim 
da  Silveira  Félix,  se  transportaram  immedialamente  ao 
sitio  do  Ferreiro,  afim  de  com mun içarem  a  D.  Joio  o  que 
ocDírria, 


—  14  — 

N'essa  oecasião  foi  laesente  ao  mesmo  governador  o 
officio  de  Mourão,  parlicipando  que  o  preso  uâo  podia  fazer 
viagem,  por  ter  eíTeclivamente  adoecido. 

Pouco  depois  regressou  do  Ferreiro  o  ajudante  Manso, 
deixando  em  companhia  do  governador  o  secretario  e  o 
capitão-mór  da  villa»  António  de  Sousa  Telles. 

Sendo  mais  de  3  horas  da  tarde»  c  vendo  a  camará  que 
o  governador  não  deferia  o  requerimento  do  intendente, 
apoiado  no  testemunho  insuspeito  de  Mourão,  dirigiu-se 
a  este,  e  intimou-lhe  que  não  cumprisse  ordem  alguma 
emanada  de  D.  João,  c  em  seguida  foi  declarar  ao  ajudante 
Manso  que  se  considerasse  preso  até  segunda  ordem  da 
mesma  camará. 

Dadas  estas  providencias,  partiu  a  camará  em  corpo- 
ração para  o  Ferreiro,  e  alli  chegou  ás  5  horas  da  tarde. 
N'esta  mesma  occasião  recebia  Manso  a  seguinte  carta  do 
governador: 

a  Recebi  a  sua  carta  ás  3  horas  da  tarde :  ella  me  obriga 
a  tomar  a  medida  de  encarregar  ao  Dr.  ouvidor  da  comarca 
o  pôr  os  meios  de  calmar  a  tempestade  levantada  por  esses 
facciOvSOS  camaristas,  para  cujo  fim  Vm.  entiegará  logo 
esse  meu  oíTicio,  que  remetto  incluso,  para  que  de  mutuo 
accordo  com  o  Dr.  ouvidor  determinem  o  que  parecer  mais 
conveniente ;  e,  no  cuso  que  Manoel  Pinto  Coelho,  inten- 
dente que  foi,  se  ache  molesto  (como  aQinna\  não  ponha 
em  execução  a  minha  ordem  de  o  fazer  sahir  esta  tarde, 
esperando  até  que  melhore ;  poderá  igualmente  recolher 
a  tropa,  se  assim  as  circumstancias  exigirem,  confiando  na 
sua  prudência,  se  conduza  sobre  este  importante  objecto 
como  lhe  parecer  melhor  convir  á  tranquillidade  publica  e 
serviço  do  Príncipe  Nosso  Senhor.  Silio  do  Ferreiro,  4  ho- 
ras da  tarde  do  dia  17  de  Maio  de  1803.—  D.  João  Manoel 
de  Menezes.  » 


—  15  — 


Se  O  sargetnto-murMarcellioo  tivesse  algumas  horas  anles 
recebido  esla  ardom,  a  lempestartti  se  lona  desfeito,  6  a 
camará  não  se  excederia  do  procedimenlo  que  ttive,  proce- 
dimento altamente  criminoso^  corao  passamos  a  vêr. 

ApresenlandO"se  ella  ao  goviiruador,  foi  conveoiente- 
mente  recebida,  e  nesse  aclo  inlimou-lbe  o  secretario 
d' essa  corpuraçãu  ordem  de  prisão  por  crime  de  lesa-ma- 
gestade»  devendo  por  islo  a*nsiderar-se  desde  aquelladata 
apeado  das  fuucções  de  governador  e  capiiâo-generaL  Em 
seguida  foi  também  intimada  ao  secretario  do  governo 
ordem  de  prmo,  sendo  para  admimr  que  d' ella  escapasse 
o  capitio-mòr  dacoraârca,  que  se  achava  como  governador 
e  ora  testemunha  doesta  scetia- 

D.  João,  com  calma  apparenle  e  ironia  nos  lábios,  de- 
clarou simplesmente  que  ficava  certo  da  resolução  da  ca- 
mará; e,  ao  relirar-se  esta»  fez  saber  ao  governador»  que 
corasigo  conduzia  o  secretario :  antes,  porém,  da  sua  par- 
tida, lAl^o  D.  João  entrar  em  um  gabinete  particular,  e  es- 
crever a  seguinte  ordem : 

«  O  sargeato-mòr,  ajudante  das  minhas  ordens,  Mar- 
cellino  José  Manso,  mandara  pegar  em  armas  a  toda  tropa, 
que  puder  ajuntar  das  quatro  companhias  do  regimento  do 
iíifanlaria  dos  pardos,  cavai  1  ária  e  Henriques,  e  me  enviará 
um  pequeno  reforço  para  minha  guarda,  e,  logo  que  tenha 
em  armas  a  gente,  lhe  ordeno  que  venha  a  este  quartel- 
geoeral  do  Ferreiro,  receber  de  mim  as  ordens  que  ahi 
deve  executar,  parlici pando  ao  Dr,  ouvidor  da  comarc;i, 
Manoel  Joaquim  de  Aguiar  Mourão,  que  se  dirija  a  eslo 
sitio  logo  e  logo,  » 

A  camará  quiz  obstar  que  este  otlicio,  de  cujo  assumpto 
ignorava»  fosse  levado  ao  seu  desliiu»,  mas  não  o  pôde  con- 
seguir. Eram  5  horas  c  meia  da  tarde. 
Desde  pela  manhã  o  iatendentô  trabalhava  da  sua  prisão 


—  16  — 

com  frenética  actividade,  para  augmenlar  os  elementos  da 
desordem  com  que  conUiva,  mediante  o  concurso  dos  seus 
amigos,  do  ex-governador  e  da  camará,  com  quem  esta?a 
em  incessante  correspondência. 

No  regressar  a  camará  do  sitio  do  Ferreiro  para  a  villa, 
encontrou  em  caminho  o  ouvidor  Mourão,  o  qual,  depois 
de  censurar  em  termos  enérgicos  o  procedimento  d'ella, 
conseguiu  soltar  o  secretario  e  leval-o  comsigo. 

Jà  riilo  era  tempo  de  recuar. 

O  ouvidor  e  o  secretario  do  governo  voltaram  do  Ferreiro 
ã  noite,  trazendo  as  ultimas  instrucções.  Ao  chegarem  a 
palácio,  ahi  encontraram  o  ajudante  Manso,  que  jà  tinha 
reunido  a  força  nos  seus  quartéis,  prompta  à  primeira  or- 
dem, afim  do  manter  a  tranquillidade  publica,  no  caso  de 
alguma  tentativa  de  sedição. 

A  camará,  depois  da  prisão  do  governador,  recolhendo- 
se  à  villa,  mandou  tocar  a  rebate.  Durante  todo  o  resto  da 
tarde  se  ouviu  o  toque  monótono  do  sino  da  cadêa,  cha- 
mando o  povo  á  revolta ;  mas  foi  embalde,  porque  nin- 
guém se  atrevia  a  sahir  à  rua.  As  casas  estavam  trancadas, 
as  ruas  desertas,  a  força  em  armas  no  quartel,  e  a  camará 
em  sessão  permanente  desde  as  9  horas  da  noite. 

O  capitão-mór  Telles  e  o  ouvidor  Mourão  foram  Dor  ella 
intimados  para  que  comparecessem  á  sessão :  mas  estes 
não  só  recusaram  ir,  como  declararam  em  suas  respostas 
aos  camaristas  qne  era  prudenle  dissolveremse,  o  não 
continuarem  a  perturbar  o  soce^^o  publico. 

Sciente  o  governador  de  tudo  quanto  occorrêra  depois 
da  sua  prisão,  expediu  a  seguinte  ord(?m  ao  ouvidor  Mou- 
rão, que  d'ella  foi  entregue  às  H  horas  da  noite  : 

«  O  estranho  e  nunca  pensado  procedimento,  praticado 
no  dia  de  hoje  pela  camará  doesta  villa,  me  obriga  a  tomar 
medidas  instantâneas  contra  os  aggressores  de  tão  atrozes 


—  17  - 


delictos;  e,  porque  se  acham  esgotadas  as  de  moderação p 
Vm.  proceda  immedíalameote  a  prender  lodos  os  officiaes 
da  camará,  sendo  o  presidente  e  escrivão  os  primeiros 
sobre  quem  se  exercite  este  aclo  de  jurisdicção,  e  porque 
me  consta  que  na  mesma  casa  da  camará»  fora  de  horas, 
se  conspira  novaraenle  contra  a  minha  immunidadep  pro- 
cederá contra  elles  sem  atlençSo  a  qualquer  immuDidade 
de  pessoa  e  lugar,  por  ser  este  o  caso  em  que  se  não  co- 
nhece asylo:  Vm.  assim  o  cumpra,  e  me  dê  parte  de 
assim  ficar  executado.  Deus  guarde  a  Vm-  Sitio  do  Fer- 
reiro, !0  horas  da  noite  do  dia  17  de  Maio  de  1803.— 
D,  João  Manoel  dts  Mello.  —Sr*  Dr.  ouvidor,  Manoel  Joa- 
quim de  Aguiar  Mourão.  » 

De  posse  d' esta  ordem,  o  ajudante  Manso  com  uma 
força  de  60  praças  partiu  para  a  casa  da  camará  e  pôz-lhe 
cerco ;  porém  os  camaristas  um  quarto  de  hora  antes  se 
tinham  dissolvido  e  occultado,  A*s  2  horas  da  noite  foram 
dois  camaristas  presos  em  suas  casas  pelo  ouvidor :  quatro 
tinham  conseguido  evadir  se. 

Pelas  4  horas  da  manlia  partiu  o  intendente  Manoel  Pinlo 
Coelho  para  o  Carretão,  no  meio  de  uma  escolta  de  dragões, 
na  conrormidade  das  ordens  de  D.  João, 

No  dia  seguinte  se  recolheu  a  vitla  o  governadoF,  acom- 
panhado das  pessoas  do  seu  parlídu,  que  o  tinham  ido  visi- 
tar ao  Ferreiro* 

Comquanto  a  tranquillidade  publica  não  tivesse  sido  se- 
riamente perturbada,  o  descontentamento  produzido  pelas 
scenas  que  acabamos  de  narrar  foi  geral. 

O  ouvidor  Mourão  começou  enlao  a  devassar  d*estes 
actos  criminosos,  em  cumprimento  das  ordens  que  lhe 
furnm  transmitlidas. 

O  facto  da  sua  prisão  e  os  precedentes  havidos  por  tal 
modo  impressionaram  a  D.  João,  que»  oOiciandoao  secreta- 
TOMoxxvm,  p.  11.  3 


-  IS  — 


rio  dd  ^lado,  manifestou  o  soa  pangente desgosto  nos  i 
gDintas  termos: 

<t  Acho-me  baslanleniente  enfermo,  dizia  elle,  affeelando 
este  facto  (â  sua  prisão)  demasiadamente  o  meu  syslBma 
nenroso.  n 

E  nunca  mais  se  satisfez  de  faltar  raal  docaraeterdo 
poTO  que  governava,  da  depravação  dos  seus  costameSt  da 
venalidade  dos  empregados,  dos  insultos  de  que  era  t icti- 
ma  e  dos  torpes  meios  de  que  lançavam  mão  para  de- 
primil-o  6  caluniniar  suas  mais  rectiis  intenções.  Em  Juoho 
dizia  a  D.  Rodrigo  de  Sousa  Coutinho : 

(c  V,  Ex*  conheça  que  ninguém  tem  melhores  desejos  de 
lugmeniar  a  prosperidade  d  esta  capitania ;  porõm  o  vicio 
enervado  por  muito  tempo  tem  arruinado  e  destruído  lodos 
os  ramos  da  administração  publica,  e  que  sem  eliminar  os 
inimigos  domésticos,  e  combater  e  destruir  essas  hydras, 
que  envenenam  todos  os  planoí^  benéficos,  jamais  poderei 
colher  frueto  das  minhas  laboriosas  fadigas,  » 

Os  dezeseis  annos  de  governo  de  Tristão  da  Cunha  tinham 
concorrido  para  que  a  obra  regeneradora,  começada  por 
João  Manoel  de  Melto  a  continuada  pelo  visconde  da  Lapa* 
fosse  completamente  destruída.  D.  João  Manoel  de  Mene- 
zes não  era  o  homem  mais  profirio  para  succeder  aTristãoí 
não  tinha  para  a  missão,  que  quíz  desempenhar,  nem  tino^ 
Bem  instrucções  apropriadas.  A  luta  que  travou  com  os 
funccionarios  e  magistrados  foi-lhe  fatal,  não  recebendo  o 
necessário  apoio  da  corte*  Muitos  dos  seus  actos  foram 
desapprovados,  outros  reformados,  alguns  derogados  com- 
pletamente, e  não  poucos  ser\iram  de  ra^âo  ás  mais  graves 
censoras.  Se  um  partido  em  Goyaz  se  levantava  ousa^ 
para  combater  seus  actos,  e  desrespeitar  na  sua  pessoa  o 
delegado  do  soberano^  esse  partido  mais  desenfreado  se 
tornou  na  aggressio,  vendo  que  os  secretários  de  Estado 


-  (3  - 


eram  os  mais  empenhados  em  hoslilisar  o  governador,  que» 
se  n5o  era  um  modelo  de  moderação,  era  comludo  um 
typo  de  probidade. 

A  mola  principal  de  toda  essa  guerra  atros  a  iniqua  foi 
Tristão  da  Cunha  Meneses,  que  para  a  eôrte  pintava  o  seu 
successor  com  as  cores  mais  negras,  mentindo  e  calum- 
niando  de  um  modo  indigno  e  inconcebível* 

Não  consta  que,  n*essos  tempos  de  despotismo  e  arbitra- 
riedades, houvesse  um  governador  que  lao  severas  repri- 
mendas  recebesse  de* ordem  do  soberano,  pelos  ministros 
e  pelos  Iríbunaes  superiores. 

D.  Rodrigo,  em  carta  de  ih  de  Dezembro  de  18ÍK,  es- 
Iranhou-lhe  os  excessos  de  jurísdicção  e  despotismos  prati- 
cados era  raateriii  de  justiça  e  de  fazenda,  transgressões  de 
ordens  e  arrog.ições  de  auctoridade. 

Uma  provisão  de  á8  de  Maio  de  i802  advertiu-o  para 
que  levantasse  o  braço  de  ferro,  com  que  opprimia  a  coló- 
nia o  llagellava  os  magistrados:  outra  do  r  de  Junho  de 
1802  estraíj liava  varias  providencias  suas. 

N'uma  provisão  da  mesa  da  consciência,  de  O  de  Agosto, 
se  lè  i 

«  No  meu  tribunal  da  mesa  da  consciência  e  ordens  fo- 
ram presentes  os  desatinos  e  atten lados  que  praticava  o 
goviírnador  D.  João  Manoel  de  Menezes,  mandando  arre- 
batar violentamente  os  processos  dos  cartórios,  entregar 
os  bens  litigiosos,  sobstar  as  execuções  que  se  moviam 
contra  teslamenleiros  dolosos,  mancomraunados  com  o  seu 
secretario,  sentenciando  tudo  a  seu  arbilrio,  com  tanta 
ignorância  como  incompetência,  chegando  mais  ao  excesso 
de  chamar  à  sala  os  oOícíaes  públicos  para  lhes  dar  uma 
audiência  irrisória  e  fazer-lhes  um  exame  vocal  das  suas 
obrigações,  do  que  seguiu  suspender  uns  e  nomear  outros 
de  novo,  tudo  imprópria  e  illegitimamente,  como  costu- 


—  20  — 

mava  dos  seus  absurdos  procedimentos,  sendo  o  mais  n(h 
tavel  o  que  pralicou  com  o  ouvidor  António  de  Líz  (65)  no- 
meando-lhe  um  syndicanie  para  lhe  tirar  uma  nova  resi- 
dência, depois  de  ter  dado  a  primeira  na  forma  da  lei, 
pondo  para  esta  estranha  e  violenta  diligencia  uma  senti- 
nella  ã  porta  do  bacharel,  a  quem  accommetteu,  abrindo 
devassas,  soltando  presos  que  se  achavam  convencidos  como 
roubadores  da  fazenda  dos  ausentes,  e  alliviando  outros 
incursos  nos  mesmos  crimes  de  sequestro,  que  se  lhes  tinha 
feito,  para  segurança  do  que  tinham  extorquido  aos  ditos 
ausentes ;  e  sendo  todos  esses  factos  informes  e  abusivos 
da  auctoridade  que  lhe  confere,  contrários  à  legislação  do 
reino  e  praxe  de  julgar,  e  ao  que  se  acha  determinado 
no  regimento ;  emquanto  não  dou  a  semelhante  procedi- 
mento as  immediatas  e  positivas  providencias,  que  julgar 
mais  próprias  e  terminantes  para  cohibir  e  castigar  em 
desempenho  do  meu  real  serviço  e  da  justiça :  Hei  por  bem 
de  vos  ordenar  que,  reputando-se  verdadeiramente  nullos, 
irritos  e  improcedentes  todos  os  actos  com  que  o  mesmo 
governador  tem  atropellado  as  leis,  a  jurisdicção  da  magis- 
tratura e  o  direito  das  parles,  procedais  logo  a  repor  tudo 
no  seu  primeiro  estado....  » 

A.  conservação  de  um  agente  de  confian^*a,  que  se  tomou 
pelos  seus  actos  merecedor  de  tão  severa  reprimenda,  éum 
delicto  dos  mais  graves  que  se  pôde  commet^er  contra  os 
altos  principios  da  administração  publica,  crime  de  lesa- 
politica,  que  subverte  pela  base  o  edifício  social. 

E  D.  João  Manoel  de  Menezes  continuou  no  governo  da 
capitania  I 

Como  temos  visto,  foi  o  intendente  Manoel  Pinto  Coelho 

(65)  Este  ouvidor  deixou  na  capitania  uma  chrouica  escan- 
dalosa, e  um  nome  manchado  de  improbidade. 


seu  irreconcilnvel  inimigo.  Suspenso  em  1801  pela  ma- 
neira inconveniente  porque  Lratára  o  goveraatior,  recorreu 
para  Lisboa  d*essa  decisão ;  o  resuliado  foi  ser  estranhado 
o  procedimento  do  governador  em  carta  régia  de  U  de 
Dezembro  do  mesmo  anno,  e  baixar  outra  ordem  ajunta 
administrativa  mandando-o  reintegrar. 

Este  golpe  feriu  profundamente  a  D.  Joaõ  e  deu  alentos 
aos  seus  adversários.  Foi  alludindo  a  esie  facto  que  assim 
escrevia  a  D.  Rodrigo  de  Sousa  Coutinho  em  30  de  Março 
de  1803: 

u  Vejo-me  diariamente  ;i lacado  peio  intendente,  o  qual, 
atropellando  ludo  quanto  o  resptMlo  c  a  civilidade  tem  de 
mais  sagrado,  me  oíTende  e  insulta  em  toda  a  occasiao  e 
lugar,  muilo  principalmente  desde  o  momento  que  Sua  Al- 
teza Real  houve  pur  bera  estranhar  os  meus  procedimentos 
despóticos  pela  carta  régia  de  14  de  Dezembro  de  1801, 
que  beijei  e  fn  dar  a  mais  pronii>la  e  submissa  execução. 
A  minha  saúde  não  precisava  d'esle  tão  forte  estimulo  para 
desapparecer,  e  a  minha  existência  diOícultosamente  se 
conserva  desde  essa  faial  época  das  minhas  desgraças,  ob- 
tendo os  meus  assígnalados  serviços  a  mais  insólita  e  in^ 
esperada  recompensa* 

*(  O  Deus  grande  fará  um  dia  apparecer  a  pureza  dos 
meus  sentimentos,  e  o  interesse  que  tenho  sempre  mos- 
trado pelo  real  serviço,  e  fidelidade  ao  meu  augusto  sobe- 
rano, a  quem  ti^nho  com  gosto  sacriGcado  os  interesses  da 
minha  casa  e  a  minha  vida  na  ditficultosa  viagem  do  Ara- 
guaya,  onde  fui  viclima  das  maíbres  desgraças,  as  quaes 
foram  preludio  das  que  tenho  solTrido  em  todo  o  decurso 
do  meu  guverno  n'esta  capitania,  onde  achei  nm  partido 
apoiado  pelo  meu  antecessor  para  combater  todos  os  meus 
projecttjs,  teodo  a  sou  soldo  milhares  de  intrigantes*  afim 


de  me  iDqaíeUrem  e  lançarem  veneno  em  todas  as  minhas 
rectas  e  desinteressadas  medidas. » 

Quando  esta  carta  chegou  às  mãos  de  D.  Rodrigo  já 
D.  João  estava  demittido,  e  nomeado  D.  Francisco  de  Assis 
Mascarenhas,  por  carta  de  25  de  Novembro  de  1802,  para 
sobstituil-o. 

No  meio  de  tamanhas  perturbações,  não  se  esqueceu 
D.  João  dos  neí(ocios  administrativos.  A  organisação  da 
força  publica,  a  creação  de  um  horto  botânico  e  outras 
obras  na  capital,  e  assim  também  a  remessa  de  tropas  para 
Nato-Grosso,  deram  matéria  para  alimentar  a  sua  acti- 
vidade. 

Merece  especial  lembrança  o  empenho  que  fez  este  go- 
vernador pam  propagar  o  ensino  elementar,  regulando  a 
cobrança  do  subsidio  litterario,  que  jà  nada  rendia,  pelo 
que  se  diflicultava  o  pagamento  do  estipendio  dos  profes- 
sores. 

Este  imposto,  creado  para  manutenção  das  escolas,  co* 
meçou  a  ser  cobrado  em  Goyaz  em  1774,  em  observância 
das  leis  de  6, 10  e  23  de  Novembro  de  1772,  e  das  inslruc- 
çôes  dn  4  de  Setembro  de  1773,  ampliadas  depois  pelas  de 
7  de  Julho  de  1787. 

Então  não  existia  ainda  em  Goyaz  uma  só  escola  de  pri- 
meiras letras,  e,  não  havendo  applicação  para  o  rendimento 
da  coUecta,  foi  toda  a  sua  Importância  remettída  durante 
alguns  annos  para  o  tribunal  da  mesa  da  commissão  geral 
do  exame  e  censura  dos  livros,  na  importância  superior  a 
vinte  contas  de  réis. 

Em  1788  vieram  para  Goyaz  os  primeiros  professores, 
sendo  três  de  primeiras  letras,  para  Villa  Boa,  Meia-Ponte 
e  Pilar,  dois  de  latinidade  e  um  de  rhetorica. 

Mo  governo  de  D.  João  algumas  cadeiras  foram  creadas. 


—  23  — 

ficando  enlao  a  capitania  com  oito  proressores  de  primeiras 
letras  e  três  de  latim. 

Tendo  por  missão  especial  íazer  explorar  os  rios  e  esla- 
belecer  uma  commuriicaçâo  regular  com  a  capital  do  Pará, 
pouco  ou  nada  realizou  u*eslo  sentido-  Tendo-lht^  feito  re- 
conhecer a  viagem  do  Aragaaya  a  necessidade  da  creaçâo  de 
um  presidio,  que  d^  futuro  viesse  a  servir  de  protecção  aos 
navegantes,  commissíonon  a  Braz  Martins  de  Almeida  para 
levar  a  effeilo  esta  creaçâo,  e  indicou- lhe  o  lugar  que  lhe 
pareceu  miiis  apropriado,  junlo  á  barra  do  Itacayuna,  ponto 
próximo  à  confluência  do  Araguaya  no  Tocantins,  onda 
prelendeu-se  fundar  depois  a  vílla  de  S.  João  das  Duas 
Barras, 

Com  estas  medidas  deu  D.  João  fim  ao  seu  governo,  que 
podia  ter  sido  feliz  se  não  fora  a  demora  do  seu  antecessor 
na  capitania.  Ambos  tiveram  aliaal  de  recolher-se  a  cfirte» 
para  responderem  por  seus  actos. 

D,  Francisco,  tomando  posse  do  governo  em  27  de  Fe- 
vereiro de  180 i,  poz  logo  em  execução  a  carta  régia  do  T8 
de  Abril  de  1803  (66),  que  mandava  devassar  pelo  desem- 


(0$)  D«  Francisco  de  Mft.^careiihas,goveriia4nr  e  ca^ítM^general  da 

capiUnia  d^  Gúfwi,  —  Amíj^o.  —  Eii  o  Priftpipe  flepenle  toa  entio 

muita  mudar.  —  Tundo  otimendo  o  desembiirgackir  Aiitonk»  Luíz 

d0  Sõusu  Leal,  para  ir  à  dUjicapkauk  devci^isiirdo  iroveruador  ê  ca^^ 

nfiCâo -general  que  ucâbon  TristÍKi  da  CuqIiu  ^leneiteit.  e  do  aiHual 

Qfârtiadúr  e  capiUio-fteDeríit  D«  João  Manoel  da  Men^^ei,  e  fazer  as 

Itnnh  uverigiiucneâ  e  diEigeiícia^,  que  Ihesào  íiMUimbitlas  pelo  e\pe* 

fdioiUti  Uú  meu  concelho  ulirauí afino  ;  e  sonda  necessário  que  o  diio 

minis  Iro   vá  munido  de  todas  a^i  protídencias,  qne  pos^um  mc1l3Df 

servir  para  amais  pmmpia  e  perfeita  exofuçfio  d*íique]la  ditigencta» 

da  modo  quenáo  encimlre  ernlKiraçá  íiíguin  nas  auctorirtiides  civis, 

ou  iDdtlarcâ  d^  incsmu  capilanid  que  :í  pu^^am  estorvar,  antes  de 

eúmmuia  accordo  conenrram   lodos  para  lhe  facílilar  tudo  o  que 

poder  ser  ti  til  &&  íadagAçOcs  de  que  vai  e  a  carregado:  sou  servido 


-  24  — 

bargador  dos  aggravos  da  supplicação,  António  Laiz  de 
Sousa  LeaU  para  este  fim  commissionado. 

Chegado  que  fosse  o  desembargador  syndicante,  ofiQciou 
a  D.  Francisco,  exigindo  que  os  ex-govemadores  sahissem 
para  fora  da  capitania  dentro  de  trinta  dias. 

Intimada  esta  ordem  no  dia  3  de  Março,  n*este  mesmt) 
mez  partiram  para  o  Rio  de  Janeiro. 

Com  a  sabida  dos  ex-governadores  foram  desappare- 
cendo  as  intrigas,  que  por  tantos  annos  comprometteram 
os  mais  graves  intiTèsscs  da  capitania ;  restabeleceu-se  a 
paz  das  familias,  reataram-se  antigas  relações,  que  o  espi- 
rito de  partido  tinba  conseguido  quebrar. 

Antes  de  encerrarmos  este  capitulo,  paremos  ainda  por 

ordeoar-vos  que  lhe  presteis  lodo  o  auxilio  que  elle  vos  requerer, 
ou  seja  militar  ou  civil,  e  que  participeis  ao  ouvidor  da  comarca  res* 
pectiva  a  commissUo  incumbida  ao  referido  desembargador,  e  lhe 
ordeneis  que  lhe  preste  igualmente  todos  os  ofíicios  da  sua  jurís- 
dicçíto,  que  elle  lhe  requerer.  E  ordenareis  á  camará  que  nprompte 
uma  aposentadoria  competente  para  o  mencionado  ministro  e  seus 
officiaes.  Tereis  também  entendido  que  este  ministro  vai  auctorisado 
para  chamar  testemunhas,  ainda  ecciesiaslícas  e  de  fora  da  capita- 
nia, para  ver  e  examinar  cartórios,  e  quaesquer  hvros  de  ordens  ou 
fazenda  que  façam,  a  bem  de  apurar  a  verdade,  passando  para  isso 
as  competentes  deprecadas ;  para  pôr  em  exterminio  pelo  menos  de 
seis  léguas  quaesquer  pessoas  ecclesia<(ticas,  ou  seculares,  que  façam 
poso  á  diligencia  emquanto  esta  durar,  e  para  poder  tomar  outro 
escrivão  ou  meirinho,  na  falta,  ímpcdimcnlo  ou  prevaricaçi^o  dos 
que  se  acharem  nomeados,  e  para  melhor  o  mais  completa  execu- 
ção da  dita  diligencia,  sou  ouirosim  servido  que  o  referido  ministro 
proceda  na  devassa  que  vai  tirar  sem  limilaçfio  de  tempo,  nem  de 
numero  de  testemunhas,  dispensando  n'esta  parte  o  que  se  acha  dis- 
posto na  Ord.  I.  \^  til.  65  SS  3i  e  39  e  em  outras  quaesquer  leis  em 
contrario.  O  que  assim  executareis.  —  Escripla  no  palácio  de  Que- 
luz, aos  18  de  Abril  de  1803.  —  PHncipt.  —  Para  D.  Francisco 
de  Mascarenhas. 


—  25  — 


alguns  inslantes  a  contemplar  o  aono  de  1802*  No  arraial 
da  Natividade,  no  decurso  do  mez  de  Setembro,  occarren- 
cias  houve  nos  domínios  da  igreja,  que  iam  sendo  causa 
de  mais  algumas  scenas,  além  das  muitas  desagradáveis 
que  o  clero  tioha  representado  com  o  maior  escândalo  e 
cjnismo. 

Em  principios  de  Agosto  do  anno  a  que  nos  referimos 
appareceu  no  arraial  da  Natividade,  depois  de  ter  percor* 
rido  uma  parte  do  norte  da  capitania,  um  sacerdote  myste- 
rioso,  que  se  inlilalava  prelado,  e  era  conhecido  pelo 
nome,  que  dava,  de  D.  Manoel  de  SanrAnna  Alves. 

Trazendo  cruz  pendente  e  um  numeroso  séquito  de 
criados  e  escravos,  conduzia  também  comsigo  relíquias  de 
santos  e  ura  grande  arsenal  de  objectos  religiosos,  com 
que,  na  qualidade  de  missionário  apostólico  e  encarregado 
de  uma  grande  missão  cá  n'este  mundo  soblunar^  ia  fazendo 
adeptos  e  seguidores  eatreo  povo  ignaro,  que  facilmente 
se  deixa  fanatisar  desde  que  a  hypocrisia  se  atavia  com 
vestes  de  santidade,  e  a  religião  é  sacrilegamente  posta  a 
serviço  de  miseráveis  especulações. 

O  povo  ha  de  ser  sempre  um  velho-creança  desde  que  de 
suas  crenças  religiosas  se  Czer  arma  para  captar  a  sua  boa 
vontade  e  leval-o  a  todas  as  consequências,  por  mais  absur- 
das que  sejam. 

O  intilulado  prelado  sabia  manejar  esta  arma  com  perí- 
cia e  com  ella  tinha  conseguido  alcançar  uma  tal  ou  qual 
popularidade :  pur  onde  elle  passava  o  povo  corria  pressu- 
roso a  depositiir  suas  esmolas  em  tenção  da  Senhora  das 
Pores  e  de  S*  Fructuoso, 

Onde  D.  Manoel  chegava,  os  parochos  eram  tratados  por 
eUe  cora  menoscabo,  não  tolerando  sua  qualidade  de  pre- 
lado e  de  missionário  qualquer  acto,  que  revelasse  subor- 

TOMO  3C%VfU,  p.    II*  4 


^  26  — 


dinaçSo,  oudefereDcia:— *]ulgava-se  eom  supremacia  sobre 
todo  o  clero. 

Chegando  á  Natividade  annuncioa  que  ia  abrir  uma 
missão :  —  o  povo  concorreu  numeroso  desde  que  se  es* 
pathou  esta  notícia. 

O  vigário  geral,  Luiz  José  Custodio,  estranhando  o  pouco 
respeito  e  consideração  em  que  o  intitulado  missionário 
tinha  a  sua  auclor idade,  exigiu  que  elle  apresentasse  as 
suas  cartas  de  ordens  e  licenças.  D.  Maneei  xombou  do 
vigário  geral,  e  não  lhe  quiz  dar  a  menor  satisfação. 

A  consequência,  como  era  de  esperar,  foi  prohibir-lheo 
vigário  geral  o  exercicio  de  qualquer  trabalho  apostólico 
dentro  da  comarca  da  sua  jurisdicçao, 

A  luta  travada  entre  D.  Manoel  e  o  padre  Custodio  ia 
produzindo  consequências  graves*  O  povo,  fanatisado  pelo 
missionário,  araotinou-se,  e  exigiu  do  vigário  geral  que 
revogasse  suas  ordens,  e  que  perraittisse  a  missão  tão 
apparatosamenle  annunciada. 

EntretantOt  apparecendo  calculadaraente  D.  Manoel  no 
seio  do  motim  popular— foi  levado  em  trinmpho  ate  a  casa 
da  sua  residência.  Este  acto  do  dedicação  do  povo  en- 
corajou por  tal  modo  o  missionário  que  este  prometteu 
suspender  o  vigário  geral,  se  a  ordem  nâo  fosse  relaxada. 

Desde  então  o  padre  Custodio  se  viu  em  cruéis  embaraços 
no  meio  do  seu  rebanho  tresmaUiado. 

Achava-se  n*essa  época  na  Natividade,  para  exercicio  das 
funcções  do  seu  cargo,  o  ouvidor  Manoel  Joaquim  de  Aguiar 
Blourao:  ao  braço  sr^cular,  pois,  recorreu  o  vigário,  afim  de 
compellir  o  missionário  ao  cumprimento  dos  seus  deveres. 

Despachou  o  ouvidor,  mandando  que  se  prestasse  prora- 
pta  e  imraediata  ajuda  do  braço  secai jr,  e  pela  gravidade 
e  urgência  do  caso  resolveu  acompanhar  era  pessoa  a 
diligencia* 


-    L>7    - 

Prevenido  D.  Manoel,  esperou  o  ouvidor  com  os  seus 
fâmulos  e  escravos  armados,  e  elle  mesmo  com  uma  pis- 
tola engatilhada  sahiu  ao  encontro  da  força,  contra  a  qual 
a  disparou:  —reconhecendo,  porém,  a  presença  de  Mourão, 
recuou,  e  fugiu. 

No  dia  seguinte  escreveu  ao  ouvidor  com  muita  hu* 
mildade,  pedindo  perdão  do  crime  que  havia  commettido. 
£nlregando-se  finalmente  à  prisão,  perdeu  o  prestigio,  por 
que  o  povo  o  suppunha  um  ente  sobrenatural.  Sendo  con- 
duzido para  a  capital,  em  caminho  peitou  os  guardas,  e 
evadiu-se. 

Nunca  mais  se  soube  novas  do  intitulado  prelado,  que 
na  opinião  de  alguns  não  passava  de  um  refinado  veHiaco, 
e  cavalleiro  de  industria,  que  sob  a  capa  da  devoção  da 
Senhora  das  Dores  e  S.  Fructuoso  tinha  por  muito  tempo 
conseguido  enganar  a  todo  o  mundo. 

No  quadro  da  administração  do  D.  João  Manoel  de 
Menezes  inda  havia  este  retoque  a  fazer. 

Passemos  agora  a  tratar  da  administração  do  seu  suc- 
cessor,  quo  foi  pacifica  e  conciliadora. 


—  28  — 
CAPITULO  XVI 

(1804—1809) 

mflaencia  moral  do  governo  de  D.  Francisco.— Saas  medidag  eoono* 
micas.— <:reaçSo  do  Juizde  Fora  de  Goyaz.— Comarca  deS.  Joào  dãt 
Ikm  Borras.— Agricoltura,  Gommercio  e  Navegada --Os  rios  To-* 
cantinseAragQaya.— Privilégios.— Expedição  parao  Pari.--0  gover- 
nador d*e8ta  capitania  não  segunda  as  vistas  de  D.  Frandsco.— 
Incorporação  das  freguezias  do  norte  á  prelasia  de  Goyaz.— Bispos  de 
Goyaz.— D.  Vicente  Alexandre  de  Tovar.—Sna  morte  em  Piraeatíí  d» 
Frmeqie.— Comarca  do  Rio  das  Velhas.— Novas  contestações  solne 
divisas.— As  minas  do  iámctuw.— Exploração  dosríos  do  sul  de  Geyai* 
^-Correioda  Gôrte  parao  Pará.— Fim  do  governo  de  D.  FrandeeOb— 
1809^— Estado  da  capitania. 

Depois  de  José  de  Almeida  foi  D.  Francisco  o  mais  in- 
telligepte  governador  qae  teve  a  capitania  de  Goyaz.  Os 
bons  serviços  que  prestoa  na  saa  mocidade  e  durante  este 
seu  governo  o  habilitaram  para  administrar  Minas-Geraes 
e  Bahia,  e  exercer  os  mais  altos  cargos  da  administragio 
publica. 

Descendente  da  nobre  família  de  Óbidos,  ramo  da  casa 
de  Bragança,  foi  depois  conde,  e  marquez  de  S.  João  da 
Palma. 

A.'s  suas  excellentes  qualidades  deve  o  ter  governado 
Goyaz  com  muita  distincçâo.  Achando  a  capitania  compro- 
mettida  e  anarchisada,  em  pouco  tempo  conseguiu  restau- 
rar a  ordem,e  restabelecer  a  harmonia  entre  os  habitantes, 
perturbada  desde  a  administração  de  Tristão  da  Cunha. 

Para  este  resultado  influiu  a  circumstancia  de  ter  levado 
para  Goyaz,  como  seu  mentor— um  homem  illustrado,  e 
intelligente,  que  o  dirigiu  com  seus  conselhos,  e  o  auxiliou 
com  seus  trabalhos.  Falíamos  de  Luiz  Martins  Bastos,  que 
foi  durante  algum  tempo  secretario  interino  do  governo,  e 


—  áD  — 


mereceu-lhe  sempre  a  mais  plena  ennfiança»  a  qual  soube 
corresponder  com  dedicação  e  fidelidade. 

O  zelo  com  que  D,  Francisco  olhava  para  os  interesses 
dacapilaniâ,  o  seu  espirito  de  conciliação— grangearam- 
Ihe  eslima  e  gralidão»  que  se  perpetuaram  na  família 
goyaua.— Cora  prudente  cuidado  desarmou  o  braço  da  in- 
Iriga,  extinguiu  os  ódios  o  rancores  inveterados,  e  coucilioo 
aquelles  dos  seus  governados  que  ainda  ha  pouco  se  olha- 
vam como  figadaes  inimigos. 

Remediada  a  situação  moraU  era  preciso  attender  a 
outros  males;  a  capitania  eslava  prostrada  em  todos  o& 
sentidos:  uma  grande  divida  embaraçava  a  administração 
em  todos  os  ramos  do  serviço.  Como  desprende r-se  de 
peias  tâo  fortes?  Nos  seus  peiores  tempos  o  estado  da 
capitania  fora  menos  desesperado. 

Parecia  chegada  a  occasiao  de  dar-se  algum  alimento  a 
esse  corpo  inanido»  e  restaurar-ihe  as  forças  por  meio  do 
desenvolvimento  da  industria  e  do  commercio,  sangue 
puro  e  vivificador  das  artérias  sociaes. — Tudo  estava  por 
fazer. 

Sendo  grandes  os  encargos,  e  nâo  havendo  receita  para 
provél-os,  nem  meios  de  conseguil-a  de  prompto,^ — re- 
correu D.  Francisco  a  uma  prudente  economia  pela  re- 
ducção  da  maior  parte  das  verbas  de  despeza. 

  força  publica  foi  díminuida;  o  pessoal  da  administra- 
ção fiscal  reduzido  ;  a  casa  da  fundição  de  Cavalcante  ex^ 
tincla  e  substituída  por  uma  provedoria  commissaria; 
algumas  cadeiras  de  primeiras  letras  foram  lambem  ex- 
tinctas^  por  não  dar  o  subsidio  lilterario  renda  suíBciente 
para  pagamento  dos  professores. 

Os  empregados  da  provedoria  e  da  casa  da  fundição  da 
capital  soflreram  reducçáo  nos  seus  honorários,  O  cargo 
de  intendente  da  fundição  foi  substituído  por  fiscaes  com 


—  30  — 

menores  Yencimentos,  e  attríbaicõesmais  limitadas.  Moidt: 
outras  medidas  foram  postas  em  execução  para  dimimiir  os 
encargos  da  capitania ;  e,  porque  ainda  assim  a  de^[mea 
fosse  superior  á  renda,  —  alcançou  D.  Francisco  da 
munificência  real  poder  dispor»  para  fazer  face  ao  deficit, 
de  ires  arrobas  de  ouro,  tiradas  annualmente  do  rendi* 
mento  do  quinto,  jà  muito  reduzido  n'essa  época. 

O  plano  de  reforma  offerecido  à  consideração  do  go- 
verno em  15  de  Setembro  de  1806,  para  equilibrar  a  re- 
ceita com  a  despeza,  e  approvado  por  provisão  de  12  de 
Agosto  de  1807,  só  pôde  ter  completa  execução  no  exer^ 
cicio  de  1800. 

Segundo  elie,  a  folha  da  despeza  ficou  reduzida  a 
43:2079260,  e  calculada  a  receita  em  47:8609734 :  mas, 
como  dois  annos  depois  os  reaes  quintos  não  davam  para  a 
consignação  das  três  arrobas  de  ouro,  o  deficit  foi  conse- 
quentemente apparecendo  durante  todos  os  exercidos 
financeiros  que  se  foram  succedendo,  por  modo  tal  que  em 
1819  a  despeza  eievava-se  a  50:846^120,  e  a  receita  descia 
a  37:8739330.  Em  um  período  de  10  annos  a  divida  pas- 
siva era  de  83:6809835,  sendo  mais  de  metade  proveniente 
da  falta  da  consignação  dos  quintos. 

Estamos  convencidos  de  que,  se  o  periodo  do  governo  de 
D.  Francisco  tivesse  sido  mais  longo,  a  administração  da 
fazenda  sahiria,  ainda  que  lentamente,  dos  embarações  em 
que  ainda  a  deixou  pelas  dividas  passadas,  que  não  pude- 
ram ser  pagas. 

E  nem  se  inculpe  aos  seus  antecessores  d'esse  estado 
pouco  satisfactorio,  mas  sim  ao  governo  central,  que,  des- 
cuidoso  das  providencias  que  devia  tomar,  porque  atempo 
foram  reclamadas,  só  muito  tarde  acudiu  com  remédios 
ineíficazes  e  pallíativos.  —  Deixemos,  porém,  este  objecto 
e  tratemos  de  outros  assumptos. 


—  in- 


ovando D.  Francisco  entregou  o  governo  da  capilania  a 
Fernando  Delgado »  fallando  do  juiz  de  fora  de  Villa  Boa» 
creado  por  alvará  de  18 de  Março  de  18  >9,  diss  e  o  segui nlts : 

^  A  camará  de  Villa  Boa,  sendo  até  agora  a  única  d'estâ 
capitania,  administrava  anteriornienle  as  rendas  de  todos 
os  julgados;  poréni  acamara,  composta  de  vereadores  in- 
dolentes, e  presidida  por  juizes  leigos,  além  de  indolentes, 
ignorantíssimos,  de  tal  modo  confundiu  as  conlas  dos  seus 
rendimentos,  *3  deixou  de  receber  ou  de  cobrar  as  que  llie 
compeliam,  que  durante  todo  o  tempo  do  meu  governo  não 
sònão  pode  edificar  uma  só  obra  publica,  mas  nem  ainda 
lhe  foi  possível  reparar  aquellas  que  jà  se  achavam  cons- 
truídas om  beneficio  do  publico,  e  que  o  tempo  havia  dele* 
riorado;  para  remediar,  pois,  estes  males,  bem  como  a 
outros  de  igual  ou  maior  consideração,  foi  o  principe  re- 
gente nosso  senhor  servido,  annuindo  ás  minhas  represen- 
tações, crear  para  esta  villa  um  juiz  de  fora  do  civil ,  orphãos, 
provedor  dos  ausentes  e  procurador  da  real  fazenda.» 

Creado  o  lugar  de  juiz  de  fora,  foi  n'elle  provido  o  ba* 
charel  Manoel  Ignacio  de  Mello  e  Sousa, 

Perlenceniio-lhe  pelo  alvará  de  sua  crcaçao  o  exercício 
no  contencioso,  era  manifesta  a  desnecessidade  de  um  in- 
tendente, que  n'esta  parle  de  suas  altribuições  ficou  conve- 
nientemente preenchido,  ficando  a  cargo  dos  fiscaes  a 
administração  da  casa  da  fundição  e  suas  dependências. 

Foi  o  desembargador  Florêncio  José  de  Moraes  Cid  o  ul- 
timo intendente  deGoyaz. 

Não  pareça  que  a  D,  Francisco  pertence  a  paternidade  de 
todas  estas  reformas ;  muitas  tinham  sido  estudadas»  e  ja 
submettidas  á  consideração  do  mouarcha,  que  só  agora  as 
julgava  merecedoras  de  altençâo. 

A  divisão  da  comarca  de  Goyaz,  por  exemplo,  era  um 
projecto  velho,  em  que  Unhara  insistido  lodosos  capitães 


—  38  - 

gêoeraeB  como  necessidade,  que  a  boa  administraçiéda 
justiça  reclamava. 

Entrando  esta  idéa  no  plano  gerd  das  reformas  em  que 
trabalhava  D.  Francisco»  por  alvará  lambem  de  18  de  Março 
de  1809  foi  creada  a  comarca  de  S.  João  das  Doas  Barras, 
assim  chamada  da  villa  qne  na  confluência  do  Àragnayaiio 
Tocantins  se  mandara  crear  com  este  nome. 

Nomeado  o  desembargador  Joaquim  Theotonio  Segu^ 
rado  para  n'ella  servir,  teve  ordem  de  crear  a  referida 
villa,  podendo,  entretanto,  residir  na  Natividade  emquanto 
nSo  o  fizesse. 

A  nova  comarca  comprehendia  os  julgados  do  Porto- 
Real,  Natividade,  Conceição,  Arrayas,  S.  Felii,  Cavalcanti, 
Trahiras  e  Flores,  que  por  acto  de  16  de  Agosto  de  1807 
tinha  sido  creado  julgado  pelo  mesmo  Segurado»  quando 
ainda  ouvidor  de  Goyaz.  O  arraial  do  Carmo,  que  até  1806 
tinha  sido  cabeça  de  julgado,  perdeu  esta  prerogativa  com 
a  sua  transferencia  para  Porto-ReaU  ponto  este  que  com  a 
navegação  do  Tocantins  começava  a  prosperar,  ao  passo 
que  o  Carmo  e  o  Ponlal  iam  decahindo,  concorrendo  para 
quasi  todos  isto  a  circumslancia  de  se  irem  mudando 
os  seus  princípaes  habitantes. 

Provida,  pois,  a  nova  comarca  da  repartição  do  norte 
n'esse  intelligente,  laborioso  e  benemérito  magistrado,  em 
1810  seguiu  elle  para  o  Pará  afim  de  designar  o  ponto  em 
que  devia  fundar-se  a  villa  de  S.  João  das  Duas  Barras.  Em 
23  de  Agosto  mediu  e  demarcou  um  perímetro  junto  â 
foz  do  Tacayuna,  abaixo  do  registro  de  S.  João  dez  léguas. 

Comquanto  insistisse  o  principe  regente  pela  construo- 
ção  da  nova  villa  na  confluência  dos  dois  grandes  rios  da 
capitania,  não  pôde  esta  medida  ir  adiante  por  terem  contra 
ella  representado  os  povos  e  o  mesmo  ouvidor,  mostrando 


^   3:1  — 


os  inconvcDitíDltís  de  esbr  a  sede  da  comarca  a  tão  consi* 
deravel  distaocía  dos  julgados. 

EniYirlude  dasreikíradasrepresenlaçõesque  subinmao 
conhecimento  do  príncipe  regenlo,  cinco  aonos  depois  bai- 
xou o  alvará  de  25  de  Fevereiro  de  Í814,  mamlândo  erigir 
a  villa  na  Barra  da  Palma,  por  ser  esle  ponto  mais  central 
e  commodo  aos  povos  e  ao  exercício  das  funcçúes  do  seu 
magistrado.  Providenciava  o  alvará  que  a  nova  villa  tivesse 
isenção  de  pagamento  de  decimas  e  dízimos  por  dez 
annos. 

Satisfeitas  as  vistas  da  administração,  marchava  ella  re- 
gularmente aos  seus  fins,  auxiliada  pelo  intelligenle  con- 
curso dos  deserabarg.idores  Segurado  e  Cid*  Concedidos 
todos  os  f:ivores  que  solicitava  do  governo  centra!,  facili- 
tados os  meios  goveriiamenlaes,  parecia  que  D.  Francisco 
era  destinado  a  abrir  em  Goyaz  uma  nova  éra,  êm  que  os 
seus  interesses  mais  legilimos  seriam  afagados,  porque 
outros  se  nao  podiam  considerar  maiores  qne  os  da  nave- 
gação dos  seus  rios,  os  provenientes  da  agricultura  e  do 
Goramercio,  em  prol  do  qual  se  procurava  abrir  novas  vias 
de  íacil  communicaçao  para  o  seu  desenvolvimento. 

Foi,  porcnv,  uma  éra  que  passou  rápida. 

Entendia  D.  Francisco,  com  razão,  que  a  capitania  de 
Goyaz  não  podia  exclusivamente  visar  Tuturo  maior  das  soas 
rainas,  comquanto  ricas  fossem  e  numerosas;  que  era  uma 
verdadeira  illusio  esperarem  os  povos  por  essa  felicidade 
apparenle  e  transitória,  de  que  Unham  gozado  os  seus  an- 
tepassados, deslembrados  dos  grandes  interesses  da  la- 
voura, segregados  de  todo  o  trato  commercial  com  os 
povos  de  uma  granée  parte  do  litoral, 

E,  pois,  sem  abandonar  de  uma  vez  os  mineiros,  dirigiu 
D,  Francisco  a  sua  protecção  à  lavoura,  á  navegação  do 

TOSÍO  XXVUL   p.   II  5 


^  :íí  ^ 


[ Aragmya  e  aos  oegociantes»  que  pí>r  esse  caoií  e  pelo  To- 
eáDlÍDs  quizessem  iransporlar  géneros  para  o  Para  e  rece- 
ber era  permuta  os  de  imporUçao* 

O  principe  regente  apoiou  suas  ?istas  progressistas >  de- 
creta odo  prhjlegios  em  faror  dos  que  se  dedicassem  ao 
mister  da  laTOura  e  da  oa¥egação,  como  se  vê  da  seguinle 
carta  régia: 

«  D,  Francisco  de  Assis  Mascarenhas,— Amigo, — Eu,  o 
principe  regente,  vos  envio  muito  saudar.— Sendo-me  pre- 
sente as  reflexões  que,  em  carta  datada  de  7  de  Outubro  de 
i804,  dirigida  ao  visconde  de  Anadia,  de  meu  conselho 
doestado,  ministro  e  secretario  doestado  dos  negócios  da 
marinha  e  doraiuios  ullramarinos»  lhe  fizestes,  para  que 
me  fossem  notórias,  sobre  os  meios  de  augmentar  a  cul- 
tura, população  e  commercio  d'essâ  capitania  de  Goyaz ;  e 
sendo-me  igualmente  presente  o  que  sobre  a  mesma  ma- 
téria me  foi  ponderado  pelo  meu  conselho  ultramarioOt 
que  mandei  ouvir;  me  parece,  louvando  o  vosso  zelo  e 
efficacia  em  promover  o  bem  dos  povos,  cujo  governo  vos 
confiei,  mandar-vos  dizer:  que,  sendo  o  principal  objecto 
do  meu  paternal  desvelo  pela  felicidade  dos  meus  fieis  vas* 
sallos  o  augmento  da  agricultura,  população  e  commercio» 
como  as  verdadeiras  bases  da  força  e  prosperidade  publica: 
bei  por  bem  conceder  por  espaço  de  dez  annos  inteira 
isempção  dos  didmos,  que  deverião  pagar  à  minha  real  fa- 
zenda» a  todos  os  lavradores  que  nas  margens  dos  rios  To- 
cantins, Maranhão  e  Araguaya,  onde  ellas  são  actualmeute 
deserlas,  fundarem  novus  estabelecimentos  de  agricultura, 
sendo  os  mesmos  situados  â  borda  dos  ditos  rios  ou  até 
Ires  léguas  de  distancia  d^elles,  e  ficando  junlo  às  margens 
o  necessário  espaço  para  a  publica  servidão,  o  qual  deverá 
ser  de  meia  légua»  ua  conformidade  das  ordens  e^iistentes  a 


este  respeito  em  todos  os  meus  dominios  do  Brasil.  Dada 
era  Lisboa, a  7 de  Janeiro  de  1806* — Príncipe  (cora  guarda). 
—Para  D,  Francisco  de  Asáis  Mascarenhas*  >* 

Ou  porque  jà  estivesse  encaminhada  a  navegação  do  To- 
cantins» ou  porque  a  do  Araguaya  lhe  parecesse  mais  van- 
lâjosa,  entregou-se  D.  Francisco  com  empenho  ã  d'esle 
rio,  deixando  a  do  Tocantins  correr  por  conla  do  desem- 
bargador Joaquim  Theotonio  Segurado,  que,  na  qualidade 
de  ouvidor  de  S.  João  das  Duas  Barras,  tinha  sido  encarre- 
gado de  promovêl-a. 

Cuidar  de  preferencia  da  navegação  do  Araguaya,  pen- 
sava D*  Francisco,  importava  chamar  para  as  suas  margens 
desertas  alguma  população  industriosa,  importava  lambem 
promover  de  um  modo  indirecto  a  caLechcse  e  civilisaçSo 
dos  Índios,  que  em  suas  margens  desertas  se  tinham  ido 
refugiarem  outros  tempos,  ou  fugidos  dos  aldeamentos  ou 
levados  de  vencida  pelas  armas  dos  bandeirantes- 

Havía  alguma  cousa  de  grande  u*esta  providencia,  havia 
muito  de  progresso  para  a  capitania  na  sua  realização ;  não 
viessem  tarde  estas  idéas  bem  pensadas,  e  teriao  vingado 
completamente,  se  houvesse  quem,  com  perseverança  e 
zelo,  tivesse  pugnado  por  ellas« 

Mas  com  que  difQculdades  não  teve  de  lutar  D.  Fran- 
cisco? Devendo  marchar  n*estes  assumptos  de  commnm 
accordocom  o  capilão-genera!  do  Gl-am-Pará,  que  em  1805 
era  D*  Marcos  de  Noronha,  não  encontrou  da  parte  doeste 
governador  vontade  alguma  de  au\ÍiÍal-o,  embora  a  nave* 
gaçâo  do  Tocantins  e  do  Araguaya  fosse  de  interesse  para 
as  duas  capitanias. 

fí.  Francisco,  porem,  não  desanimando  com  as  primei- 
ras contrariedades,  por  mais  sérias  que  lhe  parecessem. 


—  36  - 

mandoQ  em  1805,  pela  junta  da  real  fazendí),  que  se  cons- 
truísse cinco  grandes  canoas  e  duas  montarias,  as  quaes  no 
anno  seguinte  deviam  descer  para  o  Pará,  levando  géneros 
de  producçâo  do  paiz. 

Em  principio  de  Maio  de  1806  partiram  elTectivamente 
do  porto  de  Santa  Rita  as  canoas  Príncipe  Regente^  Jfi- 
nerua,  Thetis^  Aurora  e  Vénus,  tripuladas  por  cinco  pe- 
destres, quatorze  índios  cherentes,  quarenta  e  oito  caía- 
pós,  tirados  das  aldêas  de  S.  José  e  Pedro  IH,  e  mais  vinte 
e  sete  remadores.  O  carregamento  compunha-se  de  assu- 
car,  couros,  algodão  e  outros  géneros,  constando  de 
66  barricas  de  assucar,  99  surrões  de  dilo,  55  jacas  idem, 
e  177  caixões  de  2,  5  e  8  arrobas,  91  meios  de  sola,  9  ro- 
los de  algodão,  11  caixões  com  quina,  75  rolos  de  fumo, 
6  pacotes  de  dito,  e  outros  objectos,  prefazendo  tudo  o 
peso  de  1,640  arrobas. 

Desde  que  se  começaram  a  fabricar  as  canoas  reaes, 
Luiz  Rodrigues  Pereira  e  seu  irmão,  João  Apollinarío  da 
Costa,  Manoel  da  Silva  Soeiro  e  Francisco  José  Teixeira, 
moradores  em  Crixá  e  Santa  Rita,  associados,  trataram  de 
mandar  construir  quatro  canoas,  que  carregaram  e  Iripo- 
laram  com  quarenta  pessoas,  e  fizeram  partir  a  13  de  Maio, 
atempo  de  poderem  alcançar  a  llotilha  real. 

O  seu  carregamento  constava  de  300  meios  de  sola,  700 
varas  de  algodão,  24  arrobas  de  dito  em  rama,  1 IG  arro- 
bas de  assucar,  14  frascos  de  aguardente,  10  arrobas  de 
sabão,  18  arrobas  de  toucinho,  101  arrobas  de  carne  sec- 
ca,  8  arrobas  de  goiabada,  24  rolos  de  fumo,  ;J8  alqueires 
de  feijão,  100  de  farinha  e  30  do  arroz. 

Não  estando  ainda  entaboladôs  relações  cummcrciaes 
com  a  praça  do  Pará,  todo  este  carregamento  foi  consig- 
nado ao  respectivo  governador  e  deputados  da  junta  da 


-  37  - 


fazenda,  a  quem  D.  Francisco  a  a  junta  da  real  fazenda  de 
Goyaz  escrtiveiain  a  respeito.  (67) 

(6T)  Os  mnusiros  depuLudos  da  juiila  da  admÍDbtmi;;io  e  arreca- 
d;içao  da  real  fazenda  da  capiUiuia  de  Gojaí,  ele*  Fjíiem  saber  que^ 
em  ctnisequeiicia  dassubms  providencias  e  incansável  zí^lo  dollím-â 
£\m.  Sr.  li.  Fmncíseo  de  Assis  Masf^arenfias,  governador  e  cnpitào* 
general  doesta  Cítpitãaía,  seeunseguíti  que  al^^uus  negociantes  dVlIa 
ft5  delcnnmas^seLiL  a  fazer  uma  cspecula^^Tio  dos  g^eneros  da  pro- 
ducçào  do  paiz  para  essa  cidade  pelos  rios  qiie  servem  de  comniu- 
nicat^ao;   para   facilitar  esla  tcníativa,  mandou  esta  junta  fabricar 

:  *  por  conta  da  rea!  fazenda  as  canoas  Príncipe  Rtgente^  Timm,  Mi- 
mna,  Âncora,  e  Thetia,  que  agora  descem  carregadíis,  e  cujos  fre* 
t65  constunles  dos  conhecimentos  iticluscs  ^e  (tão  de  cobrar  n^õssa 
por  conla  da  mesma  real  fa/eoda,  levando-as  Deus  asnlvamenlo* 
—  Conhecendo  que  do  exilo  feliz  d'eslas  tentativas  depende  a  con« 

I  linuaçAo  de  ou  Iras,  e  que  do  descrediío  resultaria  perecerem  as 
mais  bem  fundadas  esperanças,  de  que  vcnba  a  estaberocerse  uma 
OOEnmunicaCi^lo  seiJ^uida  o  frrquente  enire  estas  capitanias,  IHo  vanta^ 
joaa  ao  commercio,  como  ao  b«ni  do  Estado,  nos  lemos  a  satisfação 
de  persuadir  nos  que,  seudo  V>  \u%.  o  mais  Srs,  ministros  deputados 

I  d'essa  junla  aquelles,  a  quem  nos  diri^nmus  para  Iodas  as  depen- 
dências doeste  imporlanlo  objecto,  tudo  será  providenciado  de  ma- 
neira que,  lauto  a  tripolaÇr^^o  como  os  carregadores  voltem  animados 

I  para  continuarem  novas  emprezas.  Além  da  cobrança  dos  fretes,  da 
reparação  e  bom  trato  das  canoas,  do  ufreUimeuto  para  o  regresso, 
que  desejamos  se  eíTóctue  com  a  possível  brevidade,  nós  não  po^ 
demos  deíiar  de  rogar  a  V.  Ex,  e  mais  senboies  queiram  mandar 
assistir  j^o  furriel  losé  António  tlamos,  commandanie  d'csla  expe- 
dição^ e  soldados  que  acompanham,  por  conta  de  seus  soldos  ven* 
eidos,  com  aquetlas  quantias  que  V.  Ex,  c  mais  senhores  julgarem 
proporcionadas  ás  suas  necessidades,  para  o  que  levam  as  suas 
competentes  guias,  e  vai  aqui  junta  a  Larifii  dos  seus  soldos.  Igual* 
mente  pomos  debaixo  da  prelecção  de  V,  Ex*  e  mais  senhores  os 
iiuliose  pessoas  da  tripotaç^^o,  para  que  dles  nHo  careçam  de  subsía* 
Letícia,  e  não  desertem  aquelles,  daodo-se-lhes,  á  vista  das  informa* 
çHos  que  do  seu  serviço  der  o  commandante,  alguma  modicn 
quiQtia  de  dinheiro  para  que  suppram  as  suas  pequenas  necessidades 
e  voltetn  ^satisfeitos*  Faz-sc  uUiuiamente  ueces^ario  partioípar  que  o 


*-«s- 


Partido  que  foss6  este  primeiro  comboi,  começaram 
desde  logo  os  preparativos  para  o  que  devia  descer  no  anna 
seguinte.  Por  conta  ila  real  fazenda  foram  construídas  mais 
cinco  canoas,  que,  Iripoladas  com  setenta  e  um  Índios, 
iírados  dus  aldeamentos,  e  sob  o  commando  do  capílãã 
Tbomaz  de  Sousa  Villa-Real.  desceram  em  Abril  de  1807, 
procedente  do  porlo  de  Santa  Hita  do  Rio  do  Peixe.  O  car* 
regamenlo  constava  de  iO  arrobas  de  quina,  109  fardos  d6 
algodão,  129  barricas  de  assucar,  U9  surrões  de  dilo, 
106  ridos  de  fumo,  couros,  ete*,  perfazendo  o  pesotolalde 
l#62i  arrobas. 

Este  carregamento,  embarcado  a  bordo  das  canoas  Pnn^ 
c^za  Cnrhtat  Condessa  de  Óbidos ^  Agnia^  Pérola  e  Cysm^ 
pertencia  aos  negociantes  Francisco  Pereira  Caldas,  Fran- 
cisco José  Pereira  e  José  Lopes  Pereira. 

D*  Francisco,  que  tioba  querido  ir  assistir  pessoalmente 
à  partida  da  í^xpeJíçâo,  ao  descer  emliaixado  o  riu  do 
PeiKe,  estiíVt!  em  risco  immioente  de  morrer  afogado,  por 
ter  virado  a  canoa  em  que  navegava.  Por  muilu  tempo 
lutou  com  as  aguas,  arrebatado  pela  corrente,  que  o  arre- 
megou  de  encontro  a  uns  galhos  de  arvores  que  se  debru- 
çavam sobre  o  rio. 

Por  este  comboi  escrevia  D.  Francisco  ao  governador  dô 
Pará,  José  Narciso  de  Magalhães,  com  a  fé  viva  de  um 
homem  íjue  |>aína  por  uma  idéa  de  progresso  e  tem  espe- 
rança no  ruturot 

Cl  Pela  cópia  inclusa  da  carta  régia  de  7  de  Janeiro  de 
1806,  a  qual  approva  ama  representação  minUa,  reconhe- 

pralirn  iflfio  Pnuío  nadft  devo  recehor,  porque  se  obri|:í>ii  a  doscur 
e  Voltar  naft  dila?^  canóaR  graliulameiítef  etc.  Dcuíí  f^^uanJe  n  Vé  Et. 
e  m&h  seíUtorea  ministros  depuUilos.  Vitlsi^Boa,  ilO  de  Abril  d^ 
iWCáu  —  Florêncio  Jmé  <k  Mor{ie.i  Cid.  —  J{t$e  /cmpíuíi»  f^tíkh^rh^ 

àoê  Sfififoíi^  ^  Jòuqtiim  Theof*mh  St*^urndo. 


m 


(mk  T»  El,  quanto  Sua  Alteza  Ucal  quer  que  se  pruUyaa 
1  DÃegtçâo  doa  rios  que  desaguam  bo  Amazonas;  consla 
que  esUio  a  decidir-se  também  mui  lo  favuravelnifiile  algu- 
mas outras  propostas,  quo  levei  à  real  presença,  relativas 
ao  mesmo  objecto,  as  quaes,  me  dizem,  foram  jàcommuni- 
cadas  a  V,  Ex.  officialmeote.  Se  as  ditas  propost.iS  furom 
dignas  de  atlenção,  sirva-se  V,  Ex.  de  promover  da  sua 
parte  com  efflcacia  e  energia  o  bora  exilo  d'ellas,  na  cer- 
teza de  que  esta  capitania  toda  lera  collocado  as  esperanças 
do  seu  futuro  melhoramento  na  adopção  dos  planos  ofTere- 
cidos  por  mim  ao  ministério,  porém  unanimemente  appro- 
vados  pelos  interessados  n'eltes ;  na  certeza  de  que,  pro- 
tegendo» como  lhe  peço,  estes  negocias,  promove  igual- 
mente os  interesses  d*essB  Estado,  que  lhe  sao  connexos, 
I  Formar  atai  uma  companhia  de  negociantes  destinada  a  co- 
meçar methodicamente  o  commerdo  de  Goyaz  pelos  rios, 
,  coueeder-se  a  esta  nova  e  ulil  sociedade  os  | privilégios  e 
I  isenções  que  ao  ministério  parecer  mais  conveniente  aos 
fijis  propostos,  e  prevenir-se,  emfim,  ao  general  desta 
capitania  afim  de  dar  as  providencias  para  que  nao  faltem 
os  géneros  para  o  negocio»  são  a  meu  ver  os  primeiros  pas- 
sos a  dar-se,  e  sera  os  quaes  nunca  poderemos  estabe- 
lecer ura  commercio  activo  e  permanente  cutre  estas  duas 
capitanias.  )> 
I       Providencias  que  então  eraw  ião  ubvias  nunca  foram 
tomadas  por  parte  do  Pará :  marchava,  pois,  D,  Francisco 
aos  fins  que  se  propunha,  sò  com  os  fracos  elementos  de 
que  podia  dispor,  e,  podemos  dizer,  através  de  algumas 
dificuldades  oppostas  pela  capitania  do  1'arâ :  d'alli  m 
partiam  duvidas  e  protelaçôes,  que  nao  permiti  iam  se  con- 
solidasse uma  empreza  encetada  sob  tao  bons  auspícios. 
f      Outra  expedição  |)artiu  em  1808  com  menor  carrega- 
meulo;  q  desanimo  so  ia  apoderando  dos  emprehende- 


iO 


dortiS,  Du  porque  lODgas  diim^ís  pan^ctíssem  6âsas  viagettô, 
ou  porque  os  negociantes  de  Goyaz,  dispondo  de  poucos 
capitães,  não  os  pmlessem  ler  empatados  por  taolo  tempo, 
ou,  rmaltuente,  pelos  riscos  de  uma  navegação  difficil» 
através  de  terr.mos  incultos,  de  barbaras  aldé  iS,  onde  ne- 
nhum recurso  se  encontrava,  nem  o  menor  auxílio  no  caso 
de  algum  sinistro,  em  uma  emergência  qualquer, 

E,  poiSp  o  commercio  cora  o  Fará,  por  via  do  Araguaya, 
foi  sendo  abandonado.  Nem  a  população,  que  se  esperava 
affluisse  para  sulis  margens  desertas,  abi  procurou  estabe- 
lecer-SG ;  nem  uma  povoação  se  formou  nessa  extensão 
de  trezentas  léguas  de  terras  ainda  não  eiploradas .  uiu 
pânico  terror  afugentava  a  lodos  das  margens  pi Uorescas 
do  magestoso  Araguaya,  não  produzindo  o  menor  incen^ 
tivo  os  privilégios  que  se  concediam  aos  que  as  fossem 
povoar. 

E  o  que  Gzeram  os  successores  do  D.  Francisco  ?  Quasi 
nada  para  destruir  os  preconceitos  populares,  para  prose- 
guir  com  coragem  na  obra  tão  bem  começada  e  dar-)be  o 
ultimo  remate  :  o,  que  estava  feito,  desap pareceu.  O  go- 
verno matou  a  navegação  do  Araguaya,  condemuando-a 
por  impossível ;  o  povo  repetiu  o  anatbema,  e  os  selvagens, 
mansos  e  paciQcos  em  suas  aldèas,  nunca  mais  viram  descer 
suas  aguas  as  canoas  dos  ousados  aventureiros,  carregadas 
de  mercadorias;  nunca  mais  foram  perturbados  em  seu 
Iranquillo  repouso. 

K  um  ília  que  nassas  solidões  se  quiz  fundar  um  pt^queuD 
núcleo  de  populac^ío,  que  de  futuro  nodesse  dnminar  as 
aguas  du  Araguaya,  e  ttjrnar  possivol  a  sua  navegação,  eol- 
ligados  os  selvagens,  no  tirme  propósito  de  deslruil-o,  tre- 
mendos se  mostraram  no  acommettimento,  e  sò  vulUàram 
para  suas  aldèas,  afim  de  se  recrearem  melhor  com  o  es- 
peclaculo  magestoso  das  chammas  a  devorarem  a  oasceule 


-  41  - 

payQaçlo,  ctijos  habitanles,  aterrados,  mal  liveram  tempo 
de  se  encommeiídarein  a  Deus,  para  se  abandonarem  de- 
pois à  mercê  dacorrenlc. 

Antes  de  proseguirmos  nos  assumptos  relativos  â  admi- 
nistração temporária,  permilta-se-nos  uma  diversão. 

Foi  DO  governo  de  D*  Francisco  que  se  desmembraram 
do  bispado  do  l^arà,  ese  mandaram  encorporar  á  prelazia 
de  Goyaz,  as  freguezias  do  oorte  da  capitania :  por  este  facto 
Qearam  alteradas  as  suas  divisas  ecclesiasticas. 

As  provisões  do  conselho  ultramarino  de  18  de  Junho  de 
1807  ordenaram  a  D,  Vicente  Alexandre  de  Tovar,  bispo 
titular  de  Titopoli,  e  nomeado  prelado  de  Goyaz  pela  bulia 
de  15  de  Julho  de  1803,  que  tomasse  posse  d*essas  fregue- 
zias era  numero  de  dez ;  e  ao  bispo  do  Pará  D.  Manoel  de 
Almeida  de  Carvalho*  que,  à  vista  do  seu  livre  e  pleno  con- 
senlimunto  dado  para  essa  desmeoibraçao,  cessasse  toda  a 
jurisdicção  que  aló  entio  exercera  sobre  uma  parte  do  ter- 
ritório de  Goyaz  [íj8). 


(68)  D.  Jf*ao,  por  íçra<:a  de  Dcas, príncipe  regeaie  da  ?drlugal  c  dos 
Algirve^,  il*«qiiem  e  d*ttlém  nmr.  cm  Afrim,  senhor  do  Guíní, 
etc*  Faço  salier  a  \úfi  Hev.  bispo  de  Titopoli,  preloílo  Je  Goja^,  que* 
sendo-ine  presente,  em  consuUa  de  meu  conselbo  utlramariao  de 
lide  Abril  proiímo  i^assado,  a  resposta  que  o  Heir.  bígpodo  t^ará 
deu  á ordem  de  15  de  Haia  de  ÍHOVt^  que  pefo  mesmo  conselbo  Ibe 
foi  expedida  para  eSle  expor  lod^s  as  razíiés  (se  algumas  houves- 
sem) que  no  seu  coneeilo  devessem  obstar  ádesmcmbr,içâo  que 
euhuvia  resolvido  fazer  de  parte  d'aquelle  bispado,  separando  d^elle 
para  unir-se  â  pretuEia  de  Goyaz  a  porçl^u  de  território  que  se  com- 
prebende  dos  limites  civis  da  capitania,  assim  denominada,  era 
que  nlé  agora  ejuercíam  jurisdicção  pas^toral  os  bispos  do  Pará,  com 
grave  inconveniente  do  serviço  de  Deus  e  meu;  e  lendo  conside- 
raÇiio  ao  que  pelo  raencionailo  biíipo  toe  foi  dito,  e  ao  mais  que  na 
indicada  eonsuUa  me  foi  ponderado,  fui  servido  por  minha  rf-gía 
resotuçJlo  de  â  do  coironte  mez  do  Junho,  conformando -me  com  o 
parecer  do  cgnselbo  baver  por  desmembrado  dn  bispado  do  Fará 

toMo  xxvni,  p.  n,  a 


Já  vimos  em  ouira  oecasiâo  as  dííDculdadesquõappa- 
receram  para  a  escolha  do  prelado  da  Goyaz.  Não  tendo 

todo  o  lerrítorjo  pertencente  á  eapilanía  tJe  Gojm,  em  que  oi  biipos 
i]'aquella  diocese   eierciuvam  aLé  agora  juriâdicQâo  paslomi,  pam 
que  o  mesmo  lerritorio  haia  de  licar  unido  á  prelazia  deGo^nz  e  su- 
jeito á    vossa  jurisdicçâD  e  dos  mats  prelados  que  :i  houverem  de 
reger*  E  eomo  pani  etrentuar-se  coavemeuteíweDlea  expressada  des* 
membrac<~m  se  requer  que  vó^  tomeis  legalmente  po^se  do  indicado 
território,   me  pareceu   mandar  ei^edir  ao  Rev,  bispo   do  P&râ  a 
oídem   que  i»e  yos.  remetie  ^or  copia,  assiguada  pelo  secretario  do 
meu  cuaselho  ultramarino,  e  maiidar-vos  rcmetler  a  referida  cópia 
para  a  tossa  Ínle!ligeDCÍa  e  guia,  atim  de  que   na  conformidade  do 
espirito  da  mesma  ordem  vos  entendais  com  o  referido  bispo «  para 
que  este  negocio  se  ultime  com  a  vossa  posse  tomada  com  as  so- 
lemn  idades  que  o  direito  canónico  requer,  ou  se  adiem  por  uso  e  pra- 
tica antiga  consagradas  para  esle  íiro.  —  O  que  semelhanlcmento 
me  pareceu  mandar  parlicípar^voSp  para  assim  o  eiecutardes,  como 
vos  bei  por  muito  rctiomínendado.  O  Phneípe  Regente,  nosso  se- 
ubor,  o  mandou   por  seu  e^pecíalmandado  pelos  minisiros  abaiio 
assignados  o  do  seu  conselho  e  do  de  ultramar.  —  AntoHio  Juã{in4} 
Machado  de  Moraes  fei  em  Lií^boa  aos  18  de  Junbo  de  1807.  —  O 
secretario,  Frçindsco  de    [forja  Garção  Slokter^  o  fei  escrever,  — 
Jtjrts  Pinto  de  Soma^  —  Ànlunio  Ratimatido  de  Pinna  CouHnhQ, 
D.  João,  por  grara  de  Deus,  Frincipo  Regente,  clc.  Faço  saber  a 
YóSpRev.  bispo  do  Pará,  que,  sendo-me  presente  em  consulta  do  meu 
conselbo  ultramarino  de  14  de  Abril  próximo  passado  que,  fóiiconi 
louvavet  zôio  do  serviço  do  Deus  e  meu,  respondendo  u  ordem  que 
na  data  de  16  de  Maio  de  1800  se  vos  expedira  pelo  mesmo  con- 
selho, para  me  expordes  as  razoes  (se  algumas  houvessem)  que  no 
tosio  conceito  devessem  obstar  á  desraembrat;ílo  que  eu  havia  resol- 
vido fa^er  d*esse  bispado,  separando  d'elle  para  a  prelazia  de  Go}a£ 
aporçiio  de   lerritorio  da  vossa  junsdicçào  episcopal,  comptebon- 
dida  nos  Umites  civis  da  mencionada  capitania,  baveis  prestado  o 
vosso  livre  c  pleno  consentimento  para  a  indicada  desmembração, 
demittindo   e  renunciando  desde  logo  toda  a  jurisdici^Jio  pastoral* 
que  antecedontemente  exercieis  e  baviam  exercido  os  vossos  pre* 
decessorcs  nos  diocesanos   babiiantes  do  indicado  território,  para 
que  esla  d*aqui  em  diante  fique  j>t*rteneendo  ao  prelado  que  ura 


-  \n  — 

sida  aceitas  as  propostas  do  conselho  tillrâiflarino,  a  re- 
partição do  sol  passoo  a  estar  sob  a  jurisdicçlo  do  bif^po 
do  Rio  de  Janeiro ;  em  1782,  porém,  foi  nomeado  o  pri- 
meiro prelado. 

Como  o*estes  assumptos  oao  p6de  haver  melhor  auclo- 
ridade  do  que  a  de  monsenhor  Pizarro,  oupamol-o : 


rege  e  aos  que  de  fulura  regerem  a  mencionatia  prefacia  do  Go^az; 
fui  servido  por  minba  régia  reiofução  de  i  do  corrente  mei  de 
JunhOf  conformnodo-nie  com  o  parecer  do  conselKo  e  usando  Ja 
auctoridade  que  a  esle  respeito  me  compete  em  virtude  da  cons- 
tituição aposlolica  do  sanlissimo  padre  Benedicto  XIV,  de  21  da 
Abril  de  1766,  na  qual  me  permitiiu,e  n  todos  os  Srs.  reis  doesta  me 
narclib,  a  liberdade  de  podermos  li  ff  emente  determinar,  estabe- 
lecer cerlos  e  novos  limites  a  todos  os  bispados  e  prelazias  já  erecias 
ou  que  se  houverem  de  erogir  nos  meus  dorníníos  do  BrasiU  sem 
dependência  de  novo  e  especial  beneplácito  da  Sé  Apostólica,  peta 
primeira  ves^,  que  a  respeito  de  cada  híspo  nas  parecer  conveniente 
qualquer  aUeraçâo  a  este  respeito,  nssignar  e  determinar,  como  por 
esU  assigno  6  determino,  para  limiLes  ou  lermo  de  separaç^io  ds 
prelada  de  Co^r^iz  e  do  bispado  do  Par4'l,  o^^  mesmos  limíles  civis 
que  artyulmenie  separam  as  duas  capitanias,  pelo  que  respeita  á 
jurisdícrãn  de  seus  respectivos  governadores  e  cíipiliies-generaes; 
o  que  me  pnreeeu  participar-vos,  afim  de  que  deixeis  tomar  posse 
do  indicado  terrilorio  ao  íiev.  bispo  deTilopolí,  prelado  deCofaz, 
pnr  si  ou  por  quem  para  osso  eíTeito  seus  poderes  liver:  o  que  se- 
meíbantemenle  mando  participar  na  data  de  hoje  ao  sobredito  pre- 
lado, para  que,  entendendo^se  comvosco  a  este  respeito^  termineis 
de  commura  accordo  a  rererida  desmembrarão  com  a  posse  por  elle 
convenientemente  tomada,  a  qual  lhe  fareis  dar e  elle  tomarA  com 
ã^  sofemnidndes  que  o  direito  canónico  requer^  ou  o  uso  por  pra- 
tica antiga  tenha  estabelecido,  aílm  de  que  para  o  futuro  nàe  possa 
excita r-se  conteiitaQao  alguma  a  esle  respeito,  entre  os  bispos  vos^ 
«oa  sneeessores  c  os  prelidns  que  governarem  a  dita  prelazia;  o  que 
fos  hei  por  mui  lo  recommemíado,  O  Principe  Regente,  nosso  se- 
nhor, o  mandou  por  seu  especial  mandado  pelos  ministros  abaixo 
íisnig nados,  do  seu  conselho  e  do  do  ultramar. —  Anttfmú  Justír^ 
Machado  4c  Moraes  a  fex  em  Lisboa  aos  18  de  lunho  de  1807,  ele. 


—  44  — 

«  D.  Fr.  Vicente  do  Espirilo-Santo.  da  ordem  Agostii- 
Diana»  e  sagrado  bispo  das  ilhas  de  S.  Thomé  ^  Príncipe,  a 
quem  o  actual  estado  de  saúde  inconstante,  por  moléstias 
habituaes,  impediam  a  residência  na  diocese  destinada,  foi 
q  primeiro  eleito  em  1782  para  occupar  o  cargo  prelatico 
de  Goyaz.  Por  esta  circumstancia,  em  nome  da  rainha 
D.  Maria  I,  foi  ordenado  ao  embaixador  na  côrle  de  Roma, 
D.  Diogo  de  Noronha  (posteriormente  conde  de  Yilla  Verde 
8  que  falleceu  sendo  secretario  de  Estado),  por  officio  do 
secretario  de  Estado  conde  da  Villa  Nova  da  Cerveira,  da- 
tado de  13  de  Agosto  do  mesmo  anno,  que  instasse  pela 
aceitação  da  renuncia  do  bispado  sobredito,  e  nas  bulias 
d'ella  se  declarasse  livro  ao  bispo  renunciante  o  exercicio 
da  ordem  episcopal  no  território  de  Goyaz,  d*onde  estava 
nomeado  prelado.  Continuando,  porém,  o  impedimento  de 
moléstias,  que  no  anno  de  1788  levaram  o  bispo  à  sepul- 
tura, não  se  realizou  o  exercicio  prelaticio.  )> 

Foi  seu  successor  D.  José  Nicoláo  de  Azevedo  Coutinho 
Gentil,  da  ordem  de  S.  Bento  de  Aviz,  bispo  titular  de 
Zoara  e  prelado  de  Cuyabá,  por  nomeayão  de  23  de  Janeiro 
de  1782,  cargos  que  renunciou,  desde  que  por  decreto  de  16 
de  Maio  de  1795  conseguiu  ser  despachado  deão  da  real 
capella  de  Villa  Viçosa. 

O  terceiro  prelado  foi  D.  Vicente  Alexandre  de  Tovar,  por 
nomeação  de  11  de  Setembro  de  1802.  A  seu  respeito  diz 
Pizarro  nas  suas  Memorias  Históricas  : 

cc  O  padre  Vicente  Alexandre  de  Tovar,  natural  da  Bahia, 
formado  em  cânones,  e  presbylero  secular,  que,  sendo  có- 
nego reitor  da  só  de  Faro,  passara  a  Goyaz,  e  por  provi- 
mento do  diocesano  do  Rio  de  Jaíi(?iro  occupára  de 
encommenda  aparochial  igreja  do  Pilar,  desde  6  de  Julho 
de  1791  a  1830,  em  que  se  retirou  por  obrigado  a  regressar 


—  43  — 

â  conesia  reitoral,  cujo  beneficio  deixou  pela  prebenda 

canooical  da  sú  da  Babk.)) 

Provido  na  prelazia,  diz  ainda  Pizarro:  «  Por  aviso  da 
secretaria  de  Eslado  dos  negócios  do  reino,  datado  de  !4 
do  Setembro  do  mesmo  anno  (1802),se  IBe  facultou  solicitar 
da  sé  aposLiilica  a  nomeação  de  hispo  in^jwrtíbm  infidelmm 
em  Tavordos  povos  da  sua  diocese.,..  Por  intervenção  régia 
Se  expedii^am  as  bulias  qne  o  insliluíam  bispo  de  Títopoli, 
ê  em  virtude  d'ellas  recebeu  a  sagraçJo  administrada  a  28 
de  Agosto  de  1803,  na  igreja  do  toreto/pelo  actual  núncio 
apostólico  o  moQsetihor  D.  Lourenço  Caleppi,  arcebispo  de 
Naiibl,  assistido  do  arcebispo  de  Andrcánapoli,  D*  Manoel 
Joaquim  da  Silva,  e  do  novo  bispo  de  Angola  D.  Joaquim 
Maria  Mascareobas»» 

Nomeou  D,  Vicente  governador  da  prelazia,  emquanlo 
nao  ia  tomar  d'ella  posse,  ao  padre  Vicenle  Ferreira 
Brandão,  Em  viagem  para  sua  diocese,  falleceu  na  villa  de 
Piracatú  a  O  de  Outubro  de  1803,  de  uma  violcnUi  dor 
sobre  o  coração,  que  so  lhe  periiiiltiu  viver  o  tempo  pre- 
ciso para  se  lhe  administrar  o  Sacramento  da  Penitencia. 

Sem  receio  de  offendermos  a  ordem  chronologica,  que 
rios  impuzemos  n'estes  annaes,  e  por  nao  convir  interrom- 
per o  que  temos  a  dizer  ainda  sobre  a  historia  eccle- 
siastica  da  capitania  —  proseguimos : 

Foi  successor  de  D-  Vicente  de  Tovar  na  prelazia  de 
Goyaz  D»  António  Rodrigues  de  Aguiar,  por  eleição  de  24 
de  Juoho  de  1810.  Filho  do  Rio  de  Janeiro,  e  bacharel  em 
cânones,  íoÍ  familiar  do  bispo  D.  José  Joaquim  Justiniano» 
depois  secretario  do  bispado  do  Rio  de  Janeiro,  reitor  do 
seminário  de  S.  José,  e  cónego  da  capella  reaL  Tomando 
posse  da  prelazia  em  13  de  Janeiro  de  181  i,  designou  para 
seu  governador  o  Uov,  padre  Vicente  de  Azevedo  Noronha 


-  ifl  — 

a  Gamara,  com  faculdade  de  poder  delegar  seus  poderes  na 
caso  de  impedi  mento  ou  de  força  maior. 

Nomeado  D.  António  bispo  titular  de  Azoto  em  IH  Ifi, 
foi  sagrado  na  capella  real  em  29  de  Setembro  do  mesmo 
anno,  pelo  Rev,  bispo  capelI5o-mòr,  D*  José  Caetano  da 
Sika  Coutinho. 

Esperava  D,  António  por  esta  confirmação,  que  tanto  Sô 
demorou,  afim  de  tomar  posse  da  sua  prelazia :  desde,  po- 
rém, que^  como  seus  antecessores^  viu-se  revestido  da  ju- 
risdicçâo  episcopal,  seguiu  para  Goyaz;  mas^  assim  como 
seus  predecessores,  nao  cliegou  a  ver  a  sua  diocese.  Em 
viagem  foi  assaltado  de  uma  malina,  e  na  margem  do  rio 
Iguassú  terminou  seus  dias  a  2  de  Outubro  de  Í8l8. 

Fallecendo  também  o  governador  padre  Vicente  da  Az^ 
vedo,  suGcedeu-lhe  no  governo  da  prelazia  em  12  de  No- 
vembro de  1818  o  cónego  Luiz  António  da  Silva  e  Sousa. 

Não  se  fez  esperar  muito  o  preenchimento  da  vaga  dei- 
xada por  D.  António  de  Aguiar,0  vigário  de  Macacú,  da  pro- 
víncia do  Rio  de  Janeiro,  que  fora  eleito  bispo  de  Meliapor 
em  1811,  foi  designado  em  lO  de  Outubro  de  18 1 8  prelado 
de  fioyaz,  e  n*este  cargo  confirmado  com  o  titulo  de  bispo 
de  Castoria  pela  buUa  de  Pio  Vil  de  10  de  Junho  de  18Í0, 
Tomando  posse  da  prelazia  por  procuração  em  21  de  Ou- 
tubro de  I82i,  seguiu  lempos  depois  pnra  Goyaz. 

Elevada  a  prelazia  de  Goyaz  a  bispado  pela  bulia  d©  IS 
de  Julho  de  1826,  de  Leão  Xllt  que  principia— So/íctía  ca- 
íhõUci  gregia  (69) »  foi  D,  Francisco  eleito  bispo  por  <te- 


(6t))  M  nomtnê  B<>mini^  amm* —  Leo  Epfscopu^  Servo  rum  Dêt  iii 

pêrpdiiam  rei  memoriam^  Solicita  calholici  pregis  cura  nos  com* 
pellft  assidue  uL  oa  prestem us  in tonto  sludio  quíP  pro  solubríori  ejus- 
(lem  procumtione  videantur  expodire  miêt  qufi?  priírum  lenet 
locum  l^piseoporum  constkulio  ut  (tdeiís  Foptili  «^pirítualibus  oece»* 
siljiribus  celeriler  valeanl  opem  ferre  opporluiiaTn  aç  in  MDia  pre- 


—  47  - 


creio  dê  11  de  Setembro  de  1843,  e  conQrmado  por  buUa 
de  Gregório  XVi,  expedida  em  1844- 

sertioi  teiupomm  acerhíULo  Saneia  ol  iQConcusRa  CaLbotic^  lidei 
dogmala  orEinibm  u  recla  via  dêcUciuntíbus   opponat  Pupulumque 
verbo   @l  exemplo  ita  iti^iiruat  aaiidue^^ul  yberrinii  Sacmmcriltirum 
pabuli  parUeeps  faciuâ  coron^im  vít^e  ia  iriumpbaniis  Ecclesiuu  si  nu 
mereiílur  {iccipera  cmu  dlías  fd  i  reco  rd  í  Bçnediclus  Dí^cJuiusquar» 
ius  Predticesãur  aosier  suis  niotus  proprií  IJieris  iiicipiens  —  Can- 
dor lucíâ  elernuí  —  daiis  Octavo  fdus  DeceraUris  nnno   Doroínl 
millesliBO  sepiingenLesima  quadragésimo    sei  lo  e%  vaslissinia  Flu- 
miais  ianuanis   Dieeest   ío  Brasília  bttms  erexit  sedes  Episcopales 
unam  nempa  Saoctí  Pauli  et  aJ Leram  Marmiieni^em  ouDcupala  duas 
iii^lmul  iiJsUtuJt  PretaLurus  Goiaseosem    nluiirum  ei  Cublmeusem 
deaomioatas  ei  separalum  territoriuin  babetUes  iuquo  idutieíPrcs- 
b^leri  Seculares  ycI  iteguUre^  a  rege  in  Frolalos  etiam  ad  teoipus 
sibi  benèviâum  Ubere  depulatidi  spiriUialem  omaimedam  respective 
esLereereutjurísdrctianem  sub  certis  quibusdaoi  legihusad  saluber» 
rimecoDsuiendunj  ulíliori  procuralíotii  poputorum  per  ásperas  illas 
Gt  mauto&aâ  Hegioue^  degentium  ac  mu  lia  profeeto  auimíirum  lucra 
ojiínde  comparai  a  di^auscuDlur  piores  enim  creclio  EcciesiiJí^  et  ea* 
rum  oonnuIJíc  ParofiliialiUtis  jure  donaia^  non  pauci  Sticroruni  Pre* 
sídesadscili  quí  populis  Otristiaoa  disciptioa  informandís  coUabo* 
rareni  afiaque  in  íditpportuna  fuerunt  instituta  Auamen  ad  uberjore 
adLoc  ibidem  compara oda  increinenta  rei  sacr^e  uode  ílegnorum 
iacolumitas  el  vero   habelur  felicitas  caríssimos  in  Christo  FiJius 
nosler  Petrus  Prímus  BrasiliíE  Iraperaior  per  dííectum  filiam  Fran- 
eiscum  Corrêa  Vidigal  suum  apud  dos  el  aposloliram  sedem  píeni-^ 
poleociarium  admiiiislrum  impensa  soIlícíLudine  canlendjt  ui  binas 
eouncíalas  Prelatoros  ad  sedis  Episcopalis  grndum  eL  dignitatem 
extuUeremus  aperto  despondens  quidquíd  iu  Episcopales  Biensas  in 
Capitulorum  ac  Semínariorum  Patrimouium  el  ad  Catbedralíuiii 
o;diom  tuílionem  neeessaríutn  depreJiendereturei  publico  erano  se 
iDlegre  ac  slabilíler  collaturum  PíenLíssimi!^  igítur  laudaU  Impera^ 
toris  voLis  quanlum  in  Domino  po^sumu^  beoigiie  annuendom  coo* 
sentes  omoíbusque   rile  perpensis  et  certu   scientía  ac  matura 
delíberaLione  noslrís  de  quii*  aposioUcfO  potestatis  plenitudine  previa 
utriusque   P rela l uni;;  Goiasensis  cl   Cuiabensis  âuppressione   ex- 
linetione  el  atmulialíone  biiios  oppidos  Goiás iuni  et  Cuíalaum  in 


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ando  por  Goyaz,  para  a  saa  diocese»  o  bispo  de 
Cuyabá»  D-  Josó  António  dos  Reis,  nessa  occasião  sagrott- 
se  D,  Francisco. 


Civílales  Epjscapãles  ctim  Ciiria  et  Cancellana  Ficclesísstica  cfitPfis* 
qua  júri  bus  tiQUOribus  et  privilegits  quíbu^i  f^audlent  aViua  stmiíts 
Episcopais  CiYLlnle§  íq  eisdeni  vero  CiYit.tttbus  eiislÊEtes  Mt|Orit 
Ecclésias  Í<iCi¥Ítatc  sfilicelGoiaseo^i  honori  SoLro  Àn[i«ii  dicatam  at 
m  CuíabAõnsi  Cí¥itate  tiiulo  Bqdí  Jesu  vocaUm  ná  gradara  Calb«- 
drâlium  Ecolegiamm  Coiaseosis  et  Cuiatiaensis  P<iroch)aie«  ul  antca 
sub  lisdem  titutis  eitiLur^yi  evetkimus  et  exLoKIimus  illasque  metr^ 
poliLioo  júri  pro  tampore  c%isientís  Archiepiscopi  Scii  Sahatomiii 
Brasiliii  uti  sulTraganeas  fiubjicicDUS  atque  iu  biuis  ípsis  Eccl^iâ 
Diguítatem  ct  SciUm  Poiuiricatem  pro  l^oiasenMet  Cuíabaiinsí  Epif* 
copii  rêspectíve  nuncupandi^i  qui  Ecoti^stits  iisdem  Civítatibui  mm 
Oicpcesibus  ut  mim  MKigrtíindis  ilUrumque  Oero  cl  Pôpulo  pretiat 
ac  omQÍa  eisinguUjura  el  munia  Epíscopalia  eierceant  €úm  iilíi 
iarfáseriptis  Capitull»  Arca  Sigillo  Meosis  Epiâoopalíbus  Samíaaríis 
Fueroruin  EcctcsiasUcis  cclcrisque  Pofiiííiealibus  insigiiiis  JMris- 
dieiioiíibui  prerogaliTÍs  ae  indultís  realibus  et  per!iúnalibus  adâliai 
Catbedmies  Ecciesins  íllarum  parlium  legitima  ex  causa  spectail- 
tibus  eadem  apoitobca  auetorilaLe  erigimus  et  coRStitulrans  Forrei 
ia  una  et  altera  ex  predieLis  Cathâdmfibas  Capitulam  eríl  instíMien- 
dum  qui  t^x  Arehidmcouo  prima  poi>L  t^ouimcidtcm  el  Arr.hipr«sbj^ 
lero  secunda  díguitale  et  ei  decem  saltem  constiibil  CanoDÍeii 
respectivis  gaudentibu*  Prebendii  iiit«r  quas  Tbeologalia  et  Pem- 
teDciaría  eruui  percensenda  iiemi|ue  cum  np  por!  uno  com  peie  utt 
Capeíknorum  ac  Mini&trorum  numero  pra  uoiuscujusque  Eceleâiie 
fierfitio  Tdí  autem  eíTormalo  Capilutu  faculialem  iiu parti  mur  gau* 
dendi  omjubus  et  síngulis  bouoribus  iasigniis  et  prívilegib  noii 
tnEoeu  titulo  oneroso  vet  ex  pecutjari  favure  aoqal^itis  qui  bus  Qipi* 
tut&  ANarum  GitltedraUum  m  Braâilieii!^i  Império  legitime  fruuntur 
itemque  condondi  quiE^ibeL  statula  Ordinalionm  et  derreia  licita 
tamen  et  banesla  ac  sacrís  Cationibus  decretisque  Coucílii  Triden- 
Uai  et  apastoUcis  cotistiLulionibus  mioime  adversantia  quibus  de 
rectal  diviui  euUus  disciplinarei  deaccurata  sacroruin  procuralioue 
oppoTtuna  pra'cepia  tradaiituf  quieque  postmodum  pro  eoniin  ro* 
boro  eipleuario  eíTectu  erunt  respectiva  Episcopo  subjicieQda  el  ab 
eo  speciatím  approbauda  Fuerorum  itidem  Ecciesiaslicum  Semitia* 


Nos  assumptos  rtslalivos  ã  igreja  de  Goyaz  houYeram 
sempre  as  maiores  delongas,  como  lemos  visto. 


riuin  exTritlentinorum  Patmm  ordiníiLionn  in  qiiatibet  ex  duabus 
Epíscopalibus  Ecclesíis  erigendani  staiuimm  ul  inibi  adoleseenlos 
Oeríci  ad  EccIesiiBdiscipImam  informentur  utílibus  per  KpÍBcopos 
legibus  impoAitis  qvjibus  pieLas  in  prímis  etmorum  probilasuc  sana 
docirioa  fovealur  at  noTellHs  pbntationes  quai  ibiilem  alutilur  ia 
Bpero  Ecclesíarum  suncrescanl  felíciler  uboriores  in  díôs  fruelas 
allatarn?  atquc  ul  pro  tempore  exislentium  Episcoporam  eL  Capilu- 
lorum  nec  non  Sarainariorum  con^rue  dotalioni  respectivo  consu-* 
ktur  denerntmuB  quod  una  êl  altera  BX  Epíscopalibus  MeDSÍs  Coia- 
sen$iis  eL  Oíiabaensis  ad  normam  abarum  Monsaruni  Epíscopabum 
per  Brasibam  in^trnalur  expTícalís  ac  eerli^  annuíit  reddidbus  in 
iummasaliem  quingeniomm  sepmaginta  unius  Dj^icatorum  auri  de 
Camera  ex  imporíab  erário  bbere  pcrãotfenda  quodque  paritor  Ca- 
piLulorum  ae  Seminarioruni  congrue  dolalioní  alque  Cuibedrabum 
adíum  tuitioni  Episcoporum  decenU  babítatLooi  et  Seminariorum 
Ordinationi  a  supralíiudalo  Brasibíp  Iraperalori  ad  normara  saltem 
alíorum  Epíscopaluum  pro  suo  m  CfUboMcam  FkUgionom  impeuso 
sludio  Ubcrabler  consulolur  pro  singularum  profeclo  Dí(v*eesium 
eíTorniando  Território  ea  ipsa  loca  uDíciíique  attribuimus  qutL>  ifi 
presenUarum  adatiledictas  rrelaturas  respectivo  perlinent  atque 
idcirco  suppressa  et  exlincta  qualibet  alia  si  qua^  forsan  exíBtat  alte- 
ricm  cuju!%piãm  antisliti;^  in  lU  Territariís  jurisdictionem  iMorum 
Íncolas  uiriusque  scxus  iam  Laicos  quam  Clericos  nec  nan  Ecclesíaâ 
Monasteria  Beneítcia  quírcuroque  memoratts  Epif^copalibus  Ecelosíis 
earumque  Presulibu^  pro  buís  Cívrtalo  Territorío  Diecesí  Clero  ac 
Populo  assignamus  eorumque  omnimudaí  jurisdictioni  acsuperio- 
rílali  in  spírítuatibus  perpetuo  respectivo  supponimus  atquo  sub- 
jictmus  fescnrata  tAmem  Nabis  ot  Romanis  Pontibcibua  successo- 
líbus  nostri^  facultaie  novam  harum  Dtecesíum  circurnscriplionem 
eliam  qiiond  Moiro poUlice  Eccle^ue  designalíonom  ^jtncire  uhi  saiu- 
britis  pro  líeligíonis  bono  fore  fonspiciafyr  quin  uHuui  in  iil  vel  ab 
anliiilitrhus  vet  a  O^ipiíulis  opus  sit  a$;^en^um  ciquírere.  Qooniam 
veroad  furuiam  supradicli  Mulus  proprii  liiudaLi  Ponlificis  Bonedioii 
Deotiníquarlí  prefac tus  Brasília?  Imperaior  Indulto  gaiidebat  Iiioneoã 
Presbyleros  ad  enuncialas  Goiascnsos  ei  Cuiabaonsem  Prcbiluras 
Bominandí.  Nos  attentia  quaqtie  prs^Iaris  in  Heligíonem  cl  Eccte- 
TOMO  XXVIU,  p.  TI,  7 


-  30  — 

Foi  I).  Francisco  o  primeiro  prelado  que  entrou  em  Goyaz 
e  exerceu,  apezar  de  cego,  o  pastoral  officio.  Dotado  de  ?ir- 

8iam  meritís  ipsius  Petri  Imperatoris  libenter  concedimus  ut  hac 
eliam  prima  vice  el  in  futuris  vacalíoníbus  idem  Imperator  ejusque 
in Brasiliensi  Império  successores  gaudeant  jure  patronalus  et  pre- 
sentandi  ad  anledíclas  sedes  Romano  PontlGce  infra  annum  adie 
vacationis  ob  locorum  longinquitatem  Personas  Ecclesiasticas  pie- 
tate  Religionís  sludio  doctrína  secundum  Doum  prudentiael  gra- 
\itate  commendatas  iisque  preditas    dolíbus  quas  sacri   Cânones 
requirunt  a  nobís  et  Romanís  PonliGcibus  successoribus  noslrit 
juitd  statulas  formas  per  apostólicas  líteras  Canonice  promoveodas 
el  iustituendas.  Eidem  ínsuper  Imperatori  tribuimusjus  nominandi 
Ecciesiastícos  idóneos  viros  nd  omnes  et  s  igulas  predictas  Dignita- 
tes  Ganonícatus  Prebendas  ac  Beneficia  ut  preferlur  respective  erí- 
genda  congriísque  per  ipsum  Imperatorem  rodditibus  donanda  quo- 
ties  iila  quomodolíbet  et  ex  quorumcumque  Personis  eliamapud 
sedem  aposlolicam  vacare  contigerit  ita  ut  hujusmodi  nominalís  ae 
presentatis  Cinonica  per  respectivos  Episcopos  decernatur  instilutio 
eo  plano  modo  quo  a  supradícto  Predecessore  nostro  Benedicto  De- 
cimoquarto  in  supra  enunciatís  Motus  proprií  iiteris  pro  BeneGciii 
Capitulorum  pro  Cathedralium  Sancti  Paulí  et  Marianensis  fuit  san- 
citum  ad  consulendum  interea  Cliristííidelíum  in  illís  partíbusde- 
gentíum  spiriluali   regímini  ubi    primum  binaram  Cathedralium 
erectioní  locus  faclus  fuerit  ne  iisdem  dcsil  Preses  donec  de  primo 
earum  anlislite  provideantur  Venerabilera  Fratrem  Francisoum  Fer- 
reira de  Azevedo  Episcopum  Castorien  in  partibus  inlidelium  Prela- 
tuno  Goiasensi  et  dilectum  fílíum  Fr.  Joseplium  Mariam  e  Macerata 
Presbilerum  Ordinis  Fralrum   Minorum  Sancti  Francisci  Cappuc- 
cinorum  expresse  professit  Cuiabaensi   Prclature  modernos  Pre- 
sidentes in    Vicários  apostólicos    earumdem    Prelaturarum    cum 
necessaríis  el  opportunis  in  eam  rem  facultalíbus  durante  lantum- 
modo  illarum  sedium  Episcopalium  vacatione  respective  deputamus 
et  constituímus.  Volumus  autem  quod  juxta  redditus  annuos  Mensis 
Episcopalique  ut  supra    assígnaudos  consueta  Taxa   Ecciesiarum 
Goiasensis  et  Cuiabaensis  de  more  cílbrmata  in  floreois  auri  centum   . 
sexdecim  cum  duobus  terliis  pro  unoquaque  in  Libris  Camerae  nós- 
trse  apostoliccie  describatur.  Denique  ut  cuncta  superius  a  nobis  dis* 
posita  rite  ad   suum  perducantur  efTectum  Venerabilem  Fratrem 


—  SI  - 

ttidtís  preclaras,  era  entretanto  de  caracter  timorato  e  de 
orna  bondade  extrema*  Cego,  esta  círcumstancia  muito  con- 


Josephum  a  Silva  Episcopum  Sancti  Sebasiiaoi  Flamims  Januarii  ia 
harum  Uteramm  MposlDlícârum  6xequuiDrem  cum  omníbus  et  sin-» 
guILs  necessariís  et  oppoTtuniã  fâcuItaLibus  eligimus  ac  dcpulamus 
uísive  per  se  síve  p6r  aliam  ítlustrem  PersoDam  ia  Eec[esia<iilca  Ui« 
gQÍtate  constitutam  ab  oo  subdelcgandam  prosit  satius  m  Domino 
eensueríL  nedum  cuQCta  vafeat  peragere  ad  optaluoi  premísoruin 
oiitum  sod  etíiiin  siujjer  í|uacumt|ue  oppoíiítioae  in  acLu  ©jusmodí 
esequalionls  quomodolibel  Torãan  úrjtura  deliaíLlve  pronunetare 
delagaCa  sibi  apostólica  âuctoriUie  Nbere  et  licite  \aleai  Cidein  ÍQ« 
super  Joseptio  Episcopo  iDJungimus  ut  aulhentica  decrelorum  et 
aelorum  omoía  inejusmodi  eitequuliononi  coullciendomm  ad  após- 
tolíeaiD  sedem  trrtnsmiUat  ín  Tabula  rio  hujtis  Congregatioais  rebus 
consisiorialibus  preposíte  do  more  jis^ervanda  Presentes  autem 
literas  et  ia  eis  contenta  qua^cumque  etiam  ei  eoquod  quilibet  ia 
premissis  itueresset  babe  ni  es  vel  habere  pretendem  es  illts  non  coq« 
senserint  seu  vocati  ei  audiU  non  fucriat  uullo  uoquain  temporede 
subreptionis  vel  nbreplioDis  seu  nullttalis  vitio  seu  itileniionis  nosr 
Irce  aut  atío  quabtumvís  subslaQcíaíi  defectu  nolari  impugna  ri  vel 
ia  eontroversiam  ^omrl  miuime  posse  sed  semper  et  perpetuo  fa- 
fidas  Bi  otficaeeso.\islere  et  fore  suosque  plenários  et  íntegros  efle- 
ctus  sorlíri  et  obLínere  ac  ab  omnibus  ad  quos  specUl  inviotabíliter 
observari  debere  et  si  secus  super  bis  a  quoquam  qtiavís  aticLorítale 
seienter  vel  ígneraoter  cotitigerit  attenian  írrílurn  et  inane  deeer- 
nimut.  Non  obstantibus  eliam  in  Sinodal ibus  ProvincialíbusCenera* 
libusque  Coneilits  edítis  Conslitulionibus  el  Ordinalionibus  apos^ 
lolicis  predícturumque  EccJesiarum  slatniís  consueludinibus  &t 
privilegiis  quibus  omnibus  et  singulís  illorum  tenore  pro  plene  et 
sufficicnter  ex[íressis  babenlos  iltís  abas  ín  suo  robore  perraansuris 
ad  premissonim  eíTeolum  derógamus  ceterisque  eontrariisquibus- 
cumque  NulJi  ergo  omnino  hominum  fíceaL  bane  paginam  nostram 
Erectionts  InslítuUonis  assignalionis  aitfibuitíonis  Concessionis  De- 
paialioois  Injunctionís  Derogaiionis  Dccreti  roandati  et  toluntatís 
infringe re  vel  oi  aussu  Lemer<Arío  conlrairo  ;  si  quis  aulom  Zioc  at- 
lentare  presurapseriL  indignaLíonem  Omnipoientts  Dei  ac  ííeatorum 
Pelri  eL  Payli  apostolo  rum  ojus  se  noverlt  incursurum  Datum  Bomín 
ap\iá   Sanei  um  Petrum  atino  Incarna  tiouis   Dominica*  millesimo 


—  5»  — 

corroo  para  que  nSo  poucas  vezes  abusassem  da  snacMh 
fiança  e  da  soa  bondade,  com  grave  prejuízo  dos  interesses 
da  sua  igreja ;  foram  seus  próprios  familiares  os  que  mais 
o  comprometteram. 

NSo  consta  que  em  tempo  algum  houvessem  duvidas 
sobre  divisas  ec(^lesiasticas ;  a  desmembracSo  que  se  te 
das  freguezias  que  pertenciam  ao  Pará  foi  aconselhada  por 
bem  dos  povos;  um  facto,  porém,  teve  lugar  em  nossos 
dias,  a  usurpação  por  parte  de  Mato-Grosso  da  freguesia 
de  SanfÀuna  do  Parnahyba,  assumpto  este  de  que  ji  nos 
occupàmos  quando  tratámos  das  questões  de  limites  com 
aquella  capitania. 

Vem  aqui  a  pello  fállarmos  de  uma  azeda  polemica,  que, 
travada  no  governo  de  D.  João  Manoel  de  Menezes,  teve 
fim  no  tempo  de  D.  Francisco. 

Por  carta  régia  de  25  de  Abril  de  1799,  foi  o  ouvidor  de 
Sabarà,  José  Gregório  de  Moraes  Navarro,  incumbido  de 
erigir  a  villa  de  Piracatú  do  Príncipe,  e  crear  a  comarca dô 
Rio  das  Velhas.  Determinava  esta  carta  que  na  demar- 
cação da  villa  ficariam  comprehendidos  os  lugares  que 
mais  próximos  d'ella  ficassem,  sem  atlenção  às  divisas  das 
capitanias. 

N'esta  conformidade,  o  ouvidor,  em  15  de  Outubro  de 
1800,  installou  a  villa  e  traçou-lhe  os  limites,  annexando- 
lhe  o  julgado  de  S.  Romão,  que  entendeu,  n'essa  occasião, 
dever  extinguir. 

Á  linha  divisória,  partindo  do  Porto  Real  do  rio  de 


octingentesimo  vigésimo  sexto  Idibus  Julii  Pontiíicalus  nostri  < 

terlio  loco  í{í  Plumbi-Super  quibus  quidem  Literis  Ego  Notarius  pa- 
blicus  presens  Transumplum  confeci  et  signavi  presentibus  D.  D. 
Germano  et  Dâmaso  Testa  Testibus.  —  Goncord  cum  Originali  F. 
kola  Opus  Depus.  —  B.  Gardinalis  Pacca  Pro-Dat.  —  Ita  esl  Carolas 
Baltaglia.  —  Notus  Apeus. 


-  &3  — 


S.  Francisco,  ia  lêr  á  barra  do  Rio  das  Velhas,  e  d'âhi,  pas- 
sando pelo  julgado  de  S,  Romão,  prospguia  em  direcção  ã 
barra  do  rio  Carinhanha,  e  soas  cabeceiras  na  chapada  de 
Sanla  Maria,  seguindo  depois  alé  ás  cabeceiras  do  Rio 
Preto,  e  d'ahi,  acompanhando  o  curso  das  aguas  dos  Arre- 
pendidos, ia  ler  às  suas  cabeceiras,  e  d'ellas  em  linha  recta 
ao  rio  de  S.  Marcos,  cuja  corrente  seguia  até  fazer  barra 
no  Pamahyba.  Pelo  1'arnahyba  acima,  remontando  assoas 
vertentes,  continuava  a  linha  diirisoriâ,  e  depois  proseguia 
até  o  registro  dos  Ferreiros :  d*esle  porto  par  li  a  ate  o  Fun- 
chal, cnjas  aguas  acompanhava  até  se  lançarem  no  Indabyá, 
e  pelo  seu  curso  até  conDuenciar  no  rio  de  S,  Francisco, 
cuja  corrente  servia  de  natural  balisa  até  o  Porto  Real, 
ticando  doeste  modo  fechada  a  linha  divisória* 

N'este  grande  periraetro  estavam  comprehendidas  as  po- 
voações de  S.  Romão,  Salgado,  ribeira  do  Urocuja,  do 
Acary,  Peruassíi,  Rio  Pardo,  Rio  Preto»  Carinhanha,  cha^ 
pada  de  Santa  Maria,  e  quasí  todas  as  fazendas  da  picada 
de  Goyaz,  desde  Piracatú  até  Bamboby,  Incontestavelmente 
uma  grande  parte  do  território,  que  até  enlao  pertencia  a 
Goyaz,  não  se  respeitara  n'esta  divisão. 

Informado  D.  João  d'este  fado,  dotado,  como  era,  de 
génio  ardente  e  violento,  representou  contra  o  acto  do  ou- 
vidor ao  capitao-general,  Bernardo  José  de  Lorena,  então 
governador  de  Minas,  e^  não  satisfeito  com  assim  ter  pro- 
cedido, mandou  postar  um  forte  destacamento  em  André- 
qoisé,  para  assim  manter  melhor  osUmites  dasua  júris- 
dicção. 

Depois  de  uma  troca  de  oQicios,  escriplos  em  lingoagom 
pouco  conveniente,  flcou  a  questão  adiada;  porém  D,  Fran- 
cisco entendeu  prudente  dar-lhe  flm,  deixando  a  capi^ 
tania  de  Minas  na  posse  do  contustado  terreno*  Entretanto» 
ficavam  ainda  para  futuras  ambições  de  Minas  os  julgados 


-  u  - 


do  iraiá  ê  DeseihboqBe,  e  lodo  esse  lêrrilorio  camprefifeií^ 
iiáó  entre  o  Rio  Grande  e  Parnah j  ba»  coahecido  pelo  nome 
Úh  sertão  da  Farinha  Podre, 

Julgamos  de  interesse  mendonar  aqui  estes  factos,  para 
que  se  cooheça  âs  mudanças  que  se  foram  operando  do  lar- 
rítorjo  da  capitania,  o  que  foi  ella  outrora  em  exlSDSlo 
tôrritorial,  6  o  que  representa  hoje  em  relação  ao  passado. 

Decidida,  como  acabamos  de  Tér,  esta  questão^  dirigia 
D.  Francisco  as  soas  vistas  para  o  assumpto  que  mais  o 
prendia,  —  as  vias  de  Ciimmunicaçao  — .  Entrava  dos  seus 
planos  admiuislratívos  a  e^íploracâa  dos  rios  do  sul  da  capi- 
tania, para  estabalecer  por  esta  modo  uma  fácil  communi* 
Câçao  com  S*  Paulo. 

Antes,  porém,  de  tratarmos  desta  matéria,  fallaremos 
do  descobrimenio  que  do  seu  tempo  se  fez  das  ricas  minas 
do  Anicuns,  que  em  1752  foram  conhecidas  do  câpitão-mÂr 
PãDlaleâo  Pedroso. 

Informando  D.  Francisco  ao  seu  sucoessor  sobre  o  ser^ 
viço  da  mineraçãOt  disse ; 

II  Esta  capitania  é  talvez  a  uuica  do  Brasil  que  lem  a  at* 
pecialídade  de  conter  nos  seus  limites,  além  do  muitas  mioss 
de  ouro,  as  melhores  matarias,  muito  férteis  campinas  e 
dois  grandes  rios  navegáveis,  que  lhe  offerecem  uma  com- 
municãçao  fácil  com  a  do  Gram-Pará.  E'  verdade  que  as 
minas  lèm  experimentado  considerável  decadência  desde 
muitos  annos ;  as  conhecidas,  por  se  acharem  cansadas,  dSo 
já  muito  limitado  interesse,  ou,  para  melhor  me  explicar, 
o  pequeno  numero  de  escravos  que  ha  na  capitania  nlo 
permitte  o  estabelecimento  de  serviços  mais  custosos  e 
adaptados  á  sua  natureza,  para  se  tirarem  aquellas  utili- 
dades que  ainda  poderiSo  offerecer-nos.  Quanto,  porém, 
às  minas  até  agora  por  descobrir,  mas  que  muito  bera  fun- 
damentadas opiniões  indicam  a  sua  existência  oo  centro 


—  «5  — 


d*este  vaslo  continente,  lôm  obstado  a  sua  exploração,  em 
primeiro  lugar,  o  génio  pouco  activo  e  sempre  inclinada 
ao  ócio  dos  brasileiros,  especialmente  dos  habitanles  d  esta 
capitania;  em  segundo  lugar,  os  infelizes  resultados  e 
grandes  despezas  que  tiveram  os  últimos  descobridores, 
entre  os  quaes  se  faz  especial  menção  de  um  Bulhões,  na- 
tural do  córrego  de  Jaraguà,  que  inleiramenle  ficou  arrui- 
nado com  toda  a  sua  familiat  dissipando  nas  suas  inúteis 
tentativas  um  considerável  património  que  lhe  haviam  dei- 
xado seus  antepassados ;  sendo  estes  motivos  assas  podero- 
sos para  se  nâo  arriscarem  ouLros  exploradores  aos  mesmos 
infelizes  descobrimentos  e  trabalhos  ásperos  e  perigosos ; 
o  que  sempre  serviu  de  intimidar  a  povos  em  que  concor- 
rem as  circurastancias  de  um  génio  extremamente  frouxo  e 
de  temperamento  o  mais  fleugraatico» 

ff  O  novo  descobrimento  dos  Anicuns  ollerece,  comludo, 
uma  grande  resurça  a  estes  povos :  nella  lém  collocado, 
não  eu,  mas  sim  os  enthusiaslas  da  mineração,  as  mais 
consoladoras  esperanças  do  futuro  melhoramento  doesta 
capitania....  )> 

Digamos  como  foi  êste  descobrimento  e  o  que  se  seguiu 
depois. 

Andando  a  faiscar  no  córrego  de  Anicons  um  pobre 
homem,  de  nome  Luciano,  reconheceu  a  existência  de  um 
rico  vieiro,  dilEcil  de  trabalhar,  por  ser  em  pedra,  e,  pare- 
cendo-lhe  ser  esta  nova  agradável  ao  governador,  a  elle  a 
foi  levar* 

Com  a  noticia  aOluiu  para  o  ponto  grande  numero  de 
pessoas.  Não  tardou  que  D,  Francisco  desse  ordem  ao 
Dr.  Joaquim  Ttieotonio  Segurado  para  proceder  à  divisão 
das  terras ;  e,  porque  desde  o  começo  dos  trabalhos  appa- 
recessem  grandes  desordens,  deu  fira  a  ellas  mandando 
organisar  uma  sociedade  mineralógica-    Da  organisaçao 


—  56  - 


desta  sociedade  foi  incumbido  o  desembargador superia- 
teúdeote  Joaquim  IgQacio  Silveira  da  Motta. 

Iodo  para  este  Om  a  Anicuns,  teve  Silveira  da  Mo  tia  oc^ 
casiao  de  verificar  que  uma  pedreira  mandada  conservar 
sob  gaarda  por  D,  Francisco  era  a  mais  rica  qua  até  então 
se  tinha  descoberto  em  Goyaz. 

Isto  succedia  no  1*  de  Março  de  1809 :  no  dia  2  estava  a 
sociedade  organisada,  sendo  Silveira  da  Motta  seu  director 
e  imraediato  na  administração  o  guarda-mór  territorial 
Francisco  Anlonio  da  Fonseca. 

Além  doestes  dois  superintendenteSt  linha  a  sociedade 
um  caixa  ou  Ihesoureiro,  um  escrivão  e  seis  feitores.  Os 
primeiros  accionistas,  segundo  a  regra  dos  estatutos,  eram 
obrigados  a  entrar  para  a  sociedade  com  doze  praças  de 
serviço:  admitliram-se  também  todos  os  homens  livres 
que  quizerara  trabalhar  a  salário,  Organisada  a  companhia 
sob  estas  bases>  e  com  um  grande  corpo  de  operários»  come- 
çaram os  desmontes* 

As  primeiras  provas  deram  logo  a  conhecer  a  riqueza 
eiístenle:  no  quarto  dia  de  trabalho  enconlrou-se  uma 
pedra  solta  com  o  peso  de  doze  arrobas,  da  qnal  se  es- 
trahiu  mais  de  duzentas  oitavas  de  ouro. 

Em  Março  foi  D*  Francisco  a  Anicuos  para  observar  c 
serviço  feito  e  dar  uma  conveniente  direcção  aos  trabalhos 
da  companhia.  No  fim  d'este  mez  se  recolheu  ao  cofre  era 
ouro  o  valor  de  ^:i395S25,  no  mez  seguinte  !0:607C^I03, 
e  em  Maio  7:2933J128.  Do  mm  de  Junho  em  diante  dimi- 
nuiram  um  pouco  os  trabalhos,  porque  grande  numero  de 
operários  foi  dislrahido  no  serviço  do  encanamento  do  rio 
dos  Bois,  e  no  levantamento  da  igreja  de  S.  Francisco  de 
Assis,  que  o  governador  mandara  erigir,  assistindo  em  pes- 
soa ao  lançamento  da  primeira  pedra, 

Apezar  d  esta  distraçao  de  braços,  no  ftm  de  1809  havia 


-  57  - 


em  cofre  uma  renda  liquida  de  20:í>46»^735 ;  em  1810  a 
renda  foi  de  8:0585sl87;  em  1811  do7:8i3»SOO;  e  em 
1812  de  3:01 5?íOOO. 

,N'este  uUimo  anno  linha  rareado  muito  o  corpo  dos 
operários :  o  demónio  dâ  intriga,  pondo  em  luta  o  ouvidor 
Motla  contra  os  sócios  Braz  Maninho  de  Almeida  o  Joaquim 
José  Gandras,  afugentou  a  muita  gente,  O  serviço  da  mi- 
neração foi  decahindo  alé  dissolver-se  a  companhia  no  go- 
verno de  Fernando  Delgado,  que  tentou  debalde  dar-lhe 
nova  forma.  N*esse  lugar  das  minas  de  Anicuns  ficou  nma 
povoação,  hoje  pequena  e  acanhada,  mas  que  ainda  mostra 
pelo  numero  dâs  suas  rui  nas  o  seu  antigo  florescimento- 

Não  crendo  D,  Francisco,  por  elle  mesmo  confessado, 
como  acabamos  de  ver,  no  progresso  originariamente  filho 
do  trabalho  mineralógico,  cuidou  com  preferencia  da  la- 
voura, do  commercio  e  da  abertura  de  novas  vias  de  com- 
mnnicação,  por  onde  pudessem  facilmente  sahir  os  pro- 
duetos  da  capitania. 

Estabelecer  com  o  Pará  relações  commerciaes,  por  via 
do*  Tocantins  e  do  Araguaya,  era  seu  grande  desideratum, 
porque  elle  via  que  Goyaz  produzia  bem  o  algodão,  o 
fumo,  o  assucar,  o  café  e  o  trigo,  e  nao  podia  permutar 
esses  géneros^  nem  dar  extracção  aos  produclos  do  gado, 
sendo  uma  provinda  essencialmente  creadora :  para  lar 
consumidores  e  fregueses  carecia  de  meios  fáceis  de  trans- 
porte. 

Quando  D.  Francisco  em  1808  fez  publicar  o  alvará  do 
1"  de  Abril  do  mesmo  anno,  que  revogava  o  de  5  de  Ja- 
neiro de  1785,  que  havia  prohibido  e  extinguido  as  fa- 
bricas  e  manufacturas,  por  se  entender  que  eram  ellas 
também  causa  da  diminuição  considerável  da  extrac- 
ção do  ouro  e  diamantes,  recommendon  a  lavoura  do  at- 
íodao  e  a  creaçao  de  fabricas  de  tecer,  considerando 
TOMO  xxYin,  p.  II*  8 


-  58  - 

essa  laTOora  e  a  industria  da  tecelagem  do  maior  interesse 
para  a  capitâQÍa.  Aconselhando  que  a  esta  industria  se 
applí cassem  os  povos  de  prerereocia  a  qualquer  oulra» 
aílirmava  e  garantia  que  n^elle  enconlrariam  e  nos  magis- 
trados todo  o  apoio  e  protecção  de  que  carecessem  ao 
principio  e  no  progresso  dos  seus  estabelecimentos,  aquet* 
les  que  com  interesse  e  vigor  a  ella  se  di*dicassem  (70). 


(70)  Eu  o  Príncipe  RegeDle  faça  saber  aos  que  o  pres6iUe  alfafa 
virem  que,  deseJaQdo  promover  o  adiantar  a  riqueza  nacíODoi,  c 
sendo  um  dos  raananciaes  frella  as  mamifâclurase  a  índustriíi,  que 
miillii^lícam  e  melharam,  6  dão  mais  valor  ans  fçeneros  e  produelOf 
da  agricullura  c  das  arles,  e  augmentam  a  populacho,  dando  qoe 
fazara  muitos  l»rnço!>  e  fornecetiijú  meios  de  subsislencia  a  muiloi 
dos  meus  ^  assa  lios,  que  por  fnlla  d^elles  se  entregariam  aos  tícios  d& 
ociosidade:  e  convindo  remover  lodos  os  obsiaculos  que  podem 
inutilisar  e  frustrar  Ião  vantajosos  proveitos:  sou  servido  uboHro 
revogar  toda  e  qualquer  prúliibi^fio  que  b aja  a  este  respeito  no  £^ 
tado  do  Brasil  e  nus  meus  domínios  ultramariuos,  e  ordeoar  quo 
d'aqui  em  diante  seja  Ueito  a  qualquer  dos  meus  vassallos,  qualquer 
que  seja  o  paiz  em  que  habitem,  estabelecer  todo  o  género  de  ma- 
nufaeturas  sem  exceptuar  alguma^  fazendo  os  seus  trabalhos *eai 
pequeno  ou  em  grande,  como  entenderem  que  mais  thes  convém, 
para  que  bei  por  bem  derogar  o  alvará  de  5  de  Xatieiro  de  1785,  ^ 
quãesq^uor  lets  ou  ordens  que  o  cooirario  decidam,  como  se  d'6liââ 
fizesse  ei pressa  e  individual  mem^ão  sem  embargo  de  lei  em  con- 
trario. Pelo  que  mando  ao  presidente  do  meu  real  erário,  governa* 
dores  e  capiíaes-generaes,  e  mais  governadores  do  Estado  do  Brasil 
e  domínios  ultramarinos,  e  a  iodos  os  ministros  da  justiça  o  mi» 
pessoas  aquém  o  eonbeci mento  doesta  pertencer,  cumpram  e  guar- 
dem, e  façam  inieiramente  cumprire  guardar  este  meu  alvarâ  como 
n^elle  se  cootémi  sem  embargo  do  quaesqaor  leis  ou  dispasic^  em 
contrario,  as  quaes  liei  por  derogadas  para  este  eITeito  somente, 
ficando  alíús  sempre  em  seu  vigor.  Dado  oo  palácio  do  Rm  de  Ja- 
neiro, no  i*  de  Abril  de  1808,  — Principe*  D,  f/?rnandú  Jméde  Púr- 
tugai.  —  Alvará  por  que  Vossa  Altoxa  é  servido  re?ogar  tod&  a 
probibiçào  que  bavia  de  fabricas  e  manufacturas  no  Lstado  do  fim- 


—  S9  - 

Mãs  a  primeira  protecção  que  D.  Franeiscô  podia  dar  â 

lavoura  e  à  industria  da  capitania  era,  sem  duvida  Jacili lar 
o  seu  transporte  para  os  mercados  consumidores*  Para  os 
habitantes  do  norte  haviam  os  rios  Araguaya  e  Tocantins ; 
para  os  do  sul  as  estradas  de  Minas  e  S.  Paulo,  vias  de 
coramunicação  longas  e  caras. 

Se  fosse  possível  navegar  os  rios  do  sul  de  Goyaz,  que 
lodos  se  dirigem  para  S,  Paulo  e  Minas,  estava  am  parla 
resolvida  a  questão.  Sabia  D,  Francisco  que  pelo  Tietê, 
Paraná,  Camapuan  e  Taquary  viaja va-se  do  litoral  para 
Cnyabà,  que  este  caminho  era  jà  frequentado:  porque, 
pois,  não  seria  possível  continuar  esta  navegação  até  pou- 
cas léguas  de  Villa-Boa,  subindo  o  Parnahyba,  rio  Verde  e 
rio  dos  Boisí  Foi  o  que  tentou  veriflcar*  Offerecia-se  para 
esta  empreza  Eslanisláo  de  Oliveira  Guterres,  homem  ou- 
sado e  qae  desejava  prestar  algum  serviço  que  o  recom- 
mendâsse.  D.  Francisco  mandou  construir  á  sua  custa  uma 
canoa,  que  aprestou  e  tripolou  convenientemente  para  esta 
exploração.  No  começo  das  aguas  de  1808  partiu  Guterres 
e  embarcou-se  no  rio  dos  Bois  ou  Anicuns, 

Diz  um  contemporâneo,  fallando  doeste  eommettimento; 

a  Dos  companheiros  doesta  espediçao  alguns  voltaram 
logo  da  campanha  do  Neiva,  e  Eslanisláo  seguiu  só  com 
seis  companheiros  em  uma  canoa,  e  nâo  voltou  e  nem 
consta  que  chegasse  a  seu  fim.  Dizem  passageiros  da 
S.  Paulo  que  deu  em  uma  catadupa  (7t)»  em  que  perdeu  a 


síl  e  domínios  u!tntniaTÍnós,  na  fúrma  acima  exporta.  ^-  Pam  Vossa 

Alteia  iieal  ver.  —  João  Alves  de  Miranda  Varejão,  o  fei. 

(71)  Diz  Cunba  Mui  los:  —  Entregues  A  vioteneia  das  correntes,  a 
ignorando  lahoz  a  verdíideira  situaçáo  da  íoi  do  Tietê,  varou  de 
noite  a  loca  d'esle  ?{o,  que  linha  ordem  de  subir  até  S.  Paulo,  8  Toi 
precipitar-se  na  cefebre  cachoeira  das  Sote-guédas  {Gomara], onde  a 
canoa  se  fei  em  pedaços.  —  lUmmrw  lom.  2*  pag.  103, 


—  60  - 

caiiôa  e  mantimentos  e  só  salvaram  as  vidas,  e  que  conti- 
Buaado  em  uma  jangada  que  fizeram »  a  qual  deu  em  ou- 
tra, só  36  salvaram  Estanisláo  e  dois  compaoLeiroSp  e  que, 
entranhados  em  uma  mala,  só  sustentados  de  raízes  e  pal- 
mitos, desíalleceu  Estauislâo,  e,  jà  moribiindo,  flcou  junto 
a  uma  arvore,  tendo  os  companlieiros  a  desbumanidade  de 
o  deixarem  n'esse  estado,  que  depois  de  tempo  Toram  sahír 
no  sertão  da  Coritiba,  Esta  noticia  se  confirmou  com  a  cer- 
teza que  mo  dá  pessoa  de  confidencia,  que  fatiou  com  os 
mesmos  que  escaparam,  e  dizem  que  desceram  muito 
abaixo  da  embocadura  que  deviam  tomar,  e  que  se  perde- 
ram já  em  terra  que  suppunham  de  Castella;  que  encon- 
traram infinitos  Índios,  dos  quaes  sempre  se  occultaram;  e 
que  depois  de  andarem  pelas  matas  perdidos  dois  ao  nos 
sabiram  perto  à  viUa  de  Lages,  valendo  muito  afinal  para 
sua  sustentação  os  pinbaes  do  sul ;  que  foram  presos  e 
soltos  depois  de  conhecer-se  a  verdade;  não  quiseram 
voltar  a  esta  capitania;  que  um  se  conservava  casado 
em  S.  Paulo  [li]  ^  e  o  outro ,  ao  presente  (18121  j 
na  Bahia,  »  (73) 

Esta  narração  nos  parece  a  verídica,  e  com  ellaestáde 
acGordo  o  que  disse  o  marechal  Cunba  Mattos  no  seu  ÍUn^ 

O  resultado  d*esta  exploração  sentiram  os  que  contavam 
com  uma  fácil  comraunicabiUdade  para  a  capitania  de 
S.  Paulo,  e  principalmente  D,  Francisco,  que  a  linha  pre- 
parado à  sua  custa.  Tão  funesto  fim,  porém,  não  inUaiu 
para  que  mais  tarde  outros  exploradores  deixassem  de 


(7â)  Um  doestes  homans,  cbamaLla  |]  regar Ío,  exísUa  casiido  oi 
villa  de  Juodiafiy  no  mno  de  1817.  —  Cunha  MaUas.  —  i/^ifraf^. 
(7^)  U  A*  Silva  e  Sousa.  UemoriuM. 


—  tíl  - 


seguir  aíi  pisadas  de  Guterres  e  chegassem  a  realizar  com 
felicidade  o  que  elle  não  pudera  conseguir. 

O  apoio  dado  pelo  governador  aos  ialeresses  da  navega- 
ção foi  mais  ou  me  aos  efficaz,  porem  os  que  realmente 
d*ellB  se  aproveitaram  íoram  os  povos  do  Tocantins*  Além 
do  serem  as  margens  d*este  rio  as  mais  povoadas  da  capi- 
tania, e  o  ponto  mais  distante  du  Rio  da  Janeiro,  Bahia  e 
S.  PaulOt  com  quem  até  então  commerciavam  os  habitantes 
de  Goyaz,  oííerecendo  o  commercio  para  o  Para  outros 
commodos  e  facilidades,  para  alli  se  dirigiram. 

E,  como  consequência  natural  d*esle  facto,  a  porção  des- 
povoada do  Tocantins  foi  recehendo  habitadores,  e  se  for- 
maram pelo  prolongamento  das  suas  margens  novos  focos 
de  população- 

Por  ordem  do  ministério  da  guerra,  de  26  de  Maio  de 
1809,  se  mandou  estabelecer  um  presidio  militar  na  foz  do 
rio  Manoel  Alves  Grande  para  servir  de  protecção  ao  com- 
mercio e  de  escala  entre  Porto-Real  e  S,  João  das  Duas 
Barras,  que  se  mandara  crear  para  sede  da  nova  comarca 
do  norte,  e,  nao  se  tendo  realizado  esta  creação,  era  nada 
foi  sensível  ao  commercio,  por  terem  os  povos,  melhor 
acoDsel  liados,  fundado  a  povoação  de  S,  Pedro  de  Alcân- 
tara, e  mais  tarde  feito  apparecer  a  actual  cidade  da  Boa- 
vista, próxima  ao  estabelecimento  de  uma  aldêa  de 
apinagés. 

Ao  desembargador  Theotonio  Segurado  e  coronel  José 
Manoel  da  Silva  e  Oliveira,  aquelle  ouvidor  e  este  comman- 
dante  militar  da  nova  comarca»  muito  se  deve  o  ter  sido 
n'aquelle  tempo  a  navegação  do  Tocantins  mais  prospera 
do  que  é  hoje. 

Uma  circumstancía  muito  cooperou  para  o  desenvolvi- 
mento doesta  navegação,  e  foi  o  ter-se  estabelecido  uma 
linha  do  correios  da  corte  para  o  Pará  por  via  de  Goyaz< 


—  Ii2  — 


A  «0iiiiiiãnÍGaç5o  da  extrema  capUânia  do  norte  com  i 
corte,  por  \ia  de  barcos  de  vela,  era  demasiadamente  de- 
morada :  imagiooa-se  que  um  correio  por  terra,  funccio- 
nando  regularmente,  a  poderia  pôr  em  mais  estreita  cor- 
respondência com  a  capital  da  monarcLia* 

Para  o  conseguimGnto  à'esle  dcsidenilum  era  indispen- 
sável conbecer-se  o  caminho  mais  curlo  do  Rio  de  Janeiro 
até  Goyaz ;  e»  quando  essa  estrada  não  estivesse  ainda  ex- 
plorada, abril-a  com  toda  a  urgência.  N'este  sentido  se 
deram  as  ordens  a  l*,  Francisco  por  avisos  da  secretariada 
guerra  de  12  de  Setembro  de  1808  e  8  de  Abril  de  1809. 

Ao  desembargador  Segurado  e  coronel  Oliveira  incum» 
Mn  o  governador  da  abertura  de  uma  estrada  em  rumo 
direito,  a  partir  de  S,  Romão  ale  Porto-ReaL  Até  S*  Ro- 
mão a  estrada  de  Minas  era  franca  e  frequentada,  e  pouco 
ou  nada  havia  que  Tazer ;  d'ahi  por  diante,  porém»  em  vei 
de  seguir  pelos  Couros,  Saola  Luzia,  Corumbá,  Meia-Ponttó 
e  capilal,  para  tomar  a  direcção  do  norte  pela  chapada  dos 
Viadeiros  ou  pelo  sertão  de  Amaro  Leite,  convinha  explo- 
rar uma  nova  estrada  que»  partindo  de  S.  Romão,  fosse  ao 
Porto -Iteal,  passando  pelo  registro  de  Santa  Maria,  S,  Do- 
mingos, Conceição  e  Natividade. 

Foram  encarregados  da  sua  abertura  Nicacio  da  €n aba 
Monteiro,  Domingos  António  Cardoso i  Francisco  de  Al- 
meida Salerno,  Joaquim  António  dos  Santos  e  João  Ayres 
da  Silva,  homens  de  fortuna  e  de  iniluencia  no  norta  de 
Goyaz,  únicos  capazes  de  tomarem  a  si  esta  empresca. 
Aberta  esta  nova  via  de  communicação,  foi  d'ella  nomeado 
inspector  o  coronel  Oliveira  para  cuidar  da  sua  conser- 
vação. 

Em  1810  jà  o  serviço  dos  correios  se  fazia  com  a  pos- 
sível regularidade,  percorrendo  os  estafetas  uma  eitensâa 


_  63  — 

de  530  léguas  pouco  mais  ou  menos,  280  por  terra  e  250 
pelo  rio  Tocantins  (74) • 


(74)  Os  roteiros  da  viagem  de  lerra  sao  rariíiveis,  D.  Francisco 
calcukTa  que  do  Rio  de  Janeiro  ao  Forto-Beal  haviam  361  leguag» 
e  o  corooel  Belfard  3Bi,  e  o  desembargador  Segurado  'M\Z*  Entre 
os  dois  aUimos  é  que  está  a  verdade.  Coof reatemos  ps  dois  pri* 
meiroi  roteiros  > 


Roteiro  ãt  D.  Frandsim  dê 
Mascarmhas. 

Do  flío  de  Janeiro  í%  Vi  lia 
Rica.  ...,.,,-*. 

De  Viiia  Bica  ao  Sabará»  .  . 
De  Sãbará  a  Ctirvello,  .  .  , 
De  Curveílo  a  S,  Bomfio*  . 
Ue  S.  Homào  a  Santa  Maria 
De  Sania  Maria  a  Conceiçiio 
Da  Conceiçíio  A  Natividade 
Da  Natividade  á  Chapada,  » 
Da  Cljapada  ao  Carmo  *  .  ^ 
Do  Carmo  a  Porto-Heal  .  . 


Á$tis 


mi 


Roteiro  ão  cormiel  Bilfard, 


Do  Hio  de  Janeiro  á  Vi  lia 

Rica 

De  Villa  Bica  ao  Sabarã.  .  . 
De  Sabará  a  CurvoBo,  -  -  , 
De  Cnrvello  a  S*  Bomâo  .  . 
De  S*  Horaào  a  Sania  Maria 
Do  Santa  Maria  A  Conceit;ão 
Da  Cortceíi;ão  á  Natividade 
Da  Natividade á  Cdapada*  . 
Da  Chapada  ao  Carmo  .  »  , 
Dú  Carma  ao  Porto- Beal.  ♦ 


Leg. 


364 


O  roteiro  de  Segurado  era  o  mais  seguido. e  poretle  se  regulavam 
as  marchas  dos  estafetas  a  partir  de  Vjlla  Bica  até  Santa  Maria,  c 
d'alfi  para  o  Porto  Imperial.   Vejamos  este  roteiro  ;  * 

De  Vi  lia  Biea  á  Villa  de  Sabará,  passando  pela  Matta  da 
Boa  Vista,  Cravato,  Pissarrâo*  Alto  da  Tires,  arraial  do 
Rio  das  Pedras,  rasLcnda  do  Papudo,  Ribeiro  Manso,  Ola- 
ria, Coxe  de  Agua,  Santo  António  do  Rio  Abaixo,  Santa 
Rita,  Padre  Pequeno,  Raposos,  Pís§arrào,  e  arraial  Volbo      i5 

De  Sabara  ao  registro  das  Sete  Lagoas,  atravessando  e  cor- 
reK'0  da  Lage,  Santa  Luzia,  Ribeirão  da  \ratta,  Mattosí- 
nho,  e  Resende* ,  ,  .      13 

Das  Sete  Lagoas  ao  arraial  de  Curveffo,  passando  por  Fetix 
I^rbosa,  Uanoel  de  Araújo,  Matiiias  Pereira,  Jeronjmo 
Ribeiro,  Camafeu,  Maria  ThomRzia.  .  .  .  ,  , ,      IGf^ 

1)0  Curvello  ao  arraial  da  Barra  do  Bio  das  Velhas,  passando 


-  64  - 

Calcnloo-se^que  uma  ?iagem  redonda  de  correio  poresU 
estrada  se  poderia  fazer  em  97  dias ;  se,  porém,  alguma 
yez  isto  succedeu,  é  o  que  não  podemos  aílirmar. 

pelo  Pissairão,  Capão  do' Rocha,  fazenda  da  Garça,  Gon- 
trías,  Porto  Real,  riacho  do  Lavado,  S.  Gonçalo,  Pedras 
de  Maria  Gomes,  Borily  Pequeno,  ribeirão  dos  Ferros, 
Padre  Moreira,  Borily]  de  José  Félix,  Gameleira,  For- 
quilha.   ' 381/1 

Da  Barra  do  Rio  das  Velhas  ao  araial  de  S.  Romão,  passando 
pela  fazenda  da  Varge,  rio  Jequitahy,  Engenho  da  Ex- 
trema, Capella,  Calinga,  Pacub^^  Piracatú,  Seis  Dedos, 
Reliro  da  Gameleira 34 

De  S.  Romão  &  fazenda  dos  Morrinhos,  passando  pela  fazenda 
do  Riacho,  Exlrema,  Vão,  Santo  Ignacio,  Coqueiro, 
Riacho  Secco,  Pedras,  Gameleira,  ribeirão  das  Areias,  e 
riacho  das  Éguas S01/2 

Dos  Morrinhos  ao  registro  de  Santa  Maria  pela  Ipoeira,  Boa* 
Vista,  Riacho  Claro,  Varge  Grande,  Rancharia,  Cerra- 
Âcima,  Fortes,  Manoel  Zacarias,  S.  Sebastião,  Santa 
Theresa,  Fetaes,  S.  Domingos,  Catingas,  Caiçara  do  Meio 
e  Bocaina, 383/4 

166  V« 

Na  capitania  de  Goyaz  a  extensão  era  de  121  1/4  léguas  de  Santa 

Maria  ao  Porto  Real,  a  saber : 

Do  Porto  Real  ao  registro  do  S.  Domingos,  passando  pelo 
arraial  da  Chapada,  arraial  da  Natividade,  arraial  da  Con- 
ceiçíio^  Recanlillado,  S.  Pedro,  Rio  da  Palma,  Mocambo, 
lk)rily.  Salobro,  ribeirão  dos  Montes  Claros,  Bom  Jesus, 
ribeirão  doCalheiro,  ribeirão  do  Bonito,  Rio  Vermelho.      821^ 

DeS.  Domingos  a  Santa  Maria,  passando  pelos  ribeirões  dos 
Macacos,  de  Angélica,  de  S.  Vicente,  S.  Matheus,  I^pa^ 
Palmeira,  S.  Bernardo,  Boa-Vista,  ribeirão  de  Agua 
Quente,  Posse,  Trombas,  Prata,  Forquilha,  Bonito,  Bio 
Corrente,  lagamar,  ribeirão  da  Lontra,  Malhada  Alta, 
ribeirão  da  Tabúa 38  3/1 

1211/4 


-"  65  - 

Por  occasião  de  estabelecer-se  etn  1808  o  correio  do 
Pará  também  se  creou  uma  linha  de  estafetas  para  Cuyabâ, 
Jiaba  que  ainda  hoje  se  conserva. 

Além  de  todos  estes  trabalhos  da  máxima  importância 
para  a  capitania,  também  se  deve  a  D.  Francisco  a  organi- 
saçao  de  uma  eslâtistica  da  população  a  mais  regular  qos 
se  íez,  e  na  qual  trabalharam,  além  de  Segurado  e  Cid,  0 
illustrado  cónego  Luiz  António  da  Silva  e  Sousâ, 

Depois  de  5  annos  e  quasi  9  meies  de  administração, 
foi  D.  Francisco  transferido  para  o  governo  de  Minas- 
Geraeg. 

Quando  em  1809  entregou  a  Fernando  Delgado  o  bastão 
da  governança,  se  nao  era  bom  o  estado  da  capitania  de 
Goyaz,  era  pelo  menos  como  o  do  convalescente  que  acaba 
da  passar  pelos  perigos  de  uma  longa  enfermidade,  e  tem 
esperanças  de  um  completo  restabelecimento.  Havia p  po- 
rém, o  receio  de  uma  recahida  que  aggravasse  o  estado  do 
enfermo* 

Em  1809  a  administração  publica  oíTerecia  a  seguinte 
organisat^ão  em  relação  aos  differentes  ramos  de  serviço. 

Desíle  quí>  foram  creadas  as  duas  intendências  do  ouro. 


fiú   Pofto  Impeml    tiavlam  áum  eant>fls  proitiptaSf  eflffuipadiiít 

por  âoUiiidos  pedestres,  pura  a  conducçrta  ih^  mafasal^  o  primeiro 
esUbeleciíiiento  da  eapiluDia  do  Pará.  As  malas  de  lerra  eram 
condiizíflas  por  praça.^  de*  eavalJari»  miliciana  t^etn  mo  n  ta  d  aí;  ^  ha- 
vendo para  csíe  fim  piquetes  de  duas  e  IrQs  praças^  poslados  etn 
dista  no  fãfi  convenientes. 

Os  com  mandantes  mí  ti  tares  e  os  juiies  ordinários  eram  os  inspe- 
ciores  dos  correios,  ou  paradas,  cada  iirn  nos  !im lies  da  sua  ju- 
risdieçáo.  Nunca  as  ordens  feaes  foram  execuUidíis  com  tanía 
promplídão,  coroo  A*este  caso,  semlo  para  adruirar  a  boa  vontade 
com  qu^  o  povo  concorria  para  abrír-se  esta  entrada  de  Í2i  legoas, 
e  oonstruir-se  immensas  ponteia,  devendo  no (ai^se  que  em  tudo  isto 
nada  despendeu  a  faienda  reâ). 

TOMO  XXVUI,   P.    IL  i 


^-  e<i  — 


o  lerriíorio  de  Goyâz  íol  dividido  em  duas  repartiçõa, 
a  da  Dorie  eadosuL 

Aceitaado  esta  divisão ,  vejamos  o  que  Queila  ha  a  consí- 
derar-se. 

Na  repartição  do  sul  residia  o  gíveriiador  e  capitâo- 
generaU  qtie  lambera  era  regedor  das  justiças,  presidente 
da  juQta  da  real  fazenda  e  direcLor  geral  dos  estudas :  para 
o  serviço  do  seu  expediente  tinha  o  secretario  do  goveniOt 
eomou  dois  ajudantes  de  ordens. 

Segui  a-se  na  hyerarchia  dos  empregos ; 

O  ouvidor,  corregedor,  e  também  provedor  das  capellas, 
defuntos  e  ausentes. 

O  juiz  de  fôra  do  eivei,  crime  e  orpbâos.  Pelo  alvará  da 
sua  creaçâo,  ex  ti  neto  como  fora  o  lugar  de  inlendenle  do 
ouro,  era  obrigado  a  tirar  a  devassa  drís  extravios»  e  prali* 
car  todos  os  mais  acttís  judiciários  que  pertenciam  aos  io- 
tendenles. 

Para  a  arrecadação  e  Useatisação  das  remias  baTÍa  o  tri- 
bunal da  junta  da  fazenda,  com  a  sua  contadoria  e  a  casa 
da  fundição. 

O  tribunal  da  junta  se  compunha  da  um  presidênle»  epie 
era  o  governador,  e  de  quatro  deputridõs,  a  saber:  o  jaix 
dos  feitos,  que  era  o  ouvidor,  o  procurador  da  fazendâi 
que  era  o  juiz  de  fòra^  o  ihesoureiro  geral  e  o  escrivão  de- 
putado. 

Como  repartição  anuexa  ao  tribunal,  havia  a  contadoria, 
servida  por  um  escripturario-contador,  dois  escriplurarios 
elfectivos,  alguns  supranumerários,  um  thesoureiro  das 
despezas  miúdas,  um  almoxarife  dos  armazéns  reaes,  um 
escrivão  da  matricula  &  um  continuo. 

A  casa  da  fundição  de  Villa-Boa  era  admiuistrada  por 
quatro  fiscaes,  e  n'ella  serviam  um  thesoureiro,  uca  escri- 
vão da  receita,  um  escrivão  dainteodeucia,  um  fundidor» 


—  67  — 


mm  ensaiador,  um  âjadanie  das  officínas,  um  meirinho  da 
intendência  e  cinco  fieis  dos  registros. 

Na  repartição  do  norte,  como  vimos^  extinguiu-se  a  fun- 
dição de  Cavalcanti,  e  creou-se  em  seu  lugar  uma  prove- 
doria commíssaria,  com  um  provedor-lhesoureiro»  um  es- 
cri  vão  e  três  fieis  de  registros. 

As  mesmas  obrigações  impostas  ao  juií  de  fora  de  Villa- 
Boa,  em  relação  ás  funcções  judiciarias  exercidas  pelos 
intendentes,  tinha  o  ouvidor  de  S>  João  das  Duas  Barras. 

Além  dos  funccíonarios,  de  que  temos  Tallado,  haviam 
mais  na  capitania  sete  professores  de  primeiras  letras  e  um 
de  grammatica  latina. 

A  folha  da  despeza  com  os  empregados  civis  importava 
em  17:290^300,  depois  da  reducçao  f^ita  por  D.  Frani- 
cisco ;  a  folha  ecclesiastica  em  2:960s^00O,  e  a  militar  em 
2l:i09s5675.  O  total  da  despeza  subia,  pois,  a  mais  de 
40:000?>000 ;  e  porque  a  receita  montava  em  51:l37?í88i, 
verificava-se  um  pequeno  saldo,  que  servia  para  amorti- 
zar a  divida  de  exercícios  findos,  que  ainda  era  crescida. 

Na  provedoria  de  Cavalcanti  se  arrecadava  o  ouro  da  re- 
partição do  norte,  e  de  dois  era  dois  raezes  era  remettido 
para  a  casa  da  fundição  de  Villa-Boa»  afim  de  ser  fundido, 
e  então  cobrar-se  os  devidos  direitos  senhoriaes.  D'esta 
reudâ  se  deduzia  aunualmeute  14:746;!^00  paraasdes- 
pezas  geraes  da  capitania,  na  coníormídade  da  provisão  do 
real  erário  de  12  de  Agosto  de  1807,  e  o  que  ficava  res- 
tando era  remettido  para  a  provedoria  real  de  Mato-Grosso 
por  conta  do  subsidio,  com  que  sempre  fora  dotada  aquella 
capitania. 

As  duas  comarcas»  de  que  se  compunha  Goyaz,  compre- 
hendiam  quinze  julgados  com  seus  respectivos  juizes  ordi- 
nários e  de  orpliãos  triennaes- 

A  divisão  ecciesiasticâ  acompanhava  a  divisão  civil ;  na 


—  «8  — 


reparti^  do  mU  ^P^  eonipreheodjâ  iiOf«  GrggMtiis,  Hm 
das  qaies  proTídas  da  ptroohos  coiladoSt  aféiB  do  píb1»1q^ 
qúB  era  também  vigário  da  malríz  de  VillvMoi,  havia  im 
prorísor  ou  figario  geral  com  o  seu  eserífio  e  promotor: 
a  repartição  do  norte,  com  onze  fregaeziãs»  dtias  daâqaas 
profídâs  de  vigários  collados,  linha  tâmbem  o  seu  vigarin 
geral  A  administração  eccksiasUca  abr^ogia»  além  d  isto« 
qtialro  capei  laai^  das  aidêas  existeDtes. 

A  força  pablíca  se  componha  de  tropas  paps  (ama  com- 
panhia  de  dragões  e  outra  de  pedestres],  de  tropas  míli* 
eimas  e  das  ordeoancas.  As  milícias  se  compuabam  do  1*  e 
2"  regimentos  de  cavallaria  com  14  companhias  lada  um^ 
de  um  regimento  de  íorantaria  com  32  companhias,  e  dê 
companhias  avulsiis  de  Henriques,  com  exercício  na  arma 
de  arlilberta.  As  ordenanças  constavam  de  29  compa* 
abias*  cotnmandadas  por  um  capitãu-mór  e  sargentcMnor. 

Quando  foram  creadas  as  compaabias  de  Henriques  (dd 
pretos  forros]»  pretendeu-se  formar  com  ellas  nm  regi- 
mento  de  artilherta  de  milícias,  mas,  não  tendo  sido  no- 
meados os  officiaes  superiores,  fícou  sua  organisação  in- 
completa. 

A  divisão  militar  era  feita  por  districtos,  e  n^elles  únM 
o  commando  geral  o  oíficial  de  cavallaria  de  mílicias  mai» 
antigo. 

Islo  quanto  á  administração :  agora  atgumaji  palaiias 
sobre  o  commercio  e  a  industria* 

O  quadro  do  commercio  e  da  industria  era  em  1800  rc* 
presaotado  por  algarismos  tão  fracos,  que  sò  elles  baslâm 
para  dar  uma  idéa  do  quanto  estava  âtrazada  e  deoadesto 
essa  parte  das  possessões  portuguezas ;  é,  poréra^  verdade 
que  a  agrtctiltura  esteve  por  muiiu  tampo  completamente 
abandonada :  apenas  eatao  começava  a  âgurar  nos  oiappa» 
da  exportação. 


•  Í9  - 

OâlgôdSo,  quô  era  rendido  a  750  rs*  â  arroba  ao  norte  e 
a  900  rs,  no  swi.  dava  para  uma  exportação  anuual  de  3,874 
arrobas ;  o  assucar,  vendido  no  sul  a  11980o  e  no  norte  a 
2;jioo,  dava  um  produclo  de  6,oao  arrobas ;  o  famo,  esti- 
mado a  í^^dQ  a  arroba,  mal  chegava  para  o  consumo,  e  so 
do  norle  sahia  algum  para  o  Pará ;  a  exportação  do  trigo 
SB  avaliava  em  214  alqueires,  o  arroz  em  í>,0H8,  vendido 
no  norto  a  BOO  rs.  e  no  sul  a  159200  ;  o  café,  que  se  vendia 
no  Dorte  a  435600  a  arroba  e  no  sul  a  2aií>*N  era  cultiva  do 
era  pequena  escala,  pelo  que  a  sua  exportaçio  era  apenas 
calculada  em  212  arrobas ;  a  producção  da  aguardente  figu- 
rava no  quadro  da  exporlâçáo  com  i,S7S  almudes,  â  razão 
de  25*T>0  e  3íí600,  sendo  esta  ultimo  preço  o  do  mercado 
do  norltí* 

A  industria  pastoril,  a  que  se  dedicaram  os  mineiros, 
desde  que  as  lavras  foram  empobrecendo,  ou  se  tornando 
diflicil  o  trabalho  ou  pouco  productivo,  j4  lígurava  r.om 
nma  exportação  de  16,358  rezes,  representando  um  valor 
de  33:288jp900,  por  isso  que  no  sul  era  cada  rez  vendida 
por  4^800  e  no  norle  por  l^^oo  ! 

As  lavras  de  ouro  davam  para  a  exportação  87/200  oila* 
vas,  representando  o  valor  de  104;748ííooo* 

A  importação  annual,  avaliada  em  137:109lt»4l4  (oSicial- 
mente),  provinha  de  géneros  recebidos  do  Rio  de  Janeiro, 
Bahia,  S,  Paulo,  Para  e  Rio  de  S.  Francisco,  mercados  em 
que  Goyaz  fazia  suas  transacções  commerciaes.  O  valor  da 
importação,  segundo  os  mercados,  guardava  a  seguinte 
proporção ; 

Rio  de  Janeiro 51:*í79!í091 

Bahia, i6;545?íi369 

S.  Paulo 2tí;550»T07 

Para. 10:326»10O 

Rio  de  S.  Francisco.  .  .      2:0089057 


-70- 

Estes  falores  qSo  demonstram  simplesmente  o  preço  doi 
géneros  nos  mercados  exportadores:  addicionoiírse mais 
60  %  no  sol  e  80  •u  no  norte,  o  valor  dos  direitos  e  o 
preço  dos  transportes.  A  importação  era  qaasinalli;  o 
commercio,  por  assim  dizer,  nenbom. 

Dorante  os  primeiros  tempos  o  commercio  da  capitama 
era  (eito  com  a  praça  de  Santos,  depois  dirigiu-se  qiUM 
qae  só  para  a  Bahia,  d*onde  vinham  os  escravos  para  o  ser- 
viço das  lavras,  as  fazendas,  o  gado  do  consumo,  e  sobre-* 
todo  muitos  capitães  que  se  empregaram  no  trabalho  das 
lavras  e  na  compra  do  ouro  em  pó ;  porém,  depois  que  as 
communicacões  se  foram  abrindo  para  M inas-Geraes,  a 
praça  do  Rio  de  Janeiro  foi  entrando  em  concorrência  com 
a  Bahia,  e  acabou  por  se  tomar  preferida  pelos  habitantes 
do  sul :  entretanto,  os  do  norte  alargaram  suas  transie- 
C9es  com  o  Pará,  nSo  ficando  por  este.  facto  abandonado  o 
mercado  da  Bahia,  para  onde  continuaram  a  mandar  áen 
gados»  e  .d*onde  recebiam  em  permuta  géneros  de  impor- 
tacio. 


—  71  — 


CAPITULO  XVU 
{Í809— 1820) 


Governo  de  Fernando  Delgado  Freire  de  Castilho»  —  Procura  cingir- 
ie  ao  syslerna  adaptado  pelo  seu  autecessorp  —  O  desembargador 
Joaquim  Theotonio  Segurado,— Ainda  a  uavegagSo  do  Araguaya  e 
Tocantins. — Medidas  protectoras. —  A  carta  régia  de  5  de  Setem- 
bro de  1811.— Fundação  da  villa  de  S.  Jom  da  Paitm^—O  pre- 
sidio de  Mamei  A/ve^  Grantk,  —  S:  Pedro  de  Âkaníara.  —  Fran- 
cisco José  Pinto  de  Magalhães,  seu  fundador. —questão  de  limites 
com  o  Maranhão.  —  Acto  de  demarcação  de  limites.— O  porto  da 
Piedade  de  Salinas.— O  porto  do  RÍo-Grande.— Pmidio  th  SanUk 
Jfarttí*- Estrada  entre  o  Araguaya  e  o  Tocantins* —Creação  dos 
iaspêclore,=*  dos  presídios.  —  Goalisào  dos  índios  do  Araguaya*  — 
Destrui;;ão  do  presidio  de  Santa  Maria, 

D.  Francisco  de  Assis  Mascarenhas  foi  succedido  no  go- 
verno de  Goyaz  pelo  infeliz  Fernando  Delgado  Freire  de 
CasMlbOt  o  qual  sendo  nomeado  em  4  de  Junho  de  1800 
só  veiu  a  tomar  posso  em  20  de  Novembro  de  1809, 

Este  homcím,  distinclo  por  algumas  excellentes  quali- 
dades de  qtie  era  dotado,  Glho  único  de  pais  abastados  de 
bens  da  fortuna,  abandonando  todos  os  commodos  da  vida 
particular,  veiu  para  o  Brasil  em  1797,  onde  se  dedicou 
com  interesse  ao  serviço  publico »  exercendo  o  cargo  de  go- 
vernador da  Parahyba  até  1802.  Voltando  a  Portugal  em 
1805,  regressou  pouco  tempo  depois  para  servir  o  cargo 
de  governador  e  capitao-general  de  Goyaz,  em  cujo  exer- 
cício se  conservou  por  espaço  de  1 1  annos. 

Homem  de  caracter  iotegro  e  de  uma  bondade  extrema, 
governou  pacificamente,  deixando  na  capitania  o  melhor 
nome,  para  ter  o  mais  desastrado  fim* 

Nlo  sendo  de  umi  intelligencia  superior,  era  judicioso, 
prudente  e  acautelado,  por  isto  evitou  innovâçôes  pert- 


—  7í  — 


gosâs  na  adminislraçao.  Assim  enteodeu  obrâr  com  pra- 
denciâ,  cingindo-se  muilo  de  perlo  ao  systema  adoptado 
por  D.  Francisco,  lambem  para  íívilar  que  os  secretários 
doestado,  que  viam  no  seu  anlecessorumabalisado  homem 
de  governo,  um  modelo  dos  administradores»  não  o  adver- 
tissem de  qualquer  desvio :  mas  isto  nem  sempre  pftdô 
conseguir. 

Da  correspondência  oíGcial  do  seu  tempo  se  conhece 
que  até  os  próprios  erros  de  D.  Francisco  eram  lidos  em 
boa  conta ;  seus  projectos»  por  mais  ínexeqaiveis  que  fos- 
sem,  pareciam  aos  míuislros  do  prÍDCipe  regente  da  maior    . 
praticabilidade.  Muitas  vezes  teve  Fernando  Delgado  da  m 
lutar  com  os  embaraços  da  posição «  em  qae  o  cotlocavamt 
não  sô  em  proseguir  nas  medidas  adminislrativaSt  lembra- 
das pelo  seu  antecessor,  como  nas  que  iniciava  o  ouvidor    , 
Segurado»  que  em  Goj  az  era  considerado  como  consultor  M 
dos  ministros  nas  questões  mais  importantes  do  governo  ■ 
da  capitania» 

Durante  o  tempo  que  governou  Goyaz  teve  Fernando 
Delgado  sempre  a  seu  lado  homens  intelligentes»  que  o  aju- 
daram com  dedicação:  entrava  em  primeira  escala  Segu- 
rado, de  quem  era  amigo  e  em  quem  depositava  a  maior 
confiança,  confiança  que,  sem  duvida,  era  devida  em  grande 
parle  ao  predomínio  que  via  elle  exercer  no  espirito  dos 
ministros  e  o  apre^^o  em  que  eram  tidos  seus  trabalhos, 
suas  idéas  e  seus  projectos,  apreço  que  se  manifestava  em 
documentos  officiaes  da  maior  importância :  citaremodi 
por  exemplo,  a  caria  régia  de  5  de  Setembro  de  f8il< 

Compendiando  o  ouvidor  era  uma  extensa  memoria  lo- 
dââ  as  causas  que,  mais  ou  menos,  co  atribui  ram  parai  | 
decadência  em  que  se  via  a  capitania,  e  lembrando  n*e)lt 
todas  as  -medidas  que^  em  sua  opinião,  podiam,  mai&o 
mauofit  concofrer  para  a  sua  prosperídada,  mecnoria  69i 


—  73  — 

em  que,  a  par  de  muita  idéa  justa  e  aproveilai?eU  appare- 
ciam  outras  incongruentes,  à  vista  des&e  mesmo  estado  de 
decadência  que  se  deplorada  e  se  procurava  remediar, 
d*ella  fez  remessa  Fernando  Delgado  á  secretaria  doestado, 
e  tal  foi  a  impressão  que  causou  a  sna  leitura  no  espirito 
do  conde  de  Aguiar^  que  foi  approvada  em  todas  as  suas 
partes,  não  exceptuando  mesmo  o  direito  da  escravidão 
€ontra  os  índios,  presas  de  guerra,  idéa  de  ha  muito  con- 
demnada,  senão  pelas  suas  funestas  consequências  politi- 
cas, como  por  ser  attenlatorio  das  leis  naturaes- 

Essa  memoria  deu  origem  à  carta  régia,  da  qual  acima 
falíamos,  e  por  virtude  d'ella  se  concederam  favores,  pri- 
vilégios e  isenções  (7S)  ao  commercio  e  á  navegação  dos 


(in)  Fernanda  Delgado  Freire  de  CasliUio,  do  meu  conselho, 
governador  e  capitão^ííenef ai  da  capitania  dô  Goyaz.— Amigo,— Eu 
o  príncipe  regente  vos  eaw  muito  saudar.— Tundo  subido  à  míalja 
real  prci^ençao  vosso  o tfíciG  datado  do  l*'  de  Fevereiro  doeste  annOp 
com  o  qual  remeUestes  a  memorm  que  vos  dirigiu  o  desem- 
bargado f  Joaquim  Theoloaio  Segurado,  ouvidor  da  comarca  de  S. 
Joào  das  Duas  Barras,  sobre  os  obslaculos  que  exislem  para  o 
augmenlo  e  prosperidade  do  commercio  enire  c^sa  capitania  e  a 
do  P^irá,  e  sobre  oi  meios  de  remover  os  mesmos  obstáculos  á 
beneGcio  do  dito  commercio  ;  e  tendo  tomado  na  minha  real  con^ 
gideração  e^te  tão  importante  objecto,  que  desde  multo  tempo 
occupa  os  meus  pateraaes  desvelos,  sobro  o  que  já  em  outras  oc-* 
casiòes  tenho  mandado  dar  providencias:  sou  ora  servido,  avista 
da  referida  memoria  e  das  rellexí!>c5  i^ue  sobre  o  seu  couleudo 
fazeis  no  vosso  oflicio,  determinar- vos  o  seguinte,  esperando  do 
zelo,  (ntetllgencLa  e  eflicacia,  eom  que  vos  empregais  no  meu 
re&l  serviço,  que  fareis  lodos  os  possíveis  esíori;os  parrt  o  cabal 
desempenho  das  novas  providencias  que  vos  incumbo,  das  quaes 
devem  sem  duvida  resuitar  as  maiores  vantagens  a  essa  capitania, 
facilitando  as  suas  relações  commereiaes,  promovendo  a  sua  ri- 
queza, e  a  segurança  d'esses  povos.— Em  primeiro  lugar  sou  ser- 
vido approvar  o  plano  proposto  para  uma  sociedade  de  cem- 
TOMO  IXVIII^  p<  tL  10 


—  74  — 

rios,  qnerenJose  deste  modo  galmiisar  eise  ca<&Tfri 
chamado  capitania  de  Goyaz. 


ineicie,  to  Ire 

moria,  o  qual 


capitaaiA  o  o  Pará,  de  qua  IraU  9  g  t7  àíi  m^ 


parece  mui  próprio  e  Qotifetikèt^le  pam  aajiaat 
e  fazer  proí>perar  o  mesmo  commercio;  ^e  d  do  esta  soe  iodada  (or- 
Piada  segundo  as  condições  do  primeiro  â|jpenso  á  mÊHioria^  Dão 
devendo  ser  o  seu  fundo  raenor  do  40:0008000;  não  se  admll* 
imáo  ftcrí^es  menores  de  lOOSOOO;  não  serido  no  capítiif  dos 
40^0008000  com  pretiend  idas  as  catíòos,  e  os  ^cmvos,  eow  que 
a  sociedade  prinoipiar;  pois  que  o  diio  capital  só  dete  eamiar  ^i 
objectos  de  comroercío,  eda  dinbeiro;  estabelecendo  seus  artaa* 
íeit»  e  03  caixas  nos  sítios  indicados;  impondo-sea  estes  caíias 
as  obrigaròes  e  o  eiercicio  que  allí  se  declara;  e  íiiialmenlê  pf»* 
Ucando^e  tudo  o  que  dii  o  otjvidor,— quanto  á  divisão  dos  lucros, 
e  as  despesas  que  devem  fa^er-se  por  couta  da  sociedade.  Somen- 
te, pelo  que  respeita  d  duração  da  mesma  sociedade,  parece- me 
que  será  mab  útil  estend£)-aao  praBode  Í5  atá  20  anoos.  E  poi^ 
qua  a  veritica<;&0  d*esle  eslabelecimento,  attendendo  ás  aeluiii 
cÍTCunistaueiús  das  duas  capitanias,  nâo  pôde  deiíar  deencontru 
grandes  diffieuldades,  como  H^  e  o  referido  ouvidor  jud íaosi- 
menio  ponderais,  por  isso  mesmo  se  faz  tanto  mais  necessária 
n^oste  particular  toda  a  vossa  eflicacia  e  dili|^^eneraf  para  dispAr  os 
ânimos  dos  negocmntes  e  capil»lf8ias  d'essa  capilnnia  para  e$$i 
empresa,  fazendu-tties  sentir  as  vantagens  que  d^ellas  tbos  retul- 
tarão»  e  que  ou  me  propotiljo  proteger  o  auxiliar  em  tudo  a  »- 
cíedade,  mandando  desde  Já  p4>r  em  pratica  lodus  as  provideneias 
que  as  circuinstancms  permiltiremr  para  tornar  mais  fácil  a  eoin* 
*  municaçíio  entre  as  duas  capitanias^  procurando  que  a  nmvegarQlli 
do  rio  Tocantins  e  Maranhão  seja  menos  arriscada  c  trabalbosi» 
Bl^o  só  por  meio  das  obmiif  a  que  se  vai  proceder,  para  a  líiii- 
pem  dos  rios,  e  encanamenios  necessários,  desde  Arroios  até 
Porto  Real,  mitó  pelo  que  mando  praticar,  para  impedir  que  as 
nações  gentias  continuem  a  commetter  os  íusuttos  e  depreda* 
ç5es  qua  infelizmente  ainda  fazem  em  algumas  para^enSt  O  ptm 
remover  os  outros  obstaoulos  que  difticultam  aquolla  navegaçâOi 
—Portanto,  querendo  prover  a  esses  importantes  objectos,  sou  ser- 
vido mandar  declarar  a  concessão  dos  segai utes  privileg^íos  a  fa* 
vor  da  sobredita  sociedade^  e  do  commercio  e  naregaçlio  d'6SM 


-  15  ^ 


Era  embalde  que  se  procurava  de  improviso  restaurar  ô 

passado  prospero,  que  nâo  souberam  aproveitar,  deixando, 
como  lemos  visto,  compromettido  lodo  o  futuro, 

capitaDla: — i,*  Qye  todos  os  sócios  e  pessoíis  por  elles emprega- 
das no  commercíOt  navegação  dos  rios,  e  na  cuiLura  das  suas  mar* 
genfi,  e  dos  serLuos,  serilo  iseatos  do  serviço  mílilar.  %*^  Que 
áquellcs  sócios  que  n^ísirafem  ler  ifesu  sociedade  o  valor  de 
4:OOO£0OO  réiít  concederei  um  posla  de  recesso  (servindo  clles 
nas  milicias  ou  nas  ordenanças)  ate  o  posio  de  coronel  de  mili- 
eias,  ou  do  capiu\o-mor,  inctusive»  e  uma  sesmaria  ú  borda  dos 
Tios  Tocantins,  Marão  liao  e  Araguaia,  ite  meia  légua  de  frenlBi 
o  uma  légua  e  meia  de  fundo,  em  qualquer  sUio  que  escolhe- 
rem? oude  o  terreno  so  acLe  ainda  devoluto,  e  níio  concedido» 
nem  demarcado,  X^*  Que  as  dividas  activas  d'esta  sociedade  te^ 
obam  o  privilegio  de  dividas  liscaos,  para  serem  cobradas  oxecuti* 
vãmente,  como  so  tossem  dívidas  activas  da  mi nlia  real  fazenda; 
4.*  Que  a  todos  es  que  so  forem  eslabelecer  nas  margens  eser* 
toes  dos  ditos  rios  í^erjio  franqueadas  as  mesmas  graças  e  pri> 
TÍlenios  que  fui  servido  conceder  aos  povos  da  capitania  de  Miuas- 
Geraes  pela  mtním  carta  ri^gia  de  13  de  Maio  de  180^,  dirigida 
ao  governador  n  capilâo-general  d^aqui^lla  capitania,  relalivamen- 
le  ao  Rio  Doce,  tanto  a  respeito  da  iseuçfio  dos  dízimos  de  suas 
culturas,  o  dos  direitos  de  entrada  dos  géneros  de  commercío 
d'essa  capitania  de  Go^az,  sendo  navegados  pelos  mencionados 
rios,  como  lambem  a  respeito  da  moratória  concedida  aos  úesBÚO* 
res  da  minha  igíú  fazenda,  e  do  tempo  de  serviço  que  poderio 
baver  d^aqueltes  índios,  que,  nho  quojcndo  pelos  meios  brandos 
e  suaves^  de  qtie  com  elles  teuLo  mandado  usar,  e  que  agora 
novamenie  recommendo,  viver  tranquillos  e  sujeitos  ds  mintias 
leis,  cobmetlerem  hostiíidadcs  contra  os  meus  lieis  vassallos.— 
l^^ualmenie  suu  servido,  pelo  que  toca  ás  obras  e  encanamento 
dos  rios  desde  Arroios  alé  Porto  Beal,  que  o  ouvidor  propòem 
no  g  i8  da  memoria,  approvar  o  plano  que  elle  oflerece,  para 
metliúrar  a  navegHÇãOf  ordenando  quo  se  formem  as  esquadras 
com  a  gente  e  ferramentas  que  elle  aponta  no  segundo  appenso, 
e  quo  nos  tempos  das  seceas  se  proceda  à  e^tecução  dos  tra- 
ballios  pelo  methodo  indicado,  para  se  conseguir  a  limpeM  dos 
rio& «  o  SGU  encanamento  nos  sítios  em  que  (6r  necessário,  e  os 


—  76  — 

Os  privilégios  concedidos  em  favor  da  navegação  do  To- 
caDlJos  e  do  Araguaya  n^o  tiveram  forca  baslaote  para 


cortes  daí  pontas  dos  rochas  e  dos  baíiíos;  não  deveodo  ^ue- 
cer  a  profidencia  de  pôr  espigões  eom  roldanas  do  ferro  nos  sí- 
tios dos  saltos,  ou  cachoeiras,  (lue  o  ouvidor  lembra  como  muito 
útil,  para  cviUr  n'estas  paragens  o  risco  das  can6as,  podendo- 
vos  serifir  de  grande  soccorro»  para  execução  de  ludoislo,a* 
luzes,  actividade  e  patriotismo  d'esl6  magistrado.— Quanto  io 
pTOcedimeolo  com  os  gentios,  sou  servido  deiefmÍivãr-¥os  que, 
com  aquellas  nações  quo  nfio  cotnmetlem  li usLil idades,  mandeis 
usar  de  ioda  a  raodera<;:ão  e  ímuian idade,  procurímdo  conveo- 
côl-as  da  utilidade  quo  lhes  resultará  de  sa  conservarem  em  boa 
intelligencia,  e  amizade  com  seys  povoa,  para  o  que  pareee 
conTâuiente  empregue  alguniíis  dadivas,  e  até  introduzir  com  eUes 
alguns  christâos,  que  thes  ensinem  a  agricullurae  os  ofricios  me* 
caniços  mais  necessários,  como  aponta  og  10  da  memoria.  Igual* 
mente  parece  que  será  uttl  tenUr  por  meio  do  perdão  que  o  de- 
sertor do  Pará,  que  tive  com  a  nação  carajá ,  tem  eii^do  para  ella, 
premetteadoquea!>sim  terçará  á  boa  fé»  e  antiga  birmonia.  Acon- 
tecendo, portam,  que  este  meio  nllo  ccrresponda  ao  que  S9  Cfipera,  e 
que  a  naçào  carajá  continue  nas  suas  correrias,  será  indispensa?e1 
usar  contra  ella  da  forga  armada;  sendo  este  lambem  u  meio  de 
que  se  deve  lanhar  mRo,  para  conter  e  repellír  as  nações  âpin&gé, 
xavanle,  xerente  o  canoeiroi  porquanto,  supposlo  que  os  insul- 
tos que  ellas  praticam  tcnbam  origem  no  rancor  que  conservam, 
petos  mãos  tratamentos  que  expedmen Luram  da  parte  de  aíguni 
cem  mandantes  das  aldeãs,  n^Q  resta  presentemente  outro  partido  i 
seguir  senuo  intimtdal-os,  e  at6  destruil-os,  se  necessário  fòr,  pan 
evitares  damnos  que  causa  m,N'este  inluito,  yos  bei  por  muj  rei^om- 
mendado,  não  só  o  enviar  os  convenientes  reforços  do  pedestres 
para  o  destacamento  do  Porta  Rea),  mas  toda  a  vigilaneia  em  dar 
as  providencias  que  tondererei  ao  de«;emponho  doestas  mínbas 
reaes  ordens^  Finalmente,  quanto  aos  dois  uU imos  obstáculos  de 
que  trata  a  memoria,  determino  que  mandeis  proceder  ho  estabe^ 
lecimento  dos  presídios  em  distancias  proporei  o  na  es,  como  prop&e 
o  ouvidor^  para  assim  poderem  mais  facilmente  ser  fornecidas  ai 
canoas  dos  necessários  viveres  no  seu  transito,  o  íguat mente  que 
mandeis  pdr  em  pratica  a  necessária  prevenção,  de  que  as  canddi 


—  77  — 

fazer  resuscítar  esse  corpo  inanimado;  era  preciso  um 

grande  milagre,  e  esle  sò  o  podia  fazer  um  motor  pode- 
roso que  se  chama— trabalho  e  capital—  :  mas  a  capitania 
estaya  pobre  e  os  povos  desanimados- 

Concedeu-se  a  Iodas  as  pessoas  que  se  quizeram  em- 
pregar  n*esse  commercio,  no  mister  da  navegação  e  na  cul- 
tura das  lerras,  isenção  do  serviço  mililar ;  mas  este  nada 
linha  de  pesado  e  vexatório ;  — nao  altrahia  a  altenção  dos 
povos. 

Mandou-sfí  promover  ntna  sociedade  mercanlil,  e  foi  de- 
terminado  que  os  que  entrassem  para  ella  cora  um  certo 
capital  tivessem  um  posto  de  accesso  nas  milicías  ou  nas 
ordenanças,  atè  o  de  coronel  ou  de  capitão -mor,  e  uma 
sesmaria  do  terras  de  lavoura :  mas  que  importância  tinham 
os  postos  em  uma  capilaniai  onde  liinto  se  haviam  elles 
barateado;  que  valor  liníiara  as  terras,  quando  qualquer 
se  podia  d^ellas  apossar  sem  riscos  ? 


J^TCiB  sempre  um  sufíicíetitG  provimenta  dos  reniediof^,  que  a  cx'^ 
periencía  Icm  mo^irado  smam  efJieazes  o  es[}eciljcos  para  a  mo- 
testíá  de  sczucs,  que  mais  ordinariamente  co!^luma  acommetter  u& 
irlpoJaçC^es  dai  luesmas  caDòas.— Tendo>vos  usstm  participado  Luda 
11  que  julgo  cativeuientG  mandar  praticar  a  bem  do  commercio  ^ 
eômmuuicãçrio  entre  e^^sa  capitania  o  a  do  Tar^,  para  que  o  tenlinís 
enleodido  c  façais  execular,  súmente  resla  prevonir-ifos  de  que 
n'esta  mesma  oceasião  determiuo  ao  governo  iutarino  do  l^aráque 
pela  sua  parle  Imja  de  promover  também  o  lUil  estabelecimento 
da  sociedade  de  com  me  rei  o  entre  as  duas  capitanias,  detiaixo  dos 
mesmos  principiou  e  condiçOes  ejípendidas  n^csta  carta  régia  ;  daa- 
do-lbe  ao  mesmo  tem|m  as  mais  positivas  ordens,  para  que  ImjaUe 
auxiliar  com  a  tropa  que  é  necessária  o  estabeleci  nica  ta  das  es* 
(fuadras^  presta ndo^so  a  dzir  lodos  os  maissoccorros,  que  Ibe  forem 
requeridos  a  bem  da  reciproco  commercio  e  íalcresses  das  ânas 
capitanias.— Escriplo  no  palacia  do  Rio  de  Janeiro,  em  3  do  Setem- 
bro do  1811.— Pr i/itíií>c.— Para  Fertiaoda  Delgado  Freire  do  Cas* 
titlio. 


—  78  — 

O  plano  para  a  organísaçâo  da  sociedade  mercantil  do 
Pará,  sendo  approvado,  foi  submettido  ao  primeiro  ensaio. 
Mandou-se  construir  três  barcos  [D.  Francisco^  Temerário 
e  Forte),  algumas  hygarltés  e  montarias,  que  desceram  car- 
regadas de  géneros  de  producção  do  paiz ;  porém  Geou 
tudo  n'este  primeiro  ensaio :  a  sociedade  nunca  cbegou  a 
organisar-se,  apezar  dos  esforços  que  empregou  Fernando 
Delgado,  que  para  ella  também  quiz  entrar  comum  cres- 
cido numero  de  acções. 

Tempos  depois,  fallando  doeste  assumpto,  disse :  ^c  con- 
voquei os  negociantes  e  capitalistas  para  saber  a  importân- 
cia das  acções  com  que  elles  podiam  entrar,  e  sendo  a  sua 
pequena  monta,  convenci-me  de  que  se  não  podia  realizar 
a  dita  sociedade.  » 

Entretanto  também  se  determinou,  em  garantia  d'ella, 
que  as  suas  dividas  tivessem  o  privilegio  das  dividas  da  fa- 
zenda, para  serem  cobradas  executivamente.  Outro  favor 
não  menos  importante  se  concedeu,— a  isenção  por  10  an- 
nos  do  pagamento  dos  direitos  do  dizimo  aos  moradores 
das  margens  dos  rios,  e  a  importação  dos  géneros  livre  de 
qualquer  ónus. 

l)eterminou-sc  ainda  a  creação  de  esquadras  de  traba- 
lhadores para  limpeza,  canalisaçrio  e  desobstrução  dos 
rios ;  |)orém  nada  se  fez.  Em  protecção  aos  habitantes  c 
ao  commercio  fundarani-se  presídios  militares  nos  pontos 
que  mais  convenientes  pareceram,  e  com  elles  as  guardas 
volantes,  que  Unham  por  dever  a  defesa  das  povoações  dos 
insultos  dos  selvagens. 

Effectivamente  ensaiou-sc  tudo  isto;  entretanto,  con- 
tando para  tão  vasto  projecto  apenas  com  os  recursos  da 
capitania,  que  eram  nenhuns,  o  governador  não  pôde  dar 
a  tantos  serviços  o  desenvolvimento  de  que  careciam. 

Reconhecemos  o  valor  de  algumas  das  providencias  lo- 


—    7t  — 

madas,  mas  niDgaem  ilirà  que  sem  grandes  meios  era  pos- 
si?el  realízarem-se  raelboramenlos  laes  e  de  tao  compli- 
cada execução. 

Ficaram  sobre  o  papel  Iodas  estas  medidas  auxiliares  de 
um  grande  projecto  concebido  por  uma  intelligencia  supe- 
rior, que  nunca  teve  a  felicidade  de  vel-o  realizado, 
por  mais  empenhos  que  flzesse,  por  mais  aclíTidade  que 
empregasse. 

Como  meio  de  fomentar  o  commercio  e  a  navegação  do 
Tocantins  e  do  Araguaya,  se  mandara  crear  a  vi  lia  de 
S,  Joio  das  Duas  Barras  para  a  cabeça  da  comarca  do  norte; 
mas^  não  podendo  realízar-se  esta  ereação,  por  nao  que- 
rerem os  povos  esL^belecer-se  na  localidade  escolliida,  que 
licavâ  a  grantic  distancia  dos  arraiaes,  requcreu-se  a  sua 
transferencia  para  outro  ponto  que  proporcionasse  mais 
coramodidade  aos  povos,  e  entretanto  conciliasse  os  mes- 
mos interesses  que  se  teve  em  vista  promover. 

Por  alvará  de  25  de  fevereiro  de  1814  ordeno u-se  que, 
na  barra  da  Talma,  fosse  creada  uma  nova  villa  com  a  de- 
nominação de  S.  João  da  Palma*  a  cujos  habllanles  se  con- 
cedeu isenção  de  decimas  e  dizimos  por  tempo  ile  dez 
auQos ;  e,  porque  não  queria  o  príncipe  regente  extinguir 
a  de  S.  João  das  Duas  Barras,  foi  conservada  com  a  deno- 
minação de  villa  comarca»  gozando  os  seus  habitantes 
dos  mesmos  favores,  apenas  com  a  differença  de  não  ser  a 
cabeça  da  comarca  (76). 


(7G)  Eu  Q  Príncipe  Regente  fut;Q  saber  aas  que  este  nlvurà  virem 
que,  lendo  creado  pelo  alvará  de  i8  de  ^Marco  Ú^ÍHOi^  uma  Di^va 
comarca  na  capitanífl  do  ikijm^  denominada  de  S.  Jo&o  das  0ua8 
BarraSf  determinando  que  o  ouvidor  pudesse  residir  no  arraial  da 
Natividade^  emquanto  nfio  fosse  possivel  a  sua  residência  na  dita 
villa  de  S*  João  das  Duas  Barras:  e  seado-mo  presente  em  con^^uj- 
la  da  Rie»a  do  desembargo  do  pago  coDvir  mui  lo  ao  meu  serviço  e 


-80  — 


Em  26  de  Janeiro  de  i 81 5,  estando  presenle  o  ouvidor 
Joaquim  Theotonio  Segurado,  o  povo  e  os  vereadores  de 


ao  bem  dos  povoig]'âqueOa  eomarca  o  crear-se  uma  villa  ua  baf- 
ra  da  Palma,  para  abi  Oear  existíodo  a  cabeça  da  comarea,  Uniu 
porquo,  <iendo  mais  cenlral,  é  roais  eomraoda  para  a  determinado 
da  juslíça,  como  por  ser  uma  síluaçao  mais  próxima  aos  dJstricloi 
acLualmenle  poToados,  c  igualmenie  vaniojosa  para  a  navep^o 
dos  rioF  e  communicaçao  interior  do  pari ;  como  con&iaYa  daía* 
formação  qiie  &«  houTO  do  governador  e  capiláo-generai  da  wbfe- 
di(a  capiUnia;  tendo  eonsidcrac^io  ao  referido  r  hei  por  bera  crear 
uma  vilLa  no  sitio  du  barra  da  PaTmut  a  qual  licará  sendo  a  cabeça 
da  comarca  de  S,  Joào  das  Duas  Barras,  lendo  a  referida  villa  a 
denominação  de  vitia  de  S.  iofio  da  Patma,  a  qual  goiÃkTk  de  iodos  oi 
privilégios  e  prerogalivas  que  pelns  leis  e  usos  dos  meus  reinei 
goiam  as  mais  vi  lias  e  seus  habilãdores,  liei  oulrosim  por  beraeoil_ 
ceder  a  qualquer  pessoa  que  na  mesma  sobredita  Villa  edillcar  < 
para  sua  habitação,  c  estabelecer  de  novo  roQa,  ou  fazenda,  i 
isenla  de  pagar  decima  e  dizimos  por  temjio  de  dez  annoa:  eow- 
pretiendendo  esla  graça  a  villa  e  o  termo  que  para  etia  fõr  des^ígni^ 
do*— B  para  quo  esía  mudança  da  cabeça  da  comarca  nlLo  iqi 
impedimento  a  estabelecer-se  e  augmentar-se  a  «illa  de  S.Jcáa 
das  Duas  ítatras,  a  «(ual  deve  ticar  vigora  per teneend o  â  sob rcdila 
comarca,  como  villa  comarcH ;  observa ndo*se  em  tudo  o  mais  o  d^ 
lermioado  no  dito  alvará  de  IHde  Vtun;o  de  1IM>1>:  sou  serrldo  que 
a  tnesina  graça  de  iscnçímde  dizimose  decimas  pelo  mesmo  i€iii* 
po  de  dez  annos  íique  concedida,  como  Uei  por  bem  conceder  aoi 
bahilanles,  e  povoadores  da  diLa  villa  de  S.  Joito  das  Duas  Ikrrat^ 
«  seu  respectivo  terreno,  comprebendendo  tanto  as  casas  e  fazen- 
das, que  novamenle  estabelecerem,  como  aqueUes  que  de^de  t 
data  do  soh redito  alvará  tiverem  já  estabelecido.  Elsle  se  cumprira^ 
como  n'elie  se  contém.  Pelo  que  mando  ámesa  do  dcsembarí;o  do 
paço,  o  da  conicicQcia  e  ordens,  presidente  do  meu  real  erário, 
eoDBelbo  de  minha  real  fazendai  icgedor  da  casa  da  éuppbca^« 
do  Brasil,  gOTeriiãdor  ecapitão-general  da  capitania  de  Goyai,  to* 
dos  os  mais  governado res^  magistrados,  justit^a  e  pessoas  a  quecn 
o  conhecimento  d'eslo  alvará  baja  de  pertencer,  o  cumpratn  c  ^unt* 
d  em,  como  n'elle  se  contem.  E  valera  como  carta  (lassada  pela 
chancellaria,  posto  que  por  ella  não  ha  de  passar,  c  o  seu  efleito  hi^a 


II 
I 


—  81  ^ 

9*  Joio  das  Duas  Barras,  que  lioham  suâ  residência  fia  Na- 
lividade,  houve  lugar  o  aclo  da  creação  da  villa,  com  o  le- 
vantamento do  pelourinho  e  mais  formalidades  do  cos- 
tume. Em  26  de  Janeiro  procedeu-se  à  demarcação  do 
termo,  estando  presentes  o  mesmo  ouvidor  e  os  vereadores 
Simeão  Eslellitâ  da  Silva,  Manoel  Joaquim  de  Almeida,  Pe- 
dro António  de  Mendonça,  o  procurador  da  camará,  Fran- 
cisco José  da  Silva,  e  o  juiz  ordinário ^  António  Alves  Ban- 
deira. Em  acto  successivo  procedeu-se  à  abertura  do  pe- 


de durar  por  mais  de  um  anno  sem  embargo  da  ôrdenaçfio  emcon- 
Irario-  Oado  no  ííio  de  JaDeiro,  em  t5  de  Fêvereiío  delSli,— 
Príncipe. 

— \mo  da  creat;ilo  da  villa  de  S,  João    da  Palma. 

Adbo  do  Nascimento  de  Nosso  Senhor  Jesus  Chrisio  de  Í81^^  aos 
fínle  e  seis  dias  do  mezde  Jaaeiro  do  dtlo  anno*  n'este  lugar  da 
Barra  da  Palma,  e  residência  do  Doutor  Joaquim  Th eotonío  Segu- 
rado, cavalieiro  (irofeisu  na  ordem  ^e  Christo,  desembargador  dn 
relação  da  Baliia,  ouvidor  geral  e  corregedor  d'esia  comarca  de  S* 
Jo&o  da  Palma,  e  sendo  alii,  por  elle  ministro  foram  conYOcadt>s  m 
vereadores  o  procurador  da  camará  até  agora  residentes  no  arraial 
da  Natividade,  e  mais  pessoas  aliai  xo  assígnadas,  e  estando  presen- 
íea  se  levantou  o  pelourinho,  em  que  cslavam  as  insígnias  compe* 
tentosj  e  que  denotam  a  jurisdíccào  real,  a  cujo  auto  se  alteraram 
por  três  ve/es  as  vo?.es ;—  Viva  o  Príncipe  íieal  nosso  senhor,— E 
com  esla  solem nidade  houve  ell&  ministre  por  formada  esta  vina  de 
S.  João  da  Palma,  e  para  constar  mandou  íattt  este  auto,  em  que 
se  assignou  com  os  vereadores^  procurador  e  mais  pessoas  assisten- 
tes, E  cu  Aíé%andre  Ribeiro  de  Fteiías^  escrivão  vitaíicio  da  ouvi- 
doria geral  e  correição,  que  o  escrevi.— Segurado,  Francisco  José 
da  Silra,  SemeTio  Eslellitâ  da  Siivai  (nnocencio  Teixeira  Alves, 
Manoel  Joaquim  de  Atmcída,  Ãnlonio  Alves  Bandeira,  Pcdrn  An- 
tónio de  Medonha,  Boaventura  da  Silva,  Florêncio  António  da 
Fonseca,  Victor  Peieím  de  Lemos,  padre  Manoet  Joaquim  do 
Araújo,  Manoel  \Mm  Pereira^  Luciano  da  Costa  Sampaio,  Valen^ 
Um  Vat  Monteiro,  Simplieio  Pereira, 

TOMOXXVUl,  P.  IK  li 


—  8S  — 


looro^para  a  eleíçlo  dos  juizes  ordinários^  ofBciaes  da  cáh 
mara,  juizes  de  orphãos,  almotacés,  alcaides,  ele  (77), 

Com  a  creação  da  villa  de  S-  João  da  Palma  exlioguiiMe 
Q  presidio  creado  na  foz  do  rio  Manoel  Alves  Grande, 
ficandOt  ootretanto,  substâtindo  alli  ama  guarda  folanU) 
para  proteger  os  habitante»  daá  incursões  dos  selvag< 
que  Se  tiobam  tornarJo  frequentes. 

Ao  passo  que  Segurado  cuidava  com  empenho  da  crea^lô 
da  nova  vllla,  mais  ao  norle  da  capitania,  e  na  maii^n 
oriental  do  Tocantins,  nascia  e  tomava  alentos  a  povoa^ 
de  S.  Pedro  de  Alcântara,  da  qual  passamos  a  fallar. 

Francisco  José  Pinto  de  Magalhães,  nalural  e  morador 
do  arraial  da  Natividade,  dedicou-se  a  vida  do  commercio, 
desde  que  foi  franqueada  a  navegação  do  Tocantins ;  trafi- 
cava para  o  Parà^  onde  dispunba  dos  géneros  que  em  suas 
canoas  levava  de  Goyazj  permulando-os  por  outros,  que 
vendia  nos  arraiaes  do  norte* 

Muito  conhecedor  da  navegação  do  Tocantins»  e  das 
necessidades  e  melhoramentos,  que  reclamavam  os  negCH 
ciantes  em  uma  viagem  lao  longa^  vendo  que  do  Porto* 
Real  para  o  Pará  não  existia  uma  única  povoação  na  mar- 
gem doeste  importante  rio,  onde  pudessem  arribar  as  canoas 
para  prover-se  dos  necessários  recursos,  falta  esta  que  se 
fazia  muito  sensível,— em  1H08, depois  de  haver  estudado  o 
melhor  local  para  uma  povoação,  auxiliado  de  alguns  ami- 
gos ê  parentes,  que  o  acompanhavam  n*est:i  idéa,  lanvou  ^ 

* 

(77)  Foram  eleiíos:  juízes  ordinários,  o  capiUio-môr  UomlngcM  Aa* 

tonio  Cardoso  e  capUão  João  Caetano  de  Sampaio;  vereadúrif»,  LiiU 
Pereira  da  Rocha,  José  de  Oliveira  o  Silva  e  Vicior  Tmeim  Baste»; 
procurador,  Matheus  Joaquim  da  Silva ;  juiz  de  orphlQSi  alferii 
Joaquim  Pereira  de  Lemos  i  juizes  almolacés,  Manoel  Joaquim  d« 
Almeida  e  Ànlonio  de  Amaral  Garoia  ;  fíerivão  da  camará.  Fe* 
brouioJost*  Pereira  Sudré,    alcaide;  AntoDia  José  do  CarvalliOt 


—  83  — 


pDucas  léguas  da  toi  do  rio  Manuel  Aíves  Graade,  os  pri- 
meiros fundamentos  de  unia  [lavoaçâo. 

Uois  ânuos  depois  existiam  alli  quarenta  o  duas  pessoas, 
todas  dedicadas  á  lavoura,  e  uão  havia  que  duvidar  mais 
do  porvir  da  povoação,  O  arraial  deS,  Pedro  de  Alcântara 
eslava  fundado,  e  a  futura  cidade  da  Carolina  desen- 
volvi â-se. 

Em  1810  foi  alli  residir  definitivamente  Pinto  de  Maga- 
lhães, levando  comsigo  todos  os  seus  haveres  o  uma  es- 
quadra de  trabalhadores  e  operários.  Deu-se  então  começo 
á  coustrucção  de  um  pequeno  templo  e  levantaram-se  as 
primeiras  casas  regulares,  emprega ndo-se  o  resto  da  po- 
pulação na  lavoura  do  algodão,  aprovei tando-se  assim  as 
vastas  o  ricas  proporções  que  offerecia  o  local  para  este 
género  de  cultura- 

Não  foram  poucas  as  privações  que  oos  primeiros  tempos 
solTreu  Magalhães  e  a  sua  gente  ;  mas  este  homem  empre- 
hendedor,  à  força  de  muita  coragem  o  perseverança,  pôde 
conseguir  que  em  18iit,  augmentada  a  população,  fosse  já 
prospero  o  estado  de  S,  Pedro  de  Alcântara,  pelos  recursos 
que  lhe  proporcionara  a  agricultura. 

Entretanto  foi  Magalhães  a  Villa-Boa  representar  a  Fran- 
cisco Delgado  sobre  as  medidas  que  entendia  serem  pre- 
cisas, afim  de  assegurar  o  futuro  e  a  prosperidade  do  dono 
povoado.  O  governador,  deferindo  a  sua  representação, 
[  p:ira  S.  Pedro  de  Alcântara  fez  partir  uma  guarnição  mili- 

r,  de  cujo  eommando  encarregou  o  mesmo  Magalhães. 
'Pacificados  o  gentio  macamecram,  tranquillos  os  habi- 
tantes com  as  providencias  dadas,  o  desenvolvimento  do 
novo  arraial  não  se  fez  muito  esperar,  principalmente  de- 
pois quo  para  ahi  foram  affluindo  os  povos  que  viviam  dis- 
persos pelos  sertCfes  de  Balsas,  Grajahii,  Farinha,  Lapa,  etc. 

As  estradas  que  se  abriram,  a  navegação  do  Grajahú  des- 


—  84  - 


coberta  por  intonío  t^raiiciscG  Bandeira  em  1811,  a  naf 
gaçao  do  Tocanlins»  o  commercío  com  o  Pará  e  o  Ma 
QliãOp  as  communicações  abertas  para  Aldèas  Altas,  a  situa- 
ção fantajosa  que  occupavam  os  habitantes  de  S.  Pedro  de 
Alcanlara— foram  circumslaocias  que  necessariamenla  de- 
viam influir  da  um  modo  directa  no  seu  rápido  crescimeDio. 

Todas  estas  condições  de  progresso,  que  favoreceram  o 
uovo  arraial,  o  facto  do  nào  se  ter  ale  eu  tão  desíguado 
positivamente  os  limites  entre  o  Maranhão  e  Goyaz,  fez 
nascor  n'aquella  capitania  a  ambição  de  possuir  S>  Pedro 
da  Alcântara  para  seu  território. 

Julgava-se  o  Maranhão  com  direito  à  posse  de  todo  o 
território  da  margem  oriental  do  Tocantins,  desde  afoxdtí 
Manoiil  Alves  Grande  até  a  barra  do  Araguaya.  E,  d*isío 
convencido,  protestou  contra  o  facto  de  ter  Goyaztodo 
esse  território  debaixo  da  jurlsdicçâo  das  justiças  de  Porlo 
Ueal,  mantendo  em  S,  Pedro  de  Alcântara  um  deslacamea- 
to,  e  exercendo  alli  todos  os  mais  actos  administrativos. 

Apezar  de  ser  oriunda  do  Maranhão  a  maior  parte  dos 
habitantes,  que  allluiram  para  essa  parte  do  Tocaulins,  e 
ficar  o  ambicionado  arraial  mais  próximo  de  S.  Lui^  do  qu6 
de  Villa  Boa — esta  pretençâo  não  encontrou  apoio  da  parle 
dos  seu 3  habitantes,  que  nenhum  beneticio  tinham  recebido 
doesta  capitania,  e  sim  de  Goyaz,  a  cujos  povos  e  a  cujo 
governo  tudo  deviam,  nao  s6  do  que  estava  feito,  como  do 
que  se  projectava  ainda  fazer. 

Depois  de  uma  troca  de  correspondência  a  respeito  d' esta 
questão  entre  os  respectivos  governadores,  foi  o  assumpto 
affecto  ao  governo  central,  o  qual  determinon  que  se  proce- 
desse á  demarcação  dos  limites  das  duas  capitanias.  Em 
t8l5,  por  virtude  do  aviso  de  It  de  Agosto  de  1813,  desi- 
gnaram-seos  commíssarios  demarcadores ;  —por  parte  de 
Goyaz  o  capitão  commandauto  do  presidio  de  S.  Pedro  de 


—  85  — 


Alcântara,  Francisco  »Iosó  I'inLo  áô  Magalliães,  o  sargento- 
mòr»  director  dos  presídios  de  Tocantins,  José  António 
Ramos  Jubé,  e  Paulo  José  da  Silva  Gama  ;  por  parte  do 
Maranhão  o  capitão  Francisco  de  Paula  Ribeiro,  o  ai  fores 
JoSo  Baptista  de  Mendonfa  e  o  piloto  António  da  Costa. 

Depois  de  varias  conferencias,  divergindo  sempre  os  com- 
missarios  na  questão  capital,  foram  as  actas  remettidas  aos 
respectivos  governadores,  nao  ficando  nada  assentado. 
Em  1816,  reunidos  de  novo  os  commissarios,  procedou-se 
á  demarcação,  da  qual  se  lavrou  o  competente  aulo,  que  foi 
do  theor  seguinte : 

íí  Aos  9  dias  do  mez  de  Julho  de  1816,  n  esta  povoação 
dfi  S,  Pedro  de  Alcant^^ratSituada  na  margem  lésie  do  rio 
Tocantins,  em  districto  da  capitania  de  Goyaz,  em  o  quar- 
tel da  residência  do  sargento  mor  José  An  tonto  Ramos 
Jubé,  sendo  juntos  em  sessão  como  commissarios  por  parte 
da  capitania  de  Goya2  o  mesmo  sargento-mòr  Josó  António 
Ramos  Jubé  e  o  capitão  do  ordenanças  Francisco  Joso  Pin- 
to de  Magalhães;  e  por  parle  do  Maranhão  o  capitão  do  ra- 
ginienlo  de  linha  da  mesma  capilania  Francisco  de  Paula 
Ribeiro,  o  alferes  do  mesmo  regimento  João  BaptisUi  de 
Mendonça,  e  António  da  Costa,  piloto  appr ovado  pela  aca-- 
demia  real  das  sciencias,  auctorisados  esses  c  outros  pelos 
seus  respectivos  governos  para  limitar  entre  si  as  duas  ca- 
pitanias nos  terrenos  em  quo  uma  com  outra  se  encontram 
pelos  rumos  sudoeste  e  oeste  da  de  Maranhão,  nordeste  e 
lòste  da  de  Goyaz,  e,  por  Lodos  elles  eleitos  commissarios, 
assentado  de  commum  accordo  que,  segundo  o  espirito  do 
régio  aviso  de  M  de  Agosto  de  1813,  em  que  por  bem  do 
seu  real  serviço  Sua  Alteza  Real  determina  adita  demarca- 
ção cora  reciproca  vantagem  do  publico  estabelecido  de 
uma  e  outra  parte,  atLentas  as  razões  discutidas  nas  ses- 
sões de  11  e  H  de  Agosto  de  181$,  a  que  se  procedeu  n*es- 


-  80  ^ 

ta  commissão  sobre  o  mesmo  objecto,  e  as  ordens  pro?iQ- 
das  das  combinadas  resoluções  dos  mesmos  governos,  ori- 
ginadas dos  documentos  d'aquellas  ditas  sessões,  a  ume 
outro  presentes:— fiquem,  se  Sua  Alteza  Real  nâo  mandar 
o  contrario,  servindo  de  balisas  ou  marcos  divisórios  en- 
tre as  mencionadas  capitanias  os  rios  Manoel  Alves  Grande, 
que  corre  de  sueste  a  noroeste,  e  Tocantins,  que  corre  de 
sul  a  norte  d'aquelle  Manoel  Alves  Grande,  desde  sua  em- 
bocadura, buscando  suas  primeiras  vertentes,  até  encon- 
trar com  o  rio  Parnahyba,  pertencendo  à  capitania  do  Ma- 
ranhão a  margem  nordeste,  e  a  de  Goyaz  a  margem  sudo- 
este; o  d'esle  Tocantins,  desde  a  foz  do  dito  Manoel  Al- 
ves Grande  até  a  foz  do  rio  Araguaya,  no  presidio  de  S. 
João  das  Duas  Barras,  pertencendo  ao  Maranhão  a  mar- 
gem leste,  o  a  Goyaz  a  margem  oeste,  devendo,  para  co- 
nhecimento da  causa  que  esta  commum  resolução  promo- 
veu, ficarem  juntos  a  este  todos  ou  parte  dos  documentos, 
resultado  das  referidas  sessões  acima  ditas,  conforme  o  que 
a  cada  um  dos  ditos  governos  lhes  pertencer.  Do  que, 
para  constar,  se  lavrou  um  auto  para  cada  uma  das  ditas 
capitanias,  por  elles  demarcadas,  em  o  qual  uns  e  outros 
commissarios,  plenamente  auclorisados,  assiguaram  por 
parli3  (los  seus  respectivos  governos.  Povoação  de  S.  Pedro 
de  Alcântara,  9  de  Julho  de  1810. — José  Aiilonioltamos 
Jubé,  sargenlo-mòr  commissario.—  Francisco  de  Paula  Ri- 
beirOf  capitTio  commissario.  —  Francisco  Josc  Pinto  de  Mar 
(jalhãeny  capilão  commissario. —  José  Baptista  de  Mendonça^ 
alferes  commissario.  —  António  da  Costa^  piloto  commis- 
sario. » 

t(  K,  apezar  de  que  os  termos  d'esta  demarcação  fossem 
insinuados  pelos  dois  governadores,  e  ella  se  ultimasse 
a  aprazimento  de  ambos,  comtudo,  nem  então,  nem  ao 
depois,  foi  ella  sanccionada  c  confirmada  pelo  poder  real... 


—  97  - 


«  Conseguiotemeote  ficaram  prevalecendo  os  antigos  H- 
miles,qae  o  eram^quando  aquelleterrilorioaDhava-se  com- 
prebeníliíio  na  totalidade  da  capilaoia  de  S.  Paulo.  >>  (78) 

A  entrega  do  território  não  se  verificou;  entretanto 
em  1820  Fernando  Delgado  informava  a  este  respeito  ao 
triunivirato,  expriraindo-se  do  seguinte  modo: 

«  O  presidio  de  S,  Pedro  de  Alcântara  ficou  pertencendo 
ao  Maranhão,  em  consequência  da  divisão  que  se  fez  d'esta 
com  aquella  provincia,  na  conformidade  das  reaes  ordens, 
o  que  levai  â  real  presença  com  o  meu  ofljcio  de  7  de  Ou- 
Iobrodel8l6.  » 

Mas  este  officio  nunca  leve  resposta,  nem  o  auto  de  de- 
marcação foi  approvado  (79)* 

(78J  Purecor  da  commissao  de  eslatislíca  úa  camam  dos  sculmrci 
deputados  de  1815, 

(71»)  Francisco  José  Pínio  d&  Míigalhries,  fundaiíor  ile  S.  l*edro 
de  Alcantarrtj  hoje  cidade  da  Carotinu.  escreveu  uma  memorííi  so- 
bre o  seu  estabelceimetno,  a  conquislado  gentio  insicítmecram,  e 
navegação  da  Toeaulins,  que  em  3  de  ianciro  de  1813  ciíFercceu  ao 
goféroador  Fernando  Delgado.  D'cste  importanle  trabalho  ex* 
tractamos  para  esta  noia  o  que   nos  parece  a  proposilo: 

t  Inírodnccâo  d  memoria. ^0  bom  o  honrado  cidadão,  e  qualquer 
homem  de  bem^  que  deseja  ser  considerado  como  fiel  vnssaffo* 
deve  DUO  sé  cegamcnie  obedecer  aos  preceitos  iicgalivos  das  leis 
promulgadas  etn  benelicio  e  favor  da  sociedade»  como  deve  íguah 
mente  applicar  todas  as  suasi  forcas  e  incansáveis  fadigas  pam 
onclier  os  justos  fins  a  que  se  desatinam  as  íeis  affirmalivas  do  paiz^ 
cm  que  vive,  e  em  que  nasceu;  pois  que  os  imperantes  com  eo^ 
nhecimento  de  causa,  sem  preoeeupaçíío,  ouvindo  os  sábios  minis- 
tros e  precedendo  as  mais  sérias  indagaçòes,  e  com  vistas  Iodas 
saudáveis,  as  promulgaram  em  favor  dos  seus  lieís  vassatlos^  de 
que  SC  compele  a  me&ma  sociedade  civil,  ã  que  a  príncipe  preside 
eoroo  chefe  e  pai  commum  dos  seus  vassallos;  as  demonatraríjes 
mais  effica^ies  de  amor  o  patriolismo,  que  pude  mostrar  qualquer 
em  benelieio  da  pátria  e  seus  concidadãos,  consiste  cerlamenio  em 
iratHilhar  por  enelier  os  ditos  Hns  recornmendados  pelas  lois^  romo 


-  8ft  — 


Todâs  as  povoações  que  se  fundaram  nas  margens  do  To- 
cantins vingaram  e  se  desenvolveram,  mas  nao  assim  as  que 

mais  conducentes  p^ra  feiicida  le  publica,  no  que  utii  vassaílô  tiã 
fãi  voT  o  respeito  e  amor  para  com  o  seu  príncipe»  e  o  seti  ps* 
tríotíâmo  em  beneficio  e  favor  dos  seu^  eoncid^drios. 

«  Estes  tâo  sólidos,  como  verdadeiros  priucipioSf  me  fiíerim 
olhar  corn  a  mais  seria  e  respeitosa  allen^Ao  para  é  dispoMo  na 
carta  e  ordcDs  régias^  que  mnndam  animar  a  navegaçíio  do  fio  To- 
cantins e  Maranhão,  da  capilani^  de  Gojai,  Pará  e  MarauUão  JA 
para  ay^mento  e  felicidade  de  Cojfaz,  com  a  qual  podo  estabelecer 
o  eammercío  aetivo,  exportando  os  géneros  que  lhe  forem  super- 
tloos;  sem  dependência  de  despenderem  o  ouro  que  tiram  das 
siiis  minas  na  compra  dos  géneros  que  eonda^m  dos  porloi  de 
hetra^niar,  em  que  áié  agora  famm  o  commercio  todo  puslve 
Q'estã  capilania;  já  reiíuziodo*se  ao  grémio  da  santa  igreja  lautas 
naç(>cs  barbaras,  que  habitam  n*aque1les  vastos  serlC^es»  e  que  os 
ínfesUim«  ímpecendo  a  navegação ^  e  UosUlísando  aos  moradores, 
veiame  que  tem  sido  rao  incommodo,  pcsatlo  e  funesto  a  estas  troi 
Mpitanias  sobredilasi  eonvencido,  pois,  de  que  eu  faria  grande  ser- 
viço ao  príncipe  regente,  nosso  seuhor,  e  á  minha  pátria,  empre- 
gando-mo  cm  seraelbanie  obra,  c  com  elTuiio  medindo  esld  inh»* 
lho,  e  olhando  para  as  minhas  eirnumstancrase  fnieas  for^s,  quasi 
desanimava  ;  porém  da  minha  mesma  fraque/a  e  impossibilidade 
tirava  a  satisfaríio  e  gloria  de  ser  mais  relevante  o  meu  sen tç?» 
lodo  Hlho  do  meu  ardeuto  patriotismo,  e  por  este  moda  in6  reani- 
ma va«  e  eíTectivamcnte  entrei  n'esLe  trabalho, 

a  O  arraial  da  Natividade  tia  çouiarcu  do  norte  d^^esta  eapitaoU 
do  tloja/  foi  a  minh:i  pátria  e  miníi-t  morada,  disiante  do  Porlo 
Heat  do  FoQlal  âtí  léguas,  sendo  este  porto  o  do  embarque  pam  o 
Pará  ;  segui  n  vida  de  negocio,  e,  reconhecendo  as  oommodidid€9 
d'aquella  navegação,  eu  a  fcoquentcí,  faiendo  seis  viagens  a  cidadi 
do  Gram-rarã,  onde  dispunha  os  géneros  e  eíTettos  que  coadutii 
de  Gopi^,  e  d'affj  voltava  com  o  meu  pequeno  negocio,  que  dispu* 
nha  n'eslas  minas:  n*estas  viagens  adquiri  os  conhecimentos  pre* 
eisos  pam  reconhecer  as  grandes  e  úteis  vantagens  que  recebe  o 
publico  e  o  Estado  de  se  povoarem  as  margens  do  Tocantins,  e,  sem 
eiigir  do  Tninislerío,  nem  do  governo,  soccorros  e  auiilíos,  me  íui 
esiabeleeer  em  um  lupr  ires  léguas  abaixo  do  rio  Manoel  Alves, 


-  89  — 

se  tentaram  estabelecer  aas  margens  do  Araguaya,  O  presi- 
dia de  §•  Pedro  do  Sul  daNovaBeira.o  deTacayiina.â 


I 


na  margetn  orienlaE  do  TocAntiDs,  fazenda  ahi  uma  pc^voaçâo,  que 
s«  denomina  povoarão  de  S*  Pedro  do  Alcanlara,  em  disiancia 
do  Poflo  Real  do  Pontal  79  léguas^  convocando  homeos  acoslu ma- 
dos  ao  traballio  e  â  vnk  do  senão i  de  âorie  que  no  auno  de  1810  se 
coropunbu  a  dita  povoaçfio  de  iâ  pessoas;  alli  roe  oslaboleci ;  tU 
coQstruir  casas  de  oração  e  de  vivenda,  ç  o  file  t  nas  necessárias  aos 
diíTerentes  officiaes  mecânicos  que  me  acompanharam :  lizefam-se 
roças,  e  logo  cuidei  em  fazer  grandes  plantações  de  algodão,  já  com 
fista  nos  úteis  que  me  podiam  resultar  docommercio  d*estc  ge* 
nero. 

«  Dm:ripção  da  ^iovaação  de  S.  Pedro  de  Âkaníara.—k  povoaçiio 
de  S.  JPedro  de  Alcantani  eslã  situada  na  margem  orienlal  do  rio 
Tocantins,  79  léguas  abaixo  do  Porto  Real  do  PonlaL  da  comarcft 
do  norte  da  capitania  de  Gojaz*  em  lugar  alto,  saudável  e  aprait* 
veU  abunda  em  matos  para  p1antaç5es,  as  melhores  madeíraSi 
emmpos  de  criar,  muito  petvOt  sendo  consideravol  n'aqueUe  lugar 
a  abundância  de  tartarugas ^  que  Uz  um  ramo  do  comraercio  acti- 
fo  d*esta  capitania,  pelo  alto  preço  e  fácil  disposiçiio  que  tem  na 
cidade  do  Gram-Pará,  As  plantaç^^es  produzem  com  vantagem,  e 
sem  menor  trabalho  n'aquella  povoação  do  que  nos  matos  conhe- 
cidos de  toda  a  capitania  do  Goyaz,  Os  pastos  são  os  melhores  que 
se  podem  desejar,  porque  o  gado  vaecum  que  liz  conduzir  para 
aquella  povoação ^  sendo  d^  esperar  que  estranhassem  a  mudança 
doi  pastos  d'onde  sahiram,  e  em  que  se  criaram,  pelo  contrario  to- 
maram melhor  nu  trimento  de  que  d 'antes  tinham  nos  pastos  em  que 
nasceram.  As  aguas  sao  puras,  cr^^tallinas  e  saudáveis,  sem  depen- 
dência do  rio,  pois  que  tem  córregos  e  ribeiros,  que  cobrem  o  lu- 
gar da  povoação,  com  que  prelendo  mover  os  engenhos  necessários 
para  moer  C4inua,  socar  o  irar.  Era  na  verdade  grande  a  minha  sa- 
tiifaçâo  em  me  vereslabeíeciíJo  n'aquclla  povoação,  onde  cu  reco- 
nheci as  vaniagens  que  d'ella  me  podiam  resultar,  e  onde  eu  ti'* 
nba  o  prazer  de  soecorrer  aoi  mais  negoeJantes,  que  navegavam 
n'aqiielle  rio,  e  que  muitas  vezes  aílí  cUegam  cançado^j  c  incom- 
modados  de  fome,  portifio  baver  povoações  amiudadas,  aonde  com- 
prem os  mantimentos  precisos  para  sua  equipagem  ;  porém  as  na- 
ções barbaras  de  gentios  que  babitam  nos  vizinbanças  tfaquelia 
TOMOXXYin,  p.  IL  li 


-  90  — 

?illa  de  S.  João  das  Duas  Barras,  foram  tentatíTas  infroo- 
tiferas. 

povoaçào  me  obrigavam  a  ter  o  grande  trabalho  de  me  acautelar 
de  dia  e  de  noite,  e  sempre  com  as  armas  nas  mãos,  e  sentinellas 
vivas,  das  suas  hostilidades;  e  a  muito  custo  e  considerável  in- 
commodo  pude  fazer  as  minhas  plantações  e  colheita.  E'  desne- 
cessário notar  quaes  seriam  os  incommodos,  sustos  e  trabalhos,  e 
também  fomes,  quesoíTri  com  a  minha  gente  no  primeiro  annodo 
meu  estabelecimento,  antes  de  ter  concluído  as  casas  de  vivenda, 
e  emquanto  não  chegou  o  tempo  da  colheita  dos  mantimentos ;  po- 
rém actualmente  ha  abundância  do  necessário  n'aquella  povoação,  e 
vivem  com  fartura  80  pcssoas,que  já  n'ella  existem.  As  Ribeins, 
que  são  districto  d'esta  povoação,  são  habitadas  por  mais  de  3,000 
pessoas ;  estas  t6m  dependência  de  procurarem  os  géneros  e  effei- 
tos  da  primeira  necessidade  na  villa  de  Aldeãs  Altas,  que  dista  mais 
de  i50  léguas.  Continuarei  a  mandar  conduzir  sal,  ferro,  fatendu 
da  cidade  do  Gram-Pará,  para  dispor  na  dita  povoação,  em  uma 
casa  de  negocio  que  alli  vou  estabelecer,  fazendo  por  este  modo 
ainda  mais  solido,  tirmee  constante  o  estabelecimento  da  dita  po- 
voação. Achei  enxofre  em  pedra  nas  vizinhanças  d'esta  povoação; 
pois  que  ignoro  as  operaçòes  chimicas  com  que  se  possa  dcsen. 
volver  aquelle  mineral  das  ditas  pedras,  por  isso  o  não  exibo e 
apresento,  como  desejava.  E'  este  o  estado  e  as  circumstanciasem 
que  se  acha  a  dita  povoarfio 

«  Conquista  do  (jenlio  macamecram.  A  nação  do  gentio  macame- 
cram  estava  alojada  em  duas  aldCas  cm  distancia  de  três  léguas di 
povoação  de  S.  Pedro  de  Alcântara.  F^sta  nação,  a  quem  erradamen- 
te chamavam  de  timembós,  era  temida  por  lodos  os  fazendeiros 
dos  sertões  de  Balsas,  (irajahú,  Neves,  Lapa  e  Farinha,  território 
perlenceulo  á  capitania  do  Maranhão,  pelas  hostilidades  que  alli 
faziam,  e,  apezar  de  alguns  damnos  que  me  causaram,  nem  por  isso 
as  hustílísei,  antes  com  mimos  e  otlertas,  Inilando-os  com  afagas, 
pretendi  cliainal-os  á  minha  amizade,  o  que  felizmente  conclui,  de 
sorte  que  abandonaram  as  suis  aldt^as,  c  vieram  estabelecer- se  nas 
vizinhanças  da  povoação,  dentro  da  (jual  constantemente  está  um 
grande  numero  d'elles 

ff  Tenho  convidado  a  muitas  famílias  para  se  estabelecerem  nas 
margens  do   rio  Tocantins,  e  muitos  voluntariamente  se  apressam 


—  ul  - 

FaUaremos  aioda  dâ  uma  tentativa  malsuccedida,— o 
presidio  de  Santa  Maria  do  Araguaya,  que  se  mandoa  fan- 
dar  para  proteger  a  navegação  doeste  rio,  e  o  commercio 
da  companhia  que  Fernando  Delgado  tentara  incorporar 
em  virtude  do  aviso  de  5  de  Setembro  de  18 H. 

Entre  S.  João  das  Duas  Barras  e  o  registro  de  Salinas  foi 
escolbido  o  local  etn  que  vantajosamente  devia  ser  elle  coí- 
locado,  e  em  princípios  de  181â  parti u da  Villa  Boa  o  te- 
nente Francisco  Xavier  de  Barros,  com  o  capellâo  padre 
Luiz  da  dama,  o  cirurgião  Manoel  Alves,  e  80  pessoas 
entre  paisanos  e  praças  de  linha,  e,  embarcados  no  rio  do 
Peiíe,  desceram  o  Araguaya,  e  a  196  léguas  do  porto  da 
Piedade  estabeleceram  os  seus  acampamentos, e  começaram 
uma  povoação.  Correu  bem  o  anno,  e  tudo  promettia  que 
o  estabelecimento  não  seria  perturbado,  porque  os  índios 
se  mostravam  satisíeilos,  sempre  que  iam  de  visita  ao  pre- 
sidio receber  brindes  e  ferramentas.  Para  consolidar  o 


a  empossar-se  das  meíhnres  situações  desde  o  rio  do  SorttQO  aLé  a 
ilha  de  S.  iosé,  exiensâo  do  nuiis  de  10  le^ua^,  que  liça  povoído, 
sendo  a  miúor  parle  dos  navos  povoadore^^  domiciliários  da  capita- 
nia do  Mfiranhão,  o  que  mai^  nos  iuteressam,  porqvie  conduzem  oi 
gudos  pura  as  margeo.'^  do  Tooanlins»  bem  como  so  eçipera  proiima- 
moate  Manoel  José  da  AssumpQlú,  commatidautG  d'aquetias  ribei- 
ras, com  500  calieças  de  gado,  achando-íve  ji  em  S.  Pedro  de  Alcân- 
tara o  capitfiO  Aalonio  Moreira  da  Silva,  viudo  d^aq^ieiía  capitania 
do  Miiraohfto  com  sua  ruiiilí^^  sugeito  mui  Lo  rceommendavel  peta 
Bua  prudência»  valor,  e  actividade,  o  que  tem  tido  graude  parte  no 
fôtiz  resultado  dos  meus  irabalhos,  a  digno  eertamente  de  maior 
contemplar>ío,  etc,  ele.  i* 

Além  do  que  fica  trauâcriplo,  trata  a  memoria  da  abertura  de 
uma  estrada  para  u  Pará,  da  navegaçáo  para  o  Manuib[ko  pelo  río 
{■rajahú  i  noticia  quaulo  bavía  sobre  os  indíos,  e  suns  difTerêtites 
nações,  babilos  e  costumes^  e  Gnalmeute  Irata  dasprovideacias  no- 
cessarias  para  n  augmento  da  povoa<;Ao,  conquista  dos  ind tos,  e  fa- 
cilidade da  uatega^lo  dos  rios  Araguaia  6  TocantíDS,  etc^ 


-  94  « 

imprimir.  De  envolta  com  as  aguas,  lutando  com  a  morte, 
foram  levados  pela  corrente,  que  lhes  serviu  de  mortalha : 
os  que  os  acompanharam  n'esta  atrevida  ompreza  retroce- 
deram. 

Acabado  o  cartuxame,  eram  as  armas  carregadas  a  poN 
vora  e  chumbo,  sendo  as  mulheres  e  crianças  quem  prepa- 
ravam as  cargas ;  os  h:ibitantes  de  Santa  Maria  praticaram 
prodígios  de  valor ;  os  enfermos  se  levantaram  dos  seus  lei- 
tos de  dôr,  ou  para  empunhar  as  armas,  ou  para  ajudar  os 
combatentes. 

Por  três  vezes  ferido  o  t3nenle  Barros,  conservou-se  com 
a  arma  em  punho,  encorajando  os  seus,  o  fazendo  conter  a 
fúria  dos  aggressores. 

De  repente  ouviu-se  um  grande  alarido,  e  notouse  que, 
d*entre  os  indios,  um  se  destacava,  gesticulando  com 
violência,  e  accionando  para  o  presidio. 

Uma  índia  xacriabá,  que  Barros  tinha  levado  para  Santa 
Maria  de  interprete,  sendo  testemunha  d'osta  scena,  com- 
munícou  ao  commandante  o  que  o  chavante  dizia  e  queria. 

N'essa  gesticulação,  e  n^esscs  gritos,  havia  uma  ameaça. 
Dizia  o  Índio  que  baldada  era  a  rL^sistencia,  que,  sendo  pou- 
cos os  brancos,  cm  breve  seriam  vencidos :  que  os  aggres- 
sores nâo  largariam  as  armas  sem  conseguirem  seus  fins. 

Então  ()rden'ju  o  tenente  Barros  á  índia  quo  convidasse 
os  seus  parentes  a  lhe  virem  failar:  depois  d'esta  ordem 
cessou  o  fogo. 

Com  o  índio,  que  se  suppunha  um  dos  caciques,  vieram 
outros  ter  com  o  commandante,  que  lhes  sahíu  ao  encontro. 
N'estc  acto  depuzeram  os  inimigos  os  seus  arcos,  e  o  tenen- 
te abraçou  a  todos,  acabando  [)or  entregar  a  sua  espada  ao 
que  suppunha  chefe.  Este  a  recebeu,  para  restituíl-a  ins- 
tantes depois. 


—  95  - 


Approximindo*se  a  interprete,  travou^seealreellaeo 
Cacique  chereiíte  um  vivo  dialogo. 

Foi  eatão  que  se  soube  das  causas  d' essa  alliauça,  que 
trazia  aos  muros  do  presidio  ires  nações  colUgadas,  Os  ca- 
rajás,  habitantes  do  Araguaya,  tinham  ido  ao  Pontal ^aqua- 
si  80  léguas  de  distancia,  convidar  oscberentes  a  esta 
guerra,  allegando,  para  justificar  a  sua  necessidade,  qneos 
brancos  tinham  toraado  suas  terras  e  os  queriam  captivar, 
Emquanlo  Barros  persaadia-os  a  deporem  as  armas  e  a 
fazerem  a  paz,  procnrandu  desvaneeel-os  d^csses  infunda- 
dos receios,  e  estando  jà  entabolada  e  em  bom  pé  uma  es- 
pécie de  negociaçãa,  no  grupo  dos  chavantes  e  carajás,  que 
ficaram  a  distancia,  e  do  outro  lado  do  ribeirão,  dava-se 
uma  scena,  que  veiu  a  decidir  da  sorte  do  presidio. 

Estes»  que  dos  aggressores  eram  os  que  mostravam  mais 
ousadia  e  sede  de  vinganç-a,  tentaram  invadir  o  presidio 
pelo  llanco  direito;  porém  alguns  dos  soldados,  que  ob* 
servaram  este  movimento,  com  uma  descarga  os  fiíeram  re- 
troceder* 

Ao  estampido  da  descarga  oscberentes,  que  rodeavam  o 
comniandante,  tentaram  apodera r-se  da  xacriabà,  que, 
evitando  os,  preveniu  a  Barros  das  malévolas  intenções  dos 
seus  parentes* 

Barros  recuou,  e  seis  soldados,  que,  com  as  armas  car- 
regadas, o  guardavam  de  qualquer  traição,  a  este  aviso,  nâo 
tiveram  mais  que  descarregar  as  armas.  Os  cberentes,atro- 
pelladus  e  em  confusão,  fugiram  a  grande  distancia,  dei- 
xando  quatro  dos  seus  arcando  com  as  vascas  da  morte. 
A  paz  era  jà  impossiveL 

Quando  o  commandante  se  recolhia  á  sua  tenda,  a  se 
preparava  para  sustentar  novo  e  inevitável  ataque,  chega- 
vam os  cinco  soldados  que  pela  manhã  tinham  sabido  á 
caça.  Uma  nuvem  de  inimigos  sobre  elles  se  arremeçou,  e 


m 


mal  deu-lhôs  lerapopara  se  defenderem.  E  que  defesa  era 
possível,  se  estavam  desprevenidos?  Ijm  circulo  de  ferro 
os  apertou,  e  no  meio  da  lati  a  mais  firme  e  desigual  ex- 
piraram todos  aus  golpes  raivoso  j  das  davas  dos  earajàs. 

Esta  espectáculo,  prasiinciado  sem  remédio  pelos  solda- 
dos do  presidio,  os  fez  desanimar. 

Pelas  duas  ou  três  horas  da  tarde,  satisfeitos  os  indios 
com  as  victimas  que  haviam  s  icriUcado  ao  seu  furor  e  á 
sua  vingança,  em  torno  de  cujos  cadáveres  dansàramc 
tocaram— suspenderam  o  cerco  e  se  retiraram  para  além 
dos  bosques  que  rodeavam  o  presidio»  deixando  grande 
numero  de  atalaias,  qoe  pelos  soldados  foram  vistas  a  es- 
piarem do  cimo  das  arvores. 

Era  sigrial  de  que  voltavam  a  satisfazer  seus  desejos. 

Reflectindo  Barros  que  a  guarnição  era  pouca  para  re- 
sistir a  tantos  inimigos,  e  que  essa  mesma  se  achava  exte- 
nuada de  doenças,  e  das  fadigas  que  tinham  supporlado  du- 
rante tantas  horas,  e  receioso  de  que  os  indios  viessem  em 
suas  numerosas  ubás  atacal-o  pelo  lado  do  rlOr  resolveu 
abandonar  o  presidio,  e  para  logo  deu  as  ordens  necessá- 
rias Doeste  sentido. 

Ao  anoitecer  o  som  das  boslnas  e  maracásdos  índios  an^ 
nunciou  a  sua  approximaçâo;  — embarcarara-se  todos  em 
péssimas  montarias,  e  precipitadamente  e  sem  piloto  se 
entregaram  á  mercê  das  aguas.— Foi  uma  scena  conlrisla- 
dora  a  fuga  d'essas  38  pessoas»  que  compunham  o  pessoal 
da  presidio  de  Santa  Maria ;  espectáculo  pungente,  o  que 
dias  depois  ollereciam  esses  fugitivos,  devorados  peia  fome, 
acabrunhados  de  soffrimentos,  e  entregues,  no  meio  de 
tantas  attribulações— somente  á  proteção  de  Deus. 

A  canoa,  em  que  ia  o  commandante,  arrebatada  pelas 
aguãi  de  uma  cachoeira,  alagou-se,  e  submergiu-se ;  dois 
filhos  seus  e  dez  ]>essoas  adultas  foram  arrebatadas  pela 


—  97  — 

corrente,  e  no  seio  daâ  aguas  acharam  as  suas  sepulturas. 
Ao  GoniraâDdanle  só  restava  uin  filho,  salvo  por  sua  mãi, 
que  o  disputou  às  aguas,  até  consegail-o  salvar!  Só  resta- 
va uma  montaria,  e  esta  mesma  fazia  lauta  agua  que  pres- 
te sossobrou,  deixando  uas  margens  do  Aragiiay a  25  pes- 
soas innanidas,  e  entregues  ao  desespero  da  dôr*  Tinham 
navegado  15  dias  1  Em  que  altura  se  achavam  esses  infeli- 
zes» para  onde  dirigiriam  os  passos?  Era  preciso  resolver 
em  tâo  terrível  conjunclnra ! 

Alravessâudo  as  areias  ardentes  do  Araguaya,  internan- 
do-se  pelas  florestas,  galgando  serras,  a  pequena  caravana 
procurou  o  rumo  do  norte,  acompanhando  as  sinuosidades 
do  rio,  Quasi  60  léguas  venceram  em  dez  dias^  para  che- 
garem ao  presidio  de  S.  João  das  Duas  Barras,  Muitos  fal- 
leceratu  n'esta  penosa  viagem ;  poucos  foram  os  que  res- 
taram, para  contarem  seus  padecimentos^  e  o  trágico  fim 
dos  seus  companheiros. 

O  presidio  de  Santa  Maria  deixou  de  existir,  não  por  ne- 
gligencia do  seu  commandante,  mas  por  falta  dos  soccor- 
rús  quQ  esperara  de  Vitla-Boa,  e  que  nunca  chegaram! 

A  fundação  deste  presidio  foi  assumpto  de  tão  magna 
importância,  e  de  um  interesse  tão  immediato  considerado 
sempre  para  o  serviço  da  navegação  do  Araguaya,  que,  che- 
gando ao  conhecimento  do  príncipe  regente  a  triste  nova 
da  sua  destruição,  por  aviso  de  3  de  Setembro  de  1813  o 
mandou  restaurar. 

Mas  nada  se  fez,  attento  o  estado  da  capitania ;  e  ficou 
este  importante  objecto  adiado  indefinidamente. 


TOMOXXVni,  p. 


13 


—  08  — 

CAPITULO  xvni 

(1809-1820) 

Extincção  da  aldêa  Maria  I.— S.  José  de  Mossamedes.— D.  Damiana.— 
A  calechese  inteiramente  abandonada.—  Os  indios  cherentese  earor 
já9.—k  na?egaçao  para  S.  I>anlo.— Viagem  de  exploração.— Jo5o  Cift- 
tano  da  Silva  e  José  Pinto  da  Fonseca.— Resultados  d'esta  exploraçfto. 
— Oravissimo  erro  administrativo.— Outros  actos  do  governo  de  Per» 
nando  Delgado.— Fabrica  de  tecidos.— as  minas  do  Anicuns.— Refor- 
ma militar.— Correio. — O  palaciodo  governo.— Contagio  da  bexiga.— 
Desmembra-se  de  doyaz  o  Araxá  e  Desemhorjiíe. — ContribuiçSo 
voluntária.— Creaçâo  da  junta  do  Desembargo  do  Paço.— Estado 
financeiro  da  capitania.— Dei.\a  Fernando  Delgado  o  governo.— Toma 
posse  um  triumvii ato.  — Retirada  do  governador.  —Seu  fíoi  desas- 
trado.— Causas  do  seu  suicidio.  —  Manoel  Ignacio  de  Sampaio  no- 
meado governador. 

Não  foi  somente  o  presidio  de  Santa  Maria  a  uuica  po- 
voação que  desappareceu  do  mappa  de  Goyaz :  o  aldea- 
mento indígena  conhecido  pelo  nome  de  Maria  I  lambem 
foi  extincto  em  1813,  mas  de  um  modo  pacifico,  e  por  sop- 
postas  conveniências  administrativas  e  económicas. 

Tendo  sido  nomeado  regente  geral  das  aldéas  José  Amado 
(Irehon,  teve  ordem  de  inspeccionar  esta  aldèa  e  a  de 
S.  José  de  Mossamedes.  Do  exame  a  que  procedeu  conhe- 
ceu que  aquella  tinha  apenas  uma  população  de  138  indios, 
e  esta  de  129 

A'  vista  de  um  estado  Uío  decadente,  propôz  transferir  os 
caiapòs  da  aldca  Maria  para  S.  José,  esperando  por  este 
meio  poder  augmentar  os  recursos  agrícolas  da  aldéa  que 
mais  próxima  ficava  da  capital,  e  economisar  as  despezas, 
que  se  faziam  com  a  guarniyão  militar  da  primeira. 

Approvada  sem  reflexão  esta  providencia,  os  dois  quar- 
téis, o  paiol,  e  alguns  edifícios,  exiçtentes  na  aldêa  Maria, 


-  99  ^ 


mram  demolidos »  e  os  maleriacs  Innsforidos  para  S/JÕse 
bem  como  todo  o  pessoal  alli  existente- 

Em  vez  de  promoverem  o  aaginenlo  do  pessoal  das  aldêâs 
chamando  dovos  habitadores  paraellas,  deslruia-se  o  pouco 
que  aiuda  restava  de  quanto  se  havia  feito  com  tanto  sacri* 
ficio  !  A  questão  da  catechese  estava  completamente  aban- 
donada ;  eia  assumplo  em  que  jã  ninguém  pensava.  Se  em 
iHVi  as  aldeamentos  mais  próximos  á  capital  ainda  pos- 
suíam uma  população  de  267  Índios,  ha  uma  única  razão 
explicativa  d'esle  facto* 

Existia  em  S.  José  uma  mulher^  a  quem  os  caiapôs  re- 
verenciavam e  obedeciam  cegamente;  essa  mulher  cha- 
mava-se  P.  Damiana,  e  era  nela  do  cacique  Angrayochâ  e 
de  sua  mulher  Xiunequà.  A  ella  se  deveu  nâo  só  a  con- 
servação da  aldèa  de  S.  José,  como  muitos  serviços  im- 
portantes à  catechese,  que  ella  promovia,  indo  em  pes- 
soa ao  centro  das  florestas  chamar  os  seus  parentes  a  virem 
viver  na  commuohSo  dos  brancos. 

Fernando  Delgado,  porém,  pouca  soube  aprovei tar-se  da 

influencia  d*esla  mulher,  o  muito  menos  u  seusuccessor; 
tanio  assim  que  em  1828,  dois  annos  antes  do  falleci- 
menlo  de  Oamiana  da  t^nha,  sendo  director  da  aldôa  Ma- 
noel da  Cunha  Menezes,  seu  irmão,  a  população  indigena 
constava  apenas  de  UB  pessoas,  as  eonstruecões  estavam 
em  completa  ruína,  como  melhorraente  se  vê  do  inventario 
a  que  o  presidente  Miguel  Lino  do  Moraes  mandou  pro- 
ceder pelo  juizo  dos  feitos  da  fazenda,  desembargador 
Josú  Joaquim  Corrêa  da  Costa  Tereira  do  Lago, 

Cumpre  notar  que  em  I8â8  e  1829  linha  D.  Damiana 

conseguido  chamar  para  S*  José  alguns  caiapòs,  indo  pes- 
soalmente buscados  ao  rio  Claro,  e  alto-Araguaya. 
E  assim  se  foi  aniquilantlo  até  desapparecer  também  o 


—  too  — 


mais  importante  aldêamealíj  que  teve  Goyaíi  e  que  coslau 
ao  Estado  sommas  enormes. 

Não  é  escusado  fazer  n'esta  occasião  uma  ligeira  des* 
cripção  da  aldda  de  S.  José  da  Mossamedes»  fundada  por 
José  de  Almeida  Vasconcellos  Soveral  e  Carvalho,  senhor 
de  Mossamedes. 

O  centro  do  aldeamento  constava  de  um  quadrilongo^com 
conslrucçôes  em  todas  as  quatro  faces.  Os  quatro  lados 
eram  guarnecidos  de  casas  coastmidas  para  residência  dos 
Índios,  quartel  da  força^  deposilo  de  géneros»  e  outros 
misteres*  Nos  ângulos  da  praça  do  lado  do  sul  elevavam-se 
duas  grandes  casas  assobradaiías,  e  no  centro  a  igreja, 
construída  com  alguma  elegância.  Em  frente  á  igreja  sobre* 
sabia  um  edifício  de  appareocia  nobre,  que  servia  de  re- 
sidência aos  governadores,  quando  iam  de  visita  á  aldéa. 
Os  lados  maiores  do  quadriiongo  prolongavam-se  para  fôn 
da  praça,  e  se  compunham  de  uma  serie  de  casas  de  regu- 
lar construcçiLo.  Por  fora  existiam  espalhadas  sem  ordem  e 
em  differentes  direcçííes  choupanas  e  Ujupds,  onde  mo- 
ravam de  preferencia  os  indíos  casados,  ou  os  que  não 
podiam  por  qualquer  circurnstancta  morar  nos  qua; 
commuDS, 

Tudo  isto  desappareceu  e  hoje  só  resta  do  antigo  espiei^ 
dor  de  S.  José  de  Mossamedes  a  igreja,  e  maia  uns  ires  ou 
quatro  pardieiros  arruinados,  em  um  dos  quaes  reside  o 
vigário  da  freguezia. 

Perdeu  Fernando  Delgado  todas  as  occasíôes  qoe  stí 
lhe  offereceram  para  prestar  serviços  importantes  à  cate- 
chese,  e  fazer  nascer  nas  aldeãs  decadentes  seu  antigo  flo- 
rescimento* Os  Índios  cherentes  e  carajás  do  baixo  Ara- 
guaya  mostraram  as  melhores  disposições  para  se  submel- 
terem  ao  regimen  dos  aUlêamentos,  do  que  vieram  depois 
a  convencer-se  os  incrédulos,  veodo-os  reunidos  em  Sali- 


—  101   - 


nas,  Tl  vendo  mansa  u  pui^ilicatuente.  Chogar^n  estes  Ín- 
dios a  mandar  á  capital  emissários  seus,  à  procura  da  ami- 
zade do  capitào-grande,  que  não  lhes  deu  a  menor  im- 
portaocia :  enlrelanto  a  aldeã  de  Pedro  III  linha  jà  perdi- 
do dois  lerços  da  sua  população. 

Somelhantemenle  aconteceu  com  os  carahós,  do  Tocan- 
tinSp  que  lambem  foram  à  capital  pedir  para  serem  aldea- 
dos, e  voltaram  sem  nada  lerem  conseguido,  pouco  se 
importando  Fernando  Delgado  que  o  aldeamento  do  Duro 
estivesse  quasi  que  em  completo  abandono. 

Allegava-se,  para  justificar  o  nenhum  interesse  que  se 
dava  então  á  catechese  da  gentilidade^  a  falta  de  recur- 
sos pecuniários  da  capitania ;  entretanto  existiam  parochos 
empregados  no  serviço  das  aidéas,  uma  guarnição  militar 
na  capita],  superior  ás  necassídades  da  capitania,  ainda 
mesmo  depois  que  foi  reduzida,  e  posta  debaixo  de  ura  só 
commando. 

Os  soffrimentos  physicos  e  moraes  de  Fernando  Delgado 
nao  o  deixaram  empregar-se  com  actividade  e  zè\o  no  ser- 
viço da  administração ;  era  pí)r  isto  muitas  ve/^es  indolen- 
te e  descuidoso  dos  negócios  puhlicos. 

Além  d*isto  dizia-se  que  o  período  da  catechese  estava 
passado ;  que  outros  assumptos,  outras  idéas,  dominavam 
os  espíritos.  A  navegação  dos  rios^  por  exemplo,  preoccu- 
pava  de  preferencia  as  attençoes ;  o  commercio  e  a  lavoura 
eram  o  idolo  do  dia,  a  quem  todos  rendiam  cultos» 

Vimos  que  no  governo  de  D.  Fíancisco  procurou-se 
abrir  para  S.  Panio  e  Minas  uma  via  de  comnfcnicação  flu- 
vial, e  que  a  exploração  do  Guterres  teve  um  fim  desas- 
trado. 

Agora  iremos  ver  como  João  Caetano  da  Silva  e  José 
Pinto  da  Fonseca,  emprehendendo  a  mesma  exploração,  a 
realizaram  de  ura  modo  completo  e  satisfac tório. 


—  102  — 

Á  navegaoSo  de  S.  Paulo  para  as  minas  de  Guyabà.era 
já  conhecida  e  praticada  desde  os  primeiros  tempos  do  de»* 
cobrímento  d'estas  regiões.  Os  paulistas,  que  entraram 
para  Hato*Gros8o  e  Cuyabà,  descobriram  a  nav^ação  do 
Tietê,  Paraná,  Rio  Pardo,  Camapuam  e  Taquary,  outros 
rios,  que  atravessam  S.  Paulo  e  Malto  Grosse,  e  ySo  lenr 
suas  aguas  a  grande  bacia  do  Prata. 

Era,  pois,  muito  fácil  prolongar  essa  na?egac2o  até  o 
Parnabyba,  e  no  dos  Bois,  ou  antes  IrazAl-a  a  poucas 
léguas  de  Villa  Boa.  Antes  de  tudo  convinha  reconhecera 
sua  possibilidade.  Animados  por  Fernando  Delgado,  dois 
homens  emprehendedores,  JoSo  Caetano  da  Silva  e  José 
Pinto  da  Fonseca,  prepararam  uma  expediçSo  de  quatro 
canoas,  que  mandaram  para  este  fim  construir  na  margem 
do  Rio  dos  Bois,  e  tripolaram  com  dez  camaradas,  e  gaots 
sua. 

No  tempo  das  aguas  o  Rio  dos  Bois  presta-se  à  navegai^ 
desde  sete  léguas  do  arraial  de  Anicuns;  como,  porém,  essa 
viagem  foi  emprehendida  jà  no  tempo  secco,  foram  embar- 
car a  18  léguas  d'este  arraial,  ou  a  32  léguas  da  capital. 

No  dia  3  de  Setembro  desciam  as  canoas  pelo  Rio  dos 
Bois  a  16  passavam  a  barra  do  rio  Turvo,  o  a  20  a  foz  do 
Rio  Verde,  havendo  percorrido  69  léguas  n'esse  espago  de 
tempo.  Tinham  perdido  oilo  dias  de  navegação.  No  dia 
24  avislaram  as  aguas  do  Parnabyba,  que  outros  confundem 
com  o  Corumbá,  seu  confluente. 

Chegados  à  cachoeira  de  S.  Simão,  onde  perderam  três 
canoas,  ahi^e  demoraram  um  mez,  tempo  sufficiente  para 
construirem  novas  e  poderem  proseguir  na  derrota.  Con- 
duzidas as  montarias  por  terra  em  uma  extensão  de  SOO 
braças,  de  novo  embarcaram-se  a  30,  dia  de  S.  André,  e 
chegaram  a  outra  cachoeira,  a  que  puzeramonomed'este 
apostolo. 


—  40S  — 


Coríduziíías  aioda  por  lerra  as  canoas,  prosegeiram  na 
viagem,  ti  a  3  de  Dezembro  avistaram  a  barra  dojftio  Gran- 
de- Findâva-se  ahi  o  curso  do  Farnahyba,  e  iam  entrar  oo 
Paraná,  já  magesloso,  e  enriquecido  com  as  aguas  d'a- 
,^ell6  tribulario. 

llJfA  três  léguas  da  barra  do  Rio  Grande  é  a  navegarão 
difflcallada  pula  caciioeira  do  Urubú-pungà:  levadas  as 
caDôas  por  lerra»  ede  novo  entregues  acorrente,  a  moía 
légua  da  cachoeira,  linliam  pelo  lado  esquerdo  a  barra  do 
Tielt%  a  qual  atravessaram  sem  conhecer,  e  cerlamenle  se- 
riam victimas  como  Guterres,  dacalaratadasSele-quédas, 
se  o  íodio  Manoul,  cacique  de  uma  aldeã  que  demora?â 
por  aqiiellas  devesas,  indo  visiial-os  á  noite,  os  nao  ad- 
vertisse de  que  ja  tinham  passado  a  barra  do  Ti  ele,  que 
uma  grande  ilha  em  parte  ocGu[tava,divÍdÍndoas  suas  aguas 
em  pequenos  canaes»  mais  parecidos  com  a  confluência  de 
pequenos  ribeirões  de  que  cora  a  foz  de  um  rio  caudaloso- 
Pela  manhã  tiveram  de  regressar,  e,  entrados  oo  curso 
do  Tietê,  DO  dia  8  de  De?.embro  chegavam  ú  cachoeira  do 
Itapura- 

Os  exploradores,  desde  que  se  acharam  n'estas  alturas, 
consideram  feita  a  exploração  e  vencidas  as  maiores  diíli- 
culdades.  Em  ã5  de  Março  chegou  João  Caetano  á  então 
fregnezia  de  Pirassicaba. 

Durante  esta  penosa  viagem  falleceram  quatro  compa- 
nheiros, e  José  Pinto  da  Fonseca  poucos  dias  depois  d'ella 
finda  dava  sua  alma  ao  creador  na  viila  de  S.  Carlos  de 
Campinas, 

João  Caetano^  depois  de  haver  descansado  de  suas  f adi- 
rias, empreheudeu  uma  nova  exploração,  para  reconhecer 
a  navegabilidade  do  Rio  Grande,  a  partir  da  foz  de  Mogi- 
guassú.  EmbarcandO'Se  na  barra  doeste  rio  em  uma  canua 
com  os  companheiros  que  llie  restavam,  desceu  o  Rio 


—  i04   - 


Grande,  atravessou  as  cachoeiras,  que  denommoii  da  Pal- 
ma» S.  Estevão,  S.  António  e  S.  Matlieus,©,  subindo  o  rio 
Parnaliyba  alé  a  barra  do  Corumbá,  d' ahi  regi*es^ou  pelo 
mesmo  caminho,  e  desembarcou  era  Araraqnara, 

João  Caetano  dirigindo-se  no  anuo  seguinte  {1817}  ao 
Rio  de  Janeiro,  e  relatando  ao  príncipe  regente  os  seus 
serviços»  este  os  tomou  em  lanla  consideração,  que  o  agra- 
ciou  com  o  babilo  de  Christo,  ordenando-! he  que  na  volta 
para  Goyaz  se  embarcasse  em  Mogiguassíi,  e  fossê  por  via 
fluvial  até  o  ponto  mais  próximo  de  VillaBoa  a  que  podes- 
se  chegar  embarcado ;  o  que  elle  emprehendeu  com  snc- 
cesso,  subindo  o  Parnahiba,  Rio  dos  Bois,  entrando  pelo 
rio  Turvo  alé  onde  suas  aguas  permittem  a  navegação. 

Por  aviso  de  20  de  Dezembro  de  !8íO  se  mandou  dar  a 
João  Caetano  a  quantia  de  100$000  por  mez,  para 
proseguir  nas  proveitosas  explorações  dos  rios  do  sul  de 
Goyaz ;  porém  esta  ordem  nunca  foi  cumprida,  pelas  naui- 
las  protGlações  que  lhe  oppuzeram,  para  que  mais  esta 
idéa  útil  ao  futuro  de  Goyaz  ficasse  prejudicada. 

Parece  que  um  mâo  fado  persegue-a,  que  medida  alfu^ 
ma  proveitosa  aos  seus  interesses  tem  podido  vingar  e  dei 
envolver-se. 

Vimos  na  navegação  do  Araguaya,  e  no  empenho  com 
que  se  a  quiz  promover,  promessas  altamente  satisfa- 
ctorias;  mas  não  podemos  deixar  de  ligar  grande  im- 
importância  a  navegação  do  sul,  que  pôde  de  um  modo 
fãci!  e  prompto  ligar  os  interesses  còmmerciaes  de  Goyaz 
com  os  de  Malo-Grosso,  S>  Paulo  e  Minas*  Quem  ousaria 
equiparar  as,  solidões  do  Araguaya,  as  suas  quatro- 
centas léguas  de  navegação,  com  as  duzentas  do  sul  pelo 
Parnahyba  e  Paraná,  que  recebe  grande  numero  de  tribu- 
tários navegáveis,  os  quaes  em  seu  curso  atravessam  im- 
portantes povoações,  terrenos  cultos  e  habitados  ? 


—  10S — 


Foi  uoi  grave  erro  nao  querer  Fernando  Delgado  pro- 
seguir  n'estes  trabalhos,  tendo  para  ajudal-o  um  boraem 
lâo  experimentado  e  resoluto. 

Em  compensação  fundou  em  Vilia  Boa  uma  fabrica  de 
tecidos,  que  poucos  anu  os  trabalhou,  e  procurou  também 
dar  uma  marcha  mais  regular  à  admiDísiração  da  companhia 
mineralógica  da  Anicuns,qoando  já  no  seu  ultimo  período. 
Durante  o  seu  governo  fizera m-se  importantes  reformas 
na  milicia  paga,  o  regulou-se  a  marcha  dos  correios  para  o 
Pará.  A'  sua  custa  reconstruiu  Fernando  Delgado  o  quartel 
general »  em  cuja  obra  gastou  quasi  oito  contos  de  réis. 

Tendo  a  varíola  invadido  o  sul  de  Goyaz  em  1811,  e 
alacado  o  arraial  de  Meia  Ponte,  mandou  estabelecer  um 
cordão  sanitário,  para  evitar,  como  de  facto  conseguiu, 
que  o  mal  se  propagasse,  e  fosse  á  capital,  como  em  1771 , 
e  fiiesí^e  os  grandes  estragos  que  então  produzira. 

Também  no  seu  tempo  o  território  da  capitania  foi  cir- 
cumscripto  aos  limites  que  hoje  tem  pelo  lado  de  Minas  e 
S.  Paulo. 

Creada  a  comarca  de  Piracalu  na  conformidade  do  al- 
vará de  IT  de  Maio  de  1815,  por  aviso  datado  de  4  de 
Abril  do  anno  seguinte  mandou-se  desannexar  de  Goyaz  os 
julgados  do  Araxàe  Desemboque,  ficando  a  capitania  de 
Minas  de  posse  de  toda  essa  vasta  extensão  comprehendida 
entre  o  Parnabyba  e  Rio  Grande  e  testando  com  a  capitania 
deMato-Grosso. 

Por  provisão  de  17  de  Novembro  de  1819  se  ordenou, 
para  aggravar  o  mal  causado,  que  a  arrecadação  das  rendas 
doestes  julgados  se  fizesse  pela  repartição  fiscal  de  Minas ; 
mas  eâta  provisão,  por  virtude  do  que  representou  o  pro- 
curador geral  de  Goyaz,  padre  José  Rodrigues  Jardim»  foi 
revogada  por  ordem  do  ministério  da  fazenda  de  26  de 
Julho  de  18^3,  que  mandou  fosse  a  arrecadação  feiL:k  pela 
TOMO  xxviii,  p.  u.  .  Í4         , 


—  106  — 

junta  de  fazenda  de  Goyaz,  segundo  liavia  ordenado  a  pro- 
visão de  8  de  Fevereiro  de  1817. 

Apezar  do  estado  precário  da  capitania,  não  era  ella  pou- 
pada quando  se  tratava  de  contriliuições  e  Gntas.  Depois 
de  tantos  meios  inventados  para  extorquir  dinheiro  aos 
seus  pobres  habitantes,  foi  lembrado  mais  um. 

A  contribuição  voluntária,  que  só  em  nome  o  fora,  es- 
pécie de  imposto  t^stabelecido  pela  carta  régia  de  16  de 
Novembro  de  1810,  cujo  producto  devia  ser  applicado  ao 
resgate  dos  portuguezes  presos  em  Argel,  foi  cobrado  no 
governo  de  Fernando  Delgado,  e  produziu  mais  de  vinte 
contos,  que  foram  remettidos  para  a  curte. 

Para  completar  a  resenhados  factos  succedidos  durante 
este  governo,  lembraremos  que  foi  ainda  no  seu  temp^i,  qae 
começou  a  funccionar  a  junta  do  desembargo  do  paço, 
que  o  alvará  de  25  de  Marro  de  1818  creou  n:is  capitanias 
e  a  provisão  de  33  de  Julho  do  mesmo  anno  mandou 
cumprir.  Na  primeira  sessão  trabalharam  'o  ouvidor  da 
comarca  de  Villa  Boa,  António  Jos('»  Alves  Marques  da 
Costa  e  Silva,  João  Josr  do  Coulo  riiiimarãí^s,  que  servia  de 
juiz  de  fora,  e  o  ouvidor  da  comarca  do  S.  João  das  Duas 
Barras,  Joaquim  Theolonio  Segurado. 

Governou  Fernando  Delgado  11  aniios.  Achando-se  gra- 
vemente enfermo,  e  cançado,  solicitou  sua  demissão,  que 
lhe  foi  concedida  ^nn  3  de  Julho  de  1819,  dala  em  que 
também  foi  nomeado  para  succeder-lhe  o  ox-governadordo 
Ceará,  Manoel  Ignacio  de  Sampaio. 

Tendo  ordem  de  entregar  o  governo  nas  mãos  do  seu 
successor,  e  demorando-se  esto,  esteve  ainda  na  direcção 
dos  negócios  da  capifania  até  2  de  Agosto  de  1820,  data 
em  que  a  passou  ao  governo  de  successão,  visto  assim  têl-o 
ordenado  a  carta  régia  de  27  de  Janeiro  do  mesmo  anno. 


—  107  - 


sera  embargo  da  primeira  recommeadaçao,  Tislourgiro 
seu  L*stadõ  de  saíide  que  o  fiziísse. 

Na  conformidade  do  Alvará  de  lá  de  Dezembro  de  1770 
foram  chamados  para  o  goveroo  interino  o  oayidor  António 
José  Alves  Marques  da  Costa  e  Silva,  o  vigário  geral  e  go- 
vernador da  prelazia,  padre  Luiz  Anlooio  da  Silva  e  Sousa, 
e  o  coronel  Álvaro  José  Xavier. 

O  seu  ullimo  dever,  em  obediência  ás  ordens  rôgiasj  foi 
instruir  aos  seus  successores  do  estado  dos  negócios  da 
capitania ;  kl  o  em  succinlo  relatório,  e  do  qual  se  vê  que 
não  era  esse  estado  lisongeiro,  sobretudo  na  parle  relativa 
ãs  Dnanças,  que  nunca  pôde  regular  satisfactoriamente, 
ap^zar  da  economia  que  observou  na  gestão  dos  dinheiros 
publicos- 

E'  o  próprio  Fernando  Delgado  quem  falia: 

H  O  meu  antecessor,  vendo  o  grande  deficit,  das  rendas 
reaes,  logo  que  tomou  posse  do  governo  d*estaprovincia, 
na  qual  havia  já  uma  grande  divida,  formalísou  um  plano 
de  reforma,  incluindo  o  subsidio  anaual  de  três  arrobas  de 
ouro,  que  requerendo  real  quinto,  e  equilibrando  a  recei- 
ta com  a  despeza,  e  ficando  uma  pequena  quantia  para  ir 
amortizando  pro  rala  a  divida  passiva,  e  o  qual  sendo  ap* 
provado  começou  a  ter  o  seu  devido  effeito  em  o  principio 
de  meu  governo  i  doesta  épocha  até  o  presente  têm  concor- 
rido para  augmento  da  receita:  1%  os  impostos  da  sabi- 
da do  gado  e  da  carne  verde,  posteriores  ao  dito  plano; 
2*,  ã  considerável  somma  de  âáilOíís^SfíG  que  ulilisou 
a  real  fazenda  no  referido  intervallo,  proveniente  das  ar- 
rematações dos  dizimos ;  3*",  a  quantia  de  d:3o2$18^ 
que  se  cobrou  por  conta  dos  alcances  verificados  no  receo- 
ceamento  das  folhas,  e  a  de  l:õ3SjJ3GH  por  couta 
das  guias  extraviadas;  V,  a  reiiucç^io  de  98600  que 
vencia  cada  praça  dos  olficiaes,  iaferiores  e  soldados  da 


-  106  — 


companhia  de  dragões  a  litulo  de  forragem,  a  IfiDO 
com  que  ficaram,  em  consequência  do  plano  qve  lefeiá 
real  presença»  e  que  íoí  conJirntado  pelo  decreto  dB  27  da 
Agosto  de  lét  t ;  d%  o  forúecimenlo  de  munição  para  a  tro- 
pa, existente  n*esta  capibniâ,  e  de  milbo  para  os  cafiUos 
do  piquete,  que  tem  sido  feito  das  aldéas  dos  índios akais 
próximas,  onde  tenho  promovido  a  cultura  para  es$e  fim» 
0  do  que  se  acha  incumbido  o  tenente-coronel  Alrara 
José  Xaifier,  regente  geral  das  mesmas  aldêas;  porém,  uâo 
obstaale  todas  estas  vantagens*  tem  sempre  havido  deficiii 
e  em  consequência  não  pequena  divida  passiva  em  todo  o 
tempo  do  meu  governo»  para  o  que  concorreram  circunj- 
stancias  que  o  citado  plano  não  podia  antever :  i""^  a  pro- 
gressiva diminuição  que  tem  soffrido  o  rendimento  do 
real  quinto,  que,  não  chegando  desde  ISU  ás  tree  irrobas 
consignadas  annualmente,  com  que  seguramenle  contava 
ojmeu  Eim.  antecessor,  em  1819  apenas  rendeu  pouco 
mais  de  uma  arroba ;  2*^  o  grande  augmento  que  se  ob- 
serva  em  todas  as  folhas,  principalmente  na  militar,  em 
visla  das  que  existiam  ao  ponto  da  reforma ;  3%  os  venci- 
mentos da  guarda  volante  da  villa  de  S,  João  da  Palma,  e  os 
das  tripolaçôes  das  canoas,  promptas  no  Porto  Real  paia  o 
correio  que  faz  commuEicação  da  corte,  e  das  provindas 
do  interior  com  a  do  Pará,  de  que  so  acha  incumbido  o 
sargento-mòr,  coramandante  do  mesmo  Porto  Real ;  l\as 
assistências  feitas  a  vários  oí&cíaes  hespanhóes  emigrados, 
assim  como  aos  naturalistas  de  S.  M*  Imperial,  Real,é 
Apostólica,  c  para  se  proraptificaremas  machinas  de§a* 
çSo^  tecelagem,  e  de  meias ;  5^,  a  fallencia  das  dividas,  de 
que  são  susceptiveis  todos  os  rendimentos,  principalmente 
dos  dis^imos  administrados,  c  que  o  meu  Exm.  anteceder 
suppóz  exacta,  e  aunualmeute  entrados  nos  cofres;  6', 
finalmente  a  razão  de  se  a[kplicar,  como  sempre  foi  eslylo, 


109 


o  gado,  qiiaodo  não  tom  licHaate,  para  amorUuçlâ  da 
divida  pretérita,  quando  no  sobredito  plano  foi  considera- 
do como  rendimento  liquido  acuro,  c  o  que  sò  tem  contri- 
buído para  satisfação  de  uma  grande  parte  da  dita  divida 
pasÊiYa.  » 

A  situação  económica  era  afflictissima,  e  cadavez  iaa 
peior;  em  lí^09  a  receita  era  de  47:866$83i  e  a  desr- 
peza  de  43;297823[)  em  1819  o  balanço  apresentaTa 
uma  renda  d^)  37:873?j830,  e  uma  despeza  etTecUva  de 
fjO:846!í01â.  Era,  pois,  crescido  o  deficit  í  convindo 
observar  ainda  que  na  receita  de  1819  figuravam,  além 
dos  impostos,  qne  já  se  arrecadavam  em  1809,  mais  os  que 
se  denominavam,  propinas  de  contractos,  sabida  do  gado 
vaccum,  carne  verde,  sello  da  lei  de  24  de  Janeiro  de 
1804,  e  o  correio. 

Estes  deficits  constantes  aggravavam  a  divida  passiva, 
para  o  que  mnito  Lambem  concorria,  como  fica  dito,  o  de- 
crescimento  da  renda  e  a  diminuiçío  dos  quintos.  N*esta 
ultima  verba  de  receita  já  ap parecia  um  alcance  no  ultimo. 
periodo  financeiro  de  45:681  J5^960,  que  inlluia  podero- 
samente na  divida  passiva,que  em  f  8 1 7  subia  a  83;0805&83íi, 
a  que  addicionando-se  72:096^^94  de  deficit  de  exercicios 
passados,  fazia  attingir  o  alcance  da  fazenda  publica  ã  enor- 
me somma  de  20  i :  459J5089  ! 

Era  este  o  effeclivo  empenho  da  capitania,  do  qual  não  se 
podia  desaggravar  pelns  meios  ordinários.  Tal  era  a  situação 
dos  negócios,  quando  Fernando  Delgado,  dando  posse  ao 
IriumviralOt  se  retirou  para  o  flio  de  Janeiro,  afim  de  se- 
guir para  Lisboa,  onde  tinha  de  exercer  o  lugar  de  conse- 
lheiro do  conselho  de  fazenda,  para  que  fora  nomeado  por 
decreto  de  4  de  Junho  de  18Í8 ;  sendo,  porém,  transferido 
depois  para  o  mesmo  lugar  no  tribunal  de  fazenda  do  Bra- 
sil, ficou  no  Hío  de  Janeiro. 


-  110  - 

Os  servidos  prestados  por  Fernando  Delgado  na  carreira 
administrativa  foram  bem  considerados  pelo  monarcha, 
que  lh'os  recompensou  com  as  commendas  de  Cbristo  e  de 
S.  Thiago  da  Espada. 

Ia  tâo  bem  encaminhado  na  carreira  publica,  que  o 
mais  bello  futuro  parecia  aguardai-o :  de  repente,  porém, 
uma  nuvem  carregada  pairou  fatídica  sobre  sua  cabeça, 
como  um  horóscopo  maligno :  «  possuido  de  hypocon- 
dria  assaz  violenta,  que  por  ultimo  o  privou  de  reflexionar 
com  prudência  e  madureza  sobre  a  sua  conservarão  pró- 
pria, com  uma  pistola,  disparada  em  si  mesmo,  terminou 
no  Rio  de  Janeiro  ávida,  contando-se  o  dia  17  do  mez  de 
Fevereiro  de  I8ál.  »  (8o) 

Por  muito  tempo  indagámos  as  causas  de  tão  lastimoso 
acontecimento;  um  homem  do  seu  tempo  revelou-nos  se- 
gredos da  vida  intima  de  Fernando  Delgado,  que  confirmam 
quanto  a  este  respeito  escreveu  Augusto  de  Sainl-Uilaire, 

Vejamos  o  que  diz  o  sábio  naturalista  quando  falia  de 
Fernando  Delgado: 

«  Xo  dia  seguinte  ao  convite  que  me  havia  feito  o  go- 
venia'Ior,  diri^M-me  a  palácio  á  hora  do  almoro.  Otípoisde 
alravess  ir  o  .ilpenJre,  de  que  j;t  fallei,  e  qu.*  serve  de  cor- 
po de  leniria,  galguei  a  escada,  e  eiilníi  em  um  vestíbulo, 
que  o  corpo  da  «^aianhi  priva  da  luz,  e  onde  eslá  |)0Stada 
uma  siMiliiielLi.  lima  poria  fechada,  segundo  o  antigo  uso, 
com  um  r;ísposleiro  d*'  paniio  verde  com  as  armas  de  Por- 
tugal, cominuiiica  para  uma  sala  cercada  de  bancos  de  páo 
com  grandí'S  espaldar 'S.  Ahí  encontrei  reunidas  as  princi- 
paes  aucloriflades  do  p.uz,e  logo  appareceu  o  capitão  gene- 
ral. A  primeira  cousa  que  ftíz,  depois  de  ter  comprimenta- 
do  a  todos,   foi  apresentar-me  duas  crianças  do  sete  a 

(8U)  IMzAHRo.— Afcm.  Z/íW.  loni.  U  »»  piifr.  178. 


-  111  - 

oilo  annos,  uraraptaz  e  uma  menina,  dizendo  :  «  São  dois 
pequenos  goyanos,  filhos  do  amor ;  mas  S.  M.  leve  a 
bondade  de  os  reconhecer  por  m:^us  e  de  os  legitimar.  » 
Vieram  annunciar  que  o  almoço  estava  á  mesa.  Passámos 
por  um  corredor  muito  largo,  e  fomos  ter  a  uma  sala  es- 
paçosa, triste,  mas  bem  mobiliada.  O  almoço  foi  servido 
n*uma  sala  um  pouco  escura  e  acanhada.  As  iguarias  eram 
abundantes  e  bem  preparadas ;  a  porcellana  e  a  prata 
brilhavam  sobre  a  mesa.  Era  impossível  não  maravilhar- 
nos  de  tanto  luxo,  considerando  que  tudo  vai  a  Villa  Boa 
em  costas  deaniraaes,  e  que  estávamos  a  300  léguas  do  li- 
toral.... 

«  Três  dias  depois  da  minha  chegada,  o  general  mos- 
trou-me  todo  o  interior  do  palácio,  nome  pomposo  e  im- 
próprio do  edifício  que  o  tem.  Os  repartimentos  são  es- 
paçosos, porém  tristes  e  escuros.  A  mobília  foi  feita  no 
paiz.  Faz  parto  do  palácio  um  pequeno  jardim  abandona- 
do. Calçados  os  passeios,  como  em  geral  são  os  de  todos 
os  jardins  d'este  paiz,  dá-lh(3  isto  um  aspecto  desagradável 
e  extremamente  triste.  Um  repuxo  d'agua  ornava-o  ou- 
tr'ora,  mas,  sendo  os  tubos  de  madeira,  e  não  tendo  sido 
renovados,  apodreceram. 

«  Fernando  Delgado,  que  governava  Goyaz  na  época  da 
minha  viagem,  tinha  alli  chegado  em  26  de  Novembro  de 
180J.  Era  um  homem  calmo,  de  espirito,  instrucção,  in- 
tegro, o  conhecedor  do  mundo.  Desejava  sinceramente 
fazer  bem ;  porém  havia  encontrado  por  toda  a  parte  a  re- 
sistência passiva  a  mais  desanimadora,  resultado  da  apathia 
dos  habitantes  e  do  deleixo  do  governo  central.  Vendo 
desde  o  começo  de  seu  governo  que  a  província  de  Goyaz 
n3o  podia  tirar  recursos  da  exploração  das  suas  minas, 
animou  os  habitantes  para  se  dedicarem  á  lavoura  e  ao 
commercio,  procurou  dar  sabida  ao  producto  das  suas 


-  112  — 

terras,  empenhando-se  na  navegação  do  Tocantins  e  do 
Àraguaya.  Foi  perfei lamente  auxiliado  pelo  ouvidor  da 
Comarca  do  norte  Joaquim  Theotonio  Segurado,  c  felizes 
resultados  coroaram  as  tentativas  d'este  magistrado;  porém 
para  seguimento  de  tão  grandes  emprezas  era  preciso  mais 
perseverança  c  actividade,  de  que  não  deram  provas  os 
goyanos,  de  sorte  que  os  gloriosos  esforços  de  Fernando 
Delgado  ficaram  alé  hoje  (1819— 182S)  quasi  sem  resultado. 

«  Um  dia  em  que  almoçava  em  palácio,  um  joven  ma- 
gistrado, recera-chegado,  mostrou  alguma  sorpresa  pelos 
costumes  do  paiz,  e  observou  que  admirava-se  de  que  os 
habitantes  de  Villa  Boa,  vivendo  com  suas  barregãs,  como 
se  fossem  suas  mulheres,  se  não  casassem  com  ellas. 

<í  Quereis,  replicou  o  governador,  apontando  para  seus 
filhos,  que  espose  a  mãi  d*estes  meninos,  a  filha  de  nm 
carpinteiro  ?  Estas  palavras,  que  puzerara  fim  á  conversação 
indicavam  já  os  sentimentos  que  influiram  para  o  deplo- 
rável fim  de  Fernando  Delgado.  Deixou  o  governo  no  mex 
de  Agosto  de  1820,  para  voltar  a  Portugal,  e  partiu  de 
Villa  Bo:i  com  seus  filhos  e  sua  concubina.  Chegados  ao 
llio  de  Janeiro,  esta  lhe  declarou  que  eslava  disposta  a 
acompanhal-o  para  a  Europa,  não  como  sua  amasia,  mas 
como  sua  mulher. 

a  Fernando  Delicado,  a  (juem  ns  soíTrimentos  tinham  en- 
fraquecido a  razão,  não  pôde  supportar  a  alternativa,  em 
que  se  achava,  de  desposar  a  filha  do  carpinteiro,  ou  de 
deixal-a  no  Brasil,  e  pôz  fim  aos  seus  dias.  »  (81) 

Foi  seu  successor  no  governo  Manoel  ígnacio  de  Sampaio, 
offioialda  mariídia  real,  que  já  havia  governado  o  Ceará 
com  alguma  distincçâo.  Nomeado  por  carta  de  S  de  Julho 
de  1819,  tomou  posse  a  4  de  Oulubro  de  1820. 

(81)  i4.  Saint-Ililaire.^Viag.  d  pror.  de  Goyaz,  tom.  2*»,  pags.  30 
82c8i. 


-  H3  ^ 

CAPITULO    XIX 

(1820—1821) 

CSiega  a  Qoyaz  a  noiicia  dos  aconlecimentos  havidos  em  Porlugal  em 
1820* — f^roíédimeolo  de  Manoel  Ignacio  de  Sampaio.— Pi oclamação» 
—26  de  Abril— Jura  o  governador  íidelidade  a  El-rei,  ás  cortes,  e 
á  íutura  constituição.— Convocação  das  junlas  parocliiaes,  —  Depu- 
lados  e  lei  los  para  as  c6rtes  coiist  í  tu  in  te  â.— -Primeiros  pâssos  para  a 
eleição  de  ura  governo  provisório.  —  O  padre  Lurz  Bartliolomeu 
Marques  promotor  d'egta  medida,  —  Manoel  Igoiício  oppoe-se  á 
creação  do  governo  provisório.  —  Tenlativas  patrióticas.— Plaoo  de 
conjuração,  íiaqueza  dos  conjurados.  —  í^risào  do  capitão  Fitippe 
^otoiíio  Cardoso.— {«teni^eníílo  do  povo.— Machinatjões  de  Sampaio. 
**0s  patriotas  são  expulsos  d.i  capital,— Inslatlaçao  de  ura  governo 
provisório  em  Cavalfiaute.—O  vigário  de  Cavalcante  atraic-Ôa  os  seus 
correligionários.  — O  desembargador  Joaquim  Theolonio  Segurado, 
presidente  do  governo  provisório  de  Cavalcante.  —  O  movimento 
progride,— Temores  de  Sampaio.— Ordem  á  camará  da  capilãl  pam 
a  ci^ãçao  do  governo  provisório,— il  eleiçsio  n5o  se  verifica  e  porque, 
--0  dia  30  deDezembro,— Creaçâo  da  junta  adralnistralíva  interina. 
-— Hen  juramento  e  posse. --Proclamação  da  camata. 


As  ídéus  liheraes,  que  por  toda  a  Europa  tinham  in- 
vatlido  as  nacionalidades,  mudando  o  caracter  das  Insti- 
luiçôesi  tí  suavisaiido  o  rigor  do  regimen  militar  por  que 

acabava  de  passar,  fazendo  lambem  largas  conquisLis  no 
espirito  do  povo  porluguez, produziram  os  memoráveis  acon- 
tecimentos que  em  1 820  succede rara  nas  margens  do  Douro 
na  ausência  do  rei,  que  desde  1808  se  achava  no  Brasil 
com  quasi  toda  a  sua  curte. 

O  grilo  do  Douro  achou  ccho  em  toda  a  monarchia»  e  oo 
dia  15  de  SeLeiuhro  de  1820  lirmavam-se  em  Lisboa  os 
princípios  tiberaes, 

A  noiicia  do  movimento  constitucitmal,  chegando  ao  Rio 
de  Janeiro,  liãu  loi  bem  acolhida  pelo  poder ;  pretendeu-se 

TOMOXXVni,  p.  IL  15 


114 


reagir  conlra  i  revolaçâo,  que  abria  largas  porias  às  ins- 

Litujçõfís  livres,  e  solapiva  os  alicerces  do  telho  e Jificio  da 
manarchia  de  direi  lo  divino :— rDasiin|)aLtíiite  scríuo  esíur- 
ço,  que  lealasse  coaler  o  espirito  publico^geralrnenle  domi- 
nado d^essas  idéas  de  rL^eoerâção  polilica. 

Os  mo  vim  tintos,  que  tlesde  logo  appareceram  na  Bahia, 
DO  Para,  m  Rio  de  Janeiro ^  e  quo  rápidos  se  propagaram 
como  uma  correnlo  eltíclrica,  convenceram  a  D,  João  da 
necessidade  de  armuir  atis  desejos  dos  seus  vassallos- 

Em  4  de  Julho  de  18âi  jurou  tí.  João  as  bases  da  cons- 
lituiçao  que  as  côrles  reu urdas  em  Lisboa  houvessem  de 
fazer: — d'eslu  modo  procedendo,  e  de  accôrdo  com  us  di- 
clames  da  prudência,  procurou  também  consolidar  a  exis* 
tencia  do  reino  unido,  já  vascíllanle  nos  seus  fundanienlus. 

No  dia  t%  de  Abril  de  1831  pelas  9  horas  da  noile,  che- 
gando á  cidade  de  Goyaz  o  correio  da  côrle,  rapidamente 
se  espalhou  a  noticia  dos  grandes  acontecimLvnlos  que  Um 
pelo  Hio  de  Janeiro*  e  que  a  lodos  encheu  da  mais  agra- 
dável sensação.  Os  goyanos  acordavam  de  um  profunde 
lelhargo,  para  se  entregarem  ás  explosões  do  niaior  pntzêr. 

Manoel  Ignacio  de  Sampaio  mediu  as  dilliculdades  da 
sua  situação,  à  vista  do  enthusiasmo  com  que  n'essa  mesma 
noite  lodos  se  congratulavam  pelos  acontecimenlos  que  nj^ 
tinham  vindo  surpreliender. 

Não  recebendo  oílicialmenle  o  decreto  da  convocaçâii 
das  cortes,  e  sendo  urgente  proceder  desde  logo  para  acal- 
mar o  enthusiasmo  popular,  c  dominar  a  situaç^lo,  no  dia 
seguinte  pela  manha  fez  aQxar  a  seguinte  proclamação  : 
H  Honrados  ebons  goyanos!  Chegou  emflm  o  suspirado 
momento  da  regeneração  da  monarchia  pr)rtugneza,  e  da 
prosperidade  do  reino  unido  de  Portugal,  Brasil  e  Algâr- 
vesf  El-rei  nosso  senhor  dignou-se,  para  ventura  nossa, 
de  felicitar  e  jurar  no  dia  26  de  Fevereiro  próximo  pas- 


—  Í18  ~ 


do  a  Cfinstituipo  que  fizerem  as  cortas  actual m en le  reií- 
Tiifias  om  IJsboa ,  paru  as  quaes  sâo  lambem  convocados 
depuUílos  (Fiíste  reino  do  Brasil.  Não  se  podem  calcular 
as  vantagens  que  de  uma  tão  nobre  resoluçllo  devem  resul- 
tar aoportuguezes  de  um  e  outro  hemisplierio.  Sao  com- 
tudo  os  meus  caros  goyanos  os  que  cerlaraente  mais  uti- 
Usarão,  por  isso  que  t^ilvez  por  falta  de  quem  até   agora 
advogasse  ósseos  interesses  se  tem  conservado  sujeitos  às 
mais  antigas  reslríc4}ôes  coloniaes,  com  pouca  ou  nentiuma 
raodiíicação,  as  quaes^  segundo  os  principios  liberaes  das 
cortes  de  Lisboa,  é  quasi  certo  que  nãosubsislirão  mais,  e 
eu  teria  a  grande  consolação  de  ver  em  breve  lempo  al- 
cançados por  meios  directos  aquellas  mesmas  providen- 
cias que  esperava  obier  a  seu  favor,  mas  som  duvida  no 
fim  de  largos  annos,  e  talvez  depois  de  quantos  traba- 
lhos e  instancias,  que  comludo  me  não  pouparia,  ape- 
zar  da  antiga  ordem  de  cousas.  Goyanos  l  o  primeiro  e 
principal  golpe  da  nossa  felicidade  foi  dado  pelo  gran- 
de D,  Joào  VL  nosso  amado  soberano,  e  por  seu  invi- 
cto fdho  o  príncipe  real  do  reino  unido;  nío  o  raullogreis: 
cumpre  da  nossa  parte  proceder  com  toda  a  madureza,  cir- 
curaspecçao  e  prudência  nas  eleições  á  que  deveis  pro- 
ceder para  escolha  dos  vossos  representantes  nas  cortes, 
evitando-se  todos  e  quaesquer  distúrbios:  cumpre  ter  con- 
fiança na  ilecisuo  íjas  cortes,  que  melhorarão  considera- 
velmeole  as  vossas  circiírastancias:  cumpre  cmfim  que  os 
actuaes  empregados  públicos  da  capitania  vos  continuem 
a  merecer  o  conceito  que  n'estf  s  últimos  tempos  vos  \èm 
devido  pelas  activas  providencias  dadas  em  vosso  favor^ 
como  não  podeis  ignorar.  Com  esUis  cautelas,  bem  pró- 
prias do  vosso  caracter,  vereis  dentro  cm  mui  breve  tempo 
prosperar  a  capitania  em  minerarãa,  agricultura  e  com- 
mercio,  de  maneira  que  até  a  vos  mesmos  vos  seguirá 


116 


espanto  e  admiração.  Viva  a  nossa  sanla  religião  !  Vi?â 
el-ret  nosso  senhor,  o  invicto  príncipe  real  do  reino  imido 
e  toda  a  augusta  casa  de  Bragança!  Vivam  as  còrles  de 
Lisboa,  e  a  constiUiição  I  Goyar,  2S  de  Abril  de  1821.— 
Manúêl  Ignamo  de  Sarrhpaio. 

No  meio  do  enthasiasnio  geral  este  curioso  documento 
passou  quasi  desapercebido,  servindo  apenas  de  comeulo  a 
aquelles  que  afagavam  no  espirito  idéas  mais  adianlad;i5,  e 
um  patriotismo  sincero  e  legitimo,  que  repollia  toda  a  idêa 
de  união  com  portugueses. 

O  espirilo  de  nacionalidade  principiava  a  nianiíestar-se, 
e  os  mais  avisados  viam  approximar-se  uma  nova  era  de 
regeneração  politica,  cujo  primeiro  acto  seria  a  declara- 
ção da  nossa  independência*  Manoel  Tgnacío  sentiu  atra- 
vés das  manifestaçiSes  populares  uma  voz  prophetica  que 
lh'o  annuDciava;  cumpria-lhe  dominar  a  situação,  $e  bem 
queria  servir  a  causa  portugueza:  assim  o  fez- 

No  dia,  em  que  proclamou  aos  povos,  mandou  con- 
vidar as  corporações  ecclesiasticas,  civis  e  militares  pa- 
ra no  dia  '26  solemnisarem  o  acto  de  ratificação  de  ju- 
ramento de  obediência  e  fidelidade  a  el-rei  e  de  adhe- 
são  às  cortes,  e  à  futura  consUtuiçuo.  Efíectivamente 
u'esse  dia  houve  lugar  nos  paços  do  conseíbo  a  ciíre* 
monia  do  juramento,  e  era  seguida  um  Te-Dmmiem  ac- 
ção de  graças  pur  tao  felizes  acontecimentos,  recitando 
ii'essa  oecasião  ura  enérgico  e  patriótico  discurso  o  gover- 
nador da  prelazia,  I.uíz  António  da  Silva  e  Sousa. 

A'  uoite  se  itluminaram  as  casas  e  no  quarlel-gene- 
ral  se  reuniram  os  funccionarios  e  pessoas  gradas  da  e^ 
pitai;  o  povo,  teudo  á  sua  frente  uma  banda  de  musica, 
parcorreu  as  ruas  da  cidade,  dando  enthusiasiicos  vivas 
a  el-rai,  a  S,  AUeza  Real  e  as  cortes;  a  satisfarão  pu- 
bbca  não  tinha  Umites:  todas  as  libras  do  coração  d*eâ< 


—  117  - 


I 


) 


se  povo  estremeciaiB  de  prazí^r,  porque  se  lhes  fallára  de 
progresso  e  rio  liberdade. 

Dois  dias  depois  eram  expedidas  as  ordens  p^ira  a  con- 
võcâçãij  das  jtmlas  eteiloraes  das  freguezias,  quo  deviam 
eleger  os  deputados  às  cortes  constiluinles.  No  dia  7  de 
Agosto  furara  livremente  eleitos  o  ouvidor  da  comarca 
do  norte  ioaquim  Thnotonio  Segurado,  e  o  governador 
da  prelazia  Luiz  António  da  Siíva  e  SoEsa,  e  supplento 
Plácido  Moreira  de  Carvalho,  residente    no  Pará. 

Em  Junho  chegaram  lia  eòrLe  a  Goyaz  noticia^  docur- 
so  dos  acontecimentos;  e  entáo  se  soube  que  el-rei  D*  JoSo 
se  havia  embarcado  para  PorlugaU  deixando  a  D,  Pedro 
como  seu  lugar  tenente,  com  ministro  da  sua  escolha. 

Desde  então  começaram  a  agitar-so  com  mais  vigor  as 
idóâS  de  emancipação  politica:  à  frente  do  movimento  «e 
collocoii  sem  reserva  o  padre  Luiz  Bartliolomèo  Marques» 
homem  inlulligentc  e  de  ríTonhecida  influencia  o  qual 
íio  tempo  de  Fernando  Delgadt»  servira  de  secretario 
do  governo.  Ao  padre  Luiz  Barlholoméo  acomjkauharam 
na  propagação  das  idéas  líberaes  e  patriolicas  o  capitão 
Fraucisco  Xavier  de  Barros,  o  capitão  Filippe  António 
Cardoso»  o  padre  José  Cardoso  de  Mendonça,  o  padre 
Lacas  Freire  de  Andrade»  e  um  soldado  de  nome  Fe- 
lisardo  Nasaretli,  que  mnib»  se  distinguiu  e se  celebrisou 
por  este  fado. 

Poucos  dias  antes  de  começarem  a  funccionar  as  jun- 
tas e  lei  lo  raes  { princípios  de  Jnnho  )  appareceram  aflíxa- 
das  em  vários  pontos  da  capital,  e  na  poria  do  pruprio 
quartel-general  ,  proclamações  violentas,  fomentando  a 
desunião  entre  os  brasileiros  e  portuguezes. 

Este  facto  revelava  bem  as  intenções  dos  patriotas;  e 
Manoel  Ignacio»  comquanlo  receiasse  o  emprego  do  me- 
didas violentas  contra  os  reconhecidos  auctores  de  taes 


—  118  — 

proclamações,  julgou  entretanto  prudente  neutralisar  os 
seus  eiTeítos. 

Attríbuíndo-se,  c  com  razão,  aos  padres  Luiz  Bartholo- 
méo,  e  Lucas,  e  principalmente  ao  primeiro,  a  pater- 
nidade de  taes  proclamações,  e  muitos  outros  actos,  que 
revelavam  intenções  revolucionarias,  cogitou  Sampaio  nos 
meios  de  conciliar  o  chefe  do  movimento. 

O  meio  escolhido  tinha  tanto  de  leviano  como  de 
inepto,  entretanto  foi  o  empregado. 

Mandando  o  governador  ir  à  sua  presenra  o  padre 
Marques,  o  reprehendou  severamente  pelo  procedimen- 
to que  até  então  tinha  tido,  e  ameaçou-o  de  severo 
castigo  se  não  mudasse  de  vida. 

Este  procedimento,  em  vez  de  produzir  o  resultado, 
que  rsperava  Sampaio,  sortiu  efleito  contrario.  Reco- 
nbecendo-se  temido  e  com  alguma  força  na  opinião 
publica,  o  apostolo  da  liberdade  goyana,  conquistando 
todos  os  dias  novos  proselytos,  continuou  com  mais  fer- 
vor na  sua  missão. 

Por  sua  parte  Manoel  Ignacio  contraminava,  empre- 
gando todas  as  anuas. 

Em  fins  de  Julho  o  ('orrrio  da  corte  dava  noticia  de 
novos  ovonlos,  que,  por  assim  dizer,  fortaleciam  a  con- 
vicrfio  dos  palriolas,  r.  os  animaram  achegar  mais  de- 
[)n*ssa  ao  tim  de  sous  desejos.  —A  passaj^eni  por  (ioyaz 
do  leneiili3«coroii(d  António  Navarro  de  Abrr»o,  que,  par- 
tindo da  còrle  em  parada  violenta,  se  dirigia  a  Mato 
Grosso,  mais  celeridade  imprimiu  ao  movimento,  porque 
a  ellc  devêramos  patriotas  lodos  os^pormenores  do  que 
ia  pela  corte,  e  pela  província  de  S.  Paulo,  onde  já  se 
havia  eleito  um  governo  provisório. 

Desde  então  o  padre  Luiz  Rarlholomèo  começou  cla- 
ramente a   propugnar  pela    installação  de    um  governo 


-  119  - 


pro  viso  rio,  que  le¥ãgse  pacificameiUe  a  revolução  ao  seu 

leriuo  Gria[.  A  esta  idéa  se  moslrava  hiislil  o  goveniador, 
a  i>oul(j  de  desapiifovar  publicaaiente  o  procedimeulo  do 
dii  S.  Paulo  por  ler  acoitado  a  prasideiicia  de  um  go- 
verno provisório. 

Eolrelafito  o  capitão  Fiíippe  António  Cardoso,  e  o  ca- 
pitão Barros,  auxiliados  pelo  soldado  Nuzaretln  teiulo 
,  grande  parte  da  força  allíciada,  prtíp:ir:iram  um  golpe  dt3- 
cisivo,  que  devia  ser  dado  na  noite  do  dia  14  de  Agostu; 
mas  avisado  Manoel  Igiuicio  uuia  hora  antes  [8  lioras  da 
noite) ^  por  uma  mulher  de  conducta  duvidosa,  da  conju- 
ração que  se  tramava  edu  plami  que  se  pretendia  execular, 
mandou  a  toda  pressa  chamar  o  teneule-coronel  Luiz  d:i 
Costa  Freire  de  Freitas,  ehefe  da  forçíi  publica,  e,  |jundo-o 
ao  corrente  de  ludo,  deu -lhe  as  instrucçôes  precisas,  e  u 
fez  partir  para  o  quartel  Foi  tal  a  actividade  empregada, 
e  tantas  as  medidas,  que  os  patriotas  não  ousaram  sv 
apresentar.  N'esta  mesma  noite  foi  preso  o  soldado  Naza- 
retb,  e  com  elle  alguns  outros. 

Recebendo  uo  outro  dia  Manoel  Ignacio  duas  denuncias, 
que  revelavam  todos  os  planos  dos  patriotas,  e  designavam 
os  seus  D  ornes,  enviou-as  ao  ouvidor,  afim  de  judicial- 
mente proceder  contra  elles.  O  ouvidor,  que  então  era  o 
Dr.  Paulo  Couceiro  de  Almeida  Homem,  fez  ver  ao  gover- 
nador a  conveniência  de  ser  pree^o  o  capitão  Filippe  An- 
tónio Cardoso,  afim  de  não  contiimar  a  influir  sobre  a 
força ;  effectivamenle  foi  logo  preso,  e  recolhido  à  cadéa, 

Kslava  dado  o  primeiro  golpe  contra  os  planos  dos  pa- 
IrioLis»  golpe  que  acobardou  a  maior  parle  d*elles.  No  dia 
seguinte  ao  d*esta  prisão^ os  commandantes  da  força  pu- 
blica foram  levar  a  Manoel  Ignacio  suas  homenagens  de 
respeito  e  obediência,  e  no  dia  IT  o  capitão  Francisco 
Xavier  de  Barros  <le  igual  modo  procedia  I 


-  «»  — 

Ha  manbS  de  15  lia-se  pelas  mas  da  capital  uma  pro- 
clamaçSo  do  gOTernador,  chamando  o  poTO  a  tíbeáwòT  i 
constitiúcSo,  e  preTeníndo-o  contra  as  machinacSes  dos 
revolucionários  e  anarchistas  (8a). 

(82)  Goyanos !  T5o  ditosos  foram  os  dias  26  de  Abril  e23  da  Jalho, 
cm  que  ea  de  accordo  ci^mfosco  Juramos  a  coustKuic&o  que  hmat* 
yeatem  de  fazer  as  cortes  reunidas  cm  Lisboa,  e  semelhanlemeBle  • 
as  bases  já  trocadas  da  mesma  constituíç&o,  como  lastimoso odia  de 
liontem,  em  que  soube  que  algumas  pessoas  mal  intencionadas  pre- 
tendiam com  pretextos  simulados  éslabelecer  entre  vós  a  desorden 
e  anarcliia,  o  que  me  decidiu  á  tomar,  a  bem  da  vossa  segurança, 
aquellas  medidas  que  de  mim  exigiam  as  provas  de  affecto  e  i 
s&o  que  de  vós  tenho  recebido  constantemente,  e  a  que  sei  i 
der  grato.  Goyanos  T  Grandes  s&o  os  bens  que  vos  devem  i 
da  nova  constituic&o,  mas  para  i  s  gomnles  é  necessário  pradai 
cia  e  moderação.  Se  vos  deixardes  allucinar,  e  ouvirdes  otecie 
Ibos  dos  inimigos  da  ordem  social,  bem  longe  de  vos  aproveitaiwi 
08  Inexplicáveis  benefieíos  da  constituído,  ao  contrario  vos  fnii 
sempre  precipitando  de  abysmo  em  abysmo.  Muitas  das  noasas  Ws 
terfto  certamente  de  sor  derrogadas,  ou  modificadas ;  já  algiwMB  a 
foram  pelas  bases  da  constituiçÂo  que  jurámos  no  dia  23  do  nas 
passado,  e  desde  então  so  acham  n'esta  capitania  em  pratica  todas  as 
sohrcditas  alteraçucs,  como  exigia  a  fidelidade  do  juramento  presta- 
do, segundo  o  judicioso  espirito  das  cortes  cm  seus  debates,  toda 
aquella  lei  ou  costume  que  não  tiver  sido  alterado,  por  decisáe  das 
mcsmus  còrles,  devo  continuar  a  ler  perfeita  observância,  assim  a 
pede  o  bom  da  ordem,  assim,  goyanos,  pede  o  vosso  bem.  £'  na- 
tural que  a  admioislraçào  publica  do  Brasil  venha  a  ter  algumas  ah 
terac^cs;  mas  devem  tão  somente  dimanar  da  sabedoria  das  cortes: 
a  nenhum  outro  cidadão,  ou  corporação  de  cídad&os,  toca  ftier 
taes  alleraçi)es,  cujo  procedimento,  além  de  tumulluario  e  destme* 
tivo  da  ordem  social,  até  seria  antí-consli tu cional.  Goyanos  I  Vás 
não  deveis  Iruhir  o  vosso  juramento  :  a  constiiuiçâo  é  a  nossa  bois 
de  salvação;  mas  os  abusos  que  os  malévolos  pretendem  fazer  d*esla 
santa  palavra  vão  conduzir-vos  ao  maior  dos  males  e  perfeita  anar- 
cliía.  Acautelaí-Vus  contra  as  suas  suggestòes,  não  lhes  deis  ouvidos, 
acreditai  uuícauienle  o  que  vos  aconselhar  quem  ha  dez  meies  tia- 


—  Í2!   - 


Suppunha  d' este  modo  ler  Sampaio  coDjurado  a  tampes- 
latle;  enganou-se,  que  Dão  estava  ella  de  lodo  desvanecida: 
entrelanlo,  escrevendo  ao  ministro  Carlos  Frederico  de 
Caula  sobre  os  acontecimenlos  qne  lemos  relatado,  c  sobre 
as  suas  appreliensões,  dizia :  «  Não  pude  saber  com  certeza 
qual  era  o  verdadeira  espirito  da  in Ululado  governo  pro- 
visória; mas  lenho  bastantes  idéas  de  que  era  a  total  in- 
dependência e  separação  do  reino  unido-  n 

Os  patriotas  recuaram  ura  pouco,  e  começaram  a  pro- 
ver com  mais  reserva,  e  Manoel  Ignacio,  reunindo  em 
rtbrno  de  si  algumas  adbesaes,  se  foi  tranquillisando: 
porém  a  padre  LqÍsí  Bartholoineo  couUnuava  a  trabalhar, 
escrevendo  para  toda  a  capitania  no  sentido  das  suas  idéas^ 
e  aguardava  occasiao  opporLuna,  para  dar  um  golpe  cer- 
teiro e  seguro. 

Proporcionuu-se-lhe  azado  ensejo  com  a  chegada  em  48 
de  Agosto  do  decreto  das  cortes  de  18  de  Abril  de  18áií, 
levado  por  um  negociante  do  Rio  de  Janeiro. 

■  Servindo  se  dos  principies  consagrados  n'este  decrelo, 

^TUlIm  sà  por  melhorar  as  voss;*s  tiircums  lane  ias»  como  viVs  reconhe* 
I     ceis,  quem  sempre  voâ  tratou  com  r&speilo,  com  fniuquâs&a  e  com 

■  stnceridiiííe,  quem  vos  ama  cnrdblmenle,  e  a  quem  taoias  provas 

■  lenijes  dado  de  pej feita  adliesr^o  :  se  esta  f5r  a  linha  don  vossos  pro- 

■  eedi  mentos,  breve  go /.areis  em  f>oeegõ  dos  incalculáveis  bens  d^ 
!iania  consiitaiçflo,  de  que  eípecialíoenic  depende  a  vossa  prosperi- 
dade o  a  de  todo  o  reino  uoido^  Vi^a  a  Dossa  sanla  religião  t  Vivam 
Ui  eiVrtes  exlruurdínariiis  daimc«'ioacniulniénle  reunidas  em  Lisboa! 
VHa  a  liberai  constiluiçào  que  estão  organizando  I  Viva  o  Sr,  n, 
Jofio  VI,  lui^go  amado  sotierano!  Viva  o  ínclito  principa  rea!  do  rei- 
no iinído,  aelurilniente  repente  d 'este  tio  íírasi!  1  Vivam  os  bons  e 
lionrados  íza^anos  l  Oesappareçain  de  entre  nos  os  malévolos»  fac- 
toreg  de  desordens  e  tumultos,  Intmigoâ  do  socego,  c  da  felioidade 
dos  bons  goyanos'  iioyiM,  15  de  Aposto  de  tíífl .^Ifimoi^/  Iptacio 
df  Sntnpitio, 

TOMO  KXVHl,  P.  n.  10 


—  «2  — 

O  padre  Bartbplomêo  aiacoa  com  yíTacidade  o  procedi- 
mento de  Sampuo  em  oppõr  tamanha  resistência  a  nma 
medida  qne  em  ontras  parles  se  tinha  jà  ado|itado,  e  qoe 
estava  nas  intenções  do  legislador  constituinte.  Pela  ma- 
nhã do  dia  19  era  jà  patente  a  excitação  dos  ânimos.  Os 
padres  José  Cardoso  e  Lucas  Freire  tinham  durante  toda 
a  noite  andado  em  moTimento,  lendo  e  explicando  a  dou- 
trina do  decreto,  c  indispondo  o  gOTcmador  no  animo  de 
todos:  preparava-se  um  pronunciamento  decisivo. 

No  dia  20,  vendo  Manoel  Ignacio  o  estado  de  excitação  a 
que  tinham  sido  levados  os  habitantes,  mandou  affixar  ama 
proclamação,  explicando  a  doutrina  do  decreto,  que  tanto 
se  prestava  aos  fins  dos  patriotas  (83) . 

(83)  Honrados  goyanos  1  Segunda  vez  pretendom  os  malévolos  ini- 
migos da  ordem  e  do  socego  publico  allucinar-fos  e  conduur-vosao 
maior  dos  precipícios  a  que  immediatamente  se  segu  irá  a  smm  lor 
tal  ruina.   Presentemente  (*.  com  uma  sinistra  e  aleif  osa  ioleij 
taç&o  do  decreto  das  c6rteS;^o  18  de  Abril  que  elies  querem 
rar  seus  desordenados  intentos.  O  mencionado  decreto  nos  quatiir 
primeiros  paragraphos  estabeleceu  os  meios  que  se  devem  seguir 
para  a  regencraçíio  polilica  do  reinu  unido,  a  saber:  perfeita  adliesfto 
as  còrles   cie  Lisboa,  jiiramenlo  á  consliluirão,  em  que  cilas  estão 
trabalhando,  e  eleiçíio  dos  deputados  que  nas  mesmas  cortes  doTcm 
representar  cada  uma  das  capitanias  do  Brasil,  sendo  feita  segundo 
o  molbodo  das  instrucçòes  dadas  pelo  governo  provisório  <le  Portu- 
gal em  22  de  Novembro  do  uuno  passado,  que  são  as  mesmas  que. 
S.    M.  mandou  observar    no  reino  do    Brasil  por  seu  real  de- 
creto de  7  de  Março.    Tudo  se  acha  cumprido  n*esta  capitania, 
e  tudo  se  fez  com  melhor  celeridade  talvez  do  que  em  nenhuma 
outra  do  Brasil  á  vista  das  circumstancias  locaes.  Só  resta  a  partida 
eíTectiva  dos  deputados,  para  o  que  játambcm  estão  expedidas  as 
competentes  ordens.  E  até  já  aqui  se  juraram  as  Imses  da  constí- 
tuiç&o,  e  já  se  acham  em  perfeita  observância,  o  que  não  exigia  o  ci- 
tado decreto  de  IS  do  Abril.  Nada  mais  resta  a  fazer  em  Go^az  para 
a  sua  regeneraçJto  politica,  que  é  inseparável  da  de  todo  o  reino 
unido,  do  que  esperar  em  socego  a  mesma  regeneração  politica  da 


Manoel  Ignacio,  auxiliado  pelos  seus  agentes/tinha  con- 
stíguido  dtísvirtaar  no  espírito  publico  as  intenções  d'a- 
quelles  que  advogavam  a  cieaçâo  de  um  governo  provisório, 
V'  d'esle  modo  crear  dois  partidos,  um  dos  quaes  o  acoin- 
panhava,  lendo  era  seu  favor  o  auxilio  da  força  materiaK 

Havendo  receios  do  que  os  indcpendenles  leu  lassem 
alguma  sorpresa,  a  tropa  eslava  aquartelada  e  *a  cidade 
em  agitarão,  à  vii^iluncia  do  governador  deu  lugar  a 
que  uo  dia  2ra  agitação  se  acalmasse^  e,  porque  se 
sabia  que  Manoel  I^íoacio  procurava  a  primeira  upportu- 
nidadc  para  dar  cabo  dos  promotores  do  moviniento,  a 
camará  endereçou-llie  um  oíDcio,  pedindo  que  lançasse 
um  véo  sobre  o  passado»  e  se  esquecesse  dos  fados  que 
Unham  occnrrido  até  entiu. 


!íab^oria  das  cortes»  e  cuiBprir  exacta  e  reli^osameote  tudo  o  t^e 
m  tBtt&tãiis  cortes  determinarcui ;  lodo  e  qualquer  outro  (irocmii- 
moulo  seria  uko  su  subveriívo  da  oriíem  sociat,  coutrariu  í\  del6r- 
míDucfio  dan  cortes,  mas  lúé  rlmmolríilínBrue  oppostoaa  espírito  da 
i5on*ililLiJí;ãOf  que  (odii  lende  au  soeego  c  irariquítliiiade  publíea  t 
n^o  dV*^la  níiluroza  âs  m^geslAes  e  conseltiofiqueoctualiiieale  vos 
dlo  os  Bf^pirítos  inquietos,  que  vós  bom  conheceis.  0;^  arts.  1**  e 
tí,*  do  ejlado  derreio  das  cortes  de  lèí  tic  Abrii  esíabelefein  as  me- 
didas que  os  povos  devem  loumr,  qu^imiu  da  purlo  dos  gov^rcose 
mais  emprejfados  públicos  eucouirem  diflículdades  ao  jurametilo  du 
cofiâlUuíção  e  á  nomeação  dos  d ep alados,  o  proscrevem  m  peaas 
em  que  incorrem  lào  inconsblerados  empre^nido^í  públicos,  medidas 
estos  que  eram  de  absoluta  necessiduilo,  nfio  %(}  porque  Ludó  deve 
ceder  AO  interesse  da  regem^raçíio  politieu  do  roiuo  unido,  mas  para 
rivalidar  os  procedimenlos  p(dilicos  da  iltiadeS.  Blígucl,  e  das  oa- 
pilanms  dt>  Uaní,  Babía,  e  tuJve/.  de  ítlgnrna  outra^  conforme  as  suas 
c!Írcumstanc)as  pariiculare'^.  \fas  osLá  o  iiiertcionado  decreto  bem 
longe  de  prescrever  que  se  lomesn  somclhaules  medidaíi  ii'aquollas 
capitanias^  em  que  nem  o  JuramenLo  da  con^tiluiçím,  uem  a  tiomaa- 
^ho  dos  deputados  eacoutraram  dJflicuJdíJide  aigumu^  o  quo^  fura 
de  ^da  n  duvida^  nem   mesmo  era  de  esperar  da  sabedoria  das 


—  124  — 

Manoel  Ignaeia  soube  apro?eilar-so  d*eslâ  circnmslâiiciaT 
que  parecia  revelar  a  fraqueza  dos  agitadores,  para  des- 
maralisal-ús,  e  é  mesmo  de  suppòrque  o  procedimeulo  da 
camará  fosse  por  6Uo  aconsêlbado,  como  começo  de  um 
plano,  cujas  consequências  vamos  vér. 

Demorando  a  resposta,  que  a  camará  solicitava  com  cm* 
penlio,  um  grupo  do  povo,  que  cercava  o  paço  da  roumci* 
paltdada,  correu  a  palácio,  dirigido  por  agentes  sccretii» 
afim  (iô  viclofiar  o  governador  e  proleslar  contra  os  ínlilu* 
lados  anarchiâtas.  A  comedia  nao  podia  ser  nielhor  reprt^ 
senlada.  Manoel  Ignacio  sahiu  ao  encontro  d'esse  povo  se© 
consciência,  e  arengou  como  conveniente  e  melhor  en- 
tendeu :  então  appareceu  a  idéa,  de  antemão  cogitada,  de 
serem  banidos  da  capital  osinlilulados  cbefesda  revolução. 


ttriest   porque  seria  amonloar  desgmcas  o  JnfortuDÍos...  ili|çaH» 

a  capíUnia  da  naliía  pelo  que  aciualmaiUc  sofTrrj,  dí^iim  as  ci- 
pílanias  de  PerDambuco  e  Parah^ba  pelo  que  solTrerain  em  ISfT, 
digam  emtim  iadas  as  capitanias  do  Brasil  pelo  que  iém  sofTrtdt) 
todas  as  vezçg  que  o  seu  governo  executivo  tem  e<«lãdo  oeru- 
pado  por  mais  de  uma  pessoa.  Goyauos!  Se  vos  quereis  doson* 
ganar  de  toda  u  verdade,  lede  com  altcuçao  iodo  o  citado  def^relo, 
lede  lambem  a  maguiílca  recepção  quetove  nas  cortes  o  htigadei* 
ro  PalhareSn»  ajudante  d 'ordens  do  general  áti  itha  da  Madeira* 
quando  com  oulros  veiu  da  parle  do  dito  genenil  dar  a  noticia  de 
se  baver  n'aquet]a  illxa  jurado  a  CDUStituiCiío,  transcripto  tudo  na 
gâ7.eta  do  Rio  de  Mneiro  de  â  de  Juubo,  a  que  muitos  outros  fac- 
tor i^emelbantes  $e  podiam  aqui  ajuntar.  Comparai  tudo  com  as 
idéas  que  tos  dão  os  ínímigoii  da  boa  ordem,  e  decidi  vos  me»* 
mos.  Acautelaí-vos  de  perridas  e  capciosas  suggestúe^»  e  cousarinik 
vos  sempre  promptos  u  re pi II ir  qualquer  ataque  du  Àocego  publico. 
Viva  a  nossa  santa  religião  !  Viva  a  consiituiçíio  !  Viva  **  nosso  rei 
0  Senbor  D,  João  VI  l  Vivam  os  bons  Goyanos,  que  hàode  resistir  á& 
iuggesiõeâ  dos  malévolos!  Go^asc,  20  de  Agosto  dê  IB!!1.— Ifafuxi 
ígnaeio  di  Sampmo^ 


—  im  — 


)uam  náo  vé  por  este  resallado  ura  plano  conc«rUdo  por 
MaDoel  IgQacio  e  os  seus  amigos  ? 

Como  os  Ires  sacerdotes,  os  dois  capitães  o  o  soldado 
Felisartlo  Nazarelh  eram  os  mais  comprometlidos,  foram 
estas  as  vlclimas  designadas. 

A  idéa  de  banimento  podia  ser  de  muitos  modos  resol- 
vida ;  o  governador  achou  um  meio  benévolo  e  compassivo, 
e  o  propôz  ao  povo,  que  deu  a  elle  o  seu  assentimento*  Foi 
assentado  que  o  capitão  Francisco  Xavier  de  Barros  fosse 
commandar  o  destacamento  do  registro  de  Santa  Maria ; 
que  o  padre  José  Cardoso  de  Mendonça  seguisse  para  o  seu 
beneficio  de  vigário  da  aldèa  da  Formiga  e  Duro ;  que  o 
capitão  Filippe  António  Cardoso  se  retirasse  para  sua  casa 
no  dislricto  de  Arrayas,  e  o  padre  Luiz  Barthoiomèe  Mar- 
ques se  afastasse  SO  léguas  da  capital.  O  padre  Lucas  de- 
clarou que  se  retirava  da  capilauJa.  Doesta  resolução  as^ 
sígnou-se  um  termo,  no  qual  se  declarou  que  licavam  mar- 
cados oito  dias  para  execução  d 'esta  medida. 

Oito  dias  depois  os  anarchisUs,  nome  por  que  passaram 
a  ser  conhecidos,  sahiram  da  capital,  para  seus  dilTerentes 
destinos.  Manoel  Ignacio  vangloriava- se  do  triumpbo  que 
tinha  alcançado»  e  nao  se  lembrava  que  cada  um  dos  ba- 
nidos era  um  centro  de  movimento  que  se  ia  estabelecer 
em  dilTerentes  pontos  da  capitania  I 

Os  acontecimentos  da  capital  em  breve  foram  sabidos  por 
toda  a  parte,  e  encontraram  écho  sympathíco,  principal- 
mente no  norte»  onde  a  prisão  de  Filippe  António  Cardoso 
produziu  mào  eiTeilo.  As  cartas  de  Filippe  e  do  padre  Bar- 
tbolomèo  impressionaram  os  ânimos;  e  pòde-se  julgar 
pelos  successos  futuros  que  os  factos  da  capital  não  eram 
isolados. 

Os  documentos  oíEciaes  do  tempo,  que  consultamos,  nos 
revelam  o  seguinte  plano*  No  caso  de  que  não  pudesse 


—  ise  — 

vingar  na  capital  a  idéa  da  Domeaçao  de  um  governo  pro- 
visório, elle  seria  acclamado  no  norte.  Para  este  fim  con- 
tavam os  chefes  da  capital  com  o  vigário  de  Cavalcante; 
mas  este,  não  tendo  bastante  prestigio  e  influencia,  cedeo 
a  direcção  das  cousas  ao  desembargador  Joaquim  Theotonio 
Segurado,  o  qual,  como  veremos  logo,  não  trepidou  em ' 
collocar-se  á  frente  do  movimento,  não  para  favorecer  os 
patriotas,  mas  com  intenção  formada  de  neutralisar  qual- 
quer tentativa  em  favor  da  independência. 

Effeclivamente  no  dia  14  de  Setembro  foi  installado  em 
Cavalcante  um  governo  provisório  sob  a  presidência  do 
desembargador  Joaquim  Theotonio  Segurado,  servindo  de 
secretario  o  vigário  Francisco  Joaquim  Coelho  de  NatloSt 
e  de  membros  José  Zeferino  de  Azevedo,  Salvador  de  Al- 
meida Campos,  Joaquim  Rodrigues  Pereira,  José  Victor  de 
Paria  Pereira  e  Francisco  Xavier  de  Mello,  ao  qual  vieram 
depois  pertencer  Manoel  Antunes  de  Moura  Telles  e  Luii 
Pereira  de  Lemos. 

No  dia  seguinte  o  governo  provisório  da  comarca  da 
Palma  fez  circular  uma  proclamação,  em  que  declarou-se 
desquitado  do  jugo  despótico  do  governo,  mas  deo  vivas 
a  D.  João  VI  e  às  cortes  de  Lisboa.  Não  era  uma  Gdelidade 
simulada  á  união  dos  Ires  reinos,  como  melhor  se  pôde 
ver  das  proclamações  de  17  e  24  de  Setembro,  onde  o 
pensaiuenlo  do  governo  foi  bem  definido  (84). 

(84)  Pruclamacjòes.— Hahitanles  da  cuinarca  da  Palma!  E'  lemiH) 
de  sacudir  u  jugo  de  um  governo  despótico  ;  todas  as  províncias  do 
Brasil  nos  tém  dado  este  exemplo  :  os  nossos  irmãos  de  Goyax  íixe- 
ram  um  esforço  infructifero,  ou  por  mal  delineado,  ou  por  ser  re- 
batido por  força  superior.  Elles  continuam  na  escravidão,  e  até  um 
dos  principaes  tiabitantes  d'csta  comarca  íicou  em  ferros.  Palmen^ 
ses  I  Sejamos  livres,  e  tenhamos  segurança  pessoal ;  unamo-DOs  e 
principiemos  a  gozar  as  vantagens  que  nos  promette  a  constituição ! 


-  ii7  ^ 


liisialUila  o  govtíi  tiu,  deu-^e  logo  provuleiícirB  para  o 
caso  de  luUp  e  foi  declarado  Manoel  Igoacio  de  Sampaio 
dcstiluido  das  funcções  de  governador*  A  expedição  diis 
ordens  para  a  elFecliva  arrecadação  das  rendas  e  abolição 
de  certos  impôs  Los  não  se  fez  esperar.  Elevou- se  a  19^00  o 
valor  da  oitava  de  ouro,  e  providenciou-Sís  acerca  da  orga- 
nisação  da  força,  quelicou  sob  o  comraando  de  José  l*e- 
reira  de  Lemos  e  loaquím  José  da  Silva,  sendo  nomeado 
I  commissarío  Manoel  Leite  Pereira. 

Atmlam-^e  esses  liibiitoâ  quts  nos  vexam,  oii  p<*r  sermos  os  únicos 
qao  os  prigamo"^*  ou  |K>r  uhú  âoreiíi  conlurme!^  âs  unligas  leis  adap- 
lavei*  ae^la  pobre  cnmurea.  Saladas  de  gados,  deelm»,  bmico,  pn- 
pel  scitntjo,  eutradu  de  sal,  ferro » iiço  c  ferrura tintai  Meíini  abolidas  i 
Mos  os  íjnrnens  livres  lÉm  direito  aos  maiores  empregos;  íi  virtu- 
de c  tt  SC  iene  ia,  eia  os  empenhos  para  os  cargos  públicos.  Todas  as 
cabeç-íis  de  julíjado  darAo  um  deputado  para  o  governo  provisório; 
os  arraiaos  de  S.  Josí,  H.  Oamiiigos,  Chapada  e  Carmo  íkam  gozan- 
do da  mesma  prcrogailva.  lísses  depulidus  devem  ser  clcito^i,  e  di- 
ngírem-se  immediiilameiíle  a  Cí^ítlcaníc^  onde  reside  mterinft- 
mentBo  governo  provi ^;l>^o,  Depois  de  reuuidos  tod*is  os  depulado>, 
se  decidirá  qual  deve  seracapitaN  e  n'ella  residíM  o  governo.  Os 
^blmlo»  que  quizerem  .senlar  praça  de  ifiraiiiHha  vencerno  i^tneo 
oitavas  por  mez,  fi  tia  cavu liaria  seis  e  meia,  l*alníenses,  animo  í; 
Hirião  !  ií  ifovcino  cuidará  da  vossa  felicidade*  Viva  a  nos^  sania 
religíào,  viva  o  St,  I\  Joíjo  Vt«  viva  o  priíieipe  legeule  e  toda  a  ea^a 
de  Bragança,  viva  a  consliluir*io  que  se  íizer  ufis  c^irles  reunidas 
em  Usboa.  Gavaleaolo,  15de8eíembro  ite  18á1.— Presidente  Joa- 
quim Theolouio  Se^^urado^  Manoel  Antoniu  do  Moura  Tetles,j0ié 
Zeferino  de  Azevedo»  iit§^é  Victor  de  ta  ri  si  Pereira,  Francisco 
Joaquim  Coelho  d&  Mattos,  Fram^iseo  X'ivier  de  Mattos,  Lmt  Pe* 
reira  de  Lemos  e  Joaquim   tiodrigues  Pereira. 

--Povos  palmenses  e  íçoyauns  í  Qnanflo  o  Porto  arvorou  o  esiau- 
darle  da  libcrd,kde  e  da  roííeneraçiio  portuí^ueía,  havia  em  Lisboa 
um  governo  nomeado  por  S,  M.  Caválianle  arvora  o  eslandarte 
da  Uberdade  goyan:i,  rcí^idindo  em  Goya^  uni  governador  também 
n otu ead o  por  S ,  M .  O*  po r tue ns es  ti v e ra m  a  iipji ro vaçâo  do  m c I h i > r 
pon  Ktiheranos,  eofiííefruiram  as  aeefamaç(Wgeríies,  t*  en|triram-so 


—  1Í8  — 

Sabendo  o  gof  eroo  que  se  achava  em  Cavai  eati  te  o  sol- 
da lo  dô  dragões  João  Rodrigues,  o  qual  se  dirigia  à  capitel 
com  tima  grossa  si>mma  das  rendas  reaes,  que  pelo  norte 
andara  arrecadando,  mandou  por  um  forte  piqaete  faier 
a  arrecadação  doesse  dinheiro,  que  foi  eolregae  ao  ajudanl» 
José  Joaquim  de  Novaes^  que  acabava  de  ser  nomeado 
capitão  fia  força  pagae  intendente  geral  da  policia-  Uma 
serie  rte  medidas  administrativas  foram  tomadas  em  ordem 
a  cougraçar  os  povos,  e  assim  consolidar-se  o  doto  ro- 
verno, 

dê  uma  gloria  eternn,  E  nko  letemoR  nún  os  moradores  de  CavâlrJiD* 
le  !i  mesniít  íipprovitçíio,  as  raesmtis  nct-lainaçríéii,  amêsma  giom? 
Goyanos  e  paímei»ses  I  lodo  o  hoinein  \\\m  tem  direito  a  goMr^i 
sun  liberdade.  V6s  sabeis  a  que  vpxnines  tendes  estado  «ujeilm* 
Agora  qm  todos  os  povos  do  Brasil  tf  m  spcudido  o  juíto  dos  capJUlifi* 
gCDemes,  agora  que  Cavalcanie  not  da  o  me^o  exetripio,  serrís  0$ 
unicosqiie  lereísnpafienciadc  contiQUíirasupporrarasalgcniiW 
cadimas, om  que  temos  jaxido  escravísadoR?  Tendes  jKjrven tu rs 
de  que  o  General  de Go\ax  tenha  com  suas  foix'asescraíísar^no5*1Pft' 
Yoffiiem  elle  lem  força,  nem  que  as  tivesse  as  poderia  cfW|vrrgircotilTi 
nós.  Cineoenta  soldados  de  linha!  ir  esses  necessiia  elle  etn  (loyar  íwra 
conservar  o  seu  despolismo  !  Elle  sabe  que  n^is  temos  tníl  hrafos  t 
desLemidos  sertanejos^  que  sepu liariam  seus  snldados  nas  garpniai 
das  serras  que  nos  rodeiam.  Tem  milicianos  f  Também  ni>s  osíemai; 
todos  são  irmãos,  lodos  ií^m  o  mesmo  inleressei  se  çâ  os  fiiíinríar, 
elles  L^ri  %ez  de  balas  nos  offereceríio  ramos  de  oliveira,  e,  untdos 
soba  bandeira  da  consiiluição,  iremos  lodos  desterrar  para  loi3|t 
um  ente  monstruoso,  que  se  chama  —  eapitíio-generaL—  ^onê, 
ibrf  os  olbos,  e  vereis  que  no  Brasií  ja  níio  ha  governadores  oci* 
pilíSes-gõceracs,  j/t  nao  ha  juntas  de  fazenda ,  arbitrarias  na  sua  ad- 
io in  is  traçítí»;  uFio  ba  mais  ouvidores  e  juiies  capricbosos  e  ii|ifir\fi* 
nadíis  r  tudo  t%\A  mudado:  vs  po\os  ja  n?to  sSo  governados  po' 
bichas,  mas  por  governos  provisórios,  compostos  dos  Itomens  nu» 
Sábios  e  mais  honrados  de  cada  província.  Adjuntas  de  fazenda  dU 
todos  os  mezes  ao  povo  conta  da  sua  admíntsiraçíto  ;  os  magistrados 
sAi^  m  homens  da'^i*  Quandn  a  fiii^e  do  lírasil  está  mudnda«  $tfh 


—  129  — 

Ãdherirám  depois  i  causa  revolucionaria  Victor  Pereira 
de  Lemos»  Manoel  Seixo  de  Brilo,  e  muitos  ootros,  que 
foram  nomeados  officiaes  da  milícia  paga  ecifil.em  nu- 
mero superior  a  80, 

O  governo  provisório,  por  conveniências  do  serviço  e 
pela  vantagem  de  se  achar  no  centro  dos  districtos  que 
Unham  adherído   à  nova  ordem   de   cousbs,  transferiu 


Goyni  a  unlca  província  que  íiqiie  insensivol  âos  m\xs  males?  Goia- 
nos !  Nós,  m  IjâbiUitiles  de  C^ivateaíite,  arvoramos  o  esUindarie  da 
M bardado,  seja  elte  o  jKinLo  da  nossa  reuniÀo,  e  m'»s  todos  seremos 
fõlixes  í  Viva  a  relij^iiio  !  Viva  o  Senlior  D.  João  VI  í  Vifa  a  constí- 
tut^o  tsL  libõrdHde !  Vivam  0s  povoa  das  comarcas  de  Go,vuz  e  Palma  l 
—Sala  do  governo»  Í7  de  Selcinhro  de  182L—  Presidente,  Joaquim 
TlieoLoiuo  Segurado,  —  Secreiario,  Francisco  Joaquim  Coelho  d 9 
MaUos.  —  Míiooel  António  de  Moura  Telles.  — José  Zeferino  <íc  km- 
vedo.— João  Luix  do  Sousa*— Luiz  Pereira  do  Lemos.— Joaquim  dos 
Santos  e  Vasconeollos.— Joaquim  Hodrigues  Pereira. 

— Go^fanosí  A  provinda  de  Gojfazé  lalvei  a  mais  pobre  do  Braítíl, 
e,  comiudo,  è  a  iintca  que  aimU  conserva  no  seu  seio  um  capitão- 
gencfal^  é  a  única  que  ainda  se  vé  obrigada  a  pagar  a  um  empre- 
gado pubfico  um  soldo  de  quasi  G:Q008OO0.  Quaiorze  mil  cruzados 
s^>  a  um  bomem,  que  governa  cofilra  a  vonlade  do  povo  !  Quatorze 
mil  cruzados,  que  cbe^^nm  para  pagar  soleota  bravos  defensores  áa 
pátria  1  Que  6  isio,  goyanosi  Tendes  direito  a  axpulsal-o,  e  con- 
teniis  que  elle  continue  a  govemar-vus  ?  e  a  governar-vos  cum  um 
braço  de  ferro?  Não  tendes  animoi  n^o  tendes  valor?  Estamos 
reunindo  forças  sufi  [cientes  para  irmos  ao  vosso  soccorro,  o  ajudar-^ 
vos  a  cxpellir  o  capilao-gcncral.  Estabelecei  o  vosso  governo  provi- 
sório À  imitaçSo  de  todo  o  reslo  do  Itrasil  Imilai-nos.  Sem  eflusão 
de  sangue  estamos  livres  do  capitâo-genera!^  e  só  dependemos  das 
cartes  de  Lisboa,  d'el-rei  e  do  príncipe.  -* Cavalcante.  Sala  do  go- 
verno, em  24  de  Setembro  da  ÍBil  .'^Presidente,  Joaquim  Theotonlo 
Segurado.  —  Vice-presidente,  Francisco  Joaquim  Coelho  de  Mattos. 
—Manoel  António  de  Moura  Telles.— Joaquim  Rodrigues  f*ercira. — 
Josá  Zeferiao  de  Azevedo.--  Luiz  Pereira  de  l^mos.  —  João  Luít  de 
}»cittu. 

TOMO  XX VIII,  Pp   IL  17 


—  130  - 

DO  mez  de  Outubro  para  Arrayas  a  sede  do  governo,  dei- 
xando DO  commaudo  do  arraial  de  Cavalcante  o  capitão 
Luiz  Pereira  de  Lemos,  e  o  alferes  Francisco  Xavier  de 
Mattos. 

Esta  transferencia,  porém,  foi  causa  de  apparecerem 
algumas  defecções.  O  vigário  de  Cavalcante  fugiu  para  a 
capital,  Joaquim  Rodrigues  Pereira  retirou-se  para  sua 
fazenda,  e  outros  nâo  quizeram  acompantiar  Segurado, 
cujo  caracter  violento  jà  linha  descontentado  a  muitos. 

Em  29  de  Setembro  soube  Manoel  Ignacio  do  que  acon- 
tecia no  norte,  por  cartas  quo  recebera  do  vigário  de  Tra- 
hiras,  ede  alguns  traidores,  entre  outros  do  próprio  vigário 
de  Cavalcante,  Joaquim  Rodrigues  Pereira,  José  Victor  de 
Faria  Pereira,  e  Joaquim  dos  Santos  e  Vasconcellos,  alguns 
dos  quaes  tinham  Qgurado  como  membros  do  governo  pro- 
visório, eleitos  pelos  dislrictos. 

Immediatamente  tratou  Sampaio  de  convocar  a  camará 
e  a  junta  dos  três  Estados,  para  a  todos  relatar  tão  desagra- 
dável noticia. 

Assentou-sc  que  era  preciso  combater  com  força  ar- 
mada a  revolução,  e  tomar  as  necessárias  providencias, 
afim  de  atalhar  o  seu  progresso. 

Nesta  conformidade  deu-se  ordem  ao  intendente  dos 
armazéns  para  entregar  ao  tenente-coronel  Luiz  da  Cosia 
Freire  de  Freitas  lodo  o  armamento  e  munições  necessárias, 
afim  de  ser  organisado  um  destacamento  que,  sob  o  com- 
mando  do  tenente  António  José  Gomes  de  Oliveira  Tiç5o, 
marchasse  em  continente  contra  o  governo  provisório. 

E  porque  lambem  receiou-se  algum  pronunciamento  na 

capital,  distribuiu-se  á  força  pólvora  e  bala,  e  fez-se  uma 

revista  de  toda  a  guarnição,  com  o  fim  de  impor  pelo  lemor 

das  baionetas. 

As  scenas  que  se  davam  no  norte  fizeram  convencer  a 


—  131    — 

Sampaio  de  que  os  factos  havidos  na  capital  tinham  achado 
écho,  c  que  era  preciso  sahir  dos  expedientes  ordinários. 

Elle  comprehendêra  perfeitamente  as  consequências  de 
tudo  quanto  ia  acontecendo,  e  tanto  que,  dando  ao  minis- 
tro Caula  noticia  da  creação  do  governo  provisório  e  das 
medidas  que  eslava  resolvido  a  empregar,  para  debellal-o» 
assim  se  exprimia : 

«  Nâo  devo  comtudo  occultar  a  V.  Ex.  que  nao  afianço 
resultado  algum  favorável,  cm  razão  das  suggestões  que 
ordinariamente  se  recebe  de  fora  da  capitania.  Tenho 
algum  motivo  para  desconfiar  que  aquelle  procedimento 
de  Cavalcante  foi  motivado  por  instigações  do  padre  Luiz 
Bartholoméo  Marques,  anteriores  ao  dia  i°  de  Agosto,  em 
que  foi  expulso  d'esta  cidade  pelo  povo,  por  cartas  dirigidas 
no  arraial  de  Trahiras  ao  padre  Manoel  da  Silva  Alves,  as 
quaes  não  produziram  alli  efíeito  algum,  e  no  arraial 
de  Cavalcante  ao  vigário  Francisco  Joaquim  Coelho  de 
Mattos,  de  que  resultou  a  inslallação  do  dito  denominado 
governo.  Ha,  porém,  algumas  idéas  que  aquelle  proce- 
dimento fora  resultado  de  instigações  vindas  do  sertão  da 
Bahia ;  n'este  caso  não  me  será  possivel  certamente  dis- 
sipar a  borrasca :  em  breve  tempo  terei  de  me  retirar  da 
capitania,  visto  que  nem  S.  A.  Real  nem  as  cortes  querem 
que  haja  eiTusão  de  sangue.  » 

Pesando  a  responsabilidade  dos  seus  actos,  e  as  conse- 
quências de  uma  resistência  pelas  armas,  reflectindo  com 
madureza  sobre  o  que  lhe  cumpria  fazer,  para  evitar  a 
guerra  civil,  e  promover  a  união  dos  povos  da  capitania, 
resolveu  que  a  força  organisada  não  partisse  para  o  norte; 
tanto  mais,  quanto  íhe  cumpria  ter  a  capital  conveniente- 
mente guarnecida,  para  qualquer  emergência. 

Limilou-se  a  expedir  para  o  norte  uma  proclamação,  em 
que  atacava  violentamente  o  vigário  de  Cavalcante  como 


—  i32  - 

principal  fautor  da  revolução,  que  tão  profundas  sym- 
Patbias  encontrava  em  toda  a  capitania,  sendo,  como  se 
suppunha,  o  primeiro  passo  em  favor  da  nossa  emancipação 
politica,  n'aquella  parte  do  território  do  Brasil  (85). 


(85)  Goyano§  da  comarca  de  S.  Jo3o  das  Duas  Barras  1  Quando, 
depois  de  expulsado  pelo  poTo  d*esla  cidade  o  cabeça  e  molor  da 
desordem,  que  aqui  se  tentou  perpetrar,  eu  recebia  de  todos  os 
povos  d*esla  comarca  de  Goynz  as  mais  decididas  provas  de  perfeita 
adhesão  ás  aucloridades  estabelecidas  por  Sua  Mageslade,na  confor- 
midade das  leis  fundamenlaes  da  nação,  acabo  com  o  maior  des- 
gosto  de  saber  que  o  vigário  de  Cavalcante,  levado  da  desmarcada 
ambição  de  escravisar  todos  os  povos  d'essa  comarca,  como  tem 
constantemente  escravisado  os  desgraçados  moradores  de  Cavai- 
cante,  se  lembrou  (pur  insinuações  sem  duvida  d'aquello  cabeça  ex- 
pulso) de  erigir  n'aquellc  arraial  um  intruso  governo,  que  elle  deno- 
mina provisório  de  toda  a  comarca,  atacando  por  esta  maneira  os 
inauferíveis  direitos  de  Sua  Magestade,  e  violando  as  determinações 
das  cortes,  que  só  permittem  o  estabelecimento  de  taes  governos 
provisórios  n'aquelle8  lugares  em  que  as  aucloridades  constituídas 
se  oppoem  ao  juramento  da  constituição  c  á  nomeação  dos  respec- 
tivos deputados,  e  que,  dados  estes  dois  passos,  recommenda,  com- 
tudo,o  maior  socego,  e  o  maior  respeito  ils  leis  existentes  e  ás  aucto- 
ridades  constituídas  segundo  as  mesmas  leis.  E,  como  se  aquelle 
crime  fosse  pequeno,  passou  o  mesmo  vigário  a  apoderar-se  das 
rendas  reaes,  que  dos  diversos  arraíaes  d'essa  comarca  se  remei* 
liam  para  o  erário  d'esla  capilal,  alím  de  supprirem  as  despezas  pu- 
blicas, pretendendo  por  esta  forma  constiluir  seus  feudalarios  todos 
os  outros  arraiaes  da  comarca.  E,  para  mais  despoticamente  dispor 
de  tudo,  organisa  o  governo  com  pessoas  da  sua  facção,  todas  resi- 
dentes nos  arrabaldes  de  Cavalcante,  sem  contemplação  com  as  pes- 
soas de  bem  dos  outros  arraiaes,  quasi  todos  muito  mais  populosos  e 
mais  interessantes  de  que  o  de  Cavalcante.  E  sujeitar  vos-heis  vós  a 
uma  tal  humiliação  ?  Tão  baixos  sentimentos  não  existem  -certa- 
mente em  corações  goyanos!  Não  vos  aconselho,  comtudo,  que 
mancheis  as  vossas  mãos  com  sangue  goyano,  o  que  seria  total- 
mente contrario  aos  meus  desejos  e  ás  pias  intenções  do  príncipe 
regente  e  das  cortes  da  nação.  Aconsclbo-vos,  sim,  que  desistais  e 


^  133  - 

Eioel  Ignacio,  que  alè  anles  do  proQunciameolo  de 

'Favalcaole  estivera  resolvido  a  oppôr-se   com  todas  as 

forças  ã  eleição  de  um  governo  provisório,  via  agora  que 

este  era  o  meio  único  por  onde  podia  sahir  airosamente  da 

situação  critica  em  que  o  tinham  collocado  os  novos  acon- 


nSo  Tíos  sobmoUais  ás  suggcstôes  il*aq«eUe  \igario,  deshonra  do 
Dome  goyano,  eerlos  de  que  deiilro  em  poucoH  dia^  o  mei^mo  crime 
o  vai  confuudir,  que  eviteis  ioda  a  cornmuiiioaçao  com  os  povos 
que  eile  Icm  compromeUído  e  escravisudu,  ulim  de  que  na  capUunia 
dõ  Cojâz  s%  n^iú  repitam  aB  tríttcs  scenos,  que  lautas  ealuniidades 
tèm  eausado  aos  bahi^inos  c  paulistas  ;  aconselho- vos  que  não  queí- 
mis  per  af^uma  condeseeDdencia  indiscreta  cahir  no  desagrado  do 
priDcipe  regetUe  e  das  cortes,  que  tâm  prefixado  os  Itaiites  da  mar- 
cha qye  se  devo  seguir  para  a  oossa  rdj^etierarao  política,  que  é  a 
mesma  que  eu,  primeiro  que  ninguém,  M/.  adoptar  n'esta  capiuoja^ 
além  da  qual  não  H  permittido  passar;  aconseUm*vo5«  emlim,  quQ 
vos  mostreis  sempre  dignos  do  grariíle  nome  de  portug:ue5tes,  cida- 
dãos do  reiou-unidú  de  Portugal,  Brasil  e  Afprves^  nome  que  pre- 
sealemenle  eausa  inveja  a  todas  a^  nnQL»es  pela  cupátaneia  do  solfri* 
mento  na  adversidade,  e  pela  prudência,  moderat^ão  e  uniformidade 
de  sentimentos  na  aelua)  regenorai;iiO  politica,  o  que  tudo  se  Uajis- 
tornará,  se,  por  meio  de  tumultos  e  outras  semelhantes  desordens 
loeaes  e  parciaes.  Olhas  do  e^ipríeho  e  dfismarcada  ambit.^ão,  se  alte- 
rar A  tmnquil lidado  e  socego  com  que  devem  ser  tratados  os  grandes 
negócios  dii  Eiaçím.  Nào  d^icontioco  a  justiça  dos  queixumes  d'essesi 
povos  contra  a  antiga  admínistraçrio  d 'esta  eapilania,  mas  também 
vós  uâo  podeis  doiíar  de  conhecer  quanto  eu  tne  tenho  esror);ado 
pnra  os  fa^^er  cessar,  providenciando  aqui  lio  que  cabe  na  minba  au- 
ciondadep  e  dirigindo  ao  antigo  mínislorio  as  necessárias  represon- 
tarOos  para  serdes  em  ludu  iguatados  ^os  outros  cidadíios  portugue- 
ses, as  quaa^i  se  enLlo  não  foram  attendidas  em  razão  da  antiga 
ordem  das  cousas,  sél^t-hao,  sein  duvida,  perante  as  cortes  da 
nai^ào»  uma  ve?,  que,  pela  irreí|ularidade  e  inconsideração  dos  vossos 
procedimentos,  não  incorrais  no  desagrado  das  mesmas  cortes  e  da 
nação*  —  Vivam  as  e<Vrtes !  Viva  a  constituição!  Viva  el*rei  !  Viva  o 
príncipe  regente  !  Vivam  na  bons  goianos  !  —  tio^ass,  1"  de  Outubro 
do  iStí  t^ Afamei  Ig^acio  de  Sampaio^ 


•f 


—  134  — 

tecimentos  e  sua  pooca  sagacidade;  mas  não  se  resolna 
definitivamente  a  empregal-o. 

O  sen  empenho  em  não  querer  assentir  à  creacão  do 
governo  provisório  provinha  talvez  do  facto  de  haverem  as 
cortes  constituintes  decretado  a  legitimidade  dos  governar 
dores  existentes;  vendo,  porém,  que  o  príncipe  regente 
por  aviso  de  2i  de  Agosto  ordenara  a  creaçao  de  um  go- 
verno provisório  em  Pernambuco  sob  representação  do 
governador  e  capitão  general  respectivo,  e  igualmente  o 
fizera  para  a  capitania  de  Minas  Geraes,  assentou  final* 
mente  de  tomar  sobre  si  a  responsabilidade  de  ordenar  i 
camará  em  22  de  Outubro  a  instaliação  de  um  governo 
provisório.  Expedida  esta  ordem,  deu  d'ella  conhecimento 
ao  publico. 

Para  esse  fim  designou-se  o  dia  3  de  Novembro,  e  Q*es8e 
dia  foi  grande  o  concurso  de  povo  no  paço  da  municipa- 
lidade. Por  occasião  de  procedei^se  ao  escrutínio,  lendo-se 
admittido  a  votar  pessoas  da  plebe,  e  recusado  igual  direito 
a  outros,  bem  como  ás  pragas  de  primeira  linha,  houveram 
por  isto  taes  desordens  e  contestações  que  afinal  foi  le- 
vantada a  sessão,  sem  nada  poder-se  resolver  definitiva- 
mente. De  tuílo  se  deu  conta  ao  priíicipc  regente,  con- 
Unuando  entretanto  Manoel  Ignacio  no  exercício  das  func- 
ções  de  governador. 

Os  acontecimentos  do  dia  3  tomaram  nspeclo  grave :  os 
adversários  de  Sampaio  apccusavam-n'o  de  liaver  promovido 
uma  caballa,  afim  de  não  se  effectuar  a  croação  do  governo; 
*  a  tropa  já  se  ia  insubordinando,  e  tomava  parte  nas  delibe- 
rações dos  comícios  populares ;  e  por  tal  modo  foi  cres- 
cendo a  excitação  que  no  dia  10  Sampaio  mandava  affixar 
unra  proclamação,  inculpando  à  camará,  e  só  a  ella  e  á 
falta  de  iniciativa  no  povo,  de  não  ter-se  verificado  a  eleição 
do  governo.  Entretanto  o  povo  e  mesmo  a  tropa  mos- 


—  135  - 

travam  disposições  para  elegerem  o  governo  até  na  praça 
publica,  sem  observância  de  formula  alguma  legal,  se  assim 
fosse  preciso. 

Manoel  Ignacio,  que  em  22  de  Outubro  ordenara  á  ca- 
mará que  procedesse  á  eleição  sem  o  concurso  dos  repre- 
sentantes dos  julgados,  para  adial-a  por  mais  tempo, 
julgava  esta  condição  indispensável :  vendo  agora  em  cada 
dia  declinar  o  seu  prestigio  e  crescer  as  animosidades, 
recebendo  oíBcios  da  corte  no  dia  29  de  Dezembro,  nos 
quaes  se  lhe  insinuava  a  creação  do  governo  provisório,  no 
dia  20  pela  manhã  convocou  a  camará  com  urgência,  e 
perante  ella  se  apresentou. 

Ao  toque  do  sino  toda  a  população  correu  ao  paço  da 
municipalidade.  Poucos  sabiam  precisamente  de  que  se  ia 
tratar,  mas  todos  previam  o  motivo  da  reunião. 

Em  presença  da  municipalidade  declarou  Sampaio  quo, 
tendo  reconhecido  pelo  espirito  dos  oíBcios,  que  acabava 
de  receber  da  corte  que  o  príncipe  regente  se  não  oppu- 
nha  e  não  levava  a  mal  a  creação  de  um  governo  provisório, 
logo  que  a  fermentação  dos  espíritos  assim  o  exigisse,  po- 
dendo ser  ella  feita  de  um  modo  regular,  ouvidos  por  seus 
representantes  os  povos  de  toda  a  provincia,  afim  de  por 
este  modo  evitar-se  a  desunião  e  a  consequente  guerra  civil, 
a  vinha  propor  de  um  modo  solemne  e  decisivo.  E,  afim  de 
que  a  eleição  fosse  legal,  conveniente  era  fazer  a  convoca- 
ção aos  três  eleitores  de  S.  João  das  Duas  Barras,que  tinham 
servido  nas  ultimas  eleições,  e  eleger  para  o  mesmo  fim 
três  que  representassem  a  capital,  visto  como  estavam 
ausentes  dois,  e  um  por  tal  modo  enfermo  que  não  po- 
deria comparecer. 

E  porque  este  procedimento  importava  uma  dilação,  e 
convinha  desde  logo  eifectuar-se  a  mudança  da  administra- 
ção, propunha  que  se  installasse  uma  junta  administrativa, 


—  436  — 

&  cujo  cargo  passasse  o  governo  da  capitania  até  a  creaçio 
do  governo  provisório. 

Sobre  parecer  da  camará  foi  decidido  por  todos  quantos 
se  achavam  presentes  que  se  elegesse  a  junta  administra- 
tiva interina,  a  qual  se  deveria  compor  de  seis  membros. 

E  procedendo-se  ao  escrutínio  Joram  eleitos,  presidente, 
Manoel  Ignacio  de  Sampaio,  secretario,  o  coronel  António 
Podro  de  Alencastro,  membros,  o  ouvidor  Paulo  Couceiro 
de  Almeida  Homem,  o  vigário  da  vara  Francisco  Xavier 
dos  Guimarães  Brito  o  Costa,  tenente-coronel  Luicda  Costa 
Freire  de  Freitas,  capitão  João  José  do  Couto  Guimarães  e 
capitão  Ignacio  Soares  do  Bulhões. 

O  acto  de  juramento  e  posse  da  junta  administrativa  teve 
lugar  n'essa  mesma  occasião  ;  e  de  tudo  se  lavrou  a  com- 
petente acla.  (86) 

(86)  Anno  do  nHScimenlo  de  Nosso  Senhor  Jesus  Christo  àe  HM» 
aos  30  dias  do  moz  de  Dezembro  do  dílo  anno,  n'esfacídadedt 
Goyaz^  em  os  paços  do  conselho  d'clla,  onde  se  achavam  o  oapite- 
^'eneral  d*esla  província,  Manoel  Ignacio  de  Sampaio,  e  a  canura 
convocada  e  reunida  pclo  mesmo  governador  e  capitão- general, 
postada  em  armas  a  tropa  de  primeira  linha  c  segunda,  reunidos 
alguns  cidadãos  mais,  convocados  a  toque  de  sino,  na  formado  e^ 
tvio,  propuz  o  mesmo  governador  e  capilAo-general  que,  havende 
reconhecido  pclo  espirito  dos  oflicios  que  acabava  derecel>erda 
secretaria  d'Kstado  da  corte  do  Rio  de  Janeiro,  se  nuo  oppunba  e  nem 
levava  a  mal  a  crea<;ào  de  um  governo  provisório  n*csta  província, 
logo  que  o  estado  de  fermentarão  dos  povos  assim  o  exigisse,  npeiar 
do  ónus  de  juramento  de  preito  c  homenagem  prestado  nas  màoi 
de  seu  augusto  pai,  de  que  indirectamente  se  achava  por  esta  forma 
alliviado,  uma  vez  que  a  creação  do  dito  governo  provisório  le 
fizesse  de  uma  maneira  legal,  sendo  ouvidos  por  seus  represen- 
tantes os  povos  de  toda  a  província;  alim  de  se  evitar  a  desunião  e 
a  consequente  guerra  civil,  propAz  a  mencionada  creaçAo  do  go- 
verno provisório  com  as  sobreditas  condiç<Nes,  apontando  partíeo- 
ar  mente  que  se  poderiam  convocar  os  três  eleitores  da  cooiarea  df 


—  Vil  — 

Na  tarde  d'esso  di^  liase  affixatlapor  lodos  os  ângulos  da 
cidade  a  seguinte  proclamação  &ã  camará  da  capital : 


S.  hho  lias  Duas  Barras,  que  serviram  nas  proi imas  pasmadas  elei- 
çdesj  ô  procede r-se  n  eleger  com  as  precisos  forma t idades  rrea  elei- 
lores  doesta  cí^marca  de  Goiraz,  ifisto  que  dois  que  íiOTViram  nas  dilas 
eleicOes  se  nào  achavam  n'esia  cidade,  esLando  o  terceiro  grave- 
nteiUo  enfermo,  Cudo  por  maiur  brevidade  da  creaçio  do  d ilo  go- 
verno  :  propõz,  oulrosim,  a  creat^ào  desde  jA  de  uma  junta  itUema 
admínistraliva.  que  fica^s^e  encarregada  do  governa  adinioislralivo 
lia  proifíncía,  lâo  semente  alé  a  creacão  do  meucionado  f^ovcrno 
|j  reviso  rio,  e  a  cujo  cargo  lieasse  o  dar  lodus  m  precisas  providen* 
ciai  para  a  citada  logal  mstallaçi^o  da  maneira  íicima  exposta,  áqual 
creaçiiõ  deveria  a  ciimarii^  proceder  desde  jil,  ouvindo  para  este  Ijm 
os  povos  d 'esta  cidade,  que  so  acham  reuinidas  cm  os  p«cos  do  con- 
selho Vi  seus  arredores,  da  maneira  que  acbar  conveniente  a  mesma 
camará^  «%  eomo  assim  o  disse  e  propÒE,  assignou  o  presente  »uio, 
declarando  mais  que  ^e  Ike  desse  cerlidao,  nho  só  doesta  proposta, 
mas  da  deliberaçiio  que  se  liouver  de  tomar.  Eu,  Zefennu  l^ereira 
Pedroso,  eserivao  da  camará,  que  o  escrevi,  —  Manoel  ígnacio  de 
Sampaio, — E,  íogo  etoaeto  continuado  e  sem  iaterrupcão,  acamam 
d 'es  la  cidade^  depois  de  deliberar  etn  sesítíio  particular  a  maneira 
mais  conveniente  porque  devia  rtsoher  a  proposta  do  Eim, gover- 
nador e  capitão-general,  feita  com  ta  a  la  urgência,  esem  preceder 
as  &oleiiin idades  que  so  t«ziajn  tudispetisuveis  eoui  uma  ordem  tãri 
eritie:!,'  parecendo  a  cunvocaQiio  da  carn^ra  antes  o  resultado  de 
um  acto  coactivo  que  uma  espoo taneidude  do  Cjtm.  St*  general « 
tendo  iguafmente  em  vista  a  impossibilidade  de  convocitr  por  carta 
iodas  as  pessoas  que  podem  atixiliar  a  camará  n'estaeonjunctura 
tâo  critieu,  qual  a  da  eleicào  de  uma  junia  que  posi^t  ioterinamente 
cimentar  os  principias  do  uma  união  entre  os  povos  da  provi nciíi 
divididos  por  opimòes  políticas :  resolveu  que  fossem  vocalmente 
GOnvidados  pelo  porteiro  da  camará  o  clero,  os  magistrados^  os  ofíi* 
eiaes  da  1*  e  2'  linlm^  e  a^i  pessoas  que  costumam  andar  na  govcr- 
tiança,  para  ofegerein  uqueltas  que  devem  compor  a  Junta  ndininis- 
Irrttiftt  interina  e  o  numero  de  que  deve  ser  composta  a  referida 
juuta,  de  que  para  constar  ma  n  d  «iram  fazer  o  presente  termo,  que 
assiguarain,  —Zeferino  Pereira  Pedroso*  escrivão  da  camará»  que  u 
escrevi*— Gdvdo.—6ííímarães.—/"o5apa,—Jíodrt3iiei.  —  £*  logo  cm 

TOMO  WVJIl,  p>  11,  18 


—  138  — 

((  Goyanosl  Eia,  congratulai-vos  ;  sois  felizes  emfiai  : 
o  exceiienlissimo  ex-governador  da  província  espontânea- 

acto  contínuo  o  surcessivo,  reunidos  quarenta  e  ires  cídadAos  dos 
espccifícados  no  acto  supra,  foi  proposto  pela  camará  o  seguinte  : 
se  devia  ter  lugar  para  a  presente  nomearão  da  junta  provisória  in- 
terina o  decreto  do  V  de  Setembro  do  corrente  anno,  expedido 
pelas  cortes  geraes  extraordinárias  e  constituintes  da  naçlo  portu- 
{^ueza  para  Pernambuco,  na  parle  somente  que  respeita  A  crea  rã  o  da 
referida  junta  provisória;  opinaram  pelaaflirmativatrinin  o  seis  vo- 
tos; seis  que  fossem  também  seis  os  membros  da  referida  juntk,  e 
um  voto  singular  do  descmliari^ailor  António  Josr>  Alves  Marques, 
que  se  não  lizesse  mudança   alguma,   continuindo  nn   governo  o 
lllm.  e  K\m.  Sr.  Manoel  Ignacio  de  Sampaio.  Decididn,  portanto, 
por  uma  pluralidade  absoluta  de  vinte  e  seis  votos,  que  a  junta  pro- 
visória  interina  d'esta  cidade  fos^e  creada  como  ordena  o  referido 
decreto,  e  prccedendo-se  ás  nomeações,  sabíram  eleitos:  para  presi- 
dente, o  lllm.  e  Exm.  Sr.  Manoel  Ignacio  de  Sampaio,  por  unanimi- 
dade de  votos;  para  secrelurío  deputado,  o  Sr.  coronel  António  Pe- 
dro de  Alencaslro,  por  unanimidade  de  vnios;  para  i^  membro  da 
junla,  o  Sr.  Dr.  ouvidor  da  comar&i  Paulo  Couceiro  de  Almeida  Ho- 
mem, por  unanimidade  do  votos;  pura  ±^  membro,  o  Sr.  vigário  da 
vara  Francisco  Xavier  dos  (íuimarâes  Hrilo  e  (Insla.  com  trinl.i  csete 
votos;  para  3*»  miMnbro,  o  Sr.  tencnlc-CiíroncI  fjiiz  «la  Costa  Freire 
de  Freitas,  com(|uarenlu  e  dois  V(»los;  para  4"  membro,  o  capilào  João 
Josr  do  Couto  (luimarães,  por  unaniiiiiJade  de  votos;  para  ,N»  mem- 
bro, o  capitão  Ignacio  Soares  de  Bullines,  por  unanimidade  de  votos: 
e,  depois  de  publicado  dentro  dos  paros  do  conselho,  e  «las  janellas 
para  a  tropa  que  está  postaila,  e  mais  (íidadàos  que  ^c  achavam  reu" 
nidos  e  assistiam  á  referida  nomeação  dos  membros  e  presidente 
acima  declarados,  com  nuiila  satisfação,  dando  em  alias  vozes  repe- 
tidos vivas.  K,  logo  n'este  mesmo  acto,  achando-se  presente  o  pre- 
sidente nomeadoe  mais  membros,  lhes  foi  apresonfadourn  livro  dos 
Santos  Kvangelhos  pelo  presidenie  da  camará, o  Dr.  juiz  de  fora  Ma- 
noel Anionio  CaUào,  cm  o  qual,  pondfi  as  suas  màos  dirciliis,  pres- 
taram o  juramento  seguinte:  «  Juramos  aos  S;intos  Kvflnffcllios  ve- 
nerarão e  respeito  A  religiào  catholioa  o  aposlolica  romana,  obediên- 
cia ás  cortes  de  Lisboa,  observar  e  manter  as  leis  existentes,  e  tudo 
o  que  pelas  ditas  cortes  fôr  determinado, afim  de  manter  a  união  de 


—  130  — 

mente  demittiu-se  da  sua  auctoridade,  e  nâo  duvidou  re- 
partil-a  com  aquelles  de  vossos  concidadãos,  em  que  tendes 
maior  confiança.  A  convocação  da  camará  para  a  creação 
de  um  governo  por  que  tanlo  anhelaveis  foi  obra  sua,  e  a 
unanimidade  com  que  foi  coroada  a  eleição  dos  membros, 
que  compõem,  é  uma  prova  nâo  equivoca  da  legalidade 
com  que  foi  feila.  Goyanos,  ainda  uma  vez  congralulai-vos; 

Ioda  esta  província  em  paz  e  socej^o,  respeito  o  obediência  a  el-rei 
constitucional  o  Sr.  l).  Joào  VI.»  Depois  do  que  llies  foi  dada  posse 
pela  camará  d'esta  cidade  do  governo  de  toda  cMa  provincia,  e, 
sendo  presentes  os  chefes  das  corporagòes  militares  e  civis,  presta- 
ram juramento  em  forma  de  obedecer  e  guardar  tudo  quanto  pelo 
governo  fôr  determinado  a  betn  do  serviço  nacional.  K,  como  assim 
o  disseram  e  se  obrigaram,  mandaram  fazer  o  presente  termo,  que 
assígoaram  com  os  mais  cidadãos  presentes.  Ku,  Zefermo  Pereira 
Pedroso,  escrivão  da  camnra,  que  o  escrevi. —  Manoel  António  Gal- 
vão.—Guimarães.— Fogaça. — Hodrigues.  — Manoel  Ignacio  de  Sam- 
paio. —  António  Pedro  de  Alencastro.— Paulo  Couceiro  de  Almeida 
Homem.  —  Francisco  Xavier  dos  Guimarães  Biito  o  Costa.— Luiz  da 
Costa  Freire  de  Freitas.— João  Jos6  do  Couto  Guimarães.— Ignacio 
Soares  de  Bullincí.  —  João  Josó  de  Azevedo  Noronha  e  Camará.— 
Maximiano  José  UaymunJo.— José  Joaquim  Pulquerio  dos  Santos.— 
Manoel  de  Santa  Barbara  Garcia. —  António  Josó  Félix  de  Avellar.— 
José  Joaquim  Xavier  de  Harros. — António  José  Alves  da  Costa  e 
Silva.  —  José  António  da  Sdva  e  Sousa.  —  João  Pereira  Cardoso.— 
Cmygdio  Joaquim  Marques. —Padre  Lucas  Freire  de  Andrada.— 
Luiz  Pedro  dos  Guimarães.  —  António  Mariano  de  Castro.  — Filippe 
Luiz  de  Carvalho.— Padre  Miguel  Gomes  dos  Anjos.— Feliciano  José 
Leal.  —  Vicente  Ferreira  de  Castro  e  Silva.  -  António  Ferreira  de 
Azeredo.  —  íiabricl  Gctulio  Monleiro  de  Mendonça.  —  Barlholomêo 
Lourenço  da  Silva.  — Francisco  Hodrigues  Fraga.  —  António  José  de 
Avellar,— José  de  Coulo.— António  Ferreira  da  Silva.— José  Mamede 
Botelho  da  Siha.— João  Nogueira  da  Silva.— José  Rodrigues  Gomes 
—Francisco  Corsino  de  Brito. —  Anacleto  Gomes  dos  Santos.— João 
José  da  Silva.— Domingos  José  Dantas  de  Amorim.— João  Biplisla  de 
Alencastro.— António  Josó  do  Artiaga.— João  Manoel  do  Menezes.— 
'osé  Joaquim  da  Silveira  Pinto,  etc. 


-  140  — 

não  mais  ódios  :  fazei  ama  só  família,  e  provai  por  vossa 
obediência  e  adhesão  ao  novo  governo  a  mansidSo  do  vosso 
caracter,  tão  distincto  entre  as  outras  provindas.  Viva  a 
religião  t  Vivam  as  cortes  I  Vivael-rei  constitucional  I  Viva 
a  dynastia  de  Bragança  I  Vivam  os  Goyanos  !  GoyazSOde 
Dezembro  de  1821.  — Manoel  António  Galvão.  — João  Jasi 
do  Couto  Guimarães. — Domingos  Marques  Lopes  Fogaça. — 
Marcdlino  Joaquim  Rodrigu^.  » 

Ào  lado  d'esta  proclamação  lia-se  também  outra  da  junta 
provisória  (87). 

(87)  Cidadãos  portuguezes  da  província  de  Goyazl  A  nação  porlu- 
gucza,  de  que  nos  gloriamos  de  ser  filhos  gratos,  tcndo-se  esvaído 
com  esforços  infruciiferos  e  ais  saudosos  para  recobrar  todo  o  vigor 
das  forças  e  riquezas  que  competem  ao  seu  corpo  gigantesco,  quasi 
no  ultimo  paroxismo  da  exisiencía,  levantou  a  cabe<:a,  e,  fitando  os 
olhos  ao  único  remédio  da  sua  salvação,  lançou  mão  segura  do  leme 
do  governo,  e,  introduzindo.  n*este  legitimamente  pilotos  hal»eis, 
segue  já  sem  perigo  o  verdadeiro  rumo,  e  o  mais  certo  caminho 
que  a  conduz  ao  lugar  destinado  entro  as  naçOes  do  mundo  de  pri- 
meira ordem.  Com  o  regimen  da  nossa  constituição  politica,  ligados 
os  seus  membros  espalhados  por  todas  as  quatro  partes  do  mundo  e 
por  extremo  descarnados,  em  consequência  de  Hiltas  commettidas 
nos  tempos  passados  em  todas  as  repartições  da  publica  administra- 
ção, esta  cara  pátria  nossa  instantaneamente  se  fortificará  e  obterá 
toda  a  nutrição  com  a  reciproca  união  e  correspondência  entre  o 
magestoso  corpo  politico  e  sous  dispersos  membros.  Km  virtude 
d*esta  lei  elementar  do  governo,  que  divide  perfeitamente  os  po- 
deres das  aucloridadcs  constituídas,  e  desterra  para  sempre  as  arbi- 
trariedades apoiadas  em  falsos  principios,  e  algumas  vezes  em  ca- 
prichos desmedidos,  cessou  todo  o  despotismo;  porém  a  lei  vigo" 
rou,  e  a  obrigação  de  a  observar,  tanto  da  parte  dos  depositários 
destinados  para  a  fazerem  cumprir,  como  da  parte  dos  que  lhe 
devem  obedecer,  se  tornou  muito  mais  sagrada.  K/,  pois,  além  do 
dever  uma  virtude  que  nos  unamos,  que  nos  esforcemos  quanto  em 
nós  cabe  para  recuperar  os  reve7es  da  fortuna  experimentados,  e 
repellír  todos  os  principios  de  desunião.  Brilhe  entre  nós  a  conti 


-  Hl   - 


nuaçÂo  da  Gdelidade  e  da  boa  fé  com  que  já  jurámos  a  consliUiiç&o, 
e  esiamos  guardando  os  decretos  das  cortes.  Haja  reconciliação 
gerai  do  opiniões,  seja  removida  alé  a  mais  remela  sombra  de 
crueldade,  de  injuria  e  de  inlriga.  Deixemos  desembaraçado  todo  o 
campo  nos  nossos  ropresonlantes  para  completarem  o  augusto  qua- 
dro dos  mais  bellos  dias  da  naçào  portugueza.  Espera,  portanto, 
esta  junta,  para  a  qual  será  o  único  timbre  a  obediência  e  adhesão 
ás  cortes,  á  constituição,  a  el-rei  e  ao  principe  regente,  que  todos 
os  povos  da  província  lhe  correspondam  nos  mesmos  sentimentos, 
e  tenham  n'ella  a  maior  conGança,  pois  que  a  sua  marcha  no  expe- 
diente dos  negócios  será  regulada  pelas  leis  estabelecidas  e  pelo 
cordial  desejo  do  augmento  de  toda  a  província. — Viva  a  religião  ! 
—  Vivam  as  cortes!— Viva  el-rei  constitucional! —Viva  o  príncipe 
real!  —  Viva  a  união  de  todos  os  goyanos  constiiucíonaesl  -—  Viva  a 
reconciliação  geral  do  dia  30  de  Dezembro  de  18211  — Manoel 
Ignacto  de  Sampaio.  —  Paulo  Couceiro  de  Almeida  Homem.  —João 
José  do  Couto  Giiimnrães.- Luiz  da  Costa  Freire  de  Freitas.  —  Igna- 
cio  Soares  de  Bulhões. — xVntonio  Pedro  de  Alencastro.— Francisco 
Xavier  dos  Guimarães  Brito  e  Cosia. 


—   142  — 
CAPITULO    XX 
(1822-  1824] 

Desintelligencias  entre  os  membros  da  junta  administrativa. — Des- 
gostos de  Manoel  Ignacio  de  Sampaio.— Pede  Scmpaio  demíssSo. 
— E*  nomeado  presidente  o  Dr.  Paulo  Couceiro.— DemissSo  does- 
te, e  nova  nomeação  do  presidente. — O  coronel  Álvaro  José  Xavier, 
conimandanto  das  armas.— Acto  de  juramento  de  fidelidade  ás  cor- 
tes e  ao  principe  regente.— Eleiçrio  do  governo  provisório. — Pre- 
tenção  do  juiz  de  fora  Manoel  Anlonio  Galvão.^ A mbiçrlo  de  po- 
der malograda.— O  governo  provisório  do  norte.— Intenções  do 
ouvidor  Joaquim  Tlieotonio  Segurado— Sepamçao  da  comarca  de 
S.  JoíiO  da  Palma.— orfício  da  camará.— O  capiuio  Filippe  Antó- 
nio Cardoso  nomeado  coronel  commandante  geral  da  comarca  da 
Palma.— Anarcliia  no  norte.— OesiTedito  do  governo  dissidente. 
—Sua  transferencia  i)ara  NativiJaiie.— Recresce  a  desordem.— Pro- 
cedimento do  governo  provisório  de  Goyaz.— O  padre  Gonzaga  vai 
em  commissão  ao  norte.— Gonzaga  é  bem  succedido  em  suas  dili- 
gencias.—Procedimento  do  coronel  Filippe  em  Arrayas  e  Caval- 
cante.—Sua  prisJlo.-Devassa.— Gonzaga  na  Nalividad*».  — Dissolvc- 
se  o  governo  do  norte.— Congraçam-se  os  povos.— Fim  da  com- 
missão  de  Gonzaga.— Juramento  da  independência.— Acclamação  do 
imperador. —Juramento  da  constituição.— !'rimeiro  presidente  de 
Goyaz. 

Mal  linha  a  junta  administrativa  começado  afunccio- 
nar,  profundas  desintellipencias  apparoceram  entro  os 
seus  membros. 

Queriam  uns  que  o  ouvidor,  para  ser  membro  do  go- 
verno, se  demillisse  das  funcçôes  de  seu  cargo,  outros 
que  o  chefe  da  força  nâo  lizesse  parte  da  corporação 
do  governo.  Além  d'isto  a  maioria  da  junta  não  via  com 
bons  olhos  a  Manoel  Ignacio  de  Sampaio.  De  tudo  isto 
se  originou  a  formação  d»^  dois  partidos,  que  desde  logo 
abriram  hostilidades. 

Os  partidos,  de  ordinário  exigentes  c  exclusivistas,  se 


—  143  — 

porveatnra  não  slo  refreados  pelos  que  os  dirigem, 
praticam  de  ordinário  excessos  que  os  deturpam,  desa- 
creditam e  perdem. 

DjsJe  que  Manoel  ]gnac'o  foi  eleito  p  residente  da  jun- 
ta, os  seus  adversários  entenderam  dever  desgostal-o,  à  fim 
de  o  obrigarem  a  demitlir-se;  e  para  isto  conseguirem 
não  escolheram  meios. 

Cartas  anonymas  escriptas  em  linguagem  indecente  e 
torpe,  pasquins  e  insultos,  foram  as  armas  que  não  du- 
vidaram empregar  contra  o  ex-goveriiador. 

Na  sessão  do  3  de  Janeiro,  marcada  para  designar-se 
o  dia  da  reunião  dos  eleitores  que  tinham  de  escolher 
o  governo  provisório ,  um  dos  membros  da  junta  pro- 
visória abriu  e  leu  uma  carta  anonyma  contra  o  presi- 
dente Sampaio,  na  qual  era  elle  insultado  da  maneira 
a  mais  violenta  e  cobarde.  K  o  mais  é  que  os  seus 
collegas  não  tiveram  a  delicadeza  de  lhe  pouparem  este 
dissabor. 

Este  desabrido  procedimento  dos  membros  do  gover- 
no tanto  magoou  a  Manoel  Ignacio  que  resolveu  retirar- 
se  da  província,  afim  de  não  ser  alvo  de  novos  insul- 
tos. 

Na  sessão  do  dia  8,  antes  de  enlrar-se  na  ordem  dos 
trabalhos,  pediu  Sampaio  a  palavra,  e  declarou  que,  se 
no  dia  30  de  Dezembro  linha  aceitado  a  presidência  da 
junta,  para  que  fora  eleito  por  unanimidade,  tivera  por 
fim  concorrer  para  de  prompto  se  congraçarem  os  par- 
tidos, e  se  fizesse  com  tranquilidade  a  eleição  do  governo 
provisório;  que,  quando  no  dia  -2  de  Janeiro  íoi  com 
a  junta  acamara,  para  rectificarem  o  juramento  de  fide- 
lidade a  el-rei,  c  ao  príncipe  regente,  tendo  poucas  horas 
antes  conhecido  o  estado  das  cousas,  exigira  em  publico 
a  sua  demissão,  por  isso  que  não  tivera  até  então  con- 


—  lU  — 

servando-se  no  governo,  outro  fím  senão  beneficiar  os 
goyanos;  vendo,  porém,  que  a  sua  presença  na  província 
podia  dar  lugar  a  algumas  dlssenções,  por  maiores  que 
fossem  as  cautelas  que  observasse  no  seu  proceder,  de 
novo  instava  pela  sua  demissão  do  modo  o  mais  ter- 
minante. 

A  junta  foi  prompta  em  deferir  o  requerimento  ver- 
bal de  Manoel  Ignacio.  O  ouvidor  e  o  tenente  coronel 
Luiz  da  Costa  também  n'esta  occasiao  reiteraram  o  pe- 
dido, que  jà  haviam  feito,  de  suas  demissões,  mas  não 
foram  atlendidos. 

Exonerado  Sampaio,  deliberou  a  junta  nomear  d'en- 
tre  seus  membros  um,  que  servisse  de  presidente;  mas 
antes  de  assim  proceder  foi  proposto  e  resolvido  que 
as  funcções  do  presidente  que  ia  ser  nomeado,  duras- 
sem apenas  um  mez.  À  escolha  recahiu  no  ouvidor  Pau- 
lo Couceiro.  Na  acta  da  sessão  do  dia  9  mandou-se  lan- 
çar a  seguinte  declaração :  «  Hoje  9  do  corrente  j&  não 
é  presidente  d'úsla  junta  administrativa  interina  do  go- 
verno dVsla  província,  por  lír  pedido  a  sua  demissão, 
para  maior  socego  de  lodos  os  povos  d'esta  mesma  pro- 
víncia, o  Exra.  general  Manoel  Ignacio  de  Sampaio.  >» 

E  porque  esta  resolução,  pouco  consolidadas  como  an- 
davam as  cousas,  podia  acarretar  dífliculdades,  mandou 
a  junla  affixar  uma  proclamação,  concebida  nos  termos 
os  mais  conciliatórios  (88). 

(88)  ííoyanos!  Confiai-vos  no  governo  que  elogesles.  Para  obter  o 
socego  publiro  e  a  felicidade  dVsla  província  foi  legitimamente  creada 
esta  junta:  por  causa  dos  l>oatos,  que  ainda  gyravam,  sobre  que  houve 
morào  no  dia  8  do  corrente,  propòz  o  Exm.  general  a  sua  demissão, 
dando  por  motivo  obter-se  assim  a  tranquillidade  publica,  o  que  acei- 
lámos  por  ser  este  um  dos  pontos  mais  atlendiveis  a  que  se  propõe 
esla  junla;  i»  em  seu  logar  foi  por  nós  eleito  para  presidente  o  I)r. 


Hias  depois  pedia  Sampaio  os  s6us  passaportes,  e  cer* 
tidão  ílo  libeUo  infamante  que  contra  elle  tinha  sido  pre- 
sente e  lido  na  jaola:  forarn-lhe  dados  os  passaportes, 
mas  se  lhe  recusou,  contra  os  yoIos  de  Couceiro  ele- 
nen te -coronel  Freire,  a  certidSo  pedida. 

Em  razão  doeste  procedimento  da  maioria  da  junta, 
entendeu  o  ouvidor  que  nâo  devia  mais  fazer  parte  del- 
la,  c  pediu  demissão  de  todos  os  seus  cargos,  demissão 
que  nao  foi  recusada. 

A  nova  escolha  de  presidente  recâhiu  no  vigário  da  va- 
ra, Francisco  Xavier  dos  Guimarães  Brito  c  Costa,  e  por 
esta  occâsiâo  também  nomeou  a  junta  o  tenente-coronel 
Álvaro  José  Xavier  commandanle  das  armas. 

Estas  defecções  concorreram  para  que  o  governo  per- 


Piulo  Couceiro  de  Almeida  Homem.  Gofanost  TraDquillisai  os  vossos 
espíritos ;  chamai  á  paz  aa  vossas  casas ;  lerabrai-vos  que  somos  por- 
tugoezes;  sede  obedienies  íis  leis  e  ás  aiiclorídades  constitui das^  que 
as  adtnioístmm.  O  desvelo  doesta  jontaé  a  vossa  prosi^eridade»  recorrei 
n  elia  nas  vossas  precisões ;  fácil  Ym  é  pedir  remédio  pafA  as  vossas 
necessidades  €  as  da  vossa  pairia ;  eila  vos  alieAderá,  e  o  que  exceder 
os  li  mil  CS  da  sua  auetoridadc  levará  ú  presença  do  atto  príncipe  que 
jios  rege,  e  fará  subir  até  o  congresso  da  Suprema  Mageslade  aa  vossas 
supplíCáB,  de  onde  emanará  sem  duvida  o  bálsamo  para  cicatrizar  as 
vossas  chagas.  Coyanos  l  Fieis  goyaiiõsi  Eslao  quebradas  m  barreiras ; 
commuQJcai-vos  sèni  susto  com  m  vosios  irmHos  babitantes  da  IMImE; 
toraaí-vos  a  mesma  família;  e  Vík,  palraenses,  persuadi~vos  que  a  de- 
mora  da  nossa  reuni^ito  é  ainda  o  que  dissaborèa  o  nosso  prazer ;  se 
sais  porluguezes,  obrai  act.íies  de  portuguezes,  e  unamo-nos,  para 
'  juntos  clamarmos:  viva  a  nossa  santa  religião,  vivam  as  LÕrtes,  viva  a 
aa  cónsliluíçrio,  viva  el-rei  coostiturional  o  Senhoi"  D,  Jo^oVl, 
viva  o  pniicipe  regenie  do  Brasil,  vivam  osgoyanosí  Goyaa,  9  de 
Jaoeiro  de  IS  21 --I>aulo.  Couceiro  de  Almeida  Homem.  —  Igoacio 
SoAres  de  Buibõeâ, ^Francisco  Xavier  dos  Guimares  Brito  e  Costa. — 
Luiz  da  Costa  Freij^e  de  Freitas.— António  Pedro  de  Aloocastro,— 
JoSio  José  du  Couto  Guimarães. 

TOMO   XXTIll,    P.    H.  Ift  . 


—  H6  — 

desse  muito  de  sua  força  e  prestigio ;  situação  esta  que  se 
agravou  com  o  instaute  pedido  de  demissão,  que  fez  o  te- 
nente-coronel  Freire,  desde  que  Álvaro  Xavier  assumiu 
o  superior  commando  da  força. 

Os  adversários  de  Sampaio  ião  assim,  sem  vistas  lon- 
gas no  futuro,  conseguindo  seus  fins;  porém  a  fraque- 
za do  governo  jà  produzia  murmurações  e  era  objecto 
decommentos.  Estando  próxima  a  eleição  do  governo 
provisório,  para  o  futuro  appellavam  os  que  tinham  razão 
de  desesperar  do  presente.  Em  matéria  de  máo  gover- 
no não  se  deve  adoptar  o  principio  da  velha  de  Sira- 
cusa; tudo  quanto  está  para  vir,  pôde  ser  melhor,  e  é 
preferível;  assim  pensavam  os  que  tinham  esperanças  de 
ver  mais  cordialidade  e  unidade  de  pensamento  no  go- 
verno provisório.  A  situação  era  deplorável? 

Na  sessão  solemne  da  junta  de  13  de  Janeiro  recti- 
ficaram os  chefes  das  corporações  civis  e  militares  o  ju- 
ramento, que  já  haviam  prestado  de  fidelidade  a  el-reí  e 
ás  cortes,  accrescentando  á  formula  do  juramento— obe- 
diência ao  príncipe  regente:— assim  o  fizeram  João  José 
de  .'Vzevedo Noronha  e  Camjira,  coronel  do  !.*•  regimen- 
to de  milícias,  o  sargento-mór  e  commandanle  do  de  in- 
fantaria, Maximiano  José  Raymundo,  o  llscal  da  casada 
fundição,  Dr.  Manoel  de  Santa  Barbara  Garcia,  o  escri- 
vão, deputado  José  Joaquim  Pulquerio  dos  Santos,  e  o 
presidente  da  junta  da  fazenda,  Raymundo  Nonalo  Hya- 
cintho. 

Os  acontecimentos  que  na  corte  succederani  em  Ja- 
neiro e  Fevereiro,  principalmente  os  do  memorável  dia 
9  de  Janeiro  de  1822,  que  foram  por  assim  dizer  o  pri- 
meiro verbo  da  nossa  emancipação  politica,  sendo  sabi- 
dos em  Goyaz  em  fins  de  Março,  produziram  natu- 
ral e  agradável  impressão  em  todos  os  espíritos;  mas 


—  14T   ^ 

não  se  comprehendia  ainda  que  a  independência  do  Bra- 
sil cra  jâ  um  facto  consummado.  Quando  a  junta  an 
nunciava  estes  successos,  ainda  levantava  vivas  ás  cor- 
tes portuguezas,  ainda   victoriava    o  rei    constitucional 
D.  João  VI  (89). 

E'  tempo  de  darmos  conta  da  eleição  do  governo  pro- 
visório. 

No  dia  8  de  Abril  se  reuniram  nos  paços  do  conse- 
lho os  eleitores  da  capital,  Meia  Ponte,  S.  Luzia,  S.  Cruz, 
Pilar,  Crixás,  Trahiras  e  S.  Félix.  Não  compareceu  um  só 
eleitor  por  parte  da  comarca  da  Palma.  Eram  candida- 
tos ao  cargo  de  presidente  do  governo  provisório  o  Dr. 
juiz  de  fora,  Manoel  António  Galvão,  o  coronel  Álvaro 


(89)  I^roclamaçào.— Tendo  sido  n'esla  provinda  manifestada  a  sabia 
deliberação  que  lomou  S.  A.  Keal  o  príncipe  regente  do  Brasil  de 
suspender  a  sua  sabida  para  Portugal,  demorando  o  prazer  de  voltar 
á  sua  cara  pátria  e  ao  seio  de  sua  augusta  familia,  só  por  realizar 
a  felicidade  dos  povos  que  têm  a  dita  de  se  reconhecerem  seus 
súbditos :  curapre-nos  também  nao  deixar  em  silencio  os  sentimentos 
de  gratidão  de  que  eslamos  possuidos.  A  junta  administrativa  interina 
do  governo  em  vosso  nome  vai  agradecer  ao  mesmo  augusto  senhor 
Ião  iieroico  sacriíioio,  e  protestar  que  os  goyanos  constitucionaes  não 
sao  menos  briosos  que  os  seus  irmãos,  e  que  nunca  perderão  occasião 
de  dar  decididas  provas  de  amor,  adhesão,  respeito,  obediência,  á  sua 
sagrada  pessoa,  reconhecendo  a  imperiosa  necessidade  da  sua  residên- 
cia no  Brasil,  como  garantia  dos  direilos  dos  brasileiros,  como  pri- 
meiro defensor  da  sagrada  constituição,  e  finalmente  como  vinculo 
indissolúvel  que  prende  um  a  outro  hemispherio  portuguez.  Vivam  as 
cortes  da  nação  portugueza,  viva  a  nossa  santa  constituição,  viva 
el-rei  constitucional  o  Senhor  D.  João  VI,  viva  S.  M.  Real  o  príncipe 
Regente  do  Brasil,  que  se  sacrifica  pela  felicidade  da  nação,  viva  a 
união  do  Reino  Unido.  Goyaz,  1"  de  Abril  de  1822.— Francisco  Xavier 
dos  (luimarães  Brito  e  Costa.— António  Pedro  de  Alencastro.— Luiz  da 
Costa  Freire  de  Froitíis.— João  José  do  Couto  Guimarães.— Ignacio 
Soares  de  Bui  hoes. 


-  Ii8  - 

José  Xavier,  e  o  presidente  inleríDO  da  junta  da  fazen- 
da, Raymando  Nonato  Hyacintho.  A  sorte  designou  o  co- 
ronel Álvaro  José  Xavier,  e  para  secretario  o  capitão 
José  Rodrigues  Jardim,  e  para  membros  o  capitão  João 
José  do  Couto  Guimarães,  Ignacio  Soares  de  Bulhões, 
Raymundo  Nonato  Hyacintbo,  padre  Luiz  Gonzaga  de 
Camargo  Fleury,  e  o  sargento-mõr  Joaquim  Alves  de  Oli- 
veira. (00) 

(90)  Sessão  de  8  de  Abril  de  1822.— Anno  do  nascimcnlo  de  Kosso 
Senhor  Jesus  Ghrisio  de  1822,  aos  8  dias  do  mcz  de  Abríl  do  dito  aono, 
Q*esta  cidade  de  Tioyaze  capital  da  provi  ncia,  reuni  ram-se  nos  paços 
do  conselho  do  mesmo  o  juiz  presidente,  o  alferes  Domingos  Marques 
Lopes  Fogaça,  que  n'estc  acto  serve  de  segundo  vereador  por  impe- 
dimento do  capitão  José  Rodrigues  Jardim,  vereador  mais  velho,  ve- 
readores e  procurador  da  mesma,  e  os  eleitores  da  pdrochia,que  n^este 
acto  apresentaram  seus  competentes  titulos,  que  vém  a  ser  oe  d*eila 
província,  o  coronel  Álvaro  José  Xavier,  o  capitão  João  José  do  Couto 
Guimarães,  o  escrivão  deputado  da  junta  Raymundo  Nonato  Hyacintho, 
o  capitão  José  Rodrigues  Jardim,  e  o  ajudante  Pedro  Gomes  Machado; 
o  do  arraial  da  Anta,  o  Rev.  vigário  António  Fclix  da  Mãi  de  Oeui; 
de  Meia  Ponte,  o  Rev.  Joaquim  Gonçalves  Dias  (loulão,  o  Rev.  Luiz 
Gonzaga  de  Camargo  Fleury,  e  o  capitão  Jeronymo  Rodrigues  de  Mo- 
raes ;  de  Santa  Luzia,  o  Rev.  vigário  João  Teixeira  Alves,  e  o  capitão 
Joaquim  de  Mello ;  de  Santa  Cruz,  o  capitão  António  José  Teixeira,  e 
por  impedimento  de  moléstia  não  compareceu  o  eleitor  seu  compa- 
nheiro Vicente  Miguel  da  Silva ;  do  Pilar,  o  Rev.  José  lareira  Cabral 
e  João  Soares  Baptista ;  de  Cnxás,  o  Rev.  vigário  Manoel  de  Azevedo 
e  Santos,  que  também  não  compareceu,  por  impedimento  de  moléstia; 
de  Trahiras,  o  capitão  João  Caetano  de  Sampaio,  e  de  S.  Félix,  o  ca- 
pitão José  da  Costa  Ramos,  estando  também  presentes  alguns  cidadãos 
do  clero,  nobreza  e  republicanos,  para  o  lim  de  assistirem  á  nomeação, 
que  pelos  referidos  eleitores  se  fizer  de  presidente,  secretario,  e  cinco 
membros  do  governo  provisório,  que  n'este  mesmo  acto  se  vai  a  pro- 
ceder, tendo-se  em  vista  os  decretos  das  c/^rtes  de  1"  de  Setembro  de 
1821  e  29  de  Setembro  do  mesmo  anno,  mandados  observar  pela 
carta  de  lei  de  1  de  Outubro  do  dito  anno ;  e  pelos  mesmos  eleitores 
foi  feita  a  eleição  de  dois  escrutadores,  c  saliiram  eleitos  por  plura* 


—  149  - 

Empossado  o  governo^  foi  sea  primeiro  acto  deslruir 
do  coramaodo  da  força  de  primeira  linha  o  lenante  co- 

lidade  de  votos  o  capitío  João  José  do  Coulo  Ouiniârães,  e  o  Kev;  Luiz 
ÇiOmaga  de  Camargo  Fleury,  que  tiveram  8  votos,  e  o  capitão  José 
nodxigues  Jardim  com  6;  correu  o  escrtJliaio^e  sahiu  a  fãvor  do  primeiro 
com  9  voto®  contra  5.  Seguindo  a  eieiçnio  do  presidente,  teve  6  votos 
o  comtiel  Álvaro  José  Xavier,  o  Dr*  \lanoel  António  (lalvâo  4,  e  Kay- 
mundo  Nonato  Uyacinliio  ú ;  correndo  o  esenilinio  do  sp-gundo  coni  o 
terceiro,  teve  esle  11  votos^  eo  segundo  à,  e  entrando  o  terceiro  em 
novo  e^rutínío  com  o  prínaeiro,  o  coronel  Aívaro  Jo&<í  Xavier,  que 
liavía  obtido  6  votos,  saliiu  o  mesmo  eleito  presitlfute  do  goverfio  [>or 
pluralidade  absoluta  de  10  \'otos  contra  íi;  pio&eguindo-se  i\  elei<;ào 
de  secretario  do  mesmo  governo,  sahíranj  eleitos,  o  capitão  José  Ro* 
drigtjes  Jardim  por  pluratidade  absoluta  de  9  vuLos,  e  procede ndo-se 
fmalfnentc  á  eleição  dos  cinco  membros  do  governo,  teve  7  votos 
ftíira  1"  merabroo  escrivílo  det>utado  da  junta  Raymundo  Nonato  Hya- 
cinilio,  e  ocapilí^o  Jorio  José  do  Couto  nuiniarries  com  3,  e  correndo  o 
escrutínio  saliiu  o  dito  escrivão  d.i  junta  por  ter  a  seu  favor  8  votos 
contra  6.  Pfira  se^ndo  membro  dy  governo  sahin  eleito  o  capitão 
João  José  do  Couto  Cf  ai  mandes  por  pluralidade  alisoluta  de  10  votos. 
Para  terceiro  leve  3  votos  o  sargenlo-mór  Joaquim  Alves  de  Oliveira, 
o  mesmo  numero  de  votos  o  capitao^mór  Salvador  Pedroso  de  Campos 
e  os  mesmos  votos  o  coronel  António  E^droso  de  Aleueastr^,  os  quites 
entrando  em  sorte  para  se  separar  2  sabiu  a  favor  do  capilão-mór 
SaJvador,  e  o  sargenlo-mór  Oliveira,  e  correndo  o  escrutínio  entre  os 
dois  sorteados  teve  7  votos  o  dito  capitão-mòr,  e  o  dito  sargenlo-mor 
%^  o  qual  entrando  em  segundo  escrutínio  com  Autonio  Pedro  do  Alen- 
c  as  Iro  satiiu  eleito  membro  do  governo  por  ter  a  seu  favor  pluralidade 
atiâoluta  de  D  votos  contra  7,  que  teve  o  dito  Aleocaslro,  l^ara  quarto 
Diembro  leve  6  votos  o  líev,  Luiz  Gonzaga  de  Cíimargo  Fleury,  3  o 
ajudante  t^dro  Gomes  \;achado,  e  o,  mesmo  numero  o  coronel  An- 
lonío  t'edro  de  AlencEistro,  c  correndo  o  escrutínio  entre  os  dois  ul- 
limos,  teve  7  votos  o  dito  Alencastro,  e  8  o  dito  Pedro  Gomes,  que 
entrando  em  segundo  esc  ru  tini  o  com  o  Rev.  Luiz  Gonzaga,  sahiu  este 
eleito  membro  do  governo  por  ter  lo  votos  a  seu  favor  contra  4-  Para 
quinto  membro  sahiu  com  6  votos  o  capitão  ígnacio  Soares  de  Bu- 
|htSe«p  com  3  l*edro  Gomes  Machado,  e  o  Hev*  ínnocendo  Joaquim 
Moreira  de  Carvallio  com  o  dito  n.  Sj  e  correndo  o  escrutinio  sobre  oa 


—  150  — 

ronel  Luiz  da  Costa  Freire  de  Freitas,  e  nomear  pan 
snbsUtQil-o  o  tenente  António  José  de  Oliveira. 
IfSo  tendo  sido  eleitos,  como  pretendiam,  membros  do 


dois  QltioiOB,  teve  e.voU»  o  dito  Machado,  e  9  o  padre  lanooeneii, 
que,  entrando  em  segando  escratinio  com  o  capitSo  Ignacio  Soares  de 
Bulhões,  loi  decidido  a  favor  doeste  com  11  votos  contra  5.  E  por  esti 
forma  foram  o  presidente,  secretario,  e  cinco  membros  do  govenw 
provisório  nas  pessoas  dos  referidos,  que  sendo  publicadas  dentro  do 
paço  d'este  conselho  para  os  cidadãos  que  se  achavam  reunidoe,  aoei* 
taram  a  referida  nomeação,  e  logo  n*este  mesmo  acto  achando-se  pre- 
sentes todos  os  eleitos,  á  excepção  do  terceiro  membro  que  reside  m 
arraial  de  Meia  Ponte,  lhes  foi  apresentado  um  livro  dos  Santos  Evan- 
gelhos pelo  presidente  doesta  camará,  o  dito  alferes  Domingos  Lopes 
Marques  Fogaça,  no  qual  pondo  suas  mãos  direitas  prestaram  o  jon- 
mento  seguinte :  «  Juramos  aos  Santos  Evangelhos  veneração  e  resptílê 
á  religião  catholica  de  Roma,  obediência  ás  cortes  geraes  e  consti- 
tuintes da  nação  portd^eza,  de  observar  e  manter  as  leis  existenlea, 
e  tudo  o  que  pelas  ditas  cortes  fòr  determinado,  afim  de  manter  a 
união  dos  reinos  unidos,  obediência,  adhesão  e  respeito  a  el-rei  cons- 
titucional o  Senhor  D.  João  VI,  e  ao  seu  augusto  filho  constitucional  o 
principe  regente  do  Brasil,  por  uma  maneira  legal,  e  sem  prejuizo  d'esla 
reino  do  Brasil,  assim  na  conservação  do  mesmo  augusto  senhor, 
como  centro  do  (loder  executivo,  como  também  dos  direitos  adquiridos 
pelos  seus  habitantes.  »  E  n'este  mesmo  acto  esta  camará  deu  posse 
aos  sobreditos  presidente,  secretario,  etc,  do  governo  de  toda  esta 
provincía ;  deliberando  outrosim  que  se  fizesse  as  devidas  i)articipa- 
çOes  aos  chefes  das  corporações  eiveis,  niililai-es,  e  clero,  para  pres- 
tarem juramento  em  forma  de  obedecer  e  guardar  tudo  quanto  pelo 
dito  governo  provisório  fòr  determinado  a  bem  do  serviço  nacional, 
praticando  os  ditos  chefes  coip  os  seus  subordinados  o  mesmo  jura- 
mento, devendo  o  mesmo  governo  tomar  a  si  as  mesmas  participações 
para  os  julgados  da  provjncia.  E  para  constar  mandaram  lavrar  esta 
auto,  em  que  se  assignaram  a  camará,  o  presidente,  o  secretario,  e 
mais  membros  do  governo  que  se  achavam  presentes,  eleitores,  e  os 
cidadãos  que  assistiram  a  este  acto.  Eu  José  Bento  Bueno  da  Fonseea, 
labellião  e  escrivão  da  camará,  quo  o  escievi«  (Seguem-se  as  as- 
signaluras. ) 


—  151  — 

governo  o  Dr.  Manoel  Anlonio  Galvão,  o  coronel  An- 
tónio Pedro  de  Alencaslro  e  o  capitão  Gabriel  Gelulio 
Monteiro  de  Mendonça,  despeitados  por  isto,  constitui- 
ram-se  centro  de  um  pequeno  corrilho,  que  de  partido 
não  merecia  as  honras,  para  promoverem  a  queda  do 
governo  eleito  e  empolgarem  o  poder. 

Convencido  o  governo  provisório,  que  se  machinava 
contra  sua  existência,  demittiu  a  Galvão  das  funcções  de 
juiz  de  fora,  e  consliluiu-se  em  tribunal  judiciário,  pa- 
ra tomar  conhecimento  dos  factos  por  meio  de  devassa. 
O  traslado  d*esle  celebre  procedimento  judiciário  foi  rc- 
mettido  á  corte,  e  deu  lugar  ao  aviso  de  í8  de  Julho  de 
1822,  que  mandava  recolher  á  prisão  os  três  turbulen- 
tos c  ambiciosos:  mas,  quando  este  aviso  teve  de  ser 
cumprido  em  Setembro,  nem  Galvão  nem  Alencaslro  es- 
tavam em  Goyaz;  Gabriel  Gelulio  era  o  único  que  alli 
existia:  foi  preso  c  remetlido  para  a  corte. 

Em  Agosto  o  governo  provisório  deu  as  ordens  para 
a  eleição  dos  deputados  á  constituinte,  e  sahiram  eleitos 
o  padre  Silvestre  Alves  da  Silva,  natural  de  Trahiras,  e 
hoje  ainda  vigário  deJaraguá,  o  qual  foi  tomar  assen- 
to, e  o  sargento-mór  Joaquim  Alves  de  Oliveira,  que  se 
deixou  ficar  na  província  como  membro  do  governo  pro- 
visório. 

Vimos  a  maneira  por  que  foi  no  norte  installado  um  go- 
verno provisório,  a  cuja  frente  secollocára  o  ouvidor  da 
comarca  da  Palma,  Joaquim  Theolonio  Segurado. 

As  vistas  do  padre  Luiz  Bartholomêo,  promovendo  a  sua 
creação,  não  eram  outras  senão  a  independência  do  Brasil; 
a  simples  substituição  do  governo  pouca  garantia  oITerecia 
aos  principios  constilucinnaes,  embora  o  rei  jà  os  tivesse 
aceitado  e  jurado,  sem  uma  mudança  radical  na  adminis- 


—  152  — 

tração  om  todos  os  seus  ramos  ;  a  sabida,  pois,  de  Sampaio 
era  apenas  o  primeiro  embaraço  que  se  removia. 

Segurado  comprehendeu  perfeitamente  que  este  era  o 
fim  á  que  attingiam  os  promotores  do  movimento ;  e,aves80 
a  toda  idéa  de  emancipação  politica,  frenético  apologista 
da  união  dos  três  reinos,  collocou-se  á  frente  do  governo 
de  Cavalcante,  para  servir  à  sua  causa.  Elle  mesmo  cbegoa 
a  confessal-o,  dizendo  que  o  governo  de  Cavalcante  seria 
contra  D.  Pedro^  se  elle  aceitasse  a  coroa  do  Brasil. 

Quando  a  junta  provisória  officiava  ao  secretario  de  es* 
tado,  Luiz  Pereira  Nóbrega  de  Sousa  Coutinho  sobre  os 
negócios  do  norte,  e  das  apprelicnsões  que  linha,  se  expri- 
mia assim : 

«  Cumpre  a  esta  junta  ponderar  a  V.  Ex.  que,  tendo 
Joaquim  Tbeotonio  Segurado,  ouvidor  da  comarca  de 
S.  João  das  Duas  Barras,  installado  em  Setembro  do  anno 
passado  um  governo  provisório  em  Cavalcante,  arraial  da 
mesma  comarca,  do  qual  se  fez  presidente,  transferindo-o 
depois  para  Natividade,  fazendo-se  nomear  deputado  às 
cortes,  partiu  para  Lisboa  pela  cidade  do  Pará,  deixando 
recommenduda  a  conservação  do  mesmo  governo,  promet- 
tendo  haver  do  congresso  a  sua  approvação.  Do  Pará  fez 
voltar  algumas  pessoas  que  levava  corasigo,  c  novamente 
por  estas  reanimou  ao  referido  governo  ;  e,  não  tendo  esta 
junta  certeza  de  que  a  província  do  Pará  lenha  adherido  á 
causado  Brasil,  com  justos  motivos  receia  que  Segurado, 
tendo  n*aquella  comarca  fazendas,  mulher  e  filhos,  e  sendo 
de  ura  génio  ardente  e  emprehendeJor,  senão  tenha  des- 
cuidado de  solicitar  do  congresso  lisbonense  ordens,  para 
que  do  Pará  se  envie  Iropas  a  apossar-se  doeste  centro.  » 

Com  a  retirada  de  Segurado,  muitos  dos  seus  correligio- 
nários politicos,  conhecendo  que  tinham  vivido  iiludidos, 
abandonaram  a  sua  causa,conservdndo-se  alguns  indecizos; 


—  1S1  — 


masô  apilão  Filippe  Anionio  Cardoso»  que  parece  nlú  tet 
eslado  de  inlerro  accordo  com  Segurado,  deu  uma  nova  fei- 
ção aos  negócios  do  norle, 

tfm  decreto  do  governo  provisório  declarou  desmem- 
brada de  Goyaz  a  comarca  da  Palma,  e  conslilaida  em 
província  independente.  A'  corte  foi  mandado  um  depu- 
tado» para  fazer  constar  ao  governo  central  da  resolução, 
cpie  acabavam  de  tomar.  Quasi  todos  os  arraiaes  do  norte 
tinham  adlierido  a  esta  separação,  mas  ninguém  confiava 
no  futuro,  embora  sentissem  a  necessidade  de  semelhante 
providencia. 

Quando  a  junta  interina  de  Goyaz  ofQcíou  à  camará  da 
Palma  dando  parle  do  que  li n lia  havido  na  capital  desde  30 
de  Dezembro  de  1821  até  7  da  Janeiro  do  ânno  seguinte,  e 
a  convidou  para  entrar  na  communlião,  de  que  estava 
separada,  teve  cm  resposta  o  seguinte  officio: 

«  K  Gamara  doesta  vilta  de  S.  João  da  Palma  e  sua  co- 
marca acaba  de  receber  o  oíDcio  que  por  V.  Ex,  Ilie  foi 
dirigido  com  data  de  7  de  Janeiro  do  preseníe  anno,  no 
qual  nos  annuncia  a  instatlação  daeicellentisâima  junta  ad- 
ministrativa d 'essa  provi  ncia*  cujas  interessantes  noticias 
de  ha  muito  desejavam,  para  com  ella  manter  entre  os 
povos  a  paz  e  a  união  que  deve  representar  na  regeneração 
politica  da  nação-  A  demora  que  houve  entre  os  povos 
goyanos  em  sacudirem  o  jugo  que  os  opprimia»  e  abraçarem 
a  nossa  causa, fez  com  que  os  povos  d'esla  repartição  no  es- 
paço de  tempo  que  viveram  separados  conhecessem  a  ne- 
cessidade que  tinham  de  um  go verso  no  centro  da  sua  pro- 
víncia pela  longitude  de  mais  do  1  'lO  léguas  que  dista  d'esla 
à  essa  eapit;d,por  cujos  princípios  se  dividiu;  e,âssim  como 
Sua  Mageslade  mandou  fazer  a  divisão  por  justiça,  lambem 
o  fazia  pelo  governo  se  a  capitania  tivesse  reddilos  para 
esêe  fim  ;  porém  agora  que  essa  despeza  deve  Gear  pela 
TOMnnxvni,  p.  ii.  âO 


—  154  - 

metade,  por  se  dimioairem  maítos  empregados,  que 
▼iam  tão  somente  de  dar  prejaizo  à  fazeoda  real,  bojada 
naçSo.parece  não  serem  pesados  aos  po?os  os  dois  gofemos 
pela  commodídade  e  felicidade  qae  d'elles  podem  resultar  e 
pela  antígaidade  do  d*esta  provinda,  não  pôde  ter  lugar  a 
reunião  pretendida  por  VV.  Exs.,  muito  principalmente  por 
estarem  estes  negócios  affectos  a  Sua  Magestade  e  ás  cortes, 
para  onde  já  mandámos  o  nosso  deputado,  que  sahínno 
dia  6  de  Janeiro  do  presente  anuo  ;  e  por  estes  tão  rele- 
vantes principios  não  podemos  e  não  devemos  dar  solucfo 
ao  officio  de  VV.  Exs.  respectivamente  aos  eleitores  da  co^ 
marca  para  nomeação  dos  deputados.  Esta  camará  satis- 
feita em  ver  VV.Exs.,  tão  distincto  promovendo  em  tudo 
com  feliz  acerto  as  red6asd*esse  governo,  e  justificando-se 
cada  vez  mais  beneméritos  á  pátria  e  á  nação,  lhes  dá 
parabéns  de  tão  feliz  sucesso,  rogando  lhes  da  parte  de 
Sua  Magestade  Constitucional,  das  cortes  e  do  príncipe  leaf 
hajam  de  cortar  no  seu  feliz  governo  os  passos  que  a  este 
respeito  fomentara  o  ex-general :  e  entre  muitos  que  ser- 
viam tão  somente  de  confundir  os  povos  d*esta  repartição, 
a  fim  de  os  precipitar  n'uma  guerra  civil,  foi  crear  um  ou- 
vidor no  julgado  de  Trahiras,  que  sem  posse  d*esta  camará 
exercita  francamente  as  funcções  do  seu  ministério,  cujo 
despotismo  devem  VV.  Exs.  cortar,  para  realisar-se  a  paz 
promeltida.  Deus  Guarde  àV.  Ex.  Villa  de  S.  JoOo  da  Palma 
em  camará  6  de  Março  de  18i2.  —  Ilms.  e  Exms.  Srs.  da 
junta  adminislraliva  da  provi ncia  de  Goyaz.  —  Manod  An- 
tónio Bueno,  —  Theodorifi  António  da  Silva.  —  Francisco 
da  Rocha  Bastos. — João  Vidal  de  Attayde.  y^ 

Não  durou  muito  tempo  a  união  entre  os  membros  do 
governo  do  norte  ;  na  falta  de  um  cbefe  intelligente,  em 
breve  tempo  não  havia  ordem  nas  deliberações,  unidade 
de  vistas,  harmonia  edisciplina  em  cousa  alguma  ;  os  des- 


—  1S5  — 

coDteDtes  jà  appareciam  em  grande  numero,  e  não  pou- 
cos discutiam  a  necessidade  da  união  de  todos  os  povos 
da  provincia  sob  as  vistas  protectoras  de  um  só  governo 
regularmente  constituido. 

Nem  os  seus  membros,  nem  o  coronel  Cardoso  tinbam 
bastante  força  e  prestigio  para  serem  ouvidos  e  obedecidos. 

Compunha-se  então  o  governo  provisório  da  Palma  do  te- 
nente coronel  Pio  Pinto  de  Cerqueira,  capitão  Lúcio  Luiz 
Lisboa,  tenente  José  Bernardino  de  Sena  Ferreira,  Manoel 
Mathias  Ferreira,  Silvério  José  de  Sousa  Rangel,  tenente 
Joaquim  José  da  Silva,  quasi  todos  influenciados  pelos  por- 
tuguezes  João  Baptista  da  Cruz  Monte,  e  António  Joaquim 
Torres.  Descrevamos  a  situação. 

Em  poucos  mezes  lavrava  o  descontentamento  por  to- 
da parte;  a  Palma  era  o  foco  das  maiores  desordens  e 
animosidades.  Os  antigos  chefes  declaráram-se  contra  os 
novos,  e  a  camará,  intervindo  na  luta,  tomou  o  parti- 
do d'aquelles.  N'este  foco  de  intrigas  não  queria  viver  o 
governo,  e  por  isto  transferiu  a  sede  da  intHulada  pro- 
vincia de  S.  João  da  Palma,  para  Natividade.  Este  arraial 
foi  elevado  ao  predicamentodevilla  capital;  extinguiu-se 
o  foro  civil  da  Palma,  de  onde  se  removeram  os  archi- 
vos.  Uma  força  partiu  da  Natividade  para  prender  os 
vereadores  da  Palma ,  que  se  foram  refugiar  em  Ar- 
rayas.  Nomeou-se  ouvidor  o  tenente-coronel  Pio  Pinto 
de  Cerqueira,  sendo  destituído  Febronio  José  Vieira,  que, 
na  qualidade  de  juiz  ordinário  e  presidente  da  camará, 
substituia  a  vaga  deixada  pelo  fallecimento  de  João  Es- 
teves de  Brito,  ouvidor   nomeado  por  Segurado. 

A  villa  da  Palma  foi  guarnecida  com  60  praças.  Dos 
sete  julgados  que  tinham  adherido  á  causa  do  norte, 
alguns,  descontentes,  voltavam  as  vistas  para  a  antiga 
capital. 


-  ISti  - 


Depois  dâ  transferencia  do  governo  para  Nalividade, 
a  villa  da  Palma  e  o  julgado  de  Arrayas  enlenderam  tiio 
daver  prestar  obediência  a  poder  algum,  A  desordem 
reinava,  pois,  na  administração,  entre  o  povo,  no  TòrOt^ 
na  força  publica-  Os  juizes  desliluidos  conlÍQuavam  a 
fanccionar  conjunctameate  cora  os  novamente  nomeados: 
alguns  julgados  obedeciam  ao  ouvidor  Pio ,  oulros  ao 
ouvidor  Febronio;  ninguém  sa  entendia,  e  muílo  im^ 
nos  os  chefes,  que  suppunham  dirigir  a  &i|uação.  k 
idóa  de  uma  republica,  para  cumulo  de  lodos  os  males, 
pareceu  despontar  em  alguns  espirilos  exallados. 

1»  Novembro  de  1822  erae^taa  feição  dos  oegocios 
no  norte  de  Goyaz,  quando  o  governo  provisório  julgou 
necessário  tomar  medidas  tendentes  a  cbamar  ao  grémio 
da  sociedade  goyana  essa  porção  de  seus  babilantes,  des- 
vairada por  esperanças  irrealizáveis,  ejà  prestes  a  en- 
tregar-s6  à  voragem  da  guerra  civil. 

O  governo  provisório  ia  proceder  em  excellenle  conjun- 
ctnra;  mas  muílo  o  preoccupava  a  attilude  hostil  que 
tomavam  os  povos  do  Pilar  ;  a  elles,  pois,  se  dirigiu  prí* 
raeiro,  despertando-Ihes  os  sentimentos  de  união.  Feliz- 
mente em  pouco  tempo  o  Pilar  não  causava  receioâ :  a 
calma  e  os  sentimentos  de  ordem  tinham  dominado  os  es*- 
pirites, 

A.  questão  da  Palma  parecia  um  pouco  mais  grâve :  afim 
de  chegar  a  uma  solução,  o  governo  provisório  reuniu-se 
no  dia  13  para  deliberar,  depois  de  ter  ouvido  sobre  a  ma- 
téria o  padre  Luiz  Barlbolomèo  Marques,  tenente  AnUmio 
Rodrigues  Fraga,  o  cirurgíâo-mòr  Bartholomèo  Lourenço 
da  Silva^  coronel  Alexandre  José  Leite  de  Cliaves  e  Mello» 
sargen to -mór  António  .rose  Ramos  Juba,  coronel  Francisco 
Xavier  Leite«  desembargador  António  José  Alves  Masqnil^ 


—  Ia7  - 

Pèdfo  Gomes  Machado»  padre  Lucas  Freire  de  Àndrada,  e 
oulros  cidadãos  respeitáveis  por  suas  luzes  e  virludes. 

Com  parecer  escriplo  de  lodos  os  cidadãos,  cujos  nomes 
ficam  mencioaados,  e  depois  de  disculidos  os  pon- 
tas da  grave  questão,  que  não  podia  por  mais  tempo  ser 
addiadâ^  assentou-se  qae  o  melhor  arbilrio  era  ir  ao  norte 
um  dos  membros  do  governo  ;  e  n*essa  mesma  occasião  foi 
designado  o  padre  Luiz  Gonzaga  de  Camargo  tleury.  Era 
uma  missão  de  paz  e  concordiu,  que  melhormente  podia 
ser  desempenhada  por  um  sacerdtíle.  Em  il  de  Novembro 
Uie  foram  dadas  as  precisas  instrucções  (91). 


(01 J  Inslnicçòes  dadas  ao  Padre  Luiz,  Gonzaga  de  Camargo 
Fleiírj,— Quando  au  primeiro  gtiio  de  liberdade  constilupional 
at^uirms  das  províticms  d'csLe  reino  do  Brasil,  dc^ivíando^se  do  «;eu 
necessário  ceiUro,  adlienram  ao  remo  de  Portugal »  qu^mdo  parles 
íníegninLes  do  unia  mesma  províneia,  segundo  o  eiientplo  d*esEa 
desunií\o,  também  se  julgaram  ct>m  direito,  a  seu  arbitriOp  de  se 
desliga  rena  de  suas  eapilacs,  e  assumirem  a  calejo  rm  de  pro- 
vi nciu,  espera va-se  r[ue  o  soberano  congresso  de  Lisboa*  i Iluminado 
e  patriolico,  pesando  em  recta  balança  os  direitos  doeste  reino  do 
Bnisil,  lijsesse  que  suas  províncias  e  as  partes  disi^ideotes  conver^ 
gisse  m  ao  seu  nece^ssa  rio  c  e  n  l  ro  d  c  re  u  n  i  A  o :  m  as  sue  cesso  s  pos- 
teriores desmasCiírando  o  maehiaveíico  proceder  dos  demagogos, 
qae  preponderavam  huá  cortes  de  Lisboa  Ji/.eram  que  o  Brasil  doscon* 
tkdo  reassumisse  os  seus  direitos;  e,  possuindo  no  seu  seio  o  mais 
amável  dos  princípes,  o  meimo  berdeiro  da  monarehia,  depositasse 
nas  suas  reaes  màos  a  sua  causa,  ebamando-o  seu  defensor  pet'^ 
petuo*  As  províncias  meridionaes  se  eolfigam/oos  suces^^os  desas- 
trosas da  Babta  d^^sperlam  as  do  norte,  e  quasi  lodo  o  llrasil  pro- 
damn  a  sua  independência  e  a  defende.  Uma  assembléa  geral  já 
se  convoca  no  Brasil,  tudo  annuneia  a  futura  grandeza  com  que 
este  império  vai  tomiir  lugar  entre  as  grandes  [lar-ues  do  mundo; 
e,  quando  tadaii  as  provi neias  trabalbani  para  a  causa  da  un^o,  sii 
raúya^  contemplaria  nn  silencio  a  dis^^idoncia  do  uma  de  suas  cu- 
m»reas  '  0%  goyanos  deixariam  de  ser  brasileiro*  se  n4o  forcejas- 
sem para  a  faier  entrar   no  seu  de^er.  E\  pois,  fundada  n'eslu 


—  158  — 

Para  acompanhal-o  em  tão  importante  diligeiíGia  fonai 
designados  o  coronel  Alexandre  José  Leite  de  Cbafes,  eo 

principíos  que  a  junta  pro? ísoria  do  go? eroo,  apoiada  em  muitas 
portarias  expedidas  pela  secretaria  de  estado  dos  negócios  do  reino  e 
da  guerra,  e  mesmo  prefendo  a  responsabilidade  qtielKieímpfte  o 
decreto  do  i«  de  Agosto  próximo  passado,  nomeou  o  Cxm.  e  Revm. 
Sr.  padre  JUiiz  Gonzaga  de  Camargo  Floury  para  ir  á  comarea 
de  S.  João  das  Duas  Barras,  outorgando-lhe  plenos  poderes^para 
em  nome  da  mesma  junta  fazer  quanto  podesse,  par»moTera 
dita  comarca  a  abraçar  a  causa  geral  do  Brasil,  e  íorlifiear  um 
ponto  no  rio  Tocantins,  que  julgou  mais  conveniente  para  impe- 
dir o  ingresso  de  tropas  que  possam  vir  das  pro? incias  (ciyoc 
sentimentos  políticos  ignoramos).  Ajunta  do  governo  da  provineía 
de  Goyaz  aproveita  esta  occasiao  para  convi.lar  os  povos  d'aquella 
comarca  a  reunirem-se  a  esta  capital,  encarregando  ao  menciona» 
do  membro  de  promover  esta  reuni&o  por  meio  de  persuasOei, 
providenciando  tudo  do  melhor  modo  que  lhe  suggerír  o  seu  dia- 
oemimento  e  patriotismo,  o  segundo  os  artigos  abaixo  Inu-' 
oriptos. 

!••  Proclamará  aos  habitantes  da  comarca  de  S.  JoAo  das  Doas 
Barras,  para  que  abracem  a  causa  geral  do  Brasil,  reconheçam  a 
aeciamem  a  S.  A.  Real  como  chefe  constitucional  dos  habilaatoa 
do  Brasil,  seu  defensor  pçrpetuo,  o  n'ollc  chefe  do  poder  exe- 
cutivo, prestando  juramonlo  de  o  defenderem  o  a  independência 
d'es(e  reino.  2.^  Fará  lodos  os  esforços  para  hem  forliílcar  o  pon- 
to que  julgar  convenienlo,  para  impedir  qualquer  tropa  que  de 
outras  provindas  queira  entrar  para  esta  com  ordem  de  S. 
A.  Ileal.  3.^  Pelos  arraiaes  por  onde  passar  ouvirá  aos  povos,  son- 
dando  com  cautela  o  espirito  dos  mesmos,  propondo  pessoas  pan 
commandantcs,  ou  l)omeaI-as  inlerinAroonlc,'c  dar  parte,  para  se 
passara  competente  portaria,  as  pessoas  que  achar  mais  suflicien- 
tes,  ou  que  se  mostrarem  adherentes  á  causa  do  Brasil.  4. o  Despa- 
chará por  si  os  requerimentos  que  lhe  forem  apresentados  de  ne- 
gócios particulares,  e  sobre  os  negócios  públicos  de  maior  ponde- 
ração remeltcrá  com  o  seu  parecer  a  esta  junta  pelo  correio.  K* 
Recommendará  aos  commandantes  dos  arraiaes  a  effectividade  dos 
correios,  devendo  infallivelmente  expedir  um  em  cada  mez,  pela 
qual  communique  a  esta  junta  o  progresso  dos  negocies  da  sua 


\ 


—  159  — 

sargenlo-mórJosé  Anlonio  Ramos  Jubé,  auxiliados  de  uma 
escolta  de  22  pragas  da  companhia  de  dragões  e  16  da 
de  pedestres. 

incumbência,  e  lhe  sejam  transmiti  idas  as  dclerminaçòes  de  S. 
A.  Real,  e  as  noticias  da  côrtc  do  Rio  do  Janeiro,  licando  o 
melhodo  estabelecido,  taxando  certa  quantia  para  o  sustento 
dos  correios,  ou  dos  pedestres,  conforme  fòr  mais  conveniente. 
6."  Promoverá  a  reunião  d'aquella  comarca  com  esta,  procurando 
que  se  sujeitem  As  legitimas  auctoridades,  tudo  por  meios  brandos 
e  políticos.  7.0  Communicar^sc-lia  com  a  camará  da  villa  da  Pal- 
ma. 8.®  Depois  de  conseguida  a  reunião,  apresentará  em  pr(»jccto 
as  medidas  que  lembrar  para  a  felicidade  publica,  as  quaes  se- 
rão remettidas  a  esta  junta,  para  a  mesma  levar  á  augusta  pre- 
sença de  S.  A.  Real,  conferenciando  com  a  camará,  e  auctorida- 
des d'aquella  comarca.  9.°  Conseguida  a  reunião  dos  povos,  de- 
morar-se-ba  no  lugar  que  parecer  mais  a  propósito,  ató  que  se  íirme 
a  mesma,  e  se  obtenha  do  S.  A.  Real  as  deliberações  sobre  os 
projectos  que  á  sua  augusta  presença  forem  levados.  ^0.*  Mandara 
assentar  praça  de  pedestre  á  aquelles  que  achar  babeis,  mandando 
fazer  as  declaraçi^es,  que  remeticrá  por  cópia,  para  se  lhes  abrir 
o  competente  assento  nos  livros  da  vedoria  e  do  quartel,  e  tam- 
bém mandará  dar  baixa  á  aquelles  que  a  merecerem,  procedendo 
as  formalidades  prescriplâs  pela  lei.  11.®  No  caso  de  precisar  de 
mais  soldados  da  companhia  de  dragões,  os  poderá  chamar  dos 
destacamentos  mais  vizinhos,  supprindo-os  com  milicianos,  c  par- 
ticipando logo  a  esta  junta,  para  providenciar.  12.o  Em  ultimo  caso, 
e  parecendo-lhe  indispensável,  proclamará  em  nome  de  S.  A.  Real 
perdão  para  todos  os  individuos  que  se  passaram  das  compa- 
nhias de  dragues  e  pedestres  para  a  tropa  crcada  por  aquelle 
illegal  governo,  logo  que  se  reunam  aos  seus  corpos,  e  se  apresen- 
tem nas  suas  legitimas  praças,  participando  d'esta  medida  e  do  seu 
resultado  a  esta  junla,  para  fazer  subir  ao  conhecimento  do  mesmo 
augusto  senhor,  pedindo  a  sua  real  approvaçâo.  13.**  Encarregará 
ao  escripturario  da  contadoria,  José  Joaquim  de  Almeida,  nomeado 
para  as  escriplas  da  fazenda  publica,  as  relativas  á  secretaria,  po- 
dendo nos  seus  impedimeolos  chamar  algum  escrevente  hábil, 
preferindo  alguns  dos  cadetes  e  soldados  da  sua  guarnição,  cuja 
boa  conducta  seja  reconhecida.  14.^  A  incompetente  applicaçâo  dos 


—  iBO  — 

Effectivamente  no  dia  15  de  Novembro  partiu  o  padre 
Gonzaga  cheio  de  esperanças  na  sua  boa  estrella,  e  confiado 
na  justiça  da  causa,  que  ia  advogar. 

Por  onde  seus  passos  se  dirigiram  encontraram  as  melho- 
res disposições  em  favor  da  uniãi^com  a  capital;  por  toda  a 
parte  foi  aconselhando  os  povos  a  prestarem  juramento  de 
fidelidade  ao  príncipe  regente,  que  o  próprio  governo  da 
Natividade  acabava  de  proclamar  regente  e  defensor  per- 
petuo do  Brasil  por  insinuação  de  José  Bernardino,  que 
tinha  sido  mandado  à  cõrtc  como  representante  dos  inte- 
resses da  causa  do  norte. 

O  coronel  Cardoso,  que  se  achava  «m  Arrayas,  rece- 
bendo gazetas  da  Bahia,  relatando  a  marcha  que  seguiam 


dinheiros  públicos  feita  pelo  illegal  governo  oAo  servirá  de  obste* 
culo  para  a  união,  c  só  S.  A.  Real  decidirá  sobre  este  objerlo,  qoe 
deverá  ser  levado  ao  seu  real  conhecimento.  15*  SeopoTod't- 
quella  comarca  quizer  adherir  A  causa  geralmente  abraçada,  e 
também  quizer  a  reunião  da  comarca,  e  fòr  por  algum  individuo 
perturbada  esla  resolução,  o  fará  prender  e  mandará  foraiar^lbe 
culpa,  para  com  cila  ser  remetlido  a  esta  capital,  e  d*aqui  á  corte  do 
Uio  de  Janeiro.  H\°  Caso,  poróm,se  nau  queiram  reunir  osd*aquella 
comarca  (o  que  não  ú  de  esperar),  se  firmará  no  lugar  a  que  hou- 
ver chegado,  fazendo  por  conservar  o  ponto  que  houver  ganhado, 
e  esperará  a  decisão  de  S.  A.  Kcal,  não  se  poupando  em  fazer-lhot 
conhecer  o  estado  do  Brasil,  e  o  interesse  que  ao  mesmo  resulta 
da  geral  união  do  seus  habitantes.  17.»  Dará  parte  a  esta  junta  de 
todos  os  negócios  da  comarca  que  merecerem  altençáo.  Espera 
finalmente  esla  junta  que  o  Exm.  membro  empregará  cm  prol  da 
causa  geral  do  Hrasil  e  da  provincia  todos  os  poderes  que  lhe  são 
conferidos,  assim  no  cumprimento  do  que  se  acha  trnnscripto. 
como  em  todos  os  casos  que  occorrerem,  providenciando  com  a 
prudência  e  discernimento  que  lhe  é  natural.  Goyaz,  11  de  Novem- 
bro de  1822. — Álcaro  José  Aarier.—José  Hodrigues  Jardim. ^Joéo 
José  do  Couío  Guimarães, ^ígnacio  Soares  de  Bulhões. — Raymun* 
doNonaío  Hyacxntho. 


—  i6Í     - 


negócios  da  índepeadêncíã,  as  remetleu  ao  club  da  Nafm- 
dade,  e  sem  perda  de  íempo  m  dirigiu  ã  casa  do  jaif 
ordinário ,  onde  re unindo  os  seus  amigos,  no  dia  1*'  de 
Jaoeiro  de  1823  fei  reconhecer  a  regência  do  Imperador* 
Jà  n'esse  tempo  era  conhecido  em  Arrayas  o  decreto  de 
amnyãtiade  18  de  Septembro  de  !82'2,  e  se  sabia  que 
Gonzaga  ia  em  missão  ao  norte,  e  eDContrãra  adhesoes 
sinceras  em  Ioda  a  parte  à  que  chegira. 

De  Arrayas  seguiu  o  coronel  Filippe  Anionio  Cardoso 
para  Cavalcante,  onde  cnconlrou  já  uma  parle  da  expedi- 
ção do  padre  Gonzaga,  que  u  precedia  nas  marchas.  O 
coronel  Alexandre  alli  dispunha  os  ânimos  para  o  reconhe- 
cimento da  causa  nacional,  e  juramento  da  nossa  indepen- 
dência, acto  que  de  facto  teve  lugar  a  20  de  Janeiro.  Depois 
do  acto  do  Juramento  o  coronel  Cardoso,  íasendo-se  órgão 
da  povo  requereu  e  fez  assignarum  protesto  contra  a  união 
à  apitai,  porque,  dizia  elte,  essa  homenagem  devia  ter 
higar,  mediante  ordem  do  Imperador,  visto  como  tinha  o 
goverao  da  Natividade  consultado  o  minislerio  sobre  o 
seu  procedimento. 

No  dia  20  chegou  Gonzaga  a  Cavalcante,  e  sabendo  do 
|)rocediinouto  de  Cardoso,  na  forma  das  snas  instrncções 
mandou -o  prender,  e  remelter  para  a  capital.  Depois  d' isto 
seguiu  para  Arrayas,  onde  soube  que  jà  alli  procedia  o 
ouvidor  Febronio  á  uma  devassa  contra  o  club  da  Natividade 
por  ordem  da  camará  da  Palma,  que  julgou  assim  dever 
proceder  fundando-^e  no  atiso  de  li  de  Novembro  de 
Í89S  (92). 

(92)  Pela  ligoreBa  ol)ríg«fâo  que  tem  «slâ  camftni  de  vigiar  sobre  os 
tlemagugos,^  ^innrchistas,  seus  agenles  e  enitésarJos,  na  fÓrma  da  pdr- 
iirift  de  11  de  Ni>v4?mbro  do  anuo  padsudo,  eipedjda  pefa  secretaria 
f  «liado,  qtie  vai  remettida  a  V.  S.  por  eépía,  á  xwth  da  qual,  pela 
ola%âçã0  que  lambem  llie  loca,  déve  nmndar  tavTsr  editae^  e  i^iroce- 
TOMO  XXV JUp  p.  lU  21 


—  169  — 

Proaegoindo  Gonzaga  na  soa  marcha»  qne  se  pôde  -.  ^Har:- 
tríumphal,  á21  entrou  na  Nafmdade»  e  em  principio  de 

der  a  uma  rigorosa  devassa,  afim  de  se  conhecer  se  n^esta  oomarea 
eilstem  pessoas  de  um  partido  tSo  contrario  á  vontade  de  todot  os 
povos^  que  só  servem  de  manchar  a  honra  de  tio  briosos  comaxtios; 
e  perturbar,  a  boa  paz  e  união  que  deve  reinar  entre  todos  pela  satl^ 
hi^Ho  de  termos  um  imperador  que  se  intitula  nosso  defensor....  Oqoe* 
espera  esta  camará  V.  S.  cumpra  com  a  exacta  promptidio  do  cos- 
tume. Deus  guarde.  Arrayas  em  camará,  16  de  Fevereiro  de  ISIS.— 
Miguei  Esteves  de  Brito. —Manoel  António  Bueno.  ~  Frnctuoso  Banos 
Jubé.— J(^  Vidal  de  Athayde.  —  Illm.  Sr.  ouvidor  pela  lei,  Fdntni» 
José  Vieira  Sndré. 

Portaria  de  11  de  Novembro  de  1822.  —  Tendo-se  fètianeiÉe 
descoberto  pelo  brioso  e  leal  povo  e  tropa  doesta  corte  e  peloa  proon-. 
radores  geraes,  no  dia  30  de  Outubro,  uma  facção  occulta  c  tenebron 
de  furiosos  demagogos  e  anarchistas,  contra  quem  se  está  devassando 
judicialmente,  os  qoaes  para  se  exaltarem  aos  mais  lucrativos  i 
gOB  do  Estado,  sobre  as  ruínas  do  throno  imperial,  ousam,  ( 
com  o  maior  machiavelismo  calumniar  a  indubitável  constitudoMl*; 
d|ide  do  nosso  augusto  imperador  e  dos  seus  mais  fieis  ministros,  iir 
cutíndo  nos  cidadãos  incautos  mal  fundados  receios  do  velho  deqy- 
tismo,  que  nunca  mais  tornará,  os  mesmos  que  com  a  maior  peHlília 
se  serviam  das  mais  baixas  e  nojentas  adulações  para  pretendefcm 
illudir  a  vigilância  de  Sua  Magestade  Imperial  e  do  governo ;  e,  con- 
stando ter  sido  um  dos  prévios  cuidados  dos  solapados  demagogos  pr 
nhar  partidários  em  todas  as  províncias,  para  o  que  espalhavam  emis- 
saríos  que  abusassem  do  zèlo  que  ellas  devem  ter  pela  sua  liberdade 
constitucional,  liberdade  que  Sua  Magestade  imperial  tantas  vezes  juros, 
e  que  tanto  tem  promovido  com  todas  as  suas  forças,  como  é  patente 
ao  mundo  inteiro ;  tendo  já  o  mesmo  augusto  senhor  conhecido  os 
traidores  e  seus  perversos  e  manhosos  desígnios  com  que  se  propo-' 
nham  plantar  e  semear  desordens^  susto  e  anarchia,  abalando  igoal- 
mente  a  reputação  do  governo  que,  rompendo  assim  o  sagrado  élo  qoe 
deve  unir  todas  as  províncias  doeste  grandioso  império  ao  seu  centro 
natural  e  commum  união,  d^onde  somente  lhe  pôde  provir  força,  pros- 
peridade e  gloria :  manda  pela  secretaria  doestado  dos  negócios  doim- 
perio  que  os  governos  e  camarás  das  provincias,  a  quem  esta  fòr  expe- 
dida, mandem  sem  perda  de  tempo  vigiar  e  descobrir.com  todo  :o 


—  lea  — 

Abri!  o  Club  estâva  dissolvido*  A  sua  missão  tinha  concluído, 
e  para  maior  desengano  dos  apóstolos  da  desunião  José 
Bernardino  Toltava  da  côrle»  sendo  portador  da  Leruiinante 
portaria  de  i3  de  Junho  de  1823,  que  desapprovava  a  ins- 
tallação  do  governo  provisório  da  Natividade,  e  seus  actos 
subsequentes  (93;. 

Em  23  de  Abril  de  1823  congratulava -se  cooi  a  provín- 
cia o  governo  de  Goyaz,  por  ter-se  realizado  a  união  dos 


esmero  e  actividade  quaesqfuer  ramificações  doeste  infernal  partido, 
indagando  quaes  sejam  seus  emissarioi;  |>or  meio  da  mais  rigoroM  de- 
vassa, e  logo  que  cslejam  siiíricientemeíile  illust radas  a  este  r*3íip€itô, 
tomem  immfid  ia  lamente  com  cautela  e  energia  todas  e  qoaeaquer  pro- 
videncias qne  exigir  a  p;iz  e  socego  da  provinda  o  a  sa!va^-Io  do  Es* 
tado,  islo  debaixo  da  mais  rigorosa  responsabilidade  ao  imperador  e  á 
oaçâo,  c  de  todo  o  seu  justo  procedimento  darào  conta  pela  compe- 
tente secretaria  distado,  para  subir  tndo  á  augusta  presença  de  Sua 
Magestade  o  rniper-idor.  Palácio  do  Rio  de  Janeiro,  11  de  Novembro 
de  1822.'— Josí*  Bonifácio  de  A^idrada  e  StVra, 

^a  devassa  tirada  pelo  ouvidor  Febronio  foram  pronunciados  o 
teuenle-coríiDel  lio  Pinto  de  Cerqueira,  capitão  FiHppe  António  Car- 
doso, o  alferes  António  Joaquim  Ferraz,  o  capitão  Jo^o  Daplista  da 
Cnu  MoiHe,  Silvério  José  da  Silva  RangeU  ^  tenente  José  líernardíno 
de  Senníi  Ferreira,  o  capitão  Lúcio  Luiz  Lisboft,  o  tenente  Joaquim  José 
da  Silva  e  Vfanoel  Matliéos  Ferreira, 

(93)  iloyanosí  Está  firmada  a  nossa  integridade  e  representação  po- 
titicn :  dií3$olveram-se  as  nuvens  que  ofusca vam  a  nossa  gloria :  cahiram 
m  barreiras,  que  entre  nos  e  nossos  irmàos  linba  levantado  a  mais 
ítti^vidd  fdaucia,  e  sustentara  o  macbiavclijãmo ;  rasgou-se  a  venda  e 
já  boje  os  goyantfò  e  polmenses  formam  uma  sú  família.  Já  a  eslrelk 
que  no  invejado  estandarte  ílesi^^tia  a  nossa  provincta  brilha  em  toda 
a  plenitude  da  sua  iwil  Sem  ver  ter-se  uma  sij  gota  de  sangue  goyano 
e  palme  use  reunlram-se  e  de  mãos  dadas,  só  eucíiram  como  inimigos 
os  iuinngOB  de  Pedr0f«  e  da  causa  nacional ^  e  da  independência,  que 
é  o  paládio  da  nossa  gloria,  O  monstro  que  soprava  o  facho  da  discór- 
dia, raordendo-se  de  raiva,  precípitou-se  no  Averno  I  e  a  doce  paz* 
que  espavorida  havia  fugido  dm  nossos  lares,  voltou  saudosa  a  espa- 


—  I6Í  — 

poTôs,  iêm  qtie  para  isto  tivesse  sidí5  predso  ierramar" 
uma  sò  gola  de  saogoe  (94). 

Finda  a  soa  commíssao,  voltou  á  capital  o  padre  Goo- 
zaga  em  Dezembro  de  1823,  e  para  mais  consolidar  a 
obra  da  udíIo  foi  mandado  ao  norte  o  brigadeiro  Cu- 
nha MattoSj  que  acabava  de  chegará  provincia  oaqoa- 
I  idade  de  commandante  das  armas.  Façamos  agora  mu 
pequeno  retrocesso. 


Ihtf  DO  noisso  semblante  o  riso  e  a  alegria.  Ob  praierl  oh  glciríi!  E  a 

que  devemos  tanta  venliira  senão  á  eíDcacLa  d^esaas  grandes  púãv 
como  é  para  bem  de  UkIos,  dizei  ao  povo  qu^  tko?— Paiavras  do< 
qm  a  Providencia,  que  eobre-  nós  vigia^  proferiu  pelo  di^io  d^esie 
heróe,  que  do.s  dossos  cDrnçdes  impera.  Viva  o  impêrajdorl  Tii^a 
fousULuiçãoí  Viva  a  indej^endencía  1  Viva  a  uníilo  do  povo  goiano  í 
Gofai,  25  de  Abril  de  1S23*— ÂMignada  a  juntau 

(94)  Tendo  subido  A  augusta  presença  de  Sua  Mageslade  o  ioipfr» 
rador  m  representações  que  llie  tém  sido  dirigidas  por  pnrie  do  ^ 
vemo  e  arraial  da  IVatividade,  díi  província  de  floyaz,  parUcipando  nlo 
B&  as  razões  principaes  que  deram  origem  á  insLalláç^o  d*aquelle  ^ 
verno,  mas  também  os  seus  procedímeulos  relativas  á  conservaçi»  di 
tranqoillidade  publica  €  as  necessárias  queixas  contra  o  antigo  flK 
venio  da  província.  O  mesmo  senhor,  em  resposta  aos  sobredilot  dÊ- 
cios,  manda  pela  secreta  ri  a  doestado  rios  negócios  do  império  dâ 
ao  mencionada  gavcrno^  para  sua  intelligencia,  que  o^  se  i 
spprovar  gemelhanle  installação  e  mais  actos  subsequentes,  nlo  por- 
que julgue  que  os  indivíduos  de  que  se  compõe  o  dito  governo  aejtm 
destituídos  de  sentimentos  patrióticos  e  honrados  como  Heis  brasilei- 
ros, mas  por  ser  a  dita  instai laçâo  contraria  ás  leis,  que  probibcm 
multiplicidade  de  governo  em  uma  s6  província,  íicando  na  certesa  de 
que,  achando^se  actualmente  a  assembléa  geral  constitotnte  e  letltli* 
Uva  discutindo  a  proposta  da  organisação  dos  governos  pmvtQciM 
doeste  império,  brevemente  serão  transmíttidas  as  ordens  ronvenienics 
sobre  o  que  a  mesma  assembléa  deliberar  a  este  respeito,  tendo  | 
muito  recoDimendado  a  união  e  tranquillida9e  doi  [lovos^  para  i 
muito  contribue  o  exemplo  da  prompta  e  exacta  execução  das  leíi  e 
ordens  do  mesmo  augusto  senhor.  Palácio  do  Hio  de  Janeiro^  33  4e 
JuxLbo  de  1820.^/of(f  Bonifácio  âc  Andrada  e  Silva, 


—  165  — 


A'  2S  de  NoTemI)ro  de  18â2se  soube  em  Goyâzque 
o  Sr.  D.  Pedro  T  tinha  sido  aíxlaraado  imperador  do 

I  Brasil  em  12  de  Outubro,  O  coalea lamento  foi  geral- 
Nas  Doites  de  íá6,  %1  e  2^  esteve  a  cidade  illamioada, 
e  no  ultimo  dia  canlou-se  na  caihedral  um  solemne  ÍV 
límm  em  acção  de  graças.  A  junta  do  governo  provisó- 
rio deu  coubecimenlo  ao  publico  do  facto  i  que  motiva- 
i  va  tantos  regosijos  (95),  ©,  depois  de  levar  ao  tíirono  im- 
perial seus  votós  de  obediência  em  nome  do  povo  goja- 
Qo,  marcou  o  dia  tG  de  Dezembro  para  o  juramento  da 
independência  e  acelamação  do  imperador  conslitucíonal, 
e  o  dia  l""  de  Janeiro  de  i823  afim  de  ter  lugar  o  mes* 
mo  juramento  aos  demais  disirictos,  e  a  solemne  recla- 
mação na  capital* 

10  dia  16  de  Bexembro  amanheceu  cheio  de  galas  pa- 
ra a  capital  de  Goyaz,  Jurada  a  independência,  tomou 
ajunta  e  o  povo  o  laço  bicolor.  Seguiram-se  as  festas  of- 
ficiaes  do  costume,  e  as  que  o  povo  sabe  idear  em  suas 
■  maoifestações  de  patriotismo- 


I 


{95}  Honrados  goyanoâ  \  Eiultaí  de  prazer  \  O  nosso  r^íno  foi  ele- 
vado ao  ultimo  gráo  de  preeminência^  quando  os  inimigos  da  Dossa 
ventura  lettUvam  reduiíl-ct  a  colónia.  Brasileiros^  o  nosso  nome  vai 
ser  glorioso  nos  annaes  da  Liislona*  Km  Eelra^  de  ouro  será  gravado  u 
dia  ri  de  Outubro  ;  iiVlIe  foi  que  o  afortunado  Colombo  avistou  o  solo 
<[ue  pisamos,  n^este  díâ  acclamado  o  primeiro  imperador  constitucio- 
nal do  Brasil  e  sen  perpetuo  defensor  o  Senhor  D.  I^dro  deAlcanlara, 
o  lieróe  da  nagão,  o  modelo  dos  príncipes,  o  exemplo  do  libera- 
lismo, Pedro  o  grande !  Brasileiros  1  A  nossa  felicidade  é  certa,  a  as- 
iÊmfatéa  nos  dará  lets  sabias^  e  o  oosso  imperador  dispensará  fraça^^ 
coníonne  os  merecinieiUos,  elouvor€3aos  que  marcíiarem  firmes  pelo 
caminho  da  honra.  O  nosso  imperador  não  duvida  perdoar  aos  que 
pretenderam  romper  os  laços  da  nossa  união,  e  arrependidos  abraçam 
a  nossa  causa:  vede  o  decreto  de  48  do  inest  de  Setembro!  Brasilei- 
ros, sejaiijos  unidos,  porque  seremos  fortes.  Viva  o  imperador,  etc, 
Gofaz,  26  de  Novembro  de  1S22,— Assígntda  a  Junta. 


—  160  — 

Se  as  festas  de  16  de  Dezembro  foram  solemnes,  as 
de  1**  de  Janeiro  foram  as  maiores  de  que  ha  notícia 
na  província.  Te-Deum,  grande  parada,  bailes,  folguedos 
populares,  illuminações  publicas  prolongaram  o  regosijo 
até  o  dia  6. 

O  anuo  de  í823  correu  plácido  e  sereno  para  a  causa 
publica;  acontecimento  algum  veiu  perturbar  a  harmo- 
nia que  reinava  entre  os  povos. 

Em  20  de  Maio  de  18*24  recebeu  a  junta  o  projecto 
de  constituição,  e  immediatamente  expediu  as  precisas 
ordens  ;  afim  de  que  no  dia  22  todas  as  auctoridades  e 
chefes  das  corporações  concorressem  à  camará,  para  pres- 
tarem o  devido  juramento. 

Pelas  10  horas  d'esse  dia  a  junta,  acompanhada  do 
funccionalismo,  se  dirigiu  aos  paços  do  conselho,  on- 
de solemnemente  jurou-se  manter  e  guardar  como  cons- 
tituição do  império  o  projeto  de  U  de  Dezembro  de 
1823,  offerecido  por  S.  M.  o  Imperador;  e  de  tudo  se  la- 
vrou a  competente  acta. 

Depois  de  prestado  o  juramento,  encaminharam-se  todos 
[)ara  a  ciiUiedral,  afim  de  renderem  gr<iças  ao  Todo  Po- 
deroso pelos  benefícios  que  outorgava  ao  Brasil  em  favor 
<la  felicidade  de  seu  povo.  Ao  sahirem  do  templo,  o  corpo 
do  governo  dirigiu-se  á  praça,  e  ein  presença  da  tropa  o 
soo  presidente  proferiu  o  seguinte  discurso  : 

«<  (^amaradas!  Acabamos  de  jurar  a  constituição  politica 
do  império;  cila  é  a  base  em  que  vai  erigir-se  a  nação 
brasileira:  ella  vai  firmar  a  nossa  independência  e  a 
nossa  felicidade.  Este  passo  era  necessário,  para  sermos 
pelas  nações  cultas  reconhecidos  como  nação  livre  e  inde- 
pendente. O  dia  25  de  Março  foi  o  em  que  o  nosso 
au  gusto  monarcha  a  jurou  na  capital  do  império :  hoje 


-  167  — 

na  de  Goyazj aramos  respeitar  e  guardar  a  mesma  cons- 
tituição. E  vós,  camarada?,  jurais  o  mesmo?  Viva  a 
nossa  santa  religião  I  Viva  o  Senhor  D.  Pedro  I,  impera- 
dor constitucional  e  defensor  perpetuo  do  Brasil  I  Viva  a 
constituição  I  Viva  a  independência !  Goyaz  22  de  Maio 
de  1824. — Álvaro  José  Xavier.  » 

Encerramos  os  acontecimentos  de  1824  com  o  acto  do 
juramento  e  posse  do  Dr.  Caetano  Maria  Lopes  Gama 
(hoje  visconde  de  Maranguape)  do  cargo  de  presidente 
de  Goyaz.  Nomeado  em  25  de  Novembro  de  1824,  em 
14  de  Setembro  do  anno  seguinte  assumiu  as  rédeas  da 
administração. 

Desde  essa  época  entrou  a  província  em  um  novo  re- 
gimen administrativo,  sob  os  princípios  líberaes  consa- 
grados na  constituição  que  nos  outorgou  o  magnânimo 
fundador  do  império. 


FIM. 


TYP.    DE  PINHEiaO  Òi  C*,  RUA   SETE  DE   SETEMBRO  N.    465. 


REVISTA  TRIMENSAL 


DO 


INSTITUTO  HISTÓRICO 

GEOGRAPHICO,  E  ETHNOGRÂPHICO  DO  BRASIL 


Ú*  TRIMESTRE  DE  1865 


ORIGEM  E  DESENVOLVIMENTO 

DA 

IMPRENSA 

NO 
RIO   DE  JANEIRO 

PELO 
DB.    MOREIRA  DE    AZEVEDO 

Foi  durante  o  governo  do  beneflco,  prudente  e  zeloso 
Gomes  Freire  de  Andrade,  conde  de  Bobadella,  que  appa- 
receu  no  Rio  de  Janeiro  a  primeira  typographia. 

Havia  sido  creada  n'osta  cidade  em  1736  a  Academia  dos 
Felizes,  associação  protegida  por  Gomes  Freire  de  Andra- 
de, celebrando  a  sua  primeira  sessão  com  trinta  académi- 
cos, no  palácio  do  governador,  no  dia  6  de  Maio  d'a- 
quelle  anno.  N'aquell:i  épocha  residiam  os  governadores  na 
casa  occupada  actualmente  pelo  correio  geral. 

Do  seio  da  Academia  dos  Felizes  .partiu  a  idéa  daorga- 
nisaçâo  da  Academia  dos  Selectos,  inaugurada  no  palácio 
do  conde  de  Bobadella  em  30  de  Janeiro  de  1752. 

N'essa  era  jà  occupava  o  conde  de  Bobadella  o  pala- 

TOMOXXII,  P.  II.  22 


—   170  — 

cio  que,  pouco  mais  de  meio  século  depois»  devia  re- 
ceber uma  família  de  reis. 

Parece  que  o  único  Sm  d'aquella  associação  foi  cndeo- 
sar  o  capitlo-general  Gomes  Freire,  visto  como  o  que 
legou  à  posteridade  foram  pomposos  elogios  àquelle  habil 
servidor  do  Estado.  Mas,  seja  qual  fôrojuizoque  se  faça 
d'aquella  associação,  devemos  rL'conhecer  que,  creando-a, 
prestou  Freire  de  Andrade  bons  serviços  às  letras.  Trans- 
formando Richelieu  a  humilde  sociedade  de  Valentim  Con- 
cart  em  academia  de  França,  encarregou  a  alguns  escrip- 
tores  de  tecer-lhe  elogios,  porém  não  se  nega  por  isso  o 
serviço  prestado  às  letras  por  aquelle  ministro  creando 
tão  famosa  associação.  Se  foi,  pois,  por  desejar  respirar 
os  perfumes  da  gloria  que  o  conde  de  Bobadella  es- 
tabeleceu a  Academia  dos  Felizes,  e  di^pois  a  dos  Selectos, 
todavia  concorreu  elle  d'esse  modo  para  o  progresso  e 
civilisação  de  uma  cidade  que  vivia  oc culta  sob  o  véo  da 
ignorância. 

Era  o  Cí»nde  de  Bobadella  tão  zeloso  pr  olector  das  letras, 
que  tornava-se  pai  dos  jovens  talenlDsos  ;  animava-os, 
araparava-os  na  vida  dilTiGil  e  árdua  do  esludo.  Porsua 
protecção  pô:le  José  Basílio  da  (lania  entrar  para  o  semi- 
nário de  S.  José,  e  foi  o  braço  forte  e  imponente  d*esse  fi- 
dalgo que  conduziu  à  Europa  o  poeta  brasileiro,  que  là 
foi  tornar  mais  sonora e  instructiva  asna  lyra. 

D'esse  pequeno  movimento  litlerario  excitado  por  Boba- 
della partiu  a  idéa  da  creação  de  uma  typographia.  An- 
tónio Isidoro  da  Fonseca  estabeleceu  uma  ollicina  typo- 
graphica,  e  n'essa  oíDcina  se  imprimiram  os  folhetos  se- 
guintes : 

1.**  Relação  da  entrada  que  fez  o  Exm.  e  Rev.  Sr. 
D,  Frei  António  do  Desterro  Malheiros,  bispo  do  Rio  de 
Janeiro,  em  o  primeiro  dia  do  anno  de  1747,  havendo 


171 


sido  seis  annos  bispo  do  Heino  d^AngoU,  d'ODde  por 
nomeação  de  Sua  Mageslatle  a  bulia  pontifieia  foi  pro- 
inoviílo  para  esta  diocese.  Composta  pelo  Dr,  Luiz 
Aulonio  Rousado  da  Cunha,  juiz  de  fora  e  provedor  dos 
defnatos  e  ausentes,  capellas  e  resíduos  do  Rio  de  Janeiro, 
na  segunda  ofljcíiia  de  Aotonio  Isidoro  da  Fonseca.  Anno 
de  1747.  Com  licença  do  Sr.  bispo,  em  4%  20  pag.  numera- 
das, â  excepção  das  licenças,  que  occupam  duas, 

2.'  Em  apphiuso  do  Exm.  e  Revm*  Sr.  D*  Frei  Anlo- 
nio  do  Desterro  Malheiros,  digníssimo  bispo  desta  cidade. 
Romance  heróico  in  folio* 

Esle  folheto  nao  tnencíona  a  data  nem  alugar  da im 
pressão. 

3."  C^llecção  de  onze  epigrammas  e  um  soneto,  aquelles 
em  latira  oeste  em  portut;aez,  sobre  idêntico  assumpto* 

Nào  vem  também  declarada  n'este  folheto  nem  a  data, 
nem  a  ofBcina  d'onde  sahiu,  porém,  comparado  o  lypo  e  o 
papel  com  o  do  primeiro  folheto,  se  reconhece  que  tanto 
esse  opúsculo  como  o  segundo  foram  impressos  nu 
mesmo  estabelecimento*  Accrcsce  que,  apparecendo  estes 
êsertptos  na  mesma  occasiao,  sendo  consagrados  ao  mesmo 
individuo,  se  um  d*elles  foi  impresso  aqui,  é  claro  que 
os  outros  também  foram. 

Eslas  compnsiçõtís,  mui  raras  hoje,  são  apreciáveis  por 
serem  o  primeiro  trabalho  typograpbico  feito  no  Rio  de 
Janeiro,  monumentos  que  provam  a  existência  da  pri- 
meira  oflicina  typographica  d'esLa  cidade  e  talvez  do 
Brasil 

Ha  suspeitas  que  sabiu  d'essa  ofScina  a  impressão 
cia n destina  das  obras :  Exame  de  ArliUíeiros  e  Exame 
de  Bombeiros,  escriptas  pelo  tenente  de  mestre  de  campo 
general  José  Fernandes  Pinto  Alpoim  e  dedicadas  ao  sar- 


—  172  — 

geoto-mór  de  batalhas  o  capilão  general  do  Rio  de  Jaoeiro 
e  Minas  Gomes  Freire  de  Andrade. 

Na  ohr^ Exéitne  de  Artilheiros  vem  indicada  a  impressão 
em  Lisboa  na  oflicinade  José  António  Plates  em  1744.  E'  em 
4*  pequeno,  tem  239  paginas.  Apezar  de  trazer  todas  as 
licenças  do  santo  officio,  do  ordinário  e  do  paço»  foi  man- 
dada recolher  por  carta  régia  de  15  de  Julho  de  1744  ao 
corregedor  d'Airama  de  Lisboa,  sob  o  pretexto  de  não  se 
cumprir  n'ella  com  a  pragmática  relativa  aos  tratamentos. 

A  obra  Exame  de  Bombeiros  corre  como  impressa  em 
Madrid  na  oíTicina  de  Martinezabad  em  1748.  E'  em  4**  com 
4V4  paginas,  18  estampas  e  o  retrato  de  Gomes  Freire 
de  Andrade  gravado  por  José  Francisco  Chaves. 

Comparado  o  typo  de  aml)as  vè-se  que  é  igual  ou  mui 
semelhante,  que  ha  uniformidade  nos  frontispicíos  d'csses 
livros,  notando-se  em  ambos',escriptos  com  tinta  encarnada, 
o  nome  do  autor,  do  individuo  a  quem  é  dedicada  a  obra, 
o  lugar  da  impressão,  o  anno,  ele.  C  deve  causar  reparo 
esta  uniformidade  em  obras  que  se  dizem  impressas  em 
paizes  diversos,  visto  como,  examinando  nós  diversas  obras 
d*aquelle  tempo  publicadas  no  mesmo  anno,  em  diversas 
typographias,  não  encontrámos  a  mesma  semelhança.  Exa- 
minadas as  cartas  dirigidas  ao  autor,  e  que  precedem  ao 
texto  da  obra  Exame  de  Bombeiros,  vê-se  uma  carta  do 
brigadeiro  José  da  Silva  Pars  escripla  no  Rio  de  Janeiro 
em  15  de  Julho  de  1747,  e  comparada  esta  dÀta  com  a  do 
livro  deve  causar  algum  reparo  o  ter  sido  feita  a  impressão 
em  Madrid  alguns  mezes  depois.  Accresce  qui»,  sendo  o  livro 
impresso  em  Madrid,  o  gravador  do  rdralo  de  Gom  *s  Freire 
foi  José  Francisco  Chaves,  nome  que  parece  ser  de  artista 
portuguez.  Ainda  mais.  Vem  errado  o  nome  do  impressor, 
pois  em  vez  dos  nomds  Marti  nez  Abad  está  escripto 
Martinezabad  como  se  fosse  um  nome  só. 


—  173  — 

E  nlô  deve  causar  reparo  o  nâo  tar  o  alíbade  Diogo 
Barbosa  M.iòtiLido  noticia  da  impressão  d'essa  obra,  des- 
creveiifio-a  como  íiiaiiuscripla  no  lomo  4,*  da  Bi- 
bliolheca  Lusitma,  impresso  cm  17591  <«  Alem  de  que, 
diz  o  Sr*  l)v.  Cónego  Fernandes  Pinheiro,  purmilliria  o 
Símlo  oflicio  que  um  livro  revestido  das  necessárias  liconças 
tosm  impresso  em  reino  eslrangeiro  e  fóni  das  suas  vislast » 

Explica-se  a  fraude  d^essas  impressões  empregada  pelo 
typograidio  Isidoro  da  Fonseca  aUendeiiilo-se  que  havia 
sido  mal  recebida  em  Lisboa  a  noticia  da  concessão  de 
Gomes  Freire  de  tístabtílecer-se  aquotia  ollicina  no  Rio  de 
Janeiro,  De  feito  durou  pouco  a  officina  de  Isidoro  da 
Fonseca ;  mandou  a  còrlLi  aboHl-a  e  queimal-a  para  não 
propagar  iJéas  que  podiam  ser  contrarias  ao  interesso  do 
Estado  1 

Não  convinha  a  Portugal  que  houvesse  civilisacao  no 
Brasil  ;  desejando  c*inservar  4'ssa  colónia  alada  ao  seu 
domínio,  náo  queria  arrancal-adas  trevag  e  da  ignorância» 

O  alvará  de  5  de  Janeiro  ile  Í785,  referendado  por  Marti- 
nho de  Mello,  ministro  da  rainha  a  Sra,  TK  Maria  I, mandou 
extinguir  no  Brasil  as  fabricas  e  manufacturíts  de  ouro, 
prata,  seda  e  algodão  a  pretexto  de  haver  em  Portugal 
iguaes  estabelecimentus  ;  seriam  os  infractores  condem- 
nados  à  pena  do  moedeiros  falsos,  tuiitava-se  a  pfditiea 
delord  Chatam,  que  opinava  nao  se  permittisse  nas  co- 
lónias inglezas  da  America  nem  uma  fabrica» 

Damelrupole  nos  veiu  a  lei  urdenando  que  todo  vassallo 
portuguez  que  possuísse  mais  de  uraa  fortuna  mediana  fossô 
reenviado  para  PortugaL 

Quem  se  animaria  pois  a  abraçar  qualquer  industria  no 
Brasil ;  quem  se  esforçaria  por  adquirir  fortuna  tendo  de 
ficar  sujeito  a  residir  onde  ordenasse  o  governo? 

O  que  conseguia  algum  capital  tratava  de  occulta-lo,  não 


—    ITi  _ 

emprehendia  construcções,  não  se  utilisava  conveniente- 
monte  (Io  dinheiro,  nâo  o  empregava  em  beneficio  do  paiz, 
receandu-se  do  governo,  que  lolliia  a  liberdade  industríait 
e  chegava  a  querer  contar  as  moedas  que  cada  cidadão 
trazia  na  carteira  ! 

Ninguém  seguiu  o  exemplo  de  Isidoro  da  Fonseca,  tendo 
sido  extincta  a  arte  de  Gultemberg  na  terra  de  Santa  Cruz 
pela  fogueira  do  despotismo ;  todos  se  receavam  de  ver 
arder  suas  casas  se  ousassem  servir-se  de  typos  da  im- 
prensa. 

Passado  o  governo  sombrio  do  conde  da  Cunha  veiu  o 
vice-reihado  do  marquez  de  Lavr.idio,  que  soube  unir  o 
poder  com  a  ternura  e  a  justiça  com  a  humanidade. 

A  pedi  lo  de  seu  medico  o  Dr  José  Henrique  de  Paiva, 
creou  o  marquez  de  Lavradio  uma  academia  scienlifica, 
que  celebrou  a  primeira  sessão  em  18  de  Fevereiro  de 
1772,  no  palácio  do  vice-rei,em  presença  d'este  e  de  muitas 
pessoas  gradas  Foi  o  Dr.  José  Henrique  de  Paiva  o  primeiro 
presidente  da  academia  scientiíica  do  llio  de  Janeiro  e  Luiz 
Borges  Salsj[a(Io  o  primeiro  secretario. 

\vanlaja(los  serviços  prestou  esta  associíição  ás  sciencias 
n.ilnraes  ■-:.  á  agricultura  ;  tornou  mais  conhecidas  na  Eu- 
ropa as  plantas  do  Brasil,  e  conlribuiu  para  a  cultura  do 
anil,  cacáo,  coxonillia  o  de  outros  productos. 

Korani  publicados  em  Lisboa  pelo  ouvidor  de  Paranaguá 
Maniíel  Taviues  de  Siqueira  o  bá  os  trabalhos  d'esla  asso- 
ciação 

José  Basilio  da  Gama  e  Manoel  Ignacio  da  Silva  Alvarenga, 
com  o  auxilio  do  vice-rei  e  a  protecção  do  bispo  D.  José 
Joaquim  JustiniiiU)  Mascarenhas Castello  Branco,  organisa- 
rain  um  a  nova  sociedade  modelada  pela  arcádia  de  Roma, 
altrahindo  a  seu  grémio  todos  os  indivíduos  instruídos  do 
Brasil. 


—  ns  — 

Além  de  Basílio  da  Gama  e  Silva  Alvarenga  foram  mem- 
bros disliticlos  da  nova  academia  denominada  Arcádia 
Ultramarina  os  seguintes  :  Bartholomêo  António  Cordovil, 
Domingos  Vidal  Barbosa,  João  Pereira  da  Silva,  Balthasar 
da  Silva  Lisboa,  Ignacio  de  Andrade  Souto  Maior  Rendon, 
Manoel  de  Arruda  Camará,  José  Ferreira  Cardoso,  José 
Marianno  da  Conceição  Velloso  e  Domingos  Caldas  Barbosa. 

No  feliz  governo  de  Luiz  de  Vasconcellos  e  Sousa  en- 
contraram os  poetas  e  litteratos  a  mesma  liberalidade  e 
protecção  de  que  haviam  gozado  no  vice-reinado  de  Lavra- 
dio. Houve  então  no  Rio  de  Janeiro  uma  épocha  de  enthu- 
'siasrao  e  esperança  ;  animado  o  vice-r<íi  Vasconcellos  pelos 
sábios  e  litteratos  creou  a  casa  dos  Passaros,que  trinta  annos 
mais  tarde  tornou-se  o  primeiro  musêo  do  Rio  de  Janeiro  ; 
assistiu  em  178i  á  inauguração  da  aula  de  rethorica  e  poé- 
tica de  Manoel  Ignacio  da  Silva  Alvarenga,  poeta  que 
começou  a  introduzir  no  Brasil  o  gosto  da  boa  litteralura  ; 
tt  Talvez,  diz  o  cónego  Januário,  que  sem  os  esforços  e 
lições  de  Manoel  Ignacio  não  tivessem  apparecido  nas 
cadeiras  sagradas  do  Rio  de  Janeiro  os  Frias,  os  Rodova- 
lhos, os  S.  Carlos,  os  Sampaios,  os  Ferreiras  de  Azevedo, 
os  Oliveiras,  os  Alvernes  e  outros  pregadores  de  nomeada, 
que,  deixando  os  hábitos  da  antiga  escola,  abriram  carreira 
luminosa  aos  que  annunciam  com  mais  dignidade  e  eíDcacia 
as  doutrinas  da  nossa  santa  religião.»  Por  serem  suase^tas 
palavras  excluiu-se  o  cónego  Januário  da  Cunha  Barbosa  do 
numero  d'aqut)lles  oradores. 

Favoríceu  Vasconcelos  as  pesquizas  de  botânica  de 
Frei  Velloso,  autor  da  Flora  Fluminense^  cuja  impressão 
ficou  concluida  em  18i3  pelo  desvelo  e  protecção  do  pri- 
meiro Imperador  do  Brasil. 

Das  mãos  benéficas  do  Luiz  de  Vasconcellos  passaram  as 
rédeas  do  governo  para  as  do  violento  e  severo  conde  de 


—  176  - 

Rezende.  Temendo  a  influencia  dos  homens  intelligentes,  e 
tendo  desconfiança  e  receio  das  academias  e  associações  lit- 
terarias,  dissi»Iveu  o  vice-rei  em  1 794  a  academia  creada  no 
tempo  do  governo  de  Lavradio,  mandando  recolher  à  prisão 
os  principacs  membros,  enlre  outros  a  Manoel  Ignacio  e 
a  Marianno  José  Pereira  da  Fonseca,  que  se  conservaram 
encarcerados  longo  lempo  sem  haver  processo,  nem  pro- 
vas de  delicio. 

Uma  ordem  régia  restituiu  a  liberdade  às  victimas  da 
prepotência  do  vice-rei.  Mas  o  terror  abafara  as  vozes  de 
todos,  aniquilara  as  aspirações,  produzira  desconfiança, 
inquietação  e  tristeza ;  era  necessário  esperar  tempos  mais 
felizes,  de  menos  fanatismo  o  superstição,  em  que  o  pen- 
samento se  podesse  erguer  e  produzir  o  que  fosse  nobre  e 
ulil. 

Napoleão  o  Magno,  que  agitou  os  povos,  que  qni:^  firmar 
seu  estandarte  em  todas  as  capitães  e  formar  do  mundo 
um  império  para  si  e  para  os  seus,  tratou  de  conquistar 
Portugal,  o  que  obrigou  a  corte  portugueza  a  abrigar-se 
nas  torras  do  Brasil.  Começou  então  uma  nova  épocha  para 
a  colónia  porlugiieza  cia  America ;  foram  abertos  seus 
portos  is  nações  do  mundo,  fic(»u  estabelecida  a  liberdade 
de  cominercio  e  <le  industria,  tornou-se  a  colónia  sede  da 
monarchia,  e  d'ella  deviam  partir  as  lȒis  pari  ovt^lho 
Portugal.  Para  consolidar  o  seu  poder  na  America  deu  a 
casa  de  Bragança  nova  organisação  á  antiga  colónia  ;  crea- 
ram-se  diversas  instituições,  tribunacs,  estabelecimen- 
tos úteis,  academias,  miigislratnras.  exercito  e  mari- 
nha. Em  1808,  no  mesmo  anno  em  que  se  franqueavam 
os  portos  do  Brasil  ao  commercio  das  nações,  cm  que  se 
creava  uma  cadeira  [)ublica  de  scioncia  económica  no  Rio 
de  Janeiro,  o  conselho  supremo  militar,  o  archivo  militar, 
a  mesa  do  desembargo  do  paço  e  da  consciência  e  ordens, 


—  177  - 

areal  academia  de  guardas  marinhas,  a  fabrica  da  pólvora, 
o  erário  régio,  o  conselho  da  fazenda,  a  real  junla  do 
commercio,  q  banco  do  Brasil  e  a  escola  aaalomica,  ci- 
rúrgica e  meílica.  se  estabeleceu  a  imprensa  régia  por 
decreto  de  13  de  Maio..  Eis  as  palavras  dodocrelo  : 

ít  Tendo-me  constado  que  os  prelos,  que  se  acliam  n*esta 
capilal,  eram  os  destinados  para  a  secretaria  de  estado  dus 
negócios  estrangeiros  e  da  guerra,  e  attendeodo  á  ne- 
cessidade que  ha  da  oJHcina  de  impressão  iVesles  meus 
Estados,  sou  servido  que  a  casa  onde  elles  se  estahtie- 
ceram,  sirva  interinamente  de  imprensa  régia,  onde  se 
imprimam  exclusivamente  toda  a  legislação  e  papeis  diplo- 
máticos que  emanarem  de  qualquer  reparlição  do  meu 
real  servifo,  e  se  possam  imprimir  todas  e  quaesquer 
outras  obras,  Geando  interinamente  pertencendo  o  sen 
governo  e  a  administração  à  mesma  secretaria.  D.  Ro- 
drigo de  Sousa  Coutinho,  do  meu  conselho  de  estado, 
ministro  e  secretario  de  estado  dos  negócios  estrangeiros 
e  da  guerra,  o  tenha  assim  entendido,  e  procurará  dar  ao 
emprego  da  oJBcina  a  maior  extensão,  e  lhe  dará  Iodas  as 
inslrucções  e  ordens  necessárias,  e  participará  a  este 
respeilo  a  todas  as  estações  o  que  mais  convier  ao  meu  real 
serviro.  Palácio  do  Rio  de  Janeiro, em  13  de  Maio  de  Í808. 
tt  Com  a  rubrica  do  Principe  Regente  Nosso  Senhor.  " 
E*  o  nome  de  D-  Rodrigo  de  Sousa  Continho,  depois 
conde  de  Linhares,  que  apparece  no  decreto  creando  no 
Brasil  a  imprensa  régia.  Foi  o  conde  de  Linhares  o  único 
homem  da  corte  de  D,  João  VI  que  comprehendeu  as 
necessidades  do  Brasil.  Vencendo  as  idéas  mesquinhas  de 
outros  fidalgos,  foi  ellequem  iniciou  as  medidas  mais  con- 
venientes, quem  inspirou  as  melliores  |n'ovidencÍas  de- 
cretadas pelo  príncipe  regente.  Mas  pouco  viveu  no  Brasil 
o  babil  estadista;  fallec-eu  em  S6  de  Janeiro  de  1812. 

TOMO  XXIX,  p.  11.  23 


—  178  - 

Foi  estabelecida  a  imprensa  régia  no  paTimento  térreo 
do  prédio  occupado  actualmenle  pela  secretaria  da  jus- 
tiça, servindo  Q'aquella  épocha  de  morada  ao  conde  da 
Barca.  Para  administrar  a  oílicina  lypographica  Toí  creada 
uma  junta  directoria,  composta  do  desembai^ador  José 
Bernardes  de  Castro,  José  da  Silva  Lisboa,   depois  vis- 
conde de  Cayríi,  Marianno  José  Pereira  da  Fonseca,  de- 
pois marquez  de  Maricá,  Silvestre  Pinheiro  Ferreira,  Ma- 
noel Ferreira  de  Araújo  Guimarães  e  do  couego  Francisco 
Vieira  Goulart ;  recebendo  cada  membro  da  junta  duzentos 
e  quarenta  mil  réis  de  ordenado,  tendo,  porém,  o  the- 
soureiro,  que  era   Marianno  José  Pereira  da  Fonseca, 
mais  cem  mil  réis.  Na  vaga  d'este  entrou  José  Saturnino  da 
Costa   Pereira,    que,  como  revisor  de  provas»  recebia, 
além  do  ordenado,  uma  gratificação. 

Em  to  de  Setembro  dè  1808  appareceu  o  periódico  Ga- 
zeía  do  Rio,  impresso  por  ordamdo  governo. 

Foi  o  primeiro  periódico  publicado  no  Brasil ;  era  em 
V  e  sabia  às  quartas  e  sabbados;  a  principio  Toi  re- 
digido por  frei  Tiburcio  José  da  Rocha,  depois  pelo  co- 
ronel Manoel  Ferreira  de  Araújo  Guimarães,  e  na  vaga 
d*esle  pelo  cónego  Francisco  Vieira  Goulart.  Publicava  a 
Gazeia  do  Rio  os  aclos,  decisões  e  ordens  do  governo,  a 
noticia  dos  dias  natalicios  da  familia  real  e  das  festas  da 
còrle,  os  acontecimentos  principues  da  guerra  que  Na- 
poleão fazia  a  Portugal,  e  odes  e  panegyricos  ás  pessoas 
roaes. 

Receava  se  o  governo  da  imprensa,  e  por  isso  man- 
dava publicar  só  o  que  lhe  convinha.  Fallando  Armitage 
d'esta  gazeta  exprime-se  assim  :  vi  Não  se  inanchavam  essas 
pagin;is  com  as  elTervescencias  da  democracia,  comaex- 
piV!U(ão  de  aggravos.  \  julgar-se  do  Brasil  pelo  seu  único 


—  179  - 


periódico*  devia  ser  considerado  como  om  paraíso  terres- 
ire,  onde  nuncã  se  linha  expressado  um  só  queixume,!» 

Não  havia,  pois,  liberdade  de  imprensa ;  quem  desejava 
imprimir  qualquer  mauuscriplo  o  apresentava  anies  com 
um  requerimcnlo  ajunta  directoria,  e  sò  depois  do  despa- 
cho ò  que  o  podia  imprimir ;  se  ú  manuseripto  dizia  res- 
peito à  religião j  á  legislação,  ou  à  politica,  era  ajunta  au- 
lorisada  a  manda-lo  revur  por  pessoas  de  profissão  compe- 
tente, dirigindo-lhes  para  esse  eflfeito  officioemnomede 
Sua  Alteza  Real,  e  exigindo  o  seu  juizo  eapprovaçfio  por 
escripto,  à  vista  da  qual  se  mandava  imprimir  com  as  cor- 
recções necessárias,  precedendo  licença  da  secretariada 
estado. 

A  real  oflQcina  lypographica  recebia  aprendizes,  que  en- 
travam ganhando  cento  e  sessenta  réis  diários ;  no  fim  de 
seis  mezes  era  elevado  o  salário  a  duzentos  e  quarenta  réis, 
e  DO  fim  de  um  anno  a  quatrocentos  réis ;  o  aprendiz,  que 
não  dava  nem  uma  Tal  ta  na  semana,  tinha  uma  grati- 
ficação. 

Depois  de  permanecer  algum  tempo  nas  casas  da  ma 
do  Passeio,  foi  mudada  a  imprensa  régia  para  a  rua  dos 
Barbo  nos,  occu  pando  a  casa  próxima  ao  hospicio  de  Jeru- 
salém; e  um  dos  membros  da  junta  directoria,  o  desem- 
barçador  José  Bernardes  de  Castro,  para  residir  perto  da 
oíBcina,  foi  habitar  em  um  sobrado  da  rua  das  Marrecas, 
tendo  residido  até  anlao  em  uma  casa  da  rua  da  Ajuda, 
onde  se  imprimiam  as  bulias  da  Santa  Cruzada. 

Junto  à  imprensa  régia  havia  uma  olBci na  de  cartas  de 
jogar  pertencente  a  Jayme  Mendes  de  Vâscoucellos,  sendo 
mais  tarde  incorporada  á  frizenda  nacional 

Possuia  a  oficina  lypographica  uma  fundição  de  typos,  e 
para  se  melhorar  esse  trabalho  foi  enviado  a  Europa  um 
pensionista  do  Estado,que, estudando  a  arte  de  fundir  typos, 


—  180  — 

voltou  mestre  ;  mas,  como  lhe  qnizeram  dar  am  ordenado 
mesquinho,  não  sujeitou-se  ao  trabalho,  e  retirando  para 
Lisboa  estabeleceu  là  uma  oflicina  de  fundição. 

A  provisão  de  14  de  Outubro  de  1808  ordenou  aos  jui- 
zes das  aliandegas  que  não  admittissem  a  despacho  li- 
vros ou  papeis  alguns  impressos  sem  que  lhes  fosse  apre- 
sentada a  competente  licença  do  desembargo  do  paço,  ao 
qual  deveriam  enviar  uma  relação  de  quantos  entrassem  e 
sahissem  das  alfandegas. 

Tal  era  o  receio  que  o  governo  tinha  da  imprensa,  que  o 
intendente  geral  da  policia  Paulo  Fernandes  Vianna  man- 
dou affixar  o  edital  de  3a  de  Maio  de  1809,  em  que  decla- 
rava que,  importando  muito  á  vigilância  da  policia  que 
chegassem  ao  seu  conhecimento  todos  os  avisos,  annun- 
cios  e  noticias  dos  livros  e  obras  que  existiam  à  venda,  es- 
trangeiras ou  nacionaes,  proliibia  d'ahi  por  diante  que  se 
publicassem  os  sobreditos  annuncios,  avisos  e  noticias, 
sem  que  fossem  vistos,  examinados  e  precisamente  ap- 
provados,  sob  pena  de  prisão  e  multa  pecuniária,  além 
das  mais  que  impõem  as  leis  aos  que  procuram  quebran- 
tar a  segurança  publica,  qualquer  que  fosse  a  nacionali- 
dade dos  criminosos.  Ordenou  ainda  que  uma  inquirição 
ficasse  aberta  para  que  se  admittissem  em  segredo  as 
denuncias,  e  se  conhecessem  e  punissem  os  transgressores 
das  suas  ordens. 

Não  havendo  liberdade  de  imprensa  no  Rio  de  Janeiro, 
existindo  uma  única  lypographia,  e  sendo  por  isso  difficil 
a  impressão  de  qualquer  periódico,  recorreu-se  ao  expe 
diente  de  fazer  apparecer  essas  publicações  em  paizes  es- 
trangeiros. Começou  a  publicar-se  em  Londres  em  1808 
o  Correio  Brasiliense  e  em  1811  appareceu  n'aquella  capi- 
tal o  Investigador  Portugucz,  periódicos  que  foram  franca- 
mente admitlidos  no  Brasil  e  até  indirectamente  protegi- 


-  18!  -^ 


dos  por  el-reip  que  os  lia  para  ter  noticia  do  que  occorrid. 
O  Correio  Brasiliense  duruQ  d^sde  Junbo  de  1808  até 
1822,  sahineloàiuz  Yiole  eoito  volumes  pelo  menos;  ape- 
zar  de  proliibido  algmn  U  mpo  no  Rio  de  Janeiro,  crâ  lido 
sera  reserva  ate  no  próprio  paço  do  rei»  e,  como  jà  dis- 
semos, foi  mais  tarde  francamenlc  admitlido,  sendo  por- 
mittida  a  sua  venda  e  leitura.  Mas  em  Portugal  foi  vedada 
mais  de  uma  vez  a  circulação  d'esLe  perioilico ;  a  pri- 
meira proUíbirao  foi  em  17  de  Selerabro  de  18H,  a 
segunda  em  '2  de  Março  deíSláe  a  terceira  em  iS  de 
ilunho  de  I8i7, 

Era  redactor  do  Carrdú  Brmiliense  o  erudito  brasi- 
leiro Hyppolito  José  Soares  da  Costa,  que  manifestou  com 
á  publicação  d* essa  revista  mensal  seu  elevado  ta- 
lento e  variada  instrucção,  e  advogou  toda  e  qualquer  idéa 
que  parecia  utit  ao  Brasil,  concorrendo  doesse  modo  para 
o  engrandecimento  e  prosperidaíle  de  sua  palria* 

Nasceu  Hyppolito  José  Soares  da  Costa  na  cohnia  do 
S;icramento  em  13  de  Agosto  do  I77i  ;  exerceu  em 
Portugal  diversos  empregos  quo  divulgaram  sua  inlelli- 
gencia;  porém,  perseguido  pela  inquisição,  foi  pira  Lon- 
dres» onde  dedicou-se  ao  ensino  de  linguas  estrangeiras, 
em  que  era  versado,  ecollaborou  em  liivei^osjornaesin- 
glezes.  Fundou  em  ISOíiS  a  revista  em  portuguez  intitulada 
iCorreia  Brtmlien&e,  Proclamada  a  independência^  foi  cha- 
mado pelo  primeiro  imperador  para  occupar  empregos 
no  Brasil,  porém  o  hábil  escríptor  nao  qaiz  abandonar 
a  Inglaterra,  e  lã  m<^smo  recebeu  do  imperador  do  Bra- 
sil honras  g  uma  pensão  pecuniária,  que  lha  íoi  paga 
até  1  r   de  Setembro  de  1823,  èpochad'^  sua  morte. 

Já  expendemos  tfS  motivos  da  publicação  de  periódicos 
nos  paizes  estrangeiros,  porém  ouçamos  o  que  diz  Hyp- 
polito da  t^>sla  a  esto  respuito  : 


—  tm  - 


^A  diflSculdade  de  publiar  obras  periódicas  no  Brasil, 
jà  pela  censura  prévia,  já  pelo  perigo  a  que  os  redactotí^s 
se  exporiam  fallando  livremente  das  acções  dos  homens 
poderosos,  íez  cogitar  o  expediente  de  imprimir  seme- 
lhantes obras  em  paizes  estrangeiros.  A  França  e  a  In- 
glaterra furam  principalmente  os  pontos  de  reunião  d*e&- 
sas  publicações  desde  a  épocha  em  que  a  íaigiiia  real  pas- 
sou a  ter  a  sua  residência  no  Rio  de  Janeiro-  Aberlo 
este  canal,  pôde  dizer-se  que  se  estabeleceu  a  liberdade 
de  imprimir  para  o  Brasil,  poslo  que  nâo  no  Brasil  » 

O  Investigador  Portugwz  appareceu  era  Junlio  de  !8I  I  e 
findou  em  Fevereiro  de  1819,  contando  no  Mo  noventa  e 
dois  números  em  cadernos  mensaes  ;  foi  fundado  pelo 
Dr.  Bernardo  José  de  Abrantes  e  Castro,  que  associou-se 
com  o  Dr.  Vicente  Pedro  Nolasco  Pereira  da  Cunha  e  com 
o  Dr.  Castro^  brasileijo,  formado  na  universidade  de 
Edimburgí).  Foi  publicado  o  periódico  sob  os  auspicies  do 
condo  de  Funchal,  eu  tão  embaixador  na  corte  de  Londres» 
que  alcançou  para  esta  publicação  o  subsidio  annuat  de 
cento  e  tantas  subscripções  equivalentes  â  somma  de  mil 
e  sessenta  francos  pagos  pelo  governo  do  Uio  de  Janeiro, 
que  mantinha  em  Londres  esse  jornal  para  combater  as 
doutrinas  do  Cofreio  Rrasilmue,  até  certo  ponlo  hostis  à. 
Portugal.  Em  1814  passou  a  redacção  do  Investigadora 
José  liberalo  Freire  de  Carvalho,  que  pouco  e  pouco  foi  se 
afastando  da  influencia  do  conde  de  Funchal  e  dando  ao 
periódico  côr  mais  liberal  j  então  suspendeu  o  governo  do 
Rio  a  pensão,  mas  apczar  disto  viveu  o  periódico  até  I8f  9. 
Supprimidri  a  publicação  n*ess6  auno  receberam  os  Drs* 
Castro  e  Nolasco  400^000  cada  um  do  governo  do  Uio  de 
Janeiro. 

Tornon-se  notável  este  periódico  não  só  pelos  seas  arti- 
gos políticos,  senão  pelo  quadro  synoptico  que  apreseulavaj 


—  i83  — 


cada  anoG  descrê  vendo  a  situação   das  diversos  paizes  da 
Europa- 

Efu  1808  puhlictíu  José  da  Silva  Lisboa  um  opúsculo  tio 
Bio  de  Janeiro,  inlilulado  Observações  sobre  a  abertura  dos 
portos  do  Brasil;  lambem  foram  publicados  alguns  ser- 
mões de  vários  pregadores. 

Em  l8lo  ap[>areceram  impressos  os  irabalhos  de  Silva 
Lisboa  iíitimlados  Observações  sobre  a  franqueza  das  fabricas 
e  hidiisíria^  e  Refutações  das  declamações  contra  o  com^ 
ímrciú  ingkz. 

Silva  Belforl  publicou  o  Roteiro  da  cidade  do  Maranhão 
ao  fíio  dê  Janeiro  ;  e  appareceram  oulros  folhelos. 

Em  181 1  imprimiu  Oliveira  Bastos  o  Roteiro  da  cidtuk 
de  Santa  Maria  de  Belém  do  Grão  Pará  pelo  rio  Tocanlim; 
e,  além  desta  obra,  sah  iram  da  imprensa  régia  diversos 
alvarás  ;  a  novella  Choupana  índia  ;  Opesperlador  ou 
único  meio  de  salvar  a  Ilespanha,  obra  iú  um  patriota  1h!S- 
panliol^  traduzida  em  porlugucz  ;  VeMal,  Iragediu  ;  Sur- 
riada a  Masseno;  Nova  Castro,  tragedia  ;  Paulo  e  Ytrginia 
íiovella  ;  OCorso^  composição  poética  cm  oitava  rima; 
O  Uruguay,  poema  de  José  Basílio  da  Gama  ;  O  Comorcio 
das  Ftíres  por  Bocage,  e  carta  pastoral  do  Exm.  e  Rcvm. 
bispo  capellão  mor  de  8  de  Abril  de  18H  sobre  a  despensa 
de  vários  dias  santos. 

Havendo  uma  sò  lypograpbia  e  começando  a  aflluir 
muiio  trabalho  para  essa  oíficina,  construiu  se  um  prelo  de 
madeirame  para  perpetuar  a  lembrança  d'esla  obra  impri- 
miu-seum  quadro  com  o  seguinte  dislico  :  «  A*  immorta- 
lidade  do  real  e  sempre  augusto  nome  do  Priíieipe  Regente 
Nosso  Senhor  é  dedicada  a  eslréa  du  primeiro  prelo  cons- 
Iruido  na  America  do  Sul,  no  Rio  Ue  Janeiro,  no  annode 
MDCCCrx.  « 

Sâhiramda  imprensa  régia  em  1812  as  seguintes  obras: 


- 1»  — 

M  lUm.  e  Exm,  Sr.  eomie  de  lânhmtê^  por 
Doel  Ferreira  de  Áruijo  Gaimaries ;  ElemaUm  de  i 
por  U-Croix  tnidiBidos  em  portogoex  por  ordeB  de  S.  A.  1^ 
por  Fnuiciseo  Cordeiro  da  Sílfa  Torres ;  Em 
pengmda$9qinMmra$dõnêrod4ttcUkídê$ênmte^ 
por  J.  C.  P.;  PkOoiopho  por  amar^  oo  Carioê  dê  doU  mmmm 
ie$  apaixonadoã  e  virtuotOÊ^  dois  Yolomes ;  Epieeàiú  á  dl»- 
phnvdfnarUdo  Sermiãtimo  Sr.  Infiàníe  D.  Pedro  Cmrim 
de  Bourbon  e  Bragança^  almiranie  general  junio  d  real  jMt- 
Moa  do  Príncipe  Regente  Nono  Senhor^  por  Paolino  Joaqwfli 
Leitio ;  Obeervações  sobre  o  cravo  da  índia  ;  Obeerrmçèm 
eobreocapim  da  Angola,  nUimamenle  traâdo  e  cnlU^do 
no  Rio  de  Janeiro ;  Plano  de  organieação  de  wmieseofaiflM- 
dico-cirurgica  qae  por  ordem  de  S.  A.  R.  tracon  e  esorefea 
o  Dr.  Vicente  Navarro  de  Andrade;  Patrioíitmo 
por  Ofídio  Saraiva  de  Carvalho  e  Silva;  oe  Jardine, 
por  Bocage,  e  diversos  alvarás,  decretos  e  avisos. 

Em  Janeiro  de  ISlScomecon  Manoel  Ferreira  de  Aruqo 
Guimarães  a  publicar  nma  revista  de  cem  paginas  em  pe* 
queno  formato  intitulada  O  Patriota.  Durou  este  periódico 
pouco  mais  de  um  aono,  e  bons  serviços  prestou  ao  paiz, 
apresentando  em  suas  paginas  noticias  curiosas  e  memorias 
interessantes ;  collaborarâm  para  esta  revista  Domingos 
Borges  de  Barros,  depois  Visconde  da  Pedra  Branca,  Dr. 
Bernardino  António  Gomes,  Bento  da  Fonseca,  Dr.  Godoy 
Torres,  Diniz  e  outros  lilteralosda  épocha.  Está  estampada 
no  Patriota  uma  memoria  sobre  o  descobrimento  da  co- 
xonilha  no  Brasil  escripta  por  um  dos  irmãos  Paiva,  e 
apresentada  no  tempo  do  marquez  de  Lavradio  á  Acade- 
mia Scientiíica  do  Rio  de  Janeiro. 

Foi  impressa  em  1813  a  obra  de  Silvestre  Pinheiro  Fer- 
reira intitulada  Prelecções philosophicas  sobre  a  theoria  do 
discurso  e  da  linguagem.  Ja  nSto  era  pouco  paraoRiode 


—  185  - 

Janeiro  este  movimento  litterario,  quando  até  entSo  nada 
houvera,  e  nem  de  Portugal  se  remeltia  cousa  valiosa,  ape- 
nas a  folhinha  de  cada  anno,  o  livro  de  Carlos  Magno,  ou  o 
Almocreve  de  Petas.  Mas  não  nos  admiremos  d'essa  antiga 
pobreza  lilleraria  do  Rio  de  Janeiro,  pois  até  1800  era  a 
Gazeta  de  Lisboa  o  unico  jornal  politico  que  se  imprimia 
em  Portugal. 

Appareceu  impressa  no  Rio  de  Janeiro  em  1817  a  im- 
portante obra  de  Ayres  do  Casal  Corographia  Brasílica,  qu6 
eminente  serviço  prestou  à  geographia  pátria  tornando 
mais  conhecidos  o  território,  os  productos  e  a  riqueza  do 
Brasil. 

Em  1819  imprimiu-se  o  poema  Assumpção,  de  frei  Fran- 
cisco de  S.  Carlos. 

No  anno  seguinte  monsenhor  Pizarro  deu  á  estampa  a 
obra  Memorias  Históricas  do  Rio  de  Janeiro  e  das  provin- 
das annexa^  djurisdicção  do  vice-rei  do  Estado  do  Brasil^ 
dedicadas  ao  rei  D.  João  VI. 

Para  engrandecer  a  pátria  tratou  o  auctor  de  resuscitar 
da  obscuridade  muitos  factos,  cuja  notícia  era  ignorada.  O 
monsenhor  José  de  Souza  Azevedo  Pizarro  e  Araújo  perten- 
ceu à  Arcádia  ultramarina. 

Repercutiu  no  Brasil  o  movimento  constitucional  que 
appareceu  em  1820  era  Portugal,  produziu  agitação  no  es- 
pirito publico  ;  despertando  o  povo  do  estado  de  apalhia 
e  lethargo  em  que  vivia  submergido,  saudou  com  enthu- 
siasmo  as  idéas  novas  de  constituição  e  liberdade  que  par- 
tiam do  outro  lado  do  Atlântico.  Novos  órgãos  se  fizeraih 
ouvir  na  imprensa,  havendo  em  1821  os  seguintes  periódi- 
cos;— Amigo  do  Rei  e  da  Nação — Sabbatina  Familiar — 
Patriota  —  Conciliador  do  Reino  Unido —  Constitíicional — 
EspeltiO-^Reverbero — Malagueta. 

El-rei  haviase  retirado  para  Portugal,  deixando  ao  prin- 

TOMO  XXIX,  p.  II.  24 


—  186  — 

cipe  real  D.  Pedro  a  dignidade  e  as  atlríbuições  de  regente 
do  Bfasil. 

Nascera  n'aquelle  anno  o  Otário  c/o  iliocte  Janeiro,  im- 
presso na  typographia  régia,  cm  mão  papel  almaço  e  em 
formato  de  4%*  fora  creado  por  Zeferino  Victor  de  Meírelles, 
que  obteve  do  principe  regente  D.  Pedro  a  permissão  de 
imprimir  o  seu  periódico,  durante  s^ismezes,  na  imprensa 
nacional ;  e  findo  o  prazo  estabeleceu  Victor  de  Meirelies 
uma  typograpbia  na  rua  dos  Barbonos  n.  72.  Foi  esta  a 
segunda  typographia  creada  no  Rio  de  Janeiro.  Foi  o  Diá- 
rio do  Rio  de  Janeiro  o  primeiro  periodicoque  se  occupou 
em  publicar  annuncios  e  noticias  locaes ;  pois,  até  então, 
quando  se  tinha  de  annunciar  qualquer  cousa  ou  novidade* 
pregava-se  o  annuncío  manuscripto  nas  esquinas  das  ruas 
ou  nas  portas  das  igrejas,  ou  apregoava-se  pelas  ruas  o  que 
se  queria  vender,  alugar  ou  comprar.  Custava  o  Diário  do 
Rio  quatrocentos  e  oitenta  réis  por  mez,  e  era  publicado 
todos  os  dias,  menos  aos  domingos,  vindo  cada  numero  a 
valer  vinte  réis,  e  por  isso  recebeu  o  periódico  o  nome  de 
hlario  do  Vinlein,  (jue  lhe  dava  o  povo  ;  assim  como  o  de 
l)i.irio  da  Maiílci^M,  porque  foi  o  primeiro  jornal  que  oc- 
cupiMi  se  em  publicar  o  preço  dos  géneros  e  outras  noti- 
cias particulares. 

Victor  de  Meirelies,  que  creára  no  paiz  um  jornal  diário 
e  útil  ao  commercio  c  â  economia  domestica,  soiTreu  grave 
perigo  por  causa  d'um  annuncio  que  appareceu  na  sua  fo- 
lha. Conservando  um  individuo  de  familia  importante  a 
sua  filha  em  cárcere  privado,  veiu  no  Diário  ura  annuncio 
denunciando  esse  crime ;  no  dia  seguinte,  ao  abrir  a  porta 
da  officina,  recebeu  Meirelies  um  tiro  na  face,  que  o  dei- 
xou ferido ;  porém  restabeleceu-se,  vindo  a  fallecer  algum 
tempo  depois. 

Por  aviso  de.28  de  Agosto  de  1821  ordenou  o  principe 


—  187  — 


*  regente  D.  Pedro  que  cessasse  n  revisão  prévia  das  obras 
tque  se  impriraisseni,  ficando  este  objecto  regulado  pelo 
fque  a  este  respeito  tinlia  esbbelecido  e  decretado  as  cortes 
fgeraeSt  exlraordinarias  e  constituintes  da  nação. 

Em  coasequenciâ  d*esse  aviso  e  do  art  6*^  da  lei  do  regu- 
^  lamento  da  iiiiprensa,  que  delerininavaqne  por  Iodas  as 
obras  impressas  nos  Estados  portuguezes»  no  caso  de  abuso, 
fossem  responsáveis  os  auctores  ou  editores,  e  na  falta 
jd'estes  os  impressorBS,  publicou  ajunta  directora  da im- 
prensa  régia,  no  l''  de  Setembro  de  1821»  uma  declaração 
fazendo  ver  ao  administrador  d'aquella  officina  que  não 
fizesse  imprimir  manuscripto  ou  impresso  algum  que  oão 
viesse  assignado  pelo  auctor  ou  editor,  sendo  o  nome  reco- 
nhecido pelo  labellião  pubíicoí  declarando  este  ter  visto 
fazer  a  dita  assignatura. 

DâQdo-se  diversos  abusos  de  liberdade  de  imprensa,  foi 
publicada  em  15  de  Janeiro  de  1822  a  seguinte  portaria : 
4(  Manda  S,  A,  Real  o  príncipe  regente  peia  secretaria  de 
estado  dos  negócios  do  reino  que  a  juni*  directora  da  ly- 
pogruptíia  nacional  nâo  consinta  jamais  que  se  imprima  es- 
jcripio  algum  sem  que  o  nome  da  pijssoa  que  deve  respnii- 
f^der  pelo  seu  conteúdo  se  publique  no  impresso;  e  con- 
stando ao  mesmo  senhor  que  no  escriplo  intitulado  Heroir- 
cidftde  Brasileira  se  lêm  proposições  não  sò  indiscretas  mas 
falsas,  em  que  se  acham  estranhamente  alterados  os  succes- 
sos  ultimamente  acontecidos,  ha  por  bem  que  a  referida 
junta  suspenda  já  a  publicação  do  dito  papel  e  faça  reco- 
lher os  exemplares  que  jà  estiverem  impressos,  para  que 
nâo  continue  a  sua  circulação.   Palácio  do  Rio  de  Janeiro, 
em  13  de  Janeiro  de  t&i'i.—  Francisco  José  Vidra. 

Ko  dia  seguinte  era  nomeado  ministro  do  reino  e  de  es- 
^trangeiroso  illustrebraf:ileiro  José  Bonifácio  de  Andrada  e 


—  Ite  — 

Silra.  Cm  dos  primeiros  a»:tos  4o  míoislro  foi  a  porurâ 
seg  jint« : 

«  Porqiiaotj  rili^ank  espirítij  mal  inteocioDailo  po^ierli  ia- 
ierpreur  a  portaria  eipe^liJa  em  15  do  corrente  peU  se- 
cretaria  de  estado  dos  Deg«^i>>s  do  reino  á  jqqu  directoria 
da  typogidphía  oicioDal  ero  sentido  int^iramenle  cootrario 
aos  lí^le^ali3sim^JS  princípios  de  S.  A.  R.  e  á  sua  constante 
adhesãoao  STstemaconstítacLonal,  manda  o  príncipe  re- 
gente pela  mesma  secretaria  de  estado  declarar  à  referída 
jnnta  que  não  d^ve  embararar  a  impressão  dos  escríptos 
anonymos,  pois  peKiS  abusos  que  contiverem  deve  respon- 
der o  anctor,  ainda  que  o  seu  nome  não  tenha  sido  publi- 
cado, e  na  falta  d^est^^  o  edit  jr  ou  impressor,  como  se  acha 
prescrípto  na  lei  que  regula  a  liberdade  de  imprensa.  Pa- 
lácio do  Rio  de  J  «neiro  em  19  de  Janeiro  de  18*2.  —  Jo$é 
Bonifácio  de  Andrada  e  Silva.i^ 

Tendo  por  presidente  a  José  Clemente  Pereira,  dirigiu  o 
senado  da  camará  a  S.  A.  R.  em  i  de  Fevereiro  a  carta  se- 
guinte, representando  a  necessidade  de  porem  execução  a 
lei  de  liberdade  de  imprensa  : 

«  O  sonado  da  Ciiraara  dN^sla  cidade  com  os  hom^^ns  b  ins 
que  tem  andado  na  sua  g  )vernança,  considerando  que  a  li- 
berdade absoluta  da  imprensa,  no  estado  em  que  actual- 
mente se  acha,  deve  vir  a  degenerar  em  abusos  terríveis, 
que  podem  perturbar  o  socego  publico  da  nação  e  o  parti- 
cular de  cada  um  dos  seus  cidadãos,  roga  a  S.  A.  R.  que 
haja  p<jr  bem  mandar  pòr  era  execução  a  lei  de  liberdade 
de  iraprensi  n'esta  cidade,  aonde  a  crearão  do  juizo  dos 
jurados  parece  exequível  sem  inconveniente,  altenla  a 
muita  população  de  que  se  compõe  e  as  muitas  luzes  que  jâ 
possue.  1).  (i.  a  preciosa  vida  de  S.  A.  R.  Rio  de  Janeiro, 
em  vereação  extraordinária  de  4  de  Fevereiro  de  1822.  >► 

Permittira  a  portaría  de  José  Bonifácio  muita  liberdade 


-  189  — 

na  imprensa,  e,  receiando  que  se  tornasse  mais  livre  e  ve- 
hemente  a  linguagem  dos  periódicos,  tratava  o  senado  da 
camará  de  cohibir  os  abusos  que  pudessem  apparecer ;  e 
eram  bem  fundados  os  receios  d'aquêlla  corporação,  como 
maisUirde  veremos. 

Pedindo  a  camará  que  se  executasse  a  lei  de  liberdade  de 
imprensa  prestava  um  serviço  ao  paiz  ;  e  n*aquelle  anno 
assignalou-se  a  municipalidade  pelo  amor  e  dedicação  que 
manifestou  pela  causa  publica.  Em  ')  de  Janeiro  prestara 
essa  corporação  relevante  serviço  conseguindo  que  o  prín- 
cipe regente  ficasse  no  Brasil ;  em  23  de  Maio  pediu  ao 
príncipe,  em  nome  do  povo,  que  mandasse  convocar  na 
corte  uma  assembléa  geral  das  províncias  do  Brasil ;  dois 
annos  depois  supplicou  ao  imperador  marcasse  dia  e  hora 
para  se  jurar  a  constituição;  e  alcançou  tudo;  a  liberdade,  a 
monarchia  separada  de  Portugal  e  por  fim  a  constituição. 

,  Em  1822,  n'esse  anno  de  enthusiasmo,  de  patriotismo, 
do  vida  e  de  gloria  para  o  Brasil  sahiram  dos  prelos  diversos 
periódicos  pugnando  pela  liberdade  e  pelo  futuro  da  pátria. 

Estes  periódicos  foram  os  seguintes  .  —  Kagviiador  Bra- 
nUico-Lmo  —  Republicano  Liberal  —  Papar  aio  —  Annaes 
Fluminenses— Volantim — Periquito  da  Serra  dos  Órgãos 
— Macaco  Brasileiro -—  Reclamação  do  BrasU^Correio  do 
Rio  de  Janeiro  Semanário  Civico—  Memo/ial  Apologético 
-^Compilador  Constitucional. 

Imprimiram-se  na  typographia  do /)iari}(io  Aio  diver- 
sos hymnos  patrióticos. 

Usavam  esses  periódicos  e  os  que  m  3ncioi  làmos  em  1824 
de  uma  linguagem  exaltada  e  vehemente;  inflammados  os 
espíritos  com  as  idéas  de  liberdade  e  independência,  não 
mediam  o  excesso  da  linguagem  e,  receiando  que  d'essa 
agitação  da  imprensa  resultasse  alguma  explosão,  andava 


—  490  - 

acertada  a  camará  pedindo  ao  príncipe  r^ente  pnzesse 
em  execução  a  lei  de  liberdade  de  imprensa. 

Foi  transferida  em  1822  a  typographia  nacional  da  ma 
dos  Barbonos  para  o  sobrado  occupado  actualmente  pela 
secretaria  da  justiça. 

A'  Gazeta  do  Rio,  publicada  até  1821 « substituiu  o  Diário 
do  Governo,  que  appareceu  em  1823. 

Foi  publicada  n'este  anno  uma  lei  de  liberdade  de  im- 
prensa assignada  por  José  António  da  Silva  Maia,  Bernardo 
José  da  Gama,  Estevão  Ribeiro  de  Rezende,  José  Teixeira 
da  Fonseca  Vasconcellos  e  J(^ão  António  Rodrigues  de  Car- 
valho ;  muitas  disposições  d'essa  lei  ainda  se  acham  em 
execução. 

Eis  a  lista  dos  periódicos  d'aquelle  anno  :  —  Diá- 
rio do  Governo  —  Espelho  —  Regulador  BrasUico-Luso  — 
Malagueta^  Sylpho--  Semanário  Mercantil  —  Tamayo  — 
Diário  do  Commerció  —  Diário  da  Assembléa  Geral  e  Cons- 
tituinte  do  Brasil — Brasileiro  Resoluto-^  Estreita  Brasileira 
— Diário  do  Rio  de  Janeiro, 

Híivia  na  cidade  em  1824  cinco  typographias,  a  nacional 
e  quiilro  parliculares.  Em  21  de  Maio  d'esse  anno  passou 
o  Diário  do  Gorerno  a  denominar- se /Jíarío  F/umtnerwe; 
e  além  dos  periódicos  do  anno  antecedente  appareceram  os 
que  se  seguem  : — Folha  Mercantil— Caboclo — Despertador 
Constitucional — Diário  Fluminense--  Spectador  Brasileiro, 

l^óde-se  dizer  que  foi  iraqnelle  anno  que  nasceu  oJorfial 
do  Commerció,  considerado  hoje  como  a  primeira  folha  diá- 
ria do  império. 

Empreliendeu  em  1824  o  francez  Emilio  Seignot  Plan- 
cher,  dono  de  uma  lypographia  sila  na  rua  do  Ouvidor 
n.  20H,  a  publicação  do  Spectador  Brasileiro,  periódico 
noticioso,  que  apparecia  ires  vezes  na  semana,  lornando-se, 
porém,  diário  quando  trabalhava  a  assembléa  legislativa. 


-  191  - 


O  periódico  dt3  Emiiio  Plancher  foi  recebido  com  benevo- 
lência pelo  publico,o  que  animou  o  editor  que  do  anno  para 
anrio  foi  aparreiçoando  asiia  folliavCada  vez  mais  procurada  e 
appreciadadoslíiilores ;  em  1827  deu-lbe  Kmilio  Plancher 
o  titulo  de  Jornal  do  Comm&rcio^  cuja  empreza  foi  prospe- 
rando conseculivaraente*  Em  1833  era  augmenlado  o  for- 
mato da  folha,  cinco  annos  depois  recebia  novo  augraenlo» 
e  assim  prugressivamenteí  e  d'esstí  modo  o  periódico  que  a 
principio  era  do  tamanho  de  uma  folíia  de  papel  almaço  de 
marca  vulgar  com  duas  coiumnas  <le  impressão  consta  hoje 
áé  oito  columnas  em  cada  pagina,  lendo,  quanJo  aberto, 
inais  de  uma  vara  de  largura.  E*  o  joroal  mais  lido  do  impé- 
rio, possuo  quasi  treze  mil  assignantes,  e  nao  sò  em  for- 
mado como  em  variedade  e  interesse  das  matérias  contidas 
tjm  trinta  e  tlua^  coluranas  de  duzentas  e  cincoenta  seis  a 
tlu2^!ntas  e  sessenta  linhas  cada  uma,  senão  em  correcção  e 
nitidez  do  impressão,  pôde  competir  com  os  mais  acredita- 
dos jornaes  da  França  e  Inglaterra,  Imprime-se  na  typo- 
graphia  imperial  e  cijn>litucional  de  Villenenve  e  Comp*,  i 
rua  do  Ouvidor  n.  65, 

Em  1823,  além  dos  periódicos  que  já  pxisliam,  como  o 
DesperUdor  Constitucional ^  ú  Speçtador  BrnnMro^  o  Diá- 
rio do  Rio  de  Jan&irOf  O  Diariõ  do  Cofnrmrcio^  o  Semanário 
Mm*canlU  e  a  Malagueta,  appareceram  o  Grilo  da  Nação  6 
o  Diário  Mercantil  íle  18â5  a  18â7- 

Pôde  acontecer  que,  mencionando  os  periódicos  de  cada 
anno,  haja  id<^uma  lacuna  da  nrjssa  parte,  pois  nao  e\islÍndo 
relação  completa  d^elles  facil  é  comprehender  o  engano,  a 
confusão  em  que  póile  cahir  quem  pida  primeira  sez 
empreUendeu  este  trabalbo. 

Havia  em  1826  os  periódicos  seguintes:  — Verdatleiro  Li- 
beral—  A  tala i a  da  Liberdade  —* Sello  Hminetico  —  Unimr  - 
sid  de  1826  a  1841  —  Otário  da  Cornara  dos  Deputados  d$ 


18*26  a  1841  —  Spectador  Brarileiro  —  Diário  do  Hio  de 
Janeiro — Diário  Fl/uminense — Malagueta'^  Asíréa. 

Viveu  a  Aslréa  até  1832,  e  grande  influencia  exerceu 
sobre  a  politica  da  <' pecha. 

A  Malagueta,  que  também  teve  grande  aceitação  foi  pu- 
blicada até  1829 ;  redigiram  estes  periódicos  os  deputados 
António  José  do  Am  irai,  José  Joaquim  Vieira  Souto  e  Luiz 
Augusto  Mayer. 

Contavam-S()  em  1827  cinco  typographías :  a  imprensa 
nacional,  a  de  Plancher,  do  Diário,  do  Mercantil,  da  Àe- 
iréa  e  a  de  Torres. 

Em  21  de  Dezembro  sahiu  da  typograpbia  do  Diário, 
sob  a  redacçã<  de  três  brasileiros,  a  Aurora  Flumineneef 
que  nos  primeiros  m:3zcs  de  sua  creaçao  foi  um  jornal  scien- 
tifico-litterariu,  ainda  que  por  sua  independência  a  respeito 
dos  partidos  existentes,  fosse  considerado  como  adverso 
por  todos.  Antes  de  findar  o  anno  de  1828  tomou  a  Aurora^ 
sob  a  redacção  de  tvaristo  Ferreira  da  Veiga,  um  caracter 
positivo  e  terminante  Tnzendo  opposiçao  ao  governo;  e 
pelas  doulrin;  s  liberaes  professadas  pelo  seu  redaclor  com 
moderação  e  bom  senso  polilico,  o  quefczdar  ao  parlido 
de  que  era  orgâo  a  denominação  de  moderado,  mereceu 
este  periódico  a  aceitação  publica.  Em  vez  de  divagações 
indiscretas  e  insulsas,que  pejavam  as  paginas  dos  periódicos 
da  épocha,  iia-se  n'aquelle  jornal  uma  linguagem  expressiva 
porrm  comedida,  uma  ironia  frisanli?,  porém  branda,  pre- 
cisão e  lluidez  no  estylo,  belleza  e  riqueza  du  idéas  ;  trazia 
como  estribilho  a  seguinte  quadra  composta  pelo  Sr. 
D.  Pedro  I : 

Pelo  Brasil  dar  a  vida, 
Manter  a  constituição, 
Sustentar  a  independência, 
E*  a  nossa  obrigação. 


-  i«n  — 


obteve  Evaristo  grande  influencia  cora  a  publicação  de 
seu  perioilico,  que  lambem  grangeou-the  inimi}í»»s,  ten- 
tamlo  estes  a^^assiníil-o  na  noile  rie  8  de  Novt^mhro  de 
483á»  estando  em  casa  do  seu  irmão  com  alguns  Simigos  i 
mas  o  liro  de  pistola  apenas  feriu  o  publicista  no  rosto- 
Pouco  ante*  outro  hábil  escripior,  o  redactor  da  Malagjieta^ 
soffrêra  um  insulto  na  rua  do  Cirmo,  esquina  da  da  Assem- 
bléa. 

Não  devem  sorprender  esles  factos ;  em  um  paiz  novo» 
pouco  illusLrado,  comprehende-se  a  influencia  que  deviam 
exercer  as  folhas  periódica!^,  que  ódios  não  despt^rLariam 
usando I  quasi  todas,  de  linguagem  exaltada,  violenta,  ex- 
citando o  enthusiasmo  dos  parUíl<fS,  e  esforçando  se  por 
defender  as  facções  de  que  caila  uma  era  órgão. 

Cessou  Evaristo,  em  Dezembro  de  183  ,  cora  a  publica- 
ção ria  Aurora^  e  guardou  siit^nciu  ua  imprensa  e  na  camará, 
onde  segunda  vez  o  coUocaram  ns  votos  da  província  de 
Minas.  Estaria  exhausLo  de  forças  o  fílbo  da  tm;*rLUisa,  o 
representante  da  política,  ou  tão  negro  se  moslravao  fultiro 
do  pãiz  que  o  atleta  recuava  !  Nâo  certamente;  síu  p^ilrio- 
tismo  era  igual  ao  seu  tdento,  que  muilu  era;  porém  de 
verdade  era  grave  a  situação  do  pjiz,  principalmente  para 
elle  que  ou  linha  de  guerrear  seu  antigo  companheiro  o 
regente  Feijòj  ou  desprezar  os  destinos  da  pátria;  e  n*essa 
luta^ito  dever  e  da  amizade,  da  razão  c  do  cora-lo,  Eva- 
rislo!>uccumbiu:  em  1-2  de  Maio  de  1837  falleceu  o  illustre 
pubIJcislaf  iisendo  sepultado  na  igreja  du  S.  Franciseo  de 
Paula, 

Em  1827^  om  que  se  crearam  as  duas  academiaft  de  scien^ 
cias  juridicas  e  sociaes  que  possue  o  império,  existinm  os 
periódicos  s*^guinles  :  Espelha  DiamantinQ--}nfíepende7iÍ€ 
—  VEcko  de  UÁmérique  —  Malagueta  —  Áslréa  —  Luz 
Brasileira  —  Diário  Fluminmise —  Jornal  do  Commerdo 

TOMO  XXI f*  F.  M.  2S 


—  Wi    — 

-^Analysta — Awrota  Fluminense  ^^CouMer  du  Br^Êêíl^ 
Diário  do  Rio. 

Imprimiu-se  D'esle  anno  a  memoria  de  José  da  '^ilya 
Lisboa,  que  tem  por  tilulo :  Leituras  de  economia  pnlilica. 

Os  periódicos  do  anno  sejíulnle  eram :  Malagueta  — 
As^éa  —  Luz  Brasileira  —  Aurora  Fluminense  —  Diário 
Fluminense— Jornal  do  Commercio  —  Analysta  —  Honra 
do  Brasil —  Censor  Brasileiro  —  Atalaia  —  Revista  Sema'^ 
naria  —  Courrier  du  Brésil  —  Diário  do  Rio. 

Appareceu  a  memoria  de  José  da  Silva  Lisboa  intitulada : 
— Causa  da  religião  e  disciplina  ecclesiastica  do  cdibaitf 
clerical. 

Havia  em  1829  sete  typograpliias,  e,  além  dos  periódicos 
que  existiam,  appareceram  os  seguintes  :  —  Correio  —  Voz 
Fluminense — Amigo  do  Povo^Nova  Luz  Brasileira. 

Sahiu  dos  prelos  a  memoria  de  José  da  Silva  Lisboa  que 
tem  por  titulo  :  Historia  dos  principaes  successos  polUicos 
do  Brasil. 

Chegamos  a  uma  épocha  de  exattaçâo,de  agitação  politica; 
os  partidos  lutam  na  imprensa,  e  ó  vohemente  e  imprópria 
a  linguagem  de  que  se  servem  ;  muitos  periódicos  Iransfor- 
mam-se  em  pasquins  ;  não  ba  resguardo  noslermos  ;  os 
nomes  apparecem  estendidamente;  as  baldas  publicas  e  se- 
cretas, os  defeitos  involuntários,  os  do  corpo  e  os  de  gera- 
ção tudo  fica  patente. 

Na  falia  com  que  o  Sr.  D.  Pedro  I  abriu  a  primeira  ses- 
são da  segunda  legislatura  do  império,  em  3  de  Maio  de 
1830,  lêm-se  e^as  palavras : 

«  Vigilante  e  empenhado  em  manter  a  boa  ordem,  è  ào 
meu  mais  rigoroso  dever  lembrar -vos  a  necessidade  de  re- 
primir por  meios  legaes  o  abuso  que  contínua  a  fazer-se  da 
liberdade  da  imprensa  em  todo  o  império.  Senelhaota 


—  i95  - 

abuso  ameaça  grandes  males ;  a  assembléa  cumpre  &f  i- 
lal-os,  » 

Produziram  estas  palavras  do  imperador  discussão  no 
senado,  tomando  parle  nella  os  senadores  Alves  Branco» 
Vergueiro  e  outros. 

Armitage,  explicando  o  excesso  da  imprensa  diz ;  <a  Os 
jòrnaes  miiiisteriaes  eram  pelo  menos  tão  reprehensiveis 
como  os  seus  antagonistas ;  costumavam  advogar  nâo  0Ò 
doutrinas  contrarias  ao  sentido  da  conslitui^o,  como  lan- 
i^fir  gros  ciros  e  rcpe tidos  insultos  a  quasi  todos  os  raem- 
eiros  daopposiçào. 

Diversas  causas  explicam  o  deícomediraento  da  imprensa 
d^easa  épochaj  era  o  governo  considerado  regres^sla,  estava 
sem  prestigio;  irritado  contra  os  inãulll^s  da  opposíção, 
mostrava* se  viotenlo  na  imprensa ;  em  vez  de  appMcar  com 
sabedoria  e  tino  a  imprensa  para  dirigir  a  opinião  putdica 
e  promover  o  adiantamento  intellectual  do  povo,  servia-se 
d*ella  pura  ferir  os  seus  contrários  e  perdèl-os  no  conceito 
publico.  Julgando  compromnttidos  os  principios  demo- 
cralicfjs,  e  corrompido  o  governo,  se  exaltava  a  oppo* 
sição,  e  iudo  isso  explica  aapparição  d'esses  periódicos 
yehemente%  iu^ulluos  s  lembramio  re|tresalias,  excitando 
o  patriotismo  e  tratando  de  augmentar  o  ardor,  a  lula  dos 
partidos»  luta  que  mui  breve  devia  trazer  grande  mudancâ 
à  politica  do  paiz. 

Eis  os  periíídicos  que  nasceram  em  IS30 :  —  Sagi- 
tário —  Tribuno  do  Povo — Pertlampo  Popular  — Cam- 
peão Brasileiro — Observador  das  Galerias  da  ÁssmnbUa 
Geral— Hepabiko  —  Verdadeiro  Patriota  —  Bras^ileiro  Im- 
parcial— Estpetho  da  Justiça, 

Publicou-se  n'este  anno  a  seguinte  lei,  que  extinguiu  a 
junta  directora  da  typograpbia  nacional : 


—  i96  - 

«  D.  Pedro»  por  graça  de  Deas  e  unanime  acclamação  dos 
povos,  ele. 

Art.  i.**  Fica  extincla  a  junta  da  direcção  da  typograpbia 
nacional,  creada  pelo  decreto  de  13  de  Maio  de  1808  e  ins- 
trucções  de  24  de  Junho  do  mesmo  anno  e  17  de  Feve- 
reiro  do  1816. 

«  Ârt.  2/  A  typographia  nacional  será  administrada  por 
um  director,  que  vencerá  o  ordenado  annual  de  80OJO00 
e  mais  uma  gratificação  de  5  ""lo  do  rendimento  liquido  da 
oíQcina,  a  qual  cessará  não  sendo  annualmente  decreta- 
da, s  >gundo  os  mteresses  do  estabelecimento;  por  um  ad- 
ministrador que  terá  asi^u  cargo  a  guarda  e  asseio  do  esta- 
belecimento e  o  pagamento  dos  operários,  e  vencerá  o  cr- 
denido  de  7503^)00,  e  por  um  guarda-1  vros  que  fará  toda 
aescripturaçio  necessária  e  vencerá  o  ordenado  de  6«K)S. 

«  Art.  S.*"  Os  empregados  de  que  trata  o  artigo  antece- 
dente si^o  do  commissâo,  e  o  director  ficará  n-sponsavel 
pelos  erros  de  typographia  que  apparecerem  nas  leis  que 
imprimirem,  fazendo-se  a  reimpressão  á  sua  custa. 

«  Art.  4.^*  As  pessoas  que  se  occuparem  no  trabalho  da 
typogriíphia  nacional  ou  no  das  particulares  ficam  isentas 
de  todo  serviço  militar. 

a  Art.  3.°  Os  impressos  da  typographia  nacional  não  se 
darão  graliiilamente  a  pi^ssoi  alguma.  Excepluam-se:  !•,  os 
que  pertencerem  ás  camarás  legislativas,  os  quaes  serão 
remellidos  a  cada  uma  de  suas  secretari.is;  2%  os  que  deve- 
rem reparti r-sc  |)elas  estações  e  auctoridadcs  publicas,  que 
serão  remetlidos  á  secretaria  de  Lstado  a  que  competir  a 
sua  distribuição ;  3%  os  que  deverem,  na  conformidade  da 
lei,  enviar-se  ao  promotor  do  jury. 

a  Art.  6.^  Ficam  revogadas  todas  as  leis,  alvarás,  decretos 
e  mais  disposições  em  contrario.  Mandamos,  portanto,  a 
todas  as  auctoridadcs,  a  quem  o  conhecimento  e  execução  da 


—  197    — 


referida  lei  pertencer,  que  a  cumpram  e  fâçam  cumprir  e 

guardar  Ião  iDleiramente  como  n' tília  se  coatém.  O  secre- 
tarin  dtí  Eslatlo  dus  negócios  da  fazenda  a  faça  imprimir, 
publicar  tj  correr,  Dadi  no  palácio  do  Rio  de  Janeiro,  em  8 
de  Dtzembro  de  1830,  9"  da  independência  e  do  império. 
Imperadi>r,  com  rubrica  e  guarda.— .í  ntonio  Francvíca  do 
PaiUu  ds  Hoilaada  Cavalcanti  íle  Albuquerqm,  » 

O  primeiro  director  da  ty|iograpliia  nacional  foi  o  có- 
nego Januário  da  Cunha  Barbosa,  e  o  segundo  o  Dr.  Fran- 
cisco Clirispiniano  Valdelaro- 

k  exiítaç^o  dairapreiísanaoârreffiCíUp  arjtes  augmentou 
em  I83K  A  noticia  da  revolução  franceza  de  1830  exa- 
cerbara os  ânimos,  que  mais  cxaUados  se  mostraram  depois 
dos  acontecimentos  de  7  de  Abril  de  1831  ;  lornou-seo 
estylo  da  imprensa  periódica  íusuUuoso  edeshonesto;  a 
critica  ferina  e  a  salyra  mordente  nada  respeitavam,  nem 
o  nascimento,  nem  a  posição,  nem  a  jerarcliia,  nem  a  mo- 
déstia, nem  a  virtude;  o  joru^lismo  aberrou  da  soa  instí' 
tuiçio^  esqueceu  seus  deveres,  e  transformou-se  em  pe- 
lourinho^  onde  se  expunha  â  zombaria  ila  tnuilídão  a  repu- 
tação %  a  vila  pariicuian^s,  o  que  havia  de  mais  serio  e  gra- 
fe ;  a  honra,  o  pundonor,  a  dignidade,  o  mérito,  tudo  foi 
Sacrificado  ao  furor,  ao  desespero  dos  partidos  poli  ticos. 
Appareceram  n'Dqaí^na  é[í0cha  us  periódicos  seguinies : 
— Seíe  de  Abril — Brasileiro  Offcndidú — Americano — Brasi- 
Í6tro  Vigiianis-^tarim  da  Litíerãade ^Espelho  da  Jvstíça 
'^Independenle^Jurujuba  dos  Farroiipílhas-  Lycéo  Libe- 
ral-^Moderadõr-^  Filho  da  Terra  ^Eíípdka  dos  Brasileiros 
—Regmherador  do  Brasil^  fíccopilador — Dois  Compadres 
Hheram-^DouiÁor  Tira-teinms — Novo  Brasilmro  Imparcial 
— NoríQ  Conciliador — Novo  Censor — Cúrias  ao  Povo — Nar- 
çisú  -  Filho  do  Simplício^Bussola  da  Liberdade— Medico 
dm  Malucos — Simplicio  RifforisUi — Simplioio^Semafyxrio 


—  188  — 

Politico — Buscapé —  Voz  da  Liberdade^  VdhoCasamerUeiro 
— Patriota  Brasileiro — Enfermeiro  dos  DoípIos  Defensor 
da  Liberdade  —  Mensageiro  — 'Constitucional — Regente  — 
Verdadeira  Mãi  do  Simplício — Voz  da  Razão^Veterano — 
Exaltado --iV atraca  dos  Farroupilhas  —  Correio  da  Con 
mara  dos  Deputados — Voz  Fluminense^O  Grito  da  Pátria 
contra  os  Anarchistas — O  Homem  e  a  America. 

O  Simplicioy  jornal  critico-liIlíTario,  teve  muita  aceita- 
ção do  publico ;  foi  publicado  o  primeiro  numero  em  8  de 
Janeiro  de  1831  na  lypographia  da  i4«/r^;  trazia  como 
epigraphe  o  seguinte  estribilho:  a  Nem  um  camarãosínho 
escapará  pelas  malhas  da  minha  rede.  »  Procuraram  muitos 
periódicos,  em  épochas  diversas,  imitar  o  estyio  faceto  d*a- 
quclle  avulso,  eaté  tomaram-lhe  o  nome,  denominando-se: 
O  Simplício  Velho  ^  O  Simplício  da  Roça^  O  Simplício  An- 
tigo, O  Simplicio  Rigorista,  A  Verdadeira  Mãi  do  Simpli- 
cio,  o  Filho  do  SimpliciOf  O  Novo  Simplicio  Poeta  e  A 
Mulher  do  Simplicio. 

A  academia  de  medicina,  fundada  em  30  de  Junho  de 
1829,  com  o  litulo  de  sociedade  de  medicina,  começou,  em 
3  d(^  Janeiro  de  1831,  a  publicação  do  Semaiiario  de  Saudai 
Publica,  que  appareceu  ale  ITi  d»»  Junho  de  1833.  No  mez 
de  Abrilde  183o  conlinu  ni  a  academia  com  o  s»'U  periódico, 
que  rcccbí^u  o  liiulo  d  •  Revista  Medica  Fluminense  ;  porém 
em  Maio  de  1841  lomou  esse  jornal,  sob  a  redacção  <Io  Dr. 
Emilio  Joaquim  da  Silva  Maia,  a  denominação  de  Revista 
Medica  Brasileira,  e  assim  continuou  até  Junho  de  1843, 
épocha  em  que,  redigido  pelo  Dr.  Francisco  de  Paula  (ban- 
dido, teve  o  titulo  di'  Annaes  dr  Medicina  Brasiliense,  e  por 
fim  o  de  Annaes  Brasiliemes  de  Medicina,  que  ainda  hoje 
conserva. 

Foi  transferida  em  1831  para  algumas  salas  do  palácio 
da  academia  das  bellas-artes  a  lypographia  nacional»  e  alli 


—  mi  — 


permaneceu  ale  23  de  Abril  de  i836,  o  que  foi  prejadicial 
à  academia  das  ht/llas-arles  e  à  lypographia;  àítcademia 
porque,  uccupãdas  as  salas  Cõm  ns  prelos  e  as  caixas  dos 
compositores»  nâo  puderam  as  aulas  fuaccionar  livremeDle, 
ú  liverara  os  pintores  de  interromper  seus  lrabalht>s;  e  à 
lypograpliia  porque,  collocados  em  salas  estreitas  os  uten- 
sílios da  imprensa,  difficd  se  tornara  o  trabalho,  e  os  lypos,  . 
papeis  e  impressos  ãcaranicoíifundidas  e  alguns  inutilisa- 
dos,  E  nao  foram  os  pintores  e  compositores  os  únicos 
artistas  que  sotTrerara  n*essa  épocha  agitada  e  turbulenta 
por  que  passava  o  paiz ;  todos  os  músicos  da  capullii  impe- 
rial foram  despedidos. 

Diversas  vt  zes  visitou  o  Sn  D.  Pedro  I  a  typographia 
nacional ;  compareceu  n*este  estabeleci  mento  [lara  man- 
dar iiiiprimir  o  reconhecimento  da  independência  do  Bra- 
sil pelo  rei  D,  João  VI,  e  em  íutra  occasião  para  ordenar  ;i 
pulílicição  da  carta  constitucional,  que  concedera  â  nação 
portugueza»  exigindo  o  imperador  que  fosse  feito  o  traba^ 
lho  typographico  s^b  rígoru  o  sigillo* 

Havia  na  corte  em  léSá  oito  typographias,  e  nasceram 
H^esieanno  os  periódicos:  Verdade  — Cegarrega — Trom- 
beki  dúB  FarroupiihtísSimpiicio  da  Baça — i*iloio — Fcr* 
rabrthz  —  Pairíõía  Bros t UirQ^Luzeiro  Fl u m inmise — Bm- 
sAeiro-^Bepiiblicano  de  SômprQviva — Echo  da  Crmara 
dos  Deputados — Mutuat — Gnto  da  Pátria — Republicano — 
Conciliador  Flumimme^^Ofneta—^SenUndla  da  LibcT" 
dads, 

Corríra  agitada  a  sessão  legislativa  do  anuo  de  Í81í3,nlo 
sò  pela  iliscussão  do  projecto  das  ref{>rmas  da  constituição » 
senão  pela  do  projecto  do  banimento  do  ei-imperadur, 
apresentado  no  dia  28  de  Jutibo.  Enviando  o  governo  uma 
mensagem  à  camará  dos  deputados  deouticiaEdii  vastoi 
planos  de  uma  supposta  restauração,  começou  o  partido 


—    ilKi    - 


dominante  a  praticar  ej&cpssos  contra  os  que  denominava 
reslaur  idores ;  tudo  isso  agitara  ns  ânimos  e  prpparàra  as 
scenas  de, turbulência  e  anarclna  que  após  se  seguiram.  Em 
â  de^ Dezembro  percorre  o  povo  as  ru.is,  pratica  atlenladus, 
e,  dirigindo-so  á  praça  de  S  Francisco  ài*  Paula,  despe- 
daça a  illuminaçâo  que  resplandecia  na  frente  da  casa  da 
sociedade  mililar  6SUbi!lecídii  no  preflio  de  dois  and  ires 
d'aquellâ  praça,  occupadu  acto^Imenle  pelo  Insliluto  Ar- 
tislico.  •% 

PubUcandu  a  sociedade  milHar,  no  dia  5,  um  annuncio,'^ 
era  que  declarava  que  ia  reuni r-sn  para  objecto  de  niuila 
» cousideraçãOt  começaram  a  propalar-se  diversos  boatos, 
appareceram  editaes excitando  o  povo, que,  reunindo  seno 
largo  de  S*  Francisco  de  Paula,  invadiu  a  casa  d'queila  so- 
ciedade»  atirou  os  moveis  à  rua  e  praticou  outros  exci*ssos; 
levado  «le  furor  de  momento,  illndindo  a  vigilância  dos  jui- 
zes de  paz,  flirigiu-se  às  lypogrnphias  do  Diarto  da  RiO  e 
Paraguassú^  a  primeira  âila  na  ru-í  da  Ajuda  e  a  seguíida  na 
do  Senhor  dos  Passos,  c,  arrombando  as  portas  e  janellas, 
invadiu  aquellts  estabelecimentos,  quebrou  os  prelos,  mo* 
veis  e  uten-ilios  typographicos,  espalhando  i>  lypn  pela  ma 
e  desíruindoos  irapressíjs.  Outros  excessos  for;ira  pratica- 
dos n'essa  noite,  o  que  obrigou  o  governo  a  reunir  se  im- 
mediatamente,  recommenttando  a  seguninça  da  cidade  aos 
Juizes  de  paz;  e  a  publicar  no  dia  seguinte  uma  procla- 
mação pedindo  ao  povq  moderação  e  confiança  na  adminis* 
tração  do  paiz. 

O  desacato  que  soíTreu  a  typogrnphiadoDtflrtôobrigoti-a 
a  suspender  o  periódico  por  alguus  dias,  e  só  reappareceu 
no  dia  i2  em  mela  follta  de  impressão. 

Eis  a  iistí  dos  perioilicos  que  siliiram  dos  préb'S  n^aquelle 
a n  n o :  -  Sei e  dfí  Setêt n bro  ~  B urro  M agro  —  Brás i  leiro  Pa  rd^^ 
^BrasU  Afflicío — Limão  ds  Chmro — Bahosa —  Mca^mata— 


—  áQl    — 

Hospital  Fluminense — Arca  de  Noé^Jiemtevi — Formiga — 
Nacional — Restaurador — Mineiro  no  Rio  de  Janeiro --Mili'' 
t  r — Mestre  José — Loja  de  Belchior — Liberdade  Legal— Meia 
Cara  —Caolho  —Carioci-- Inferno — Idade  de  Pdo-— Homem 
de  Côr-^Guarda  JSaciomd —  Grito  dos  Opprimidos— Cabrito 
—  Cidadà€  Soldado  —  Andradista — Adoptivo — Esbarra — 
Papeleta  —  Verdad£Íro  Caramurú —  Torre  deBabel—Rus- 
guentinho-^  Obras  de  Santa  Engracia—Par  de  Tetas — Pa- 
qíAete  de  Portugal  —  Tamoyo  Constitucional — Iman — Torto 
da  Artilhma — Pedro  II , 

A  Socieda^lo  Auxiliadora  da  Industria  Nacional,  fundada 
«m  18á4,  começou  em  1833  a  publicação  mensal  da  sua 
revista  inlilulada:  Auxiliador  da  Industria  Nacional  oucol- 
lecçào  de  memorias  c  noticias  interessantes  aos  fazendeiros^ 
artistas  e  classes  industriosas  do  Brasil,  Em  Junho  de  1846 
appareceu  a  revista  forinimdo  uma  nova  serie  sob  o  titulo 
de  Auxiliador  da  Industria  Nacional^  e,  não  tendo  até  hoje 
interrompido  a  sua  publicação,  bons  serviços  tem  prestado 
à  industria  do  paiz. 

Le-se  na  lei  de  3  de  Outubro  de  1834  o  seguinte  arligo  : 

u  Fica  supprimido  o  emprego  de  director  da  typographia 

nacional,  passando  suas  .(Itribuições  para  o  administrador 

da  mesma  typographia,  o  qual  lerá  de  ordenado  800?í000  e 

4005!O00  de  gralilicação,  sem  ouUo  vencimento. 

Era  então  administrador  da  typographia  o  Sr.  Braz  Antó- 
nio Castriolo,  que  entrara  para  a  imprensa  régia  como 
aprendiz  cm  23  de  Abril  de  I8H   (*). 

Sahiram  á  luz  cm  1834  os  periódicos  :  —Mutuca  Picante 

(*)  o  Sr.  Gaslrioto  exerceu  a  arte  de  compositor  até  26  de  Setembro 
de  1816;ucnu[)on  successivamente  os  lugares  de  escrevente,apontador  e 
pagador,  i>cndo  nomeauo  administrador  em  27  de  Outubro  de  1823,  (^ 
cm  2  de  Dezembro  de  1828  obteve  o  habito  de  Christo  por  serviços  pres- 
tados na